quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Magic Slim - 20/05/2007 - Teatro Sesc Santos

Foi na Virada Cultural de 20 de maio de 2017 que Magic Slim veio a Santos pela segunda vez. A primeira foi no começo dos anos 90, num show no ginásio de esportes do Sesc Santos, com o Lefty Dizz na banda. É galera, naquela época o blues lotava ginásios por aqui. Abrindo a noite, shows com a Banda Cara de Pau e André Christovam. Nesse show eu estava na plateia.
Em 2007 também no Sesc Santos, só que dessa vez no teatrão com 800 lugares, eu já estava envolvido na produção do show. Foi dentro de um projeto cultural que criei para trazer blueseiros e jazzistas pra cá. O show começou meia noite em ponto e foi até quase duas da matina. A banda Blues Jeans deu suporte ao grande guitarrista de Chicago: Junior Morenno (bateria), Andrei Ivanovic (baixo) e Marcos Ottaviano (guitarra). Eles haviam acabado de lançar o DVD São Paulo Sessions.
Lembro que paguei R$ 10 mil de cachê e fui para o risco. A bilheteria deu R$ 10.200,00, ou uma coisa assim. Empatei, mas fiquei feliz. Retardado.
As fotos são do indefectível Leandro Amaral.








  

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Música, gastronomia e lindas paisagens integram o Cunha Fest

O festival acontece entre os dias 24 e 27 de janeiro com todas as atrações gratuitas

Blues Beatles

O Verão na Montanha – Cunha Fest vai apresentar ao público local e turistas a riqueza dos ritmos soul, blues e jazz com encontros inusitados entre os artistas.
Pela segunda vez, o evento traz no line-up mais de 15 apresentações entre o palco principal e as intervenções musicais espalhadas pela cidade. Entre elas, André Frateschi, Nelson Freitas e Big Time Orchestra, Sandamí, Blues Beatles e Orleans Street Jazz Band, Madmen’s Clan e The Soundtrackers estarão no programa.
Cunha – Situada no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, a Estância Climática de Cunha é circundada por paisagens exuberantes, entre montanhas, vales e cachoeiras.
Além das belezas naturais da Serra do Mar, o município tem fácil acesso para as praias devido sua proximidade com Paraty (RJ), Ubatuba e Caraguatatuba (SP).

Programação:
Quinta, dia 24
22h – André Frateschi & Miranda Kassin – Homenagem a David Bowie & Amy Winehouse

Sexta, dia 25
Ao longo do dia Orleans Street Jazz Band
21h – Água de Mina – Atração Cunhense
23h – Blues Beatles

Sábado, dia 26
Ao longo do dia Madmen’s Clan
21h30 – The Soundtrackers
23h30 – Sandamí

Domingo, dia 27
Ao longo do dia Madmen’s Clan
21h - Nelson Freitas & Big Time Orchestra

Serviço
Verão na Montanha Cunha Fest - 24 a 27 de janeiro

Palco principal : Praça da Matriz - Praça Cônego Siqueira ao lado da Igreja da Matriz 

