Mostrando postagens com marcador Morreu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Morreu. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Morre aos 86 anos o indomável James “Blood” Ulmer

 

Ulmer em Londres, 16 de junho de 2009
. (Foto: Helen Boast PhotographyRedferns)

Esse obituário vem com atraso, mas com a reverência devida. Problemas da vida e a correria do trabalho me afastou do noticiário musical por um tempo e não li sobre a morte do grande James “Blood” Ulmer, aos 86 anos, no dia 03 de junho. Vamos a ele. 
Em um comunicado nas redes sociais, sua família informou sobre a morte do guitarrista e acrescentou: "Sua música era destemida, assim como seu espírito". A mais pura verdade.
Nascido Willie James Ulmer na Carolina do Sul em 1940, a carreira musical de Ulmer começou em bandas de funk, viajando de Pittsburgh a Columbus e Detroit – acompanhando músicos como Jewel Bryner e Hank Marr – antes de se estabelecer em Nova York no início dos anos 1970.
James “Blood” Ulmer não se prendia a um estilo. Além de tocar com Art Blakey, Joe Henderson e Rashied Ali, teve como mentor Ornette Coleman.
Esse espírito livre reinou por toda a carreira de Ulmer, caracterizada por uma execução instintiva e sem limites, mesmo quando começou a se dedicar à composição.
O próprio Coleman coproduziu eu álbum de estreia, Tales of Captain Black. Seu álbum seguinte, Are You Glad to Be in America?, foi lançado pelo selo britânico Rough Trade. 
O comentário social provocativo da faixa-título a tornou uma canção marcante, e ele acabou, vejam vocês, abrindo shows para bandas do pós-punk e rock, entre elas, Public Image Ltd e Captain Beefheart. Sobre o público nesses shows, ele disse mais tarde: "Eu ficava no microfone e mandava eles calarem a boca. Eles tinham cinco minutos para entrar no clima ou vazar!"
Após a passagem pela Columbia, assinou brevemente com a Blue Note para mais um álbum dando uma cutucada na América: America – Do You Remember the Love? (1987).
Continuou lançando álbuns de estúdio durante as décadas de 1990 e 2000, focando menos no jazz e mais no blues: "Blue Blood" (2001) contou com uma banda que incluia Bill Laswell, Amina Claudine Myers e Bernie Worrell, do Funkadelic. Lançado no mesmo ano, Memphis Blood: The Sun Sessions lhe rendeu uma indicação ao Grammy na categoria de melhor álbum de blues tradicional.
Ele também foi requisitado por outros artistas para contribuir com seu inimitável estilo de tocar guitarra: participou de gravações como a trilha sonora de Ry Cooder para o filme The End of Violence, de Wim Wenders (1997), e do álbum Phenology, do grupo de hip-hop The Roots.
Finalmente se aposentou em 2024, fazendo seu último show no festival de jazz de Detroit.
Consegui assistir James Blood Ulmer apenas uma vez. Foi em agosto de 2028 no festival Sesc Jazz (antes chamado de Jazz Na Fábrica). 
James "Blood” Ulmer e Memphis Blood Blues Band convidaram o ET Vernon Reid para apresentar um show de blues visceral e elétrico, misturando composições autorais com releituras clássicas de lendas do gênero, como Willie Dixon e Muddy Waters. Por sorte, o show foi gravado e está disponível no ambiente do Selo Sesc no Spotify.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Morre Sonny Rollins, o colosso do saxofone, aos 95 anos

 

Sonny Rollins em Viena/2006 - Foto: Jeff Pachoud/AFP via Getty Images

Morreu no dia 25 de maio, véspera de aniversário dos 100 anos de Miles Davis, Sonny Rollins, aos 95.
Nascido em Nova York, Rollins cruzou caminhos com Miles ainda jovem, quando o trompetista de St. Louis já atuava como um arregimentador de prodígios. 
Juntos, compartilharam inúmeras gigs, gravações históricas e a rotina da patota da heroína no Harlem dos anos 1950, um círculo que incluía Dexter Gordon, Tadd Dameron, Art Blakey, JJ Johnson e Jackie McLean. 
Na chamada época de ouro do jazz improvisado e cabeçudo, Sonny Rollins integrou o lendário conjunto de Miles ao lado de McLean, Cannonball Adderley e John Coltrane, fechando o círculo dos derradeiros representantes do jazz pós II Guerra Mundial.
Com Coltrane, manteve uma relação afetuosa, definindo os rumos do instrumento. Lembrando dele, décadas mais tarde, Sonny declarou: "Um ser humano belo, belo".
Rollins ganhou a alcunha de colosso graças ao seu influente álbum Saxophone Colossus, com o qual rompeu as limitações estruturais do jazz, consolidando o hard bop. 
Lançado no concorrido ano de 1956, Saxophone Colossus concorreu com gravações lendárias: Ella and Louis, com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong; Ellington at Newport, de Duke Ellington;  Pithecanthropus Erectus de Charles Mingus; Fontessa do Modern Jazz Quartet e a série Cookin', Relaxin', Workin' e Steamin, do  Miles Davis Quintet, que incluía John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones. 
Ao contrário de muitos de seus contemporâneos que morreram cedo, Sonny alcançou a longevidade, aperfeiçoando sua obra após completar 80 anos. Superou problemas respiratórios com o auxílio da ioga, que o ajudou a manter-se longe dos excessos. Nos últimos anos exibia a modéstia dos sábios: “Continuo vivo porque continuo aprendendo”, confessou em 2016.
Para além da música, Rollins utilizou o saxofone como ferramenta de forte comentário social, político e espiritual. 
Em 1958, lançou a emblemática Freedom Suite, peça instrumental de 20 minutos que ecoava abertamente as dores e as esperanças dos afro-americanos na luta pelos direitos civis. 
Na contracapa do disco, registrou um manifesto sobre a ironia de a cultura negra representar o soft power norte-americano, enquanto seu povo era recompensado com a perseguição e a desumanidade.
Seu sopro também se conectou com o misticismo que descobriu em longos retiros na Índia e no Japão. Quatro dias após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, Rollins também subiu ao palco em Boston para um show gravado ao vivo em homenagem às vítimas. 
Com sua morte, silencia-se o sopro que desenhou a liberdade no século XX, deixando um legado indestrutível na história da música.
Sonny Rollins morreu na segunda-feira, 25 de maio, em sua residência em Woodstock, New York. 

segunda-feira, 2 de março de 2026

John Paul Hammond, um dos grandes músicos brancos de blues, remanescente dos anos 60, morreu no último dia de fevereiro de 2026

 

