sábado, 13 de outubro de 2012

Gilberto Mendes completa 90 anos


Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: internet


No dia que o maestro santista Gilberto Mendes completa 90 anos repletos de música, resgatei dos arquivos essa matéria feita por mim pra um jornal de Santos.
Nessa época, ainda acreditava no jornalismo cultural e, entre uma matéria medíocre aqui e um jabá ali, impostos pelo editor, conseguia emplacar uma pauta legal com o argumento de sempre: “Pô bicho, isso dá status ao jornal”. Ele geralmente caia. Essa matéria foi uma delas. 
Uma de algumas passagens minhas com o maestro, pessoa cordial e de mente aberta. Sempre disposto a alfinetar a politicagem que assolou a cultura santista por 16 anos e que, espero, termine esse ano. 
Gilberto Mendes foi o inventor do Festival Música Nova, há mais de 40 anos, que só deixou de acontecer por um par de anos na época da ditadura militar. E, ultimamente, fugiu de Santos por causa da tal politicagem. 
A matéria, na verdade uma forma de fazer alguma coisa diferente com o maestro que devia estar cansado de responder as mesmas perguntas dos repórteres, quando não piegas, pegajosos. Foi publicada em um domingo, 07 de agosto de 2005.
A dinâmica da brincadeira era a seguinte. Eu colocava o CD pra tocar e deixava alguns minutos. Então ele falava o que achava e só aí eu mostrava quem era. Daí ele emendava sua opinião.
Procurei ser o mais eclético possível levando alguns lançamentos da época, algumas coisas clássicas e, claro, coisas de meu gosto pessoal. Foi uma tarde agradável ouvindo música com essa lenda da música. Segue o material.




Domingo, 07 de agosto de 2005
O maestro Gilberto Mendes não precisa mais viver passando o chapéu entre o poder público e empresas privadas em busca de patrocínio para o Festival Música Nova.
Agora, ele passa os dias fazendo o que mais gosta: compomdo e indo ao cinema – a sua outra grande paixão.
Após quatro décadas lutando para viabilizar o evento de música erudita, muitas vezes tendo que sacar dinheiro do próprio bolso, ele vê o evento caminhar sozinho e ganhar o devido reconhecimento.
Satisfeito com os rumos do Música Nova, ele lembra que o festival atingiu plenamente seu objetivo.
Mendes relata que nunca teve a pretensão de ganhar dinheiro com o festival. “A finalidade sempre foi mostrar ao Brasil a nova música contemporânea e de vanguarda que estava sendo feita na Europa, formar e informar os músicos, e promover o intercâmbio entre eles”, explica.
Agora, atuando apenas como consultor artístico do festival, sobra tempo até para ouvir coisas que um repórter lhe traz, artistas e estilos pouco familiares para ele.
Após inicial reticência, Gilberto Mendes ouviu, acabou gostando da brincadeira (colocar uma música para tocar e revelar ao maestro qual era o artista) e manifestou a suas impressões.

Veja também http://mannishblog.blogspot.com.br/2009/10/publicada-mais-nova-composicao-de.html




Cabra cega com Gilberto Mendes

1 - Frank ZappaOutrage at Valdez/ The Girl in the Magnesium Dress, do CD Yellow Shark
GM – Não conheço, mas é interessante. Tem um clima Villa-Lobos, o jeito como ele mistura as coisas. Parece também a Nova Musica alemã. Ah é o Zappa! Ele assimilou bem essa linguagem. Eu freqüentei o mesmo curso que ele, com o Pierre Boulez.

2 - Billie HolidayGod Bless the Child, do CD The Best Of (da Columbia).
GM – Tá parecendo aquela cantora de jazz americana, a Billie Holiday. Eu gosto muito, ela é extraordinária. Aliás, a música americana do século 20 é muito rica. O jazz tem uma proximidade muito grande com a música clássica. É a grande música erudita dos americanos.

3 – João GilbertoPra que Discutir com Madame, do CD Live at Montreux Jazz Festival.
GM – É o João Gilberto? É coisa antiga dele? Está meio chato, já foi melhor. Ah, no festival de Montreux tudo é jazz. Qualquer dia o Chitãozinho Xororó também vão tocar lá...

4 – Paco de LuciaAdágio, do CD Concierto de Aranjuez.
GM – (Ele conhece na hora e solfeja o começo: Lá-ra-láaa). Conheci o compositor, Joaquim Rodrigo, em um festival em Madrid, onde estava sendo executada uma música minha. Ele já estava cego. Inclusive, esse Adágio foi executado em sua homenagem.

5 – Fernanda PortoDe Costas Pro Mundo, do CD Fernanda Porto.
GM – Não conheço esse pessoal novo da música popular. O ritmo é bom, me agrada. A voz dela também é bonita. É meio jazz com ritmo brasileiro. A bossa nova deu muito nome ao Brasil. Eu estive recentemente na Rússia e em São Petersburgo e um dos artistas mais tocados é o João Gilberto. Em Moscou toca-se muito o Tom Jobim, que por eles é colocado no mesmo nível de um Cole Porter ou George Gershwin.

6 – Buddy GuyHard Times Killing Flor, do CD Blues Singer.
GM – Isso é um blusão. Eu compus um blues erudito para um músico holandês que tocou em diversos países, na China, Japão e até em Kosovo. Eu gosto de blues, mas não sou maníaco.

7 – LenineTuaregue Nagô, do CD In Cité.
GM - (silêncio). Dessa batida eu gosto (ao saber que era o Lenine), Conheço de nome. Mas, como disse, eu não vou atrás de artistas novos.

