quarta-feira, 18 de julho de 2018

Abaixo o blues de pet shop, viva o blues vira lata da Dog Joe


Tocar por amor a música sem ficar fazendo pose. Essa é a Dog Joe, banda santista/guarujaense que toca regularmente na noite da Baixada Santista há mais de 20 anos. Atualmente é formada por Digo Maransaldi (bateria), Eduardo Eloi (guitarra) e Rogério Duarte (baixo).
O primeiro EP, Blues Rock Hotel, trás letras malandras e pegada rock and roll como o próprio nome já diz, mostrando o background da Dog Joe é mesmo a rua.
Eduardo Elói integra ainda a banda Blues Power que, como o nome já diz, é o veículo perfeito para ele baixar o braço na sua guitarra.
Digo Maransaldi mantêm o projeto solo New Gafieira, cujo trabalho também está registrado em CD e Rogério Duarte toca com quem chamar, desde o grupo de hard rock Medusa Trio até banda de casamento.
Não é fácil viver de blues na região das casas noturnas que só abrem espaço para o pagodinho e o sertanejo baratos.
Mas não há reclamação. Cavam suas próprias oportunidades e já foram convidados para tocar com Lurrie Bell, Lazy Lester e abriram show para Jon McDonald com a Giba Byblos Band. Tocaram em festivais no Rio, São Paulo, Santos, Guarujá e estão em vias de gravar o próximo CD.
Abaixo o blues de pet shop, viva a Dog Joe.

Texto: Eugênio Martins Jr
Foto: Divulgação

Eugênio Martins Júnior – Quando você começou a tocar guitarra Dudu?
Eduardo Elói – Comecei no violão aos oito anos tocando MPB, Beatles, Os Incríveis. E também dedilhando o cavaquinho, fazendo chorinho que sempre gostei. Não me aprofundava em nada, tocava o que sabia. Quando veio o rock nacional aprendi a tocar guitarra lendo revistinha. O aprofundamento veio com o blues. Aprendi a escala para poder fazer os solos.

EM – Aprendeu fazendo.
EE – Isso. Um amigo me passou a escala blues e achei bacana. Ouvia e comecei a entender os tons, as escalas.

EM – Como o blues apareceu?
EE – Ouvia pouco blues, mas já achava bacana. Peguei uma fita com BB King, Eric Clapton, Buddy Guy, Jimi Hendrix, Johnny Winter e comecei a encaixar a escala blues naquilo ali. Fui entendendo como fazer ouvindo esses caras. Eu tocava lá em casa, no Santa Rosa, no Guarujá. O Sérgio, um amigo que morava na rua de trás tinha um quartinho onde a gente ensaiava.

EM – E você Digo? Você tem dois irmãos mais velhos que são músicos.
Dogo Maransaldi – Meu irmão Lone é nove anos mais velho e já fazia parte da banda Angel e minha mãe ouvia muito Erasmo (Carlos) e Beatles. Depois conheci Led Zeppelin, Deep Purple, Jimi Hendrix. Apareceu um violão em casa, mas meu irmão nunca mexeu nele. Minha ideia era ser guitarrista então comecei a tirar Beatles. Em 1986 tinha 12 anos de idade, meu irmão já fazia shows e foi nos ensaios que aprendi música de verdade. Tinha um guitarrista que era bom e já gostava de blues, o Olímpio. Lá eles tocavam Elvis, Led, Tim Maia. O Olimpio perguntou do que eu gostava e eu disse que queria tocar bateria e guitarra. Ele me mandou sentar na bateria e tocar. Enlouqueci e acabei ficando na bateria. Não tinha dinheiro, mas arrumei um kit velho, de um amigo lá de São Vicente. Tive umas aulas na escola do CLAM com um professor que ensinou meio mundo aqui em Santos, o Pelado (Charlie Brown Jr), o Artur (Vulcano) foram dois deles. Só depois fui estudar em São Paulo com o Duda Neves. Em 1988 montei uma banda com o Sandro, meu irmão do meio. A gente tocava Golpe de Estado, Deep Purple e ela existe até hoje, a Lei Seca. Passei ao violão e foi quando comecei a ouvir blues de verdade. Havia dois programas de blues, um na TV Manchete e outro na Cultura, onde vi o Celso Blues Boy, Blues Etílicos e André Christovam. O Druídas – banda santista de heavy metal, cujo guitarrista Mauro Hector é o principal nome de blues de Santos – estava começando a tocar blues. E comecei a comprar os discos de Muddy Waters, Howlin Wolf, Robert Johnson, na Tremendão Discos, loja que ficava ali na Av. Ana Costa.



EM - Você também tem uma banda de samba rock. Quando e como começou a traçar esses dois caminhos?
DM – Até os 16 anos era muito radical. Não ouvia música brasileira. Mas a faculdade de arquitetura mudou a minha vida. Lá comecei a ouvir Djavan, Tom Jobim, Secos e Molhados, Caetano, Gil, Cartola, Noel Rosa, Pixinguinha. Adoro blues, jazz, mas também adoro bossa nova. Sou dividido. Na bateria gosto de tocar rock, mas no violão gosto de sambalanço e samba jazz.

EM – E como vocês se encontraram?
DM – O Sérgio foi da Yankee, banda de heavy metal que era do meu irmão e acabou ficando mais amigo meu do que dele. Quando a minha banda que tocava na noite mandou o baixista embora chamamos o Sérgio. Na época tocamos no Torto, Bar do 3, Mesa Redonda, ganhamos dinheiro. Uma vez houve um show na faculdade de arquitetura e o Sérgio chegou com um amigo com cara de índio dizendo que era guitarrista e que ia dar uma canja, tocar Jimi Hendrix e Santana. A jam que ia durar duas músicas durou a noite inteira. Isso em 1993.

EM – Formaram uma banda?
DM – Os integrantes da banda que eu tocava disseram que não queriam mais tocar...

EM – Por quê? Ficaram no veneno por causa do Dudu?
DM – Sim, não queriam mais. O Sérgio e o Eduardo tinha uma data agendada em um bar lá do Guarujá. Me meti no meio e disse pra não colocar batera que eu ia. Não tinha muitas gigs de blues na Baixada naquela época e o bar lotou. Fizemos sem nenhum ensaio e a banda não tinha nem nome.