Foto: Cezar Fernandes - Rio das Ostras 2009

Hammond sempre estará entre os nomes mais importantes da cena de jovens músicos brancos fãs de blues que apareceram nos anos 60.
O impressionante revival que trouxe à tona nomes como Mississippi John Hurt, Skip James, Son House, Rev. Gary Davis e outros, teve em Hammond uma de suas principais vozes. Ele interpretou temas dos anos 30, 40 e 50 como poucos. Tocava guitarra (acústica e elétrica) e gaita presa no pescoço e cantava como um verdadeiro bluesman.
Já nos anos 60 gravou seus principais discos: Big City Blues(1964), é considerado um dos primeiros discos de blues/rock; Country Blues (1964), que traz temas de seus ídolos, Robert Johnson, Blind Willie McTell, Sleepy John Estes, John Lee Hooker,  Willie Dixon e Jimmy Reed, um de suas maiores influências, que Hammond teve a sorte de ver o show no Apollo Theatre, em New York, sua cidade natal; So Many Roads (1965), um marco registrado pelo selo especializado Vanguard, que contou com as presenças de Robbie Robertson, Garth Hudson e Levon Helm, que mais tarde formariam The Band. Também participam Charlie Musselwhite e Paul Butterfield. E ainda I Can Tell (1967), pela Atlantic. Ao longo de sua carreira gravou mais de 20 discos importantes em qualquer discografia.
Filho de John Hammond Sr, um dos produtores mais importantes para o blues e jazz dos Estados Unidos, com seu nome ligado a Billie Holiday, Bob Dylan, Stevie Ray Vaughn, Hammond Jr não ligava para a fama. Fez sua trajetória longe da influência do pai. 
Em 1966, após sair da faculdade e voltar para a sua cidade, já estabelecido no Village, Hammond conheceu um jovem que procurava emprego como guitarrista e colocou-o na sua banda. Esse jovem era Jimi Hendrix. Eles se apresentavam no Cafe Au Go Go, quando Chas Chandler - baixista da banda The Animals – viu Hendrix pela primeira vez e o levou para a Inglaterra. O resto é história.
Nas redes sociais a comoção foi grande. Charlie Musselwhite, Shemekia Copeland, Duke Robillard, Bob Corritone, Bruce Katz (seu tecladista), Kim Wilson, Ronnie, além de muitos perfis dedicados ao blues lamentaram a passagem de John Paul Hammond.   
Até o momento a família se limitou a informar a morte de Hammond, mas não o que a causou. 
Tive a oportunidade de assistir a três shows desse grande artista. O primeiro em 1991, no Sesc Santos, e os outros dois no Rio das Ostras Jazz e Blues Festival, onde pude conversar com o cara. E entrevista está nesse blog.
Também foi em Rio das Ostras, no hotel onde ficávamos hospedados, antes da entrevista, registrei o encontro de Hammond com o Jefferson Gonçalves e o Kleber Dias após o café da manhã. Jefferson mostrou as gaitas com sua assinatura e o Klebão os instrumentos que fabrica. Lembro que tiraram o som de How Long ali, à queima roupa. 

Segue a entrevista:   
https://mannishblog.blogspot.com/2009/09/john-blues-explosion-hammond.html

Foto: Dayse Marchiori

Foto: Eugênio Martins Jr

Foto: Eugênio Martins Jr

Foto: Eugênio Martins Jr

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Ainda por complicações causadas pela Covid 19, morreu Dave Riley, cantor e guitarrista de de blues

 


Parceria certeira: Dave Riley e Bob Corritone

Recebi ontem um e-mail do amigo Bob Corritone, gaitista de Chicago, sobre a morte de seu grande parceiro, o guitarrista e cantor Dave Riley.
O som de Riley remete às mais profundas raízes do blues de seu estado, o Mississippi.  
Bob ressalta isso em sua mensagem e lembra a parceria prolífica que rendeu muitas gravações em inúmeros discos. 
Dave Riley nasceu em 19 de março de 1949 e morreu em 04 de janeiro de 2026 por complicações causadas pela Covid 19. Segue a mensagem:

“É com tristeza que informo o falecimento do meu amigo e parceiro de longa data no blues, Dave Riley. Nascido e criado em Hattiesburg, Mississippi.
O blues autêntico de Dave Riley refletia suas raízes nos bares de blues do Delta. Ele ficou conhecido no mundo do blues por seu trabalho com Frank Frost, Sam Carr, John Weston e Fred James. 
Dave tinha uma personalidade marcante e sempre incentivava seu público a se divertir muito. Nos conhecemos no King Biscuit Blues Festival de 2004, por intermédio de Tom Coulson. 
Dave morava na região de Chicago e tinha família em Phoenix, que visitava com frequência. Começamos a trabalhar juntos em 2005 e imediatamente percebemos a grande afinidade estilística entre nós. Isso nos levou a gravar o primeiro de nossos três álbuns, o que nos rendeu shows, apresentações em festivais e turnês internacionais. Tantos shows incríveis e aventuras fantásticas!
Mas quando a pandemia chegou, em 2020, Dave contraiu Covid e sofreu um AVC grave que o deixou impossibilitado de tocar ou cantar. A saúde dele foi se deteriorando gradualmente e, nos últimos meses, Dave estava entrando e saindo do hospital. Recebi a notícia do falecimento de Dave por meio de seu filho, Yahni, ontem à tarde. Dave fará muita falta. Tantas lembranças lindas. Tantas apresentações incríveis de blues. Descanse em paz, querido Dave”.

sábado, 3 de maio de 2025

Acompanhado pela família, morre aos 75 Joe Louis Walker, um dos grandes da guitarra

 

Joe Louis Walker (Foto: perfil do artista no Instagram)

“Devido a circunstâncias imprevistas, o show de Joe Louis Walker no sábado, 26 de abril, no The Bayou, foi cancelado. Estamos trabalhando para remarcar o show em breve. Fiquem ligados para atualizações.”
Esse aviso foi postado no dia 25 de abril de 2025 no perfil oficial de Joe Louis Walker no Instagram sem muitas explicações. 
Mas na noite de 30 de abril a comunidade do blues foi sacudida com a notícia da morte de um dos grandes, e ainda remanescentes da guitarra moderna no blues.
A repercussão nas redes sociais foi enorme. Nomes como Debbie Davies, Bob Corritone, Rick Estrin, D.K. Harrell, Sewyn Birchwood, Shemekia Copeland, entre tantos artistas do blues postaram fotos com Walker lamentando a sua passagem. 
Com uma carreira de mais de seis décadas, Walker deixou uma marca indelével na cultura de seu país. Seu trabalho não se limitava só ao blues, compositor e guitarrista de mão cheia, transitou pelo, soul, funk, rock, jazz chegando até a gravar alguns discos com música gospel.   Além de guitarrista brilhante, seu estilo de cantar foi outra marca registrada, o que o levou a se apresentar nos quatro cantos do mundo. 
Também ao longo de sua longa e prolífica carreira musical, imprimiu parcerias que nomes importantes do blues, entre eles, Ike Turner, Bonnie Raitt, Taj Mahal, Steve Cropper e B.B. King. Abriu shows para Muddy Waters e Thelonious Monk e foi amigo de Jimi Hendrix, Freddie King, Mississippi Fred McDowell e Mike Bloomfield.
Gravou discos épicos, Cold is The Night, Hellfire, Great Guitars, Silvertone Blues e o mais recente Weight of the World (2023), entre tantos outros.  

Em 2017 estive com o homem no Bourbon Street, em São Paulo, onde pude vê-lo e ouvi-lo ao vivo e realizar uma entrevista com esse que é um dos meus ídolos do blues: https://mannishblog.blogspot.com/2017/09/o-blues-contemporaneo-de-joe-louis.html

E no Mannish Blog uma resenha exclusiva sobre Great Guitars: https://mannishblog.blogspot.com/2020/09/great-guitars-1997-joe-louis-walker.html

Aos 75 anos de idade, Joe Louis Walker faleceu pacificamente ao seu lado de sua esposa Robin e suas duas filhas, Leena e Bernice. A causa foi uma doença cardíaca.