domingo, 6 de janeiro de 2019

O universo de Raul de Souzabone


No apagar das luzes de 2018, eis que o Selo Sesc lança mais  um petardo musical, o CD Blues Voyage, do verdadeiro mito do trombone, Raul de Souza.
O Sesc já havia elaborado um box de luxo com o trabalho de Raul em 2012 com um DVD contendo um show com as participações de Altamiro Carrilho, João Donato e Hector Costita + o CD Voilà. Já que não falei deles na época, vou aproveitar pra falar agora. 
O Universo Musical de Raul de Souza, como já dito, traz um showzaço de Raul gravado em 11 de novembro de 2011 no Sesc Vila Mariana com uma banda composta por músicos que estão construindo fama no mundo jazzístico no brasa e na gringa: Fabio Torres (piano), Mário Conde (guitarra e cavaquinho), Glauco Solter (baixo) e Serginho Machado (bateria). 
Hector Costita participa em Ela é Carioca (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e em À Vontade Mesmo (Raul de Souza). João Donato entra em À La Donato e Bossa Eterna (ambas de Raul), e o padrinho Altamiro Carrilho dá o ar da genialidade em Vou Vivendo (Pixinguinha e Benedito Lacerda) e em Urubu Rei (Altamiro Carrilho). Em Funky Man (Raul de Souza), todos se juntam, terminando a gig em alto astral e bom som. Um deleite ouvir Altamiro Carrilho improvisando em cima do tema. 
O DVD ainda vem com os extras muito legais, entre eles, um bate papo entre Raul, Carrilho, Costita e Donato e suas histórias da longa estrada. E também uma demostração do que é o Souzabone, instrumento desenvolvido por Raul e a história de como começou sua paixão pelo trombone.
Voilà traz nove temas gravados em 2010 no estúdio Gramofone Musical de Curitiba, com Raul De Souza, Glauco Solter (baixo) Mário Conde (guitarras), Jefferson Sabbag (piano e teclados), Endrigo Bettega (bateria e percussão) e as convidadas Maria Ester M. Brandão Watanabe (Viola e guitarra) e Maria Alice Moreira Brandão (violoncelo).   
A caixa de luxo ainda tem as liner notes escritas por Ruy Castro e Roberto Mugiatti.
Apesar de ter sido lançado em 2012 o CD/DVD O Universo Musical de Raul de Souza ainda permanece em catálogo.
Blue Voyage e uma viagem musical. E se você continuar a ler isso após esse trocadilho horrível é por que gosta mesmo de Raul. E não vai se arrepender ao apertar o play.
O CD vem com oito temas dichavados em quarenta e dois minutos gravados na França, com um time de bambas comemorando 65 anos de carreira e 85 de idade de Raul: além do trombonista, o time conta com o fiel Glauco Solter (baixo), Mauro Martins (bateria), Leo Montana (piano), Alex Correa (piano). 
Já há muitos anos morando no exterior, Raul assimilou o jazz, misturando-o com o samba e a gafieira criando linguagem musical única, onde diversos sotaques musicais se encontram. 
Blue Voyage foi gravado ao vivo em março de 2017 na sala Maison des Artistes, na cidade de Chamonix (França), que recebe reverência em Bolero à Chamonix. O samba jazz predomina desde a abertura, com Vila Mariana, até a faixa que encerra, Night in Bangalore. Mas o bolero aparece em St Martin e Primavera em Paris lembra uma modinha nostálgica. Em todos os temas o destaque vai para os pianistas que costuram a obra do começo ao fim com plena liberdade de ação. Leo Montana e Alex Correa estão brilhantes. E Raul também brilha tocando sax na faixa To My Brother Sonny, que, como entrega o nome, é em homenagem ao saxofonista Sonny Rollins, com quem Raul tocou em tempos idos.
Lembrando que Raul de Souza nasceu em Bangu, no Rio de Janeiro, onde começou a tocar trombone na banda da fábrica de tecidos da cidade. Passou a tuar na gafieiras e adotou o nome artístico de Rauzinho dado nada mais nada menos por Ary Barroso. Tocou na banda da Força Aéraa entre 1959 e 1963 e logo partiu em turnê com Sérgio Mendes  pelos states. 
Gravou seu primeiro disco la na gringa, À Vontade Mesmo, em 1965, e nunca mais parou. Tocou com feras do jazz, Sonny Rollins, Freddie Hubbard, George Duke, Chick Corea, Jimmy Smith e outros. Há décadas é considerado um dos maiores trombonistas do mundo.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Duca Belintani toca no projeto Leste Blues do Sesc Belenzinho