EM – E como faziam para agendar shows se não havia cena?
EE – Eu trabalhava em várias coisas durante o dia para me manter. No Guarujá havia uns agitos que juntavam a galera do rock, blues, progressivo, no Pit Chicken and Beer. Até o Charlie Brown tocou com a gente lá nessa época. Conseguimos juntar bastante gente seguindo, a banda Delta Blues Nasceu no Guarujá. Fazíamos luau, festa de tatuagem e bares. Uma vez fizemos o carnaval num quiosque na praia e no último dia os caras do samba vieram fazer um som com a gente. (risos)

EM – Essa primeira fase durou quanto tempo?
DM – Entre 1993 a 2001 nunca paramos de tocar. Mas a moda virou pro Rappa, Charlie Brown, reggae. E eu era músico de tocar na noite e as coisas foram apertando. 

EM – E você Dudu?
EE – Eu intercalava com a Profano, uma banda de som progressivo autoral de Vicente de Carvalho. Uma mistura de Minas Gerais com Emerson Lake & Palmer. (risos)
DM – Eu me cansei de ficar na bateria. Resolvi ir para o samba rock. Dar um tempo. Na verdade, o Dudu é o único que ficou no blues esse tempo todo. 

EM – Ele é o único blueseiro autêntico? (risos) 
E o Sérgio?
DM – O Dudu é guitarrista, né? O Sérgio hoje está em Natal e dá aulas de inglês. 

EM – E quando foi a retomada?
DM – Você foi um dos responsáveis por isso.

EM – Eu?!
DM – Por causa do Clube do Blues.  Me falaram que estava rolando umas gigs em Santos e você que organizava. 

EM – Nessa época você não estava com o projeto Digo e a New Gafieira?
DM – Brequei por causa da Dog Joe. Voltei agora aos poucos. E o Dudu tem a Blues Power.

EM – Espera que está confuso. Vamos voltar um pouco.
EE – No breque da Delta Blues em 2001 eu fundei a Caverna Blueseira com dois amigos que já seguiam os nossos shows. Depois fundei a Blues Power com caras de Guarujá. O Digo foi para o trabalho solo, a New Gafieira. Depois voltamos para Delta Blues Revival que virou Dog Joe.


EM – Certo. Vamos voltar ao Clube do Blues de Santos.
DM – O Sérgio voltou ao Guarujá e armou um show que chamamos de Delta Blues Revival. O pessoal voltou a prestigiar e lotamos o bar de novo. Mas foi apenas uma gig. Daí um amigo me falou que você estava fazendo o Clube do Blues e vi que estava agendada uma noite com o Blues Power. (risos) 

EM – Sim. O Dudu apareceu uma noite e deu canja e eu tive de chamar, né?
DM – Então, eu chamei o Rogério Duarte e nós voltamos como Delta Blues Revival pra tocar no Clube do Blues.

EM – Quando a gente começa a fazer alguma coisa, não imagina o que vem pela frente. Vocês subiram no palco com uma lenda que é o Lurrie Bell. Qual foi a impressão que ficou?
EE – Foi importante. A gente tocando com ele no Bourbon Street e depois no Anhangabaú, no dia da Consciência Negra. Pensei em fazer apenas a base até você dizer pra entrar com tudo quando ele der a deixa. Mas segui a pegada dele.
DM – O segundo show foi mais pesado. Tinha mais gente e palcão. No primeiro a gente não teve ensaio. Só o vimos na hora de subir ao palco no Bourbon. E ele não fala muito, né? (risos) O show do Bourbon foi mais tenso, mas o outro foi mais solto. Ele mesmo estava mais solto. E tivemos a participação do Big Chico.

EM – Conta a história do disco Blues Rock Hotel.
DM – Havíamos gravado demos na época da Delta Blues, mas achava que devíamos gravar em CD. Tínhamos a Lady, Vida Mansa e a própria Delta Blues. Somos um bando de duros e resolvemos gravar um EP. Eu fiz a capa e o Rogério agitou com um amigo que grava. No fim, gravamos seis músicas. Mudamos o nome da banda para não gerar confusão. Delta Blues remete ao blues rural e na época que fundamos a banda não pensamos nisso. A gente até toca um pouco, mas não é normal. Dog Joe é vira lata. E a gente é isso. A gente vive de tênis velho e calça velha, tocando de bar em bar. O Ayrton Boka mixou por um valor bom. Tivemos ajuda financeira do Xandão, gaitista amador aqui de Santos e de um amigo do Dudu lá de Uberlândia que colocou uma grana. A produção foi nossa e gravamos ao vivo no estúdio. Teve overdub só em voz e guitarra, mas pouca coisa.




segunda-feira, 16 de julho de 2018

Liberdade dá o Tom é o tema do Santos Jazz Festival 2018


Entre os dias 26 e 29 de julho a 7ª edição do Santos Jazz Festival celebra os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Os artistas irão se revezar entre os palcos do teatro Sesc, Arcos do Valongo, Estação do Valongo e Bonde Arte. Os destaques são Toninho Horta, Duofel, Carlos Malta, Robertinho Silva.
O programa inclui oficinas musicais e roda de conversa. A banda  Afrojazz & Jesuton resgata a origem e influência africana no jazz e um tributo a Nina Simone, com a participação do DJ Negralha (Rappa). 
A Orquestra Mundana Refugi, composta por integrantes de nove países, prova que a música não tem fronteiras e une todos os povos. A cantora Izzy Gordon também homenageia Nina Simone e a brasileiríssima Elza Soares, outra incansável guerreira na defesa das mulheres e dos negros. 
Talentos da nossa cidade são representados por Cristopher Clark, Sambália Trio, Didi Gomes, Mauro Hector, Milton Medusa, Luiz Oliveira, Debora Tarquínio e vários nomes da Jazz Big Band.
O encerramento homenageia o Beatle George Harrison, que tanto difundiu a cultura da paz no mundo. A banda Blues Beatles reinterpreta hits do quarteto de Liverpool, no ano em que Harrison completaria 75 anos.
O Palco Arcos do Valongo fica na rua Comendador Neto, 09 - atrás do Museu Pelé - no Centro Histórico de Santos. O Sesc Santos fica na rua Conselheiro Ribas, 139, no bairro Aparecida. O Bonde Arte e Estação do Valongo ficam em frente ao Museu Pelé, no Centro Histórico.

