segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Inspirados pelo blues, os jovens Carla Mariani e Pedro Bara lançam dois bons EPs

 

Carla Mariani

Dois bons EPs com músicas autorais acabam de ser lançados por jovens influenciados pelo bom e velho blues.
Antes que venham os chatos, não são trabalhos calcados no blues tradicional. Portanto, ressaltando, com “influências de blues”. Sacou?
Também são trabalhos que foram desenvolvidos na pandemia e, no caso Carla Mariani, inspirada por ela. No final de julho a cantora e compositora lançou em todas as plataformas de streaming o EP com quatro canções inéditas que abordam quatro sensações e ações que fizeram parte de sua vida e de pessoas no mundo inteiro, durante a pandemia de Covid-19.  
Trata-se do Locked Inside, com canções nos estilos jazz, blues e country, produzido e mixado pela própria cantora em seu home studio. A masterização ficou por conta de Jorge Binário, que trouxe uma sonoridade bem vintage e analógica, um ar de disco de vinil e um som bem saturado, muito presente nas gravações dos anos 30 e 40. 
O nome do EP foi uma decisão do público. Carla compartilhou em suas redes sociais um pedido de ajuda com uma recompensa: quem votasse nas opções que ela criou, ou desse novas sugestões, ganharia um songbook digital com suas letras, traduções e letras de músicas inéditas, além das do álbum. “Acho legal quando o público participa de decisões assim. Faz com que eles se sintam (e são!) parte da criação do projeto”. 
Por falar em projeto, a artista mergulhou de cabeça em Locked Inside e não teve medo de arriscar, nem de quebrar padrões. Conhecida na região da Baixada Santista por seus blues, a cantora não se prendeu ao estilo e deixou a imaginação e outras influências aflorarem nesse novo trabalho. 
Locked Inside começou a ser idealizado em junho de 2020, após a cantora assistir a um seriado chamado “The Eddy” e se sentir inspirada em também fazer canções voltadas para o jazz. Seu último single, Gloomy Days, lançado no final de 2020, já mostrava esse lado até então pouco explorado. A grande novidade para o público é seu lado country, última faixa do EP.
Carla descreve as quatro sensações como um ponto quase em comum entre ela e o resto do mundo, pois acredita que boa parte da população mundial sentiu as mesmas coisas: amor, solidariedade, loucura e respeito. “O amor veio naquela sensação de proteger as pessoas amadas, de cuidar e preservar a si e aos outros. Já a solidariedade veio do ímpeto de ajudar quem não conseguiu segurar a onda, de quem precisava de um colo, mesmo o colo sendo virtual. A loucura é bem simples: quem é normal ficou louco. Quem não ficou louco, não é normal hahaha. A parte do respeito fala sobre a falta dele, principalmente em relação ao uso da máscara e às pessoas que decidiram virar a cara para o vírus e fingir que nada estava acontecendo, prejudicando, assim, milhões de pessoas”. 
Carla contou com a ajuda de vários amigos músicos na caminhada até esse lançamento. Desde os que fizeram participações em diversas faixas, como Heittor Jabbur (que gravou a bateria das quatros músicas), Tanauan (que gravou o baixo em duas faixas e a guitarra em uma), Marcel Chilli (que gravou guitarra em duas músicas) e Letícia Alcovér (que gravou o backing vocal de duas canções, além de ajudar em outras atividades, como planejamento do lançamento e produção executiva), passando por Nathan Gon (que a ajudou com a estratégia de lançamento), Tiago Cardeal (que fez as fotos de divulgação) e Jota Amaral (que fez a produção, direção e filmagens dos clipes).