O guitarrista paulista Duca Belintani apresenta seu mais recente álbum, How Long (2017), no domingo, 13 de janeiro, às 18h, no Teatro do Sesc Belenzinho.
No show, Belintani (voz, guitarra e cigar box), se apresenta ao lado de Benigno Sobral (baixo), Ulisses da Hora (bateria) e Ricardo Scaff (gaita), transitando entre os blues do Mississippi e Chicago. Clássicos como Sweet Home Chicago, Crossroads (Robert Johnson), Baby Please Don't Go (Big Joe Williams) e How Long (Leroy Carr) fazem parte do repertório, além das composições próprias que integram seu novo disco.
Guitarrista, professor e produtor, Belintani atua no mercado musical há mais de 35 anos. Nos anos 80 foi guitarrista da Banda Controle Remoto, com a qual lançou dois discos. Foi sideman do cantor Kid Vinil por seis anos, tendo gravado e produzido o CD XU-PA-KI. Lançou seu trabalho CD solo, MPBlues pela Gravadora Eldorado, em 2000. Seis anos depois gravou Conduzir, trabalho de blues fusion instrumental, e, em 2009, lançou Cuíca, novo trabalho instrumental. Em 2012, veio o disco Na Trilha do Blues em comemoração aos 25 anos de carreira discográfica. Em 2015, Duca Belintani lançou o EP Rota 145 em CD e App para Smartphone e tablets. Em 2017, colocou no mercado seu mais recente álbum, How Long.
Já participou dos principais festivais de blues e de música instrumental brasileiros, entre eles Sesc Jazz’n Blues (SP), Rio das Ostras (RJ), Gravatá (PE), além do  Festival Internacional de Blues de Pergamino (Argentina). Belintani também participou de apresentações em Chicago e Los Angeles (USA).
É o idealizador da série de quatro volumes do método Na Trilha do Blues e tem dois volumes dedicados ao blues pela série Toque de Mestre. Lançou, em 2014, seu novo método de guitarra, Na Trilha do Blues. O músico também realiza workshops em todo o Brasil, demonstrando seu trabalho e seus métodos, além dos produtos e marcas que representa como as guitarras Fender (Artist Brasil). Foi colunista das revistas Acústico, Guitar Player, Cover Guitarra, Guitar Load e Free Guitar. É autor da biografia Kid Vinil – Um Herói do Brasil, lançada em 2015. Na área didática, foi professor pelo Sesc São Paulo e pela Secretaria de Cultura de São Paulo.
O projeto Leste Blues do Sesc Belenzinho contempla o gênero musical popular afro-americano surgido no início do século XX, representado em suas mais variadas expressões.

Show: Duca Belintani
Data: 13 de janeiro, domingo, às 18h
Local: Teatro (392 lugares)
Não recomendado para menores de 12. Duração: 1h30.
Ingressos: R$ 20,00 (inteira); 10,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante) e R$ 6,00 (credencial plena do Sesc - trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes).
Endereço: Rua Padre Adelino, 1000. Belenzinho – São Paulo/SP 
Tel: (11) 2076-9700

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Guy King, nome novo na velha Chicago


Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: Divulgação Guy King

Brasil, Índia, Israel. Só não vou dizer que o Blues chegou aos quatro cantos do planeta porque a terra é redonda, tá ligado? Mas o estilo musical criado às margens do Rio Mississippi despertou paixões nos jovens brancos em lugares muito longe da sua origem.
Hoje, Chicago é a Meca do Blues elétrico. Todos os músicos espalhados pelo mundo sonham em um dia ir até lá. Artur Menezes, Celso Salim, Aki Kumar e Guy King atingiram essa meta e hoje moram nos Estados Unidos. Sem falar em André Christovam, Giba Byblos, Ivan Márcio, Maurício Sahady e tantos outros brasileiros que também realizaram o sonho de gravar na gringa. 
Nascido e criado em Israel, Guy King cresceu alimentando a alma com Ray Charles, BB King, Wes Montgomery e a nossa Bossa. Aos 16 conheceu os Estados Unidos com seu grupo vocal e aos 21, após três anos de serviço militar obrigatório, deixou o país e a família para viver o sonho de tocar na cidade mais importante do Blues mundial, a grande Chicago. Não sem antes fazer um pequeno estágio em Memphis e New Orleans, daí seus discos recheados de metais.
E como quem tem um sonho não dança, após curto período na windy city, King já estava empregado na banda de um dos mais conhecidos artistas locais, o cantor, compositor e baixista, Willie Kent.
Nos seis anos ao lado de Kent, King ajudou colocar a banda na estrada cuidando das coisas da produção. Com a morte do líder, em 2006, retirou-se da cena para recarregar as baterias. Quando voltou, estava com sua própria banda pronta para gravar. O álbum Livin It veio em 2008. Seguiram-se By Myself (2012), I Am What I Am and It Is What It Is (2012) e o mais recente Truth (2016).
Misturando jazz com blues, King se estabeleceu usando a técnica peculiar de beliscar as cordas da guitarra com o polegar, técnica semelhante a Wes Montgomery, uma de suas maiores influências.
No finalzinho de 2018, quando concedeu essa entrevista, Guy King se apresentou no Brasil com Wladimir Catunda (Bateria), Nino Nascimento (baixo), Davi Sansão (piano e teclados).
O agradecimento especial vai para a produtora Erika Brenno que viabilizou a entrevista.