8 – BeatlesIf I Need Someone, do CD Rubber Soul.
GM - Eu fui apresentado ao Beatles pelo meu filho de dez anos, que comprou na época o compacto de I Wanna Hold Your Hand. É uma das melhores épocas da música popular. As guitarras eram instrumentos de caminhoneiros americanos e os timbres que eles tiravam desses instrumentos horrorosos eram impressionantes. O Paul McCartney é responsável por todas aquelas harmonias.

9 – Chico BuarqueSinal Fechado, do CD Sinal Fechado.
GM – É o Chico Buarque. A despeito do antipático que ele é, é um grande compositor. Ele queria que a música brasileira voltasse às raízes e no começo da bossa nova ele era contra. Acabou se juntando ao pessoal e, por ironia, acabou virando o herdeiro da bossa nova.

10 – Van MorrisonThe Way Young Lovers Do, do CD Astral Weeks.
GM - Eu gusto de todos esse ritmos. Todos influências americanas.

11 – Paulinho da ViolaAlento, do CD Bebadosamba ao vivo.
GM – Esqueci o nome. É o Paulinho da Viola. Acho pobre melodicamente. Não tem uma marca. Essa gravação eu não conhecia, tem uma melodia mais rica, com piano, flauta.

12 – Wynton Marsalis East of the Sun, West of the Moon, do CD Standard Time Vol.2 Intimacy Calling.
GM – O pianista é bom. Parece o Oscar Peterson. O Wynton não aparece? Estou compondo uma música para trompete com o clima do Miles Davis, com aquela surdina Hammond que dava um tom sombrio.



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Cláudio Celso reúne banda de jovens virtuoses e apresenta seu PopFunkJazzFusionBrasil no Sesc Santos


Celso é acompanhado por André Willian (teclado), Marco Buru (violão), Elizeu Custódio (contrabaixo) e Anderson Willian (bateria). Produção: Mannish Blog.


Dos incontáveis guitarristas e músicos que existem hoje, muitos se inspiraram em seus heróis underground dos anos setenta.  
Nem sempre conhecidos pelo grande público, verdadeiros ícones secretos e referências para milhares de guitarristas, essas lendas encontram-se em extinção, a maioria já morreu, ou abandonou o palco para se tornarem produtores, professores, etc.
Existe um ''avis rara'', um sobrevivente que nunca fez outra coisa a não ser compor constantemente e tocar guitarra profissionalmente desde 1972.
Seu nome é Claudio Celso, reverenciado pela crítica especializada do Brasil e dos EUA, onde viveu durante 31 anos, imortalizado pela enciclopédia dos músicos do Brasil, considerado entre os 100 melhores do mundo pela respeitada revista Guitar Player, e ídolo de jovens guitarristas que frequentam suas oficinas. 
Claudio leva 40 anos de estrada na bagagem, tocando com os maiores nomes do jazz e conceituados artistas da música internacional, possuindo um currículo que impressiona a todos.
Durante sua permanência nos Estados Unidos em 2010, lançou dois CDs: “The Music of Claudio Celso” e “Surf Life”, e também formou parceria com o tecladista e arranjador brasileiro Eumir Deodato, liderando a banda “The Alpha Solaris Project”, que conta com músicos de renome mundial como o baterista Gerry Brown (Stanley Clark, Stevie Wonder, Diana Ross), percussionista Frank Colón (Manhattan Transfer, Aretha Franklin, Milton Nascimento), baixista Pepe Aparicio (Mongo Santamaria, Jimi Hendrix), tecladista Felix Gomez (Arturo Sandoval) e trumpetista Stuart King (K.C. and the Sunshine Band).
Seus CDs anteriores “Brazilian Jazz by Claudio Celso” e “Swell – A Brazilian Cool Jazz Experience” são executados nas rádios de jazz em todo o mundo, e, em dezembro de 2007, por ocasião do lançamento de “Swell ”, Claudio foi entrevistado no “Programa do Jô” com uma audiência de mais de 4 milhões de expectadores.  
Sua folha corrida inclui os festivais de jazz de Newport e Cool Jazz em Nova York, Monterey em San Francisco, Riverwalk em Fort Lauderdale, Hollywood, Naples, Jupiter e Fort Myers na Flórida, além de ter se apresentado em inúmeros concertos e festivais de jazz no Brasil.
Em Los Angeles, California, Claudio gravou com o pianista Guilherme Vergueiro o CD “The Music of Mike Stoller” com o famoso Mike Stoller, compositor de canções renomadas como “Stand By Me” e “Jail House Rock”. Também se apresentou no Art Flower Gallery, African Festival of Los Angeles, World Stage de Billy Higgins e no renomado bar de jazz “The Baked Potato”, com sua banda formada por Gerry Brown (Stanley Clark, Stevie Wonder, Diana Ross), Munyungo Jackson (Miles Davis, Stevie Wonder, Sting), Mark Stevens (Stanley Clark, Seal) e Keith Jones. Claudio também participou do famoso programa de world music “Global Village” na rádio KPFK, onde tocou algumas de suas composições ao vivo e concedeu extensa entrevista. 
Claudio Celso cria e produz vários jingles e trilhas, tais como Coca-Cola, Texaco, Amil, Bob’s, etc. Compôs o tema musical da cerimônia da abertura da ECO 92.
Realiza clínicas e workshops de guitarra e escreve artigos para a revista Guitar Player. Foi responsável pela oficina musical do Joinville Jazz Festival de 2005 e participou do 1º. Congresso da Música Instrumental realizado no Sesc Vila Mariana em São Paulo em 2003. Junto com o baterista Magrus Borges (Bebel Gilberto), Claudio ministrou vários workshops sobre música instrumental brasileira no circuito de bibliotecas públicas e museus de Miami, Flórida. Ministrou aulas e workshops no IGT e no CLAM.
também trabalhou com os produtores: Teo Macero, Creed Taylor and Roy Cicala em Nova York, participando dos discos:
Tocou com os melhores músicos de jazz do mundo, entre eles, Jaco Pastorius, Eddie Gomez, Randy Brecker, Chet Baker, Roberta Flack, Kenny Kirkland (Sting e “The Tonight Show”),  Jorge Dalto (George Benson),  Delmar Brown (Sting), Larry Willis (Blood, Sweat and Tears), Cecil McBee, Frank Colon (Manhattan Transfer), Naná Vasconcellos,  Bebel Gilberto, Marisa Monte, Ion Muniz, Guilherme Vergueiro, Edison Machado, Steve Slager, Lincoln Goines, Alex Blake, Philip Wilson, Guilherme Franco, Sergio Dias (Mutantes), Richie Morales (Spyro Gyra), Elza Soares, Manolo Badrena (Weather Report), Will Lee (David Letterman), Tim Capello (Tina Turner), Steve Thorton (Miles Davis), Pete Chavez, Payton Crossley, Ted Bass (Charlie Parker), Haroldo Mauro Júnior, Alfredo Cardin, Ed Palermo, Michael Formanek, Dennis Irwin (Art Blakey and the Jazz Messengers),  Wayne Dockery (John Coltrane), Portinho, Steve Kroon, Aloísio Aguiar,  Nico Assumpção, Zimbo Trio, Nelson Ayres, Raul de Souza, Steve Sachs, Tex Allen, Shunzo Ono, Terumasa Hino, Lester Chambers (Chambers Brothers), Calvin Hill, Buddy Williams, Paquito d’Rivera,  Clifford Adams (Cool and the Gang), Laudir de Oliveira (Chicago), Doum Romão (Sérgio Mendes and Brazil 66), Gerry Brown (Stanley Clark, Stevie Wonder),  Munyungo Jackson (Miles Davis, Stevie Wonder, Sting),  Mark Stevens (Stanley Clark, Seal).

