terça-feira, 23 de maio de 2017

União 2 - Eduardo Machado e Robertinho Silva


Essa seção surgiu da vontade em divulgar os lançamentos e prestigiar os artistas de blues e jazz brasileiros que trabalham duro para gravar um CD autoral. E também, mostrar todos os profissionais envolvidos na produção.
Nunca antes na história desse país a cena independente foi tão forte. A popularização dos meios de gravação e veiculação, com o advento da internet, proporcionaram isso.
Surfando nessa onda, o Mannish Blog continua com sua missão de divulgar a boa música do Brasil.

Músicos: Eduardo Machado (baixo), Robertinho Silva (bateria e percussão), Gil Reis (teclados), Victor Biglione (guitarra), Diego Figueiredo (violão), Gabriel Grossi (harmônica), Nay Carvalho (voz), Chico Oliveira (trompete), Sizão Machado (baixo), Ivinho Loppes (voz) e Alegre Corrêa (voz, violão e percussão).

Arranjos: Eduardo Machado
Técnico de gravação: André Bolela
Mixagem: André Bolela e Eduardo Machado
Masterização: Vitor Hirtsch/Engine Room Áudio (NYC)
Faixa multimídia: Luiz Lema
Vídeo: 3B produções
Fotografia: Delzio Marques
Arte: Gustavo Fiori Galli

Gravado em 15, 16 e 17 de outubro de 2015 no Estúdio Inside Áudio & Midia - Franca SP - Brasil

Músicas: 
1 - Pra Vocês
2 - Choro Carnavalesco
3 - Mano Zé
4 - Lua Laranja
5 - Na Contramão
6 - Cecília
7 - Encontro das Águas
8 - Three Views of a Secret
9 - Multimedia track

Encontro das Águas dedicada a Elsio Malta Barboza, in memorian

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Samsung Blues Festival recebe Albert Cummings em julho

Fãs do blues rock terão a oportunidade de assitir no dia 03 de julho pela primeira vez no Brasil o guitarrista Albert Cummings


Albert Cummings está fora do eixo blueseiro do sul ou das cidades com tradição mais ao norte como Chicago e Detroit. Cummings vem de Massachusetts, onde aprendeu os acordes do blues com seu pai. Na adolescência se tornou fã do bluegrass e migou para o banjo.
Foi tocado pela música de Stevie Ray Vaughan ao assistir o show do virtuoso do Texas e nunca mais abandonou o blues.
Trabalhou como carpinteiro e fundou o grupo Swamp Yankee e com o qual se inseriu no circuito blueseiro da sua região até se apresentar com ícones do gênero, como B.B. King e Buddy Guy. Também trabalhou com o Double Trouble, banda de seu ídolo Stevie.
No Brasil Cummings apresenta as músicas de Someone Like You, seu mais recente álbum e um apanhado de seus disco, marcando seu retorno às raízes com a gravadora Blind Pig Records.
Sua discografia conta ainda com From the Heart (2003), True to Yourself (2004), Working Man (2006), Feel So Good (2008), No Regrets (2012) e Someone Like You (2015).

A realização é da Dançar Marketing Produções, via lei de incentivo do Ministério da Cultura.


Hammond Grooves – Os especialistas no mítico órgão Hammond B3 fazem um show empolgante e descontraído, misturando jazz, funk, boogaloo com ritmos brasileiros, maracatú, samba, baião, frevo, etc. O Show inclui também músicas que ficaram conhecidas nesta formação de organ trio, homenageando os mestres Jimmy Smith, Wes Montgomery, Jack McDuff, Reuben Wilson, Dr. Lonnie Smith, Jimmy McGriff, Grant Green, Big John Patton, Earl Grant, George Benson e outros.

Serviço:
Show: Albert Cummings e Hammond Grooves
Data: 03 de julho
Local: Teatro Opus - Av. das Nações Unidas, 4777 (Shopping Villa Lobos - terraço).
Horário: 21h (artista nacional duração de 40 minutos e artista internacional duração de 1h).
Ingressos: Alta central: R$150,00
Alta Lateral Vale Cultura: R$50,00
Alta Lateral: R$80,00
Balcão Nobre Vale Cultura: R$50,00
Platéia Baixa Central: R$200,00
Platéia Baixa Lateral: R$100,00
Dispõe de meia entrada
Classificação: 16 anos
Abertura da casa: 2h antes

terça-feira, 2 de maio de 2017

As duas grandes escolas musicais brasileiras, percussão e cordas, presentes na música de Alexandre Birkett


Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: José Luiz Borges

Alexandre Birkett é professor de música e custeia seus discos com suas aulas. Além de estudioso, é um curioso das cordas, o que faz toda a diferença quando se deixa de lado a rigidez dos estudos para abrir passagem ao lúdico.
Birkett se enquadra na categoria de músicos como Guinga, Marco Pereira, Ulisses Rocha e Paulo Bellinati e, além de linguagem própria, onde as cenas brasileiras se fazem presente sempre, cultiva parcerias duradoras. 
Uma com o baixista Washington Soares, do CD Feira Livre. Outra, prolífica,  com o baterista e percussionista Robertinho Silva que rendeu dois álbuns conceituais de destaque na discografia instrumental brasileira: Mixtura Brasileira e Cordas e Tambores. Verdadeiras viagens pelas montanhas de Minas e o sertão do Nordeste.
Temporal é uma obra prima. Essencialmente de cordas e percussão, as duas grandes escolas brasileiras, o CD nos pega pelos ouvidos e pelo coração.
Além da relação com o tempo, a palavra Temporal também representa a descarga de energia provocada pela natureza. É sem dúvida o CD mais experimental da carreira de Birkett que introduziu timbres de cordas variados, colocando cavaquinho, violão tenor, banjo, craviola, violão de seresta e guitarra portuguesa na frente da vitrine.
Também reuniu um time de bambas. Além de Washington, o musicista Jorge Lampa  e o guitarrista John Stowell que sola durante nove minutos em Fragmentos de Alice e abrilhanta El Guardian. Nesse trabalho as percussões ficam por conta de Plínio Romero e os irmãos Binho e Vanderson Franco, filhos do Mestre Paulinho, da escola de samba Brasil de Santos.
Não existe desculpa. A entrevista realizada há dois anos só está sendo publicada agora pela minha total falta de organização. 
Gravei em fitas – ainda no primeiro gravador analógico que comprei ao entrar na faculdade de jornalismo – que frequentemente desaparecem no triângulo das bermudas das minifitas cassetes que existe aqui no meu apartamento. 
Um dia elas aparecem. E entre uma cerveja artesanal e a lida do dia a dia eu trancrevo e publico as conversas nesse Mannish Blog.


Eugênio Martins Júnior – Quando começou tocar violão e guitarra?
Alexandre Birkett – Comecei os dois ao mesmo tempo, a partir dos 16 anos, Led Zeppelin e Beatles. Tocando com os amigos na rua, na primeira metade dos anos 80, um pouco tarde. Todos eles foram para outros caminhos. 

EM – Naquela época a cena roqueira de Santos era bem forte. Você passou por alguma banda?
AB – A banda mais próxima era o Alta Tensão, do Washington, Dentinho, Mauro e Marcelo Elias. Naquela época também havia bandas de jazz rock, tinha o Tempo e Espaço onde toquei. Música instrumental tocava na rádio. Comecei no rock, mas logo me interessei por Santana e John McLaughlin. Fui por esse caminho. Estudando sozinho e tirando as coisas dos discos. Essa época não tinha internet. Se um cara no Canal 1¹ tirava uma música do Yes a gente ia lá perguntar como ele fazia. A coisa era mais ou menos assim. O guitarrista do Alta Tensão tocava aquele solo da música Eruption, do Van Halen e quando eles fizeram um show na danceteria Heavy Metal a molecada foi ver como ele tocava, mas na hora do solo eles cobriram com uma toalha e não deixavam ninguém ver. Que absurdo (risos). 
O negócio foi indo. O passo importante foi a chegada do CLAM, aquela escola do Zimbo Trio. Em 87 decidi me profissionalizar. Estudei com o José Roberto Araujo, com o João Souto e tinha amizade com o Kiko Moura, um cara que tinha muita informação. A gente tinha de estudar em livros, aprender inglês na marra. Só na segunda metade dos anos 80 foi que o Almyr Chediak começou a organizar uns livros de teoria e harmonia, o Dicionário de Acordes Cifrados, Harmonia e Improvisação. Um marco para o aprendizado de música no Brasil. Ainda fiquei cinco anos no CLAM. 

EM - Passou a levar a música a sério?
AB – Pra mim foi aquele lance de a fome faz a arte. Havia acabado de sair do colegial e decidi me embrenhar na música. Meu pai havia acabado de falecer. Uma coisa que me fez estudar e evoluir foi que aquilo passou a ser meu ganha pão também. É meio clichê falar isso, mas às vezes não é você que leva a vida, é a vida que te leva. 

