quarta-feira, 27 de maio de 2026

Morre Sonny Rollins, o colosso do saxofone, aos 95 anos

 

Sonny Rollins em Viena/2006 - Foto: Jeff Pachoud/AFP via Getty Images

Morreu no dia 25 de maio, véspera de aniversário dos 100 anos de Miles Davis, Sonny Rollins, aos 95.
Nascido em Nova York, Rollins cruzou caminhos com Miles ainda jovem, quando o trompetista de St. Louis já atuava como um arregimentador de prodígios. 
Juntos, compartilharam inúmeras gigs, gravações históricas e a rotina da patota da heroína no Harlem dos anos 1950, um círculo que incluía Dexter Gordon, Tadd Dameron, Art Blakey, JJ Johnson e Jackie McLean. 
Na chamada época de ouro do jazz improvisado e cabeçudo, Sonny Rollins integrou o lendário conjunto de Miles ao lado de McLean, Cannonball Adderley e John Coltrane, fechando o círculo dos derradeiros representantes do jazz pós II Guerra Mundial.
Com Coltrane, manteve uma relação afetuosa, definindo os rumos do instrumento. Lembrando dele, décadas mais tarde, Sonny declarou: "Um ser humano belo, belo".
Rollins ganhou a alcunha de colosso graças ao seu influente álbum Saxophone Colossus, com o qual rompeu as limitações estruturais do jazz, consolidando o hard bop. 
Lançado no concorrido ano de 1956, Saxophone Colossus concorreu com gravações lendárias: Ella and Louis, com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong; Ellington at Newport, de Duke Ellington;  Pithecanthropus Erectus de Charles Mingus; Fontessa do Modern Jazz Quartet e a série Cookin', Relaxin', Workin' e Steamin, do  Miles Davis Quintet, que incluía John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones. 
Ao contrário de muitos de seus contemporâneos que morreram cedo, Sonny alcançou a longevidade, aperfeiçoando sua obra após completar 80 anos. Superou problemas respiratórios com o auxílio da ioga, que o ajudou a manter-se longe dos excessos. Nos últimos anos exibia a modéstia dos sábios: “Continuo vivo porque continuo aprendendo”, confessou em 2016.
Para além da música, Rollins utilizou o saxofone como ferramenta de forte comentário social, político e espiritual. 
Em 1958, lançou a emblemática Freedom Suite, peça instrumental de 20 minutos que ecoava abertamente as dores e as esperanças dos afro-americanos na luta pelos direitos civis. 
Na contracapa do disco, registrou um manifesto sobre a ironia de a cultura negra representar o soft power norte-americano, enquanto seu povo era recompensado com a perseguição e a desumanidade.
Seu sopro também se conectou com o misticismo que descobriu em longos retiros na Índia e no Japão. Quatro dias após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, Rollins também subiu ao palco em Boston para um show gravado ao vivo em homenagem às vítimas. 
Com sua morte, silencia-se o sopro que desenhou a liberdade no século XX, deixando um legado indestrutível na história da música.
Sonny Rollins morreu na segunda-feira, 25 de maio, em sua residência em Woodstock, New York. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

A 100 Miles

 


“Em retrospecto não lembro muita coisa de meus primeiros anos – e jamais gostei de olhar muito pra trás mesmo. Mas uma coisa eu sei: no primeiro ano depois que nasci, um furacão varreu St. Louis e destroçou a cidade. Tenho a impressão de que lembro um pouco disso – uma coisa no fundo da memória. Talvez por isso eu tenha um gênio tão ruim às vezes; aquele furacão deixou em mim alguma coisa de sua violenta criatividade. Talvez tenha deixado um pouco de seus ventos fortes. Sabe, a gente precisa de um sopro forte para tocar trompete. Eu acredito no mistério e no sobrenatural, e um furacão é misterioso e sobrenatural”

