sábado, 26 de setembro de 2020

Great Guitars – 1997 – Joe Louis Walker


Quatro anos separam Great Guitars do grande álbum Blues Summit de BB King.
E por que estou citando o trabalho de BB pra falar desse de Joe Louis? Porque ambos partem da mesma premissa, reunir feras do blues num único volume em parcerias incendiárias.
E Great Guitars traz o que há de melhor da guitarra blues na época em que foi gravado: Bonnie Raitt, Litttle Charlie Baty, Clarence “Gatemouth” Brown, Steve Crooper, Buddy Guy, Robert Lockwood jr, Taj Mahal, Scooty Moore, Matt “Guitar” Murphy, Otis Rush e Ike Turner. Está bom pra você?
O prórpio Louis havia participado do disco de BB na faixa Everybody's Had The Blues
Talvez daí veio a ideia de gravar esse grande álbum que traz Low Down Dirty Blues abrindo com um dueto com a sempre magnífica Bonnie Raitt cantando e solando. Trata-se de um balanço irresistível que muda de andamento dois pares de vezes, com um Hammond B3 goxxtoso e slide pra todos os lados.
A banda que acompanha Joe Louis nesse disco, The Bosstalkers, faz bonito com Mike Eppley (órgão, piano e voz de apoio), Tom Rose (guitarra e voz de apoio), Joe Thomas (baixo, guitarra e voz de apoio) e Curtis Nutall (bateria).
First Degree é de uma base nervosa que resgata Ike Turner que andava meio por baixo depois que sua ex, aquela “cantorazinha”, Anna Mae Bullock, denunciou o malandro por agressão e outros assédios. Vamos combinar Ike, você toca e canta pra caralho, mas foi muito cuzão por não respeitar sua parceira que acabou virando uma estrela com o próprio talento. 
Todo o brilho dos The Johnny Nocturne Horns aparece em Mile-High Club e toda a elegância dos solos de Scooty Moore, Litttle Charlie Baty, Steve Crooper e Clarence “Gatemouth” Brown também. Solos e mais solos se apresentam. Mas, se liga, solos com notas soltas, elegantes, cheios de feeling, como só os coroas blueseiros sabem fazer.
Fix Our Love é um slow muito do dor de corno. Joe Louis pede pra mulher não ir embora. E que se ela fizer isso ele vai sofrer até morrer. E que se ela estiver insatisfeita, antes de ir embora, diz isso pra ele qua vai fazer de tudo pra consertar aquele amor. Perdeu mermão. Sem dor de amor não existe o blues. E de dor Otis Rush entende. Ele estiiiiiiiiiica as notas como ninguém. O Hammond também faz a sua parte nos colocando na posição de implorar por aquela mulher. O que sempre fazemos.
Every Girl I See é um tema que foi gravado por Buddy Guy algumas vezes. É um clássico do velho Buddy. Essa versão que começa com uma batida tribal e licks de guitarra, culminando com a voz de ambos cheias de expressão, dois timbres e estilos maravilhosos e distintos. Que versão foda. Buddy Guy, que colhia as glórias de Damn Right e Feels Like Rain, faz um daqueles solos cheios de notas que estava acostumado. O ponto alto do disco. Claro, na minha opinião de um mortal idiota.
O funkão Cold e Evil Night explode com os metais dos The Tower of Power Horns. Simplesmente... balançante. Blues com funk solado por Joe Louis usando um wah wah hipnótico e backings dos The Bosstalkers.
Hop on It é um shuffle, que ainda não havia apareceido em um disco de blues, o que mostra que blues não é só a velha batida de Chicago. Otis Grand e Joe Louis dominam esse tema instrumental cheios de slide e lap steel.
Nightime é um slow daqueles, com a aparição do velho Matt Guitar Murphy, mostrando como se joga as notas no ar para os nossos ouvidos pegar. 
Sugar é um tema moderno misturando blues e funk cujo  destaque vai para o baixo Joe Thomas, fazendo todas aquelas figuras com uma precisão impressionante. Como se fosse um relógio. Ou um motrônomo. Coisa linda de se ouvir.
Muitos blueseiros têm uma vida dupla, nas sextas e sábados nos botecos da vida e no domingo pagando a penitência na igreja. E Joe Louis correu um bom trecho fora do blues, investindo seu tempo e talento louvando Deus. Nesse Great Guitars ele convocaa a lenda Taj Mahal e sua National Steel para a pregação In God’s Hands. Um tema maravilhoso que nos eleva, mesmo sendo um adeu desgraçado como eu. Acredito na música.
Fechando essa viagem, Joe Louis chamou Robert Lockwood Jr, um dos pilares do blues, na época com 82 anos – ele morreu com 91 anos em 2006 – para apresentar o blues tradicional High Blood Pressure. Wallace Coleman aparece na gaita reforçando a base e em um solo matador.  