No camarim do Bourbon Street Music Club com Joe Louis Walker

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Morreu o Sam, da dupla Sam e Dave

 

Foto: Adam Bettcher/Getty Images

Sempre fui um cara cheio de teorias. Uma delas é a de que o blues criou a soul music, como fez com muitas outras vertentes da música norte-americana, para a soul music influenciar o blues. 
Explico. O blues é a matriz de todos os afroritmos, sejam eles religiosos, festeiros, sensuais ou contestadores. Nesse último caso, a soul music. Outro dia estava conversando sobre isso com o Igor Prado, guitarrista aqui do brasa que manja do assunto.
Os anos 60 foram o máximo para contracultura e para a construção das encruzilhadas musicais. E da consolidação de gravadoras pretas importantes como Motown, Stax, Atlantic Records. 
Os casts desses empreendimentos continham tudo o que nós amávamos. E ainda amamos. Se liga só: 
Motown: Marvin Gaye, Jackson 5, Stevie Wonder, Diana Ross, The Supremes, Lionel Richie, The Temptations, Martha and the Vandellas. 
Stax: Staple Singers, The Bar Keys, Booker T. & the MG’s, Lou Marini, Donald Duck Dunn, Stevie Crooper e todos aqueles feras de estúdio.
E a Atlantic Records, comprada pela Warner e, cujo catálogo possuía Ray Charles, La Vern Baker, Ben E. King, Solomon Burke, Otis Reding, Doris Troy, Rufus Thomas, Don Covay, Esther Philips, Wilson Pickett, Percy Sledge, Sam Cooke e... Sam e Dave.

Sam & Dave


A dupla lendária ecoa até hoje como as vozes mais importantes e emblemáticas da soul music. Sam & Dave está para a cultura estadunidense como Tonico e Tinoco está para a cultura brasileira. 
Em 1968, após o assassinato do reverendo Martins Luther King foram os artistas convidados a se apresentar em seu memorial devido à importância das suas presenças.
São os artistas que todos se inspiraram. De Os Irmãos Cara de Pau a The Commitments, que nós brancos passamos a conhecer por aqui, Sam Moore e Dave Prater (que morreu em 1988) são os caras que nos deram Soul Man, Hold On, I’m Comin’, Soothe Me, Come On, Come Over e a maravilhosa versão de We Can Work It Out e muitos mais hits. 
Tudo isso pra dizer que morreu a lenda Sam Moore na última sexta-feira, dia 10 de janeiro, aos 89 anos em Coral Gables, na Florida. 
Se hoje você ouve Bruce Springsteen, Michael Jackson e Al Green, e acha que eles são gênios, e são mesmo, é graças ao velho e grande Sam. Não aquele que costumam chamar de Tio. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Mundo do jazz perde dois be bopers da pesada, Lou Donaldson aos 98, e Roy Haynes, aos 99

 

Lou Donaldson (Foto: Getty Images)

Em um intervalo de três dias o mundo do jazz perdeu dois grandes jazzistas da geração dos grandes be bopers.
O saxofonista Lou Donaldson morreu em 09 de novembro aos 98 anos e o baterista Roy Haynes em 12 de novembro aos 99 anos, apenas quatro meses de completar 100 anos.
Ambos estavam em New York quando a turma de Dizzie Gilespie e Charlie Parker fundou o be bop, elevando o jazz à grande arte. 
Lou Donaldson liderou grupos com os remanescentes do bebop, entre eles, Horace Silver, Art Taylor, Art Blakey, Percy Heath, Kenny Dorham, Clifford Brow e Philly Joe Jones.
Lutou na II Guerra Mundial e também nas fileiras do The Jazz Messengers, prolífico e lendário grupo liderado pelo baterista Art Blakey, participando de um dos primeiros discos do gênero hard bop, A Night at Birdland.
Nos anos 60 deu um gás na carreira gravando bons discos no selo Blues Note. O público fora do jazz percebeu seu nome em 1967, quando gravou Ode To Billy Joe, de Bobbie Gentry, um dos maiores sucessos da época, com o jovem George Benson na guitarra.  Recomendo os álbuns Alligator Bogaloo, "Lou Donaldson at His Best e Wailing With Lou.

Roy Haynes (Foto: Jonathan Chimene)

Roy Haynes nadava com os tubarões da mítica 52 Street: Dizzie, Charlie (Bird) Parker, Miles Davis, Thelonious Monk, Sonny Rollins, Percy Health, Freddie Webster, Roy Eldridge, Max Roach, JJ Johnson e tantos outros caras importantes da época.
Enturmado, era convidado para as sessões dos caras. Participou da primeira sessão de Miles para Prestige, com Sonny Rollins no sax, Bennie Green (trombone), John Lewis (piano) e Percy Heath (baixo acústico) . Época que Miles era viciado em heroína. 
Não parou no tempo e sua versatilidade o conectou aos caras do fusion nos 70 e 80, com Chick Corea e Miroslav Vitous formou o Trio Music que gravou pela ECM alguns álbuns.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Morre o prolífico Quincy Jones

 

Uma história que continha todos os elementos para ter acabado mal. A avó havia sido escravizada. A mãe internada em uma instituição para lunáticos quando ele tinha apenas sete anos. Seu pai trabalhava para os gangsteres da favela mais barra pesada de Chicago, o south side
O mesmo bairro onde milhares de homens, mulheres e crianças chegavam para ficar, fugindo da violência praticada contra eles no sul dos Estados Unidos. Também um lugar onde muito blueseiros chegados do Mississippi e da Louisiana acabaram fazendo história, após dois grandes êxodos.   
Portanto, restava ao jovem pobre e ao seu irmão uma vida no crime que, por sinal, já estava encaminhada. Mas uma mudança de cidade e o esbarrão em um velho piano mudaram o curso da história.
A vida nunca foi fácil para o músico, compositor, arranjador, produtor e regente, Quincy Jones. 
Sim, ele mesmo, amigo de Ray Charles, Frank Sinatra e Count Basie. Produtor dos melhores discos de Michael Jackson, Of The Wall e Thriller Jackson. Compositor de trilhas sonoras de dezenas de filmes para Hollywood. Responsável pela gravação de um dos maiores hits da era fonográfica, We Are The World, do projeto USA For Africa, que reuniu a nata da música pop da época: Ray Charles, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Dionne Warwick, Diana Ross, Cindy Lauper, Kim Carnes, Daryl Hall e John Oates, Huey Lewis, Henry Belafonte, Stevie Wonder, Lionel Richie, Paul Simon, Al Jarreau, Kenny Loggins, Steve Perry, Kenny Rogers, Tina Turner, Billy Joel, Willie Nelson e o próprio Michael Jackson. Fiz questão de citar todos esses nomes porque só um cara com a moral do Quincy Jones poderia reunir todos com apenas um telefonema. 
Apesar de ter vivido a era de ouro do jazz e tocado com os gênios do estilo, Quincy não queria ser visto “só” como um nome do jazz. Nesse sentido seu temperamento era igual ao seu amigo Miles Davis – aquele outro que mudou os rumos da música mundial umas cinco vezes.
Nadou de braçada no funk nos anos 70 e alguns anos após a consagração em USA For Africa, nos 80, se associou aos rappers do momento para gravar o moderno Back on The Block, com Ice T, Kool Moe Dee, Big Daddy Kane, Siedan Garret, Chaka Khan e seu velho parca, Ray Charles. 
Quincy Jones teve uma vida prolífica, mas doente. Sofreu com vários aneurismas ao longo da vida, o que o obrigou a fazer algumas operações no cérebro, duas delas em apenas dois meses.  
Teve sete filhos de vários casamentos desfeitos, pois era um workaholic, e ainda seis netos e um bisneto.
Teve mais de 2900 músicas gravadas; mais de 300 álbuns gravados; 51 trilhas de filmes e programas de TV; mais de 1000 composições originais; 79 indicações ao Grammy, sendo 27 premiações; é um dos 18 ganhadores do E.G.O.T. (Emmy, Grammy, Oscar e Tony). Thriller foi o álbum mais vendido de todos os tempos, We are the World foi o single mais vendido de todos os tempos. 
Há alguns anos sua saúde vinha dando sinais de enfraquecimento até que aos 91 anos, no domingo, dia 03 de novembro de 2024, faleceu Quincy, em sua casa em Los Angeles.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Com apenas 58 anos, morre em Bamako, no Mali, Toumani Diabaté