Serviço
Show: Cláudio Celso Quinteto
Data: 26 de setembro
Horário: 19h00
Local: Comedoria
Grátis

Workshop: 
Data: 25 de setembro
Horário: 19h00
Local: auditório
Grátis

Produção: Mannish Blog
Confira entrevista exclusiva: 

Obs: o workshop é destinado a músicos, estudantes de música e interessados em geral, o guitarrista conversará com o público sobre sua carreira e demostrará técnicas aplicadas ao instrumento no auditório do Sesc. Para participar é só ligar na central de atendimento do Sesc. Tel: 3278-9800. Endereço: rua Conselheiro Ribas, 136.

sábado, 1 de setembro de 2012

Pagode é o caralho, meu nome é samba do morro


Ensaiei uma semana: “Quem falou que a boca é tua, neguinho?” e “Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno. E tu vai cair filho da puta”, para soltar quando encontrasse o Paulo Lins.
Por fim, o encontro se deu e eu nem percebi quem era. O cara à vontade, de chinelo e bermuda na porta da Estação do Valongo, em Santos. Fumando e bebendo uma cachacinha.
E eu que ia sacanear acabei sacaneado: “Opa Eugênio, tudo bem? Eu vim a Santos pra inaugurar uma escola de futebol”. Perae mermão, carioca não ensina santista a jogar bola. Pode ensinar a fazer samba, mas jogar bola não meu chapa? Lins caiu na gargalhada.
Fomos almoçar lá por conta da 4° Tarrafa Literária. Eu como produtor e Paulo como participante.
A voracidade com que atacamos a cachaça do local só foi superada pela vontade de falar: política, futebol e Desde que o Samba é Samba, seu recente trabalho.
Sou fã de Cidade de Deus, obra literária máxima escrita em 1997 que nasceu como estudo antropológico, mas que só ganhou visibilidade com o filme de 2002.
Esperei com ansiedade – ansiedade não, porque quem tem ansiedade não é homem sério – curiosidade é a palavra certa, Desde que o Samba é Samba que, segundo o autor, é mais histórico que Cidade de Deus, cujas informações foram tiradas dos jornais da época. O segundo envolveu um trabalho de pesquisa. Toda a bibliografia está no livro.
O primeiro foi escrito com base onde Lins cresceu, a favela Cidade de Deus. O segundo, onde nasceu, o berço do samba, o mítico Morro do Estácio, lugar de bambas. Nas palavras do autor: “O Estácio era o despontar do mundo novo. O Estácio é Macunaíma. Que naquela época vem dar em música, em rádio. Aquela vida sem internet. Esse mundo em que chegamos. Antes da cultura de massa. Antes da indústria do disco”.
Lugar onde toda movimentação do negro era proibida. Onde havia muita prostituição. Mas onde se formou toda a música brasileira. “Várias mulheres européias. A zona aumentou. A cultura foi a forma do negro se posicionar melhor dentro da sociedade. Já tinha se tentado inserir o negro no trabalho, mas a relação entre senhor e escravo continuava como patrão e empregado”. Brasil, formação torta.
Desde que o Samba é Samba mostra como a identidade negra despontou com o novo ritmo. Arma de resistência contra a discriminação racial. Contra a violência policial. Mas todos estavam se divertindo e fazendo a revolução ao mesmo tempo. Simultânea à semana de arte moderna de São Paulo. Mais sisuda. Porém, os paulistas Manoel Bandeira e Mario de Andrade andavam lá. “Tem uma impressão de festa, mas tem um trabalho por traz muito forte. Dentro dessa ficção é a arte e a religião. Isso não muda dentro da gente. São Jorge não vai substituir ogum. Oxalá não vai substituir Jesus Cristo”.
A discriminação abordada em Desde que o Samba é Samba continua de outras formas. Na própria ausência de afro-brasileiros na ficção que, apesar de ser a maioria da população, parecem invisíveis. Lins sustenta que nos anos 90, com o Rappa, Cidade Negra, Marcelo D2 e depois com os filmes Cidade de Deus, Dois Irmãos, houve uma manifestação dos negros na cultura popular. “Marcelo D2 Mano Brown gostam mais de Bezerra da Silva do que Chico Buarque. Porém, quem sofre mais na sociedade é a mulher negra e a índia, depois vem o homem negro. Essa população nordestina que mora na periferia dura, que mora longe, violenta tem buscado seu espaço na arte. O negro do Rio está consolidado dentro de uma tradição familiar. Há 400 anos. A tia, a avó, a sociedade. São Paulo não tem isso. Você morar em Capão Redondo, você está longe. Se você mora na Mangueira, você é reconhecido”.
Brancura era um malandro que existiu. Ismael Silva, Baiaco, Bide e seu irmão Rubem Barcelos também. Por causa desses caras temos uma identidade musical. O samba dos bambas. Do Rio de Janeiro que o resto do Brasil reverencia. Da pequena África, terra de tia Siata. “O samba nasceu com a umbanda e as mães de santo tinham influência política. Então, como as pessoas não sabiam o que era samba, capoeira e umbanda tudo acabava no terreiro”. Pagode é o caralho, meu nome é samba do morro.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O quarteto de Duke Robillard trouxe elegância ao Rio das Ostras Jazz e Blues de 2012


Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: Eugênio e Cezar Fernandes

Duke Robillard parece aquele tio que fica tomando goró na padaria falando sobre futebol com os aposentados. Só que ele nasceu nos Estados Unidos e com uma guitarra em punho. E tio Duke tem muita história pra contar. É guitarrista, bandleader, compositor, cantor, produtor, ganhador do prêmio Grammy e outros voltados exclusivamente ao blues.
Além disso, poucos podem dizer que sua lista de parcerias inclui Bob Dylan, Tom Waits, Jay McShann, The Fabulous Thunderbirds, John Hammond, Jimmy Witherspoon, Dr. John, Maria Muldaur e Roomful of Blues. Só para ficar nos mais famosos.
A guitarra do tio Duke é elegante. Suas cordas vibram fazendo com que as notas cheguem com leveza aos ouvidos. É de arrepiar. Mas quando quer, Duke rasga o couro com os dentes, como diria o Frejat.
Não bastasse tudo isso, Duke Robillard é uma enciclopédia de ritmos. Sua carreira mostra. Desde a fundação do grupo Roomful of Blues, em 1967, ou substituindo Jimmie Vaughan no Fabulous Thunderbirds, em 1990, sua carreira solo é recheada de discos de rockabilly, jazz, rock and roll e rhytmn and blues.
Em mais de 40 anos de carreira, gravou discos diferentes e arrebatadores: You Got Me, After Hours Swing Sessions, Dangerous Place, Strechin’ Out, Conversation in A Swing Guitar, Groove a rama são alguns.
Estive com Duke em Rio das Ostras esse ano. Encontrei-o sentado em uma cadeira de vime apanhando um sol e matando o tempo na beira da piscina do hotel onde imprensa e músicos se hospedam por conta do grande festival.
Tímido como sol daquele dia, Duke não é de falar muito. Pelo menos com estranhos. Depois de dois dias se cruzando pelo festival e que tive de ajudar o Jefferson Gonçalves proteger o órgão Hammond que estava apanhando uma chuva desgraçada no palco São Pedro durante o seu show (ver foto), Duke se mostrou um coroa bem legal. Como aqueles tios aposentados que ficam falando de futebol no bar da esquina.



Eugênio Martins Júnior – Quando foi a primeira vez que ouviu blues?
Duke Robillard – Provavelmente tinha dez anos de idade. Ouvi em um lado b do Chuck Berry, em um 45 rpm. Uma delas era Wee Wee Hours, um slow blues. Foi o primeiro blues de verdade que eu escutei. E eu amei aquilo.

EM – E quando a guitarra apareceu em sua vida?
DR – Desde cedo decidi que iria me tornar um guitarrista. Acho que com seis anos, mas meus pais não me deram uma guitarra. Aprendi a tocar sozinho em um instrumento que era do meu irmão. Vendo o seu jeito de tocar.

EM – Você tem um estilo muito elegante. Qual era a sua principal influência nessa época?
DR – Foi Hubert Sumlin, da banda de Howlin’ Wolf e Matt Guitar Murphy, da banda de Memphis Slim. E mais tarde todas as pessoas sofreram a influência de Muddy Waters, B.B. King e T Bone Walker.

EM – Roomful of Blues foi uma banda importante na cena blueseira. Fale sobre a fundação do grupo e seus anos na banda.
DR – Eu comecei na banda em 1967. A primeira formação era básica, guitarra, piano, bateria e harmônica às vezes. Concentrávamos no Chicago Blues. Alguns anos depois descobrimos o Rhytmn Blues dos anos 40 e nos apaixonamos. Então adcionamos os metais no começo dos anos 70. Fiquei na banda 12 anos, mas saí em 1979 para fazer carreira solo.