Músicas:
1 - Everybody's Had The Blues
2 - First Degree
3 - Mile-High Club
4 - Fix Our Love
5 – Every Girl I See
6 – Cold Evil Night
7 – Hop On It
8 – Nightime
9 – Sugar
10 – In God’s Hands
11 – High Blood Pressure

Blues Summit – BB King - http://mannishblog.blogspot.com/2010/09/em-disco-de-1993-bb-king-promove.html

Entrevista Joe Louis Walker - https://mannishblog.blogspot.com/2017/09/o-blues-contemporaneo-de-joe-louis.html


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Com álbum solo de temas clássicos, Bia Marchese entra no blues nacional

 

Primeiro álbum solo de Bia Marchese

Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: arquivo Bia Marchese

Com canções escolhidas a dedo pela cantora Bia Marquese, Let Me In, seu trabalho de estreia, é um apanhado bacana de clássicos da canção norte-americana.Trata-se de seu primeiro álbum solo pelo selo Chico Blues,   com músicos que orbitam a cena blueseira do ABC e São Paulo. São eles, Leo Duarte (guitarra), Luciano Leães (piano e órgão), Denilson Martins (saxofones), Humberto Zigler (bateria e percussão) e Sidmar Vieira (tormpete). As produções, musical e executiva, são assinadas por seu marido, o baixista Rodrigo Mantovani, ativo colaborador do Chico Blues desde a época em que atuava com a Igor Prado Band. O CD teve uma participação especial de Wee Willie Walker em Nobody But You de Dee Clark.  Nos 14 temas, Bia desfila ao lado de nomes bem conhecidos por aqui – digo isso por causa da discografia disponível desde os anos 70 – como LaVern Baker, Fontella Bass e Big Mama Thornton. E outros nem tanto, os casos de Wynona Carr, Lil Johnson, Carol Fram, Christine Kittrell, Ann Cole, Hattie Burleson. Os caras soul também dão as caras. Mas em número menor, Pee Wee Crayton, Dee Clark, e os lendários Johnny Guitar Watson e Solomon Burke. A Bia também conta como estava sendo sua adaptação nos Estados Unidos antes da pandemia chegar na América do Norte. Logo quando mudou para Chicago com seu companheiro, o baixista Rodrigo Mantovani, quando este entrou para a banda de Nick Moss.



Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical e quando você começou a cantar?
Bia Marchese – Minha infância foi de total contato com a música. Minha família é cheia de músicos, muitos não exerceram profissionalmente, mas a maioria sempre muito envolvida com música. As reuniões de família na minha vida eram basicamente uma roda cheia de gente, minha família é enorme (rs), fazendo um som. Todo mundo participava de alguma forma e, quem atrapalhasse falando alto ou qualquer coisa assim, levava cada bronca... (risos). Mas minha mãe é cantora e exerceu profissionalmente por muitos anos e, por incentivo dela eu canto desde sempre. Não sei dizer idade, mas desde minhas primeiras lembranças da infância. Me lembro de subir nos palcos com ela quando eu tinha uns seis anos e cantar músicas do Jackson 5. Morria de vergonha, mas amava!


EM -  E o blues e o soul, quando apareceu?
BM – O soul veio primeiro pra mim. Passei um muito tempo   da minha infância tentando imitar cantoras e cantores que constantemente me apaixonava. Nem sabia que aquilo era soul music, era só algo que me fascinava ouvir. Já o blues veio um tanto mais tarde. É claro que as coisas se misturam, e o blues e a soul music se mesclam em muitos pontos. Então, diria que o Blues, de forma mais consciente e num formato mais tradicional, entrou na minha vida por volta dos meus 18 anos.

EM - Você gravou um CD com alguns clássicos da soul music. Como foi a escolha desse repertório? Tem tanta coisa boa.
BM – Na verdade meu disco é uma mistura de blues, R&B , soul, ragtime e início do rock’n roll. Acho difícil dividir a música em estilos tão delineados. Como disse antes, determinados estilos musicais se misturam, modificam e influenciam um ao outro e, entre eles, existe uma conexão muito forte. Diria que o repertório do meu disco possui, na sua essência, uma unidade sonora que conecta aquilo que também pode ser separado, para funções mais didáticas, em estilos musicais. Já a escolha do repertório foi algo bem natural, sabe? Bem baseado naquilo que naquele momento eu estava conectada musicalmente. Mas, apesar de natural, não foi nada aleatória, foi muito bem pensada e, em algum nível, uma tentativa de homenagear aquilo que me desafia e me transforma musicalmente. Fora isso, pude contar com algumas maravilhosas sugestões do Rodrigo e Chico Blues na empreitada da escolha do repertório. Ah, fico feliz demais que tenha gostado do repertório.



EM – Essa galera do Igor e do Rodrigo era ligada ao jump blues e ao Chicago blues, mas de uma época pra cá deram uma virada pra soul music e o teu disco foi gravado nessa época, né? Teve esse influência do momento ou era uma coisa que você já pensava em fazer?
BM – Na verdade não. Minhas escolhas musicais e de repertório não tiveram influência do som que eles faziam. Apesar de eu ser uma grande admiradora do trabalho que eles fizeram juntos e ter afinidade por grande parte das escolhas musicais deles, não foi algo que teve influência nas minhas escolhas do disco. O disco foi resultado do que fui desenvolvendo ao longo dos anos.

EM – A produção foi do Rodrigo e os músicos que tocam são aquelas figurinhas carimbadas do blues nacional. Essa parte ficou com ele ou vocês fizeram juntos?
BM – Tudo que envolveu o disco, nós fizemos juntos e em parceria com o Chico Blues, até porque, eu não conseguiria não participar da produção do meu próprio disco. (risos)

EM – Ok. Falei merda. A pergunta foi burra mesmo.
BM – Mas, independente disso, o Rodrigo tem uma musicalidade surreal e, como produtor, ele vê detalhes e enxerga coisas que teriam certamente passado batido por mim. Tive muita sorte e aprendi coisa demais assistindo ele, tão de perto, como produtor musical. Quanto aos músicos, eu tenho um carinho absurdo por todos que fizeram parte desse projeto. Fora a qualidade musical de cada um, são pessoas que realmente tem lugar importante na minha vida.