Trecho extraído da biografia de Miles Davis

O som
Tutu, de Miles Davis, foi meu primeiro disco de jazz e, além da música que saia dos sulcos do vinil, a capa com sua foto em preto e branco faz parte da minha vida desde então. Esteticamente, tanto quanto as fotos de jazz de William Claxton.  
Lançado em 1986, o álbum marcou a estreia triunfal de Miles Davis na gravadora Warner Bros., após três décadas de uma histórica e desgastada relação com a Columbia Records. 
O projeto, concebido originalmente para ser uma colaboração com o astro pop Prince — que acabou se afastando por incompatibilidade de agendas —, tornou-se o testamento definitivo do jazz dos anos 1980. E mais uma vez Miles mudaria os rumos da música. 
Como disse, o impacto começava na capa: um retrato em close-up de Miles em preto e branco, fotografado por Irving Penn com direção de arte de Eiko Ishioka. A imagem faturou o prêmio Grammy de melhor capa de álbum. 
Musicalmente, a obra dividiu a crítica tradicional, mas capturou uma audiência jovem e global ao abraçar de forma radical a tecnologia da época. Sob a produção cuidadosa e composições do multi-instrumentista Marcus Miller, o disco substituiu a dinâmica de uma banda tradicional em estúdio por sobreposições de texturas sintetizadas. 
O arquiteto por trás dessa paisagem sonora futurista foi o programador de sintetizadores Jason Miles, que ao lado de Adam Holzman, utilizou um arsenal que incluía o PPG Wave 2.3, o E-mu Emulator II e o Yamaha DX7 para esculpir samples e timbres que fugiam do genérico.
Em 2009 conversei com Jason Miles em Rio das Ostras e ele foi enfático em dizer que Davis era um futurista. “Estava sempre à frente. Não se prendia ao que havia feito no passado, ele sempre falava isso quando estávamos juntos. Passamos cinco anos trabalhando e aprendi muito com ele, sobre como encarar a vida, música, comida, ele sacava tudo profundamente”.
Sobre a cama eletrônica de funk, R&B e pop-jazz, a trompete de Miles Davis flutuava com sua icônica surdina, provando que sua expressividade continuava intacta em meio às máquinas. 
O álbum foi batizado em homenagem ao arcebispo sul-africano Desmond Tutu, tornando-se também um manifesto político de resistência contra o regime do Apartheid. Comercial e artisticamente bem sucedido, Tutu rendeu a Miles o Grammy de Melhor Performance de Jazz Instrumental Solo em 1986. 
Os números exatos globais de toda a sua história no catálogo da Warner variam na casa de centenas de milhares de cópias físicas e Tutu consolidou-se em paradas internacionais, alcançando o Top 20 do Reino Unido e é considerado o maior clássico da fase tardia do trompetista.
Conceitualmente, fica evidente que Tutu não foi apenas mais um capítulo na discografia de Miles Davis, mas um acontecimento preciso no tempo, quando os olhos do mundo estavam voltados à urgência humanitária da África do Sul e as engrenagens do racismo global e que o trompetista sempre combateu por toda a vida em seu próprio país.
Artisticamente, ao cruzar a sofisticação tecnológica, o álbum Tutu consolidou a transição iniciada na virada dos anos 1980 com a série The Man With the Horn (1981), We Want Miles (1982), Star People (1983), Decoy (1984) e You’re Under Arrest (1985), eternizando-se como um manifesto político e estético. 