Eugênio Martins Júnior – Quando foi a primeira vez que ouviu o Blues?
Guy King – Era muito jovem. Provavelmente aos três ou quatro anos. Lembro de cantar músicas populares da época pré-rock, com certeza influenciadas pelo blues. Costumava tocar clarinete em uma big band. Era viciado em jazz e música clássica. E claro, os Blues eram algumas das músicas que tocávamos. Peguei a guitarra com um pouco mais de treze anos, no começo influenciado por Eric Clapton, David Bowie, Marvin Gaye, Michael Jackson, onde os blues estavam presentes. E depois Stevie Ray Vaughan, BB King, Albert King, Robert Johnson, T Bone Walker. Ouvi muito Ray Charles quando criança e isso me influenciou muito.     

EM - Em Israel, seu país natal, existe uma cena blueseira com bandas e festivais como a que existe no Brasil?
GK – Sim, mas em Israel a cena blues é bem pequena. Acho que melhorou um pouco com as mídias sociais. Há dois anos toquei no Red Sea Jazz Festival com a minha banda de Chicago. Quando era jovem a cena praticamente não existia. Havia poucas pessoas tocando blues. Havia mais jazz naquele tempo. Gosto de pensar que, no geral, é Soul Music, Jazz, Gospel, Blues, Rhythm Blues, que têm da mesma origem. Acredito que no Brasil haja mais eventos, músicos e festivais do que em Israel. Acho que lá a world music é mais forte. Mas Israel é um país muito pequeno e o Brasil é muito rico. Estou impressionado com o número de pessoas e músicos atraídos e que dão suporte a esse tipo de música no país. É maravilhoso ver isso.

EM – Você morou em Memphis, New Orleans e agora Chicago, três cidades importantes para a música americana. Poderia falar de que maneira isso te influenciou? Quer dizer, em Livin It podemos notar uma sessão de metais bem presente em algumas canções.
GK – Morei em Memphis e New Orleans por pouco tempo, logo quando cheguei aqui. Mas tenho de ser honesto, Chicago me influencia mesmo antes de vir para cá. Sou músico profissional desde muito jovem e vim para os Estados Unidos para tocar. A música de Ray Charles, Albert King e BB King eram grandes para mim antes de conhecer esses lugares. É claro que quando estive lá pela primeira vez vi e senti as coisas de Memphis e New Orleans. Mas quando cheguei a Chicago, tive de ser apresentado aos músicos e sua arte, Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Freddie King, Buddy Guy, Otis Rush, Magic Sam, Little Walter, Otis Spann e muitos outros que me ajudaram a chegar às raízes de tudo isso. A sessão de metais estava presente em minha mente antes de conhecer esses lugares. Como já disse, ouvia essa música desde criança, tocava em uma big band desde oito anos. É claro, você aprende e é influenciado por estar em Memphis, New Orleans e, principalmente, em Chicago. Você toca e canta o que vive.


EM - Como foram os anos em que passou com Willie Kent? Muitas histórias?
GK – Foi um período importante em minha vida. Foram seis anos tocando guitarra principal na sua banda. Com pouco tempo já estava tomando conta das coisas antes e depois dos shows. Viajamos para a Europa e Japão com a banda. Foi demais. Eu tinha vinte e dois anos e ele um pouco mais de sessenta. Naquele tempo adquiri muita experiência e credencial para conhecer um monte de gente importante, me preparando para fazer a minha própria música. Foram muitas histórias e lições a serem aprendidas. 

EM – O indiano Aki Kumar teve de largar um bom emprego na área da computação para entrar de cabeça na música. Você teve de fazer alguma coisa parecida. Houve algum tipo de choque cultural? 
GK – Todos que se dedicam a alguma coisa que acham importante sacrificam alguma coisa. No meu caso tive de partir. Deixar a família que amava. Ficar por minha conta com a minha maleta e minha guitarra em um lugar novo. Tentando fazer uma coisa que achava que tinha de fazer. Choque Cultural? É diferente, você sabe. Tive o prazer de viajar por muitos lugares. Conheci pessoalmente coisas que havia imaginado quando era criança e eram diferentes da minha visão de infância. Não digo que tenha sido um choque cultural, mas novo, difícil e desafiador. Definitivamente.