As minas no rolê: Bia e Kate Moss

EM – Você passou por aquela fase de transição, o teu companheiro foi contratado por uma banda que toca muito no circuito blues, a Nick Moss Band. Já dá pra falar sobre uma adaptação, já que foram pegos pela Covid-19.
BM – Não foi uma transição simples sair do Brasil, mas, ao mesmo tempo, era um movimento que a gente já planejava fazer em algum momento pela vontade de viver e desenvolver certas coisas dentro do blues e também da música de forma mais ampla. A contratação do Rodrigo pela Nick Moss Band apareceu como uma oportunidade de fazer esse movimento. 
Mudamos pra Chicago um ano e alguns meses antes da COVID -19 e toda essa nova situação se instalar. Acho que foi um período bem intenso e a adaptação foi relativamente rápida. Pra mim, por ser um começo do zero, já que não fui com nenhum trabalho garantido, foi mais desafiante, mas as coisas foram fluindo e pude fazer alguns trabalhos musicais que foram incríveis pra mim. Sem contar a satisfação de toda uma vivência num contexto de tanta informação musical nova.

EM - E pra mulher é sempre mais difícil. O cara sai pra tocar e a mulher muitas vezes fica sozinha.  
BM – Na verdade isso nunca foi uma questão na minha vida e tenho esperança que, algum dia, possa não ser mais uma questão na sociedade. Estar num relacionamento é uma opção que, pra mim, não tem ligação com nenhum tipo de dependência. Somos indivíduos antes de tudo. Então, eu diria que ninguém nessa relação fica sozinho esperando o outro voltar da gig. (risos). Se ele sair pra tocar, eu certamente estarei envolvida com meus projetos individuais, assim como, se eu sair pra tocar ele certamente estará envolvido com os dele. E esses momentos são tão bons quanto os momentos que estamos envolvidos no mesmo projeto ou trabalhando juntos. A ida pros EUA não foi uma decisão tomada em função de acompanhar o Rodrigo na sua entrada na Nick Moss Band, foi uma decisão que envolveu muitas outras coisas e interesses individuais de ambos dentro das oportunidades que essa mudança poderia proporcionar.

EM – Certamente cada um terá a sua vida e seus projetos. O que eu quis dizer é que as coisas poderiam ter ficado difíceis justamente pela falta de uma atividade inicial.   
Por outro lado, pode ser uma oportunidade. Você está arrumando um jeito de entrar no circuito, ou ainda é muito cedo? nTeve alguma experiência cantando na terra do blues?
BM - Olha Eugênio, eu admito que não sou uma pessoa que fica tentando entrar em circuitos, não tenho quase ímpeto nenhum de fazer propaganda de mim mesma e não faço contatos ou mantenho relações sociais pra fazer determinados trabalhos ou entrar em certos meios. Então, pra mim, entrar num circuito acontece só se for como consequência de um trabalho feito de forma mais natural, verdadeira, com uma qualidade que me traz satisfação e, no geral, com pessoas que tenho afinidade. Cada pequeno trabalho que faço tem um valor enorme pra mim e os circuitos vão acontecendo assim na minha vida. Sobre a experiência cantando na terra do Blues, sim, tive algumas bem maravilhosas, inclusive cantando no Legendary Rhythm & Blues Cruise. A convivência com Nick Moss e Kate Moss, que é também guitarrista, acabou nos fazendo conhecer muita gente do meio do Blues, o que também acelerou certas oportunidades. Eles foram sempre muito maravilhosos comigo.

Com o maridão, Rodrigo Mantovani e Dennis Gruenling

EM - Tem conseguido ir a alguns shows de blues? Nos locais legais de lá?
BM – Te falar que ir em shows de Blues foi o que eu mais fiz em Chicago, virei a louca dos shows, não perdia um. (risos)
Lá ainda tem uma cena de blues bem viva  rolando e muitas opções de lugares pra ir.

EM – Tem gravação à vista? Quer dizer, pós pandemia.
BM – Tenho sim. Nunca desejei tanto ter um estúdio em casa como nesse momento de pandemia. Seria lindo passar a quarentena dentro de um estúdio, né não? (risos). Mas sim, já estou trabalhando nas ideias do próximo disco e espero, em breve, começar a agitar isso.

EM – Você gravou uma música com o Willie Walker. Ele participou ao vivo da gravação? Como foi essa parada?
BM – Sim! Amo tanto que ele tenha gravado no meu disco. 
Não foi ao vivo, ele gravou num estúdio nos EUA e me enviou. Quando ouvi a gravação, pensei: “o que vou cantar depois disso?” (risos)
Ele era uma pessoa maravilhosa né? Não sei se você chegou a conhecê-lo, mas acabei ficando bem próxima, tanto do Willie quanto da esposa dele, e quando o convidei para gravar comigo essa canção, ele deu um sim com aquela risada maravilhosa e, então, gravamos.

