sábado, 1 de setembro de 2012

Pagode é o caralho, meu nome é samba do morro


Ensaiei uma semana: “Quem falou que a boca é tua, neguinho?” e “Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno. E tu vai cair filho da puta”, para soltar quando encontrasse o Paulo Lins.
Por fim, o encontro se deu e eu nem percebi quem era. O cara à vontade, de chinelo e bermuda na porta da Estação do Valongo, em Santos. Fumando e bebendo uma cachacinha.
E eu que ia sacanear acabei sacaneado: “Opa Eugênio, tudo bem? Eu vim a Santos pra inaugurar uma escola de futebol”. Perae mermão, carioca não ensina santista a jogar bola. Pode ensinar a fazer samba, mas jogar bola não meu chapa? Lins caiu na gargalhada.
Fomos almoçar lá por conta da 4° Tarrafa Literária. Eu como produtor e Paulo como participante.
A voracidade com que atacamos a cachaça do local só foi superada pela vontade de falar: política, futebol e Desde que o Samba é Samba, seu recente trabalho.
Sou fã de Cidade de Deus, obra literária máxima escrita em 1997 que nasceu como estudo antropológico, mas que só ganhou visibilidade com o filme de 2002.
Esperei com ansiedade – ansiedade não, porque quem tem ansiedade não é homem sério – curiosidade é a palavra certa, Desde que o Samba é Samba que, segundo o autor, é mais histórico que Cidade de Deus, cujas informações foram tiradas dos jornais da época. O segundo envolveu um trabalho de pesquisa. Toda a bibliografia está no livro.
O primeiro foi escrito com base onde Lins cresceu, a favela Cidade de Deus. O segundo, onde nasceu, o berço do samba, o mítico Morro do Estácio, lugar de bambas. Nas palavras do autor: “O Estácio era o despontar do mundo novo. O Estácio é Macunaíma. Que naquela época vem dar em música, em rádio. Aquela vida sem internet. Esse mundo em que chegamos. Antes da cultura de massa. Antes da indústria do disco”.
Lugar onde toda movimentação do negro era proibida. Onde havia muita prostituição. Mas onde se formou toda a música brasileira. “Várias mulheres européias. A zona aumentou. A cultura foi a forma do negro se posicionar melhor dentro da sociedade. Já tinha se tentado inserir o negro no trabalho, mas a relação entre senhor e escravo continuava como patrão e empregado”. Brasil, formação torta.
Desde que o Samba é Samba mostra como a identidade negra despontou com o novo ritmo. Arma de resistência contra a discriminação racial. Contra a violência policial. Mas todos estavam se divertindo e fazendo a revolução ao mesmo tempo. Simultânea à semana de arte moderna de São Paulo. Mais sisuda. Porém, os paulistas Manoel Bandeira e Mario de Andrade andavam lá. “Tem uma impressão de festa, mas tem um trabalho por traz muito forte. Dentro dessa ficção é a arte e a religião. Isso não muda dentro da gente. São Jorge não vai substituir ogum. Oxalá não vai substituir Jesus Cristo”.
A discriminação abordada em Desde que o Samba é Samba continua de outras formas. Na própria ausência de afro-brasileiros na ficção que, apesar de ser a maioria da população, parecem invisíveis. Lins sustenta que nos anos 90, com o Rappa, Cidade Negra, Marcelo D2 e depois com os filmes Cidade de Deus, Dois Irmãos, houve uma manifestação dos negros na cultura popular. “Marcelo D2 Mano Brown gostam mais de Bezerra da Silva do que Chico Buarque. Porém, quem sofre mais na sociedade é a mulher negra e a índia, depois vem o homem negro. Essa população nordestina que mora na periferia dura, que mora longe, violenta tem buscado seu espaço na arte. O negro do Rio está consolidado dentro de uma tradição familiar. Há 400 anos. A tia, a avó, a sociedade. São Paulo não tem isso. Você morar em Capão Redondo, você está longe. Se você mora na Mangueira, você é reconhecido”.
Brancura era um malandro que existiu. Ismael Silva, Baiaco, Bide e seu irmão Rubem Barcelos também. Por causa desses caras temos uma identidade musical. O samba dos bambas. Do Rio de Janeiro que o resto do Brasil reverencia. Da pequena África, terra de tia Siata. “O samba nasceu com a umbanda e as mães de santo tinham influência política. Então, como as pessoas não sabiam o que era samba, capoeira e umbanda tudo acabava no terreiro”. Pagode é o caralho, meu nome é samba do morro.

2 comentários:

  1. muito legal seu comentário, Eugênio! abraço
    Ademir Demarchi

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  2. Salve, Ademir,
    muito obrigado. Vindo de você é um elogio e tanto.

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