Amaro Freitas na passagem de som no Sesc Santos - 25/04/2026
Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior
A primeira vez que conversei com o Amaro Freitas foi em setembro de 2019. Naquela época o recifense consolidava sua assinatura musical com os álbuns Sangue Negro e Rasif.
Muitas águas turvas passaram pelos canais de Recife desde então. As pandemias de covid 19 e de ignorância devastaram muitas famílias e a vida cultural no Brasil.
Com resistência, músicos e produtores tocaram a vida, projetando novas rotas para a arte. Amaro Freitas transformou a reclusão em um mergulho ainda mais profundo em suas raízes. Seu piano percussivo tornou-se um canal de cura e conexão espiritual.
Em Sankofa e Y'Y o ruído das cidades deu lugar ao “mantra da natureza” e à “ancestralidade amazônica”, expandindo as fronteiras de sua criação.
Ao deixar de ser uma promessa musical, Amaro consolidou-se como um dos principais nomes da música instrumental do planeta. E essa consagração nos palcos internacionais mostra que mesmo quando as águas dos canais sobem, nossas raízes são profundas demais para serem arrancadas. E pensar o Brasil a partir de sua ancestralidade exige afastar o ufanismo e encarar nossas fraturas históricas.
Em O Povo Brasileiro - A Formação e o Sentido do Brasil, o antropólogo Darcy Ribeiro defende que o povo brasileiro nasceu de uma “matriz integradora” violenta, uma fusão dolorosa, mas profundamente inventiva, com raízes indígenas, africanas e europeias.
Essa “Nova Roma”, descrita por ele, não se consolidou pela pureza, mas pela síntese e pela resistência cultural daqueles que foram submetidos ao processo de descaracterização. E mais, de desumanização.
Penso que é precisamente no território da reinvenção que a música de Amaro Freitas se conecta à tese darcyana.
O pianista pernambucano subverte a tradição do jazz europeu e norte-americano ao injetar no piano de cauda o conteúdo e a forma das culturas afro-brasileiras e indígenas. Uma engenharia genética que misturou o DNA do instrumento ocidental com o dos tambores da floresta e da África.
Evocando os mistérios dos povos originários e as polirritmias do frevo, do maracatu e do coco, Amaro constrói a crônica da Nova República de Darcy, onde a ancestralidade é vanguarda.
A riqueza da nossa música, portanto, não reside em uma harmonia pacífica e idílica, mas na capacidade contínua de deglutir a violência histórica e transformá-la em potência criativa.
Ribeiro teorizou a fundação desse povo, Amaro Freitas compõe a sua trilha sonora contemporânea, provando que o Brasil profundo continua vivo, complexo e em constante estado de criação.
Eugênio Martins Júnior – Muita coisa mudou desde o nosso último encontro em 2019. Você já havia gravado Sangue Negro e Rasif. Agora, em 2026, após os lançamentos de Sankofa e YY, você ganhou o mundo. O que muda ao apresentar a música brasileira para o mundo?
Amaro Freitas – Quanto mais eu conheço o mundo mais conheço o Brasil. Acessando espaços como Estados Unidos, Japão, Europa entendi também essa música brasileira que é consumida fora do Brasil, mas que o país não conhece. Entendi que os heróis brasileiros são outros. Você chega em um teatro em Oslo e vê uma foto do Hermeto Pascoal. O produtor que me chamou para aquele festival dizer que o Naná Vasconcelos esteve ali há vinte anos. Veja, Naná, Hermeto, Egberto foram responsáveis por colocar essa música criativa no mundo. Deram uma cara a esse tipo de música. E quando estou fora no Brasil para apresentar o meu trabalho já existe um caminho de compreensão. Já existe um lugar para mim no mundo. Através de uma estrada que foi pavimentada antes. Esses caras entraram no mato e abriram o caminho para eu passar. E para vários músicos que representam essa música brasileira.
Também foi interessante perceber o quão próximo é um instrumentista e um cantor. A valorização e o posicionamento da música instrumental fora do Brasil são mais fortes do que o canto. É óbvio que as pessoas vão adorar Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan, Maria Bethânia, Liniker, mas o lugar de prestígio, de escuta da música instrumental brasileira nesse circuito é muito grande. Principalmente quando a gente vê como o Hermeto é venerado. Lembro do festival Jazz in Marciac em que um dia estavam o Hamilton e o Egberto e no outro eu e o Hermeto e havia seis mil pessoas para ouvir. Houve outro no Japão que era no Blue Note, onde tinha quinze mil pessoas. Toquei antes da Norah Jones, mas eu era o representante da música brasileira.
