segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O holocausto já começou


Texto: Eugênio Martins Júnior

No domingo, dia 02 de setembro de 2018, o Brasil foi dormir em choque com as imagens do incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro.  Um acervo com 20 milhões de itens virou cinzas, literalmente.
Vou corrigir a frase acima. Chocou a maioria dos brasileiros. Mas quem vive a cultura no dia a dia, meu caso, e acompanha seus desdobramentos, sabe que a qualquer hora uma tragédia dessas pode acontecer em qualquer equipamento público dessa importância, dado o descaso dos governantes com o tema. Aconteceu com o Memorial da América Latina, o Museu da Língua Portuguesa, o Museu do Ipiranga e, aqui em Santos, onde vivo, está acontecendo com o Teatro Coliseu. 
Simplesmente porque não existem políticas públicas consistentes para a cultura. Às vésperas de eleições majoritárias você sabe quais são as propostas do seu candidato para a cultura? Até agora somente o candidato nazi-fascista Jair Bolsonaro se pronunciou. Aos outros, a imprensa não perguntou e eles se fingiram de morto. 
Apoiado por seus eleitores, que não conseguem enxergar cultura além de seu canal de TV à cabo, Bolsonaro disse que se eleito, irá acabar com o Ministério da Cultura (MinC).  
Sintomático. Sua própria ascensão representa a queda do nível cultural do eleitor brasileiro. Como chegamos a isso? Anos de descaso com a educação e com a própria cultura nacional, óbvio. 
A verdade é que somos um povo que não reconhece nosso principal patrimônio, a mistura racial entre negro, índio e europeu. Não reconhecemos os quilombos e as as reservas indígenas, a capoeira e a viola caipira, a culinária da baiana com seu tabuleiro e a dos pampas, as manifestações de rua nas grandes cidades e os teatros públicos, os festivais de música, teatro e dança que empregam milhares de artistas e técnicos e os coletivos da periferia, o cultivo da terra e a feira-livre, a preservação dos equipamentos, como o próprio Museu Nacional. Temos a classe média que paga mil reais no ingresso da pista vip de show estrangeiro só pra poder tirar aquela selfie top e dar aquele tapa no baseado liberado. 
Sim, chegamos a esse ponto no Brasa (sem trocadilho). Onde falar de cultura é ser taxado de comunista, petralha, mortadela, aquele que mama na teta do governo. A direita brasileira só abre a boca pra falar de cultura se for pra meter pau na Lei Rouanet. Pra eles, cultura é só isso.  Eles não têm a noção de que fomento a cultura não é esmola e nem favor concedidos pelo governo, é obrigação. 
Considero um marco as manifestações no ano passado contra a exposição Queermuseu no Santader de Porto Alegre. Um marco à insensatez e à nova censura. Integrantes do grupo intitulado Movimento Brasil Livre (MBL), impediram que pessoas entrassem em uma exposição de obras de arte com o argumento que elas ofendiam a religião e a família. Na verdade o que se viu foi a auto-promoção do grupelho e a confirmação de que foi a coisa mais retrograda que apareceu no cenário político e cultural brasileiro nas últimas décadas. Não poderia ser mais ridícula essa manifestação. Movimento que tem liberdade no nome, mas aos gritos e ofensas, prega o fechamento de exposição de obras de arte. 
No Facebook, terra de ninguém, os oportunistas de plantão e eleitores do Bolsonaro já estão usando o trágico episódio do Museu Nacional para atacar os governos progressistas que dirigiram o país nos últimos anos, que não pelo acaso, mas pelo voto, foram do Partido dos Trabalhadores. 
Desconhecem que a gestão de Gilberto Gil, e sua mudança no estatuto do MinC foi a responsável pela reestruturação do Iphan e criação do Instituto BR de Museus. Que criou os Pontos de Cultura, cujas cidades podem se beneficiar de financiamentos para implementação de projetos ao alcance das comunidades periféricas das grandes cidades e que até então eram alijadas do processo. 
Incentivou os Conselhos Municipais de Cultura. Em Santos temos um exemplo de conselho atuante que, dentro do prazo estipulado por lei, conseguiu estruturar o Plano Municipal de Cultura que traça as diretrizes para políticas públicas municipais e destinação de recursos para os próximos dez anos. No desgoverno Temer, todo esse esforço virou cinza.  
Não adianta apontar o dedo para esse ou aquele político se você não participa do orçamento da sua cidade, não frequenta a Câmara Municipal, só se informa pelos cinco canais da televisão aberta brasileira, vai votar em candidatos que pregam a popularização de armas e não de livros. 
O verdadeiro culpado do incêndio no museu você vai encontrar refletido no espelho do teu banheiro. Aproveita e se atira dentro da privada. Porque é o lugar de quem demoniza a cultura sem entendê-la ou tê-la.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Após 50 anos Aluê traz Airto Moreira de volta ao Brasil


Nos anos 60 o samba brasileiro invadiu o DNA do jazz, do funk e do rock. Não tem vacina e nem cura. Nosso batuque é conhecido faz tempo e Airto Moreira é um dos responsáveis por isso ter acontecido. Usando uma palavra tão na moda,  um “influenciador”.
Apresentado por Joe Zawinul a Miles Davis, tocou no disco Bitches Brew, que consolidou as bases do fusion jazz, a revolução musical inventada pelo trumpetista de Saint Louis  e que, na época, muita gente não entendeu.
Com Chick Corea gravou os dois primeiros discos de seu Return To Forever, o primeiro disco homônimo e Light as a Feather, já com sua esposa, a cantora Flora Purim.
A lista de participações e parcerias é imensa, inclui Cannonball Adderley, Lee Morgan, Paul Desmond, Dave Holland, Jack DeJohnette, John McLaughlin, Keith Jarret, Al Di Meola, George Duke e tantos outros.
O retorno ao Brasil marca a gravação de Aluê, disco lançado pelo selo Sesc em 2017 com temas novos e antigos: Aluê (Airto Moreira e Flora Purim), Lua Flora (Flora Purim e José Neto), Sea Horse (Jossé Neto) e Misturada, Rosa negra, I’,m Fine, How Are You?, Não Sei Pra Onde, Mas Vai e Guarany (Airto Moreira). O time de bambas inclui Diana Purim (voz), José Neto (guitarra), Vítor Alcântara (sopros), Fábio Leandro (piano), Carlos Ezequiel (bateria e produção).
Nessa terça-feira, dia 21 de agosto, a partir das 21h, Airto Moreira apresenta com a banda Fotografia Sonora no Bourbon Street, em São Paulo, o show Viva Airto!

Eugênio Martins Júnior – Você está com um CD lançado recentemente, o Aluê. Gostaria que falasse sobre ele. Como surgiu a ideia e a oportunidade?
Airto Moreira – Aluê foi uma ideia do produtor Carlos Ezequiel. Ele foi aos Estados Unidos e nós ensaiamos. Quando chegamos aqui ensaiamos mais e gravamos pelo selo Sesc. Os músicos são muito bons.

EM – As músicas de Aluê foram gravadas ao vivo e em um único take. Gostaria que falasse sobre isso.
AM – Sempre achei que o primeiro take é o melhor de todos. Mesmo que a gente grave mais dez.

EM – Ano passado o disco Quarteto Novo fez 50 anos. Um marco. Gostaria que falasse sobre isso.
AM - Na época foi o projeto mais importante que fizemos e ainda existem pessoas que gostam dele.

EM – Gostaria que você falasse sobre o disco Bitches Brew. Você participou das faixas Great Expectations e Little Blue Frog. Como foram as sessões?
AM – As sessões do Bitches Brew foram muito boas. Gostei muito de fazer.

EM – Gostaria que falasse sobre a banda Weather Report que foi a que abriu a minha cabeça para o jazz fusion nos anos 80 e que tenho todos os discos.
AM – Não tenho muito o que falar. Gravei o primeiro disco deles, mas nunca toquei ao vivo com o Weather Report. 


EM – Mais do que nunca entramos de cabeça nas batidas eletrônicas. Há convivência pacífica entre as batidas orgânicas de Airto Moreira e as novas batidas?
AM – Não sei se há convivência pacífica porque nunca usei máquinas. As máquinas ficam de um lado e eu de outro. 

EM - O grupo Fotografia Sonora gravou o CD Viva Airto, uma homenagem a você. É o show que vocês vão apresentar no Bourbon? Como recebeu a homenagem?
AM – Gravamos há um ano. Eu estava aqui no Brasil e eles me chamaram. Foi muito bom, pessoas boas e bons músicos. É a primeira vez que tocaremos ao vivo juntos.  

EM – Quem vai, não digo ocupar o lugar, mas seguir os passos de Airto Moreira, Naná Vasconcelos, Paulinho Costa, Robertinho Silva, Laudir de Oliveira?
AM – Quem vai seguir os passos? Não acho que alguém segue os passos de alguém. Cada um tem seu estilo e toca o que gosta. Assim ficamos mais criativos e não seguindo passos. E quem vai ocupar eu não sei. Algumas pessoas que você mencionou já não estão mais por aí e não tenho a menor ideia.


Flora Purim
Eugênio Martins Júnior – O disco Return to Forever faz parte da vida de ambos. Gostaria que falasse sobre esse disco e essa época. Vocês estavam no meio da revolução que se tornou o fusion.
Flora Purim – O disco realmente faz parte das nossas vidas. Foram dois discos muito bons. Uma época que o Chick Corea começou escrever músicas mais melódicas e nós estávamos no meio da revolução que se tornou o fusion de verdade.

EM – Em 1967 você foi estudar música nos Estados Unidos e isso não era comum. Como se deu isso?
FP – Em 1967 não era comum. Fui para sair da ditadura militar, pois havia censura da música de Vandré, Chico, Gil, Caetano. Tinha 22 anos e achei que não teria futuro num país que censurava a liberdade de expressão.

EM – Vocês saíram do Brasil na década de 60, quando o país passava por forte turbulência política (uma ditadura militar). Após 50 país se encontra mais uma vez em um encruzilhada ideológica, política e cultural. Como vê o Brasil hoje com o olhar estrangeiro?
FP – Estou no Brasil há seis anos. Não olho pro Brasil como um estrangeiro. O país está passando por uma grande dificuldade. Tenho esperança que se elegerem os candidatos certos, talvez melhore. 

EM – Por outro lado, chegaram aos Estados Unidos do flower power sessentista. Deve ter sido uma transição curiosa. Poderia falar sobre isso?
FP – Chegar aos Estados Unidos no final dos anos 60 nos permitiu verificar uma revolução lá também. O flower power foi uma transição interessante, liberdade total. E foi assim que a gente começou a ouvir Jimi Hendrix, Janis Joplin, nos aproximamos ao Grateful Dead, com os quais colaboramos muito. Foi muito interessante influenciarmos e sermos influenciados.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Confira programação extensa do Sesc Jazz (antigo Jazz na Fábrica)

James "Blood" Ulmer e Vernos Reid

Entre os dias 14 de agosto a 2 de setembro, o Sesc Jazz reúne grandes nomes do jazz mundial, contemplando uma variedade de formações musicais e estilos. São 22 artistas de 11 nacionalidades em 68 apresentações no Sesc Pompeia, em São Paulo, e em 7 unidades do Sesc no interior do Estado – Araraquara, Birigui, Campinas, Jundiaí, Piracicaba, Ribeirão Preto e Sorocaba, além de sete atividades formativas, como workshop, masterclasses e roda de conversa.

Archie Shepp & Ritual Trio, com Kahil El Zabar (Estados Unidos) - Um dos ícones do jazz avant-garde, o saxofonista americano Archie Sheep reúne-se com o percussionista Kahil El Zabar para um tributo a John Coltrane. Um de seus mais talentosos discípulos, Shepp tocou com Coltrane em seus últimos anos de vida.
29/8 qua 20h Sesc Sorocaba (Teatro). 12 anos. $ 50 / 25 / 15
1°/9 sáb 21h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 60 / 30 / 18
2/9 dom 18h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 60 / 30 / 18

Buika (Espanha) - A cantora espanhola Buika mescla jazz, copla, flamenco, ritmos africanos, cubanos, soul e música pop num estilo único, que lhe rendeu um Grammy Latino. Além de nove álbuns, Buika fez participações em filmes, escreveu livros de poesia e colaborou com Jason Mraz, Pat Metheny e Chucho Valdés, entre outros.
22/8 qua 20h Sesc Campinas (Galpão Multiuso). 16 anos. $ 50 / 25 / 15
23/8 qui 20h Sesc Piracicaba (Ginásio). 16 anos. $ 50 / 25 / 15*
25/8 sáb 21h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 60 / 30 / 18
26/8 dom 18h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 60 / 30 / 18
*ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Charles Tolliver (Estados Unidos) - O trompetista norte-americano Charles Tolliver é conhecido por sua habilidade em improvisar, sob influência de cool jazz, bop e hard bop. Tolliver estreou na década de 1960, acompanhando o saxofonista Jackie McLean, e em carreira solo dividiu-se no comando do quinteto Music Inc e como produtor e arranjador do selo Strata-East.
16/8 qui 20h Sesc Jundiaí (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12
17/8 sex 21h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 50 / 25 / 15
18/8 sáb 20h Sesc Ribeirão Preto (Galpão). 16 anos. $ 50 / 25 / 15*
*ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Masterclass com Charles Tolliver
15/8 qua 15h Sesc Consolação (Centro de Música). 16 anos $ 17 / 8,5 / 5
8 vagas para músicos com experiência. Inscrições na Central de Atendimento do Sesc Consolação a partir das 12h do dia de 7 de agosto.
19/8 dom 15h Sesc Ribeirão Preto (Auditório). 16 anos. $ 17 / 8,5 / 5
8 vagas para músicos com experiência. Inscrições pelo email matricula@ribeirao.sescsp.org.br (na mensagem, devem constar nome completo, CPF, RG, data de nascimento, telefone e o título da atividade) ou na Central de Atendimento do Sesc Ribeirão Preto, a partir das 13h do dia 8 de agosto.

Dom Salvador Sexteto (Brasil) - O pianista paulista Dom Salvador resgata a parceria com o baixista Sérgio Barrozo, companheiro no grupo de samba-jazz Rio 65 Trio. Importante pianista de bossa e jazz na década de 1960, Dom Salvador e a banda Abolição ficaram famosos por fazerem a mistura de jazz, funk, soul e choro que influenciou o movimento black Rio.
22/8 qua 20h Sesc Birigui (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12
24/8 sex 20h Sesc Piracicaba (Ginásio). 16 anos. $ 50 / 25 / 15*
25/8 sáb 21h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 60 / 30 / 18
26/8 dom 18h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 60 / 30 / 18
*ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Dorival (Brasil) - O baterista Tutty Moreno, o contrabaixista Rodolfo Stroeter, o saxofonista e clarinetista Nailor "Proveta" Azevedo e o pianista André Mehmari revisitam o repertório de Dorival Caymmi, por meio de improvisos jazzísticos, interpretações livres e arranjos primorosos para clássicos do compositor baiano registrados no disco Dorival.
 15/8 qua 19h Sesc Jundiaí (Teatro). 12 anos. $ 30 / 15 / 9
16/8 qui 20h30 Sesc Ribeirão Preto (Galpão). 16 anos. $ 30 / 15 / 9
24/8 sex 20h Sesc Piracicaba (Ginásio). 16 anos. $ 50 / 25 / 15*
*ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Fred Frith Trio com participação de Susana Santos Silva (Estados Unidos/Portugal) - Guitarrista britânico Fred Frith integrou grupos de jazz rock e avant-garde como Henry Cow, Art Bears e Naked City. Com um trio, ele mostra o disco Another Day in Fucking Paradise, em show com participação da trompetista portuguesa Susana Santos Silva, destaque da cena de jazz contemporânea por seu talento em improvisar.
30 e 31/8 qui e sex 21h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12
1º/9 sáb 20h Sesc Araraquara (Teatro). 12 anos. $ 50 / 25 / 15*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Masterclass com Fred Frith
29/8 qua 16h Sesc Consolação (Centro de Música). 16 anos $ 17 / 8,5 / 5
20 vagas para pessoas com ou sem experiência em música. Inscrições na Central de Atendimento do Sesc Consolação a partir das 12h do dia 7 de agosto.

Henry Threadgill's Zooid (Estados Unidos) - O saxofonista americano Henry Threadgill é um dos três únicos jazzistas a ganhar o prêmio Pulitzer (2016) por explorar estilos que vão do ragtime ao free jazz, como integrante da AACM, de Chicago, ou ao lado de grupos como Air, Very Very Circus e o quinteto Zooid, com quem lançou o disco In for a Penny, In for a Pound (2015).
16 e 17/8 qui e sex 21h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12
18/8 sáb 20h Sesc Ribeirão Preto (Galpão). 16 anos. $ 50 / 25 / 15*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Iconili (Brasil)
A big band mineira Iconili tem um consistente repertório de afrobeat, jazz, funk, jazz etíope e pitadas de tradição afro-brasileira, registrado em três discos – o quarto álbum tem previsão de lançamento para este ano. O resultado é uma sonoridade original, ​grooveada, revezando momentos de contemplação a outros superdançantes.
30/8 qui 20h Sesc Araraquara (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12*
31/8 sex 19h Sesc Sorocaba (Teatro). 12 anos. $ 30 / 15 / 9*
2/9 dom 16h Sesc Pompeia (Deck). Livre. Grátis
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação

Isfar Sarabski & Trio Shahriyar Imanov (Azerbaijão) - O pianista azari Isfar Sarabski tinha apenas 19 anos em 2009 quando ganhou o prêmio de melhor pianista solo num dos mais prestigiados festivais do mundo, o de Montreux, na Suíça, pela habilidade que o tornou um nome proeminente no relevante cenário de jazz-mugham –vertente que mescla jazz ao improviso persa/iraniano.
23/8 qui 21h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12
24/8 sex 20h Sesc Campinas (Galpão Multiuso). 16 anos. $ 30 / 15 / 9*
25/8 sáb 20h Sesc Birigui (Teatro). 12 anos. $ 30 / 15 / 9
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Workshop com Isfar Sarabski e Shahriyar Imanov
22/8 qua 18h Sesc Vila Mariana (Teatro). 16 anos $ 17 / 8,5 / 5
30 vagas para pessoas com ou sem experiência em música. Inscrições na Central de Atendimento do Sesc Vila Mariana a partir das 9h do dia 7 de agosto.

Itiberê Zwarg & Grupo (Brasil) - O multi-instrumentista Itiberê Zwarg toca com Hermeto Pascoal desde 1977 e, em carreira solo, mantém o grupo do qual fazem parte seus filhos, o baterista e saxofonista Ajurinã e a flautista e saxofonista Mariana. No festival, lança Intuitivo (Selo Sesc), álbum em que até o cacarejar de galinhas incorpora-se à sua sonoridade.
17/8 sex 20h Sesc Ribeirão Preto (Galpão). 16 anos. $ 40 / 20 / 12*
18/8 sáb 21h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12
19/8 dom 18h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

James "Blood" Ulmer - Memphis Blood Blues Band (participação de Vernon Reid) (Estados Unidos) - O guitarrista americano James "Blood" Ulmer tocou com o saxofonista Ornette Coleman, que o introduziu ao free jazz – mas com sua guitarra iconoclasta e seu vocal soulful, Ulmer se tornou referência também em funk, rock e blues. No show, recebe o guitarrista Vernon Reid, da banda Living Colour, produtor de quatro de seus discos.
14 e 15/8 ter e qua 21h Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 60 / 30 / 18
17/8 sex 20h Sesc Jundiaí (Ginásio). 16 anos. $ 50 / 25 / 15*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Masterclass com James “Blood” Ulmer e Vernon Reid
16/8 qui 16h Sesc Consolação (Centro de Música). 16 anos $ 17 / 8,5 / 5
20 vagas para músicos com experiência. Inscrições na Central de Atendimento do Sesc Consolação a partir das 12h do dia 7 de agosto.