 

Toumani Diabaté (Foto: Richard Saker/The Observer)

“Eles podem seqüestrar as pessoas, podem tirar suas roupas, podem tirar seus sapatos, podem tirar seus nomes e dar outro nome, mas a única coisa que eles não podem tirar é sua cultura”. Essas são palavras de Toumani Diabaté sobre o sequestro de seu povo pelos europeus com fins escravagistas.  
Diabaté, músico e representante da tradição dos contadores de história de seu país, morreu com apenas 58 anos, em 19 de julho em Bamako, capital do Mali. Dizem que quando um jali morre toda uma biblioteca é queimada. 
Na África, jali é o guardião da história oral transmitida de geração em geração. Diabaté vem de uma tradição de 71 gerações de griots e tocadores do corá, um instrumento de cordas semelhante à harpa.
Com Salif Keita e Ali Farka Toure, Diabaté era considerado um dos principais guardiões da cultura milenar transmitida de pai para filho na África Ocidental.
Desde os anos 80 Diabaté vem gravando e difundindo suas histórias em discos na África e Europa. Ouça os álbuns Songhai vol. 1 e 2. 
Nos Estados Unidos gravou com o cantor, compositor e muilti-instrumentista Taj Mahal, fazendo a ponte cultural entre a tradição dos jalis com os history tellers do blues no álbum Kulanjan (1999). 
Na série Blues, produzida por Martin Scorsese, Diabanté aparece no episódio Feel Like Going Home – que também tem Taj Mahal - sendo entrevistado por Corey Harris, outro bluesman e pesquisador de ritmos. 
Com seu conterrâneo, Ali Farka Touré, gravou o maravilhoso In The Heart of the Moon (2005). Há ainda espaço para uma recomendação, mais um disco que faz a ponte entre África e América e que vale a pena ser ouvido, Talking Timbuktu, parceria entre Touré e Ry Cooder.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Em uma semana o mundo da música sofre três grandes perdas: Happy Traum (17/07/24), Jerry Miller (20/07/24) e John Mayall (22/07/24).

 

John Mayall (Foto: André Velozo)

Happy Traum atuou na ascensão do folk nos anos 60, sendo contemporâneo de Bob Dylan no Café Wha?, onde sua banda, a New World Singers, muitas vezes cedeu espaço para o jovem Dylan. Inclusive a primeira versão de Blowin’ in the Wind foi gravada pelo grupo.
Traum também chegou a gravar com Dylan duas faixas que entraram no álbum duplo Bob Dylan’s Greatest Hits Vol. II (1971), o disco mais vendido do bardo do Village. São I Shall Be Released e You Ain’t Goin’ Nowhere, nas quais Traum encara o contrabaixo pela primeira vez em sua vida. 
Com seu irmão Artie formou uma dupla que gravou alguns discos antes de cair na carreira solo. Foi estudioso do blues, cuja maior influência veio de Brownie McGhee. Gravou bons discos, o bem puxado para o blues, Relax Your Mind (1975), (American Stranger (1977), entre outros.
O compositor, cantor e guitarrista Jerry Miller ficou conhecido por ser um dos membros fundadores da banda Moby Grape, banda fundada na efervescência de São Francisco nos anos 60. E, claro, influenciada pelo blues e pelo psicodelismo da época. Ladeado por outros dois guitarristas, Peter Lewis (ex. Peter and the Wolfes) e Alexander “Skip” Spence, Miller foi o responsável pelos grandes arranjos apresentados pela Moby Grape. Fundou ainda o The Rhythm Dukes, participando de festivais e sendo aclamado como um dos grandes guitarristas da cena, não só por publicações como a Rolling Stone, mas também pelos seus pares, inclusive Eric Clapton, que o chamava de melhor guitarrista do mundo. Chegou a dividir palco com Jimi Hendrix.       
A outra enorme perda foi a do multi-instrumentista, cantor e compositor britânico, John Mayall, morto aos 90 anos.
Fundador dos Bluesbreakers, Mayall abriu as portas para inúmeros artistas importantes para o blues e blues rock britânicos, entre eles, Eric Clapton, Peter Green e Mick Taylor. 
Clapton se tornou um dos grandes nomes da guitarra de todos os tempos; Peter Green participou do Fleetwood Mac até lançar-se em uma carreira solo errática por uso e abuso de drogas, para depois constituir o Splinter Group; e Mick Taylor, nada menos do que o jovem que provocou ciúmes em Keith Richards, quando este sentiu que  seu reinado nas seis cordas nos Rolling Stones estava ameaçado com a chegada do garoto. Mick Taylor injetou uma boa dose de blues aos álbuns dos Stones da época. É só conferir Sticky Fingers (1971) e o grandioso Exile on Main Street (1972), que você vai entender o que estou falando. Mas essas são outras histórias.
Mayall tinha a capacidade de aglutinar grandes artistas engajados em sua causa: fazer música inspirada na tradição do blues. Tanto que em todos os seus discos lemos e ouvimos muitos temas reverenciando bluesmen tradicionais. 
Certa vez, conversando com Nuno Mindelis eu chamei Mayall de bluesman e o Nuno logo me corrigiu: “Eu não considero o John Mayall um bluesman. O considero mais um bluesófilo”. Ok Nuno. O fato que ao longo de seis décadas o “bluesófilo” John Mayall andou por aí tocando em festivais pelo mundo, juntando Walter Trout, Coco Montoya, Buddy Whittington, Joe Yuele, Tom Canning, Hank Van Sickle, nos modernos Bluesbreakers e gravando com Buddy Guy, Mavis Staples, Otis Spann, Champion Jack Dupree, Curtis Jones e espalhando simpatia por onde passava. 
Inclusive Aqui no Brasil, onde sua última aparição foi no Rio das Ostras Jazz e Blues Festival, em 2010. Após o show John foi para a barraquinha de CDs e ele próprio vendeu seus discos e autografou para o público.
São tantos discos bons gravados por John Mayall que fica difícil indicar algum. Portanto, parto para o gosto pessoal: Bluesbreakers with Eric Clapton (1966), esse álbum entra em todas as listas dos melhores do blues; o ao vivo The Turning Point (1969), no qual Mayall mostra toda a sua habilidade como gaitista; Wake Up Call (1993), com duas parcerias matadoras, Buddy Guy em I Could Cry e Mavis Staples na faixa título e marcando sua entrada na Silvertone e o lançamento de grandes discos; Blues for the Lost Days (1997), com várias homenagens conforme já dito; e Stories (2002), cuja resenha encontra-se nesse blog: (https://mannishblog.blogspot.com/search/label/Meus%20Discos).

