segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Morre Greg Wilson, um dos fundadores do blues no Brasil. Mas seu legado musical viverá para sempre

 

Greg Wilson

Levei um pouco mais de uma semana para escrever esse obituário sobre o Greg Wilson, o guitarrista cantor e compositor responsável por muitas músicas importantes no repertório da Blues Etílicos, maior banda de blues do Brasil.
O principal motivo foi como a notícia da morte de Greg me bateu no sábado, dia 20 de janeiro. Sabia que ele não andava bem de saúde, mas não que sua doença estava em estágio tão avançado. Foi realmente um choque.
O segundo motivo era porque queria ler como a imprensa nacional iria tratar o assunto. Sabendo que o blues não é uma música de apelo nacional, muito ao contrário, em alguns setores da cultura é visto com muito preconceito. 
Imaginei que em alguns veículos a morte de Greg não passaria de uma nota no pé de página. 
Por outro lado, cada vez mais, há o aparecimento de muitos artistas, bandas e festivais espalhados por todas as regiões do nosso país continental, o que me deu uma pontinha de esperança de seu nome seria um pouco reverenciado. 
Mas que nada. Afirmo com todas as palavras recheadas de indignação que, a frieza com que a morte de Greg foi tratada pelos meios de comunicação, não condiz com a grande contribuição desse artista para a música brasileira.
Quando fundaram a banda Blues Etílicos, no começo dos anos 80, Greg Wilson, Flávio Guimarães, Gil Eduardo, Otavio Rocha e Cláudio Bedran fundaram também o blues nacional como conhecemos hoje. 
Fizeram grandes parcerias com Paulo Moura, Noel Andrade, Ed Motta, Vasco Faé, Pedro Luiz (e a Parede), Fausto Fawcet, Bernardo Vilhena e tantos outros.

Blues Etílicos nos primórdios: Otavio Rocha, Gil Eduardo, Cláudio Bedran, Greg Wilson e Flávio Guimarães

Norte-americano por natureza, GReg Wilson veio ao mundo em Tupelo no Mississippi, terra de Elvis Presley, chegou ao Brasil trazido por seus pais, missionários da igreja batista e loucos por música e cuja função era pregar o evangelho a partir do Rio Grande do Sul e depois do Rio de Janeiro.
Estabelecido na cidade onde nasceu o samba moderno, Greg e todos os seus irmãos, também músicos, tiveram contato e se apaixonaram pela nossa música.
E foi nessa encruzilhada da vida musical de Greg que nasceu a Blues Etílicos, apesar de o embrião da banda já estar na ativa quando se deu o encontro entre o norte-americano e os meninos do Flamengo. Mas a Blues Etílicos só ganhou musculatura quando começou a lançar seus discos pela gravadora Eldorado, ainda nos anos 80. 
Misturando blues, rock, samba, música regional e muitos outros ritmos, fazendo versões para clássicos do gênero, cantando em inglês e português com fluência e grandes sacadas temáticas, Blues Etílicos arrombou a porta do rock nacional dos anos 80, fazendo um som que nunca tinha sido ouvido no Brasil. E nem me venham falar em Celso Blues Boy e muito menos Made In Brazil e Ave de Veludo.

Água Mineral, primeiro disco da banda pela Eldorado

A trama tecida por Greg e Otavio Rocha nas guitarras, lastreada pela famosa cozinha etílica e pelo maior gaitista de blues do país, Flávio Guimarães, nunca encontrou precedentes. A conjuração perfeita. 
Gravaram discos excelentes: Água Mineral (1989), San Ho Zay (1990), Blues Etílicos IV (1991), Salamandra (1994), Dente de Ouro (1996), Águas Barrentas (2001- Ao Vivo), Cor do Universo (2003 – com Vasco Faé), Viva Muddy Waters (2007), DVD Blues Etílicos Ao Vivo no Bolshoi Pub (2012), Puro Malte (2012), Blues Etílicos 30 Anos (2015), Noel Andrade e Blues Etílicos (2017), o EP 3000 (2019) e Blues Etílicos 35 Anos (2022). E Greg Wilson ainda gravou um álbum solo em 2012. 
A formação da banda variou um pouco nessas três décadas, com o baterista Gil Eduardo sendo substituído por Pedro Strasser, que por sua vez foi substituído por Beto Werther. E o baixista Cláudio Bedran foi substituído por Cezar Lago.
Minha história com a Blues Etílicos começou como fã, acompanhando a banda nos shows e festivais pelo país. Fiz amizade com os malandros e após um copo de birita aqui e ali, logo estaria produzindo uns shows, entrevistando-os para meus livros, até ser convidado para produzir a cerveja oficial da banda pela minha cervejaria, a CAIS. A Session IPA Blues Etílicos foi lançada em 2021 no Rio de Janeiro, com a presença do Flávio Guimarães. 
O nome Blues Etílicos não é por acaso. A banda carioca é culpada pelas músicas mais legais sobre o líquido dourado que tanto amamos, Puro Malte e Cerveja. Também sobre biritas em geral, 3º Whisky (Guto Goffi, Frejat e Cachimbo), O Sol Também Me Levanta, versão de Canceriano Sem Lar (Raul Seixas). E ainda sobre os personagens e situações urbanas, Na Pele, O Louco da Cidade, Beco Escuro e a lendária Dente de Ouro.  
Uma coisa é certa, e falo isso com muita mágoa e indignação, Greg Wilson adotou o Brasil como sua casa, adorava a cultura brasileira, principalmente a música, nos ensinou a tocar blues, e morreu aqui deixando um legado musical que, na minha opinião, não foi honrado pela mídia brasileira e nem pelos “entendidos”. 
Se depender dos fãs de blues brasileiros esse legado jamais será esquecido. 
Greg Wilson Morreu de câncer em 20 de janeiro de 2023, rodeado de amigos e família em sua Misty Mountain.

Dente de Ouro com o autografado do Greg

Greg Wilson no Festival de Búzios em 2007 (Foto: Cezar Fernandes) 

Tomando uma CAIS com Grreg Wilson, no camarim do Sesc Santos em 2019 

Com Otavio Rocha e Beto Werther

Com Cláudio Bedran e Canal 1

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