Blues Music Awards 2019

terça-feira, 8 de setembro de 2020

On-line, o Clube do Blues de Santos será realizado em setembro

Produzido pela Mannish Boy Produções, Prefeitura e Sesc de Santos, o objetivo do Clube do Blues é trazer a Santos os melhores músicos de blues do Brasil e do mundo, promovendo a integração entre eles e o público por meio de shows e conversas informais



Esse ano, devido à pandemia da Covid -19, o evento será on line, transmitido direto do estúdio Goiabeira, do Theo Cacello, na página do Facebook do Clube do Blues. 
Será a primeira vez que o clube não apresentará ao vivo os músicos da pesada que costuma trazer todos os anos.  
Na edição de 2020, os “associados” do Clube do Blues de Santos vão curtir um bate papo entre o jornalista e produtor  Eugênio Martins Júnior e o maior produtor de blues do Brasil, Herbert Lucas. E shows serão com Mauro Hector Trio, Medusa Trio com Willie de Oliveira e a banda Dog Joe. 
O bate papo acontece no dia 15 de setembro às 20h30. Os shows, sempre às 20h, acontecem nos dias 16, 17 e 18 de setembro, respectivamente.
Realizado desde 2008 – com a parceria fundamental do Sesc Santos e Secretária de Cultura de Santos (Secult), o Clube do Blues já trouxe à cidade Igor Prado Band, Big Chico Blues Band, Jefferson Gonçalves e Kleber Dias, Artur Menezes, Fabio Brum, Márcio Scialis e Little Will, Ivan Márcio e Roger Gutierrez, Robson Fernandes, Caviars Blues Band, Big Joe Manfra, Big Gilson, Márcio Abdo, Giba Byblos, Ari Borger, Duca Belintani e Los Breacos, além dos artistas locais Dog Joe, Muniz Crespo e Mauro Hector e chega a sua sexta edição como referência no país.
Todos os anos o Clube do Blues é realizado em abril em comemoração ao nascimento de Muddy Waters, artista revolucionário do Blues mundial e o nome que sintetizou o blues rural do Mississippi na música urbana de Chicago, influenciando milhares de músicos ao redor do mundo, inclusive no Brasil. 
Por causa da pandemia da Covid-19, o festival teve sua data alterada para o mês de setembro. E, respeitando o isolamento, será transmitido direto do estúdio e depois disponibilizado no Youtube.
Esse ano o Clube do Blues será realizado com recursos de emendas parlamentares e parceria com Sesc. 

Datas Clube do Blues 2020:
15 de setembro – Bate papo entre Eugênio Martins Jr e Herbert Lucas, diretor artísticos do Bourbon Street Music Club e maior produtor de blues do Brasil
16 de setembro – Mauro Hector Trio
17 de setembro – Medusa Trio e Willie de Oliveira
18 de setembro – Banda Dog Joe


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Living Blues Magazine mostra a lista dos eleitos em 2020

Crystal Thomas: prestem atenção nessa moça

Mais uma ano estamos aqui divulgando a lista dos vencedores do Living Blues Magazine Awards.
Em 2020, ano que o mundo da música encarou a face monstruosa da Covid-19.
Mas o blues nunca para. E quem não sabe, a Living Blues Magazine é a revista mais importante do Estados Unidos sobre esse estilo tradicional.
Ligada à Universidade do Mississippi, onde existe um núcleo de estudos sobre o blues, a revista completou 50 anos de existência recentemente.
Notórias figuras como Bobby Rush, Buddy Guy, Jimmy Johnson, Mavis Staples, Marcia Ball apareceram, mas também brilharam os novatos, Jontavious Willis, Christone Kingfish e Crystal Thomas. Se liga na fita. 

Votação da crítica
Artista de blues do ano (Homem)
Bobby Rush

Artista de blues do ano (Mulher)
Shemekia Copeland

Cantora mais admirada
Mavis Staples

Guitarrista mais admirado
Jimmy Johnson

Gaitista mais admirado
Billy Branch

Tecladista mais admirada
Marcia Ball

Baixista mais admirado
Benny Turner

Baterista mais admira
Cedric Burnside

Sessão de metais mais admirada
The Texas Horns: Kaz Kazanoff, John Mills, and Al Gomez

Músico mais admirado
Rhiannon Giddens – Banjo

Melhor performer
Bobby Rush

O retorno do ano
Mary Lane

Artista revelação
Crystal Thomas
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Melhores álbuns de 2019

Álbum do ano
Christone “Kingfish” Ingram
Kingfish
(Alligator)

Lançamento de blues contemporâneo
Billy Branch & The Sons of Blues - Roots and Branches: The Songs of Little Walter - (Alligator)

Lançamento/Soul sulista
Annika Chambers - Kiss My Sass - (VizzTone)

Lançamento/melhor estréia
Christone “Kingfish” Ingram – Kingfish - (Alligator)

Lançamento/ Tradicional e acústico
Jontavious Willis - Spectacular Class - (Kind of Blue Music)

Realançamento pré guerra
Various Artists - “It’s the Best Stuff Yet!” - (Frog Records)

Realançamento pós guerra
Various Artists - Cadillac Baby’s Bea & Baby Records—The Definitive Collection - (Earwig Records)

Livro de blues doa ano
Up Jumped the Devil: The Real Life of Robert Johnson - By Bruce Conforth and Gayle Dean Wardlow - Chicago Review Press

Produtor do ano: lançamento - Rhiannon Giddens and Dirk Powell - Songs of Our Native Daughters - (Smithsonian Folkways)

Produtor do ano: gravação histórica - Michael Frank
Cadillac Baby’s Bea & Baby Records—The Definitive Collection - (Earwig Records)

________________________________________

Lista dos leitores
Artista de blues do ano (Homem)
Christone “Kingfish” Ingram

Artista de blues do ano (Mulher)
Mavis Staples

Guitarrista mais admirado (Guitar)
Keb’ Mo’

Gaitista mais admirado
Charlie Musselwhite

Tecladista mais admirada
Marcia Ball

Melhor performer
Buddy Guy

Cantor mais admirado

Buddy Guy
Melhor lançamento de 2019
Christone “Kingfish” Ingram – Kingfish - (Alligator)