Jason Lindner (Estados Unidos) - O pianista Jason Lindner toca electro jazz, mesclando hard bop, bebop, hip-hop e eletrônica. Integrante da big band do clube Smalls, em Nova York, nos anos 1990, acompanhou artistas como a cantora Meshell Ndegeocello, além de ter participado do último disco de David Bowie, Blackstar (2016), pelo qual ganhou dois prêmios Grammy.

Now vs Now (Estados Unidos) - Jason Lindner, Justin Tyson e Panagiotis Andreou - O trio de eletro-groove exploratório Now is Now, liderado pelo pianista Jason Lindner, Now vs Now, formado por Jason Lindner nos teclados e sintetizadores, Justin Tyson na bateria e Panagiotis Andreou no baixo, apresenta música contemporânea remontada ao conceito M-Base de 20 anos atrás, com bases de funk e black music, e com o brilho dos instrumentos elétricos de Lindner, vencedor de dois prêmios Grammy por sua participação em Blackstar (2016), último disco de David Bowie. Em 2018, com o single recém lançado Motion Potion, o trio ainda guarda na manga para este ano o lançamento do seu terceiro álbum, The Buffering Cocoon, previsto para setembro, seguindo os precedentes Now vs Now (2009) e Earth Analog (2013).
23/8 qui 20h Sesc Campinas (Galpão Multiuso). 16 anos. $ 40 / 20 / 12
24/8 sex 21h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 50 / 25 / 15
25/8 sáb 20h Sesc Piracicaba (Ginásio). 16 anos. $ 40 / 20 / 12
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Jupiter & Okwess (Congo) - O Jupiter & Okwess toca bofenia rock, mistura de ritmos do Congo, rock, funk e soul. Liderada pelo cantor Jean-Pierre Bokondji, o Jupiter, a banda foi tema do documentário Jupiter's Dance (2003), de Florent de la Tullaye e Renaud Barret, e seu disco Kin Sonic tem participações de Damon Albarn e de Robert del Naja, do Massive Attack.
23/8 qui 20h Sesc Birigui (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12
25/8 sáb 19h Sesc Campinas (Galpão Multiuso). 16 anos. $ 40 / 20 / 12*
26/8 dom 16h Sesc Pompeia (Deck). Livre. Grátis.
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Lourenço Rebetez (Brasil) - Guitarrista, arranjador e compositor, o paulistano Lourenço Rebetez é um nome em ascensão com seu mix de jazz contemporâneo e tradições afro-brasileiras, criado sob influências que vão de Gil Evans a Moacir Santos, registradas no álbum O Corpo de Dentro. Como produtor, trabalhou com artistas como a cantora Xênia França.
19/8 dom 16h Sesc Pompeia (Deck). Livre. Grátis.
31/8 sex 20h Sesc Araraquara (Teatro). 12 anos. $ 50 / 25 / 15*
1º/9 sáb 19h Sesc Sorocaba (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Melissa Aldana & Crash Trio (Chile) - A saxofonista chilena Melissa Aldana se tornou a "grande esperança" do sax tenor, ao ser a primeira mulher (e primeira sul-americana) a ganhar a Thelonious Monk International Jazz Saxophone Competition, em 2013. Nos Estados Unidos desde 2007, Melissa já tocou com Greg Osby e George Coleman e lançou quatro álbuns.
30/8 qui 20h Sesc Araraquara (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12*
31/8 sex 21h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 50 / 25 / 15
1º/9 sáb 19h Sesc Sorocaba (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Masterclass com Melissa Aldana
29/8 qua 14h Sesc Sorocaba (Sala de Oficinas). 16 anos. $ 17 / 8,5 / 5
30 vagas para pessoas com ou sem experiência em música. Inscrições na Central de Atendimento do Sesc Sorocaba a partir das 9h do dia 7 de agosto.

Mike Moreno e Guilherme Monteiro (Estados Unidos + Brasil) - Os guitarristas Guilherme Monteiro e Mike Moreno se conheceram em Nova York, onde Moreno acompanhou Joshua Redman e Wynton Marsalis, e, Monteiro, tocou com Madeleine Peyroux, Luciana Souza e Ron Carter, e em projetos autorais como o grupo Forró in the Dark. No Sesc Jazz (sescsp.org.br/sescjazz), eles mostram um repertório de composições próprias.
30/8 qui 20h Sesc Sorocaba (Teatro). 12 anos. $ 50 / 25 / 15
1°/9 sáb 20h Sesc Araraquara (Teatro). 12 anos. $ 50 / 25 / 15*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Omar Sosa Quarteto AfroCubano (Cuba) - O pianista cubano Omar Sosa sintetiza referências afro-cubanas, free jazz, música latina, tradições do norte da África e clássicos europeus em mais de 20 álbuns. Em sua discografia, destacam-se trabalhos como Ceremony, produzido por Jacques Morelenbaum, ou Transparent Water, com o percussionista senegalês Seckou Keita.
15/8 qua 20h30 Teatro Municipal de Ribeirão Preto. 16 anos. $ 40 / 20 / 12
17/8 sex 20h Sesc Jundiaí (Ginásio). 16 anos. $ 50 / 25 / 15*
18/8 sáb 21h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 50 / 25 / 15
19/8 dom 18h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 50 / 25 / 15
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programaçã no site do Sesc SP.o

Renee Rosnes (Canadá) - A pianista canadense Renee Rosnes tem um trabalho consistente, registrado em mais de 20 álbuns sozinha ou em parcerias com Joe Henderson, Wayne Shorter, Bobby Hutcherson e Ron Carter. Em seu repertório, destacam-se versões para standards e a criatividade de composições próprias, como as registradas em Beloved of the Sky (2018).
23/8 qui 21h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 50 / 25 / 15
24/8 sex 20h Sesc Campinas (Galpão Multiuso). 16 anos. $ 30 / 15 / 9*
25/8 sáb 20h Sesc Piracicaba (Ginásio). 16 anos. $ 40 / 20 / 12*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Salomão Soares Trio (Brasil) - O pianista paraibano Salomão Soares começou a tocar sob influência de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca e Hermeto Pascoal. Em 2017, ganhou o Prêmio MIMO Instrumental e ficou entre os dez finalistas da competição de piano solo do Festival de Montreux. Além de trabalhos sozinho e com seu trio, tem um disco com o acordeonista Toninho Ferragutti.
16/8 qui 21h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 40 / 20 / 12
18/8 sáb 19h Sesc Jundiaí (Ginásio). 16 anos. $ 40 / 20 / 12*
24/8 sex 20h Sesc Birigui (Teatro). 12 anos. $ 30 / 15 / 9
31/8 sex 19h Sesc Sorocaba (Teatro). 12 anos. $ 30 / 15 / 9*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Stefano Bollani (Itália) - O pianista italiano Stefano Bollani mostra Que Bom, álbum de samba, bossa e jazz com participações de Caetano Veloso, João Bosco e Jacques Morelenbaum. Essa é a terceira colaboração de Bollani com brasileiros, após Bollani Carioca (2008) e de um disco em parceria com o bandolinista Hamilton de Holanda, O que Será (2012).
17/8 sex 20h Sesc Ribeirão Preto (Galpão). 16 anos. $ 40 / 20 / 12*
18/8 sáb 19h Sesc Jundiaí (Ginásio). 16 anos. $ 40 / 20 / 12*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Time Is a Blind Guide (Thomas Strønen) (Noruega) - O baterista norueguês Thomas Strønen é o criador do quinteto Time Is a Blind Guide, cujas influências vão do jazz à música japonesa, registradas em álbuns como Lucus (2018), que reveza atmosferas abstratas e momentos enérgicos. Strønen já participou do duo de jazz eletrônico Food e das bandas Humcrush, Meadow e Monsters & Puppets.
23/8 qui 20h Sesc Piracicaba (Ginásio). 16 anos. $ 50 / 25 / 15*
24/8 sex 21h Sesc Pompeia (Teatro). 12 anos. $ 40 / 20 / 12
25/8 sáb 19h Sesc Campinas (Galpão Multiuso). 16 anos. $ 40 / 20 / 12*
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Vijay Iyer Sextet (Estados Unidos) - O pianista americano Vijay Iyer surpreende pela versatilidade com que vai do jazz à música erudita e ao pop, em trio, dupla, criando para um quarteto de cordas ou no comando deste sexteto. Autor de um dos álbuns de jazz mais elogiados de 2017, Far From Over, o grupo se reveza em excitantes improvisos sobre composições de Iyer.
31/8 sex 20h Sesc Araraquara (Teatro). 12 anos. $ 50 / 25 / 15*
1°/9 sáb 21h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 50 / 25 / 15
2/9 dom 18h30 Sesc Pompeia (Comedoria). 18 anos. $ 50 / 25 / 15
* ingresso válido para os dois shows que acontecem nesta data. Consulte a programação no site do Sesc SP.

Cenário do jazz brasileiro no Brasil e no mundo - Roda de conversa com profissionais ligados ao universo do jazz. Com o jornalista Carlos Calado, o maestro Nelson Ayres e as pesquisadoras Inés Terra Brantes e Isabel Nogueira.
21/8 ter 16h Centro de Pesquisa e Formação do Sesc (CPF). 16 anos. $ 17 / 8,5 / 5
30 vagas. Inscrições pela internet (www.sescsp.org.br/sescjazz) ou na Central de Atendimento do Centro de Pesquisa e Formação a partir das 14h do dia 26 de julho.

Ingressos
Venda online de ingressos disponível a partir das 14h do dia 26 de julho, quinta-feira, pelo Portal do Sesc
Venda presencial de ingressos disponível a partir das 17h30 do dia 27 de julho, sexta-feira, nas bilheterias das unidades do Sesc no Estado de São Paulo.
Limite de 4 ingressos por pessoa.

Sesc Araraquara
R. Castro Alves, 1315 – Quitandinha - (16) 3301-7500

Sesc Birigui
Rua Manoel Domingos Ventura, 121 - (18) 3649-4730

Sesc Campinas
Rua Dom José I, 270 - (19) 3737-1500

Sesc Consolação
Rua Dr. Vila Nova, 245 - (11) 3234-3000

Sesc Jundiaí
Av. Antônio Frederico Ozanan, 6600 - (11) 4583-4900

Sesc Piracicaba
Rua Ipiranga, 155 - (19) 3437-9292

Sesc Pompeia
Rua Clélia, 93 - (11) 3871-7700

Sesc Ribeirão Preto
Rua Tibiriçá, 50 - (16) 3977-4477

Sesc Sorocaba
Rua Barão de Piratininga, 555 - (15) 3332-9933

Sesc Vila Mariana
Rua Pelotas, 141 - (11) 5080-3000

Centro de Pesquisa e Formação (CPF)
R. Dr. Plínio Barreto, 285 - (11) 3254-5600

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Viajando nas ondas do blues de Paulo Meyer


O blues nasceu muito longe, há muito tempo e é cheio de histórias, como os afluentes do rio Mississippi. Daria uma letra de música, não é verdade? Ou serviria de paralelo para uma outra história de vida. 
Falo do Paulo Meyer, surfista das antigas e blueseiro da pesada. Gaitista, cantor e long boader. Nem sei se é nessa ordem. Malaco velho daqueles que conhece cada pico de surf do litoral de São Paulo e cada buraco de uma diatônica, Meyer foi um dos pioneiros da gaita blues por ter tocado na banda de Nuno Mindelis no início dos anos 90. 
Esteve em momentos chave da história do blues no Brasa e conta algumas delas aqui: como trabalhou nos dois festivais seminais, Montreux Jazz Festival e Rio-Monterey Jazz Festival e ficou amigo do lendário Champion Jack Dupree, figuraça que andava por aí tomando birita e gastando dinheiro em diversão. E os anos passados em suas duas bandas, Expresso 2222 e Burning Bush.
Atualmente à frente da Thunderheads - Paulo Resende (bateria), Caio Góes (baixo), Alexandre Spiga (guitarra e voz) - com quem gravou Kombi 71 e Kombi 72, Meyer escolhe o repertório como quem escolhe as melhores ondas da série. Ambos com músicas autorais cantadas em português e inglês, trazendo blues, rock setentista e alguma surf music. 
E numa época em que a juventude parece estar desconectada com o passado recente do país, Meyer também discorre sobre outros paralelos musicais e ideológicos. Porque Bob Dylan, compositor de músicas de protesto é cultuado  em seu país e premiado pelo conjunto da obra com o Prêmio Nobel de Literatura enquanto Chico Buarque e Caetano Veloso vêm sendo achincalhados por parte da sociedade brasileira, aquela da meritocracia e do pato amarelo?
Leia as histórias do coroa – são tantas que ele vai e volta e a gente tem de ficar ligado -  com a experiência de quem já surfou, já tocou, já viveu em tempos sombrios, um verdadeiro storyteller. Depois transforme sua história de vida em um blues.

Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Paulo Meyer (divulgação)


Eugênio Martins Júnior - O que veio primeiro, a música ou o surf?
Paulo Meyer - A música como trilha sonora. Mas não com instrumentos musicais. No rádio, com Ciro Monteiro, Louis Armstrong, Elza Soares. E nos discos, Lamartine Babo, Judy Garland cantando Over The Rainbow. Aí vieram juntos a prancha de jacaré, de madeira fina, com o bico arrebitado e buracos para enfiar as mãos, nas ondas da praia de Itararé, em São Vicente. E as músicas do trio folk Peter, Paul & Mary. Tinha uns oito anos de idade, o ano era 1963 e passava férias de verão com minha mãe num apartamento alugado. Daí inventaram as pranchas de jacaré de isopor, mas nunca tive uma porque conseguia colocar a minha de madeira bem mais de lado na onda do que os garotos com prancha de isopor que iam reto.
Em 1969 veio uma nova trilha sonora na minha vida e um novo lugar com ondas e uma nova forma de surfa-las. Meu amigo Nini tinha uma casa em Itanhaém e uma prancha Surf Champion - as primeiras pranchas de espuma de poliuretano cobertas com fibra de vidro e espuma de poliéster feitas no Estado de São Paulo - lá na Prainha dos Pescadores. Ainda não havia outros surfistas para a gente olhar e ver como eles surfavam e ainda não tinham inventado o leash, a famosa cordinha. A trilha sonora da época era a Tropicália, Os Mutantes. Também faziam parte dessa cena, o disco triplo do Festival de Woodstock, o disco Abbey Road dos Beatles e os discos da banda Steppenwolf. Nesse mesmo ano de 1969 vi um show de rock no MASP com a banda Made In Brazil tocando Sympathy For The Devil dos Rolling Stones. Mais ou menos nessa época comecei a ouvir os blues de Lightning Hopkins e tudo misturado com Caetano e Gil, Cream, Janis Joplin, Jimi Hendrix e John Mayall e toda a trilha sonora daquela época maluca. No início dos anos 70 comecei a tentar tocar violão e tanto o surf quanto o blues ficaram cada vez mais importantes na minha vida. O blues estava presente na guitarra de Lanny Gordin, que tocava com Gal Costa, e na música O Meu Refrigerador Não Funciona d’Os Mutantes, no primeiro disco de Luiz Melodia. Havia muita influência do blues em algumas coisas da música popular brasileira daquela época, Jards Macalé, Jorge Mautner. Daí pra frente o estilo de vida era o do surf e a trilha sonora era o blues.

EM - Você conhece o pessoal do Quebra Mar aqui de Santos?
PM - Pegava jacaré em 1963/64 e nunca vi ninguém surfando de pé em uma prancha. Não ia a Santos ou São Vicente nos anos 70. Nessa época conheci em Itanhaém as pranchas feitas pelo Homero e pelos irmãos da Twin, mas nunca os conheci pessoalmente. Em 1975 voltei de uma viagem de surf pela Califórnia, México e Peru e conheci o Lequinho, irmão mais velho do Almir e do Picuruta, na praia de Pernambuco, em Guarujá. Ficamos amigos, conversamos sobre ondas, ele me contou sobre a Porta do Sol, e logo depois ele fez uma surf trip com alguns amigos de Santos a Ubatuba. Eu ficava direto na Praia do Félix e estava lá no primeiro dia em que meu amigo Claude, das pranchas Acqua, levou o Lequinho ao Félix. Ele se entocava de uma forma naqueles buracos, esquerdas, frontside para ele, do Félix de uma forma que nunca vi ninguém fazer, nem antes nem depois. Ele tinha uma monoquilha wing-pin que funcionava muito bem naquelas ondas tubulares, foi para mim um espetáculo de surf. Inesquecível ver o Lequinho, que hoje já está do outro lado da vida, surfar as ondas triangulares e tubulares do canto do Félix, que eram as minhas favoritas naquela época, mas eu de backside não me entocava tão fundo como o Lequinho fazia com a maior facilidade.
Das antigas conheço o pessoal Itanhaém, Guarujá e Ubatuba, que eram os lugares que eu frequentava. Recentemente através da música e do Facebook tenho contato com o Sidão, do website TemOnda, de São Vicente. Acho muito legal ele sempre tocar as músicas da banda Paulo Meyer & The Thunderheads quando faz suas transmissões ao vivo no Facebook. Tem no youtube um clip que ele fez em um dia de ondas muito boas na praia do Itararé, todo mundo na água mandando muito bem. A trilha sonora é a nossa música Hang Five.

EM - Como era o blues no Brasil nos anos 70 e 80?
PM - Nos anos 70 o blues estava presente, até um certo grau, na música d’Os Mutantes, nos discos Legal e Fatal da Gal Costa, com Lanny Gordin na guitarra, no primeiro disco do Luiz Melodia, na música do Jards Macalé e do Jorge Mautner. Nos anos 70, pelo tanto que eu tinha conhecimento, não havia "bandas de blues” no Brasil. A exceção era a banda Ave de Veludo em São Paulo. Imagino que havia outras bandas em outros estados, mas a gente não ficava sabendo. O (Carlos) Calanca do selo Baratos Afins lançou um LP da Ave de Veludo e outro chamado Bagga's Guru, mas eu só vivia nas praias e nem tinha conhecimento disso. Em 1975 comecei a tocar blues com meu amigo José Serra, irmão mais velho do guitarrista Cândido Serra, e com o Steve Baranyi. Nosso som era acústico, sem amplificação, tocava também com o pianista Silvio Gallucci, que foi quem emprestou a primeira gaita de blues para eu tentar tocar, na estrada, dentro da Kombi do Papiga, indo para Trindade, um vilarejo na praia, entre Ubatuba e Paraty. Nos anos 80 continuei tocando e só me lembro de duas coisas bem blues que me causaram impacto: a gaita do Zé da Gaita, numa música num LP do Lobão e uma slide guitar que ouvi no rádio do carro e até parei a Brasília para ouvir melhor de tão bom. Era o André Christovam solando na música Sem Whisky E Sem My Baby Me Jogo Embaixo do Trem. Não lembro se era com a Rita Lee ou com o Kid Vinil, só me lembro que era uma slide que nunca havia ouvido antes no Brasil. Antes disso, ou na mesma época, surgiu um cara com blues no nome, o Celso Blues Boy, mas a música dele que tocava no rádio era Aumenta Que Isso Aí É Rock'n'Roll. Os blues não tocavam no rádio. No final dos anos 80 apareceram dois LPs de blues, da banda carioca Blues Etílicos e o Mandinga do André Christovam. Em 1989 o produtor Cesar Castanho inventou de fazer um Festival Internacional de Blues no Ginásio da Cava do Bosque em Ribeirão Preto, com Buddy Guy, Junior Wells, Albert Collins, Magic Slim e muitos outros. As participações brasileiras foram justamente Blues Etílicos e André Christovam, e logo na sequência desse festival apareceram muitas bandas de blues brasileiras, inclusive a minha, Expresso 2222, e o blues pipocou aqui e ali e explodiu no Brasil na década de 90.


EM - Fale sobre as bandas Expresso 2222 e The Burning Bush.
PM – Carregava sempre uma gaita Höhner Blues Harp no bolso desde os anos 70 e a vontade de ter uma banda de blues e achar que isso seria possível só veio forte depois do Festival Internacional de Blues em Ribeirão Preto. Assisti todos os shows, durante cinco dias, e o Magic Slim tocou em todos. Em 1990 o Brother Bill me apresentou ao Nuno Mindelis e o acompanhei na gaita em alguns shows acústicos. Em uma apresentação com o Nuno na pracinha que tem na entrada do Sesc Pompéia um cara veio falar que queria formar uma banda de blues e rock, era o baterista Paulo Resende, tocamos juntos até hoje. O nosso primeiro ensaio foi no segundo andar de uma loja de roupas, no número 2222, da rua Teodoro Sampaio. Então encanei que o nome da banda tinha que ser Expresso 2222 porque a gente tocava a “música do trem” e essa música do Gil chamada Expresso 2222 tem uma coisa mística que eu achava bacana. O baixista era o Leo Richards, um sósia quase perfeito do Keith Richards, e o guitarrista era o Paulo Acedo, que hoje faz os excelentes amplificadores valvulados - eu uso um de 6 watts, o Acedo Áudio 276 – 12’). Tocamos na Feira da Vila Madalena, fomos a primeira banda a tocar no palco principal. Nossa primeira gig fixa foi num bar do bexiga chamada Dona da Noite. Chamei meu amigo Tarcísio Lopes (sax tenor) para participar do primeiro show, e ele acabou entrando na banda, que sempre teve essa formação: bateria, baixo, guitarra, sax tenor e eu cantando e tocando gaita. Durou de 1991 a 1995. As backings que ficaram mais tempo foram a Telma Lovato, a Alessandra Grani e a Marisol Jardim. Tocamos no Pour Quois Pas, Blue Note, Café Piu-Piu, Aeroanta e nas Feiras da Vila Madalena e Pompéia.
Depois que o sonho acabou para a banda Expresso 2222, o baterista Paulo Resende tocou blues em São Paulo por algum tempo, na Black Dog, e depois resolveu marcar shows em Ubatuba (SP) e Paraty (RJ) e me chamou para fazer vocal e gaita. Nossas apresentações no Café Paraty começaram em 1995 e marcaram a história musical da cidade, que hoje tem um fantástico Festival de Blues e Jazz. Mas em 1995 só Paulo Meyer & The Burning Bush tocavam blues e rock dos anos 60 e 70. A banda começou com o Paulo Resende (bateria), Fabio Zaganin (baixo), Marcelo Watanabe (guitarra) e eu. Eventualmente Mateus Schanoski no piano e mais tarde nos teclados. Fui apresentado ao Pete Woolley pelo dono do Café Paraty e desde então ele passou a participar dos shows, junto com o americano David Richards (sax) e Fábio Siri (guitarra). Gravamos o CD Cleansed In Muddy Waters, produzido de forma independente pela banda em 1998. E um DVD com o Pete Woolley, até que ele resolveu morar naquela outra dimensão da vida que todos nós iremos conhecer um dia.

EM – Você esteve presente nos lendários Festivais de Jazz de Montreux e no Rio-Monterey Jazz Festival, ambos em 1980. Deve ter histórias para contar. 
PM - Trabalhei na equipe de produção dos dois festivais e conheci muitos dos músicos bem de perto. Fiquei bastante amigo de alguns, entre eles Champion Jack Dupree, Barney Kessel - ouvi a guitarra dele no rádio hoje, acompanhando a Billie Holiday - Raul de Souza, John McLaughlin e Jaco Pastorius. Não havia um bar no hotel onde poderiam rolar umas canjas noite toda, como haveria mais tarde nos Festivais Internacionais de blues de Ribeirão Preto, em 1989; no Ginásio do Ibirapuera, em 1990; e depois em todas as edições do Nescafé & Blues, no qual trabalhei em todas as edições. Todos esses Festivais foram produzidos pelo Cesar Castanho. A partir da segunda edição do Nescafé o Cesar pediu que eu indicasse uma banda de blues brasileira para tocar no bar do Hotel Transamérica, para eventuais canjas, e indiquei meus amigos da banda Calibre 12. O guitarrista era o Fabio Siri, que tocou muitas vezes na Burning Bush, minha banda nos anos 90. O trabalho nesses festivais é exaustivo. A gente pegava os músicos no aeroporto nos horários mais malucos e levava para o hotel, às vezes o voo atrasava e era a maior canseira, depois levava todo mundo para passagem de som, depois todo mundo para o show, várias pessoas na equipe, depois levava de novo para o aeroporto. Os momentos especiais de tocar com outras pessoas no palco foram talvez os mais inesperados e os que mais empolgavam. Dois momentos bem especiais que deixaram marcas na alma foram tocar gaita com a guitarrista/cantora Joanna Connor, que viveu em Massachussets e Chicago; no Jazz & Blues de Santo André e em outra ocasião com o Larry McCray, de Detroit, que estava no Brasil para fazer shows e também uma gravação com o Nuno Mindelis. O tecladista era o Tony Z que depois tocou com Buddy Guy. Outra participação inesquecível rolou num show meu com a banda Paulo Meyer & The Thunderheads num fim de ano na Praça da Matriz em Paraty. Convidei a argentina Julieta Burgos para cantar blues com a gente quando a conheci cantando em Trindade na noite anterior. Mas em matéria de jam session nada se compara ao time dos blueseiros do Brasil.
Em todos esse momentos de contato privilegiado com músicos incríveis, fiquei muito impressionado com a imensa tranquilidade, simpatia e humildade de BB King. Sempre disposto a conversar com os fãs com muito boa vontade. Naquela época, 1980, ainda não havia selfies. (risos)
Também achei muito curioso o estilo de vida do Champion Jack Dupree e um hábito peculiar que ele tinha sempre que visitava um país. Ele vivia na Alemanha e era dono de um nightclub e tinha uma sobrinha endinheirada, então toda vez que ele visitava um país trocava 1.000 dólares, o cachê dele era mais ou menos isso, em moeda local para ter dinheiro no bolso, beber cerveja à vontade, gastar à vontade e dar presentes para as pessoas que ele conhecia e das quais gostava. Quando ele ia embora, se sobrasse dinheiro, trocava em dólares o que havia sobrado, mesmo perdendo no câmbio. Só na União Soviética ele não conseguiu gastar muito o dinheiro e nem trocar o dinheiro russo. Era proibido comprar dólares, então ele comprou umas botas muito lindas de couro, com pelo de algum bicho, que ele usava todo dia e um diamante que usava na orelha. Isso não era muito comum em 1980. Acordava cedo, fazia um workout de boxeador no quarto - seu apelido Champion veio do boxe - e às 10 horas da manhã já estava no escritório da produção tomando cerveja, dando risadas e contando piadas. Ele gostava de estar sempre no meio da garotada, das pessoas mais jovens, ele já tinha uns 70 anos de idade. Na sua apresentação no festival, só piano e voz, rolou uma canja com o Claude Nobs, organizador do evento, que tocou uma gaitinha de blues.
Antes disso aconteceram algumas coisas na minha vida, pessoas que me levaram ainda mais perto do blues. Em 1980 trabalhei na equipe de produção do Festival de Jazz São Paulo – Montreux, era a segunda edição, houve outra em 1978 - e fui a primeira pessoa a apertar a mão de BB King assim que ele chegou ao Brasil. Era a sua primeira viagem à América do Sul, ainda no aeroporto de Congonhas. Nessa ocasião conheci também o pianista Champion Jack Dupree. Havia nos anos 80 uma banda de blues bem underground chamada SS-443, eles eram baianos, de Vitória da Conquista, mas estavam morando em São Paulo, o bandleader, cantor e gaitista era o Marco Aurélio, o Mazinho, eles só tocavam músicas próprias, tinham um compacto-duplo gravado e tocavam no Personinha, no Bexiga. Fiquei amigo deles e lá pelas tantas me deixavam participar do show que sempre começava às duas da madrugada. Eu tocava gaita, era uma canja, em uma música. (risos)


EM - Você está na cena há quarenta anos. Me fale o que é melhor e o que é pior entre a cena atual e daquela época. 
PM - O que acho melhor hoje é que há uma qualidade técnica indiscutível entre os melhores músicos brasileiros de blues.  Tem gaitistas que eu nem conheço que tocam maravilhosamente bem. Há músicos brasileiros tocando blues nos Estados Unidos e no mundo todo, como o Igor Prado, Artur Menezes, Celso Salim, a gaitista Sarah Messias, além de André Christovam, Big Gilson e Nuno Mindelis que já tocam fora do Brasil há muito tempo. E existe uma nova geração que tem excepcional domínio técnico de seus  instrumentos e isso é muito bom. Creio que o pior hoje, comparando com a década de 90, é que não existe mais uma geração de fãs de blues. Eu era um deles que levavam seu amor por esse estilo de música a um nível quase místico. Para essas pessoas o blues era sagrado e cada show de blues era uma celebração, na qual o som do blues era o que nos unia.
O que havia de pior antigamente na cena do blues? Havia para as bandas a enorme dificuldade de registrar o trabalho musical, com imagens boas e nítidas e som de boa qualidade. Era difícil conseguir equipamento profissional e o que existia de equipamento amador era muito ruim nas apresentações ao vivo. E também as demos, que eram as fitas cassete,  produzidas e usadas pelas bandas para tentar tocar em lugares melhores, que tinham que ser entregues "em mãos", eram uma desgraça. A sonoridade da minha banda Expresso 2222 só pode ser conhecida nas duas faixas do CD Blue Night Collection, da Gravadora Roadrunner, porque foram produzidas em estúdio. Quase todo o material daqueles anos ficou registrado em fitas cassete que não existem mais ou em apresentações em programas de TV que eram de boa qualidade, mas ficavam ficavam uma desgraça quando gravadas nos de vídeo-cassete daquela época. Isso nos anos 90, antes ainda, nas décadas de 70 e 80, nada sobrou de registro do som que a gente fazia na época. 
E o que havia de melhor naquela época? A atmosfera de loucura e empolgação nos shows de blues em bares como o Pour Quois Pas, Blue Note, Café Piu-Piu e nos shows maiores para nós, o Centro Cultural São Paulo, por exemplo. Alguns deles em ruas e praças, feiras culturais como as da Vila Madalena e da Pompéia. E outros que para nós eram sempre megaeventos, hoje os shows são eventualmente maiores ainda, mas eu considero o público de hoje um tanto frio, se for para comparar com a loucura dos eventos do anos 90 e do Festival Internacional de Blues de Ribeirão Preto em 1989.
Outra coisa que aconteceu em 1985 foi o show do Buddy Guy e do Junior Wells no 150 Nightclub do hotel Maksoud Plaza. Quem trouxe foi o Cesar Castanho e foi isso que o possibilitou fazer os festivais de blues. Fui a esse show do Buddy Guy com minha mulher que estava grávida de nove meses, nosso primeiro filho nasceu dois dias depois - ficamos na mesa do meu amigo jornalista Luiz Fernando Vitral, que se empolgou bastante e resolveu fazer um programa de blues na Rádio Brasil 2000. Esse programa foi muito importante para a cena do blues em São Paulo, no final dos anos 80, começo da década de 90. Meu amigo adotou o nome de Brother Bill para fazer o programa de rádio e todo mundo que gostava de blues ouvia o programa do Brother Bill. Foi através da amizade com o Brother Bill que fiquei sabendo da existência do bar Jazz & Blues em Santo André, onde o André Cristovam já tocava há algum tempo com a sua banda, a Fickle Pickle. Creio que foi nesse bar que a cena do blues começou pra valer, no final dos anos 80. Fui lá com o Brother Bill e vi o show do André Cristovam, o Brother Bill me apresentou ao André e toquei gaita em uma música. Fui ficando cada vez com mais vontade de tocar blues pra valer. O que aconteceu logo a seguir quando conheci, também através do meu amigo Brother Bill, o Nuno Mindelis e toquei com ele como gaitista em alguns shows, meus primeiros como músico profissional. E logo a seguir, isso em 1990/91, comecei a tocar blues com a minha banda, a Expresso 2222.



EM - Você é fã de Bob Dylan, um dos compositores norte americanos mais respeitados do mundo. Aqui no Brasil existe um achincalhamento do Chico Buarque, Caetano e outros, como um artista mais experiente que passou pela ditadura vê isso?
PM - Essa é a pergunta mais instigante e inteligente que poderia ser feita a um grande fã de Bob Dylan que também acompanhou a carreira musical de Chico Buarque e Caetano Veloso, durante a ditadura militar e no tempo da redemocratização. Eu traço claros paralelos entre as carreiras de Bob Dylan e Chico Buarque e de Bob Dylan e Caetano Veloso, coisa que faço há décadas e vou tentar fazer de maneira sucinta na resposta a esta pergunta que tem uma imensa profundidade de significados. Tal como Bob Dylan, que veio antes em ambos os casos, Chico Buarque é um fantástico contador de histórias: “Para ver a banda passar cantando coisas de amor" tem imagens claras e líricas invocadas e reproduzidas no inconsciente de cada um que ouve a música Mr. Tambourine Man do Dylan) e Mr. Bojangles  - que não é de Dylan. Dylan também é mais claro ainda que Chico Buarque na “defesa dos fracos e oprimidos e na denúncia da opressão e dos opressores", quando conta as histórias do índio bêbado Ira Hayes e do boxeador negro Hurricane, injustamente condenado à prisão. E também quando escreve e canta a música Masters of War, que é a maior denúncia que pode existir do sistema que nos mastiga, tritura e cospe fora. Engole e defeca continuamente nossas almas e nossas vidas. Blowin' In The Wind virou um hino contra todas as guerras como nenhuma outra música produzida no século 20. E, da mesma forma que Bob Dylan faz, Chico Buarque usa e abusa das poéticas e sublimes expressões idiomáticas que estão na boca do povo: "o que será que será?", "the times, they are a-changin' ". Já entre Caetano e Dylan existe o incrível paralelo da ruptura na carreira que o uso da guitarra elétrica trouxe: o que aconteceu com Dylan no Festival Folk de Newport em 1965, onde Bob Dylan foi hostilizado e vaiado por boa parte do público, por ter tocado plugado, eletrificado e ALTO, com a Butterfield Blues Band. A aconteceu o mesmo com o Caetano quando ele apresentou Alegria, Alegria no Festival de Música da TV Record, em 1967, com a guitarra elétrica de Tony Osanah. Tanto Caetano como Dylan tinham o status de "representantes da esquerda" no cenário musical. Caetano fazia musicas que a “juventude tradicional anti-ditadura" que gostava do CPC, aprovava. E de repente passa a usar guitarra elétrica, símbolo do imperialismo cultural ianque. Bob Dylan era considerado um cantor e compositor de músicas de protesto cultuadas por pessoas politizadas de uma geração em tempos difíceis e, subitamente, se vendeu à guitarra elétrica, identificada como ligada a interesses comerciais. Na minha carreira musical pessoal, sempre contei a história do blues que veio dos escravos negros no sul dos Estados Unidos e utilizou instrumentos da música européia, violão, piano, instrumentos de sopro, e também criou a "blue note" que é uma justaposição das escalas musicais africana e ocidental. Imagino que se eu for contar hoje a história do blues como sempre fiz, dando crédito aos escravos negros no sul dos EUA, é possível que ouça gritos de "B... 2018! Ou apropriação cultural. Considero isso uma desgraça, eu achava que o blues era uma forma de superar preconceitos raciais e culturais, pois pessoas de qualquer raça amavam e  amam ainda hoje o blues. Mas nestes tempos de divisão e radicalismo tudo mudou, recentemente já fui até acusado de entoar hinos imperialistas por cantar músicas dos Rolling Stones ou sei lá de quem mais, quando tudo o que eu queria era paz e amor e superação de preconceitos de qualquer espécie. Os tempos seguem sendo cada vez mais difíceis, e eu sigo sendo cada vez mais um admirador da arte de Caetano Veloso e de Chico Buarque e principalmente Bob Dylan, e também sigo sendo cada vez mais fiel na minha admiração pelo autêntico blues em todas as suas múltiplas formas, inclusive no Brasil. The blues is alright.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Abaixo o blues de pet shop, viva o blues vira lata da Dog Joe


Tocar por amor a música sem ficar fazendo pose. Essa é a Dog Joe, banda santista/guarujaense que toca regularmente na noite da Baixada Santista há mais de 20 anos. Atualmente é formada por Digo Maransaldi (bateria), Eduardo Eloi (guitarra) e Rogério Duarte (baixo).
O primeiro EP, Blues Rock Hotel, trás letras malandras e pegada rock and roll como o próprio nome já diz, mostrando o background da Dog Joe é mesmo a rua.
Eduardo Elói integra ainda a banda Blues Power que, como o nome já diz, é o veículo perfeito para ele baixar o braço na sua guitarra.
Digo Maransaldi mantêm o projeto solo New Gafieira, cujo trabalho também está registrado em CD e Rogério Duarte toca com quem chamar, desde o grupo de hard rock Medusa Trio até banda de casamento.
Não é fácil viver de blues na região das casas noturnas que só abrem espaço para o pagodinho e o sertanejo baratos.
Mas não há reclamação. Cavam suas próprias oportunidades e já foram convidados para tocar com Lurrie Bell, Lazy Lester e abriram show para Jon McDonald com a Giba Byblos Band. Tocaram em festivais no Rio, São Paulo, Santos, Guarujá e estão em vias de gravar o próximo CD.
Abaixo o blues de pet shop, viva a Dog Joe.

Texto: Eugênio Martins Jr
Foto: Divulgação

Eugênio Martins Júnior – Quando você começou a tocar guitarra Dudu?
Eduardo Elói – Comecei no violão aos oito anos tocando MPB, Beatles, Os Incríveis. E também dedilhando o cavaquinho, fazendo chorinho que sempre gostei. Não me aprofundava em nada, tocava o que sabia. Quando veio o rock nacional aprendi a tocar guitarra lendo revistinha. O aprofundamento veio com o blues. Aprendi a escala para poder fazer os solos.

EM – Aprendeu fazendo.
EE – Isso. Um amigo me passou a escala blues e achei bacana. Ouvia e comecei a entender os tons, as escalas.

EM – Como o blues apareceu?
EE – Ouvia pouco blues, mas já achava bacana. Peguei uma fita com BB King, Eric Clapton, Buddy Guy, Jimi Hendrix, Johnny Winter e comecei a encaixar a escala blues naquilo ali. Fui entendendo como fazer ouvindo esses caras. Eu tocava lá em casa, no Santa Rosa, no Guarujá. O Sérgio, um amigo que morava na rua de trás tinha um quartinho onde a gente ensaiava.

EM – E você Digo? Você tem dois irmãos mais velhos que são músicos.
Dogo Maransaldi – Meu irmão Lone é nove anos mais velho e já fazia parte da banda Angel e minha mãe ouvia muito Erasmo (Carlos) e Beatles. Depois conheci Led Zeppelin, Deep Purple, Jimi Hendrix. Apareceu um violão em casa, mas meu irmão nunca mexeu nele. Minha ideia era ser guitarrista então comecei a tirar Beatles. Em 1986 tinha 12 anos de idade, meu irmão já fazia shows e foi nos ensaios que aprendi música de verdade. Tinha um guitarrista que era bom e já gostava de blues, o Olímpio. Lá eles tocavam Elvis, Led, Tim Maia. O Olimpio perguntou do que eu gostava e eu disse que queria tocar bateria e guitarra. Ele me mandou sentar na bateria e tocar. Enlouqueci e acabei ficando na bateria. Não tinha dinheiro, mas arrumei um kit velho, de um amigo lá de São Vicente. Tive umas aulas na escola do CLAM com um professor que ensinou meio mundo aqui em Santos, o Pelado (Charlie Brown Jr), o Artur (Vulcano) foram dois deles. Só depois fui estudar em São Paulo com o Duda Neves. Em 1988 montei uma banda com o Sandro, meu irmão do meio. A gente tocava Golpe de Estado, Deep Purple e ela existe até hoje, a Lei Seca. Passei ao violão e foi quando comecei a ouvir blues de verdade. Havia dois programas de blues, um na TV Manchete e outro na Cultura, onde vi o Celso Blues Boy, Blues Etílicos e André Christovam. O Druídas – banda santista de heavy metal, cujo guitarrista Mauro Hector é o principal nome de blues de Santos – estava começando a tocar blues. E comecei a comprar os discos de Muddy Waters, Howlin Wolf, Robert Johnson, na Tremendão Discos, loja que ficava ali na Av. Ana Costa.



EM - Você também tem uma banda de samba rock. Quando e como começou a traçar esses dois caminhos?
DM – Até os 16 anos era muito radical. Não ouvia música brasileira. Mas a faculdade de arquitetura mudou a minha vida. Lá comecei a ouvir Djavan, Tom Jobim, Secos e Molhados, Caetano, Gil, Cartola, Noel Rosa, Pixinguinha. Adoro blues, jazz, mas também adoro bossa nova. Sou dividido. Na bateria gosto de tocar rock, mas no violão gosto de sambalanço e samba jazz.

EM – E como vocês se encontraram?
DM – O Sérgio foi da Yankee, banda de heavy metal que era do meu irmão e acabou ficando mais amigo meu do que dele. Quando a minha banda que tocava na noite mandou o baixista embora chamamos o Sérgio. Na época tocamos no Torto, Bar do 3, Mesa Redonda, ganhamos dinheiro. Uma vez houve um show na faculdade de arquitetura e o Sérgio chegou com um amigo com cara de índio dizendo que era guitarrista e que ia dar uma canja, tocar Jimi Hendrix e Santana. A jam que ia durar duas músicas durou a noite inteira. Isso em 1993.

EM – Formaram uma banda?
DM – Os integrantes da banda que eu tocava disseram que não queriam mais tocar...

EM – Por quê? Ficaram no veneno por causa do Dudu?
DM – Sim, não queriam mais. O Sérgio e o Eduardo tinha uma data agendada em um bar lá do Guarujá. Me meti no meio e disse pra não colocar batera que eu ia. Não tinha muitas gigs de blues na Baixada naquela época e o bar lotou. Fizemos sem nenhum ensaio e a banda não tinha nem nome.



EM – E como faziam para agendar shows se não havia cena?
EE – Eu trabalhava em várias coisas durante o dia para me manter. No Guarujá havia uns agitos que juntavam a galera do rock, blues, progressivo, no Pit Chicken and Beer. Até o Charlie Brown tocou com a gente lá nessa época. Conseguimos juntar bastante gente seguindo, a banda Delta Blues Nasceu no Guarujá. Fazíamos luau, festa de tatuagem e bares. Uma vez fizemos o carnaval num quiosque na praia e no último dia os caras do samba vieram fazer um som com a gente. (risos)

EM – Essa primeira fase durou quanto tempo?
DM – Entre 1993 a 2001 nunca paramos de tocar. Mas a moda virou pro Rappa, Charlie Brown, reggae. E eu era músico de tocar na noite e as coisas foram apertando. 

EM – E você Dudu?
EE – Eu intercalava com a Profano, uma banda de som progressivo autoral de Vicente de Carvalho. Uma mistura de Minas Gerais com Emerson Lake & Palmer. (risos)
DM – Eu me cansei de ficar na bateria. Resolvi ir para o samba rock. Dar um tempo. Na verdade, o Dudu é o único que ficou no blues esse tempo todo. 

EM – Ele é o único blueseiro autêntico? (risos) 
E o Sérgio?
DM – O Dudu é guitarrista, né? O Sérgio hoje está em Natal e dá aulas de inglês. 

EM – E quando foi a retomada?
DM – Você foi um dos responsáveis por isso.

EM – Eu?!
DM – Por causa do Clube do Blues.  Me falaram que estava rolando umas gigs em Santos e você que organizava. 

EM – Nessa época você não estava com o projeto Digo e a New Gafieira?
DM – Brequei por causa da Dog Joe. Voltei agora aos poucos. E o Dudu tem a Blues Power.

EM – Espera que está confuso. Vamos voltar um pouco.
EE – No breque da Delta Blues em 2001 eu fundei a Caverna Blueseira com dois amigos que já seguiam os nossos shows. Depois fundei a Blues Power com caras de Guarujá. O Digo foi para o trabalho solo, a New Gafieira. Depois voltamos para Delta Blues Revival que virou Dog Joe.


EM – Certo. Vamos voltar ao Clube do Blues de Santos.
DM – O Sérgio voltou ao Guarujá e armou um show que chamamos de Delta Blues Revival. O pessoal voltou a prestigiar e lotamos o bar de novo. Mas foi apenas uma gig. Daí um amigo me falou que você estava fazendo o Clube do Blues e vi que estava agendada uma noite com o Blues Power. (risos) 

EM – Sim. O Dudu apareceu uma noite e deu canja e eu tive de chamar, né?
DM – Então, eu chamei o Rogério Duarte e nós voltamos como Delta Blues Revival pra tocar no Clube do Blues.

EM – Quando a gente começa a fazer alguma coisa, não imagina o que vem pela frente. Vocês subiram no palco com uma lenda que é o Lurrie Bell. Qual foi a impressão que ficou?
EE – Foi importante. A gente tocando com ele no Bourbon Street e depois no Anhangabaú, no dia da Consciência Negra. Pensei em fazer apenas a base até você dizer pra entrar com tudo quando ele der a deixa. Mas segui a pegada dele.
DM – O segundo show foi mais pesado. Tinha mais gente e palcão. No primeiro a gente não teve ensaio. Só o vimos na hora de subir ao palco no Bourbon. E ele não fala muito, né? (risos) O show do Bourbon foi mais tenso, mas o outro foi mais solto. Ele mesmo estava mais solto. E tivemos a participação do Big Chico.

EM – Conta a história do disco Blues Rock Hotel.
DM – Havíamos gravado demos na época da Delta Blues, mas achava que devíamos gravar em CD. Tínhamos a Lady, Vida Mansa e a própria Delta Blues. Somos um bando de duros e resolvemos gravar um EP. Eu fiz a capa e o Rogério agitou com um amigo que grava. No fim, gravamos seis músicas. Mudamos o nome da banda para não gerar confusão. Delta Blues remete ao blues rural e na época que fundamos a banda não pensamos nisso. A gente até toca um pouco, mas não é normal. Dog Joe é vira lata. E a gente é isso. A gente vive de tênis velho e calça velha, tocando de bar em bar. O Ayrton Boka mixou por um valor bom. Tivemos ajuda financeira do Xandão, gaitista amador aqui de Santos e de um amigo do Dudu lá de Uberlândia que colocou uma grana. A produção foi nossa e gravamos ao vivo no estúdio. Teve overdub só em voz e guitarra, mas pouca coisa.




segunda-feira, 16 de julho de 2018

Liberdade dá o Tom é o tema do Santos Jazz Festival 2018


Entre os dias 26 e 29 de julho a 7ª edição do Santos Jazz Festival celebra os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Os artistas irão se revezar entre os palcos do teatro Sesc, Arcos do Valongo, Estação do Valongo e Bonde Arte. Os destaques são Toninho Horta, Duofel, Carlos Malta, Robertinho Silva.
O programa inclui oficinas musicais e roda de conversa. A banda  Afrojazz & Jesuton resgata a origem e influência africana no jazz e um tributo a Nina Simone, com a participação do DJ Negralha (Rappa). 
A Orquestra Mundana Refugi, composta por integrantes de nove países, prova que a música não tem fronteiras e une todos os povos. A cantora Izzy Gordon também homenageia Nina Simone e a brasileiríssima Elza Soares, outra incansável guerreira na defesa das mulheres e dos negros. 
Talentos da nossa cidade são representados por Cristopher Clark, Sambália Trio, Didi Gomes, Mauro Hector, Milton Medusa, Luiz Oliveira, Debora Tarquínio e vários nomes da Jazz Big Band.
O encerramento homenageia o Beatle George Harrison, que tanto difundiu a cultura da paz no mundo. A banda Blues Beatles reinterpreta hits do quarteto de Liverpool, no ano em que Harrison completaria 75 anos.
O Palco Arcos do Valongo fica na rua Comendador Neto, 09 - atrás do Museu Pelé - no Centro Histórico de Santos. O Sesc Santos fica na rua Conselheiro Ribas, 139, no bairro Aparecida. O Bonde Arte e Estação do Valongo ficam em frente ao Museu Pelé, no Centro Histórico.