A fúria
Mesmo com a consciência sobre a situação racial na África do Sul e por trás da genialidade revolucionária que redefiniu a arte moderna, no coração de Miles Davis habitava uma personalidade complexa e frequentemente destrutiva. 
Sua vida pessoal foi marcada por uma dualidade brutal, onde a beleza de sua música contrastava com seu comportamento errático. 
O envolvimento profundo com a heroína na juventude, e mais tarde com a cocaína e o álcool, potencializou um temperamento que oscilava entre o isolamento paranóico e a agressividade explícita. Nos últimos meses de sua vida Miles Davis levava uma arma onde quer que fosse.
Mesmo diante do abismo das drogas que tragou alguns dos gênios do jazz; Charlie Parker, John Coltrane, Chet Baker e tantos outros, Miles Davis revelou um instinto de sobrevivência e uma visão de negócios únicos. 
Enquanto a dependência química desmantelou a capacidade funcional de Charlie Parker, que vivia em um caos administrativo crônico que o levou a penhorar o próprio instrumento, Miles conseguia controlar sua fúria em detrimento da disciplina exigida nos palcos. Antes de sua guinada espiritual, o vício também paralisou John Coltrane até sua demissão do lendário grupo de Miles nos anos 50.
Por fim, Chet Baker, que se tornou um nômade, uma sombra de si mesmo, até morrer quase esquecido de forma trágica ao cair de uma janela, tendo o crânio esfacelado pela queda. 
Miles, contudo, teve a autoconsciência de parar com a heroína em 1953, trancando-se no quarto da fazenda de seu pai, limpando o sangue do opióide por pura força de vontade. Mesmo quando enfrentou recaídas com outras substâncias ao longo das décadas seguintes, ele jamais abriu mão de sua postura de CEO do jazz.
Suas relações afetivas carregavam o peso da misoginia, documentada pelo próprio músico em sua autobiografia; casamentos e namoros foram sufocados pelo ciúme patológico e por episódios de violência doméstica. 
No entanto, essa mesma fúria interna alimentava uma postura combativa intransigente contra a opressão social. Em uma América segregada, Miles recusava-se a adotar a postura subserviente que a indústria fonográfica, geralmente dominada por brancos, esperava dos artistas negros. Sempre exigiu ser tratado como um gênio da música contemporânea, renegando o rótulo de entertainer. 
Sua postura altiva nas entrevistas e aparições ao vivo, o figurino impecável de alta costura e a recusa em sorrir para plateias condescendentes eram atos políticos de afirmação. 
Nem mesmo a violência policial, como a infame agressão que sofreu em frente ao Birdland em 1959 amansou sua índole. 
Miles Davis personificou o paradoxo do artista extraordinário cuja raiva, embora destrutiva na esfera íntima, foi o combustível necessário para confrontar o racismo estrutural de sua época e cravar seu nome na eternidade como um dos maiores artistas do século XX.

O legado
Ao celebrar o centenário de nascimento de Miles Davis, fica evidente que sua antecipação à fusão do trompete com as inovações tecnológicas deixou um mapa genético que se tornou a fundação da música urbana no século 21. 
Esse marco de 100 anos não serve apenas para exaltar o passado, mas celebrar a passagem por esse mundo do grande visionário que foi o músico Miles Davis e seu flerte com as máquinas, abrindo caminhos para que o hip-hop e a música eletrônica redescobrissem o jazz como matéria-prima. 
Sua visão futurista ecoou no acid jazz do Us3 e no projeto Jazzmatazz do rapper Guru nos anos 1990, estendendo-se até a revolução contemporânea de DJs e artistas como Robert Glasper, que confundem as fronteiras entre o acústico, o digital e o neo-soul. 
O verdadeiro legado do gênio do trompete, reforçado neste centenário está na coragem de usar a tecnologia para desafiar os puristas de sua época. 
Ao provar que a expressividade humana se mantém intacta mesmo em meio aos sintetizadores e samplers, Miles Davis chega aos 100 anos ainda apontando para o futuro, como o arquiteto definitivo do som do nosso tempo.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

C6 Fest 2026 consolida curadoria elegante com Robert Plant, The xx e ícones do Jazz

 

Branford Marsalis - Foto: Mark Sheldon (Extraida do site da Downbeat)

Entre os dias 21 e 24 de maio de 2026, São Paulo se transforma mais uma vez no epicentro da vanguarda musical global com a realização da quarta edição do C6 Fest. Ocupando os gramados e as estruturas do Parque Ibirapuera — incluindo a Tenda MetLife, a Arena Heineken, o Pacubra e o prestigiado Auditório Ibirapuera —, o evento traz ao Brasil um elenco de 28 atrações vindas de quatro continentes. 
O festival reafirma seu compromisso de costurar, em uma mesma lona, o peso histórico de lendas vivas, o frescor do pop alternativo e a sofisticação da improvisação instrumental contemporânea.
Fruto da parceria entre o C6 Bank e a Dueto Produções — produtora de herança inestimável, responsável por desenhar o Free Jazz Festival nas décadas de 1980 e 1990 —, o C6 Fest nasceu em 2023 com a missão de resgatar o espírito dos antigos festivais de nicho, focados na experiência e no ecletismo refinado. 
Em suas edições anteriores, o palco paulistano testemunhou momentos históricos, que variaram do experimentalismo eletrônico do Kraftwerk e do pop orquestral de Jon Batiste em 2023, passando pelo neo-soul catártico do Black Pumas e o lirismo de Cat Power em 2024, até chegar à celebração dançante de Nile Rodgers & Chic e o pós-punk do The Pretenders em 2025. 
Em 2026, o festival dá um passo além em sua maturidade conceitual, inaugurando o palco C6 Lab, espaço inteiramente dedicado a novas sonoridades e apostas experimentais da cena mundial.