Orchestra of Dawn

A Orchestra of Dawn nasceu quando Bara encontrou Petcov na noite de São Paulo, aquela cidade cheia de blueseiros em busca de gigs. Em seguida Pedro Mota assumiu as baquetas e estava formada a Orchestra.
Com influências do blues e psicodelia e cheia de referências à sonoridade setentista e boogie woogie e rock n' roll da década de 50, o power trio lançou Blues Lidded Woman no dia internacional do rock, 13 de julho. O single faz parte do EP Carnival, seu trabalho de estreia, lançamento do selo Orra Meu Records.
Ao final de Outubro de 2020 a banda iniciou a gravação do EP Carnival que levou três dias. Pedro Bara assumiu a produção musical ladeado por Gustavo Barcellos na engenharia de áudio. E foi justamente a gravação desse EP levou o grupo a assinar com o selo do estúdio, o Orra Meu! 
No primeiro semestre de 2021, com a masterização finalizada, iniciam-se as gravações do videoclipe para o single Blue Lidded Woman, uma das faixas do EP. O clipe apresenta uma mistura entre os aspectos estéticos da era de ouro de Hollywood e a psicodelia da década de 60.
Atualmente o foco da banda está no lançamento do EP no dia 13 de Agosto, além da finalização de novas composições.
Além de Blue Lidded Woman, Carnival traz as pauladas 
Pedro Bara - Ainda na infância, se interessou pelo blues,  através de bandas como Rolling Stones, Led Zeppelin, que o levaram a conhecer e se aprofundar na música de artistas como Albert King, Howlin Wolf, Muddy Waters, entre outros bluesmen norte-americanos. Além, é claro, de nomes do blues britânico, Cream, Fleetwood Mac e Jimi Hendrix Experience. Passam ainda por seu leque de influências R&B, jazz, soul e flertes com a música oriental. Ao completar 16 anos, iniciou a gravação de seu primeiro álbum, Heading To The Moon. Produzido por Alexandre Fontanetti, o CD lançado em 2018 com distribuição independente, foi recebido pela crítica especializada com diversas avaliações positivas.
A Orchestra of Dawn é uma banda formada em agosto de 2020 por Pedro Bara (guitarra), Bruno Petcov (baixo) e Pedro Mota (bateria).

sábado, 25 de setembro de 2021

3 Hours Past Midnight – 1986 - Johnny Guitar Watson


Nascido em Houston, uma das cidades lendárias para o blues texano, Johnny “Guitar” Watson foi encorajado pelo pai a aprender piano e guitarra e também teve o apoio de seu avô, um pregador, que lhe deu sua primeira guitarra.
O garoro cresceu vendo e ouvindo Lightnin’ Hopkins, T Bone Walker e Clarence “Gatemouth” Brown nos clubes da Dowling Street em Houston. Baitas influências.
Mas foi em Los Angeles que começou sua carreira na banda de Chuck Higgins, quando cantou Motor Head Baby pela primeira vez e que viraria sua marca registrada por anos. 
Essa coletânea de 1986 traz os principais temas gravados por Johnny no começo de carreira. É uma verdadeira viagem no tempo.    
Muito antes de enveredar pelo funk nos anos 70, Johnny Guitar Watson foi um dos grandes cantores de blues e rock and roll típicos dos anos 50. Aqueles cheios de metais com base hipnótica, contrapondo-se a sua voz rouca e toque personalíssimo, quase espancando a guitarra. 
Em 3 Hours Past Midnigth há temas captados pelos Bihari brothers nos anos 50, Hot Little Mama é um blues cheio de suingue e malícia, pronta pra esfregar os quadris gostoso. Foi a primeira gravação de Johnny para o selo Modern em 1955.
A energética Ruben, com seu riff matador,  vem em seguida com Johnny solando e espancando a guitarra, se isso não é selvagem, não seio que é. 
I Love to Love You é outra pra dançar juntinho com seu amor e aproveitar e falar coisas indecentes no seu ouvido. Um pouco mais lenta do que Hot Little Mama, mas que serve ao mesmo propósito. E diferentes de Someone Cares For Me e Those Lonely Lonely Nights  típico tema romântico.
Os solos de Oh Baby nos mostram o que é a verdadeira guitarra blues, suja e chorona, contrapondo-se a voz arrastada de Johnny. 
The Bear, um rock west coast com os coros Uh, Uh, Uh, Uh e solo de saxofone, precede a música mais deliciosa do disco, One More Kiss. Clássica por natureza, umas das músicas mais bem construidas e sacanas do cara. Quando ele pede o último beijo antes de pegar estrada, ele não está pedindo só um beijo, sacou? As duas foram gravadas em 1959 pelo selo Class. 
Love Me Baby te remete às espeluncas onde os caras tocavam para o pessoal dançar de verdade, mais uma daquelas feitas num compasso ótimo para chacoalhar os quadris all night long.  
O CD fecha com a faixa título, Three Hours Past Midinight, um verdadeiro slow blues daqueles que fazem a gente viajar ao coração do blues. Com Johnny Guitar Watson explorando os acordes da sua guitarra, piano e mais uma vez, a marcação dos metais se arrastando música a dentro.     
Uma curiosidade sobre Ruben e Sameone Who Cares For Me é que em ambas foram usadas a técnica de overdub no piano e na guitarra tocados por Johnny. Novidade que estava sendo testada pela gravadora Modern, onde as músicas foram gravadas. 