EM – Mais do que um músico, você é um estudioso dos ritmos norte americanos. Podemos dizer que foi essa versatilidade que o fez tocar com músicos tão diferentes como Bob Dylan, Tom Waits e Dr. John?
DR – Gosto de todas as variedades de blues, jazz, a origem do rock and roll e até as formas mais primitivas de country music. Todos os estilos de música são relativos ao blues. E todos eles me ajudam a construir o que eu faço.

EM – Como o Brasil, os Estados Unidos têm muitos ritmos e gênero musicais. Você conhece algum gênero musical brasileiro?
DR – Não conheço os ritmos populares do Brasil. Conheço o jazz dos anos 60, Jobim e pessoas como ele. Gostaria de aprender mais sobre isso. Estive por aqui três ou quatro vezes, mas nunca fui muito exposto. Toquei no Brasil em um festival e em alguns clubes. Em São Paulo toquei em um clube que parece New Orleans.

EM – Você vinha, tocava e ia embora?
DR – Toquei uma vez no Rio de Janeiro e eles não me deixavam sair do hotel porque diziam que era muito perigoso. E em São Paulo também.


EM – Mas nem é tanto assim, a ponto de não poder sair do hotel.
DR - Isso faz 15 ou 20 anos atrás, talvez naquela época as coisas eram piores. Gostaria de mencionar que estou produzindo um guitarrista de blues brasileiro pelo meu selo. Talvez até o final desse verão. Ele se chama Nuno Mindelis. Tenho sociedade em dois novos selos, um de jazz e outro de blues de raiz e vamos gravar o Nuno nesse selo de blues.

EM – Como surgiu essa parceria?
DR – Meu sócio já havia se envolvido com o Nuno em outras gravações e me convidou pra produzi-lo dessa vez.

EM – Você já conhecia o Nuno? O que achou de seu estilo?
DR – Sim, tenho alguns de seus CDs. Acho um ótimo guitarrista.

EM – Você tocou com Big Joe Turner que era um grande compositor. Ele escreveu Shake Rattle and Roll, Corrine Corrina, Honey Rush e outras. Na minha humilde opinião, ele nunca teve o reconhecimento merecido, talvez por ser muito velho, muito preto e muito grande. Você concorda?
DR – No tempo do rock and roll ele chegou tarde. Mas acho que as suas gravações foram populares. É claro que Bill Haley, por ser branco, ganhou mais atenção com Shake Rattle and Roll. Provavelmente também era muito mais jovem do que Joe Turner. Mas acho que ele teve o seu reconhecimento. As pessoas que tocam blues nos Estados Unidos não eram muito reconhecidas até B.B. King se tornar um dos maiores. Eles nunca tocaram para grandes audiências até alguns começarem a produzir hits e os guitarristas britânicos começarem aclamar caras como Buddy Guy e B.B. King. Isso fez toda a diferença em suas carreiras.

 

EM – Gosto de fazer essa pergunta para diferentes músicos de blues. Uma vez o Rod Piazza me disse que o blues é a música do banco de trás (back seat music). Você concorda?
DR – (risos) Acho que sim. Como no jazz, você não pode esperar ficar rico tocando blues porque isso não vai acontecer.

EM – Fale um pouco sobre essa banda que o acompanha.
DR – São quatro músicos, Bruce Bears no piano e orgão, Mark Teixeira na bateria e Brad Hallen no baixo. Realmente acho que é a melhor banda que já tive. Tocamos muito bem juntos. Eles são músicos completos em jazz, blues e outros gêneros. São muito versáteis.

EM – Qual é a importância do blues para a cultura-norte americana?
DR – É a música que fala da vida das pessoas, mas apesar disso, uma minoria escuta blues. Mas é o suficiente para nos manter viajando e tocando pelo país e pelo mundo. Sempre foi assim. Talvez ele tenha sido popular por um tempo. Mas dá para nos manter vivos, tocando em clubes pequenos e às vezes em clubes grandes. Acho que concordo com o Rod Piazza (risos). 

EM – Mas continua sendo a base da música norte-americana.
DR – Realmente foi, mas não é mais. Da década de 70 para trás, até o começo do século. Nos anos 80 a música popular começou a mudar e não e passou a não ter mais a influência do blues. Não sei de onde vem, mas não é do blues.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Bourbon Street Fest completa 10 anos e chama Henry Butler, Vasti Jackson e Preservation Hall para a celebração