Brandee Younger - Foto: Erin O'Brien

Quinta-feira, 21 de maio – Jazz no Auditório Ibirapuera
O festival abre suas portas no Auditório Ibirapuera a partir das 19h, dedicando sua primeira noite à profundidade do jazz instrumental contemporâneo e transfronteiriço.

20h00 – 21h05 | Anouar Brahem Quartet: O mestre tunisiano do oud (o alaúde árabe) apresenta o aclamado concerto After The Last Sky. Conhecido por fundir a tradição musical árabe ao jazz ocidental, Brahem sobe ao palco amparado por um quarteto de gigantes: o contrabaixista britânico Dave Holland, o pianista Django Bates e a violoncelista alemã Anja Lechner.
21h35 – 22h25 | Julius Rodriguez: Jovem prodígio do piano e multi-instrumentista do Brooklyn, Rodriguez personifica a nova era do jazz. Apelidado de "Orange Julius", o músico costura com fluidez as fronteiras do hard bop com o R&B, o hip-hop e o gospel, trazendo uma energia vibrante e urbana ao festival.
22h45 – 00h00 | Branford Marsalis Quartet: Um dos saxofonistas mais reverenciados da história do jazz moderno, o norte-americano Branford Marsalis lidera seu refinado e longevo quarteto. Dono de uma técnica irretocável que transita entre o clássico e o avant-garde, o músico traz a São Paulo a sofisticação do jazz acústico em sua máxima expressão de improvisação e diálogo coletivo.

Sexta-feira, 22 de maio – Jazz e Fronteiras Musicais no Auditório Ibirapuera
Na segunda noite, os portões abrem às 19h para celebrar a expansão do jazz em direção à world music, à vanguarda brasileira e ao pop eletrônico.
20h00 – 21h00 | Brandee Younger: Harpista norte-americana indicada ao Grammy, Younger tem sido a principal responsável por revolucionar o papel de seu instrumento na música contemporânea. Mesclando o jazz espiritual de Alice Coltrane com pulsações modernas de hip-hop e soul, ela entrega uma sonoridade hipnótica e profundamente melódica.
22h30 | Hermeto Pascoal Big Band: O "Bruxo" da música universal, patrimônio vivo da cultura brasileira, comanda sua enérgica Big Band. Hermeto Pascoal desafia os limites da composição rearranjando sua vasta e imprevisível obra com metais robustos, ritmos nordestinos e aquela liberdade harmônica genial que o tornou cultuado no mundo inteiro.
22h50 – 23h50 | Knower: Duo norte-americano de pop-jazz eletrônico formado pelo baterista Louis Cole e pela vocalista Genevieve Artadi. Conhecidos por apresentações hiperenergéticas e vídeos virais, eles misturam linhas de baixo colossais, harmonias de jazz complexas e texturas eletrônicas pesadas com muito humor e virtuosismo.

Sábado, 23 de maio
Alternativo, Rock e Eletrônica no Ibirapuera
O sábado marca a expansão do festival para as grandes arenas montadas no parque. Os portões se abrem às 13h para uma maratona de música alternativa que se estende até a madrugada.

Arena Heineken
15h40 – 16h40 | Amaarae: Cantora e compositora americano-ghanesa, Amaarae é um dos nomes mais incensados do afropop e do R&B alternativo atual. Com sua voz sussurrada marcante e produções que misturam dancehall, trap e música tradicional da África Ocidental, ela traz um ambiente pop global e sensual para o palco principal.
17h20 – 18h20 | Mano Brown part. Rincon Sapiência: Substituindo o cantor americano Dijon (que cancelou por motivos pessoais), a lenda do rap nacional Mano Brown apresenta um show focado nas texturas dançantes e românticas de seu celebrado álbum solo Boogie Naipe. O show passeia pelo funk, soul e disco, contando ainda com a rima certeira e elegante de Rincon Sapiência e clássicos históricos de sua trajetória.
18h50 – 20h00 | BaianaSystem part. Makaveli e Kadilida: O combo baiano traz seu tradicional paredão sonoro de sound system e guitarra baiana ao Ibirapuera. Para esta catarse rítmica, o grupo convida o rapper cearense Makaveli e a cantora Kadilida, aprofundando o diálogo entre as batidas periféricas e a urgência das ruas.
20h45 – 21h55 | The xx: O trio britânico indie pop faz seu aguardado retorno ao Brasil. Conhecidos pela estética minimalista, guitarras ecoantes e vocais sussurrados divididos entre Romy Madley Croft e Oliver Sim, amparados pelas batidas eletrônicas precisas de Jamie xx, eles encerram a arena com sua atmosfera melancólica e cinematográfica.

Tenda MetLife
14h40 – 15h40 | Horsegirl: Trio de jovens de Chicago que vem revitalizando o rock alternativo e o noise pop de garagem. Com influências diretas do lo-fi dos anos 1990 e de bandas como Sonic Youth, o grupo entrega guitarras barulhentas e melodias indie cativantes.
16h40 – 17h40 | Baxter Dury: O cantor e compositor britânico, filho da lenda punk Ian Dury, traz seu carisma singular de "crooner sarcástico". Com seu spoken-word peculiar sobre bases de indie pop e funk minimalista, Dury canta crônicas afiadas sobre a vida noturna e as excentricidades de Londres.
18h10 – 19h10 | Wolf Alice: Liderada pela magnética Ellie Rowsell, a banda britânica de rock alternativo transita sem esforço entre o shoegaze, o grunge pesado e o pop etéreo. Vencedores do cobiçado Mercury Prize, trazem ao festival um show vigoroso e cheio de texturas.
19h40 – 20h45 | Matt Berninger: O icônico e barítono vocalista da banda The National apresenta-se em seu projeto solo. Com interpretações densas e teatrais, Berninger traz baladas confessionais embaladas por arranjos folk e indie rock, destilando melancolia e composições líricas profundas.

Pacubra & C6 Lab
20h45 – 23h00 | Aline Rocha: DJ e produtora brasileira em franca ascensão internacional, conhecida por sets elegantes que passeiam pelo deep house, soulful e clássicos da house music.
23h00 – 03h00 | Marten Lou: O DJ e produtor parisiense traz sua assinatura de melodic house para a madrugada paulistana, arrastando pistas com seus remixes sofisticados de texturas profundas.
23h00 – 00h00 (C6 Lab) | Mabe Fratti: A violoncelista e compositora experimental guatemalteca (radicada no México) apresenta sua fusão de arranjos barrocos de violoncelo com sintetizadores e vocais etéreos, criando uma atmosfera vanguardista hipnotizante.

Domingo, 24 de maio – Pop alternativo, indie e clássicos do rock
O encerramento do festival mantém os portões abertos a partir das 13h, equilibrando o pop alternativo mais refinado com a presença histórica da realeza do rock mundial.

Robert Plant
Arena Heineken
15h30 – 16h30 | Magdalena Bay: Duo de synthpop de Los Angeles formado por Mica Tenenbaum e Matthew Lewin. Unindo uma estética visual inspirada no início da internet a um pop eletrônico cirúrgico, recheado de camadas de sintetizadores e ganchos viciantes, eles abrem a arena principal em tom futurista.
17h00 – 18h00 | Os Paralamas do Sucesso part. Nação Zumbi: Um encontro histórico do rock nacional. O power trio canônico do pop-rock e do ska brasileiro convida os herdeiros do manguebeat da Nação Zumbi. Juntos, prometem uma parede percussiva e de guitarras celebrando clássicos que moldaram a música brasileira moderna.
18h30 – 19h45 | Beirut: O projeto do multi-instrumentista Zach Condon retorna ao Brasil com seu aclamado e nostálgico "indie folk do mundo". Misturando elementos da música folclórica do Leste Europeu, acordeões, ukuleles e metais com o pop alternativo, a banda cria paisagens sonoras poéticas e bucólicas.
20h30 – 22h00 | Robert Plant's Saving Grace feat. Suzi Dian: A lendária voz do Led Zeppelin encerra o palco principal com seu mais recente e íntimo projeto. Ao lado da vocalista Suzi Dian e da banda Saving Grace, Robert Plant mergulha em suas profundas paixões pelas raízes do folk britânico, pelo blues de garagem americano e pela música mística oriental, entregando uma apresentação mística, acústica e de extrema sensibilidade.

Tenda MetLife
15h00 – 15h50 | Samuel de Saboia: O artista visual e pesquisador brasileiro apresenta um set performático, conectando pesquisas sonoras que dialogam com ancestralidade, batidas afro e texturas urbanas contemporâneas.
16h30 – 17h30 | Benjamin Clementine: Cantor, pianista e poeta britânico, vencedor do Mercury Prize. Dono de uma voz operística dramática e arrebatadora, as apresentações de Clementine ao piano são experiências quase teatrais, marcadas por um expressionismo cru que flerta com a chanson francesa e o avant-garde.
18h00 – 19h00 | Oklou: Produtora e cantora francesa que se tornou referência no movimento do hyperpop e do R&B ambiente. Suas produções trazem vocais carregados de auto-tune sob bases minimalistas e melancólicas de sintetizadores, desenhando paisagens digitais introspectivas.
19h20 – 20h30 | Lykke Li: A cantora e compositora sueca encerra a Tenda MetLife trazendo seu pop alternativo melancólico e sensual. Com sucessos mundiais na bagagem, ela apresenta canções que equilibram batidas eletrônicas soturnas com vulnerabilidade acústica e vocais marcantes.

Pacubra & C6 Lab
20h00 – 21h30 | Jude Paulla: A DJ brasileira traz sua pesquisa focada em ritmos tropicais, música brasileira de pista e black music, injetando descontração e ginga na reta final do evento.
21h30 – 23h30 | DJ Nyack B2B Pathy Dejesus B2B Eduardo Brechó: Um encontro de peso da discotecagem nacional. Unindo o consagrado DJ Nyack (conhecido por seu trabalho com Emicida), a versatilidade de Pathy Dejesus e a bagagem de Eduardo Brechó (líder do Aláfia), o trio comanda uma sessão de encerramento focada no hip-hop, r&b, soul e grooves brasileiros.
23h00 – 00h00 (C6 Lab) | Cameron Winter: O vocalista e principal compositor da cultuada banda de indie rock novaiorquina Geese encerra os trabalhos do palco experimental. Em sua apresentação solo, Winter expõe suas composições em formato cru, passeando pelo art-punk e pelo folk torto com sua habitual entrega vocal excêntrica.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Mike Del Ferro, entre o rigor de Chopin ao balanço de Jobim

 


Texto: Eugênio Martins Jr
Fotos: Divulgação Mike Del Ferro

Mike Del Ferro carrega um DNA artístico singular: É filho de cantor de ópera que dividiu estúdios com Maria Callas. E   cresceu sob a égide do rigor clássico de Chopin e Beethoven, mas encontrou sua voz no improviso ao descobrir o jazz de Oscar Peterson. 
Pode-se dizer que essa dualidade permeia toda a sua obra, equilibrando a música erudita europeia à música do mundo, África, Ásia e Oriente Médio, incluindo o balanço das músicas latina e brasileira.   
Sua relação com o Brasil foge do encantamento superficial do turista. Na nossa conversa, Del Ferro mostrou-se um observador atento, reconhecendo os desafios da sobrevivência do artista no país, mas que, ao mesmo tempo, deixando-se seduzir pela profundidade melódica dos nossos compositores, enaltece os nomes de Milton Nascimento e Tom Jobim. 
Essa conexão se materializou em parcerias com Oscar Castro Neves, Badi Assad e Fernanda Porto, além de uma fraternidade musical duradoura com o baterista Márcio Bahia. 
A ponte aérea Amsterdam/São Paulo lhe serve duas vezes por ano, ocasiões as quais aproveita para tocar e trocar com os músicos brasileiros de todos os estilos.
Dentro da diversidade do seu catálogo encontra-se Sintonia, no qual a sua ligação com o Brasil se torna mais profunda. 
Além da compreensão real das harmonias brasileiras, Mike entende o nosso balanço, transformando o piano em uma extensão dessa linguagem.  
A cantora holandesa Femke Smit faz o contraponto vocal a esse refinamento. Sua interpretação é marcada por uma dicção cuidadosa e uma sensibilidade que respeita a tradição da bossa nova e da MPB. Fruto de suas inúmeras viagens de “estudos culturais” ao Rio de Janeiro. 
Ao dividir o protagonismo com o piano, Smit adiciona uma camada de suavidade e elegância às melodias, consolidando o disco como um verdadeiro encontro cultural entre o jeitão europeu e o jeitinho brasileiro.


Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical?
Mike Del Ferro – Foi cheia de música. Nasci em Amsterdam e meu pai foi um cantor de ópera que atuou com Maria Callas em algumas gravações. Então, cresci ouvindo ópera e música clássica. Mas sempre fui muito interessado em piano e meu pai me acompanhava nos estudos. Comecei a tocar, improvisando um pouco e depois estudei seriamente a música clássica. Mas sempre sentia falta de alguma coisa. Veja, adoro a música clássica e tenho muitos projetos, mas sempre senti a falta da liberdade. E quando descobri o jazz e a música latina, com o ritmo, harmonia, improvisação vi que era aquilo que eu queria fazer. Me tornei um aficionado pelo jazz e pela música latina. Não só a música brasileira, mas a música cubana também. E claro, o jazz.

EM – Quantos anos você tinha quando percebeu isso? Já era profissional?
MDF – Tinha uns quinze anos e já tocava Chopin, Beethoven e Mozart, mas meu pai era um cara de mente aberta e quando Oscar Peterson fez um concerto em Amsterdam ele me levou eu pensei: “Ohhhhh”. Foi como um vírus, entende?   

EM – Como é a cena de jazz de Amsterdam atualmente?
MDF – Tem músicos muito bons. E possui um fantástico conservatório internacional que recebe músicos do mundo inteiro, entre Brasil e Coréia. O nível é realmente muito alto, mas o problema é que não há muitos lugares para tocar, porque apesar de Amsterdam ser uma cidade cosmopolitana, oficialmente com um milhão de pessoas, não é tão grande como São Paulo ou Rio. Eu toco oitenta por cento fora da Holanda. Na Europa, América do Sul, muito no Brasil, China, Itália, muitos lugares. 

EM - Você tocou e gravou com Oscar Castro Neves, Badi Assad e Fernanda Porto, como foi isso? Gostaria que falasse sobre a sua relação com a música brasileira.
MDF – Minha íntima relação com a música brasileira se deu através do meu amigo Márcio Bahia. Somos como irmãos. Estive no Brasil tantas vezes e conheci pessoas fantásticas. Também conheci o Gabriel Grossi, que para mim é tão criativo quanto Toots Thielemans, com quem toquei por muitos anos. No Rio Grande do Sul conheci um baterista fantástico chamado Ricardo Arnold. Amanhã me encontrarei com o André Mehmari e quem sabe aconteça um piano duo. Amo esse país, mas acho um país desafiador. Sei que muitos músicos superam dificuldades para sobreviver. Não sou daqueles que ficam romantizando. Amo vir para cá, mas como estrangeiro tenho uma visão realista sobre as dificuldades. Para os músicos e pessoas ligadas às artes é um grande país, mas com muitos desafios.

EM - Você disse que iria encontrar com o André Mehmari. Ele também é um músico que transita entre o jazz e a música erudita. Gostaria que explicasse isso, como é andar nessa linha divisória?
MDF – É a combinação entre curiosidade e respeito pela música clássica que está aí por muitos séculos. Vamos voltar à ópera. Temos grandes óperas de Puccini, mas acho que elas podem ser apresentadas de outras formas. Especialmente suas árias, um material incrível que permite fazermos outras harmonizações. Essa é a minha curiosidade por todos os tipos de música. Pegar os ingredientes e colocá-los juntos para criar uma coisa nova, mas sempre respeitando o original. 

EM – É possível fundir o balanço do samba jazz com a rigidez da música clássica europeia?
MDF – Acho que essa é uma das principais razões para eu ter me conectado tão bem com o Brasil. Adoro tocar música secular (acho que ele está falando do choro), samba e outros ritmos, mas ao mesmo tempo trago a beleza do meu país, minha herança cultural para junto apresentá-la. Toco a música lenta como a de Tom Jobim e as pessoas gostam porque não toco muitas notas e insiro outros elementos.