Músicas:
1 – Hot Little Mama
2 – Ruben
3 – I Love to Love You
4 – Sameone Cares for Me
5 – Too Tired
6 – Oh Baby
7 – The Bear
8 – One More Kiss
9 – Those Lonely Lonely Nights
10 – She Moves Me
11 – Give a Little
12 – Ain’t Gonna Hush
13 – Motor Head Baby
14 – I’m Gonna Hit That Highway
15 – Love Me Baby
16 – Three Hours Past Midnight

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Começa hoje a 9ª Edição do Santos Jazz Festival

 

Amaro Freitas

Entre os dias 23 e 26 de setembro acontece online nas plataformas digitais do evento, a 9ª edição do Santos Jazz festival. 
Como é costume, nessa edição o festival presta homenagens a dois ícones da música mundial,  João Gilberto, que se estivesse vivo completaria 90 anos e Astor Piazzolla, cujo centenário foi comemorado em março.
Lupa Santiago Trio abrea programação Celebrando o centenário de Astor Piazolla, um dos músicos mais consagrados da Argentina e da América Latina, sobretudo um grande inovador da música. 
Em seguida João Gilberto será homenageado por Jaques Morelenbaum com as participações especiais da cantora Paula Morelenbaum e do violinista Lula Galvão. 
Dentro das atrações locais, Patrícia Diegues & Banda, composta por músicos da região farão show especial em tributo a Amy Winehouse e Adele. E, dentro da parceria com o movimento hip hop da região o grupo Garagem Erudita & Preta Jô. E também o DJ Mamuth + Performances de Danças “Cabeça Preo”(grafite e danças urbanas) com a Cia. “Cria Criou Artes”.
O violinista francês radicado há 20 anos no Brasil, Nicolas Krassik, interpretará um dos maiores da nossa MPB, com quem já tocou - o baiano Gilberto Gil. 
Um dos destaques do jazz mundial, o pianista pernambucano Amaro Freitas, é uma das grandes atrações do festival. 
Dentro das grandes atrações, a renomada artista da cena da música instrumental, a baterista Vera Figueiredo e seu Trio. 
Fechando o festival no domingo, o baixista brasileiro radicado nos EUA, Marcelo Maccagnan Quarteto composto por músicos americanos.

Oficinas online
Dia 25/09 (sábado)
19h00 – Oficina musical com Nicolas Krassik “Técnicas de interpretação do Jazz para violino e 
outros instrumentos de cordas”

Dia 26/09 (domingo)
15h00 - Dani Ribas – “Remuneração no Streaming – Gestão de Carreiras na Música”
16h00 - Oficina musical com Vera Figueiredo “Na batida do Jazz” (Bateria)

Programação
Dia 23/09 (5ª feira)
20 horas - Abertura do Festival
20h10 - Lupa Santiago Trio – Show “100 anos de Astor Piazzola” (SP)
21h00 -Jaques Morelenbaum convida Paula Morelenbaum e Lula Galvão – Show “Homenagem 
a João Gilberto” (RJ)
 
Dia 24/09 (6ª feira)
20h00 - Patrícia Diegues & Banda – Show “Especial Amy & Adele” (Santos-SP)
21h00 - Nicolas Krassik interpreta Gilberto Gil (França\SP)
 