Melhor album de 2019 – gravação histórica - Muddy Waters - The Complete Plantation Recordings: The Historic 1941–42 Library of Congress Field Recordings - (Analogue Productions)

Melhor livro de 2019
Up Jumped the Devil: The Real Life of Robert Johnson - By Bruce Conforth and Gayle Dean Wardlow – Chicago Review Press

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Crescemos assistindo Alan Parker

Parker e Rourke no set de Angel Heart (1987)

Na manhã da sexta-feira, 31 de julho de 2020, as redes sociais bombaram a notícia sobre a morte do diretor Alan Parker. A comoção toda mostra o quanto o diretor britânico era popular. Na faixa etária dos 50, todos crescemos assistindo Alan Parker. 
E a minha primeira experiência nos cinemas de Santos com o diretor foi o proibido Midnight Express (1978). Drama pesado sobre drogas e cadeia com Brad Davis, Bo Hoskins, John Hurt e roteiro de Oliver Stone. Exibido no Brasil cheio de ressalvas por causa da ditaduta. Devo ter feito alguma falcatrua pra conseguir entrar no filme essa época. Fiz váaaaarias.
Meu segundo Alan Parker foi Fame (1980), filme muito mais leve, mostrava as desventuras de jovens pretendentes à carreira artística com uma trilha sonora bem legal. A cena do intervalo na cantina, com aquela malandro com as baquetas, fica na nossa memória pra sempre.
O estrondoso The Wall (1982), todo mundo lembra, foi baseado no disco conceitual da banda Pink Floyd, uma das mais populares do mundo. É um musical que mostra a tragédia da guerra e a opressão do sistema de ensino britânico. Bob Geldof é o protagonista.
Birdy (1984), com Matthew Modine e Nicolas Cage (com atuação impecável de Cage, antes de se transformar num daqueles justiceiros das telas que os americanos adoram), conta a história de dois amigos suburbanos – quase white trash – enviados ao Vietnan para lutar por valores que eles não usufruem. Filme com atmosfera triste e perturbadora acentuada pela música de Peter Gabriel.
Meu preferido, Angel Heart (1987), mostra a procura do cantor Johnny Favorite pelo detetive Harry Angel. Contratado por Louis Cyphre (Lúcifer?), Angel mergulha no perigoso mundo das artes ocultas e da sua prórpia degradação. O pano de fundo é uma New Orleans que pouco conhecíamos até então, uma cidade com subúrbios sombrios e pobres, onde a prática do vodú suplanta seu lado musical e festivo. Super elenco com Mickey Rourke, Robert De Niro, Charlotte Rampling e a jovem Lisa Bonet. O filme traz ainda nomes do blues como Brownie McGhee, Sugar Blues, Pinetop Perkins e Lillian Boutté. A trilha sonora é de Trevor Jones, que também responde por Mississippi Burning.
Em Mississippi Burning (1988), Parker volta ao sul dos Estados Unidos pra mostrar o lado racista daquela sociedade doente. Gene Hackman e Willen Dafoe seguem o rastro de quatro ativistas de direitos civis “desaparecidos” no cafundós de um dos estados mais racistas da América.
“Os Irlandeses são os negros da Europa e os dublinenses são os negros da Irlanda”. Com essa premissa, Parker conta a história de um grupo de jovens que se reúnem para levar avante sua paixão, a música, montando uma banda de soul music em plena Irlanda. The Commitments (1991) é sobre uma viagem ao universo de Wilson Pickett, Otis Redding, Sam Cooke e outros baluartes da soul music reinam na trilha. 
Parker fez outros filmes, mas nem vi. Evita, dizem, é ruim. Prefiro ficar com os legais.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Eric Assmar e o legado do blues da Bahia

Eric Assmar (Sesc Santos - 19/01/13)

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Em uma das vezes que estive com o blueseiro baiano Álvaro Assmar ele me perguntou: 
- “Você já ouviu meu filho tocar?. Rapaz, o garoto está num nível muito alto. Não é por que é o meu filho não, tá?”. 
-Sei, “respondi”.
Dois anos depois tive a oportunidade de ouvir e ver Eric Assmar tocando de verdade, em uma gig com o próprio Álvaro, aqui no Sesc Santos. 
Logo depois conheci seu primeiro álbum, o Eric Assmar Trio com temas cantados em inglês e português com a guitarra como protagonista, num conjunto em formato de power trio.
Gravado em 2011, em Salvador, no estúdio Em Transe, o CD conta com 11 temas compostos pelo prórpio Eric e apresentados por Rafael Zamaeta (baixo) e Thiago Gomes (bateria). Álvaro Assmar aparece na produção e no violão em Hanna.
Mesmo tocando blues, os ares musicais da “Roma Negra” fazem bem a qualquer artista. A matriz musical é a mesma, a África. Gosto de citar isso em várias entrevistas que faço com os gringos, orgulhoso das dezenas de ritmos espalhadas pelo continente Brasil.
Orgulhoso também em saber que meus dois livros Blues – The Backseat Music serviram como material de pesquisa  para uma tese de doutorado sobre música construída por Eric Assmar. 
Eis aqui mais uma entrevista. Com um dos talentos que já está na cena há um tempo, mas só agora começa a colher os frutos do trabalho, toda uma geração de blueseiros nativos que inclui, Tiago Guy, Fillipe Dias, Pedro Bara, Leo Duarte, Simi Brothers, Bia Marquese, Bidu Sous e tantos outros.