Mike Del Ferro e Femke Smit

EM - Você gravou um disco de músicas brasileiras com a cantora Femke Smit que se chama Sintonia, que é um termo muito bacana. O que representa nesse contexto? A sintonia entre ambos ou com a música brasileira?
MDF – Temos em comum que nossos pais foram ambos cantores de ópera. Então Femke já carrega essa influência. E ela é uma apaixonada pela música brasileira. Viveu aqui por algum tempo. Seu português é fantástico. Ela conhece muitas cantoras brasileiras de MPB. Quando estive com Femke no Rio de Janeiro ela me levou aos lugares do samba, como aquele famoso, o Samba do Trabalhador. E interessante que os sambistas a conheciam e a chamavam para cantar. Ela conhece muitos sambas tradicionais, conhece o Paulinho da Viola e todas as suas músicas. É uma grande coisa para quem cresceu em Amsterdam e essa é a sintonia, o amor pela música brasileira. Nós amamos canções que não são tão famosas fora do Brasil, sei que isso também é relativo, estou falando de Encontros e Despedidas ou Beatriz, por exemplo, que são incrivelmente bonitas.      

EM – Nós brasileiros ouvimos música do mundo inteiro, especialmente o jazz norte-americano. Mas atualmente esse movimento se inverteu e a música brasileira, inclusive a música instrumental, o nosso jazz, está sendo muito exportada. Você consegue ver esse movimento?
MDF – Acho fantástico. Porque esse país é um planeta musical. Se você pegar Tom Jobim que escreveu inúmeras canções incríveis como Garota de Ipanema, One Note Samba, How Insensitive, que muitos fora do Brasil conhecem e usar o exemplo do Filó Machado, um artista incrível, que viveu em Paris um curto período, mas que as pessoas na Europa não conhecem. Veja, ainda há muito o que ser descoberto. O advento da internet proporcionou acesso às pessoas a música de todo o mundo. 

EM - O que é o programa American Voices?
MDF – É uma organização cultural. Trabalhei com eles por 15 anos como embaixador. Rodei o mundo apresentando jazz tradicional. A filosofia era criar pontes musicais entre os países. Visitei o Afeganistão, Cazaquistão, Mauritânia, onde há uma música inacreditável. Tocava com músicos tradicionais. Minha curiosidade não se limitou ao jazz e se expandiu para a world music da África e Ásia. Estive na Sibéria, Mongólia e parte da Rússia. A filosofia de American Voices é conectar os músicos. Uma potente forma de comunicação.

EM – E ao mesmo tempo conectando as pessoas de diversas culturas.
MDF – Sim. Estive no Afeganistão duas vezes em 2005. Ensaiei com alguns músicos, mas também conheci o fantástico público local. Os músicos me convidavam para conhecer suas casas e cozinhavam para nós. Essa parte do mundo recebe tanta propaganda negativa, mas a música nos unia. Não ligávamos para a política, religião ou cor da pele.

EM – Sim. Geralmente as pessoas são boas, mas os governantes é que fodem tudo. Eles dividem os povos para continuar governando.
MDF – Sim, é verdade, eles fodem com tudo. Conheço grandes músicos palestinos e judeus que colaboram entre si. 

EM – Acho que a música acaba tornando o mundo um lugar pequeno, onde todas as conexões são possíveis e aceitáveis.
MDF – Concordo cem por cento com você. As pessoas rotulam de fusion ou crossover e eu acho uma besteira. São apenas terminologias erradas. 

EM – Após essa recente turnê, quais são os próximos planos para o Brasil?
MDF – Venho duas vezes por ano ao Brasil. Mais ou menos a cada seis meses. Desta vez toquei em Porto Alegre, São Pedro, amanhã em São Paulo com Victor Cabral e Thiago Alves, músicos fantásticos. Provavelmente volto em outubro e novembro para fazer Sescs. Em janeiro de 2027 volto ao sul do Brasil, em Pelotas e depois cruzo a fronteira para o Uruguai. Sempre que tiver chance virei ao Brasil. O aeroporto de Amsterdam tem dois voos diários de apenas onze horas para o Brasil, um para o Rio e outro para São Paulo.