EM - Como foi a tua adaptação em Chicago, a terra do Blues elétrico com todos aqueles caras importantes: Buddy Guy, Lonnie Brooks, Magic Slim, Otis Rush, Albert Collins?
GK – Minha adaptação foi ótima. A maioria das pessoas que você mencionou já tinha ouvido antes e outras não. Cresci em uma cidade vem pequena onde nós cultivávamos a nossa própria comida, frutas, vegetais, e a música não era tão popular a não ser a que tocava no rádio. Então, quando era criança já tinha ouvido falar em Buddy Guy, mas Lonnie Brooks, Magic Slim e Otis Rush nunca tinha ouvido falar antes de chegar a Chicago. Albert Collins era texano e só associamos seu nome à cidade porque ele gravou pela Alligator. Mas como disse antes, tudo é blues. Me adaptei rápido porque gosto de ouvir a música e recebi o conselho ir aos clubes para ver as pessoas tocarem e absorver tudo. Um pouco mais de duas semanas já havia sido chamado para um show, a cidade foi muito boa comigo e desde então meu nome vem crescendo.



EM – Após a morte de Kent você resolveu dar um tempo. Isso serviu de preparação para gravar Livin It?
GK – Após a morte de Willie Kent, em primeiro de março de 2006, decidi dar um tempo. Não por que estava preparando um álbum, mas porque éramos muito chegado. Ele morreu apenas alguns anos após eu perder meu pai e minha mãe para o câncer e ele também morreu de câncer. Tocávamos todas as noites nos clubes. Tive de dar um tempo para respirar e olhar em volta o que estava acontecendo. Toquei por seis anos na banda dele não havia sentido continuar naquele momento. Fiquei praticando em casa, ouvindo muita música e após alguns meses senti a necessidade de tocar ao vivo de novo. Você sabe, é disso que vive o músico. Decidi voltar e começar meu próprio grupo. Não pensei em gravar imediatamente, mas depois de meses tocando e ter escrito algumas músicas decidimos gravar algumas faixas ao vivo. Levamos um ano e meio gravando Livin It.   

EM – O teu mais recente álbum, Truth, foi gravado pela Delmark. Um dos selos mais importantes do Blues. Gostaria que contasse a história desse disco que teve a produção do veterano Dick Shurman.
GK – Após a gravação de Livin It, Dick nos deu suporte. Ele costumava assistir aos shows de Willie Kent comigo na guitarra. Quando apareci com a minha própria banda ele se tornou um fã da música que eu estava fazendo e decidiu que devíamos fazer alguma coisa juntos. Compartilhamos o amor pela mesma música e lógico que o histórico de Dick com Albert Collins e Otis Rush pesou bastante pra mim. A oportunidade apareceu quando a Delmark se mostrou interessada em 2015, por coincidência, quando eu estava numa turnê pelo Brasil. O dono do selo, Bob Koester, me ligou perguntando se eu estava interessado em gravar e claro que eu disse sim. Quando voltei para Chicago chamei meu grupo e alguns meses depois entramos no estúdio da Delmark para a gravação do álbum. Usamos seção de metais, um grupo de garotas para fazer os backing vocals e foi uma grande experiência. Tive a oportunidade de escrever algumas canções me parceria com David Ritz e fazer releituras de canções que são importantes pra mim. Esse álbum foi indicado no prêmio Blues Music Awards.   

EM - Você já esteve no Brasil várias vezes. Conhece a cena blueseira local? 
GK – Conheço agora. Já estive por aqui em turnê, meu nome vem crescendo e sou grato por isso. A primeira vez que estive aqui foi em outubro de 2011. Desde então já foram seis turnês pelo Brasil. Da primeira vez fiquei surpreso em ver tantos músicos interessados e tocando bem essa música. Tenho tocado com bandas em São Paulo, Goiânia, Recife, Curitiba, Campo Grande e Florianópolis. Tenho feito muitas entrevistas em jornais, rádios e TVs. Hoje conheço mais a cena.

EM – Tail Dragger disse em uma entrevista a um jornal de Chicago que o Blues está cada vez mais sendo tocado por jovens brancos, inclusive de outros países. Por exemplo, você é israelense, Aki Kumar é indiano e Artur Menezes e Celso Salim são brasileiros. Todos morando nos Estados Unidos. O que tem a dizer sobre isso?
GK – Sim. Como já te disse antes, vejo as coisas um pouco diferentes. Vejo música, ouço música e imagino uma música bonita. Profunda e vinda da alma. Se quiser chamar de blues, de soul, ou pop, quando ela atinge o maior número de pessoas, tudo bem. Não me importa. Para responder a tua pergunta. Não há dúvidas sobre as raízes negras do blues nos Estados Unidos. Ela começou no sul do país sob as piores condições, sob a escravidão, pobreza, opressão de toda uma população. Isso é um fato. Desde que se tornou uma música conhecida, passou a ser tocada ao redor do mundo. É claro que o Blues no Brasil será influenciado pelas histórias do Brasil. Ou seja, a música é boa quando ela é boa. E não  porque é daqui. Porque você não é negro e do Mississippi. Hoje ouvimos boas músicas em blues, soul, jazz vindas de todas as partes do mundo. Graças a Deus. As pessoas são influenciadas por elas. O que é lindo. Espero que toquem o coração das pessoas e obtenham um pouco mais de reconhecimento por isso. Pra mim o que conta é se a música é boa ou ruim e não se é feita nos Estados Unidos, Europa ou América do Sul, por brancos ou negros.     

EM - Li em algum lugar que você também é fã de Bossa Nova. Teve contato com essa música no Brasil? Quais as suas impressões sobre o país?
GK – Amo Bossa Nova e o que vocês chamam de samba de raiz. A influencia de João Gilberto é tão importante pra mim quanto Ray Charles, BB King, Count Basie e Wes Montgomery. Acho-o maravilhoso, acho Tom Jobim maravilhoso, são clássicos. Tão importantes para a música quanto qualquer um. As melodias, harmonias, a batida e o groove são verdadeiros tesouros. Ouvia música brasileira desde quando era criança em Israel onde é muito popular. No final dos anos 70 me influenciou muito. Tenho tido o prazer de ouvir pessoalmente desde que venho ao Brasil. Minhas impressões sobre o país? Amo o Brasil. As pessoas são maravilhosas, calorosas, e a comida é ótima. Há muitos lugares bonitos por aqui. Praias lindas, florestas e montanhas. Sei que há problemas difíceis de resolver, mas espero que as coisas melhorem para as pessoas. Todas as vezes que surge a oportunidade de vir para cá fico muito feliz. Espero voltar rápido para uma próxima turnê e espero encontra-lo. Obrigado.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Os recônditos da alma de JJ Thames


Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: DeChamp Records/Divulgação

Como diz JJ Thames, o Blues fala sobre as alegrias e as tristezas da vida. E em alguns momentos, sua triste e até trágica história pessoal, serviu de inspiração para suas composições. Fome, frio, solidão e a pior de todas as dores, a perda de um filho, viraram canções comoventes na voz da cantora e compositora. 
Aos 17 anos, com a mudança dos pais, a jovem JJ migrou da grande cidade industrial de Detroit para a cidade interiorana de Jackson, no Mississippi. Não haveria melhor lugar para aprender seu ofício. 
Pequena, mas importante, Jackson é famosa por ser um dos locais fundamentais da Rota do Blues, e também, terra de Bobby Rush, Cassandra Wilson, Ishmon Bracey, Otis Spann, e da Malaco Records onde mais tarde gravaria seus dois discos.
Após essa fase as coisas pioraram, em busca de seus sonhos, foi para New York, onde passou privações e humilhações. Completamente deslocada, se apegou à música. 
Por isso seus discos trazem a mistura de blues, soul e  músicas em forma de prece, na mais pura tradição gospel do interior. Sua voz forte garante a profundidade necessária que remete às igrejas do sul e aos recônditos da alma humana.
Os álbuns Tell You What I Know (2014) e Raw Sugar (2016) mostram o trabalho dessa grande cantora e compositora que esteve no Brasil em novembro de 2018, ocasião dessa entrevista.
JJ Thames se apresentou em um festival de quatro dias  dedicado à Soul Music no Café Society, em São Paulo. Foi acompanhada pela banda Just Groove, Igor Prado (guitarra), Jesiel Oliveira (guitarra), Rael Lúcio (baixo) e André Azevedo (bateria). Agradecimentos ao produtor Mariano Cardozo.


Eugênio Martins Júnior  – Você morou na área de Jackson, no Mississippi, reconhecidamente como um dos lugares mais fortes do Blues. Poderia falar como sobre isso te influenciou? Se é que isso aconteceu.
JJ Thames - Sou originalmente de Detroit, Michigan (Motown), mas mudei para o Mississippi aos 17 anos de idade. Musicalmente foi Jackson que me criou. Cortei meus dentes lá. E foi lá que conheci todos os meus mentores. Comecei a fazer backing vocals para artistas de blues, cantava nos discos e realmente aprendi o que era o blues. Fui a todas as blues jams, cantei em todos os clubes de blues, incluindo o Subway Lounge, o 930 Blues Cafe, o Franj Jones Corner, o Hamp’s Lounge e muito mais. Se não tivesse me mudado para o Mississippi posso dizer com confiança que não cantaria o blues.