Um dos maiores festivais de música negra americana no Brasil, o Bourbon Street Fest, chega à 10ª edição em grande estilo: 10 dias de shows com 10 atrações, em três cidades, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, entre 10 a 19 de agosto. Salvador, Ribeirão Preto (SP) e Buenos Aires também receberão algumas atrações. 
O evento, promovido por uma das melhores casas de jazz do mundo – o Bourbon Street Music Club, de São Paulo, trará nomes consagrados como a Playing for Change Band, formada por ex-músicos de rua, hoje verdadeiros popstars; Donald Harrison, grande nomes do sax alto contemporâneo, e a mais famosa e conceituada banda de traditional jazz do mundo, Preservation Hall Jazz Band, comemorando também seus cinquenta anos de carreira.
As outras atrações são grandes nomes que representam a diversidade musical da Louisiana e, particularmente de New Orleans: o grupo de trombones Bonerama; o acordeonista Dwayne Dopsie e seus Zydeco Hellraisers; o pianista de blues Henry Butler; o baixista Tony Hall com sua banda The Heroes, o grupo vocal Mahogany Blue e o grupo performático Zulu Connection. Completando a festa, a Orleans Street Band, de São Paulo.
Criado em 2003 para comemorar os dez anos da casa noturna, o festival apresentou, até 2011, 225 shows para um público total estimado em 320 mil pessoas, além de workshops, brunchs com pratos típicos da Louisiana e outras atividades.
Como sempre, todas as cidades terão shows com entrada franca, em amplos espaços abertos com capacidade para milhares de pessoas.
Em São Paulo, a comemoração trará uma mudança no palco mais emblemático do festival, o Bourbon On The Street, que é montado ao ar livre na rua dos Chanés, em Moema. Dessa vez ele estará no cruzamento em frente ao Bourbon Street, quase como um anexo da casa, cuja arquitetura é inspirada na de New Orleans, proporcionando assim um clima mais típico ao verdadeiro happening em que se transforma a área.
O palco no parque do Ibirapuera continuará sediando a abertura do festival. E o do Bourbon receberá de um a três shows por noite ao longo de sete dias, além de um jazz brunch.
No Rio de Janeiro, os shows serão novamente no Parque Garota de Ipanema e no Miranda, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Pela segunda vez em Brasília, o evento acontece no Complexo Cultural da República, na Esplanada dos Ministérios.
Ação social - Haverá ainda um workshop de Donald Harrison para crianças e adolescentes que estudam música no Instituto Baccarelli, em Heliópolis, área carente de São Paulo.
Outra contribuição social do festival é destinar uma área especial nos shows ao ar livre para 300 meninos e adolescentes da periferia, que estudam música ou tocam algum instrumento. Ciente de que muitos deles, que gostariam de assistir aos shows, não têm como fazê-lo, o evento oferece transporte, monitores e lanche a esses jovens.
Para acompanhar a boa música, um menu inspirado na  gastronomia cajun e créole, que só existem na Lousiana, foi criado especialmente para o período do festival pelo chef Viko Tangoda. Os pratos levemente condimentados são resultado da combinação das culturas francesa, espanhola, africana e indígena, que formaram o grande caldeirão cultural da Louisiana.
História do festival – a fórmula consagrada de shows no palco do Bourbon Street, ao ar livre no parque do Ibirapuera, e na rua dos Chanés, onde fica a casa noturna, e um brunch com a culinária cajun apareceu no primeiro ano do festival.
Diante de sua dimensão e importância, foi incluído oficialmente na comemoração dos 450 anos da cidade de São Paulo.
A partir da quinta edição, em 2007, o festival chegou também ao Rio de Janeiro. Naquele ano, foram feitos quatro shows, em duas datas, ao ar livre e com entrada franca, em frente ao MAM, no Parque do Flamengo. Em 2011, Brasília foi incorporada ao roteiro com quatro shows gratuitos, em duas datas, no Museu da República.
Este ano, além das três cidades, alguns artistas serão levados a Salvador, Ribeirão Preto (SP) e Buenos Aires.
O festival já trouxe grandes nomes do jazz e de outros gêneros musicais de New Orleans, como Delfeayo Marsalis, do famoso clã Marsalis, e um dos maiores trombonistas contemporâneos; Dirty Dozen Brass Band, a mais importante brass band em atividade; Preservation Hall Jazz Band, a mais antiga e conceituada banda de traditional jazz do mundo; Marcia Ball, uma das maiores cantoras do blues contemporâneo; Marva Wright, a rainha do blues de New Orleans, e o badalado DJ Logic.

Faça a sua agenda:

Dia 10 – sexta-feira
21h30 – Storyville Jazz Band - Traditional Jazz
23h00 – (1ª entrada) Tony Hall & The Heroes - R&B / Soul
00h30 – (2ª entrada) Tony Hall & The Heroes - R&B / Soul
Local: Bourbon Street
Horário: 21h30
Abertura da Casa: 20h
Couvert Artístico: R$ 75,00

Dia 11 - Sábado
Parque do Ibirapuera - Grátis ao ar livre  
15h30 - Orleans St. Jazz Band -  Street Band / Dixieland    
16h00 – Preservation Hall Jazz Band - Traditional Jazz
17h30 – Bonerama - Brass / Rock / Funk
19h00 – Tony Hall & The Heroes - R&B / Soul
Local: Parque do Ibirapuera - Portão 10 – Av. Pedro Álvares Cabral s/n
Data: 11/08/2012 – sábado
Horário: 16h00
Grátis – ao ar livre

Dia 14 – Terça-feira
21h00 – Dwayne Dopsie The Zydeco  Hellraisers - Zydeco
22h30 – Preservation Hall Jazz Band - Traditional Jazz
Local: Bourbon Street
Horário: 21h
Abertura da Casa: 20h
Couvert Artístico: R$ 125,00

Dia 15 – quarta-feira
21h00 – Bonerama - Brass / Rock / Funk
22h30 – Playing for Change - World Music
Horário: 21h
Abertura da Casa: 20h
Couvert Artístico: R$ 125,00

Dia 16 – quinta-feira
21h30 – Donald Harrison - Jazz New Orleans / Indians – Feat: Shaka Zulu
23h30 – Mahogany Blue - R&B / Soul
Local: Bourbon Street
Horário: 21h30
Abertura da Casa: 20h
Couvert Artístico: R$ 55,00

Dia 17 – sexta-feira
21h30 – Storyville Jazz Band - Traditional Jazz
22h30 – Henry Butler feat.Vasti Jackson - Blues
23h30 – Dj Crizz - New Orleans Sounds
00h30 – Playing for Change - World Music  Dwayne Dopsie -  Zydeco
Local: Bourbon Street
Horário: 21h30
Abertura da Casa: 20h
Couvert Artístico: R$ 125,00