EM – Nessa época você foi pra São Paulo tocar?
AB – Sim, fui pra mudar de ares. Tocava em Santos no Tempo e Espaço com o Maurício Fernandes, o Paulo Farias, o Marquito na percussão e o Paulinho Batera que hoje está no Japão. Aí fui tocar no Torto, na banda Jornal do Brasil. Toquei um tempão com o Julinho e então larguei pra morar e tocar em São Paulo com outros amigos. Um deles era o Alexandre Faccas, o Monga, o outro era o Rivaldo, um guitarrista muito bom que tocava Jeff Beck, Stevie Ray Vaughn, tinha um Gibson 335. Era a decadência do bairro Bixiga, mas ainda tinha muitas oportunidades para a gente tocar. Conheci a cantora Tutti Baê e toquei um tempão na banda dela. Depois toquei com a Bi Scott em festivais de blues em Ribeirão Preto e no circuito de blues de São Paulo. Todos aqueles bares. 

EM – Passou a viver de música?
AB – Sim, mas tocava de tudo. Até em banda de baile. Música portuguesa, judaica, italiana. O bom é que todas essas músicas eram escritas e o fato de estudar música me dava vantagem para ser contratado. Não que o músico que lê seja melhor, não existe isso. Só tinha essa vantagem. Mas mesmo assim os outros músicos zoavam muito os guitarristas e viviam fazendo as tradicionais piadas sobre as mentiras dos guitarristas. Sabe quais são?

EM – Não.
AB – A primeira é: “Pô, não estou me ouvindo?” A segunda: “Eu não quero solar nessa música”. A outra é: Sabe qual é a melhor maneira de deixar um guitarrista quieto? É colocar uma partitura na frente dele. E a piada do maestro que fala para o pianista: “Olha, o acorde é Dó com sétima maior, nona e décima primeira aumentada. O pianista vira para o guitarrista e fala Dó com sétima maior. Aí ele fala para o baixista Dó. Aí o baixista fala para o baterista, “Bolero”. E o baterista fala para o percussionista, “faz qualquer coisa aí”. Mas são piadas que a gente tem de aguentar. 


EM – Como teve a ideia de gravar o teu primeiro disco?
AB – Meu primeiro disco foi gravado em 1999. Na segunda metade dos anos 90, em contato com o Washington Soares, passei a pensar em música autoral. Pensávamos tocar um som brasileiro, sem influências de fora. O que vejo hoje como uma bobagem porque música é universal. Então comecei a pesquisar os ritmos brasileiros, as religiões afro brasileiras, as músicas dos recônditos do Brasil. O primeiro cara que me deu esse toque da composição foi o Wagner Parra². Incentivou a fazer um disco com as minhas músicas. Então gravamos o Trem Pra Ribeirão, em 1999. Metade das músicas desse disco são minhas e a outra metade são do Washington. Tentando encontrar esse caminho da composição. 

EM – Atualmente o músico está muito aberto para o mundo, é difícil encontrar a sua voz?
AB – Hoje em dia tem grandes artistas fazendo isso. Dando uma volta... e voltando ao ponto de origem.
A pré produção do Trem Pra Ribeirão foi feita aqui, mas foi gravado em São Paulo. Começamos ensaiando em 1997 sem saber se teríamos recurso pra gravar. 

EM – O segundo álbum, o Feira Livre, é bem diferente. Com mais percussão, a tua primeira parceria com o Robertinho Silva. Quando você começou a dar pistas dessa tua influência percussiva.
AB – Comecei a me ligar mais nisso. As pessoas começaram a perguntar porque eu dava tanto espaço para percussão. Eu adoro percussão. Aquele é um disco de arranjador e não de instrumentista. Foi pensado para dar espaço para todos. Foi um disco com as músicas um pouco mais curtas do que o anterior. Inserimos mais instrumentos de sopro também. O Robertinho estava em Santos e o Zé Cintra que toca no disco e é sobrinho dele o convidou para ir ao estúdio e ele gostou do que ouviu. Na época ele estava gravando com o Randy Brecker. Robertinho é um cara que gravou mais de 200 discos na carreira, imagina? 