EM - Li em uma entrevista que você vivia em Detroit e foi morar no campo e que isso foi um choque cultural.
JJ – Me mudei para Jackson em 2000. Não era tão desenvolvido como hoje. Mudei de uma metrópole para um lugar que tinha campos abertos e um centro muito pequeno que realmente não era povoado. Na época, havia muitas fachadas de lojas abandonadas. Então havia as pessoas ... todos pareciam tão legais e amigáveis. Lembro-me de ficar muito confusa quando as pessoas dirigiam pela rua e buzinavam e acenavam para mim. Elas entravam e perguntavam: “Ei, como você está hoje?". Quer dizer, você não fala com estranhos em Detroit. A comida era diferente, o sotaque era difícil de entender, uma gíria desconhecida, os insetos eram maiores (risos). Demorou algum tempo para me acostumar.

EM – Depois dessa fase você passou dias difíceis em New York e disse que os diversos tipos de privação te fizeram conhecer o verdadeiro sentimento do blues. Poderia contar essa história?
JJ – Me mudei para Nova York após a morte por câncer de meu segundo filho. Havia me mudado do Mississippi de volta a Detroit para seguir minha carreira e, após o sucesso, mudei-me para Nova York para tentar passar ao próximo nível, mas não tive tanta sorte. Dormi no metrô, morei em um abrigo infestado de ratos que tinha uma janela quebrada no chuveiro (era um inverno mortal e tomar banho era muito ruim por causa do frio), o banheiro também não funcionava muito bem e vazava frequentemente. Cantei na estação de metrô no West 4, em Greenwich Village. Me lembro de não ter um casaco de inverno adequado, então usava quatro blusas umas em cima das outras. Foi um momento difícil. Estava com fome e muito solitária. Mas, é um momento muito especial da minha vida. Foi quando realmente vi o que havia realizado, realmente aprendi a confiar em Deus, e isso testou e provou o quão longe estava disposta a ir para ver meus sonhos se tornarem realidade.


EM - Você compõe baseada nas tuas experiências de vida. Um caso verdadeiro é a comovente Tell You What I Know. Essa contação de história faz parte da tradição do blues. Gostaria que falasse sobre isso.
JJ - Em todas as sociedades indígenas e até além delas, a cultura é tecida no campo narrativo. Contamos histórias aos nossos filhos para ensinar moral e lições de vida. Contamos histórias para entretenimento, contamos histórias para lembrar e aprender da nossa própria história. Foi a mesma situação com os escravos africanos trazidos para a América, e eventualmente se refletiu na música. Blues não é nada além de contar histórias. Não sei cantar o blues sem contar uma história. E quem melhor para contar minha história além de mim?

EM - Percebi que você abre teu primeiro disco com uma música acústica muito bonita chamada Souled Out. E o álbum Raw Sugar também começa com uma música acústica com as participações de Ben Hunter e Joe Seamons. Gostaria que falasse sobre isso.
JJ - Sou conhecida pela alta energia dos meus shows, pela grande voz, berros, músicas com grandes produções (sopros,  instrumentos elétricos e arranjos intricados) e estou perfeitamente bem com isso. Mas realmente gosto de começar meus álbuns com o que é mais importante para mim: minha fé. Ambas as músicas são orações e sinto que elas são melhor cantadas das formas mais simples e despojada possíveis. Orações não precisam ter toda a pompa e circunstância. Elas só precisam ser honestas. Meu próximo álbum (e provavelmente todos subsequentes) começará da mesma maneira.

EM – Além da produção, Eddie Cotton também participou da composição das músicas?
JJ – Eddie e eu produzimos juntos o álbum Raw Sugar. Além da faixa-título, Raw Sugar e Bad Man, escrevi as letras e compus as melodias para o álbum inteiro ao longo de um ano ou um pouco mais. Para esses dois temas, Eddie compôs a música e eu escrevi as letras. Eddie e eu nos encontramos com meu baterista John "Ianky" Blackmon Jr. e meu baixista Anthony Daniels, ambos de Jackson, e meu tecladista, Darryl Sanford, de Memphis, (Tennessee), um mês antes de ir ao estúdio e ensaiar todas as músicas. Hold Me e I Don't Feel Nothin foram canções refeitas de um álbum que lancei de forma independente em 2008. Hattie Pearl foi composta por toda a banda na gravação do estúdio. Escrevi as letras no estúdio, literalmente, enquanto gravávamos a música. Gravamos Raw Sugar em dois dias.