Eugênio Martins Júnior - Como foi a tua infância musical na Bahia? Com o axé e os batuques de Salvador da porta pra fora e o blues da porta da rua pra dentro.
Eric Assmar – Sendo filho de um músico de blues e um fã de rock clássico, absorvi muito dessa influência ainda na infância. Meus pais se separaram quando eu ainda era muito guri, não vivi na mesma casa que o meu pai durante a infância, mas sempre estivemos juntos e tomei muito gosto pelo rock and roll, começando por Beatles, Black Sabbath, Deep Purple, Zeppelin, Hendrix, esses clássicos. A guitarra me fascinava. Via na figura do guitarrista algo como um super-herói, alguém com superpoderes. Gostava muito de músicas que traziam a guitarra como instrumento de destaque. Curtir esse tipo de rock antigo era algo um pouco "fora da curva" pra um guri soteropolitano nascido em 1988, mas acredito que o ambiente com o qual você convive regularmente tende a influenciar bastante essa coisa do gosto musical na infância (no meu caso, a família). A cultura baiana, de um modo geral, é riquíssima, com tradições ligadas a religiões de matriz africana que também são oriundas da diáspora negra africana, tal como aconteceu com o blues nos Estados Unidos. Tenho orgulho de ter nascido e crescido em Salvador, sou um apaixonado por essa cidade, que percebo como um lugar de muita diversidade. Existem "tribos" musicais muito variadas, inclusive uma história de muitos artistas de rock incríveis, que vieram de Salvador e se tornaram referências em âmbito nacional.

EM – A gente percebe que o teu pai era um blueseiro clássico e você já vai um passo além. Mais puxado pro blues rock. Gostaria que falasse sobre isso. 
EA - Acho que vem por conta de um caminho que talvez seja comum a muitos músicos de blues brasileiros: tive o primeiro contato com o blues diluído em canções de rock ou em versões de clássicos blueseiros gravadas por nomes do rock. É um pouco aquela coisa de primeiro descobrir Clapton, Stones e Led Zeppelin, para depois perceber que muitas daquelas canções, na realidade, são de autoria de Robert Johnson, Muddy Waters, Willie Dixon, etc. Me tornei um grande fã do formato power trio. Me fascina a ideia de ouvir uma massa sonora gorda vindo apenas de três caras tocando. Grupos como o Cream, Jimi Hendrix Experience, Band Of Gypsys, Grand Funk Railroad, SRV & Double Trouble são referências que curto bastante e me inspiraram a formar o Eric Assmar Trio, em 2009. O grupo acabou tomando mais esse caráter "bluesrocker" por conta dessas inspirações e acredito que pela minha maneira de compor. Procuro ser o mais espontâneo possível, tocar a música que tá no coração e na mente.

EM – Você gravou dois CDs nesse formato. Gostaria que contasse a história desses álbuns e falasse um pouco sobre o trio 
EA - O trio surgiu quando recebi um convite do amigo João Carlos Guia, produtor de eventos, perguntando se eu toparia montar um trabalho solo para tocar blues com a minha cara, do jeito mais espontâneo pra mim. João já tinha um contato cotidiano comigo em minha atuação como músico em bandas ou sideman, antes disso, e foi um grande incentivador desse projeto solo. Convidei meus amigos Rafael Zumaeta (baixo) e Ricardo Ubdula (bateria), começamos tocando alguns covers de blues/rock e, aos poucos, fui compondo mais e, em 2012, lançamos o "Eric Assmar Trio", já com o amigo Thiago Gomes na bateria. O Ubdula mudou-se para o Canadá nessa época. Circulamos bastante promovendo esse primeiro trabalho, que foi gravado inteiramente ao vivo em estúdio, com produção minha e do meu pai (Álvaro Assmar). Minha ideia era um disco o mais cru possível, que desse ao ouvinte a sensação de estar ouvindo uma apresentação ao vivo, sem muitos overdubs. Em 2016, já com Thiago Brandão na bateria e vocais, lançamos o Morning, que é o segundo trabalho. Nesse disco, já fui mais para a coisa das canções, deixando fluir a inspiração do momento com composições que envolvem mais elementos. Também foi uma produção minha e do meu pai e, desde que foi lançado, circulei bastante com o Trio e sou muito grato por esses dois trabalhos. No momento, sigo produzindo o terceiro.

Eric e Álvaro Assmar (Sesc Santos)

EM – Há nove anos eu perguntei pro teu pai e agora vou perguntar pra você: como vê a cena blueseira nacional aí de cima, da Bahia? O que mudou em todo esses tempo?
EA - Vejo uma cena muito fértil, são muitos artistas fazendo blues em várias partes do país, inclusive aqui na Bahia. Os festivais também são muitos e são oportunidades bem legais de congregar artistas diferentes e, também, vejo neles um ótimo potencial de formar público. O blues não é um gênero tipicamente brasileiro, mas vejo que existe um nicho grande de pessoas que gostam dessa música, e até leigos que se surpreendem positivamente ao ouvir pela primeira vez e se apaixonam. Pessoalmente, gosto da ideia de poder contar a minha história fazendo blues do meu jeito, através das canções autorais e de releituras que façam sentido pra mim em determinado momento, mas acho que a criação e o fazer musical são livres, cada músico deve fazer aquilo que o faz sentir-se bem. Nesse sentido, considero a cena do blues no Brasil bastante diversa, você tem artistas de vertentes blueseiras muito diferentes produzindo novos materiais e alguns mais focados em covers. Imagino que a demanda de mercado, mais ligada ao entretenimento, possa ter alguma influência sobre esse aspecto, mas acho que as coisas podem coexistir, perfeitamente. Acho inclusive saudável que haja essa diversidade de propostas.

