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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Um fim de semana, duas manifestações. Jesus e a PM no comando.

Blitz - o império nunca dorme

Texto: Eugênio Martins Jr
Fotos: Internet (Trupe Olho da Rua) 

Duas manifestações bem diferentes aconteceram em São Vicente e Santos no fim de semana passado. Sábado e domingo, respectivamente. Presenciei a primeira e acompanhei os desdobramentos da segunda. Duas medidas bem diferentes adotadas pela polícia militar mostraram que há parcialidade nas situações de rua.  
A de sábado, acabou bem para os manifestantes e nem tanto para as pessoas em volta. A de domingo, não acabou mal só para os manifestantes, acabou mal para todo mundo.
A partir do relato a seguir, você pode tirar suas conclusões. Ainda é livre para isso, mas eu vou fazer de tudo pra te influenciar. 

Manifestação 1 - Sábado, 29 de outubro, passei ali na praça Coronel Lopes em São Vicente, ou praça do camelódromo, ou para os mais antigos, praça do Correio.
Era seis da tarde, alguns jovens portavam faixas e cartolinas em uma manifestação religiosa. Vamos chamar assim por enquanto. 
A faixa trazia alguma coisa escrita sobre o grupo: “Jovens a serviço de Jesus”. Ou algo nesse sentido. Nas cartolinas estava escrito: “ Se você acredita em Jesus, buzine”.
A manifestação era a seguinte, quando o semáforo fechava, alguns jovens se posicionavam em frente aos carros exibindo a tal faixa e outros desfilavam entre eles exibindo as cartolinas com os dizeres: “Se você acredita em Jesus, Buzine”. 
Segundo uma das balconistas que trabalham no camelódromo, eles estavam ali há horas. Estive no local, umas quatro ou cinco fechadas de semáforo, o suficiente pra comprar um fone de ouvido. E a parada já me irritou. Imaginem quem estava trabalhando ali o dia inteiro.
Acreditem, não são poucas as pessoas que acreditam em Jesus em São Vicente e dispostas a buzinar para mostrar isso. Nas cartolinas estava escrito: “Se você acredita em Jesus, buzine”.
São Vicente é terra do prefeito Bili, aquele que por coincidência, ou não, foi o candidato escolhido por Deus há quatro anos. Pelo menos era o que dizia o seu slogan de campanha. Mas Deus, também conhecido pelo nome terrestre de Márcio França, parece não ter dado muita bola para o candidato que derrotou o seu filho na eleição. Não, não foi Jesus, foi o outro filho, o Caio. 
Mas esse é outro assunto. Voltando ao sábado, eram dezenas de motoristas buzinando a cada semáforo fechado, pois nas cartolinas estava escrito: “ Se você acredita em Jesus, buzine”.
Não satisfeitos com o ruído infernal (hehehe) que as buzinas provocavam, os jovens ainda gritavam para os motoristas. “Aleluia”, “Jesus é nosso rei”, “Deus seja louvado”, e outras.
A polícia? Assistia tudo ali do lado. Impassível. Apesar de toda a pentelhação. Imaginem, uma buzina já enche o saco. Mais de vinte é de matar. 
Em seu artigo 41, capítulo 3, o Código de Trânsito Brasileiro diz que o condutor de veículo só poderá fazer uso de buzina, desde que em toque breve, nas seguintes situações: I - para fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes; II -fora das áreas urbanas, quando for conveniente advertir a um condutor que se tem o propósito de ultrapassá-lo. 
Percebam que mesmo que você acredite em Jesus, não pode buzinar pra ele. A não ser nos casos em que não queira atropela-lo. 
Errada estava a polícia, errados estavam os motoristas e errados estavam os jovens que, sinceramente, não sei o que estavam pensando quando planejaram a zona religiosa desastrosa e desrespeitosa com as pessoas ao entorno. Escrevendo em cartolinas: “Se você acredita em Jesus, buzine”.
Mais bonito seria se nas faixas estivessem escrito: “Se você acredita em Jesus, dê seta”. Se você acredita em Jesus, respeite a faixa de pedestres”. Se você acredita em Jesus, não corra”. 
Sou ateu. Me sinto bem. Sem obrigação nenhuma. Leve. E não fico alardeando isso e nem querendo convencer ninguém que ser ateu é bom. Mas esse negócio de colocar Jesus em tudo tá enchendo o saco. E mais do que isso, esse fanatismo está passando dos limites. Invadindo a vida de quem não tá nem aí para religião, Jesus, Deus, Alá, sei lá. 
Volto a repetir, uma ação invasiva, egoísta e sem educação. E a polícia não fez nada.

Jovens atores na porta do Palácio da Polícia

Manifestação 2 - Domingo, dia 30, a Trupe Olho da Rua, um grupo de teatro de Santos fazia o que faz há mais de dez anos, como o nome diz, peças de teatro para as pessoas assistirem na rua. 
Estavam na Praça dos Andradas, local onde ocupam um imóvel que chamam Vila do Teatro, onde há o Centro Cultural Pagu (Cadeia Velha) e o Teatro Guarany. Um local com vocação cultural e que vem ganhando destaque nos últimos meses por causa de outras ocupações culturais.
Encenavam a peça Blitz – O Império Que Nunca Dorme, um protesto bem humorado à truculência da polícia militar. Se a peça é boa ou não, foda-se. Assista e tire suas conclusões. E você tem o direito de não gostar. 
O que aconteceu domingo é o que interessa. A polícia chegou chegando com pistola na mão, interrompeu o lance e levou um dos atores preso. Caio Martinez foi algemado, colocado no camburão e levado ao primeiro distrito policial, com o pomposo nome de Palácio da Polícia. 
E é aí que os dois fatos se encontram. Crentes em Jesus podem fazer o que querem em praça pública em São Vicente. Praça pública não, no meio do trânsito. Atores em Santos não podem criticar uma instituição terrena mantida por nós e que tem o dever de prestar serviço a nós.
Se liga. Estudos da Anistia Internacional e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que as polícias brasileiras, civil e militar, são rápidas no gatilho.
Em um relatório publicado em março de 2016, a especialista independente da ONU sobre minorias, Rita Izsák, alertou: cerca de 23 mil jovens negros morrem por ano, muitos dos quais, vítimas de violência pelo Estado. Se isso não é genocídio, qual o nome que você daria? 
Mas como dizia a música do Rappa, também morre quem atira,  e nossos policiais são os que mais morrem. O que falta para os governos reconhecerem que vivemos em uma guerra declarada entre os pobres? 
Sabemos que o policial não pode se manisfestar sobre as péssimas condições de trabalho. Então, resta a sociedade civil fazer isso. E era isso que a Trupe Olho da Rua estava fazendo na praça batizada em homenagem aos libertários irmãos Andradas. 
Os policiais que estavam no local passaram atestado de burrice. Com truculência policial, acabaram com uma peça teatral que tratava da truculência policial. Se tivessem ficado, assistido até o final e depois aplaudido, teriam mostrado alguma compreensão de sua própria situação. Funcionários públicos que trabalham em uma corporação que também os oprime, com uma disciplina desumana pagando salário de fome. 
As posturas distintas da polícia nas duas ocasiões mostram por que está cada vez mais difícil se falar o que pensa no Brasil atual. A não ser que você apoie as bancadas da bíblia e da bala. 
VIVA A TRUPE OLHO DA RUA.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Nem tudo acaba em samba ou como somos 100% egocêntricos

Uma das fantasias mais feias dos últimos tempos

Sim, sou 100% egocêntrico. Santista nasce assim. Não sei o por quê, mas nasce.
Talvez por isso não nos contentamos com pouco. Talvez por isso temos uma cidade linda, com quase 100% de esgoto tratado, com jardim, com cultura, com ciclovias, com um timão de futebol, um cais gigante, um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) bacana, reconhecido por esses orgãos governamentais fodões.
Talvez esse egocentrismo seja a nossa maior virtude. Nos achamos bons demais pra ter uma cidade merda. Quem disse que egocentrismo é defeito?
Talvez ele tenha nos empurrado pra frente.
Talvez esse nosso egocentrismo tenha influenciado os irmãos Andradas a entrar na mente do príncipe com todas aquelas ideias libertárias.
Somos 100% egocêntricos, mermão.
Talvez isso tenha feito com que Saturnino de Brito criasse os canais para acabar com a influenza no início do século passado. Há cem anos construímos uma saída criativa para uma epidemia, hoje não conseguimos nem informar direito a população sobre dengue, zika e a porra toda.
Talvez esse fogo tenha nos colocado em posição de brigar contra todas as ditaduras brasileiras, de Getúlio a Figueiredo. Além de egocêntricos, somos arengueiros, malandro.
Será que não foi por esse sentimento que fomos pioneiros na luta contra a AIDS no mundo?
E a Luta antimanicomial? Fruto do egocentrismo? Pode ser. Os caras são loucos mas são os nossos loucos. Louco é louco. Gente é gente, não é bicho.
Nascemos com esse sentimento de que faremos alguma coisa importante na vida, não sabemos o que, é certo, mas um dia faremos. Somos assim, egocêntricos e sonhadores até a medula.
Por isso não gostamos quando contam a nossa história pela metade.  Esse negócio ae que a escola de samba Grande Rio fez foi papelão. Li em algum lugar que os caras da escola pesquisaram seis meses as coisas de Santos pra fazer o desfile na Marquês de Sapucaí. Sabe o que parece? Sinceramente? Que ficaram seis minutos no Google.
Outra coisa, vamos parar de falar que aquilo foi homenagem porque homenagem não se compra.
Depois das críticas de grande parte dos santistas, os aspones da prefeitura – esses ae que nos deixam uma hora esperando pra nos receber, mesmo depois de ter marcado horário com você há semanas – saíram em defesa do arremedo. Um deles chegou a chamar os santistas que reclamaram do desfile de “egocêntricos”. Tentou ofender, mas a mim, elogiou.
Cumpadi, sou 100% egocêntrico, ando de cabeça erguida por aí a fora. Sou cria do Plínio Marcos, meio vagabundo, meio sentimental. Como ele mesmo dizia, pé no chão e cabeça no céu. Vivo aqui no Marapé e não ando de carro importado SUV. Ando de moto e de magrela. Falo na tua cara brother, faltou Gilberto e faltou Chorão. Faltou Toninho Navalhada e Simião. Faltou falar do porto vermelho seu água de salsicha.
O pequeno príncipe passou o pano dizendo que o desfile mostrou Santos pro mundo e que os aspectos técnicos ele deixaria para os entendidos na área. Prefeito, mas você também deveria fazer isso quando escolhe seus assessores. Chamar gente entendida em cultura pra trabalhar na cultura.
Não precisamos ser entendidos em porra nenhuma pra saber que Mamonas Assassinas, Roberto Carlos, Neymar Santos e Susana Vieira não nos representa.
E que os aspones não deveriam ficar ofendidos com críticas, isso é coisa de moleque mimado. Quando partem pra ofensa, têm estar cientes que do lado de cá, tem gente que fala, e que é egocêntrica, e que é arengueira.
Mas pra não dizer que não gostei de nada, gostei do cheirinho de café que um carro mandava pra galera. Mas eu não estava lá pra sentir, né?

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Meu primeiro contato com a música de Gilberto Mendes

Ultimo contato com o maestro Gilberto Mendes,
 dezembro de 2015 

Meu primeiro contato com a arte de Gilberto Mendes foi no 33° Festival Música Nova, em Santos. Até então, só havia ouvido falar ou lera sobre o maestro, seu festival e aquela música esquisita em um jornal local.
Até ouvir a reprodução de Ulysses em Copacabana Surfando com James Joyce e Dorothy Lamour pelo coletivo belga Het Spectra Ensemble, pra mim, música atonal era Sex Pistols.
Aquela noite de domingo, 17 de agosto de 1997, mudou minha vida. Cursando o segundo ano do curso de Comunicação Social em Santos, me senti na obrigação de sair de casa debaixo de chuva para tentar aprender o que era a tal da “Neue Musik”, que já não era tão nova assim.
Nunca tive curiosidade para outras coisas que não música e literatura. Aprendo tudo o que posso com os recursos que tenho a mão. E foi naquela noite memorável que percebi que estava perdendo um tempo precioso.
Não que a música dita popular que curtia na época e curto até hoje seja ruim, nada disso. O que percebi, foi que havia perdido muito tempo justamente por não ter curtido a maravilhosa música erudita executada pelo Het Spectra Ensemble e, por extensão, todos os outros artistas que haviam estado naquele festival gratuito e que acontecia há anos na minha cidade.
Porra, como isso pode acontecer? Como um cara como eu, malaco em tudo o que acontecia no mundo da música, não sabia o que se passava todos os anos, volto a repetir, na minha própria cidade? Ainda mais em um país onde tudo o que é relativo a cultura não passava da quinta edição, o Música Nova já havia completado mais de trinta invernos!
Vi o maestro pessoalmente pela primeira vez naquela noite. Ainda sob o impacto do concerto do Spectra, fui chegando perto da roda de conversa em que se encontrava Gilberto e fiquei por ali. Na primeira oportunidade dei o bote. Não lembro qual foi o teor da conversa, nem me importa, devo ter falado alguma merda. Queria mesmo era conhecer o tiozinho responsável por aquilo tudo e sair dali com uma entrevista agendada. A impressão que ficou foi das melhores. Ele tratou muito bem o aluno de comunicação desconhecido, como depois fui descobrir, tratava todas as pessoas.
Gilberto era de um cavalheirismo impar. Mesmo quando partia para a crítica contra os políticos santistas da época, mantinha a linha. Sempre no campo das ideias.
E não foram poucas as críticas, na mesma proporção em que o festival aparecia na mídia nacional e internacional por suas qualidades, aparecia também pelas suas incertezas. Se já era difícil ao artista Gilberto ter de lidar com as encrencas da produção, tornara-se insuportável ter de passar o chapéu entre as empresas e lidar com as mentiras do poder público.
Passei a escutar a música erudita e eletro acústica com atenção, por influencia do Música Nova e de traz pra frente. John Cage, Guerra Peixe, Claudio Santoro, Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez e Edgar Varese (os dois últimos também por influencia de Frank Zappa), passaram a freqüentar a minha vitrola.  
Com o tempo outros encontros com Gilberto aconteceram. Certa vez tive uma ideia louca. Apareci do nada em seu apartamento com um monte de discos embaixo do braço para ele ouvir e comentar. E ele topou na hora! Ouvimos Buddy Guy, Billie Holiday, Frank Zappa, João Gilberto, Beatles, Fernanda Porto, Lenine, Wynton Marsalis, Paco de Lucia, Van Morrison, Paulinho da Viola e outros. Depois bebemos café preparado pro sua esposa Eliane, sempre presente. Ainda convenci um editor a publicar isso.
Em 2008, a pedido de José Luiz Tahan, da Realejo Livros e edições, comecei uma série de entrevistas com Gilberto. A ideia era reunir informação suficiente para editar um livro sobre suas experiências, não só na música, mas também em outras duas paixões, o cinema e a literatura.
Mesmo conhecendo a generosidade de Gilberto, mais uma vez o velho maestro me surpreendeu. Em sua casa há algumas prateleiras com mais de 20 pastas reunindo todos os seus artigos escritos para diversos veículos de comunicação desde os anos 60, uma verdadeira coletânea sobre seus pensamentos. Sem titubear, Gilberto disse que eu poderia levar todas elas pra minha casa e selecionar o que achava relevante. Uhauuu! Todo seu arquivo pessoal a minha disposição. Obvio, fiz a limpa. Levei tudo pra casa, abri uma por uma e copiei os artigos que me interessavam sobre música erudita, popular, bossa nova, cinema, Santos.
Lá pela terceira entrevista levei um banho de água fria do mar, o maestro me contou que ele próprio estava escrevendo suas experiências (o que ficou comprovado com o lançamento do livro Viver Sua Música – Com Stravinsky em meus Ouvidos, Rumo a Avenida Nevskiy, editado pela Edusp em parceria com quem? Claro, Realejo Livros, que não perde o tempo nem a viagem).
O que eu poderia contar sobre Gilberto Mendes que ele próprio não contaria cem vezes melhor? Se é que há consolo, fiquei com todos os artigos guardados que havia copiado meses antes e, sempre que posso, viajo pelo seu mundo.
Passei a respeitá-lo mais quando soube que havia sido militante do Partido Comunista Brasileiro. Em uma época em que não se escondia o rosto atrás de mascaras e atrás de perfis falsos na internet, não foi pouca coisa.
Nasceu e morreu em Santos, e entre os dois atos, viveu e exaltou as particularidades e as belezas da cidade.
Denunciou suas feiúras. Entre elas, a política cultural do município. Quando certo prefeito extinguiu a Secretaria de Cultura do Município, foi uma das vozes que se levantou contra.
Certa vez um funcionário da prefeitura sabendo que havia estado recentemente com Gilberto me perguntou se “ele havia batido muito na prefeitura”. A minha resposta foi: “Muito”.
Talvez por isso, seu evento tenha sido preterido ao dos outros. Talvez por isso, ninguém na esfera política santista tenha dado muita bola a sua música atonal e seu pensamento atonal.
Talvez por isso, as verbas tenham ido aos afagadores do poder. Talvez por isso, o Música Nova não tenha sido conhecido e freqüentado pelos santistas.
Por tudo isso, perdemos o festival para Ribeirão Preto.  
Porra, como isso pode acontecer? Como um cara como eu, malaco em tudo o que acontecia no mundo da música, não sabia o que se passava todos os anos, volto a repetir, na minha própria cidade?