Confira a programação:

Quinta-feira, dia 26
Teatro do Sesc 
20h30 - Abertura 
21h - Afrojazz & Jesuton & DJ Negralha - Tributo a Nina Simone 

Sexta-feira, dia 27
Palco Arcos do Valongo
19h - Orquestra Mundana Refugi & Carlinhos Antunes
21h - Izzy Gordon canta Nina Simone & Elza Soares
22h30 - Adriano Grineberg com participação de Ana Canãs
23h30 - Cristopher Clark & Banda - Soul e Blues

Sábado, dia 28
Estação Valongo
9h - 7º Valongo Motor Classics
11h - Quizumba Latina recebe Mauro Hector
13h - Orquestra de Metais da Banda Marcial de Cubatão & Milton Medusa

Palco Arcos do Valongo
13h - DJ Santos Jazz
16h - Jazz para Crianças c/Zero Beto
15h30 - Banda de referência do Projeto Guri
16h30 - Duo Hydridus (Argentina)
18h - "Elis no Jazz" com Sambália Trio & Didi Gomes 
19h30 - Duofel, Carlos Malta e Robertinho Silva
21h30 - Darrell Nulisch & Simi Brothers (EUA)
23h30 - Festa Futuráfrica c/Bnegão

Domingo, dia 29
Palco Arcos do Valongo
13h - DJ Santos Jazz
16h - Jazz para Crianças - Zero Beto
13 às 15h - Aula aberta de Dança - Lindy Hop
15h - Banda Lar das Moças Cegas (resultado da oficina teórica e prática de jazz e blues)
16h - Fotografia Sonora
17h - Toninho Horta & Jazz Big Band
19h - Luiz Oliveira & Convidados
20h30 - Blues Beatles

Bonde Arte
Sábado e Domigo, 15h e 16 h (quatro viagens)
Show da Debora Tarquínio Duo - Vozes Negras

Oficinas no auditório do Sesc Santos
Sábado, dia 28
11h - Esculpindo o Vento: oficina para Saxofones - Carlos Malta; 
14h -  Processo Criativo de Toninho Horta e lançamento songbook
Domingo, dia 29
11h - Violão Livre e Gestão de Carreira - Duofel
14h - Roda de Conversa com Wagner Alcântara - A Liberdade de Expressão como um Direito Humano – jornalista, professor e mestre em estudos de linguagem

sábado, 7 de julho de 2018

Mahalia e Etta vivem na música de Andrea Dawson


Menina negra norte-americana, cantora, protestante que cresceu na Igreja Batista. Essa história é conhecida.
Influenciada por Mahalia Jackson, uma das maiores cantoras gospel de todos os tempos, e a lenda do blues, Etta James, a quem dedica um projeto de resgate de seus “early years”, Andrea Dawson passou pelo Brasil no fim do ano passado (2017), quando concedeu essa entrevista ao Mannish Blog em um dos shows de sua extensa – para os padroões brasileiros -  turnê com onze datas.
Andrea fala fácil e tem um sorriso largo e, cantando, é a prova viva de uma de minhas teorias: a soul music veio do blues, mas a certa altura a matriz incorporou elementos da sua criação, metais, diversas vozes e groove. Música de protesto chacoalhando os quadris. E Ain't No Sunshine When She's Gone (Bill Withers), The Thrill is Gone (BB King), e I'll Take You There (The Staples Singer), atestam.
Apesar de ter a consciência sobre peso da tradição que carrega, seu primeiro trabalho, Left With the Uptown Blues, leva a todos os caminhos possíveis, desde os blues cantados na  era das grandes divas do século passado até seus atuais derivados. Um salve para o Igor Prado que facilitou essa entrevista.

Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Andrea Dawson (divulgação)



Eugênio Martins Júnior – Você começou a cantar na igreja com quantos anos?
Andrea Dawson – Além do pastor, a igreja Batista da minha pequena cidade tinha um coro com 60 cantores gospel. Me apaixonei pelo canto e me juntei a eles desde cedo, aos sete ou oito anos. Mas antes disso já vivia cantando o tempo inteiro.

EM – Para muitas cantoras a igreja foi o primeiro palco para se apresentar, não é verdade?
AD -  Sim. Minha inspiração era Mahalia Jackson. Minha família me disse: “Você quer cantar? Tem um lugar onde você pode cantar o dia inteiro. E me levaram pra igreja”. (risos)

EM – E quando foi que você dicidiu sair do seu emprego regular para seguir a carreira de cantora? O que a fez decidir?
AD – De onde eu venho, Dallas, Texas, há muitas bandas de blues e muitas jams e eu costumava cantar em algumas. As pessoas do meu bairro escutavam muito blues, nos anos 70 havia muito R&B, soul, e ouvi muito dessa música nos meus primeiros anos. Foi assim que comecei a cantar os blues.

EM – Qual paga melhor, o blues ou seu trabalho regular?
AD – Definitivamente meu trabalho regular. (risos)
A não ser que seja música pop. Não importa o que você faça nos Estados Unidos. Porém, cantar é muito mais compensador.



EM – Li que você era tão tímida a ponto de cantar em karaokês para perder a timidez. Isso procede?
AD – Sim, sabia que queria cantar, mas era muito tímida para estar em um palco. Então, todas as vezes que era possível tentava estar em um palco. Eu cantava nos coros da igreja e da escola e a transição para o palco não foi fácil.

EM – Você ainda sente isso hoje?
AD – Um pouquinho. Não tanto quanto costumava ser.

EM – Austin, Dallas e Houston são cidades quentes para o blues. Grandes nomes fizeram a fama nesses lugares, Johnny Copeland, Johnny Winter, T Bone Walker, só para citar alguns. Gostaria que falasse sobre isso e como está a cena.
AD – Sim, Stevie Ray Vaughan e muito antes dele Blind Lemon Jefferson. Muitos músicos continuam tocando um estilo bem particular nesses lugares. Você não vai ouvir por lá o estilo de Chicago. Em Dallas não há esse estilo suingado, nem metais como em Memphis, mas muita guitarra. Não é um blues voltado ao jazz. Já Austin continua mantendo a tradição, mas lá há um som bem selvagem. O clube Antone’s trouxe músicos de Chicago e da costa oeste e isso acabou influenciando um pouco os locais. Ainda existem muitos clubes, mas não tantos quanto costumava ter. Hoje tocamos blues em restaurantes, bibliotecas, museus, galerias e festivais.             

EM – Em seu disco Uptown Blues você viaja por muito estilos. Gostaria que falasse sobre essa viagem musical.
AD – Sim, tem mesmo. Gosto de muitos estilos musicais, soul, blues e country. Não country blues, mas country music. E nesse CD em particular canto várias desses músicas escritas por mim e por um outro compositor que soube interpretar o que eu queria.