Dia 18 - sábado
21h30 – Storyville Jazz Band - Traditional Jazz
22h30 – Dwayne Dopsie The Zydeco  Hellraisers -  Zydeco
23h30 – Dj Crizz - New Orleasn Sounds
00h00 – (1a entrada) Mahogany Blue - R&B / Soul
01h00 – (2a entrada) Mahogany Blue - R&B / Soul
Local: Bourbon Street
Horário: 21h30
Abertura da Casa: 20h
Couvert Artístico: R$ 75,00

Dia 19 – Domingo
JazzBrunch
11h00 – Jazz Brunch - Início Brunch
13h00 – Preservation Hall Jazz Band - Traditional Jazz
Horário: 11h00
Abertura da Casa: 11h00
Couvert Artístico: R$ 295,00

Rua do Bourbon Street – 16 horas
Grátis ao ar livre
16h00 -  Bonerama - Brass / Rock / Funk
17h15 - Henry Butler feat. Vasti Jackson - Blues
18h30 – Playing for Change - World Music                          
20h00 – Dwayne Dopsie The Zydeco  Hellraisers - Zydeco
 *** Zulu Connection – intervenções entre as bandas

O Bourbon Street fica na Rua dos Chanés, 127, em Moema.
Telefone: (11) 5095.6100
A bilheteria abre nos seguintes horários: 2ª a 6ª feira, das 9h às 20h. Sábado, domingo e feriado das 14h às 20h.
Capacidade: 400 lugares
Censura: 18 anos - maior de 16 acompanhado de responsável
Formas de pagamento : cartões créditos todos e dinheiro
Estacionamento: R$ 17,00
Acesso deficientes

Atrações:


Bonerama – As brass bands foram um dos elementos formadores do jazz, no início do século XX e até hoje estão muito presentes na vida de New Orleans, seja desfilando no carnaval e em cortejos fúnebres ou tocando no French Quarter e nos vários festivais da cidade. Nos anos 70, o grupo Wild Magnolias inovou e atualizou o som dessas bandas, com uma levada mais funky. O Bonerama, formado em 1998, deu um passo adiante ao acrescentar o rock, mas com uma característica inusitada e particular: no lugar de trompetes e saxofones, a seção de metais é formada por três trombones. Guitarra, baixo e bateria completam a formação.
Longe de ser monótona e repetitiva, a overdose de sons graves induz o público à dança e gera uma vibração contagiante. O repertório, que inclui (ao lado de standards do jazz) clássicos do rock como “Helter skelter” (Beatles), “War pigs” (Black Sabbath”) e “Moby Dick” (Led Zeppelin).

Donald Harrison - Entre os músicos, esse filho de New Orleans goza de grande prestígio, que pode ser medido por três CDs gravados em trio com o maior baixista vivo do jazz, Ron Carter, e um dos melhores bateristas em atividade, Billy Cobham. A honra não é gratuita: ele é hoje também um dos maiores em seu principal instrumento, o sax alto (toca também o tenor e o soprano).
Donald Harrison faz um jazz sem fronteiras, que batizou de “noveau swing”, um jogo de palavras que, além de significar “novo suingue”, remete à herança francesa de sua cidade. Sem deixar de ser um jazz classudo e acústico, nesse “gumbo” musical entram soul, funk, hip hop, reggae e até MPB (ele gravou “Setembro”, de Ivan Lins e Gilson Peranzzetta, por exemplo).
Seu show terá participação especial do performer Shaka Zulu, outra atração do festival.

Dwayne Dopsie e Zydeco Hellraisers - Nascido na capital do zydeco, Lafayette (Lousiana), Dwayne iniciou-se na música tocando washboard (tábua de lavar), mas logo passou para o acordeon, principal instrumento do zydeco ao lado do frottoir ou rubboard (um avental de metal semelhante ao washboard). Aos 19 anos, já liderava seus Zydeco Hellraisers. Cresceu tanto que, ao 33 anos, excursiona pelo mundo todo, do Marrocos à Polônia, do Alaska ao Brasil.
Parente longínquo do forró, o zydeco surgiu na Louisiana nos anos 50, quando o rhythm & blues fundiu-se à música cajun (um tipo de country afrancesado). Altamente dançante e alegre, o ritmo contagia a todos. Um dos pioneiros do zydeco foi Rockin’ Dopsie, pai de Dwayne, que hoje, por sua vez, é um dos artistas mais carismáticos do gênero.

Henry Butler e Vasti Jackson - Representante do blues no festival, o cego Henry Butler é considerado por muitos o melhor pianista de New Orleans na atualidade. O mestre Dr. John, por exemplo, garante que ele toca como Art Tatum, o maior da história do jazz. Não por coincidência, Butler trabalhou com grandes nomes do jazz como Cannonball Adderley e George Duke. E talvez seja o único músico de blues a afirmar ter influência de Franz Schubert!
Mas as lições dos mestres do piano blues de New Orleans, Professor Longhair e James T. Booker, também foram absorvidas por ele. A música de Butler não é melancólica nem monocórdica, como muitos ainda rotulam o blues. Ele investe nos ritmos mais agitados e dançantes derivados do gênero: rhythm & blues, boogie woogie, soul e funk. “Let it roll”, “Basin Street Blues” e “Sittin’ on the dock of the bay” são alguns clássicos que ele interpreta de forma originalíssima, além de composições próprias.
Com ele vem um dos principais guitarristas de blues de New Orleans, Vasti Jackson, que participou de vários filmes, entre eles “Warming by the Devil’s Fire”, da aclamada série “The Blues”, coordenada por Martin Scorsese.