EM – Eu ouço as tuas músicas instrumentais e imagino cenas brasileiras, principalmente por causa dos títulos: Feira Livre, Fogo Na Chaleira, Bicho Preguiça, Aboio do Encantado, Velha Ermida. Você é influenciado por essas imagens ou é uma viagem minha? 
AB – Procede. Isso que você fala é interessante. O título da música instrumental é o único viés que ela dá pra alguma viagem. Tem o lance imagético. O título te dá uma dica do que pode acontecer. A Feira Livre é a feira em frente à casa do Washington. Ele vive aquilo toda semana e a feira é a mistura de tudo, né? A barraca do cara que é árabe, do português, do pernambucano, do baiano. Tem sotaques e você pode traduzir isso em música. E também com relação as cenas santistas, Chuva no Mar, São Jorge dos Erasmos, Mogiana. Eu ia de trem para casa dos meus avós em Ribeirão Pires. Meu outro avô era maquinista. São referências que acesso nesse banco afetivo. Ouvia os sinos do Valongo na hora de ir embora e compus uma música que está no disco Cordas e Tambores. Minha mãe era professora e eu e Washington estudamos juntos nos lugares onde ela dava aula. Depois ela foi diretora e eu fui atrás, na Areia Branca³. Na escola que era em frente ao cemitério. A molecada jogava bola dentro do cemitério. E nós fazíamos educação física nas ruínas do Engenho dos Erasmos. Íamos correndo até o campo do Jabaquara. Ali foi um dos primeiros engenhos do Brasil. 


EM – Outra coisa que a gente percebe na tua música é o lance da pesquisa de ritmos brasileiros e africanos. Os tambores e as cordas.
AB – Não adiante você falar de ritmos sem conhecer. Todas as minhas viagens para Minas Gerais, Bahia, fronteira do Brasil, no Paraguai com a cantora Perla, em 2003. Ela faz muito sucesso lá. Tocamos em um lugar para mais de três mil pessoas. Então nos deparamos com algumas pessoas o tempo todo falando guarani, tocando uma música chamada chamamé, que uns também chamam de polca paraguaia. Isso acontece em todos os estados do Brasil. Principalmente no interior. É tudo muito misturado. Caldiado, como falava o Darcy Ribeiro. Tem a lenda do pacto com o diabo no Mississippi, mas aqui os violeiros fazem a mesma coisa, eles deixam a cobra enrolar na mão, essas coisas. Então você não precisa se envolver, mas tem de botar o pé no terreiro para poder entender esse processo cultural. A rítmica, os instrumentos que eles tocam nesses rituais. Acabei sendo influenciado por isso. 

EM – Não adianta ficar aqui na cidade, tem de meter o pé na estrada porque aqui chega tudo diluído. 
AB – Quando fui ver o Albert King em São Paulo em 1991 pensava que ele ia tocar com o Robben Ford, mas ele não quis. Talvez, na cabeça dele a música do Robben Ford já fosse uma diluição. Não sei. Mas será que o Blues quando foi pra Chicago também já não foi diluido? 

EM – O Mixtura Brasileira foi um álbum inteiro em parceria com o Robertinho Silva. Fale um pouco sobre esse disco.
AB – Ele sempre foi meu ídolo. O cara que pavimentou o caminho de muitos bateristas e percussionistas. Ficou 28 anos com o Milton Nascimento, gravou com Wayne Shorter, Ron Carter, Toninho Horta, Chico Buarque, um cara respeitadíssimo. Aquilo era um sonho. Achei que ele estava brincando. Fizemos por um selo pequeno do Guarujá que não existe mais, o Marine Music. Usei vários instrumentos, viola caipira, bandolim, violão tenor. Tinha tempo, o disco foi gravado durante um ano, entre 2002 e 2003. Com bastante calma. Hoje vejo um pouco de perigo nisso. Como foi feito por um selo e não precisavámos pagar horas de estúdio, fiquei  com muito preciosismo. O CD vendeu bastante, mas não fizemos nenhuma turnê por causa da agenda dele. Ainda rende bons frutos, tem no iTunes, fácil de achar. Ele gosta muito do disco. Semana passada me ligou falando que ia fazer outro Mixtura Brasileira. Pô, um cara com 73 anos está com pique de garoto. 

EM – Mas chega uma hora que tem de acabar.
AB – Sim, mas como o produtor não nos dava o deadline eu ficava lá tocando, criando, como era feito há trinta anos. 

EM – As composições são de ambos? Especificamente para esse trabalho?
AB – São minhas e uma dele, Duna. Algumas foram criadas para o Mixtura e outras eu já tinha. 