EM – Atualmente você está trabalhando em uma homenagem a Etta James. Poderia contar como é esse projeto?
AD – Queria trazer a tona os primeiros trabalhos de Etta James. Ela tem uma história muito rica como precursora do rock and roll. Escreveu muitas músicas, tinha cantoras auxiliares, muitos de seus músicos dessa época também tocavam em big bands como a de Count Basie, e até na banda de Dizzy Gillespie. E seus shows tinham grande produção. Adoraria trazer isso de volta.

EM – Como têm sido os shows no Brasil?
AD – Têm sido lindo. Já fizemos oito do total de onze. Começamos no nordeste, em São Luiz, no Maranhão.Foi muito bonito, pessoas ótimas. Depois fomos para São Francisco Xavier, Curitiba. O Brasil é muito grande. Mesmo nos estados. Não imaginava que São Paulo fosse um estado. Achei que era apenas uma cidade. Fomos para Botucatu e tivemos de dirigir até lá e é longe de São Paulo. Também com pessoas ótimas.

EM – O brasileiro geralmente gosta do blues. É como se fosse o nosso samba. É a sua primeira vez no Brasil. Está gostando? 
AD – Sim. Gostei do país, da comida e das pessoas.

EM – O que você mais gostou no nosso país e o que não gostou?
AD – Gostei mais da vegetação natural. As árvores, as plantas, há tanto verde em todas as partes, o que não acontece nos Estados Unidos em muitos lugares. Aqui tem frutas e vegetais que nunca havia visto. O que menos gostei foi o trânsito em São Paulo. As motocicletas me assustam. Fico nervosa porque se fosse nos Estados Unidos estariam mortos. Eles voam no meio dos carros. É assustador. (risos)

EM – Você imaginava que havia tantas bandas e festivais de blues no Brasil. 
AD – Nunca. Muitos garotos brancos tocando blues. Talvez porque vocês também tenham a influência da música africana. Vocês têm muitos batidas. É muito compensador porque não apreciam tanto o blues assim nos Estados Unidos.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Vanessa Collier é o futuro do blues


Recentemente, em uma entrevista ao Chicago Defender, publicada em dia 20 de junho de 2018, James Yancy Jones, conhecido como Tail Dragger, afirmou que os jovens negros não se interessam mais pelos blues e que se não fossem os jovens brancos o gênero centenário criado pelos afro-americanos no sul dos Estados Unidos já estaria morto.
Uma declaração e tanto, que só não foi foi contestada, ainda, porque saiu da boca de um dos grandes do Chicago sound.
Tail Dragger, cantor de 77 anos, é considerado um dos últimos remanescentes dessa tradição secular, atuou com Howlin’ Wolf, o próprio blues.
Vanessa Collier é uma jovem que teve o contato com a música desde cedo. Graduada na Berklee College, a prestigiosa escola de música em Boston, enveredou pelo blues e seus derivados ainda na escola e nunca mais parou.
Em dois discos gravados, Heart Soul Saxophone e Meeting My Shadow, Vanessa mostra que veio para deixar sua marca. Ainda é cedo dizer se essa menina elogiada por Buddy Guy vai permancer na história.
Entre as certezas, a de que é  compositora de mão cheia, grande instrumentista – é saxofonista -  e tem uma bela voz.
Indicada a algumas premiações, entre elas Blues Music Awards, creditadas aos seus dois trabalhos que possuem variedade de estilos, reflexo do tempo passado com o eclético Joe Louis Walker, Vanessa talvez seja o melhor exemplo da afirmação de Dragger.
Recentemente, em uma parceria com Fred Sunwalk e a banda Dog Brothers, esteve no Brasil para alguns shows: 26 e 27 de maio, festival de Paraty; 29 de maio, Vila Dionísio (Ribeirão Preto) e 30 de maio, Bourbon Street (São Paulo). 

Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Vanessa Collier divulgação



Eugênio Martins Júnior – Vou começar perguntando com uma música de Buddy Guy: Qual foi a primeira vez que escutou um blues?
Vanessa Collier – A primeira vez que toquei blues simplesmente amei. Estava na sexta série, tinha uns 11 anos e toquei um blues de doze compassos em um aquecimento com uma banda de jazz antes de uma apresentação. Improvisávamos todas as manhãs antes da escola e desde então passei a amar isso.

EM – Os Estados Unidos possuem muitos saxofonistas lendários. É impossível dizer quantos. Quem você ouviu para moldar o teu som?
VC – Ouço estilos musicais diversos e penso que todos eles me ajudaram a moldar o meu som. No que diz respeito aos saxofonistas, adorei Cannonball Adderley na primeira vez que o ouvi. Ele é tão soul e bluesy mesmo fazendo jazz ou bebop! Coltrane, Jeff Coffin, até mesmo Ella Fitzgerald me ajudaram a ver que qualquer instrumento é apenas a voz humana tocada através dele. Uma das minhas maiores influências foi o meu professor, Chris Vadala. Amei seu som doce no saxofone e fiquei impressionada ouvindo alguns de seus conceitos durante nossas aulas. Ele me inspirou com sua paixão e amor pelo saxofone e pela música.

EM - Você é uma jovem que poderia estar tocando música pop e talvez ganhar muito dinheiro, mas preferiu mostrar seu ponto de vista sobre os blues, essa música centenária. Me fale sobre isso.
VC – Acredito fortemente que o dinheiro não faz você feliz, mas conexões, ser sincero, honesto e real sim. Blues é a música mais honesta, verdadeira e a espinha dorsal de toda a música. Mesmo grande parte da música pop tem raízes profundas no blues. Escolhi fazer a música que me atraiu desde o começo e continuo a explorar tudo o que tem a oferecer. É uma jornada de aprendizagem ao longo da vida, adoro aprender e crescer. O blues permite que você cresça e expresse cada emoção com honestidade. Faz todo mundo feliz também porque todos nós podemos nos conectar a ele, não importa a idade ou a circunstância. É verdadeiramente universal e nos mostra que somos todos iguais no coração.

EM - Mas você faz uma mistura poderosa entre blues, soul e funk que não deixa ninguém com seus quadris parados.
VC - Obrigado! Mais uma vez, acho que o blues foi a raiz de tudo, gerou os movimentos do funk e a soul music. Sempre fui atraída por James Brown, Otis Redding, Ray Charles, Bonnie Raitt e muitos outros. Amo muito a música e tudo isso vive na câmara do groove do meu coração, então eu apenas toco tudo que amo.




EM - Usei uma plataforma de crowdfunding para publicar meu primeiro livro e vi que você também está usando para lançar um CD. No passado artistas procuravam rótulos como apoio. Por outro lado, o crowdfunding nos torna os donos do nosso trabalho. Gostaria falasse sobre isso.
VC – Fui atrás de alguns selos e percebi que não serviriam pra mim. Uma das coisas que aprendi na faculdade foi encontrar uma maneira de fazer quase tudo sozinha. Com a gravação com qualidade de estúdio se tornando mais acessível e o avanço tecnológico, é muito mais fácil e muito mais barato produzir, lançar e promover um registro por conta própria. Esse modelo permite que você mantenha todas as suas gravações masters, publicando e mantendo sua integridade e independência, decidindo o tipo de artista que quer ser. Você não precisa ser rotulado por uma gravadora que tem uma visão limitada de seu talento artístico. Acho que artistas bem sucedidos, com longevidade, têm seu próprio nicho e estão fora das normas. O crowdfunding permite que tudo isso aconteça e as pessoas que já amam e apóiam sua música e sua carreira podem ter um papel ativo nela. O crowdfunding permite que você construa e aumente sua comunidade e promova uma aproximação profunda com o público, pois cada uma dessas pessoas faz parte da jornada ao seu lado. É incrível construir essa espinha dorsal, esse suporte. Tenho relações especiais com os fãs através das campanhas de crowdfunding que tenho realizado e sou imensamente grato a cada uma deles porque não teria tido tanto sucesso.

EM - Há alguns meses, Joe Louis Walker tocou em uma casa de shows em São Paulo e eu estive lá e fiz uma boa entrevista com ele. Gostaria que você falasse sobre o tempo que passou tocando com esse grande artista.
VC – Joe Louis Walker tem sido um dos meus mentores. Tive meu primeiro teste da estrada com Joe tocando principalmente na costa leste e também uma turnê de um mês na Turquia, que foi uma das melhores em que já estive. Joe é um artista que poderia estar no centro da cena blueseira se ele quisesse, mas vem de um background gospel, soul, funky, rock e muito mais, então ele toca todos os estilos. Com ele toquei tudo o que amo. Também aprendi percussão, fiz backing vocals, além de tocar saxofone. Sua banda é sempre ótima e ele tem um grande conhecimento histórico, musical e grandes histórias da estrada. Sempre aprendo algo novo quando estou com ele. Esse um ano e meio de turnê foi uma introdução musical maravilhosa e memorável, me apaixonei desde o início.

EM – Como começou a parceria com Fred Sunwalk and the Dog Brothers? Você conhece a cena brasileira de blues?
VC - Fred falou comigo e com meu empresário sobre vir tocar no Brasil. Daí assisti a um vídeo com Fred and the Dog Brothers tocando Blues Everyday. Ele estava no meio da multidão fazendo slide com uma garrafa de cerveja que alguém havia lhe dado. Pensei: “Esse cara é incrível! Eu quero ir!” Então vim para um festival e passei algum tempo com sua família, incluindo os Dog Brothers e suas famílias e apenas senti que era minha segunda casa. A cultura brasileira é muito mais calorosa e aberta do que os americanos típicos. Por exemplo, os americanos acham estranho abraçar quando você conhece alguém, mas parece que no Brasil, abraços são bem-vindos! Eu encontrei alguns artistas como Igor Prado e Alvaro Kapaz, que são da mesma escola. Aprendo mais sobre a cena do blues brasileiro cada vez que venho.



EM – Você chegou a tocar com Marcos Valle? O que acha da música brasileira?
VC - Toquei em uma banda como suporte a Marcos Valle. Conhecia muito Jobim e Gilberto porque essa é a música brasileira no mundo do jazz e a qual fui apresentada, mas descobri que já conhecia muita música de Marcos Valle. Simplesmente amo a música brasileira que ouço, porque para mim, há sempre muita paixão e ternura. Sempre com groove e melodia, mas a melodia sempre flutuando sobre o groove. É animada, sensual e fascinante e eu a amo por isso.

EM – Você ensina música para jovens estudantes?
VC - Tenho ensinado desde 2005. Fui convidada para ensinar um aluno da sexta série no verão, antes de eu mesma entrar na nona série e fiquei muito nervosa. Ensino os fundamentos e os princípios da boa produção sonora, já que isso é o mais importante. Tenho cerca de 30 a 35 alunos por ano. Desde que me formei na faculdade em 2013, lecionando três dias por semana. Desde então tenho aprendido técnicas de ensinar arte para alunos mais jovens. Sempre trabalho para inspirá-los e ajudá-los a encontrar sua própria voz e forma de expressão e espero que eles também apliquem o que eu ensino fora da sala de aula.

EM – Fale-me sobre Heart Soul Saxophone e Meeting My Shadow.
VC – Heart, Soul Saxophone foi meu primeiro disco e reúne algumas de minhas músicas favoritas, juntamente com algumas das primeiras que escrevi. Tongue Tied, The Run Around, Keep It Saxy, e a cover I Can’t Stand The Rain são algumas das minhas favoritas desse registro. Meeting My Shadow é meu segundo disco e amo suas composições. When It Don't Come Easy é uma música premiada como melhor letra e Posioned The Well, Whisky e Women, Two Parts Sugar são algumas das minhas composições favoritas. Este disco também apresenta Laura Chavez na guitarra, que é uma de minhas guitarristas e pessoas favoritas. E estou super empolgada para lançar meu novo álbum Honey Up na próxima semana. São nove originais e uma de minhas favoritas, Love Me Like A Man. É um disco bem New Orleans, funk e até um pouco de blues e rock. Amo esse álbum de cima a baixo.

Entrevista Tail Dragger:
https://chicagodefender.com/2018/06/20/what-has-happened-to-the-blues/


sexta-feira, 15 de junho de 2018

Matt "Guitar" Murphy morre aos 88


Ele ficou conhecido do grande público como o marido rebelde de Aretha Franklin e guitarrista da banda The Blues Brothers no filme homonimo, mas Matt “Guitar” Murphy era muito mais do que isso.
Nascido em Sunflower, no Mississippi, educado em Memphis e, por fim, baseado em Chicago, onde se juntou à lenda Howlin’ Wolf, Murphy esteve nas três localidades mais importantes do blues. Tinha mesmo de ser músico.
E como sideman trabalhou com a nata do blues, Little Junior Parker, Memphis Slim, Ike Turner, Muddy Waters, James Cotton, Otis Rush, Etta James, Sonny Boy Willianson II, Chuck Berry e Joe Louis Walker. Além, é claro, da Blues Brothers Band, com Lou Marini, Steve Cropper, Donald “Duck” Dunn, Willie Hall, Steve Jordan, Tom Malone, Alan Rubin, Paul Shaffer e Tom Scott. Sempre muito bem acompanhado.
Era celebrado como um dos grandes guitarristas do blues e em 1998 ganhou uma homenagem quando as guitarras Cort fizeram um instrumento com sua assinatura. 
Em 2002 já havia sofrido um AVC, tendo retornado aos palcos alguns anos depois. Matt “Guitar” Murphy morreu hoje aos 88 anos.
Sua discografia conta com Way Down South (1990), The Blues Don’t Bother Me (1996), Lucky Charm (2000) e Last Call (2010).


segunda-feira, 4 de junho de 2018

Márcio Abdo a harmônica cromática e seus personagens

4ª Mostra Blues de Santos

Texto: Eugênio Martins Jr
Fotos: Tiago Cardeal

Antes de levar a vida na gaita, Márcio Abdo foi caminhoneiro e vendedor de carros. Sim bluesmaniácos, se a vida de um blueseiro no país do blues já não é fácil, o que diremos no país do samba.
Porém, há sete anos dedicando-se exclusivamente aos bends, trinados e tongue blocks, Abdo também compra e vende amplificadores, microfones, conserta e customiza gaitas, dando aulas do instrumento para interessados em todo o Brasil.
Além de tudo isso, todas as segundas sextas-feiras do mês mantém uma jam session com músicos profissionais e amadores no Tchê Café, em São Paulo.
O projeto é similar às blues jams que acontecem nos bares da Califórnia, estado chave no desenvolvimento da harmônica cromática no blues e que Abdo visita regularmente.
A banda oficial é sempre a Abdo Blues Band, que faz a abertura e as boas vindas. Depois os jammers começam a ser chamados e a blueseira pega fogo. Todo músico que chega na casa coloca o nome na lista dizendo se é cantor ou qual instrumento toca. Os times são montados ali mesmo e ao subirem ao palco tocam entre três e cinco músicas. O legal é que muitos dos músicos nunca tocaram juntos e têm a chance de improvisar ali na hora. Músicos do interior de São Paulo, Chile e Estados Unidos já passaram por lá.
Além de músico hábil, que canta em português e mostra em seus discos algumas das técnicas criadas em Chicago e a Califórnia, os dois berços das harmônica blues, Abdo é um profundo conhecedor da gaita cromática e de seus personagens de São Paulo e Rio.
Ele esteve aqui em Santos com sua banda, Mr John (guitarra), Victor Busquets (bateria) e Pedro Ferreira (baixo), dentro da 4ª Mostra Blues de Santos produzida por mim e pelo Sesc, onde ministrou uma oficina sobre a história e técnicas da harmônica, fez um show baseado no seu mais recente trabalho, Plano B, e concedeu essa entrevista.



Eugênio Martins Jr – Como foi parar no Blues? Já começou direto na harmônica?
Márcio Abdo – Não. Queria ser guitarrista como o Jimmy Page do Led Zeppelin. Em 1986, aos 16 anos e com toda aquela cena do rock nacional, vi um cara tocando bateria e fiquei fascinado, logo comprei uma. Entrei num conservatório e comecei a tocar rock nacional nos bailes do bairro, mas ficava com inveja dos meus amigos guitarristas que ficavam na linha de frente. Quando se é jovem você quer tocar para impressionar a mulherada. Aos 19 anos conheci o Paulo Carvalho, um tremendo baixista que já havia ido aos Estados Unidos e que tinha uma banda de blues chamada Blues Dogs, ou alguma coisa assim. Ele também tocava saxofone, então vendi a minha bateria e comprei um saxofone e iniciei meus estudos de blues no saxofone. Esse cara me levava aos shows de blues no Bixiga, no Café Piu Piu, existia uma cena forte de blues em São Paulo. Comecei a curtir mais blues, mas nunca deixei o rock and roll.  Um dia liguei a televisão e vi uma banda de blues com um cara tocando o que eu nem imaginava que seria uma gaita. Na hora percebi que aquele era o som que estava buscando, o saxofone tinha algo semelhante, mas a gaita gritava e chorava, era isso que eu precisva. Contei pro Paulão que tinha visto um cara tocando um negócio que parecia a bunda de um ventilador. Ele: “Cara, isso é gaita”. Gaita? (risos)

EM – Quem foi que você viu na TV?
MA – O Blues Etílicos. O Flávio Guimarães, o Otávio novinho com camisa de surfista e tal. Eles estouraram com o discos Água Mineral e San Ho Zay e vinham muito pra São Paulo. Comecei a acompanhar a agenda desses caras que geralmente iam ao Centro Cultural Vergueiro, ao Aeroanta, onde tocou muita gente famosa da época e em outros lugares da cena.