Foi importante compreender que a música que eu faço não é a mais famosa do mundo e nem no meus país, mas é a melhor música que o mundo consome.
EM – Quando conversamos em 2019 não tínhamos noção do que nos esperava, uma pandemia de Covid 19. Como foi atravessar esse período?
AF – Foi um período muito difícil, mas curiosamente tive muito trabalho. Fiz várias gravações online. O Sesc deu um suporte muito forte para vários artistas. Ia ao estúdio fazer lives e depois viajava para tocar em teatros vazio. Esse período foi complicado, desenvolvi uma crise de ansiedade e cheguei a chorar em um voo. Levei um tempo para conseguir me recuperar. Entrava no avião e ficava tenso com aquela situação, todo mundo de máscara. Foi em um voo para o Rio de Janeiro, quando fui gravar para um edital da Lei Aldir Blanc. Perdi a minha avó para a Covid 19. Vi vários amigos músicos saindo da música, indo trabalhar em outra coisa para se sustentar. Muito difícil para todos e para mim não foi diferente.
EM – Penso que a gravação do álbum Sankofa marca uma guinada no rumo, remetendo à ancestralidade africana na cultura brasileira. Talvez até representando um grito de resistência com o que estava acontecendo no país naquele momento. Estávamos vivendo sob um governo que era contra a cultura, a ciência e a educação. Procede?
AF – Acho que várias pessoas ficam com medo de gravar quando veem um governo como esse. Que não é a favor da cultura, a favor da arte, que quer tolher... a gente sabe que cortando acesso a isso fica mais fácil de manter o povo na ignorância e na insensibilidade. E sempre pensei o contrário. Acho que esse momento é que temos de enfrentar, com a ideia que seja intelectual, que seja artística, profunda. Que, de alguma forma, isso transforme e fortaleça o coração das pessoas que lutam por essa causa.
Quando faço o disco Sankofa estou falando sobre o conhecimento de uma história que não tive acesso quando era
criança. Não estudei a história real das pessoas que vieram de África. O olhar bonito sobre Tereza de Benguela, Aqualtune ou Baquaqua. Gostaria de ter estudado sobre esses personagens que foram reis e rainhas que lideraram quilombos. Queria ter estudado sobre o candomblé, as matrizes africanas. Queria ter estudado sobre o povo Xambá, sobre a igreja Rosário dos Pretos no Pelourinho. Não tive acesso a isso. Então, quando começo a entender que existe um motivo pelo qual eu posso me orgulhar, de ter nascido nesse solo, vindo da periferia e ter colocado um som de piano original, pensei que precisava fazer
um álbum celebrando essa história. É em um momento da vida no qual estou saindo muito do Brasil, presente na Europa, Estados Unidos, passando por vários festivais e percebendo a diáspora africana. Lembro de ter visto Jeff Parker no Cork Jazz; a Brandee Younger; o Hamid Drake, no festival de jazz da Macedônia; Christian Scott, no Liubliana Jazz Festival. Músicos que vêm da Inglaterra, França, Estados Unidos. De Cuba vi Roberto Fonseca, Chucho Valdez e Gonzalo Rubalcaba. Todos esses artistas expressando a musicalidade da África em todos esses lugares onde ela foi plantada. Mas entendendo que em todos eles, o tambor é o centro. A rítmica é muito presente. Nesse momento estou estudando muito polirritmia, isorritmia, ritmo negativo. No qual começo a trabalhar a célula do tamborim, do partido alto. Começo a pensar em Baquaqua e em polirritmia. Na situação de vida desse personagem, que foi tão difícil no Recife, no Rio de Janeiro. E ele consegue se libertar quando chega aos Estados Unidos. De uma forma polirrítmica, harmônica, pensando nesse acorde frio, que traz uma sensação de garganta entalada, de alguém que quer botar pra fora, que quer explodir. E de uma forma subjetiva, expressar todos esses processos que Baquaqua viveu.