(Texto escrito a pedido da jornalista Márcia Costa para ser publicado na Revista Pausa especial sobre Gilberto Mendes: http://revistapausa.blogspot.com.br/)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

De Pagu a Patrícia – o último ato

Livro revela a produção cultural e jornalística de Patrícia Galvão nos seus últimos anos de vida



Texto: Márcia Costa

Nos anos 50 ela já não mais queria ser chamada de Pagu. Depois de trocar a militância política pela militância cultural e pelo jornalismo, Patrícia Galvão chega a Santos (SP) em 1954 para incendiar a cena, atuando como jornalista em A Tribuna, produzindo peças de teatro e eventos literários e difundindo a vanguarda. Esta história écontada no livroDe Pagu a Patrícia – o último ato (Dobra Editorial/Fundo de Cultura de Santos), da jornalista e pesquisadora Márcia Costa, cujo objetivo é revelar a intelectual por trás do mito.
O lançamento será realizado nos dias 05 de dezembro na Casa das Rosas, em São Paulo, e no dia 08 de dezembro na Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, com debates e apresentações artísticas que vão lembrar a produção jornalística e cultural de Patrícia Galvão, cinquenta anos após sua morte, em 12 de dezembro de 1962, em Santos.
Não se trata de uma biografia, mas de uma contribuição para a História Cultural dos anos 50 e início dos 60. A pesquisa iniciou-se durante o curso de mestrado (2006-2008) em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, onde Márcia Costa estudou a coluna Literatura, produzida por Patrícia em A Tribuna, e se estendeu com o estudo da relação de Patrícia com o teatro, registrada na coluna Palcos e Atores,eno levantamento dos fatos históricos que compuseram a cena cultural em Santos e no Brasil daquele período. O projeto do livro foi selecionado pelo Fundo Municipal de Cultura de Santos, que financia a publicação. A obra tem prefácio do compositor Gilberto Mendes, amigo de Patrícia, capa produzida pelo artista plástico Fabrício Lopez (xilogravura) e orelha assinada pelo escritor Flávio Viegas Amoreira.
No jornal A Tribuna Patrícia imprimiu as marcas do seu último ato, onde estão registradas a produção artística da época sob uma visão moderna e cosmopolita.A análise dos artigos de Patrícia e as entrevistas com testemunhas de época permitirama Márcianarrar a força de Patrícia na luta apaixonada pelo teatro, marcada pelaparticipação na vitoriosa campanha pela construção do Teatro Municipal, na criação da União de Teatro Amador de Santos, no apoio à realização de importantes festivais, no incentivo aos jovens talentos como Plínio Marcos, na formação de grupos amadores e na divulgação e na produção de peças de vanguarda, como Fando e Lis (Fernando Arrabal) eA Filha de Rappaccini (Octavio Paz).“Acoluna Literatura também mostra uma Patrícia antenada com as vanguardas da época, e serve de guia para se entender a literatura moderna nacional e internacional, onde ela já destacavaautores poucos conhecidos como Clarice Lispector e Fernando Pessoa, e onde traduziu nomes como Blaise Cendrars, Henry Heine ePaul Valéry”, diz a autora.
Pelo mundo da cultura – Para escrever suas colunas sobre literatura e teatro, Patrícia mantinha contato estreito com grandes artistas e intelectuais do período. No prefácio da obra o compositor Gilberto Mendes lembrao interesse dela pelaMúsica Nova, produzida por ele e Willy Corrêade Oliveira (autor da partitura da peçaA Filha de Rappaccnini). Por meio de visitas, correspondências, entrevistas, encontros, resenhas ou envio de livros, Márcia traçou um panorama de contatos de Patrícia Galvão que passava por Sábato Magaldi, Alfredo Mesquita, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Casais Monteiro, Cacilda Becker, Sérgio Milliet, Flávio de Carvalho, Lygia Fagundes Telles, Fernando Arrabal, Jean Paul Sartre, Eugène Ionesco, entre muitos outros citados pela jornalistaem a Tribuna.
O vasto material publicado por Patrícia no jornal (que então era editado por Geraldo Ferraz, parceiro amoroso e intelectual) e a sua própria prática no campo cultural se traduzem em verdadeiras aulas. “Ela discutiu o país por meio das vanguardas culturais e artísticas”, explica a autora.“Aprende-se muito com Patrícia Galvão, mulher generosa, forte e polivalente, intelectual por vezes ofuscada pelo mito”.
No blog http://depaguapatricia.blogspot.com.br/ o leitor tem acesso a textos jornalísticos de Patrícia Galvão e fotografias do contexto cultural da época. A partir do dia 05 de dezembro o livro poderá ser adquirido no site da Dobra Editorial http://www.portaleditora.com.br/ pelo valor de R$ 35,00.
Sobre a autora: Márcia Costaé jornalista e pesquisadora, graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), com atuação em veículos de comunicação, produção cultural e docência. Há dez anos dedica-se à pesquisa sobre imprensa, história e cultura e atualmente prepara doutorado sobre as relações entre comunicaçãoe arte.

Programação do lançamento

Dia 05 de dezembro, às 19h - Casa das Rosas, em São Paulo
Apresentação do evento: Flávio Viegas Amoreira.
Releitura de um texto jornalístico de Patrícia sobre o teatro com a atriz Marisa
Matos.
Debate com Márcia Costa, Geraldo Galvão, Terezinha de Almeida e Sérgio
Mamberti (nome a confirmar).
(Endereço: Av. Paulista, 37, Bela Vista).

08 de dezembro, às 16h - Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos
Apresentação do evento: Flávio Viegas Amoreira.
Alice Mesquita (canto).
Performance O Jardim de Patrícia, do Núcleo de Pesquisa do Movimento –
Imaginário Coletivo de Arte (com Célia Faustino, Márcio Barreto, Marília
Fernandes, Maria Tornatore e Alessandro Atanes).
Debate com Márcia Costa, Geraldo Galvão, Lúcia Teixeira Furlani e Sérgio
Mamberti (nome a confirmar).
Tarso Ramos (piano).
(Endereço: Av. Bartolomeu de Gusmão, 15).

Veja também: http://mannishblog.blogspot.com.br/2009/12/o-resgate-de-pagu.html

sábado, 13 de outubro de 2012

Gilberto Mendes completa 90 anos


Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: internet


No dia que o maestro santista Gilberto Mendes completa 90 anos repletos de música, resgatei dos arquivos essa matéria feita por mim pra um jornal de Santos.
Nessa época, ainda acreditava no jornalismo cultural e, entre uma matéria medíocre aqui e um jabá ali, impostos pelo editor, conseguia emplacar uma pauta legal com o argumento de sempre: “Pô bicho, isso dá status ao jornal”. Ele geralmente caia. Essa matéria foi uma delas. 
Uma de algumas passagens minhas com o maestro, pessoa cordial e de mente aberta. Sempre disposto a alfinetar a politicagem que assolou a cultura santista por 16 anos e que, espero, termine esse ano. 
Gilberto Mendes foi o inventor do Festival Música Nova, há mais de 40 anos, que só deixou de acontecer por um par de anos na época da ditadura militar. E, ultimamente, fugiu de Santos por causa da tal politicagem. 
A matéria, na verdade uma forma de fazer alguma coisa diferente com o maestro que devia estar cansado de responder as mesmas perguntas dos repórteres, quando não piegas, pegajosos. Foi publicada em um domingo, 07 de agosto de 2005.
A dinâmica da brincadeira era a seguinte. Eu colocava o CD pra tocar e deixava alguns minutos. Então ele falava o que achava e só aí eu mostrava quem era. Daí ele emendava sua opinião.
Procurei ser o mais eclético possível levando alguns lançamentos da época, algumas coisas clássicas e, claro, coisas de meu gosto pessoal. Foi uma tarde agradável ouvindo música com essa lenda da música. Segue o material.