Mahogany Blue - A presença do duo vocal na comemoração de 10 anos do Bourbon Fest é praticamente obrigatória, pois Lanita Wise e Yadonna West já fizeram várias temporadas no Bourbon Street, sempre com grande sucesso. Influenciadas pela música gospel que cantavam na igreja,  e também por Aretha Franklin, The Supremes e Sister Sledge, elas interpretam sucessos da black music como “Proud Mary”, “Lady Marmalade”, “I will survive” e “Aint No Mountain High Enough”.

Playing For Changes Mais de 40 milhões de pessoas já viram um clipe do Youtube com artistas de rua de vários países tocando e cantando Stand by Me, clássico do soulman Ben E. King famoso também com John Lennon. O clipe fazia parte do CD/DVD “Playing for Change – Songs Around The World”, de 2009, com mais de cem artistas de 40 países. A historia já é bem conhecida: em 2004, um pequeno grupo liderado pelo produtor e engenheiro de som americano Mark Johnson viajou pelo mundo gravando um documentário para a televisão, no qual artistas de rua interpretavam clássicos da música com mensagens por um mundo melhor e mais fraterno. Canções como, One Love e War (Bob Marley), Biko (Peter Gabriel) e A Change is Gonna Come (Sam Cooke). Astros como Bono Vox e Manu Chao uniram-se ao projeto. Mas porque a Playing For Change Band no Bourbon Street Fest? Simples: o músico que se tornou um símbolo do grupo, o cantor e gaitista Grandpa Elliot, é de New Orleans. O carismático e simpático velhinho cego, que durante décadas tocou nas ruas da cidade por gorjetas, em 2011 chegou com seus novos amigos ao palco principal do maior festival de jazz do mundo – o de sua própria cidade, New Orleans!

Storyville Jazz Band – Banda formada especialmente para os 10 anos do Bourbon Street Fest em São Paulo. Reúne alguns dos melhores músicos do gênero em São Paulo para tocar o jazz como era em seus primórdios, no início do séc. XX. Storyville Jazz Band fará duas apresentações no festival e uma intervenção musical no evento de abertura Cine Mesa Jazz – Let’s Try New Orleans Flavors. O grupo reúne a talentosa cantora Bibba Chuqui, o baixista Rubinho (Elza Soares e Bocato), dois integrantes do Bourbon Street Jazz Quartet (o pianista Ary Holland e o baterista Sergio Della Monica) e três músicos da Orleans Street Jazz Band (o trompetista Washington Barros, o trombonista Eloy Porto Neto e o banjoísta e violonista Edu Marck).


Preservation Hall – Os 10 anos do Bourbon Street Fest trazem outra grande comemoração – os 50 anos da Preservation Hall Jazz Band, uma verdadeira instituição do jazz e de New Orleans. Todas as noites, há décadas, uma fila se forma na porta da Preservation Hall, no coração do French Quarter (o bairro boêmio da cidade), onde o grupo formado da casa se apresenta. A romaria faz parte do roteiro turístico de uma das cidades mais turísticas do mundo. A Preservation Hall Jazz Band é a mais antiga e renomada do mundo no estilo chamado de traditional jazz – o jazz original, como era tocado no começo do século XX por Buddy Bolden, Louis Armstrong e King Oliver. Seu repertório reúne standards imortais como “When the saints go marchin’ in“, “Tiger rag”, “St. Louis blues” e “St. James infirmary”. A Preservation Hall foi fundada em 1961 para resgatar o traditional jazz, que estava em baixa devido à evolução do jazz para outros estilos como o bebop e a hegemonia do rock nas paradas de sucesso.


Tony Hall – É considerado o mago do baixo elétrico em New Orleans e um dos grandes nomes do instrumento no mundo. Tremendamente requisitado para sessões de gravação, seu nome está nos créditos de discos de Bob Dylan, Stevie Wonder, Carlos Santana, Dave Matthews, Wynton Marsalis, Harry Connick Jr, George Clinton e muitos outros. Nos anos 80 ele integrou uma das mais conceituadas bandas do funk, The Meters, com a qual abriu shows dos Rolling Stones. Como artista solo, ele poderia usar o slogan “diversão garantida ou seu dinheiro de volta”. Seus shows são verdadeiras festas – é comum o público começar a dançar já na segunda música, e não parar mais. Clássicos da black music, interpretados com um groove irresistível, são a fórmula desse fenômeno.

Zulu Connection – Uma atração diferente é a Zulu Connection, liderada pelo “big chief“ (chefe índio) Shaka Zulu. O grupo representa de forma contemporânea uma das mais antigas tradições do Mardi Gras (o carnaval de New Orleans), os chefes índios. Ao mesmo tempo que resgata tradições afro-caribenhas através de dança, percussão, máscaras e figurinos coloridos, com uma performance original e surpreendente. Além de tocar e dançar, os artistas fazem acrobacias inacreditáveis sobre pernas de pau. O nome Shaka Zulu é uma homenagem a um dos maiores guerreiros africanos, que construiu um vasto império no século XIX.

Orleans Street Jazz Band – Uma das mais antigas tradições musicais de New Orleans é a das “street bands”, que tocam caminhando pelas ruas. A Orleans Street Jazz Band, de São Paulo, já é atração fixa nas últimas edições do Bourbon Street Fest, dando um clima especial ao evento. Ela sempre desce dos palcos para tocar no meio da platéia, contagiando a todos. A Orleans reproduz a sonoridade das street bands de New Orleans, mas com um toque próprio, mesclando jazz moderno (Camaleon, Blue Monk) e pop (I Can See Clearly Now) aos standards como St. Louis blues, C’est si Bon e All of me. Os músicos interagem com a platéia, fazendo brincadeiras e incentivando-a a dançar e se divertir.