Sankofa é um disco que fala sobre o reconhecimento do meu povo. E quando cheguei em New York para tocar pela primeira
vez na Lincoln Center, queria conhecer a Times Square, mas acabei no Brooklyn. Aí eu digo: “Que porra de Times Square. Quero ficar no Brooklyn, no Harlem. Aí vou a uma feira afro e conheço o Ali, um cara de Senegal que estava vendendo uma bata. E eu compro e uso no show da Lincoln Center. Nessa bata havia o símbolo da sankofa. Um amigo meu comentou que aquilo era lindo e descobri que a sankofa era o último sinal para eu gravar esse disco. Um símbolo que significa continuar indo pra frente, mas sem esquecer suas raízes. Não deixar o elo se quebrar.
Rodrigo "Digão" Braz
EM – E ao mesmo tempo que reflete sobre o passado, você está pensando no futuro. O olhar para traz e o olhar para frente. O que eu quero dizer é que há atualmente uma luta sendo travada por espaço, por liberdade, por humanidade. Quero dizer, lutas do povo negro, indígena, LGBT, feminismo.
AF – É a luta pelas mulheres trans, feminista, das mulheres brancas, mulheres pretas, dos nordestinos, dos nortistas. O movimento indígena ocupa um espaço na política e tem nas redes sociais uma forma de protesto muito intensa. Veja, o Brasil evoluiu muito nesses temas, mas ainda é o país que mais mata mulheres, que mais mata mulheres trans, um país extremamente desigual...
EM – Riquíssimo e desigual.
AF – Sim. Imagina que um por cento da população brasileira recebe mais do que o resto. Existem escalas, mas é basicamente isso. Ainda falta muita coisa para mudar nesse país.
EM - Em YY você foi além do ruído urbano, buscado os sons da floresta, dos rios e da ancestralidade amazônica. Você se distanciou do “mantra urbano” dos viadutos, buzinas e sirenes para o “mantra da natureza”? Fale um pouco sobre isso.
AF – Foi uma grande oportunidade. Inesperada. O Brasil é um país muito diverso. E essa diversidade se encontra em várias coisas. Um povo que tem vários rostos. Vários dialetos. Tem DNAs diferentes. Tem temperaturas diferentes. Tem uma cultura musical muito ampla. O samba e suas variações, maracatu, frevo, baião, coco, cavalo marinho, ciranda, caboclinho. Aí vamos ao Maranhão com tambor de crioula, semente, bumba meu boi. As lendas do norte, cazumbá, capinguari, uiara, o boto e todos os encantamentos. E aí vamos à culinária e à floresta. Então, é muito interessante, porque quando eu vejo o show de um inglês, de um israelense, percebo uma unidade. A primeira música não é diferente da segunda e que não é diferente da terceira. E na música brasileira eu começo tocando um improviso livre e depois toco um frevo e depois um maracatu e quem está fora do Brasil abre a boca de espanto. Estamos acostumados com essa diversidade, mas o mundo não. Talvez essa diversidade deveria ser mais o nosso orgulho. Olhando para o Brasil real e não o oficial, que é caricato, cafona, brega, ele separa as classes. O Brasil real é alegre, vai à luta, é o Brasil criativo. Aquele que resolve as coisas que parecem não ter mais jeito.
Respondendo a sua pergunta, quando chego na Amazônia, eu descubro um outro Brasil. Era pra eu ter ficado dois dias, mas
troquei a minha passagem. Tema aquela coisa coletiva de você comer em círculo, olhando um para o outro, de igual para o igual. Ver como os indígenas tratam as árvores e os animais como se fossem parentes. E que eles dão nomes às árvores. Eles conversam e entendem os rios. Um deles me chamou e disse: “Amaro, você está vendo essa área? Aqui é a área do rio. De oito em oito anos o rio que você está vendo ali chega até aqui e a gente não invade”. Você entende?
Então eu estou aqui morando em São Paulo e quero desmatar a Amazônia, quero que o agronegócio funcione de maneira desenfreada. E aí os indígenas ensinam que é de lá que saem os rios flutuantes e que as próprias árvores são responsáveis por isso. E que o volume de água desses rios é maior do que o que o rio Amazonas despeja no oceano. E que essa água é responsável por chuvas equilibradas em São Paulo.