Domingo, 07 de agosto de 2005
O maestro Gilberto Mendes não precisa mais viver passando o chapéu entre o poder público e empresas privadas em busca de patrocínio para o Festival Música Nova.
Agora, ele passa os dias fazendo o que mais gosta: compomdo e indo ao cinema – a sua outra grande paixão.
Após quatro décadas lutando para viabilizar o evento de música erudita, muitas vezes tendo que sacar dinheiro do próprio bolso, ele vê o evento caminhar sozinho e ganhar o devido reconhecimento.
Satisfeito com os rumos do Música Nova, ele lembra que o festival atingiu plenamente seu objetivo.
Mendes relata que nunca teve a pretensão de ganhar dinheiro com o festival. “A finalidade sempre foi mostrar ao Brasil a nova música contemporânea e de vanguarda que estava sendo feita na Europa, formar e informar os músicos, e promover o intercâmbio entre eles”, explica.
Agora, atuando apenas como consultor artístico do festival, sobra tempo até para ouvir coisas que um repórter lhe traz, artistas e estilos pouco familiares para ele.
Após inicial reticência, Gilberto Mendes ouviu, acabou gostando da brincadeira (colocar uma música para tocar e revelar ao maestro qual era o artista) e manifestou a suas impressões.

Veja também http://mannishblog.blogspot.com.br/2009/10/publicada-mais-nova-composicao-de.html




Cabra cega com Gilberto Mendes

1 - Frank ZappaOutrage at Valdez/ The Girl in the Magnesium Dress, do CD Yellow Shark
GM – Não conheço, mas é interessante. Tem um clima Villa-Lobos, o jeito como ele mistura as coisas. Parece também a Nova Musica alemã. Ah é o Zappa! Ele assimilou bem essa linguagem. Eu freqüentei o mesmo curso que ele, com o Pierre Boulez.

2 - Billie HolidayGod Bless the Child, do CD The Best Of (da Columbia).
GM – Tá parecendo aquela cantora de jazz americana, a Billie Holiday. Eu gosto muito, ela é extraordinária. Aliás, a música americana do século 20 é muito rica. O jazz tem uma proximidade muito grande com a música clássica. É a grande música erudita dos americanos.

3 – João GilbertoPra que Discutir com Madame, do CD Live at Montreux Jazz Festival.
GM – É o João Gilberto? É coisa antiga dele? Está meio chato, já foi melhor. Ah, no festival de Montreux tudo é jazz. Qualquer dia o Chitãozinho Xororó também vão tocar lá...

4 – Paco de LuciaAdágio, do CD Concierto de Aranjuez.
GM – (Ele conhece na hora e solfeja o começo: Lá-ra-láaa). Conheci o compositor, Joaquim Rodrigo, em um festival em Madrid, onde estava sendo executada uma música minha. Ele já estava cego. Inclusive, esse Adágio foi executado em sua homenagem.

5 – Fernanda PortoDe Costas Pro Mundo, do CD Fernanda Porto.
GM – Não conheço esse pessoal novo da música popular. O ritmo é bom, me agrada. A voz dela também é bonita. É meio jazz com ritmo brasileiro. A bossa nova deu muito nome ao Brasil. Eu estive recentemente na Rússia e em São Petersburgo e um dos artistas mais tocados é o João Gilberto. Em Moscou toca-se muito o Tom Jobim, que por eles é colocado no mesmo nível de um Cole Porter ou George Gershwin.

6 – Buddy GuyHard Times Killing Flor, do CD Blues Singer.
GM – Isso é um blusão. Eu compus um blues erudito para um músico holandês que tocou em diversos países, na China, Japão e até em Kosovo. Eu gosto de blues, mas não sou maníaco.

7 – LenineTuaregue Nagô, do CD In Cité.
GM - (silêncio). Dessa batida eu gosto (ao saber que era o Lenine), Conheço de nome. Mas, como disse, eu não vou atrás de artistas novos.

8 – BeatlesIf I Need Someone, do CD Rubber Soul.
GM - Eu fui apresentado ao Beatles pelo meu filho de dez anos, que comprou na época o compacto de I Wanna Hold Your Hand. É uma das melhores épocas da música popular. As guitarras eram instrumentos de caminhoneiros americanos e os timbres que eles tiravam desses instrumentos horrorosos eram impressionantes. O Paul McCartney é responsável por todas aquelas harmonias.

9 – Chico BuarqueSinal Fechado, do CD Sinal Fechado.
GM – É o Chico Buarque. A despeito do antipático que ele é, é um grande compositor. Ele queria que a música brasileira voltasse às raízes e no começo da bossa nova ele era contra. Acabou se juntando ao pessoal e, por ironia, acabou virando o herdeiro da bossa nova.

10 – Van MorrisonThe Way Young Lovers Do, do CD Astral Weeks.
GM - Eu gusto de todos esse ritmos. Todos influências americanas.

11 – Paulinho da ViolaAlento, do CD Bebadosamba ao vivo.
GM – Esqueci o nome. É o Paulinho da Viola. Acho pobre melodicamente. Não tem uma marca. Essa gravação eu não conhecia, tem uma melodia mais rica, com piano, flauta.

12 – Wynton Marsalis East of the Sun, West of the Moon, do CD Standard Time Vol.2 Intimacy Calling.
GM – O pianista é bom. Parece o Oscar Peterson. O Wynton não aparece? Estou compondo uma música para trompete com o clima do Miles Davis, com aquela surdina Hammond que dava um tom sombrio.



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Igrejas e instituições santistas colecionam obras sacras e de Benedicto Calixto


Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: Cláudio Arouca

Em 1881 o pintor Benedicto Calixto realizou seu primeiro trabalho em Santos. A pedido de Hygino Botelho de Carvalho, pai do poeta Vicente de Carvalho, Calixto pintou quatro medalhões que ficavam na entrada do escritório comercial de Hygino, na rua Santo Antonio, e que retratavam paisagens e marinhas do porto de Santos.


A partir daí, Calixto pintou, geralmente por encomenda, quadros retratando personalidades e paisagens da cidade e seus arredores e muito do acervo do chamado “pintor caiçara” ainda se encontra à disposição de quem quiser apreciá-lo.

Mas não é só isso. Cidade com tradição religiosa e vocação para a história, Santos possui ainda um grande acervo de arte sacra espalhados pelas igrejas e no próprio Museu de Arte Sacra, no Centro Histórico. Segundo o historiador santista, Waldir Rueda, são obras de valor inestimável, tanto artístico quanto econômico.

A Pinacoteca Benedicto Calixto conta com uma coleção de 51 peças do artista, entre elas, os estudos em carvão realizados na Académie Julian, em Paris. Datam de 1883 e 1884. Há ainda a bela série com seis paisagens, em óleo sobre tela, retratando a rotina do cais do porto de Santos em seus primórdios, quando ainda existiam os trapiches.

Outros dois óleos sobre tela chamam a atenção pela beleza e pelas dimensões: 2,24 de altura por 1,28 de comprimento. São as imagens de Braz Cubas e de Bartolomeu de Gusmão. A curiosidade fica por conta do retrato de Benedicto Calixto exposto na entrada da Pincacoteca, pintado pelo seu filho Sizenando Calixto.

A Santa Casa de Misericórdia de Santos possui uma coleção com mais de 50 obras, entre retratos pintados por Benedicto Calixto e pelos artistas Antonio Godoy e Guiomar Fagundes.

Retratados por Calixto em óleo sobre tela estão: João Éboli, Julio Conceição, Cândido Gaffré, Visconde e Viscondessa do Embaré, Joaquim da Motta e Silva, José Caballero e muitas outras personalidades da vida santista, além de beneméritos do hospital.

Segundo Frederico Serra, responsável pelo acervo, as obras vem sendo restauradas desde 2000 e o trabalho está longe de ser concluído. “Apesar de a maioria do acervo ser composta por retratos, elas formam um importante conjunto no contexto histórico e artístico de Santos. Aos poucos estamos conseguindo recuperá-las”, diz Serra.

Também restaurados, há na Santa Casa o belíssimo quadro de Calixto chamado “Misericórdia”, um óleo sobre tela de 1,45 de comprimento por 1,93 de altura, e uma aquarela do pintor português Roque Gameiro retratando Braz Cubas. Para Waldir Rueda esse retrato de Braz Cubas é uma das obras mais importantes sobre o fundador da Vila de Santos. “O busto de Braz Cubas do italiano Lorenzo Massa, que também está na Santa Casa, foi elaborado a partir desse quadro de Gameiro. As duas obras foram encomendadas pelo vereador Alfaya Rodrigues em 1904 e pagas pela irmandade, tendo chegado a Santos em 1905”, explica Rueda.

O retrato foi restaurado após ter sido danificado com um estilete em uma greve dos funcionários do hospital, mas para o historiador a restauração do Braz Cubas poderia ter ficado melhor: “Se o restaurador não tivesse apagado o nome de Gameiro e colocado o seu, Gerson Charleaux, e tivesse usado a aquarela que era o material original e não tinta óleo como a tela está hoje”.

No Centro Histórico, duas grandes e importantes obras de Benedicto Calixto moram nas paredes da Associação Comercial de Santos. São dois óleos sobre tela doados pelo pintor à associação dirigida pelo comendador Nicolau Vergueiro, o mecenas que patrocinou seus estudos em Paris.

A tela maior é “A Vista da Cidade de Santos”, um óleo sobre tela de 1888, com 1,38 de altura e 2,84 de comprimento, e o óleo sobre tela “Panorama do Porto de Santos”, pintado em 1875, com 75 cm de altura por 3 metros de comprimento. Ambos ostentam as molduras originais que, de tão pesadas, são sustentadas na parede por vergalhões de aço.

A associação também conta com seu livro de ouro que registra a passagem de visitantes ilustres, entre eles, Olavo Bilac, Martins Fontes, Rui Barbosa e três visitas de D. Pedro 2º, assinadas assim mesmo e não em algarismo romano. Foram em agosto de 1875; setembro de 1878 e a última, em companhia de Thereza Christina Maria, em novembro de 1886. Há ainda as assinaturas de presidentes da República como o fundador de Brasília, Juscelino Kubitschek de Oliveira e o primeiro presidente a sofrer um impeachment no Brasil, Fernando Collor de Melo.

A Bolsa do Café abriga três das mais impressionantes pinturas em óleo sobre tela de Calixto, a representação da “Fundação da Vila de Santos”, onde se vê mais uma vez a figura de Braz Cubas. A tela tem nove metros de largura por três de altura. Há ainda duas paisagens de Santos em dois momentos da história: em 1822 e 1922, ambas com três metros de altura por 2,80 de comprimento.



Todos esses trabalhos, mais o vitral no teto do imponente casarão, foram encomendados ao artista para ser entregues na inauguração da Bolsa do Café. Um detalhe na tela em que Santos é retratada em 1922 chama a atenção: a Catedral da cidade já se encontra no local que é hoje, só que a mesma só foi construída em 1939, ou seja, dezessete anos após o quadro ter sido pintado. Trata-se de mais uma curiosidade dessas que podem ser descobertas pelos apreciadores mais atentos. “Talvez Benedicto Calixto tenha tomado conhecimento do projeto de construção e tenha retratado a cidade já com seu principal santuário”, especula Rueda.

Circuito religioso: Falando da Catedral, o roteiro religioso no Centro Histórico pode começar com uma de suas imagens, a da Nossa Senhora do Amparo. Waldir Rueda chama a atenção para essa imagem que ficava na antiga Matriz da Praça da República, demolida em 1908. “Antigamente as pessoas eram enterradas dentro das igrejas, e a capela do amparo, onde ficava a imagem, era dentro da antiga Matriz. Imagine quantas pessoas oraram aos pés dessa imagem. Ela tem um valor inestimável para a cidade”.

Outra imagem que ficava na Matriz e ainda hoje é pouco lembrada é a da Nossa Senhora da Piedade. Hoje está na Igreja do Rosário, onde também fica a Imagem da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Além dessas, a igreja do Rosário abriga a imagem da Santa Sara Kali, padroeira dos ciganos. Trata-se de outra curiosidade já que essa santa não foi canonizada pela igreja católica.

A Ordem Primeira do Carmo também guarda algumas preciosidades. Além de quatro imensos quadros pintados por Benedicto Calixto retratando “Santo Elias”, “Santo Eliseu”, “Santo Alberto” e o “Beato Nuno Álvares Pereira”, o santuário conta com as imagens de Sant’Ana e de São Joaquim, ambas do período barroco. Há também a réplica da imagem da Nossa Senhora do Monte Serrat, seguindo o estilo etrusco, assim como a original exposta na Catalunha, na Espanha.

No Museu de Arte Sacra está uma das imagens mais antigas de Santos e uma das histórias mais interessantes. Trata-se da imagem de Santa Catarina que ficava na capela de mesmo nome no início da Vila de Santos. Roubada pelo corsário inglês Thomas Cavendish em sua incursão pelo litoral de São Paulo, foi jogada ao mar e só foi achada por escravos 70 anos após ter sido descartada pelo pirata que, muito provável, devia estar procurando por ouro dentro das estátuas.

Roubada e depois devolvida, a imagem de Sant’Ana Mestra, esculpida em barro cozido na primeira metade do século 18, foi retirada do Museu nos anos 1990, mas apareceu algum tempo depois em uma igreja da cidade. Ela esta muito danificada e apresenta rachaduras e a falta algumas partes nas imagens da santa e do menino.

Entre as novecentas peças do Museu de Arte Sacra, encontra-se ainda a primeira edição das memórias para a História da Capitania de São Vicente, escrito por Frei Gaspar, em 1797. “O livro está exposto no quarto que pertenceu ao Frei Gaspar e o piso ainda é o mesmo de quando o museu ainda se chamava Mosteiro de São Bento. Toda a arquitetura do local também está preservada”, explica Raquel Mattos, conservadora do museu. A curiosidade fica por conta da coleção de máscaras ritualísticas de várias partes do mundo, doadas pelo colecionador Alexandre de Melo Faro. São mais de noventa peças.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nova safra das letras de Santos

Kizzy Ysaits

Em “Sondagem”, uma de suas crônicas, Carlos Drummond de Andrade explica ao empertigado carteiro Teodorico que algumas vezes as pessoas escrevem simplesmente para "esvaziar a alma". "Escrevendo, o camarada desabafa, entende? Pouco importa que seja lido ou não, isso é outra coisa".

Da nova safra de escritores nascidos ou radicados na Baixada Santista, alguns concordam com a primeira afirmação: escrevem para dar sentido à vida. Mas não concordam com a segunda, ou seja, querem sim ser lidos e, se possível, viver de seu ofício, a exemplo do poeta mineiro.

Entre tantos nomes dessa literatura, destacam-se os poetas Ademir Demarchi, Marcelo Ariel e Flavio Viegas Amoreira; Daniel Salgado, Helena Gomes e Kizzy Ysaits, na literatura fantástica; Luiz Cancello, com seus contos, e o romancista José Roberto Fidalgo, o mais novo a entrar no time.

Toda essa agitação não chega a ser um movimento articulado, talvez porque os gêneros sejam tão diversos quanto as letras que compõem o alfabeto. E se esses autores serão, algum dia, tão significativos quanto foram Vicente de Carvalho, Martins Fontes, Rui Ribeiro Couto, Paulo Gonçalves, Patrícia Galvão, Geraldo Ferraz, Manoel da Silveira e Plínio Marcos, só o tempo irá dizer.

Em comum, apenas o ponto de encontro: a Realejo Livros, uma espécie de City Lights santista. (A editora e livraria City Lights, em funcionamento até hoje, lançou grande parte dos autores beat que mudaram os rumos da literatura americana. Era também ponto de encontro de escritores na efervescente São Francisco dos anos 50 e 60). "As portas estão sempre abertas para professores, músicos, escritores e até clientes”, brinca o livreiro José Luiz Tahan, consciente do papel que o espaço exerce nesse momento de boa produção. "Independente do gênero, acredito que o nosso papel é o de fomentar a produção cultural da cidade. Realizamos eventos e lançamentos quase todos os dias", diz.

Marcelo Ariel

De acordo com o poeta Ademir Demarchi, nascido em Maringá e radicado em Santos, existem diversos níveis de qualidade nos trabalhos, mas o mais importante é que os escritores não estão focados somente na região. "Estão no embate com escritores nacionais. A qualidade e o apelo dessa literatura não devem nada a qualquer autor do país".

Além do livro de poesias “Os mortos da sala de jantar”, Demarchi é editor da revista Babel, que reúne os maiores nomes da poesia atual. Segundo ele, a revista surgiu da necessidade da experimentação dos autores e para dar visibilidade à nova safra de poetas. Babel, que está na sexta edição, já contou com a participação de Milton Hatoum, Wally Salomão e João Cabral de Melo Neto, além do santista Flavio Viegas Amoreira e do cubatense Marcelo Ariel, considerado a grande revelação da poesia nacional.

Flavio Viegas, que não distingue gêneros, publicou, nos últimos seis anos, cinco títulos pela editora 7 Letras, tornando-se um dos escritores mais prolíficos da região. É ativista cultural na cidade, mas também na ponte aérea Rio-São Paulo. "Tenho Santos como base, mas com a internet consigo me comunicar com escritores e vertentes do mundo inteiro. Poderia morar no Alaska ou no Japão que não faria diferença".

O poeta Marcelo Ariel é outro que não aceita ser rotulado como artista da região, apesar de usar sua Cubatão natal como inspiração. Diz ser um poeta do mundo e para ele a poesia, antes de tudo, tem um papel social: "Ela procura despertar a consciência do que é vivo e do que é real. Vivemos num mundo esfacelado por esse modelo de vida que nós mesmos criamos e não sabemos como lidar. Os políticos, a universidade e a elite não discutem alternativas, então sobrou pra nós, artistas, ser a consciência do nosso tempo", reflete.

O “Tratado dos Anjos Afogados”, seu primeiro livro, teve a cidade de Cubatão, que ele chama de "terreno baldio do capital industrial" ou "a cidade vítima do Brasil", como pano de fundo. "Tentei fazer uma investigação metafísica da cidade. E isso só pode acontecer quando a cidade dorme. Com distanciamento". O trabalho recebeu espaço nas revistas Cult e Rascunho e nos principais cadernos de cultura dos grandes jornais. "Pra mim, a poesia é o culto à insônia. E esse livro nada mais é do que o fruto no jardim da insônia. Escrevo porque não durmo".

Ademir Demarchi

A safra também conta com autores que apostam em histórias fantásticas como Daniel Salgado, autor da saga épica “Contos de Árian”, que já está no segundo volume; Kizzy Ysatis, autor de “O Clube dos imortais, a nova quimera dos vampiros”; e Helena Gomes, autora da série “A Caverna de cristais”, que está no segundo volume e, aos poucos, está sendo desenfornada.

A primeira história de Daniel Salgado está sendo traduzida para a língua inglesa e o próprio autor está em contato com editoras para publicar o livro fora do Brasil. Além dos dois volumes publicados, Daniel planeja lançar mais seis histórias.

Kizzy foi o primeiro autor a ganhar o prêmio Raquel de Queiroz, da União Brasileira de Escritores (UBE), com a literatura fantástica, um gênero até então marginalizado. Seu próximo lançamento, “Diário da Sibila Rubra - o retorno das bruxas” está previsto para outubro. "Nesse livro procurei unir as mitologias brasileira e européia, reinventando-as e, ao mesmo tempo, difundindo-as. Criei uma ficção casando o que hoje é antigo nas duas culturas, para criar o meu mundo fantástico". Atualmente, o autor está em Santa Catarina fazendo a pesquisa para seu próximo livro.

Com o lançamento esta semana de “O Ano da Lagartixa”, o jornalista Roberto Fidalgo, que define o ato de escrever como “doloroso, porém terapêutico”, se tornou o mais recente membro do clube dos escritores. Optou por entrar pela porta dos fundos, publicando de primeira a sua obra em um blog na internet, angariando um publico fiel de leitores que viviam pressionando pelos próximos capítulos. Só depois resolveu publicar o livro da maneira convencional, ainda assim, independente, pela editora Os Viralata, seguindo a máxima punk "do it yourself".

Com toda uma vida dedicada ao jornalismo e à leitura de autores atormentados como John Fante, Charles Bukowsky, Jack Kerouac e Sam Sheppard, JR Fidalgo optou por contar uma "não-história", deixando que ela encontre seu próprio rumo. Em determinado momento, o protagonista passa a discutir com uma lagartixa sobre seu penoso trabalho de escrever textos idiotas sobre encomenda e o desejo/necessidade de escrever um livro, dilema de todo o jornalista. Daí para o revisionismo existencial foi um passo. "Não é um livro autobiográfico, mas tem muito pouco de ficção. Era pra sair um volume no formato livro de bolso, mas aí a lagartixa apareceu novamente e me fez retornar ao trabalho".

Os contistas estão representados pelo psicólogo Luiz Cancello, com o seu “Dias de Cão”, lançado no final de 2007. São 20 pequenas histórias que abordam aventuras domésticas do autor. "Como tantos escritores, pretendo apresentar uma leitura original de fatos banais, revelando uma face oculta do dia-a-dia. Gosto de olhar a vida através de detalhes do cotidiano e tenho a pretensão de que uma coleção desses pequenos átomos da existência acabem por formar uma visão maior do conjunto das lidas humanas. Ao ler o livro de Cancello, um leitor fez o seguinte comentário: "Descobri uma nova geografia de meu banheiro".

Flávio Viegas Amoreira

Ademir Demarchi - É bacharel em Letras e doutorado em Literatura Brasileira. Começou aos 18 anos publicando peças mimeografadas, mas diz nunca ter fantasiado viver da literatura. "Pra mim, literatura é uma espécie de jardinagem. É uma forma de levar uma vida mais sensível". Publicou recentemente pela Editora Realejo seu único livro de poesias, cujo tema central é as diversas formas de encarar a morte. "A sociedade foi organizada para moer gente: nas guerras, na organização social, nas formas de trabalho".

Helena Gomes - Autora de “Lobo Alpha”, “O arqueiro e a Feiticeira” e “Aliança dos povos”, Helena Gomes divide seu tempo entre o trabalho em uma assessoria de imprensa e as aulas que ministra em uma universidade local. Para 2008, ela preparou os lançamentos “Despertar do dragão”, o infantil “Código criatura” e o juvenil “Assassinato na biblioteca”. Com o escritor Cláudio Brites organizou a antologia de contos “Anno Domini - manuscritos medievais”. Seu primeiro livro, uma co-autoria com a jornalista Viviane Pereira e com o cartofilista Laire José Giraud, foi a não-ficção “Memórias da Hotelaria Santista”, em 1997.

Marcelo Ariel - Nasceu em 1968 e cresceu em Cubatão na época em que a cidade era rotulada de a mais poluída do mundo. Viveu a tragédia da Vila Socó, fato que marcará sua obra e sua vida. Aos oito anos era levado pelo irmão esquizofrênico a uma biblioteca da cidade para aprender a ler. Mais tarde, iria cuidar do mesmo irmão por 17 anos. Segundo Ariel, essa foi sua maior influência para escrever, pois passava noites acordados.

José Roberto Fidalgo - Começou no jornalismo em 1973 no jornal A Tribuna. Já havia escrito outras histórias, mas nunca com a intenção de publicar, pois diz não ter formação e nem pretensão literária. No jornal foi influenciado por Roldão Mendes Rosa e Narciso de Andrade. Antes da edição impressa, “O Ano da Lagartixa” foi publicado na internet, tendo recebido um bom retorno. "Nós, jornalistas, temos a habilidade de lidar com as palavras. Não chega a ser um talento, mas quem está de fora acha que é".

Daniel Salgado - Largou um emprego burocrático para se dedicar à literatura. Diz que está melhor assim. É autor da série “Contos de Árian”, que tem dois volumes publicados pela editora Novo Século: “O caçador de gigantes” e “O lobo de Gaia”, classificados como romances épicos. Os “Contos de Árian” reúnem as histórias que Daniel contava - e ainda conta - para sua filha Ariane, de oito anos. Trata-se da história de um pai guerreiro cuidando da segurança da família, em especial da filha, em um mundo fantástico onde deuses interagem com os seres humanos. Através de minuciosa pesquisa, o autor criou toda uma mitologia em torno da cidade fictícia de Árian.