Dia 25/09 (sábado)
20h00 – Show Amaro Freitas Trio (Recife- PE)
21h00 - Show Garagem Erudita + Dj Mamuth + Preta Jô + Performances de Danças “Cabeça 
Preo” (Grafite e danças urbanas) – Cia “Cria Criou Artes” (Santos-SP)
 
Dia 26/09 (domingo)
17h00 – Show Vera Figueiredo Trio (SP)
18h00 - Show Marcelo Maccagnan Quarteto (EUA)

Haverá ainda uma exposição de pôsteres digitais de jazz dos alunos do curso de Produção Multimídia da Universidade Santa Cecília (Unisanta), com a coordenação da Profa. Márcia Okida, no site do 
festival: www.santosjazzfestival.com.br

O 9º Santos Jazz Festival 2021 conta com a chancela da Lei de Incentivo à Cultura através da 
Secretaria Especial de Cultura e Ministério do Turismo, com patrocínio da empresa Santos 
Port Authority. Tem o apoio cultural do Sesc Santos, Associação dos Artistas e da Prefeitura 
Municipal de Santos.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Morreu Zé Pretim, ícone do blues sul-matogrossense

Zé Pretim em ação - Foto Amélio Vinícius

Zé Pretim, considerado um dos principais nomes do blues sul-matogrossense morreu sozinho em sua casa no bairro São Jorge da Lagoa. Ele foi encontrado pelos vizinhos que desconfiaram do seu sumiço. 
Segundo a síndica Karla Ariano Aquino, foi o seu esposo que entrou no apartamento do cantor pela janela e o encontrou de bruços na cama, após dois dias sem conseguirem contato com o cantor. "Tentamos acordá-lo, mas percebemos que ele estava sem vida", afirmou. Em seguida, vizinhas chamaram a polícia. O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) esteve no local e confirmou a morte do cantor.
José Geraldo Rodrigues construiu sua carreira totalmente fora da corrente principal da música. Nascido em Inhapim, nas Minas Gerais, em 16 de maio de 1954, aprendeu a tocar violão por conta própria influenciado pela música regional. 
Conta a lenda que para convencer os pais de que tinha futuro na música, Zé começou a se apresentar tocando sertanejo raiz, mantendo sua influência caipira.
Mudou-se para Campo Grande no começo da década de 70 e ganhou certa notoriedade tocando em bandas locais. Mas foi na década de 80 que começou a ganhar notoriedade como artista solo, justamente por seu jeito de misturar suas influências sestanejas e blueseiras. 
O reconhecimento o levo8u a ser destaque no Jô Soares em 2006 sob a alcunha de “bluesman pantaneiro”. Em 2017 foi mais uma vez destaque nacional ao apresentar a sua versão blueseira de Asa Branca no do programa de calouros de Raul Gil.
Em março deste ano, o guitarrista comemorou, aos 66 anos, ter tomado a primeira dose da vacina contra a covid-19 e incentivou amigos nas redes sociais. “Foi fácil, foi rápido, não doeu, no final nem acreditei que era assim tão simples”, comemorou o músico naquele mês. (Fonte: Campo Grande News).


terça-feira, 14 de setembro de 2021

Alfredo Dias Gomes conta suas próprias histórias em Metrópole

 


Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Leandro Marques

Janete Clair e Dias Gomes são os responsáveis por consolidar umas das linguagens artísticas mais populares no Brasil, a dramaturgia das telenovelas. Enquanto os intelectuais torciam o nariz, o povo adorava. 
A partir dos anos 70, o brasileiro, que sempre leu pouco, se encantou com os personagens criados  por esses dois autores icônicos. Unidos na forma, mas diferentes no conteúdo. 
Janete era mestra em criar dramas cotidianos e personagens que podiam ser os nossos vizinhos, que passavam as mesmas dificuldades que a gente. Nos víamos e nos identificávamos com eles: João, Jerônimo e Duda em Os Irmãos Coragem (1970); Cristiano e Fernanda, em Selva de Pedra, que lhe rendeu problemas com a censura (1972); Herculano Quintanilha e Salomão Hayalla em O Astro (1977).  
Por seu lado, Dias Gomes criou uma série de histórias que mostravam os Brasis, folclórico, malandro e fantástico: Roque Santeiro, O Bem Amado e Saramandaia.   
Mas eles também fizeram o Alfredo. Nascido no Rio de Janeiro, Alfredo Dias Gomes estreou profissionalmente na música instrumental aos 18 anos, tocando na banda de Hermeto Pascoal, com quem gravou o disco Cérebro Magnético.  Também tocou e gravou com Márcio Montarroyos, Ricardo Silveira, Arthur Maia, Nico Assumpção, Ivan Lins e muitos outros, além de participar da primeira formação do grupo Heróis da Resistência.
Em 2021, um ano após o lançamento de Jazz Standards, Alfredo Dias Gomes reaquece a cena instrumental brasileira com seu 13º disco solo, Metrópole. 
Gravado em seu próprio estúdio, na Lagoa, com o engenheiro de som Thiago Kropf, o disco já se encontra nas plataformas digitais - download e streaming no iTunes, Spotify, Deezer, Amazon e YouTube Music. “No final do ano passado comecei a compor para o novo disco e mantive o estilo jazzístico do último trabalho, sendo que em “Metrópole” também toco os teclados, além da bateria”, comenta Dias Gomes, que iniciou a gravação das bases com o baixista Jefferson Lescowitch em fevereiro.
Com a piora da pandemia no Brasil, Alfredo optou por gravar os metais remotamente, convidando o trompetista Jessé Sadoc e o saxofonista Widor Santiago, que gravaram de suas casas e enviaram os áudios via internet. A masterização foi realizada no icônico Abbey Road Studios pelo mesmo  engenheiro de som, Andy Walter, dos discos de David Bowie, Jimmy Page, Coldplay, The Who, The Beatles, dentre outros.
Com temas curtos, “Metrópole” traz em sua concepção o enfoque no improviso, que se desenvolve, especialmente, dentro da forma da composição, característica dos discos de jazz. Abrindo o disco, a faixa-título “Metrópole” é classicamente jazzística (walking bass), com acordes peculiares esquentando os solos de trompete e sax.
Dedicada à memória do irmão Marcos (1965-1968), a balada jazzística “Saudade” ressalta uma melodia emotiva, com destaque para os solos de baixo e de flugelhorn, ambos de extrema sensibilidade.
O jazz-fusion “Cidade da Meia-Noite” faz prevalecer o suingue, com melodia incisiva de metais e solos de baixo, trompete e sax - este lembrando o lendário saxofonista Michael Brecker. Já “Grand Prix”, outro jazz fusion, tem andamento rápido e solos vibrantes de trompete e sax, com bateria livre explorando os pratos.
Ao longo dos anos mais recentes, Alfredo Dias Gomes vêm construindo uma obra consitente, lançando um disco por ano desde quando lançou Looking Back (2015). São eles: Atmosfera - 20th Anniversary Special Edition (2016), Pulse (2016), Tribute To Don Alias (2017), Jam (2018), Solar (2019), Jazz Standards (2020), Vou Deitar e Rolar - Single (2020), Metrópole (2021).



Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical com Janete Clair e Dias Gomes? 
Alfredo Dias Gomes - A música esteve muito presente na minha infância, por influência dos meus irmãos, que tocavam instrumentos e participavam de bandas. Mas meus pais incentivaram muito, assim como minha avó, mãe do meu pai, que sempre fez questão que os netos estudassem piano.

EM – Já pensou em gravar um disco com temas inspirados no mundo de Saramandaia, Roque Santeiro ou O Bem Amado? Ou até mesmo releituras instrumentais sobre a trilha sonora dessas novelas, que eram bem legais naquela época. 
ADG - Já pensei sim. Inclusive ano que vem é o centenário do meu pai, seria uma maneira de homenageá-lo. Mas é um universo muito diferente dos meus discos e das minhas composições. Eu teria que fazer um disco completamente diferente de tudo que já fiz. Ainda vou pensar melhor sobre isso.

EM – Desde 2015 você tem mantido uma regularidade em gravar e lançar pelo menos um disco por ano. Trabalhando sem parar. Ter um estúdio em casa facilita colocar as ideias em prática? Gostaria que falasse sobre isso.
ADG - Facilita muito. Não só na parte financeira como na criação. Eu tenho à minha disposição todas as ferramentas para criar e gravar a qualquer momento. Mas nada disso adianta se você não tem a vontade e a perseverança em produzir e realizar.