Sidiel Vieira
EM – Gostaria que você falasse sobre o time que te acompanha hoje, o Digão na bateria e o Sidiel no baixo.
AM – A gente vem aprendendo muito juntos. Sou extremamente atento à vivência. Admiro muito o Digão e o Sidiel. Estou falando de dois artistas que têm seus discos
lançados em diferentes formatos. São professores muito requisitados e têm um extremo profissionalismo em tudo o que fazem. Trabalho com o Digão há três anos e o Sidiel há um ano e sempre experimentando. Por exemplo, hoje você está vendo
dois monitores ali para eu ouvir os loops e a voz, mas não tenho o som do piano nos monitores. Eu quero ouvir o som real e a gente passou alguns shows tentando chegar em uma sonoridade crua...
EM – Mas o baixo e a bateria chegam pra você no monitor?
AF – Nada. Vamos nos ouvir com o que temos ali. O baixo tem o “cheirinho”do som dele no monitor. Digão não tem nada no monitor dele e eu não coloco nada no meu.
EM – Por isso que vocês tocam juntinhos.
AM – Sim. É uma dinâmica. Antes da mixagem de Vinicius – técnico de som de Amaro – primeiro no palco, com a gente tocando. Eugênio, levou um tempo pra gente conseguir. Hoje me considero jogando na Champions League. Porque eu toco e logo depois vem o Chris Potter, toca o Gonzalo (Rubalcaba), na outra semana toca o Stefano Bollani. Aí eu vejo como as pessoas trabalham os sons. O mundo é um pouco menos ruidoso do que o Brasil. Somos muito quentes. Logo, tudo deles é um pouco mais baixo, mais tranquilo. Primeiro a gente estranha porque confunde intensidade com volume. E na prática você percebe que pode ser intenso sem machucar os ouvidos. Ser intenso e ser presente. Sem perder o controle do teu corpo. E é isso que tentamos fazer, ser tudo isso, e de uma forma muito elegante, manter o domínio dessa sonoridade.
EM – A última vez que a gente se encontrou eu te fiz a seguinte pergunta: “Estou reunindo entrevistas para um livro que pretendo lançar um dia, sei lá quando, e que vai se chamar Do Samba ao Jazz*. Se esse livro tiver 300 páginas e levando em conta que o samba está na página 01 e o jazz na página 300, onde fica a música de Amaro Freitas?”. Você respondeu que a música de Amaro Freitas é pós sambajazz, ou seja, depois da página 300. Meu próximo livro se chamará Música do Mundo. E volto a te perguntar: Onde fica a música de Amaro Freitas no mundo? Você reconhece esse rótulo de WORLD MUSIC?
AF – Acho que faço uma música que tem influência do que acontece no mundo. Que está conectada com a cena de jazz atual. Quando você pensa na música de Arooj Aftab, que é uma
cantora paquistanesa; Tigran (Hamasyan), que é armênio; Shai Maestro, que é israelense; o Shabaka (Hutchings), um europeu/africano que vem da Inglaterra, acho que minha música está conectada com essa cena. Mas uma coisa que eu descobri é que na forma que eu falo, na forma que eu me visto e na forma como eu toco, quero ser mais brasileiro.
EM – O Brasil está na moda, Amaro? Tenho conversado com muitos músicos estrangeiros e todos tem vindo ao Brasil para aprender a nossa música. É um movimento inverso do que aconteceu nas últimas décadas.
AF – O Brasil sempre esteve na moda. Sempre rolou esse interesse. O Brasil sempre teve um problema muito grande. Não é o mundo que não queria aprender música brasileira, mas o Brasil que produzia algo genial e não tinha a capacidade de catalogar, registrar e ensinar isso aos outros. Europa e Estados Unidos fizeram isso de forma muito organizada. Tudo é uma escola. Acho que agora o Brasil tem uma estrutura e tem um repertório pensando os vários movimentos. A música de Moacir Santos, Milton Nascimento, Laércio de Freitas, Baden Powell, que deixou uma marca no violão. Que deixa um jeito de tocar piano, de ser compositor.
*O livro foi lançado em 2024 com o nome de Do Choro ao Jazz.
.jpeg)

.jpeg)


.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário