terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Dave Hole, a slide guitar blues que veio da Austrália


Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Site Many Fantastic Colors

Uma forma rústica de tocar guitarra chamada slide é conhecida desde os primórdios do blues, mas ela não foi inventada pelos músicos do sul dos Estados Unidos.
Os primeiros registros históricos dão conta de que a slide – que literalmente significa deslizar - veio do Havaí, popularizada por Joseph Kekuku, nos idos 1890.
Já no seu livro Deep Blues, o historiador Robert Palmer relatou que a técnica pode ter vindo da África, herdada de um instrumento de uma só corda, o diddley bow, frequentemente manipulado por crianças com o auxílio de pedras e pedaços de metal. Semelhança com o nosso berimbau não é mera coincidência. 
Certo. Charlie Patton, Bukka White, Son House, Tampa Red, Blind Boy Fuller, Leadbelly, Robert Johnson, Mississippi Fred McDowell, Curley Weaver não foram os inventores da slide guitar, mas ficaram conhecidos como mestres nessa técnica.
Às vezes usavam uma faca, às vezes o gargalo de uma garrafa, deslizando-o pelo braço da guitarra até os dedos sangrarem. A vida naquela época não era fácil cumpadi e o blues de raiz era selvagem.
Ao longo dos anos a técnica mágica foi apurada pelos mestres das gerações seguintes: Elmore James, JB Hutto, Muddy Waters, Duane Allman, Hound Dog Taylor e nossos contemporâneos, Roy Rogers e Dave Hole.
Robert David Hole nasceu na Inglaterra, mas jovenzinho foi com a família para Perth, cidade interiorana da Austrália.
E não foram os bumerangues que aplacaram a solidão do garoto e sim a guitarra elétrica. Após ouvir os discos dos Rolling Stones, e depois do pai deles, Muddy Waters, David aprendeu sozinho a tocar o instrumento.
Durante anos fez parte da cena australiana de blues e rock and roll, formando diversas bandas com algum sucesso local, até sofrer um acidente que mudaria sua vida. Impossibilitado de tocar da maneira tradicional, Hole inventou uma forma estranha de fazer a slide na sua guitarra que permanece até hoje.
Após ser contratado pela maior gravadora independente de blues de Chicago e a manufatura de Short Fuse Blues, seu disco de estréia, aos 42 anos, Hole começou a construir sua fama na cena mundial. Nos anos que se seguiram a prolífica parceria Hole/Alligator Records rendeu Working Overtime (1993), Steel on Steel (1995), Ticket to Chicago (1997), Under the Spell (1999), Outside Looking In (2001) e The Live One (2003), todos acima da média. Seu mais recente trabalho foi o auto-produzido Goin’ Back Down (2018).



Eugênio Martins Júnior – Você nasceu na Inglaterra, mas cresceu em uma pequena cidade na Austrália. Qual foi seu primeiro contato com o blues?
Dave Hole – Conheci o blues ouvindo os primeiros discos dos Rolling Stones. Eles faziam covers de Jimmy Reed e Howlin’ Wolf e fiquei curioso para descobrir mais sobre essa coisa que eles chamavam de blues. A primeira coisa realmente profunda que ouvi foi o álbum Folk Singer, de Muddy Waters. Fiquei imediatamente impressionado com o poder absoluto e o desempenho de Muddy. Mesmo que não conseguisse entender as letras, era óbvio para mim que ele estava cantando com um sentimento real. Havia uma intensidade emocional que eu nunca ouvira antes. Estava totalmente cativado e iniciei uma busca para descobrir discos de tantos bluesmen quanto pudesse.

EM - Você é considerado o maior representante do blues da Austrália. Existe uma cena aí? Você tem conhecimento de novos artistas de blues?
DH - Há definitivamente uma cena de blues aqui na Austrália e nós temos excelentes artistas. Existem vários festivais de blues por todo o país e, embora a maioria deses seja de música pop, há alguns blues and roots também. Ouço um monte de bons artistas jovens de blues e é muito compensador vê-los mantendo o blues vivo.

EM – Uma acidente mudou a sua forma do tocar a guitarra. Gostaria que falasse sobre isso.
DH - Logo depois de ter introduzido alguns números de slide no meu repertório, quebrei o dedo mindinho da mão esquerda, justamento o que estava usando para fazer slide. Tive de imobiliza-lo por dois meses e durante esse tempo foi difícil tocar qualquer tipo de guitarra. Conseguia tocar um pouco de slide com o primeiro dedo da mão esquerda, com o bottleneck pendurado. Quando o dedo saiu do gesso tentei voltar ao modo usual de tocar slide, mas não me senti tão confortável quanto o estilo over the top que havia descoberto. Então fiquei com esse estilo e tenho usado desde então.



EM – Nos primórdios do country blues a slide era usada por Tampa Red, Charlie Patton, Blind Boy Fuller, Leadbelly, Bukka White e o próprio Robert Johnson. Você ouvia esses artistas? Ou você já passou para o próximo nível da slide, Elmore James e Earl Hooker?
DH - Ouvi e fui influenciado por quase todos os grandes músicos de blues do passado. Elmore James foi realmente o primeiro deles que ouvi, seguido de perto por Robert Johnson. Então ouvi Charlie Patton, Son House, Earl Hooker, Mississippi Fred McDowell, Blind Lemon Jefferson, Blind Willie Johnson, etc.

EM – No álbum Ticket to Chicago você reuniu um time de feras da cidade. Poderia contar como foram aquelas sessões?
DH - Ticket to Chicago foi gravado na Windy City com a ajuda de alguns músicos realmente maravilhosos. Eu tinha Johnny B. Gayden no baixo, Ray "Killer" Allison na bateria, Tony Zee nos teclados e uma grande seção de metais, organizada pelo  lendário Gene Barge. Billy Branch também participou de algumas faixas adicionando ótimos licks de harmônica. As sessões foram co-produzidas por Bruce Iglauer, da Alligator Records, e foi um momento memorável para mim. Um privilégio e uma emoção tocar com um grupo tão talentoso. A experiência foi ainda melhor pelo fato de que eles eram todos muito agradáveis. Foi um prazer trabalhar com eles.

EM – Você já era um veterano quando finalmente gravou Short Fuse Blues e obteve o reconhecimento fora de seu país. Poderia falar sobre isso?
DH - Na época em que gravei meu primeiro álbum tinha 42 anos e tocava profissionalmente há mais de vinte. Minha carreira até então tinha se passado quase inteiramente em Perth, tocando em pubs e clubes e em algumas das cidades mineradoras na remota Austrália Ocidental. Short Fuse Blues foi gravado e mixado em 3 dias em um estúdio local em Perth. O objetivo era apenas satisfazer as demandas de alguns fãs que perguntavam em meus shows sobre algo gravado. Por um capricho mandei uma cópia para a revista Guitar Player e, para minha surpresa, recebi um telefonema às três horas da manhã de Jas Obrecht, o editor, falando sobre o meu álbum e dizendo: "Vou dar a melhor crítica que já dei em anos”. Fiel à sua palavra, ele deu uma resenha brilhante e, em seguida, seguiu com uma reportagem sobre mim no mês seguinte. Ele também me colocou em contato com Bruce Iglauer que assinou um contrato comigo para seu selo Alligator Records, de Chicago. Ele lançou o álbum para a audiência mundial. Essa é a história da pura sorte que permitiu tornar-me conhecido internacionalmente.


EM – Como foi sua chegada em Chicago, a Mecca do blues mundial?
DH - Meus primeiros dias na América foram como um sonho que se tornou realidade. Cheguei com minha banda em Chicago, a cidade que deu origem a tantos dos blues que eu amo, e na noite seguinte tocamos nosso primeiro encontro no Buddy Guy's Legends. Foi uma multidão com muitos membros da imprensa presentes. Apesar de estar muito nervoso, tudo correu bem e uma crítica elogiosa apareceu no “The Chicago Tribune” no dia seguinte. O que se seguiu foi uma turnê de nove semanas com shows todas as noites ao redor do país, um verdadeiro batismo do fogo para as turnês internacionais!

EM – Tenho entrevistado artistas dedicados ao blues de todos os lugares do mundo, Guy King (Israel), Aki Kumar (Índia), Artur Meneses e Celso Salim (Brasil) E todos estão morando nos Estados Unidos, vivendo da música que escolherem. Gostaria que falasse sobre a força dessa música centenária que nasceu com a opressão e que cativa tantos corações.
DH - Embora eu tenha viajado pelos Estados Unidos muitas vezes, nunca fiquei lá permanentemente, a Austrália sempre foi meu lar e eu adoro morar aqui. Quando se trata de música, no entanto, meu coração está na América. Como o blues pode ter um efeito tão poderoso em alguém como eu do outro lado do globo é um testemunho de seu poder. Para mim é uma expressão crua das mais intensas emoções humanas. E acho que é por isso que tem um apelo universal. A opressão e as injustiças que prevaleciam nos campos de algodão, que deram origem ao blues, não estão mais lá. Pelo menos não da mesma maneira. Mas todos nós ainda temos vidas cheias de altos e baixos e parece que tocar blues e cantar sobre nossos problemas nos fazem sentir muito melhor. 

EM - Você assina a produção de Goin Back Down, no qual controlou todas as etapas da produção. Gostaria que falasse sobre isso. 
DH - Com “Goin’ Back Down ”, queria me dar ao luxo de escrever e desenvolver as músicas em um ritmo calmo, sem a pressão habitual de uma data de lançamento fixa. Também queria tocar a maioria dos instrumentos e criar as gravações eu mesmo. Claro que tudo isso leva tempo e acabou sendo um projeto de três anos. Muito desse tempo foi gasto aprendendo as habilidades necessárias, mas achei o processo todo muito agradável. Foi muito libertador poder gravar apenas quando me apeteceu e estou muito satisfeito com o resultado.

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