EM – Os músicos brasileiros no geral já nascem sob a influência de uma tempestade de ritmos brasileiros e os jazzistas ainda carregam a influência do jazz norte-americano. Podemos dizer que o Jazz Standards, que traz Giant Steps, Cherokee, A Night in Tunisia e outros, mistura o jazz tradicional com o jeitinho brasileiro de tocar?      
ADG - É exatamente isso. O álbum “Jazz Standards” não é um disco de standards de jazz abrasileirado, são as músicas como elas são, mas com a impressão, sotaque e a bagagem de músicos brasileiros.



EM – O teu disco mais recente, o Metrópole, foi gravado por partes. Com você e o baixista Jefferson Lescowitch construindo as bases, os metais inseridos depois e a masterização feita no Abbey Road com o Andy Walter. Gostaria que explicasse esse processo. 
ADG - Os discos de jazz normalmente são gravados com todos os músicos juntos, interagindo ao mesmo tempo. Já em outros estilos, é normal ser gravado primeiramente as bases e depois o restante dos instrumentos. 
Para mim isso é muito normal e quando gravo a minha bateria, já toco imaginando o que entrará depois. Como também sou o produtor dos meus discos, e conheço muito bem os músicos que tocam comigo, consigo ter uma visão geral do todo, e de como o álbum vai soar no final.
Quanto à masterização no Abbey Road, esse foi meu quarto disco masterizado lá, esse último, masterizado pelo engenheiro de som Andy Walter.

EM – Aproveitando, em 2020/21, anos de pandemia do corona vírus, você lançou dois álbuns com inéditas. É um bom volume de trabalho enquanto todos estavam retraídos. Gostaria que falasse sobre isso.
ADG - Não fui o único a produzir na pandemia, muita gente produziu, na medida do possível, se adaptando assim como eu. O “Jazz Standards” eu lancei em março de 2020, foi o início da pandemia, então não afetou na produção. Já o “Metrópole”, lancei em maio de 2021, no auge da pandemia, esse sim, tive que me adaptar para finalizar o disco.
Continuar produzindo na pandemia me ajudou a ficar com a mente sã em meio a toda essa loucura.

EM – Antigamente os artistas pensavam em lançar um “álbum”, que era um trabalho com uma certa unidade. Hoje a principal forma de apresentar um trabalho novo é lançando nas plataformas digitais e você fez isso com os teus trabalhos recentes. Quais as vantagens e desvantagens desse formato?
ADG - Eu continuo fazendo álbuns com uma unidade e com concepção definida. A diferença é que não faço mais CDs e distribuo somente nas plataformas digitais. Como artista independente eu só vejo vantagens, não tenho mais o custo da fabricação dos CDs e a distribuição digital é para o mundo todo.

EM – Como estão e os espaços para a música instrumental no Rio de Janeiro? 
ADG - Em 2020, eu ia fazer show de lançamento do “Jazz Standards” mas por motivos óbvios foi cancelado. Desde então, não sei como estão as coisas, parece que alguns espaços ainda não reabriram e outros fecharam de vez. Mas tenho esperança que aos poucos as coisas voltem ao normal.

EM - Como vê a política cultural do atual governo do Brasil?
ADG - Esse governo não tem política cultural. Não tem nenhum interesse na cultura, nem na educação, nem na ciência, na vida das pessoas, nas florestas... 
A política desse governo é somente se manter no poder.

EM – Gostaria que falasse sobre o time que te acompanha.
ADG - O trompetista Jessé Sadoc e o baixista Jefferson Lescowich gravaram meus dois últimos álbuns. Já o saxofonista Widor Santiago está comigo desde os anos 1990, ele praticamente gravou em todos os meus discos. É um privilégio ter esses grandes músicos tocando comigo.

EM – Vai ter trabalho novo em 2022?
ADG - Provavelmente sim. Ainda não comecei a pensar no próximo disco, ainda estou envolvido na divulgação do “Metrópole”. Mas pretendo continuar mantendo a meta de gravar um disco por ano.