Confira a programação:

Quinta-feira, dia 26
Teatro do Sesc 
20h30 - Abertura 
21h - Afrojazz & Jesuton & DJ Negralha - Tributo a Nina Simone 

Sexta-feira, dia 27
Palco Arcos do Valongo
19h - Orquestra Mundana Refugi & Carlinhos Antunes
21h - Izzy Gordon canta Nina Simone & Elza Soares
22h30 - Adriano Grineberg com participação de Ana Canãs
23h30 - Cristopher Clark & Banda - Soul e Blues

Sábado, dia 28
Estação Valongo
9h - 7º Valongo Motor Classics
11h - Quizumba Latina recebe Mauro Hector
13h - Orquestra de Metais da Banda Marcial de Cubatão & Milton Medusa

Palco Arcos do Valongo
13h - DJ Santos Jazz
16h - Jazz para Crianças c/Zero Beto
15h30 - Banda de referência do Projeto Guri
16h30 - Duo Hydridus (Argentina)
18h - "Elis no Jazz" com Sambália Trio & Didi Gomes 
19h30 - Duofel, Carlos Malta e Robertinho Silva
21h30 - Darrell Nulisch & Simi Brothers (EUA)
23h30 - Festa Futuráfrica c/Bnegão

Domingo, dia 29
Palco Arcos do Valongo
13h - DJ Santos Jazz
16h - Jazz para Crianças - Zero Beto
13 às 15h - Aula aberta de Dança - Lindy Hop
15h - Banda Lar das Moças Cegas (resultado da oficina teórica e prática de jazz e blues)
16h - Fotografia Sonora
17h - Toninho Horta & Jazz Big Band
19h - Luiz Oliveira & Convidados
20h30 - Blues Beatles

Bonde Arte
Sábado e Domigo, 15h e 16 h (quatro viagens)
Show da Debora Tarquínio Duo - Vozes Negras

Oficinas no auditório do Sesc Santos
Sábado, dia 28
11h - Esculpindo o Vento: oficina para Saxofones - Carlos Malta; 
14h -  Processo Criativo de Toninho Horta e lançamento songbook
Domingo, dia 29
11h - Violão Livre e Gestão de Carreira - Duofel
14h - Roda de Conversa com Wagner Alcântara - A Liberdade de Expressão como um Direito Humano – jornalista, professor e mestre em estudos de linguagem

sábado, 7 de julho de 2018

Mahalia e Etta vivem na música de Andrea Dawson


Menina negra norte-americana, cantora, protestante que cresceu na Igreja Batista. Essa história é conhecida.
Influenciada por Mahalia Jackson, uma das maiores cantoras gospel de todos os tempos, e a lenda do blues, Etta James, a quem dedica um projeto de resgate de seus “early years”, Andrea Dawson passou pelo Brasil no fim do ano passado (2017), quando concedeu essa entrevista ao Mannish Blog em um dos shows de sua extensa – para os padroões brasileiros -  turnê com onze datas.
Andrea fala fácil e tem um sorriso largo e, cantando, é a prova viva de uma de minhas teorias: a soul music veio do blues, mas a certa altura a matriz incorporou elementos da sua criação, metais, diversas vozes e groove. Música de protesto chacoalhando os quadris. E Ain't No Sunshine When She's Gone (Bill Withers), The Thrill is Gone (BB King), e I'll Take You There (The Staples Singer), atestam.
Apesar de ter a consciência sobre peso da tradição que carrega, seu primeiro trabalho, Left With the Uptown Blues, leva a todos os caminhos possíveis, desde os blues cantados na  era das grandes divas do século passado até seus atuais derivados. Um salve para o Igor Prado que facilitou essa entrevista.

Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Andrea Dawson (divulgação)



Eugênio Martins Júnior – Você começou a cantar na igreja com quantos anos?
Andrea Dawson – Além do pastor, a igreja Batista da minha pequena cidade tinha um coro com 60 cantores gospel. Me apaixonei pelo canto e me juntei a eles desde cedo, aos sete ou oito anos. Mas antes disso já vivia cantando o tempo inteiro.

EM – Para muitas cantoras a igreja foi o primeiro palco para se apresentar, não é verdade?
AD -  Sim. Minha inspiração era Mahalia Jackson. Minha família me disse: “Você quer cantar? Tem um lugar onde você pode cantar o dia inteiro. E me levaram pra igreja”. (risos)

EM – E quando foi que você dicidiu sair do seu emprego regular para seguir a carreira de cantora? O que a fez decidir?
AD – De onde eu venho, Dallas, Texas, há muitas bandas de blues e muitas jams e eu costumava cantar em algumas. As pessoas do meu bairro escutavam muito blues, nos anos 70 havia muito R&B, soul, e ouvi muito dessa música nos meus primeiros anos. Foi assim que comecei a cantar os blues.

EM – Qual paga melhor, o blues ou seu trabalho regular?
AD – Definitivamente meu trabalho regular. (risos)
A não ser que seja música pop. Não importa o que você faça nos Estados Unidos. Porém, cantar é muito mais compensador.



EM – Li que você era tão tímida a ponto de cantar em karaokês para perder a timidez. Isso procede?
AD – Sim, sabia que queria cantar, mas era muito tímida para estar em um palco. Então, todas as vezes que era possível tentava estar em um palco. Eu cantava nos coros da igreja e da escola e a transição para o palco não foi fácil.

EM – Você ainda sente isso hoje?
AD – Um pouquinho. Não tanto quanto costumava ser.

EM – Austin, Dallas e Houston são cidades quentes para o blues. Grandes nomes fizeram a fama nesses lugares, Johnny Copeland, Johnny Winter, T Bone Walker, só para citar alguns. Gostaria que falasse sobre isso e como está a cena.
AD – Sim, Stevie Ray Vaughan e muito antes dele Blind Lemon Jefferson. Muitos músicos continuam tocando um estilo bem particular nesses lugares. Você não vai ouvir por lá o estilo de Chicago. Em Dallas não há esse estilo suingado, nem metais como em Memphis, mas muita guitarra. Não é um blues voltado ao jazz. Já Austin continua mantendo a tradição, mas lá há um som bem selvagem. O clube Antone’s trouxe músicos de Chicago e da costa oeste e isso acabou influenciando um pouco os locais. Ainda existem muitos clubes, mas não tantos quanto costumava ter. Hoje tocamos blues em restaurantes, bibliotecas, museus, galerias e festivais.             

EM – Em seu disco Uptown Blues você viaja por muito estilos. Gostaria que falasse sobre essa viagem musical.
AD – Sim, tem mesmo. Gosto de muitos estilos musicais, soul, blues e country. Não country blues, mas country music. E nesse CD em particular canto várias desses músicas escritas por mim e por um outro compositor que soube interpretar o que eu queria.



EM – Atualmente você está trabalhando em uma homenagem a Etta James. Poderia contar como é esse projeto?
AD – Queria trazer a tona os primeiros trabalhos de Etta James. Ela tem uma história muito rica como precursora do rock and roll. Escreveu muitas músicas, tinha cantoras auxiliares, muitos de seus músicos dessa época também tocavam em big bands como a de Count Basie, e até na banda de Dizzy Gillespie. E seus shows tinham grande produção. Adoraria trazer isso de volta.

EM – Como têm sido os shows no Brasil?
AD – Têm sido lindo. Já fizemos oito do total de onze. Começamos no nordeste, em São Luiz, no Maranhão.Foi muito bonito, pessoas ótimas. Depois fomos para São Francisco Xavier, Curitiba. O Brasil é muito grande. Mesmo nos estados. Não imaginava que São Paulo fosse um estado. Achei que era apenas uma cidade. Fomos para Botucatu e tivemos de dirigir até lá e é longe de São Paulo. Também com pessoas ótimas.

EM – O brasileiro geralmente gosta do blues. É como se fosse o nosso samba. É a sua primeira vez no Brasil. Está gostando? 
AD – Sim. Gostei do país, da comida e das pessoas.

EM – O que você mais gostou no nosso país e o que não gostou?
AD – Gostei mais da vegetação natural. As árvores, as plantas, há tanto verde em todas as partes, o que não acontece nos Estados Unidos em muitos lugares. Aqui tem frutas e vegetais que nunca havia visto. O que menos gostei foi o trânsito em São Paulo. As motocicletas me assustam. Fico nervosa porque se fosse nos Estados Unidos estariam mortos. Eles voam no meio dos carros. É assustador. (risos)

EM – Você imaginava que havia tantas bandas e festivais de blues no Brasil. 
AD – Nunca. Muitos garotos brancos tocando blues. Talvez porque vocês também tenham a influência da música africana. Vocês têm muitos batidas. É muito compensador porque não apreciam tanto o blues assim nos Estados Unidos.