EM – Você, por exemplo, usa a cromática pra tocar blues no Brasil. E também conhece muito a história do instrumento e seus personagens. E teve passagens com alguns deles, fale um pouco sobre isso.
MA – Era difícil ter acesso a informação quando comecei. Precisava arrumar um professor de gaita. Na rua 24 de maio existia uma casa de instrumentos musicais linda, a Casa Manon, que tinha gaita de tudo quanto é modelo, alguns nem existem mais hoje, muita gaita mesmo. Comprei a minha primeira gaita diatônica de corpo de madeira e no mesmo balcão tinha lá um cartão escrito "Aulas de gaita com Omar Izar". Na minha opinião, o melhor timbre de gaita cromática do Brasil e um dos melhores do mundo. Liguei pra ele e disse que queria aprender a tocar gaita blues. Ele disse que sua especialidade era gaita cromática, mas poderia me ensinar o básico da gaita blues. Tive apenas três aulas e como na época não tinha interesse em cromática, sai em busca de um outro professor. Anos mais tarde, Omar foi o cara que me ensinou a afinar gaita blues. Ele foi o gaitista que mais apareceu na televisão antigamente. Quando falei que queria aprender a tocar gaita, minha mãe já disse logo, “tem o Omar Izar”.
Depois das aulas iniciais descobri outra loja, a Irmãos Vitalle, e lá tinha um cartão escrito: “Kley Willians, professor de gaita blues e cromática”. Ele dava aulas na 24 de Maio, ao lado do Teatro Municipal. Nunca esqueço, número 35. Quando cheguei ele me pediu pra tocar e disse que eu não fazia os bends. Perguntei o que era aquilo, não imaginava o longo caminho que tinha pra percorrer. Era um inferno aprender os bends. Consegui um afinador e ficava naquilo o dia inteiro. Um dia meu irmão mais velho abriu a porta no quarto e disse: “Ô meu, joga isso no lixo. Vai tocar violão. Vai aprender outra coisa. Isso aí parece um pernilongo bêbado”. Foi meu primeiro incentivo. Ele se formando em engenharia, cinco anos mais velho e eu tatuado querendo ser músico. Me formei em jornalismo para agradar a minha mãe e porque gostava de escrever. Então o Kley Willians, que na verdade era o Zezinho de Lima, e hoje, aos 93 anos, mora em Peruíbe, foi o meu segundo professor de gaita e quem me abriu os olhos para o universo do blues. Ele havia ganho um prêmio da loto e pegou uma pequena bolada, comprou uma casa em Peruíbe, viajou para a Europa pra conhecer a fábrica Hohner, comprar gaitas e parou de dar aulas.
Naquela época não existia internet e a gente demorava muito para descobrir as coisas, um tempo depois, em 1991, conheci o Clayber de Souza, um dos grandes improvisadores da gaita cromática do Brasil. Comprei uma gaita cromática e comecei a estudar com ele. Na segunda aula o Clayber me convidou pra ser um dos monitores do método de ensino dele. Tinha muita coisa a aprender ainda e tive muitas aulas já nesse sentido.
Nelson Barbosa também dava aula no Largo do Paissandú, ao lado da igreja, ao lado do prédio da polícia federal que desmoronou recentemente. Lá ele formava pequenas orquestras, que era a onda dele. Tocava harmonetta como ninguém, ele tocando tango na harmonetta era uma coisa incrível. Mas quando iniciei meus estudos na gaita ele já havia falecido.



EM – Teve a história com o Ulisses Cazalas também.
MA - O Ulisses me ajudou muito. Era do sul, membro da Orquestra de Harmônicas de Curitiba e dei sorte dele vir morar perto da minha casa, lá na Vila Matilde. Na época eu tinha um caminhão e já tocava. Sempre quis aprender a consertar gaita. Perguntei se ele me ensinava a consertar gaita e ele disse sim. Disse ainda que se eu não tivesse dinheiro pra pagar as aulas ele me ensinava de qualquer jeito. Viramos muito amigos. Todo sábado ia a sua casa. Ajudava-o a vender seus métodos de gaita blues para as lojas de instrumentos de São Paulo. A gente saia direto, fomos ao show do Flávio Guimarães no Bourbon Street, na época tinha o Mr Blues, outra casa de blues de São Paulo. No final ele voltou pro sul e morreu por lá. Fiquei muito triste. Ele foi como um pai pra mim.
Tem também o Haroldo Gonçalves lá de Osasco. Conheci no início dos anos 90 quando fui fazer aulas com o Clayber. O Haroldo é uma pessoa incrível, sempre disposto e animado. Tomamos muitos conhaques juntos e falamos horas e horas sobre gaita. É sempre muito bom estar com ele, sempre aprendo histórias da gaita e da vida . Ele continua consertando gaitas e tocando.
Na Lapa existia um lugar chamado Tendal onde todos os sábados tinha aulas de gaita gratuitas. Era um galpão com uma sala enorme, um monte de gente aprendendo a tocar gaita. Lembro que tinha dois professores lá, mas não me recordo os nomes. Um deles tinha apenas uma parte de um braço, mas segurava a gaita do jeito dele. Lá conheci um japonês que já fazia o cromatismo na gaita diatônica, pedi pra ele me mostrar como fazia aquilo e e ele me enrolou. Tinha um senhor cego com um timbre fantástico de gaita cromática e um super ouvido.

EM – Você falou de São Paulo. E no Rio?
MA - No Rio acredito que ninguém gravou gaita cromática antes de Edu da Gaita. Acho que ele foi o pioneiro da gaita no Brasil. A maioria dos gaitistas mais velhos dizem que escutaram o Edu da Gaita. Ele também não lia uma nota musical. Mas nos anos 40 já tinha coisa gravada. Gravou o Moto Perpétuo de Paganini com aquelas milhares de notas que o músico tem de tocar em um tempo mínimo. Uma loucura. Ouvi falar que o Edu passou onze anos estudando aquela música. Tudo de ouvido e quando resolveu gravar teve até equipe de reportagem para registrar. Não me lembro direito, mas que quando ele estava na 17ª tentativa um jornalista derrubou uma máquina de escrever no chão e o desconcentrou bem no final. Parece que conseguiu na 38ª tentativa.
Depois do Edu da Gaita apareceram outros caras como o Manuel Xisto - mais conhecido como Fred Willians - Maurício Einhorn e o Rildo Hora. E no blues tivemos os pioneiros Zé da gaita, Carlitos Patrone com a banda Atlântico blues e o mestre Flávio Guimarães.


EM – E blues, quais foram os primeiros que viu e ouviu tocar?
MA – Eu não cheguei a ver tocar, mas já fiz muitos consertos de gaita para o Mazinho, Marco Aurélio, de uma banda chamada SS 433, que era blues rock. Parece ter sido o pioneiro da gaita blues em São Paulo. Depois veio o Paulo Meyer na banda expresso 2222, um dos primeiros que vi tocando em São Paulo, junto com o Fernando Naylor, o Dr Feelgood, que tocava com o André Christovam e depois com o Nasi. Mas o Flávio Guimarães, sem dúvidas foi o cara que abriu as portas da gaita blues no Brasil. A segunda geração veio com o Sérgio Duarte, o Vasco Faé, Flávio Vajman, o Ed Blues, da Calibre 12, uma das bandas paulistanas mais antigas. Essa nova geração começou a viver de gaita e dar aulas. A partir daí foram surgindo tantos outros nomes e me incluo nessa terceira geração de gaitistas paulistanos. Fiz aulas com o Sérgio Duarte, ele conheceu o James Cotton, o Willian Clarke e aprendeu muita coisa com os caras, principalmente na questões de embocadura e timbre. Foi o Sérgio que me empurrou para o mundo do blues e me abriu muitas portas. Produziu meu primeiro CD, o Na Melhor Hora.