Leia também a entrevista exclusiva com Coco Montoya: (https://mannishblog.blogspot.com/2009/09/por-duas-vezes-coco-montoya-estava-na.html)

Ontem a sua página no Facebook continha a seguinte mensagem: “É com pesar que recebemos a notícia de que John Mayall faleceu pacificamente em sua casa na Califórnia ontem, 22 de julho de 2024, cercado por uma família amorosa. Os problemas de saúde que forçaram John a encerrar sua épica carreira em turnês finalmente levaram à paz para um dos maiores guerreiros da estrada do mundo. John Mayall nos deu noventa anos de esforços incansáveis para educar, inspirar e entreter.
Em uma entrevista de 2014 ao The Guardian, John refletiu: “[blues] é sobre – e sempre foi sobre – aquela honestidade crua com a qual [expressa] nossas experiências de vida, algo que tudo se junta nesta música, nas palavras também. Algo que está conectado a nós, comum às nossas experiências.” Essa honestidade, conexão, comunidade e forma de tocar crua dele continuarão a afetar a música e a cultura que vivenciamos hoje e nas gerações vindouras.
Nomeado OBE (Oficial do Império Britânico), artista duas vezes indicado ao Grammy e recentemente nomeado para o Hall da Fama do Rock & Roll, John deixa seus 6 filhos, Gaz, Jason, Red, Ben, Zak e Samson, 7 netos e 4 bisnetos. Ele também está cercado de amor por suas esposas anteriores, Pamela e Maggie, por sua dedicada secretária, Jane, e por seus amigos íntimos. Nós, a família Mayall, não podemos agradecer o suficiente a seus fãs e à longa lista de membros da banda pelo apoio e amor que fomos abençoados por experimentar de segunda mão nas últimas seis décadas.
John encerrou a mesma entrevista do Guardian refletindo mais sobre o blues: “Para ser honesto, não acho que alguém saiba exatamente o que é. Eu simplesmente não consigo parar de tocar.” Continue tocando blues em algum lugar, John. Nós te amamos.

Leia o que amigos e admiradores escreveram sobre John Mayall nas redes sociais: 
  
“É muito triste saber do falecimento de John Mayall. Ele foi um grande pioneiro do blues britânico e tinha um olhar maravilhoso para jovens músicos talentosos, incluindo Mick Taylor – que ele me recomendou depois da morte de Brian Jones – inaugurando uma nova era para os Stones”. Mick Jagger

Muito triste ouvir a notícia hoje sobre o falecimento de John Mayall. Sua música, suas bandas, seus guitarristas e seu legado foram extremamente influentes no mundo do blues. Ele inspirou inúmeros jovens músicos, incluindo um certo guitarrista adolescente de Chicago que ouvia seus primeiros álbuns por horas intermináveis. Vi John pela primeira vez durante uma turnê de reencontro do Bluesbreakers com Mick Taylor e John McVie no início dos anos 80 no Park West Chicago. Toquei em um projeto conjunto com ele no The Channel em Boston no final dos anos 80 (como membro da banda de Son Seals) e o vi pela última vez no Evanston SPACE há apenas alguns anos, onde ele gentilmente concordou em ser entrevistado no meu podcast. Obrigado John e que o Padrinho do Blues Britânico fique tranquilo. Dave Specter

Lembrando John Mayall. Fizemos turnês juntos muitas vezes e por mais que ele fosse um músico lendário, ele também era um homem gentil e gracioso e sua falta será sentida. Shemekia Copeland

Cara, acabei de descobrir que meu amigo e mentor John Mayall faleceu... o fim de uma era. Todo o cenário do rock and roll e da música hoje seria completamente diferente sem John. Obrigado John por tudo que você nos deu! Grande amor e boa viagem! Debbie Davis

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Faltando um dia para completar 70 anos, morre em 08 de maio o gaitista Phil Wiggins

 

Phil Wiggins (Foto: NEA National Heritage Fellowship artist)

Quem deu a notícia em uma rede social foi a sua filha Martha. Segundo ela, Wiggins estava em casa rodeado pela família após ter passado uma temporada no hospital. 
O nome de Phil Wiggins é muito ligado à tradição do blues acústico, mas não aquele feito no Mississippi, até porque havia nascido e crescido em outra região do país, Washington DC.
Sua história também é ligada ao guitarrista John Cephas, com quem tocou e gravou regularmente por trinta anos. Cephas era 25 anos mais velho que Wiggins e morreu em 2009. Seu parceiro mais recorrente tornou-se então o pesquisador de ritmos e ativista Corey Harris.  
Wiggins era adepto do que eles chamam por lá de piedmont style, desenvolvido paralelamente ao blues do Mississippi, a forma de música acústica norte-americana mais conhecida até hoje.
O estilo possuía adeptos de peso como Blind Blake, Brownie McGhee, Blind Boy Fuller, Barbecue Bob, Blind Willie McTell e Reverend Gary Davis. Cephas e Wiggins vieram para seguir os passos dessa turma e por sua vez se tornaram grandes.
Estrearam em disco em 1984, com Sweet Bitter Blues. Gravaram excelentes álbuns: Shoulder To Shoulder, Somebody Told Me Truth, Homemade, Cool Down. Todos lançados pela Alligator Records.
Em 1986 ganharam o prêmio mais importante do blues, o WC Handy Award, com Dog Days of August. Vieram outros ao vivo que captam energia e atmosfera do som da dupla, entre eles, Walkin' Blues e Flip, Flop & Fly.
Sim, o blues vem se renovando como novos artistas e estilos dentro dele, mas a lacuna deixada pela morte de John Cephas e agora Phil Wiggins será sentida na música. O blues acústico que representa a tradição de uma forma secular de expressão.

Ele feliz. E eu mais ainda. Com Phil Wiggins em em São Paulo, 17 de outubro de 2017

Motocicleta e blues - Era uma noite com chuva e frio. A idéia de enfrentar a subida da Rodovia Imigrantes, cheia de curvas e caminhões,a noite, coisa que já fiz tantas vezes e conheço cada palmo e risco dessa ação, era uma idéia que me incomodava. Já perdi muitos shows por causa disso. Mas o fato de perder o show do Phil Wiggins me incomodava mais. 
Então, vestido com minha armadura anti-tempestade, e anti-ralo, fui ao seu encontro no Hotel Transamérica, em São Paulo, no dia 17 de outubro de 2019. 
Pode parecer estranho uma apresentação dessas no lobby de um hotel. E é mesmo. Mas foi onde os irmãos Simi conseguiram colocar o show. E ali naquele lugar, poucos estavam ligando para aquele coroa tocando gaita num espaço reservado para pequenas apresentações. Os caras bebendo e falando alto, uma festa de aniversário com direito ao famigerado “parabéns pra você”, uma barulhenta convenção de firma. Uma desgraça. Uma falta de respeito. A abertura foi gaitista paulistano Sérgio Duarte.
Mas o tempo que passei ali “na cara do gol” , numa poltrona até que confortável, ouvindo o som tirado daquela gaita pura, por um verdadeiro mestre, valeu cada palmo da Imigrantes, cada palmo da marginal Pinheiros molhada, na ida e volta. 
Passar momentos com os caras da tradição do blues aqui no Brasil vale muito. Consegui entrevistá-lo e depois tive a honra de presenteá-lo pessoalmente com meu segundo livro. Ele ficou felizão, como dá para ver na foto. E eu, mais ainda. Estar lá valeu todo o esforço. Porque aos poucos a tradição vira história e cabe a nós esse registro.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Morre o slider Dickey Betts aos 80

Dickey Betts (Fonte: NBC News/ Foto: Fryderyk Gabowicz)

“It is with profound sadness and heavy hearts that the Betts family announce the peaceful passing of Forrest Richard 'Dickey' Betts (December 12, 1943 - April 18, 2024) at the age of 80 years old. 
The legendary performer, songwriter, bandleader and family patriarch passed away earlier today at his home in Osprey, FL., surrounded by his family. Dickey was larger than life, and his loss will be felt world-wide. At this difficult time, the family asks for prayers and respect for their privacy in the coming days. More information will be forthcoming at the appropriate time”.

Foi com essa mensagem divulgada no seu perfil no Instagram que o mundo ficou sabendo da morte do guitarrista Dickey Betts, um dos maiores sliders do planeta, grande compositor e fundador da banda que fundiu o blues com o rock como nenhuma outra, The Allman Brothers Band. 
Allman Brothers foi definitiva em influência para dezenas de outros grupos musicais ao redor do mundo e inovadora em muitos aspectos.  
Simplesmente uma cozinha cheia de suingue com Barry Oakley (baixo), Butch Trucks (bateria) e Jai Johanny Johanson (bateria e percussão). Um tecladista cantor com uma voz de maravilhosa e compositor de mão cheia, Gregg Allman, e uma linha de frente com dois guitarristas duelando até a morte: o não menos cultuado Duane Allman e Dickey Betts. 
Todos na banda compunham e Betts foi responsável por inúmeras canções cujos riffs nos pegamos, do nada, assobiando até hoje, quando andamos pela rua de noite... geralmente bêbados: Revival, In Memory of Elizabeth Reed, Southbond, Jessica, Crazy Love, Les Brers In A Minor e ainda as clássicas Blues Sky e Ramblin’ Man – essa última, um hino à vagabundagem e uma linda homenagem a todos nós que vivemos na estrada.  
Ao mesmo tempo em que mudava a história da música, a própria história da Allman Brothers Band foi acumulando tragédias: Duane Allman morreu em um acidente de motocicleta quando a banda estava no auge, em 1971 na Georgia. Em novembro de 1972 foi a vez de Berry Oakley morrer em um acidente de moto a apenas três quadras onde havia sido a colisão de Duane. Em janeiro de 2017 foi a vez de Butch Trucks tirar a sua própria vida com um tiro de espingarda na cabeça. Ele tinha 69 anos. Após toda uma vida com envolvimento com drogas e álcool Gregg Allman também morreu em 1917 aos 69 anos. 
Com a morte de Betts aos 80 anos, Jay Johhany Johanson é o único remanescente da formação original da mítica The Allman Brothers Band.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Morre Greg Wilson, um dos fundadores do blues no Brasil. Mas seu legado musical viverá para sempre

 

Greg Wilson

Levei um pouco mais de uma semana para escrever esse obituário sobre o Greg Wilson, o guitarrista cantor e compositor responsável por muitas músicas importantes no repertório da Blues Etílicos, maior banda de blues do Brasil.
O principal motivo foi como a notícia da morte de Greg me bateu no sábado, dia 20 de janeiro. Sabia que ele não andava bem de saúde, mas não que sua doença estava em estágio tão avançado. Foi realmente um choque.
O segundo motivo era porque queria ler como a imprensa nacional iria tratar o assunto. Sabendo que o blues não é uma música de apelo nacional, muito ao contrário, em alguns setores da cultura é visto com muito preconceito. 
Imaginei que em alguns veículos a morte de Greg não passaria de uma nota no pé de página. 
Por outro lado, cada vez mais, há o aparecimento de muitos artistas, bandas e festivais espalhados por todas as regiões do nosso país continental, o que me deu uma pontinha de esperança de seu nome seria um pouco reverenciado. 
Mas que nada. Afirmo com todas as palavras recheadas de indignação que, a frieza com que a morte de Greg foi tratada pelos meios de comunicação, não condiz com a grande contribuição desse artista para a música brasileira.
Quando fundaram a banda Blues Etílicos, no começo dos anos 80, Greg Wilson, Flávio Guimarães, Gil Eduardo, Otavio Rocha e Cláudio Bedran fundaram também o blues nacional como conhecemos hoje. 
Fizeram grandes parcerias com Paulo Moura, Noel Andrade, Ed Motta, Vasco Faé, Pedro Luiz (e a Parede), Fausto Fawcet, Bernardo Vilhena e tantos outros.

Blues Etílicos nos primórdios: Otavio Rocha, Gil Eduardo, Cláudio Bedran, Greg Wilson e Flávio Guimarães

Norte-americano por natureza, GReg Wilson veio ao mundo em Tupelo no Mississippi, terra de Elvis Presley, chegou ao Brasil trazido por seus pais, missionários da igreja batista e loucos por música e cuja função era pregar o evangelho a partir do Rio Grande do Sul e depois do Rio de Janeiro.
Estabelecido na cidade onde nasceu o samba moderno, Greg e todos os seus irmãos, também músicos, tiveram contato e se apaixonaram pela nossa música.
E foi nessa encruzilhada da vida musical de Greg que nasceu a Blues Etílicos, apesar de o embrião da banda já estar na ativa quando se deu o encontro entre o norte-americano e os meninos do Flamengo. Mas a Blues Etílicos só ganhou musculatura quando começou a lançar seus discos pela gravadora Eldorado, ainda nos anos 80. 
Misturando blues, rock, samba, música regional e muitos outros ritmos, fazendo versões para clássicos do gênero, cantando em inglês e português com fluência e grandes sacadas temáticas, Blues Etílicos arrombou a porta do rock nacional dos anos 80, fazendo um som que nunca tinha sido ouvido no Brasil. E nem me venham falar em Celso Blues Boy e muito menos Made In Brazil e Ave de Veludo.

Água Mineral, primeiro disco da banda pela Eldorado

A trama tecida por Greg e Otavio Rocha nas guitarras, lastreada pela famosa cozinha etílica e pelo maior gaitista de blues do país, Flávio Guimarães, nunca encontrou precedentes. A conjuração perfeita. 
Gravaram discos excelentes: Água Mineral (1989), San Ho Zay (1990), Blues Etílicos IV (1991), Salamandra (1994), Dente de Ouro (1996), Águas Barrentas (2001- Ao Vivo), Cor do Universo (2003 – com Vasco Faé), Viva Muddy Waters (2007), DVD Blues Etílicos Ao Vivo no Bolshoi Pub (2012), Puro Malte (2012), Blues Etílicos 30 Anos (2015), Noel Andrade e Blues Etílicos (2017), o EP 3000 (2019) e Blues Etílicos 35 Anos (2022). E Greg Wilson ainda gravou um álbum solo em 2012. 
A formação da banda variou um pouco nessas três décadas, com o baterista Gil Eduardo sendo substituído por Pedro Strasser, que por sua vez foi substituído por Beto Werther. E o baixista Cláudio Bedran foi substituído por Cezar Lago.
Minha história com a Blues Etílicos começou como fã, acompanhando a banda nos shows e festivais pelo país. Fiz amizade com os malandros e após um copo de birita aqui e ali, logo estaria produzindo uns shows, entrevistando-os para meus livros, até ser convidado para produzir a cerveja oficial da banda pela minha cervejaria, a CAIS. A Session IPA Blues Etílicos foi lançada em 2021 no Rio de Janeiro, com a presença do Flávio Guimarães. 
O nome Blues Etílicos não é por acaso. A banda carioca é culpada pelas músicas mais legais sobre o líquido dourado que tanto amamos, Puro Malte e Cerveja. Também sobre biritas em geral, 3º Whisky (Guto Goffi, Frejat e Cachimbo), O Sol Também Me Levanta, versão de Canceriano Sem Lar (Raul Seixas). E ainda sobre os personagens e situações urbanas, Na Pele, O Louco da Cidade, Beco Escuro e a lendária Dente de Ouro.  
Uma coisa é certa, e falo isso com muita mágoa e indignação, Greg Wilson adotou o Brasil como sua casa, adorava a cultura brasileira, principalmente a música, nos ensinou a tocar blues, e morreu aqui deixando um legado musical que, na minha opinião, não foi honrado pela mídia brasileira e nem pelos “entendidos”. 
Se depender dos fãs de blues brasileiros esse legado jamais será esquecido. 
Greg Wilson Morreu de câncer em 20 de janeiro de 2023, rodeado de amigos e família em sua Misty Mountain.

Dente de Ouro com o autografado do Greg

Greg Wilson no Festival de Búzios em 2007 (Foto: Cezar Fernandes) 

Tomando uma CAIS com Grreg Wilson, no camarim do Sesc Santos em 2019 

Com Otavio Rocha e Beto Werther

Com Cláudio Bedran e Canal 1

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

R.L. Boyce morre aos 68, mas o som do Mississippi ainda vive

R.L. Boyce

A cidade de Chicago hoje é conhecida como a Meca do blues nos Estados Unidos. A identificação com o som elétrico criado por Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Willie Dixon, Otis Rush, Magic Sam e tantos outros é muito forte nos corações e mentes dos fãs. E isso não vai mudar.
Mas o lugar onde esses malandros nasceram e forjaram sua música ainda existe. O Mississippi ainda está lá, tá ligado? 
Se Chicago é a terra onde o blues ficou popular, o estado do Mississippi é a terra onde o blues nasceu, cumpadi. 
Onde ainda se toca o blues cru, com instrumentos elétricos, sim com certeza. 
Mas com levadas hipnotizantes, versos tirados da vida, cantados e tocados por nomes desconhecidos, assim como as marcas de moonshine e o bourbon locais.
Onde ainda há James Super Chikan, Big A & AllStars e Cedric Burnside. 
Onde T Model Ford, R.L. Burnside (avô de Cedric) e recentemente R.L. Boyce viveram e morreram sem o reconhecimento devido.
Roberto Boyce tinha o estilo parecido com seu padrinho, Robert Lee Burnside. E assim como ele, gravou tarde e pouco. 
Começou na bateria nos anos 60 acompanhando Otha Turner, mas se encontrou na guitarra, vindo a gravar somente em 2013. 
Ain’t The Man’s Alright, seu álbum inaugural, conta com Cedric Burnside, Luther Dickinson e Calvin Jackson (também um Mississippiano).
Seu segundo álbum, Roll and Tumble, lançado em 2017, inclui a dupla de bateristas, pai e filho, Cedric Burnside e Calvin Jackson. O álbum foi produzido por Luther Dickinson do The Black Crowes e North Mississippi Allstars, e David Katznelson. Foi indicado ao Grammy 2018 na categoria Melhor Álbum de Blues Tradicional.
Boyce ainda lançou os explosivos Rattlesnake Boogie e Anin't Gonna Play Too Long, tudo pela Waxploitation, tudo em 2018.
R.L. Boyce morreu aos 68 anos, dizem, de câncer no pulmão após ums longa batalha.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

A autodidata Carla Bley morre aos 87

 

David Corjo/Redferns, via Getty Images

Carla Bley é protagonista de uma dessas histórias míticas no Jazz. Aprendeu os rudimentos do piano com seu pai na Califórnia mas logo foi para New York ganhar a vida. Lá seu autodidatismo foi turbinado pelas inúmeras sessões que assistiu num dos maiores templos do jazz, o Birdland, criado em homenagem a Charlie Parker. Enquanto vendia seus cigarros aos clientes, a garota Carla Bley sorvia o nectar sonoro ofertado por Basie, Miles e Coltrane.
Alguns poucos anos depois seria considerada uma das mais arrojadas musicistas de sua época, com mais de 60 álbuns gravados, tão distantes em forma e conteúdo.
Também prolífica foi sua parceria com o baixista Steve Swallow, aliás, foi ele que anunciou a morte de sua companheira por tumor cerebral no dia de ontem aos 87 anos.
Com Swallow gravou NightGlo, Go Together e Duets, o mais conhecido. 
Na gravadora ECM encontrou Charlie Haden, Don Cherry, Paul Motian e Michael Mantler (seu marido na época) e alguns mais para a gravação do emblemático The Ballad of the Fallen. Gravou, arranjou e compôs para Jack Bruce, Don Cherry, Linda Rondstadt e John McLaughlin. 
Também foi casada com o pianista canadense Paul Bley, o primeiro a encorajar Carla a compor.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Tail Dragger viveu e morreu como a letra de uma canção de blues

 

Tail Dragger e Bob Corritone , Poços de Caldas em 2013 (Foto: Eugênio Martins Jr)

“They don’ gave it away,” Tail Dragger said last week of what African-Americans have done with the Blues. “If it wasn’t for young White kids, blues would be dead. My entire band is White. I can’t find the young Black men who want to play blues. Eddie Taylor Jr. is the only Black guy I know who is still playing traditional blues. The young Black folks are ashamed of it. I wish more Black young people would think about what our forefathers created and not be ashamed of something that is a big part of Black culture.”