EM – E depois você gravou o Cordas e Tambores.
AB – Não foi o Temporal.


EM – Calma já vou falar dele também.
AB – (risos). No Cordas e Tambores foi o mesmo processo. Em 2010 estávamos pensando em fazer um disco novo e inicialmente seria com um trio, dessa vez com o Luiz Alves no baixo no Rio de Janeiro. Mas ele teve um problema e resolvemos gravar em São Paulo porque era mais barato. Banquei esse disco do meu bolso e gravava quando o Robertinho estava em São Paulo. Gravamos a parte dele em um final de semana. O Vinicius Dorim participou nas flautas e o Alberto Lucas fez os baixos. Tem também a participação do Rogério Botter Maio no contrabaixo e o Everaldo Casimiro no trombone. 

EM – Já falamos sobre a pesquisa dos ritmos e do folclore. Gostaria que você falasse agora sobre a pesquisa de instrumentos de cordas que você faz. O Temporal é uma vitrine desse trabalho. É um disco excepcional nesse sentido.
AB – É um negócio meio maluco. A guitarra compartilha a mesma afinação do violão, mas existem tantas afinações alternativas. O bandolim tem a afinação do violino. O violão tenor é parecido com a viola de orquestra. A guitarra portuguesa é totalmente modal. A de Lisboa é uma e a de Coimbra é outra. Faço uma analogia com o blues, aquelas coisas do Delta que traz a afinação aberta, como a viola capira também tem. Se eu pensar os instrumentos de uma forma cartesiana ficaria louco. Então para esses instrumentos, deixo meu lado mais lúdico e intuitivo tomar conta. A guitarra portuguesa é totalmente intuitiva. É uma diversão com respeito ao instrumento, por isso não digo que “toco” efetivamente. Uso para dar um timbre diferente. Isso virou referência. Outro dia um amigo trouxe um Oud da Jordânia e disse que pensou em mim. Imagina pegar a afinação desse instrumento? Ele não tem traste. São cores diferentes. 

EM – Como foi a participação do John Stowell no Temporal?
AB – É um cara muito generoso e um músico excelente. Nos anos 90 estava em busca de novas ideias e mandei uma carta pra ele sobre dúvidas que tinha. Ele me respondeu com uma carta com um monte de xerox, como se fosse uma aula, de graça. 

EM – Os músicos americanos são muito profissionais. Qualquer coisa que você solicita eles respondem.
AB – Sim, continuamos em contato. Sempre nos correspondendo. Um dia falei pra ele gravar e ele topou, então mandei as músicas e ele gravou nos Estados Unidos. E ele quer muito tocar no Brasil. Ele consegue tocar no Chile, Argentina, mas não no Brasil. Pô, o cara gravou com o Dave Liebman, tem quinze discos gravados. É muito difícil. 

EM – Você nunca gravou um disco no formato quarteto de jazz. Por quê? 
AB – Tenho um projeto para fazer isso. Tenho um disco pronto na minha cabeça, trio ou quarteto com músicas autorais. Também gostaria de gravar um disco com músicas do Tom Jobim, Beatles, e caras que admiro do jazz, mas esbarra na burocracia dos direitos autorais, além de ser uma grana danada. Há muito tempo que não gravo guitarra. Faz tempo que também não gravo bateria porque os estúdios não me convenciam sobre os timbres. E piano não gravava porque queria um piano de verdade e não teclado. Deixei os violões um pouco de canto e voltei a me apaixonar pela minha guitarra. 

EM – Muita gente não acredita na música instrumental autoral no Brasil. O que você acha disso?
AB – É um processo. Não tem nada a ver gravar os clássicos de jazz se eles já foram bem feitos desde os anos 50, os clássicos do Miles com o John Coltrane, Philly Joe Jones, Paul Chambers. Você vai fazer o quê? Os standards são um grande aprendizado, mas não podemos tocar da mesma maneira. Às vezes o produtor de contrata pra tocar daquela maneira. O certo é o músico acreditar no seu trabalho. Ninguém é igual a ninguém. Uma vez fui tocar em Florianópolis e o repertório era metade meu e metade de standards. Chegando lá a produtora não quis. Disse que o público estava acostumado a ouvir música autoral e disse pra tocar as minhas músicas. Era uma semana que estava um monte de gente boa tocando, o Bebê Kramer, Tatiana Cobbet e Marcoliva e outros. Isso pra mim foi uma grande aula: “Acredita no teu som”. 