EM – A tua escola de blues é Chicago, West Coast ou as duas coisas?
MA – Acredito ser as duas. Meus estudos e referências estão voltados aos gaitistas de Chicago e Califórnia. Em Chicago tem a old school com os dois Sonny Boys (I e II), os dois Walters Little e Big Horton), Junior Wells, James Cotton, Jerry MacCain, Carey Bell. Esses caras são os reis. Na Califórnia a old school é George Harmonica Smith que, na minha opinião, foi o mestre da gaita cromática no blues e que deixou um legado de grandes gaitistas naquele estado. Se você analisar, hoje temos na Califórnia a nata da gaita blues. Além do falecido Willian Clarke, temos Rod Piazza, Mark Hummel, Gary Smith, Rj Mischo, Kim Wilson, Rick Estrin, David Barret e Aki Kumar.

EM – Qual é a melhor hora para a cena do blues nacional? Hoje ou há 20 anos?
MA – Acho que há vinte anos, hoje e sempre. Há 20 anos não faria o que faço hoje. O disco Na Melhor Hora foi lançado em 2011. Tenho muita satisfação de escutar esse disco. Tem solos que eu coloquei da melhor forma naquele momento. O Plano B lançeu em 2015 e já tem sonoridades bem diferentes.

EM - Você acha que está acontecendo uma renovação?
MA – Ano passado pude constatar em uma viagem para a Califórnia que o público de blues de lá é composto por pessoas mais velhas. Acredito que os músicos e público não estão se renovando na proporção que deveria, tanto lá como aqui no Brasil. A gente percebe que isso vale para todos os outros estilos musicais. O mundo está mudado e caminha de forma esquisita com relação à música.



EM – Sem citar nomes, hoje temos uma linhagem de gaitistas de todo tipo no Brasil. Você acha que a gaita blues brasileira atingiu uma linguagem ou são todos imitadores?
MA – Hoje percebo que tem uma galera aqui no Brasil que formou uma linguagem. Pode até soar como alguém lá de fora, não tem como fugir disso. Não vai tocar nada a mais do que o Little Walter,  Sonny Boy ou gaitistas da Califórnia, mas colocam elementos brasileiros dentro de um estilo que é americano.

EM – Estávamos há pouco no boteco falando sobre as mudanças na música. Você teve a idéia de gravar dez vídeos que acabou virando um CD. Hoje é mais importante fazer música e mostrar no Youtube do que gravar um disco?
MA – Com toda certeza, a imagem hoje é muito mais importante do que a música em si, infelizmente. As pessoas não compram mais só a música. Elas consomem músicas que estão acopladas a algum movimento, moda ou visual. Por isso tantos artistas estouram na mídia sem ao menos terem gravado um único CD. Com apenas um vídeo na internet conseguem atingir a fama.
Tinha algumas músicas novas e me ocorreu a idéia de gravar alguns vídeos como material de divulgação com um time novo. Mostrar como o projeto Blues PraPular Brasileiro funciona no palco. Foram quase seis horas de gravação. Gravar com imagem é bem mais complicado. Se você erra não dá pra refazer apenas onde houve o erro, tem que tudo de novo.

EM - Por quê o nome Plano B?
MA – O plano A era gravar apenas os vídeos. Mas quando fui na técnica gostei do resultado. É um disco totalmente ao vivo ,sem emendas e correções. Só fizemos mix e master. Achei a execução muito boa. Por isso coloquei o nome de Plano B.

EM - Você também dá aulas e conserta gaitas pra viver. Viver de blues no Brasil engloba tudo isso?
MA – No meu caso sim, eu não vivo de blues, vivo de gaita. Conserto, dou aulas, toco e compro e vendo gaitas, microfones e amplificadores. Se eu não fizer tudo isso fica difícil. Pouquíssimos no Brasil conseguem viver de gaita, mas com certeza o Brasil é atualmente um dos maiores consumidores de gaita do planeta. Acredito termos mais amantes de gaita no Brasil do que nos Estados Unidos.

EM – Gostaria que falasse sobre a importância de ter um bom timbre, já que você sempre enfatiza isso.
MA – Little Walter como tantos outros mestres da gaita blues deixaram um legado de timbres. O Omar Izar me disse que estudava timbre há muitos anos. Tem um DVD do Gary Smith que ele mostra muitos microfones e amplificadores, mas ele enfatiza: o som está na sua boca e na sua garganta. Você tem de moldar a sua musculatura, a tua forma de respirar para produzir volume e som de qualidade, para depois colocar em um bom microfone e amplificador. Minha opinião é que a gaita tem basicamente sua construção feita em cima de latão. Se você não se preocupa em tirar um bom timbre estudando embocadura e respiração, vai ter um som de lata. Vai ser um latista e não um gaitista. (risos)




sábado, 2 de junho de 2018

Morre um dos grandes de Chicago, Eddy “The Chief” Clearwater

Fotos: Cezar Fernandes

Ontem, dia 01 de junho, o mundo perdeu um dos grandes nomes do blues de Chicago. O guitarrista Eddy “The Chief” Clearwater, morreu de infarto aos 83 anos em sua casa. Ele ganhou apelido de "The Chief" porque era descendente de índios Cherokee.
Nascido em Macon, no estado do Mississippi, mudou-se para o Alabama onde foi criado por sua avó Cherokee e, nessa mesma época, aos 13 anos aprendeu a tocar guitarra sozinho, pois era canhoto e usava o instumento invertido.
Nos anos 50 foi para Chicago lavar pratos, mas lá já estava o seu primo, o gaitista Carey Bell, que o colocou em contato com os grandes Otis Rush (também canhoto) e Magic Sam os pilares do blues elétrico da windy city.
Seu nome verdadeiro era Edward Harrington e o nome Clear Water foi dado pelo seu empresário e baterista, Jump Jackson, e foi uma brincadeira com o cara que dava as cartas naquela época em Chicago, o boss Muddy Waters.
Eddy rodou o mundo com sua música e sua discografia possui mais de 15 títulos, um verdadeiro panorama da evolução do blues elétrico de Chicago. Um legado musical incomparável.
Veio ao Brasil Rio das Ostras Jazz e Blues Festival, em 2006, e foi capturado espetacularmente pela câmera do fotógrafo especializado em shows, Cezar Fernandes. Cezinha é colaborador do Mannish Blog desde seu nascimento e um dos fotógrafos mais talentosos da cena.
Eddy tinha 83 anos.