(trecho de reportagem do Chicago Defender)

E foi assim que James Yancy Jones, conhecido pelo nome artístico de Tail Dragger, causou um estardalhaço no mundo da música norte-americana.
Foi a primeira vez que um dos veteranos do blues declarou a um veículo de comunicação, no caso, o Chicago Defender, jornal da Meca do blues elétrico, que a tradição musical criada pelos afro-americanos no começo do século passado estava ficando na mão dos jovens brancos. 
Realmente, trata-se de um fenomeno mundial que pode ser visto aqui no Brasil onde há uma avalanche de blueseiros branquelos fazendo música. E, se a cane ainda não está totalmente tomada, Tail Dragger colocou o dedo na ferida. 
Tive a manha de viajar para um festival em Poços de Caldas para assistir Tail Dragger, Henry Gray e Bob Corritone. E também tive o cuidado de agendar entrevistas com cada um dos veteranos, mas a produção do festival fez de tudo pra dificultar e as entrevistas acabaram não acontecendo.
E nem vão acontecer, Henry Gray faleceu em 17 de fevereiro de 2020; Tail Dragger morreu hoje, 04 de setembro de 2023, a 26 dias de completar 83 anos. Produtores que querem aparecer mais do que os artistas, vocês são uns otários. Perdemos a chance de fazer um registro histórico.   
Tail Dragger, que ganhou esse apelido por sempre chegar atrasado aos shows do grande Howlin Wolf, com quem atuou por algum tempo, eve uma vida agitada. Ele chgou a casar seis vezes, deixando uma penca de filhos no mundo. Em 1993 foi condenado por assassinato do bluesman Boston Blackie. A treta foi por causa de grana. Tail Dragger alegou legítima defesa, contou que Blackie puxou uma faca ao cobrar um dinehrio que ele lhe devia. Mas mesmo assim foi condenado a 17 meses de prisão por assassinato em segundo grau.
Teve seus discos  Stop Lyin' Live Rooster's Lounge, My Head Is Bold - Live At Vern's Friendly Lounge lançados pela Delmark Records. E ainda gravou a parceria com o gaitista Bob Corritone, lançado em CD em 2012.

(Foto: Eugênio Martins Jr)

(Foto: Eugênio Martins Jr)

(Foto: Eugênio Martins Jr)

Tail Dragger e eu em Poços de Caldas 2013 (Foto: Werner Brucha)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Morrem Wolfman, James e Beck e o mundo da música perde três super guitarristas

Jeff Beck - Foto: Mandy Hall

Em menos de 20 dias o mundo da música perdeu três grandes guitarristas de blues: Walter “Wolfman” Washington, morto em 22 de dezembro de 2022, aos 79 anos; Steve James, 06 de janeiro de 2023, aos 73 anos e Jefff Beck, 10 de janeiro de 2023, aos 79 anos.
Tudo bem, podem dizer que estou forçando uma barra em colocar o Jeff Beck dentro da categoria “blues”, mas é que não consigo - e nem quero - dissocia-lo de sua origem e de seus primeiros álbuns, Truth (1968) e Beck-Ola (1969).
Discaços que reuniram jovens músicos da nova cena blues/rock do Reino Unido, o Jeff Beck Group. Em Truth, além de Beck na guitarra, o cantor de voz rouca, Rod Stewart; o baixista Ron Wood; o baterista Mick Waller; aproveitando que John Paul Jones estava no órgão Hammond, Beck assume o baixo em Ol’ Man River e Nick Hopkins no piano. Em Beck-Ola o time se repete com uma pequena diferença, Tony Newman assumiu a bateria no lugar de Waller. 
Beck é considerado um dos guitarristas inovadores da década de 60 ao lado de Jimi Hendrix, Eric Clapton e Jimmy Page, sem nunca ter tido o sucesso comercial deles. Curiosamente, Beck, Page e Clapton fizeram parte de um dos grupos mais lendários do rock, os Yardbirds Beck sucedeu Clapton e precedeu Page.
Nos anos 60, após as fases Yardbirds e Jeff Beck Group, Beck abriu suas asas para voar alto no fusion com dois grandes trabalhos, Blow By Blow ((1975) e Wired (1976), o primeiro produzido por George Martin, o quinto Beatle.
Em ambos os trabalhos Jeff Beck assombrou o mundo dos guitarristas e amantes da música com sua técnica que consistia e usar e abusar do tremolo e do botão de volume da sua Stratocaster, revolucionando e imprimindo voz própria ao instrumento. A informação que consta na conta de Jeff Beck no Twitter é que ele morreu de meningite bacteriana, rodeado por sua família, em sua casa no Reino Unido.

Walter "Wolfman" Washington - Foto: Greg Miles

Walter “Wolfman” Washington era uma voz forte em New Orleans, literalmente. Guitarrista cheio de soul e cantor que aprendeu ofício no coro da igreja de sua mãe.
Logo se apaixonou pelo blues, que o levou aprender as lidas guitarristicas e que o levou a trabalhar na banda de Lee Dorsey e com Irma Thomas. 
Nos anos 70 fundou a All Fools Band para tocar nas biroscas da velha big easy até sentir-se com musculatura para formar o Roundmasters, grupo que lhe traria a notoriedade como um dos baluartes musicais daquela cidade. 
Seu primeiro álbum, Rainin’ in My Heart, foi lançado tardiamente em 1981 por um selo obscuro chamado Help Me!
Alguns anos depois gravou o que seria sua série de discos pelo selo, também independente, Rounder: Wolf Tracks (1986), Out of The Dark (1988) e o excelente Wolf At The Door (1991).
Após essa fase, Wolfman gravou pelo selo grande Pointblank, entrando para a história de New Orleans, onde reinou por seis décadas, entalhando seu nome no blues. Tristemente morreu de câncer na garganta aos 79 anos.

Steve James - Art and Grit

Nascido em New York em 1950, Steve James não tinha nada a ver com os blues que apresentaria mais tarde. Seu primeiro contato com a música de Leadbelly e Josh White foi por conta da coleção discos de 78 rotações da coleção de seu pai. 
Apesar de ter aprendido sozinho os rudimentos da guitarra, foi quando mudou para o Tennessee e teve contato com os lendários Furry Lewis, Sam McGhee e Lum Guffin, além de aprender luthieria, foi que James subiu de nível, aprimorando a sua técnica de slide, composição, canto e presença de palco. 
Mas foi em Austin, no Texas, após assinar com o selo local Antone’s, que sua carreira começou a ganhar corpo, lançando Two Tracks Mind (1994), American Primitive (1995) e a obra prima Art and Grit (1996). 
E foi nessa época, na turnê do Art and Grit, que Steve James esteve no Brasil para uma série de shows, chegando até Santos, via Sesc, no projeto Sol Maior. 
Desses três grandes nomes, foi o único que tive a oportunidade de ver e ouvir ao vivo. Em 1997 ainda não mantinha o Mannish Blog e nem sonhava com Mannish Boy Produções. Mas o blues já corria azul nas veias. Fosse hoje não me contentaria em pegar apenas o autógrafo. Chegaria no malandro e falaria: “Eae Steve, vamos fazer uma entrevista?”. Se visse que a proposta fosse bem recebida já mandaria: “Ahhh, vamos fazer logo outro show”. Pena que não rolou, James morreu de câncer no cérebro.