1 - Para quem não conhece, Santos é cortada por canais que viraram referência de localização.
2 - DJ santista falecido em 2015, poucos meses após essa entrevista.
3 - Bairro periférico de Santos.




terça-feira, 25 de abril de 2017

Abril termina com projeto dedicado ao Jazz. Vai perder?

O Jazz Mansion é uma festa itinerante que comemora o Dia Internacional do Jazz e suas vertentes. Esse ano serão dois dias de boa música, 29 e 30 de abril


O projeto itinerante, um incentivo ao Jazz que chega à sua sétima edição, é realizado em mansões históricas de São Paulo. 
Esse ano acontece em duas sessões, uma no sábado à noite, outra no domingo à tarde, em um casarão dos anos 50. 
O Jazz Mansion já ocupou casarões das décadas de 10, 20 e 40, que carregam um pedaço da história de São Paulo.
A edição de 2017 contará com apresentações de Ari Borger Trio nos dois dias, Chaiss no sábado e FlyBrass no domingo. Luísa Viscardi é a DJ residente do projeto e entre os shows toca um groove que passa do Hip Hop ao Jazz, Funk, Soul entre outros estilos.
O Jazz Mansion é uma parceria entre a Cuco e Bourbon Street Music Club.

Ari Borger Trio -  pioneiro e mestre no piano blues, boogie woogie e hammond B3 no Brasil. Inspirou vários instrumentistas e teve destaque nos principais festivais do gênero nos Estados Unidos e Europa. Abriu shows para artistas como B.B.King e tocou com verdadeiras lendas do piano blues como os mestres Johnnie Johnson e Pinetop Perkins – pianistas de Chuck Berry e Mudy Waters. O trio se apresenta no sábado e no domingo

Chaiss - Com uma levada de Jazz, funk e fusion, o jovem grupo é expoente no cenário instrumental paulista. O quarteto é formado por Vinícius Chagas (saxofone), Éder Martins (guitarra), Rob Ashtoffen (baixo elétrico) e Fábio Albuquerque (bateria) trabalha composições inéditas e temas do disco “Aʄroδιsια”. O grupo se apresenta no sábado.

FlyBrass - Coreografias, interação com o público e muita energia fazem parte de toda versatilidade da banda, composta por bateria, guitarra, baixo e, na linha de frente, saxofone e trombone responsáveis por agitar e trazer o público. O grupo se apresenta no domingo.

Luísa Viscardi - Faz um groove de responsa entre os shows nos dois dias. Fundadora da agência JAMBOX, focada na cultura urbana, seu estilo musical é definido como “freestyle”, capaz de abranger gêneros do Hip Hop ao Jazz, Funk, Soul, Reggae, R&B, House, Drum & Bass, Bass e Música Brasileira.

Serviço 

Local: Avenida das Magnólias, 1182 – Cidade Jardim

Datas:
29/04/2017 - Sábado
20h – 04h – Chaiss e Ari Borger Trio

30/04/2017 - Domingo
15h – 22h – FlyBrass e Ari Borger Trio

Ingresso:
R$ 25,00

Vendas online:
http://bit.ly/IngressosJazz7

Classificação indicativa:  Entrada de menores de 18 anos apenas com pais ou responsáveis.
Capacidade: 250 pessoas
Aceita todos os cartões
Não possui acessibilidade motora.
Evento no Facebook:
http://bit.ly/EventoJazz7

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Ilhabela realiza grande festival de Bossa Nova e Choro em maio

O cast, que inclui Marcos Valle, João Donato, Rosa Passos, Roberto Menescal e muitos outros, celebra a genialidade da música brasileira

João Donato e Donatinho

Na contramão de muitas prefeituras do litoral paulista que preferem gastar dinheiro com música de gosto duvidoso, Ilhabela realiza no primeiro final de semana de maio um super festival de Bossa Nova e Choro com um cast composto por pesos pesados de ambos os estilos.
Entre os dias 4 e 7 de maio, a cidade do litoral paulista recebe o primeiro Ilhabela Bossa e Choro – Música Autêntica Brasileira com o que há de melhor da nossa música. 
João Donato, Marcos Valle, Roberto Menescal, Leo Gandelman, Rosa Passos, Vânia, Bastos, Robertinho Silva, Cris Dellano, Simoninha, Max De Castro, Choro de Bolso, Thiago Espírito Santo e muitos outros artistas irão se apresentar nas belas praias da cidade.
As atrações estarão distribuidas em dois palcos, um fixo e um itinerante. 
O fixo será o Palco Tom Jobim na Praça da Bandeira, no Centro. O Palco Pixinguinha estará em dias diferentes nas praias do Perequê, Do Sino e Praia Grande. 
Segundo a produção do festival, os lugares foram escolhidos para facilitar o acesso das pessoas e para que os turistas possam contemplar a maravilhosa paisagem da ilha enquanto curtem a melhor música do mundo. 
Além de incrementar o turismo na cidade fora das tradicionais temporadas de fim de ano e férias do meio do ano, a iniciativa da prefeitura, realizadora do evento, é atrair agências de turismo internacionais, ligando a imagem da cidade com a autenticidade da música brasileira.
O festival é uma parceria da prefeitura com a Lucas Shows e Eventos e Bourbon Street Music Club, com curadoria de Herbert Lucas. 

Rosa Passos
Programe-se:

Palco Tom Jobim

Quinta-feira, dia 04/05
18h – Quinteto em Choro e Jazz
19h – Tia Ciata
20h30 – João Donato e Donatinho

Sexta-feira, dia 05/05
19h – Pronúncia no Olhar
20h – Leo Gandelman e Serginho Trombone
22h – Rosa Passos canta Tom Jobim

Sábado, dia 06/05
19h – Larissa Cavalcanti
20h – Vânia Bastos e Marcos Paiva – Concerto para Pixinguinha
22h – Marcos Valle (participação Max de Castro)

Domingo, dia 07/05
19 - Valério Wizz
20h – Robertinho Silva e Eduardo Machado
22h – Roberto Menescal e Cris Delanno (participação Simoninha)

Choro de Bolso e Kleber Serrado

Palcos Pixinguinha (itinerante)

Sexta-feira, dia 05/05 – Praia Grande
16h – Quinteto em Choro e Jazz
17h – Thiago Espírito Santos e Sílvia Goes
18h – Felipe Bianchi Trio

Sábado, 06/05 – Praia do Sino
16h – Quinteto em Choro e Jazz
17h – Dudu França, Marcelo Totó e Baggio
18h – Choro de Bolso e Kleber Serrado

Domingo, dia 07/05 – Praia do Perequê
16h – Quinteto em Choro e Jazz
17h – Aline Outa e Banda
18h – Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A música de rua corre risco em São Paulo por conta de restrições a manifestações culturais


Texto: Marcelo Moreira/Combate Rock UOL
Foto do blog Choque Cultural

Uma das coisas boas da previsibilidade é que as coisas previsíveis são previsíveis, especialmente na política. Portanto, só os desinformados se surpreenderam com as recentes bobagens e decisões estapafúrdias que os recém-empossados Donald Trump (presidente dos Estados Unidos) e João Doria Júnior (prefeito de São Paulo) cometeram em tão pouco tempo. Eles prometeram eu suas campanhas e estão cumprindo. Qual a surpresa então?
Em meio ao marketing pessoal e decisões polêmicas, o novo prefeito de São Paulo disse a que veio ao ameaçar com privatizações da cultura e fim da arte de rua, em todas as suas formas.
O ataque anunciado aos equipamentos culturais é brutal, com a intenção de privatizar bibliotecas municipais e o Centro Cultural São Paulo, além da transferência da Virada Cultural para o longínquo e inadequado autódromo de Interlagos – “para não incomodar a população de São Paulo”…
A polêmica mais recente é em relação ao grafite, a arte de rua por excelência, onde artistas ocupam muros e paredes com desenhos sensacionais (às vezes nem tanto).
A recente investida dos serviços de fiscalização da prefeitura e da Guarda Civil Metropolitana mostram que a nova administração despreza qualquer tipo de manifestação cultural que não esteja nos “conformes”, com a destruição de desenhos na avenida 23 de Maio e em outros lugares.
A implicância de Doria é com a “pichação”. Com isso, ele joga no mesmo saco o grafite, que é arte reconhecida internacionalmente, sendo que alguns dos artistas mais importantes do mundo são brasileiros.
Um aparte importante: grafite é arte, e pichação não passa de vandalismo e depredação, ainda que muitos “especialistas”, filósofos de boteco e de redes sociais e ainda alguns vândalos insistam que existe um conceito e uma “motivação” política por traz dos rabiscos que sujam a cidade.
E o que tem a ver o ataque de Doria contra os grafites, que amenizam a degradação visual e ambiental da cidade, com a música?
Não tenham dúvidas: a mesma intempestividade e virulência do ataque da prefeitura paulistana contra o grafite será aplicada a todas as formas de arte de rua, em toda a cidade.
Portanto, prepare-se para não ver mais aquela banda de rock indie bacaninha que toca na avenida Paulista aos domingos; esqueça do trio de jazz que de vez em quando, em dias da semana, faz um som legal em frente ao Conjunto Nacional, na mesma avenida Paulista; esqueça da banda de blues que faz a alegria de muita gente no parque Trianon e dos trios de choro que zanzam pelo centro velho de São Paulo.
Além da bem-vinda criação de mais um espaço de lazer, a avenida Paulista fechada ao trânsito aos domingos trouxe um enorme ganho cultural: trupes de teatro amador podem livremente mostrar seu trabalho antes restrito a salas fechadas; artesãos podem expor livremente e comercializar seus produtos; músicos de todos os calibres e quilates podem tocar à vontade, em uma sinfonia sonora estranha, mas totalmente livre e anárquica.
A cruzada contra o grafite – que para Doria é a mesma coisa que pichação – logo chegará aos músicos de rua.
Uma simples serenata será coibida? Grupos de música típica serão proibidos de tocar em festas étnicas de rua? Como imaginar festas italianas no Bexiga e na Mooca sem sanfoneiros e cantores? Como pensar as festas latinas no Pari sem os trios e duplas tocando flautas e percussão andinas?
Os integrantes da banda Test, por exemplo, que param sua Kombi em qualquer lugar e imediatamente descem e saem tocando, seriam presos? a banda Folk na Kombi, idem?
O rock nunca teve tradição nas ruas de São Paulo – ou em qualquer rua de cidades brasileiras -, mas algumas iniciativas recentes ajudaram disseminar a ideia de que a rua e outros espaços urbanos podem e devem ser ocupados, no centro e na periferia, para a difusão de projetos culturais.
O Rock na Praça teve quatro edições nos últimos dois anos e foi uma das mais legais iniciativas gratuitas de colocar o rock na rua para espalhar cultura.
Outros projetos semelhantes foram o Rock na Casa e o Rock na Calçada – todos, evidentemente, programados  com antecedência e com o então apoio da prefeitura paulistana na gestão de Fernando Haddad (PT).
As preocupações com o fim de projetos como esses e a eventual (e previsível) restrição ou proibição de música livre na rua são grandes. A fiscalização aos ambulantes já está pesada, com relatos de repressão e apreensão de material de artesãos mesmo aos domingos, quando a avenida Paulista e outras vias são fechadas ao tráfego.
Pela internet, alguns músicos estiveram incentivando bandas de todos os gêneros a programar uma ocupação da avenida Paulista e de outros espaços públicos para fazer um protesto sonoro contra o ataque à arte de rua e para garantir que não haja eventual repressão contra quem quiser tocar de forma livre e espontânea. Até agora a iniciativa não decolou, mas torçamos para que a proposta vingue. A rua é nossa e de todos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A morte do Antoninho Navalhada

Por Eugênio Martins Júnior

Branco, forte e valentão,
Navalhada estivador
Temido e respeitado
E bom atirador

Pau de fogo na cintura
Curto de pavio
Traição e malícia
Espreitam no porão do navio

O outro não ficava atrás
Conhecido por Simião
Moreno e parrudo
E com disposição

Qualquer dia o destino
Os colocaria frente a frente
No costado do CAIS santista
Tava sobrando valente

Como a arenga começou
Na estiva ninguém sabe ao certo
O trabalho era escolhido na fé
E Navalhada era metido a esperto

Simião era boxeador
Dizem, estava com a verdade
Mas sabia que mexer com o Navalha
Era irresponsabilidade

Não valia facilitar
Havia sido avisado
Passou a andar armado
E olhando para os lados

Foi no armazém quinze
Onde o encontro aconteceu
O tiroteio começou
Quando o dia amanheceu

Navalhada trairagem
Baleou o Simião
Acertou ele na perna
Derrubando o valente no chão

Quando se aproximou
Pro tiro de misericórdia
Foi pego de surpresa
E Simião matou a discórdia

Acertou Toninho na barriga
Que virou pra correr
Levou mais uma nas costas
E sentiu que ia morrer

Simião não foi em cana
Não tinha culpa nenhuma
E no CAIS ninguém sabe de nada
Muita gente e pouca testemunha

Valentão é valentão
Todos têm a sua história
Mas aqui no cais do porto
Também têm a sua hora