EM – Cada vez mais os músicos brasileiros vêm mantendo parcerias com os norte-americanos. Você conhecia a cena brasileira de blues?
JJ – Mister Sipp, Vasti Jackson e Annika Chambers haviam me falado. 

EM – O Blues é alegre ou triste?
JJ - Ambos. Blues é sobre celebrar a vida. Bons e maus momentos. Por exemplo, Thrill is Gone, de BB King, engloba emoções felizes e tristes na mesma música. Ele está falando sobre a liberdade de uma mulher que não o amava tanto. Mas, há uma pitada de tristeza também, quando ele percebe que ficará solitário sem esse amor, mesmo que ele esteja um pouco distante. A versão de Koko Taylor de Wang Dang Doodle é toda sobre mexer os calcanhares em uma jukejoint após um duro dia de trabalho. Stormy Monday, de T Bone Walker, é tão triste quanto uma música pode ser. Como se estivesse de joelhos implorando para que Deus o ajude a encontrar seu amor. A vida é fluxo e refluxo, de alegria e dor. blues é sobre a vida real e capta esse conceito lindamente.

EM – Você esteve no palco com o lendário Bobby Bland. Como foi essa experiência?
JJ - Bobby Bland era um gênio, com uma voz de seda. Tive a oportunidade de fazer apenas alguns shows com ele em um evento especial. Mas ele era um verdadeiro showman e um prolífico contador de histórias. Aprendi muito com ele nesses dois shows e depois de assisti-lo. Meu mentor, Ezra Brown, tocou saxofone para Bland por anos, e se não fosse por Ezra, eu nem saberia quem era o Senhor Bland. A experiência também foi muito nostálgica para mim. Minha avó, Mary (que possuía e administrava uma conhecida jukejoint e pensão para músicos negros no chitlin’ circuit durante a era Jim Crow em Emporia (Virgínia), amava Bobby Bland. E ele se lembrou  quando falei dela. 

EM - Houve uma época em que a soul music era música de protesto. Lá estavam Curtis Mayfield, Gil Scott Heron e o grande cantor e compositor Marvin Gaye. Parece que atualmente essa função tem sido com rap e isso também já está mudando. Não há mais música de protesto nos Estados Unidos com todos esses problemas raciais acontecendo?
JJ - Meu antigo empresário e eu conversamos sobre isso com frequência. Não... música de protesto está muito distante entre os músicos. A maioria das pessoas não quer ouvir isso. Existem artistas como Kendrick Lamar e Childish Gambino, ambos artistas de rap, e eles fizeram um ótimo trabalho. Nina Simone disse que “é dever do artista escrever e cantar música sobre os tempos”, parece que muitos artistas abandonaram essa responsabilidade. Até eu mesmo. Meus álbuns sempre foram sobre amor ganho, amor perdido e introspecção. Você sabe, minha história pessoal. Escrevi sobre o aborto no meu último álbum, mas, novamente, sobre minha perspectiva, contando a história sobre eu ter escolhido não abortar meu filho. Acho que a verdadeira mudança vem de dentro. Encorajando as pessoas a curar seus próprios traumas. Abraçar os sonhos e viver autenticamente é como vamos mudar a nossa sociedade. Ao mudar e desenvolver-se, você tende a melhorar sua própria esfera de influência. Se mais pessoas fizerem isso, melhor será a nossa sociedade. É um efeito cascata ou borboleta. Ainda assim, você não vai ouvir abertamente esses conceitos em minha música. Nem no meu próximo álbum, o Moonchild. No entanto, se você olhar para a minha mídia social, falo muito sobre isso. Acho que muitos outros artistas são da mesma maneira. Enquanto sua música não está abordando diretamente ou protestando contra os problemas reais do mundo. Suas mídias sociais, que as pessoas seguem por causa da música, abordam todos os tópicos importantes. Lá eles se posicionam publicamente a favor e contra muitas questões. Acho que nos dias de hoje isso pode até ser mais eficaz do que música de protesto. Nós vivemos em um tempo diferente.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Jesus Jack

Jack Jesus Buk Dean
Jimi Jim Janis Sim
Jair Judas Messias Não