EM – Você é um dos poucos músicos que compõe letras em inglês e português. O teu primeiro CD foi dividido, mas no mais recente você preferiu as letras em inglês. 
EA - Isso. Tento deixar a ideia musical o mais livre possível. Quando componho, tem vezes em que as ideias vêm em inglês, enquanto em outras vezes elas vêm em português. Acredito que compor blues em português seja um pouco mais difícil, por conta da própria sonoridade do gênero não ter originalmente sido concebida na língua portuguesa, mas nós temos ótimos exemplos de grandes letras de blues ou de canções bluesy escritas em português, o que pode ser observado, por exemplo, em alguns trabalhos do André Christovam, do próprio Álvaro Assmar, além de grandes poetas do rock brasileiro como Raul Seixas, Renato Russo, Cazuza, etc. Eu gosto de exercitar as duas coisas, mas me agrada a ideia de deixar a criação o mais livre possível. Desde que me sinta representado por aquela canção e seja algo vindo do coração, o fato de ser em português ou inglês acaba sendo uma consequência com a qual não me importo muito.

EM - Você usou um dos meus livros para formular tua tese de música na faculdade. Gostaria que falasse como foi isso.
EA - Isso! Foi, na verdade, a minha tese do Doutorado em Música pela Universidade Federal da Bahia (PPGMUS/UFBA), que concluí em 2019. O trabalho é na área da Educação Musical e trata sobre o ensino da guitarra blues no Brasil, identificando perspectivas metodológicas de materiais de estudo publicados aqui no país, entre livros, videoaulas e cursos online, e propondo algumas possibilidades nesse sentido. Os depoimentos de artistas de blues brasileiros que constam em seus livros são referenciais preciosos, pois os próprios participantes dessa cena do blues nacional contam suas histórias e as maneiras como percebem esse cenário, além, claro, dos estrangeiros que estiveram por aqui. São materiais fundamentais para entender nuances do blues nacional a partir das diferentes perspectivas das próprias pessoas "de dentro" desse universo. No meu mestrado, que defendi em 2014, escrevi uma dissertação sobre a prática do blues em Salvador, identificando falas e sonoridades dessa cena a partir de entrevistas com treze participantes. Fui costurando diálogos com essas pessoas, falando do meu lugar de pesquisador, mas sendo também um músico atuante nessa mesma cena. Aprendo bastante com a escrita desses trabalhos e percebo que isso, também, me faz perceber minha própria atuação como músico de outra maneira. Sou muito grato por ter tido a oportunidade de cursar mestrado e doutorado, podendo imergir em temáticas ligadas ao blues, que é o que mais amo.


EM – Você herdou o programa do teu pai, o Educadora BLues. Como foi essa retomada? 
EA - Pois é, na verdade foi uma consequência inesperada. Em dezembro de 2017, meu pai sofreu um infarto fulminante e faleceu de repente, aos 59 anos. Ninguém esperava aquilo, foi uma circunstância absolutamente traumática e dolorosa. Eu tinha tocado com ele em uma sexta em Salvador, viajei para fazer dois shows fora no fim de semana (Ilhéus-BA no sábado e São Paulo no domingo), conversei com ele por whatsapp no domingo à noite e, na segunda de manhã já havia perdido meu maior ídolo, melhor amigo e confidente. Para além da tristeza enorme, me senti estimulado a fazer o que eu pudesse para honrar a memória do artista Álvaro Assmar. Tocar adiante os projetos que ele tinha e, através da minha música, dar continuidade a tudo o que ele me ensinou, com toda gratidão pelos anos de convivência com esse grande homem. Dentre os projetos dele que estavam em andamento, finalizei a produção do álbum "Family & Friends", que lançamos no segundo semestre de 2019 (sétimo CD da discografia dele) com uma temporada de shows bem legais, que contaram com a presença do meu padrinho André Christovam, grande amigo de Álvaro. Esses shows geraram um material audiovisual que produzi em parceria com a Cortejo Filmes, que foi exibido pela TVE Bahia e consta disponível no YouTube. Também está em andamento a escrita da biografia dele, pelo jornalista João Paulo Barreto, que deve ser lançada em breve. E além desses projetos, o programa Educadora Blues também havia ficado órfão, uma vez que desde 2003 o próprio Álvaro o produzia e apresentava, trazendo sempre lançamentos de blues no Brasil e no mundo. Na época de seu falecimento, essa foi uma grande preocupação, pois esse programa era motivo de um orgulho imenso para Álvaro. Um programa semanal dedicado ao blues na rádio pública da Bahia, no ar ininterruptamente por tanto tempo! Eu nunca tinha tido uma atuação profissional no rádio, só apresentei programas pontuais como convidado, falando do lugar de artista mesmo, mas sempre pesquisei álbuns e artistas de blues, paixão que herdei do meu pai e dividia muito com ele, também. Decidi topar o desafio e propus à coordenação da rádio e à direção do IRDEB (órgão estatal que administra a Rádio Educadora FM) que eu continuasse o programa. Eles adoraram a ideia e eu, então, fiz uma imersão em estudos nesse campo do rádio. Estudei bastante a maneira como Álvaro fazia os programas, desde padrões de locução, até níveis de mixagem/masterização, montagem geral do programa, etc. Contei com a preciosa ajuda de Washington Barbosa, profissional da Educadora com mais de 40 anos de carreira, com quem muito aprendi e ainda aprendo. Logo no mês de janeiro, fiz um passeio por toda a discografia de Álvaro, prestando um tributo ao pai do programa durante todo o mês. Em fevereiro, retomei a proposta de tocar os lançamentos no Brasil e no mundo. Tive e tenho tido uma aceitação maravilhosa dos ouvintes do programa, o que me deixa muito feliz. Já são dois anos e meio conduzindo essa missão, que representa algo especialíssimo pra mim e me dá uma sensação maravilhosa, de poder contribuir também por essa via para difundir o blues contemporâneo no estado da Bahia e, claro, quebrando essa fronteira com a transmissão online.