Kizzy Ysaits - Nasceu em Santos, morou na Espanha e no momento está viajando para coletar dados para seu próximo trabalho. Diz devorar livros, seus maiores amigos desde a infância. Em suas andanças, fez quadrinhos, teatro e se tornou fã do rock gótico dos anos 80 e de filmes de Woody Allen e M. Night Shyamalan. Na literatura, admira Oscar Wilde, Clarice Lispector, Ana Maria Machado, Virginia Woolf, Balzac e Rimbaud. Boêmio e solitário, Ysaits adotou o visual peculiar de seu personagem: capa, cartola e coturno, tudo preto. Por “Clube dos imortais, a nova quimera dos vampiros”, recebeu o prêmio na Academia Brasileira de Letras das mãos do imortal Antonio Olinto.

Flávio Viegas Amoreira - É um dos mais ativos de Santos, mas não se considera um escritor santista: "Moro em Santos, mas vivo na literatura". Desde 2002 publicou “Mar alto”, “A Biblioteca submergida”, “Contogramas”, “Escorbuto: Contos da Costa” e “Edoardo: o ele de nós”. Todos tratam de dois temas essenciais ao autor: o desejo e o mar. "Escrevo por desespero. Para questionar o absurdo. Classifico meu trabalho como literatura do estilhaço. Escrevo de forma videoclíptica, que é como a vida é hoje". Viegas vive de escrever resenhas, traduções e obituários. É formado em História.

Luiz Antonio Guimarães Cancello - É santista de nascimento, psicólogo, escritor e músico. Publicou dois livros sobre psicoterapia: “O fio das palavras - um estudo da psicoterapia existencial”, em 1991; e “Informal, nômade, tradicional - os psicólogos, psicoterapeutas e seus grupos de estudos”, 2007. E também dois livros de contos “Dia-a-dia: fragmentos” e “A carne e o sonho”. "A agilidade da narrativa capta um flagrante da vida, tece as considerações através do narrador e logo fecha a questão. Aquilo que é transmitido dessa maneira vai adquirindo um "jeitão" na seqüência dos contos. Em Dias de Cão, muitas histórias são contadas explorando pequenas manias dos personagens, muitas das quais se revelam na intimidade do banheiro".





quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Resgate de Pagu


Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Leandro Amaral e reprodução

Escritora, jornalista, ativista política, apaixonada pelas artes e pela vida, Patrícia Galvão foi, sem dúvida, uma das personalidades mais importantes da história santista e —por que não dizer?— brasileira do século passado.

Após um período de esquecimento, sua vida e obra vêm sendo resgatadas pelas mãos de duas mulheres: a jornalista Márcia Costa e a professora Lúcia Maria Teixeira Furlani.

A dissertação de mestrado Jornalismo Cultural: A Produção de Patrícia Galvão no Jornal A Tribuna, da jornalista Márcia Costa, analisa a produção de Pagu entre 1954 e 1962, aprofundando-se na coluna Literatura, do suplemento A Tribuna, publicado sempre aos domingos, entre 1957 e 1961. Já a professora Lúcia, cujo interesse por Pagu em 20 anos de pesquisa rendeu duas obras e a criação do Centro de Estudos Pagu, na Unisanta, está prestes a lançar No Angu de Pagu – Uma Fotobiografia, pelas editoras Santa Cecília/Cosacnaify. A previsão de lançamento é para agosto.

São duas visões distintas com a sensibilidade que somente as mulheres poderiam imprimir ao pesquisar a vida agitada de Pagu. Porém, sem esquecer o rigor histórico que os temas exigem.

Em dois anos de pesquisa, a jornalista Márcia Costa compilou, em mais de 200 páginas, informações preciosas sobre a produção jornalística de Patrícia Galvão, como quando Pagu chegou a criar quatro colunas sobre cultura, entre elas a primeira do Brasil a falar sobre televisão. “A maior produção de Pagu foi mesmo como jornalista. Ela escreveu em jornais por mais de 30 anos e em todo o país sua palavra era respeitada nos meios culturais. Sua casa era freqüentada por Jorge Amado e Érico Veríssimo. Além deles, Sabato Magaldi, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Antunes Filho também faziam parte de seu círculo de amizade”, diz a autora da dissertação.

Outra faceta revelada no trabalho de Márcia Costa é a generosidade de Patrícia Galvão com os novos talentos. Na verdade, como lembra a autora, não era bem generosidade, “Pagu sabia reconhecer o talento dos novos escritores, foi a primeira a elogiar o trabalho de Clarice Lispector, e a bancar com seu prestigio o jovem Plínio Marcos”.

Além dessas informações, a dissertação mostra ainda que na época em que Pagu passou por A Tribuna, o jornal possuía um time de colunistas de peso, o que valoriza ainda mais seus textos como ativista cultural. Escreviam Otto Maria Carpeaux, Carlos Drummond de Andrade e Narciso de Andrade.

Para realizar seu trabalho, Márcia entrevistou 17 pessoas, entre elas o jornalista Geraldo Galvão Ferraz, filho de Pagu com o também jornalista Geraldo Ferraz; Augusto de Campos, Narciso de Andrade, Júlio Bittencourt, Gilberto Mendes, Willy Correia de Oliveira, Flavio Viegas Amoreira, Cid Marcos Vasquez e o brasilianista David K. Jackson, além de consultar o precioso acervo da professora Lúcia Maria Teixeira Furlani.

Depositária da confiança da família de Pagu, Lúcia (na foto, Márcia à esquerda e Lúcia à direita) guarda com carinho e cuidado manuscritos produzidos há décadas pela ativista cultural modernista, além de fotos e documentos usados em No Angu de Pagu.

Em um primoroso trabalho de resgate, todas as imagens estão dispostas em ordem cronológica e são, uma a uma, seguidas por explicações rápidas, mas esclarecedoras. Estão ali, por exemplo, sua primeira foto com Oswald de Andrade, na Bahia; seu passaporte da época em que, perseguida por ser comunista, se viu obrigada ao auto-exílio; e até uma radiografia da face com um projétil alojado, fruto de uma tentativa de suicídio mal-sucedida.

“Nossa principal preocupação foi contextualizar todos os documentos, para melhor entendimento do leitor”, explica a autora que, na obra, reuniu mais de 253 imagens, muitas vindo à luz pela primeira vez. Segundo Lucia, cerca de 80% do que há nesse “angu” nunca foi publicado.

Há também o prefácio do sobrinho de Patrícia, o jornalista Clóvis Galvão, hoje em A Tribuna, e ainda um poema inédito de Rudá de Andrade, filho do primeiro casamento, com Oswald de Andrade. O poema se chama “Homenagem às loucuras de minha mãe”, e prova que o filho deixado aos cuidados do pai, Oswald, não guardou os mesmos ressentimentos que os detratores de Patrícia Galvão.

O trabalho da professora não se limita a guardar os documentos doados pela família de Pagu. No momento, o centro de pesquisas está empenhado em recuperar e digitalizar mais de 2.300 documentos recolhidos pela pesquisadora ao longo dos 20 anos de busca em todo o Brasil.

Ela afirma que ainda há muita coisa a ser dita sobre a obra de Pagu. Outro trabalho em andamento é o que está sendo realizado em conjunto com o norte-americano David K. Jackson, estudioso sobre a obra de Patrícia Galvão. “Dessa vez, será uma obra de peso, cinco volumes com muito material inédito”, avisa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Décadence sans elegance


Texto: Eugênio Martins Jr
Foto: Fundação Arquivo e Memória

Em seus melhores dias, o Cine Teatro Coliseu recebeu grandes artistas como Bidu Saião, Nijinski e Carmem Miranda. Nos piores, abrigou proxenetas, pederastas e rufiões. A fina flor da marginália do centro da cidade na decadente década de 80. Atraídos pelo movimento em torno do teatro, que na época exibia filmes pornográficos, de kung-fu e sessões de streap-tease, faziam a vida ali mesmo, na entrada do Coliseu, em seus corredores escuros e impregnados pelo odor do mofo e urina que saíam do local onde um dia havia sido um banheiro.

O expediente da vagabundagem começava ao meio-dia e terminava às onze da noite — o tempo em que duravam as sessões— mas era o suficiente para que todos os tipos de golpes, ou pelo menos boa parte deles, fossem aplicados nos freqüentadores mais incautos.

O “golpe do baralho” era o mais comum entre eles. O golpista colocava três cartas lado a lado e em cima de um jornal dobrado em quatro partes. Mostrava as cartas para a audiência, que nunca era menos de dez pessoas, e depois colocava as cartas com a face virada para baixo. Trocando-as de lugar rapidamente, o malandro desafiava um dos curiosos a acertar onde estava uma determinada carta. Claro que o golpista nunca atuava sozinho e era aí que entrava a malandragem.

Ele mandava um comparsa escolher uma carta e este sempre acertava, levando a grana e atiçando a cobiça de quem assistia. A aposta valia dinheiro, relógio e correntinha. Se o otário percebesse que estava sendo enganado, a confusão era certa e um terceiro envolvido entrava em cena. Ele tumultuava a roda de jogo enquanto o cara das cartas dava no pé.

“Fica na tua garoto”, me advertiam os malandros, após eu ter presenciado o golpe ser aplicado diversas vezes. Nem precisa falar que eu nunca dei com a língua nos dentes. Pelo menos até agora.

O “abraço amoroso” era outro golpe bastante aplicado pelas prostitutas da rua Brás Cubas. Nas portas dos inferninhos elas chamavam: “Vem cá, vem. Vem fazer neném”. O pedestre, se achando muito esperto, ficava por ali embaçando, tomando o tempo da prostituta. Só que enquanto ele passava a mão pelo corpo da mulher acabava ficando sem a carteira. O mané só ia perceber que havia sido roubado depois de algum tempo.

Tudo isso acontecia ali, na porta do Coliseu, enquanto lá dentro a molecada via os filmes do Bruce Li ou do Bruce Le, sósias piorados do verdadeiro Bruce Lee, ou se acabavam na punheta vendo os filmes de sacanagem.

Durante as sessões, o Coliseu era o lugar perfeito para a prostituição dos viados do Centro. Nessa época, o teatro pertencia a eles e o escurinho do cinema vinha bem a calhar.

Os “pontos” eram nos corredores laterais que levavam aos banheiros e, se conseguissem alguém para o programa, nem precisavam sair do cinema, era só subir as escadas e usar camarotes que ficavam abandonados. Perfeito para Fassbinder filmar.

De vez em quando, lá nos camarotes superiores, alguém triscava um isqueiro e logo o cheiro de maconha impregnava o cinema. Nessas horas, alguém sempre gritava: “Aí não é lugar de sem-vergonhice não, ô fariseu”. A audiência caía na gargalhada, mas a sessão prosseguia na normalidade.

Durante a noite, a fauna do Cine Coliseu se misturava com o pessoal que freqüentava o Forrobodó, a casa de shows instalada no segundo andar e que entre as principais atrações sempre contava com Amado Batista ou Ovelha. Dentro da madrugada, o forró rolava solto reunindo no mesmo ambiente trabalhadores braçais, malandros e as putas que faziam ponto na esquina das avenidas São Francisco e Senador Feijó, as mais feias da cidade.

De todas as praças do Centro, a José Bonifácio era a que mais reunia os personagens de Plínio Marcos, Jean Genet, Steinbeck e tantos outros escritores que retrataram a vida pungente das ruas. Em uma extremidade, o Coliseu e o Forrobodó, na outra, a da São Francisco com a Senador Feijó, barra pesadíssima.

Mas, como diz o ditado, alegria de pobre dura pouco e a chegada mortal da Aids em Santos acabou fechando a Disneylândia.  O “movimento” da rua General Câmara caiu levando a reboque o do resto da cidade. O Coliseu da sacanagem fechou as portas.

Um de seus outros dois concorrentes, o Cine Fugitive, na avenida João Pessoa, teve ainda uma breve sobrevida, mas também acabou fechando. O outro, o Cine Júlio Dantas, ainda na ativa, diversificou os negócios instalando uma sexshop bem na entrada.

Primeiro ano iluminado


Texto: Eugênio Martins Jr
Foto: Divulgação

Poucas cidades do país têm o privilégio de possuir um teatro igual ao Coliseu, tanto em tamanho quanto em importância histórica. É claro, existem teatros maiores e mais modernos, mas o charme do Coliseu é justamente o oposto. Mesmo assim, um teatro com mil e duzentos lugares impõe respeito.

Além dos importantes teatros municipais do Rio de Janeiro e São Paulo, o Teatro Coliseu de Santos pode ser colocado na mesma categoria dos tradicionais São Pedro, em Porto Alegre (RS); Arthur Azevedo, São Luís (MA); Santa Isabel, em Recife (PE); Da Paz, em Belém (PA) e o magnífico Amazonas, em Manaus.

Como repórter e produtor cultural tive o privilégio de participar de algumas etapas em seu primeiro ano de funcionamento. Após tão polêmica e demorada reforma. Durante todo o ano de 2007 o Coliseu recebeu diversas atrações nacionais e internacionais. Algumas memoráveis.

A beleza da arquitetura externa também foi valorizada com uma iluminação de fachada que realça ainda mais suas belas formas.

Em sua estréia, na noite de 25 de janeiro de 2006, o teatro recebeu a Orquestra Sinfônica Municipal de Santos, com regência do maestro titular Luiz Gustavo Petri e da pianista Beatriz Alessio como solista. A inauguração também contou com a participação do grupo de seresta Alma Brasileira.

Além da Sinfônica de Santos, a música erudita também foi representada pela Bachiana Chamber Orchestra, com regência de João Carlos Martins; a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, com a participação especial da solista Regina Elena Mesquita e a regência do maestro Abel Rocha; Orquestra Albert Einstein, Orquestra Jazz Sinfônica e Solistas CPFL.

O primeiro grande nome da MPB a chegar foi o cantor, violonista e compositor Toquinho, acompanhado de sua banda. A apresentação do dia 4 de fevereiro marcou o 40º aniversário da carreira do músico e lançamento de seu DVD.

No dia 8 de fevereiro, foi a vez de Bibi Ferreira. Visivelmente emocionada, a cantora e atriz lembrou duas de suas passagens pelo teatro santista: a primeira quando veio com a companhia de teatro de seu pai, Procópio Ferreira, ainda criança. A segunda, já como atriz de renome com o espetáculo Gota D'Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes.

A fama se espalhou e a cantora Gal Costa escolheu Santos para lançar Hoje, na época, seu mais recente CD, partindo daqui para uma turnê internacional. Entre um dos poucos comentários da cantora, um elogio: "Esse teatro é muito bonito, ainda bem que ele existe".

O grande show que não aconteceu foi com o cantor, compositor e violonista João Bosco, que cancelou sua apresentação poucos dias antes. Um pouco antes do cancelamento tive a oportunidade de conversar com o cantor e ele, já conhecendo a fama do teatro, me fez diversas perguntas sobre o Coliseu.

A lista continua com os músicos Guilherme Arantes, Oswaldo Montenegro, Ivan Lins, Zeca Baleiro e Luiz Melodia e os atores Reynaldo Gianecchini, Antonio Fagundes, Murilo Benício e Marisa Orth, entre outros.

A apresentação do cantor e guitarrista norte-americano Eric Gales marcou a estréia do projeto Jazz, Bossa & Blues e foi a primeira atração internacional do novo Coliseu. Com o publicitário Cássio Laranja produzi esse show em parceria com a Secretaria de Cultura de Santos. o Show de abertura foi do guitarrista santista Mauro Hector.

Os próximos shows internacionais também foram produzidos por mim e pelo Cássio, parceiro musical que mantém no rádio, há 20 anos, um dos programas de jazz mais antigos do país, o Digital Jazz. Foram os shows dos guitarristas John Pizzarelli e Stanley Jordan, em 18 e 29 de novembro respectivamente.

Na apresentação de John Pizzarelli, aconteceu um dos momentos mais marcantes de todo ano: o coro em uníssono entre público e cantor na versão do artista para Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Quem esteve lá sabe do que eu estou falando.

O guitarrista Stanley Jordan foi a terceira atração internacional do ano. Acompanhado pelos músicos brasileiros Ivan Conti (bateria) e Dudu Lima (baixo), apresentou Mercy, Mercy, Mercy, All the Children, Eleanor Rigby e uma genial versão para Insensatez - também de Tom e Vinicius - o guitarrista mostrou por que é considerado um dos maiores inovadores em seu instrumento.

Enfim, no balanço final, foi um ótimo primeiro ano de uma nova vida. Esperamos poder ver e fazer mais. Bravo, Teatro Coliseu!