EM – Como tem se virado nesses tempos de confinamento?
EA - Eu vinha fazendo uma tour em cidades de Minas Gerais com os meus amigos Andrade Brothers, Gustavo e Luiz Andrade, duas feras do blues mineiro, quando os rumores do agravamento da situação do Coronavírus no Brasil estavam chegando com força. Tocamos de quarta a sábado, shows muito bons e com ótima adesão de público, mas no domingo já retornaria a Salvador para tocar em praça pública, porém o evento foi cancelado e, por tabela, toda a minha agenda de shows foi, pouco a pouco, sendo cancelada. Situação comum a todos os artistas, não teve jeito e não houve tempo hábil pra ninguém se preparar. Foi de 100 a 0 da noite para o dia. Decidi intensificar minha atuação como professor de guitarra blues via Skype, continuei produzindo os programas Educadora Blues em home studio, tenho escrito e registrado muitas canções novas, passei a ser mais requisitado para gravações como guitarrista e cantor e, também, comecei a fazer lives e shows online monetizados. Tempos muito difíceis para quem trabalha com arte e eventos, de modo geral, mas pessoalmente tenho a sorte de poder trabalhar com diversas atividades dentro da música, que não somente os shows presenciais. A Internet é um meio absolutamente essencial, nesse sentido.

Eric e Álvaro Assmar (guitarra), Jê Lima (baixo) e Caio Dohogne (bateria) 
(Sesc Santos 19/01/13)

EM – Gostaria que falasse sobre o momento da cultura no Brasil. Quer dizer, perdemos o Ministério da Cultura que viabilizava muitos projetos espalhados pelo país, inclusive festivais de blues e jazz. Temos uma taxa de desemprego alta e ao mesmo tempo o Governo Federal enquadra a indústria do cinema nacional que gera milhões e emprega milhares de pessoas. Em apenas uma ano e meio trocamos cinco vezes o secretário de cultura. 
EA - Momento crítico e triste, sem sombra de dúvidas. Acho absolutamente lamentável que tenha ganhado tanta força um discurso reacionário, que posiciona os artistas como inimigos do povo e do poder público, quando na verdade a cultura é parte fundamental da engrenagem de qualquer sociedade e esses artistas representam esse povo, estão ali para dialogar com as pessoas. A perda do Ministério é algo deplorável e as consequências disso, infelizmente, já estão sendo sentidas por todo o setor da cultura no país, que movimenta profissionais de várias áreas e tem um peso enorme para a economia nacional, para além da questão da importância da cultura em si. Vejo essa situação com muita tristeza e torço para que os danos sejam os mínimos possíveis. Que em breve possamos ter dias melhores para a representação da cultura em âmbito estatal.

EM - A última é uma pergunta inevitável. Qual foi a principal lição que o velho blueseiro Álvaro te deixou?
EA - As lições foram várias, na verdade, mas me inspira muito a seriedade e comprometimento dele para com o blues e seus ideais. Era um cara incorruptível, de uma nobreza de caráter rara e de uma solidariedade fora do comum. Sempre estendeu a mão às pessoas e "abraçou" com toda generosidade vários artistas que estavam começando. Além de tudo isso, ele sempre falava sobre a importância de o artista "ser o seu maior fã". Essa autoestima é um componente fundamental para você guiar uma carreira musical e poder ser livre e sincero com sua expressão artística. Tenho isso como um mantra e procuro sempre pensar nesse sentido.

Eric Assmar (Sesc Santos - 19/01/13)

domingo, 26 de julho de 2020

O agitado Peter Green morre dormindo


Autor de temas clássicos como Black Magic Woman (sim, aquela música que não é do Santana), Green Manalishi (aquela que não é do Judas Priest), Oh Well e Albatross; um dos fundadores da banda inglesa Fleetwood Mac e um dos guitarristas mais importantes do blues/rock, Peter Green, morreu ontem, dia 25 de julho.
Com um timbre suave e compositor de mão cheia, o blueseiro Peter Green foi o arquiteto do som inicial da Fleetwood Mac nos anos 60 e início dos 70.
Conheceu o baterista Mick Fleetwood em 1965, mas em 1966, como muitos guitarristas ingleses, pelo menos os importantes, ingressou na Bluesbreakers de John Mayall.
De cara colocou duas composições no seu álbum de estreia, o A Hard Road, foram The Same Way e The Supernatural.
Só em 1967 Green se juntaria a Mick e Jeremy Spencer pra fundar a lendária Fleetwood Mac, entrando para a história da música mundial.
Após anos iniciais gloriosos com a banda, Peter voltou a se apresentar com John Mayall e a viver uma vida turbulenta. Diagnosticado com esquizofrenia, entrou e saiu de clínicas onde sofreu tratamentos com eletrochoque que o deixaram e estado semi letárgico. Também apresentou um histórico de posse de armas e ameaças a profissionais que trabalhavam próximos a ele.
Retomou sua carreira formando o Splinter Group gravando bons albuns. 
Após toda essa turbulência, Green morreu dormindo, em casa, aos 73 anos.