“Em retrospecto não lembro muita coisa de meus primeiros anos – e jamais gostei de olhar muito pra trás mesmo. Mas uma coisa eu sei: no primeiro ano depois que nasci, um furacão varreu St. Louis e destroçou a cidade. Tenho a impressão de que lembro um pouco disso – uma coisa no fundo da memória. Talvez por isso eu tenha um gênio tão ruim às vezes; aquele furacão deixou em mim alguma coisa de sua violenta criatividade. Talvez tenha deixado um pouco de seus ventos fortes. Sabe, a gente precisa de um sopro forte para tocar trompete. Eu acredito no mistério e no sobrenatural, e um furacão é misterioso e sobrenatural”
Trecho extraído da biografia de Miles Davis
O som
Tutu, de Miles Davis, foi meu primeiro disco de jazz e, além da música que saia dos sulcos do vinil, a capa com sua foto em preto e branco faz parte da minha vida desde então. Esteticamente, tanto quanto as fotos de jazz de William Claxton.
Lançado em 1986, o álbum marcou a estreia triunfal de Miles Davis na gravadora Warner Bros., após três décadas de uma histórica e desgastada relação com a Columbia Records.
O projeto, concebido originalmente para ser uma colaboração com o astro pop Prince — que acabou se afastando por incompatibilidade de agendas —, tornou-se o testamento definitivo do jazz dos anos 1980. E mais uma vez Miles mudaria os rumos da música.
Como disse, o impacto começava na capa: um retrato em close-up de Miles em preto e branco, fotografado por Irving Penn com direção de arte de Eiko Ishioka. A imagem faturou o prêmio Grammy de melhor capa de álbum.
Musicalmente, a obra dividiu a crítica tradicional, mas capturou uma audiência jovem e global ao abraçar de forma radical a tecnologia da época. Sob a produção cuidadosa e composições do multi-instrumentista Marcus Miller, o disco substituiu a dinâmica de uma banda tradicional em estúdio por sobreposições de texturas sintetizadas.
O arquiteto por trás dessa paisagem sonora futurista foi o programador de sintetizadores Jason Miles, que ao lado de Adam Holzman, utilizou um arsenal que incluía o PPG Wave 2.3, o E-mu Emulator II e o Yamaha DX7 para esculpir samples e timbres que fugiam do genérico.
Em 2009 conversei com Jason Miles em Rio das Ostras e ele foi enfático em dizer que Davis era um futurista. “Estava sempre à frente. Não se prendia ao que havia feito no passado, ele sempre falava isso quando estávamos juntos. Passamos cinco anos trabalhando e aprendi muito com ele, sobre como encarar a vida, música, comida, ele sacava tudo profundamente”.
Sobre a cama eletrônica de funk, R&B e pop-jazz, a trompete de Miles Davis flutuava com sua icônica surdina, provando que sua expressividade continuava intacta em meio às máquinas.
O álbum foi batizado em homenagem ao arcebispo sul-africano Desmond Tutu, tornando-se também um manifesto político de resistência contra o regime do Apartheid. Comercial e artisticamente bem sucedido, Tutu rendeu a Miles o Grammy de Melhor Performance de Jazz Instrumental Solo em 1986.
Os números exatos globais de toda a sua história no catálogo da Warner variam na casa de centenas de milhares de cópias físicas e Tutu consolidou-se em paradas internacionais, alcançando o Top 20 do Reino Unido e é considerado o maior clássico da fase tardia do trompetista.
Conceitualmente, fica evidente que Tutu não foi apenas mais um capítulo na discografia de Miles Davis, mas um acontecimento preciso no tempo, quando os olhos do mundo estavam voltados à urgência humanitária da África do Sul e as engrenagens do racismo global e que o trompetista sempre combateu por toda a vida em seu próprio país.
Artisticamente, ao cruzar a sofisticação tecnológica, o álbum Tutu consolidou a transição iniciada na virada dos anos 1980 com a série The Man With the Horn (1981), We Want Miles (1982), Star People (1983), Decoy (1984) e You’re Under Arrest (1985), eternizando-se como um manifesto político e estético.
A fúria
Mesmo com a consciência sobre a situação racial na África do Sul e por trás da genialidade revolucionária que redefiniu a arte moderna, no coração de Miles Davis habitava uma personalidade complexa e frequentemente destrutiva.
Sua vida pessoal foi marcada por uma dualidade brutal, onde a beleza de sua música contrastava com seu comportamento errático.
O envolvimento profundo com a heroína na juventude, e mais tarde com a cocaína e o álcool, potencializou um temperamento que oscilava entre o isolamento paranóico e a agressividade explícita. Nos últimos meses de sua vida Miles Davis levava uma arma onde quer que fosse.
Mesmo diante do abismo das drogas que tragou alguns dos gênios do jazz; Charlie Parker, John Coltrane, Chet Baker e tantos outros, Miles Davis revelou um instinto de sobrevivência e uma visão de negócios únicos.
Enquanto a dependência química desmantelou a capacidade funcional de Charlie Parker, que vivia em um caos administrativo crônico que o levou a penhorar o próprio instrumento, Miles conseguia controlar sua fúria em detrimento da disciplina exigida nos palcos. Antes de sua guinada espiritual, o vício também paralisou John Coltrane até sua demissão do lendário grupo de Miles nos anos 50.
Por fim, Chet Baker, que se tornou um nômade, uma sombra de si mesmo, até morrer quase esquecido de forma trágica ao cair de uma janela, tendo o crânio esfacelado pela queda.
Miles, contudo, teve a autoconsciência de parar com a heroína em 1953, trancando-se no quarto da fazenda de seu pai, limpando o sangue do opióide por pura força de vontade. Mesmo quando enfrentou recaídas com outras substâncias ao longo das décadas seguintes, ele jamais abriu mão de sua postura de CEO do jazz.
Suas relações afetivas carregavam o peso da misoginia, documentada pelo próprio músico em sua autobiografia; casamentos e namoros foram sufocados pelo ciúme patológico e por episódios de violência doméstica.
No entanto, essa mesma fúria interna alimentava uma postura combativa intransigente contra a opressão social. Em uma América segregada, Miles recusava-se a adotar a postura subserviente que a indústria fonográfica, geralmente dominada por brancos, esperava dos artistas negros. Sempre exigiu ser tratado como um gênio da música contemporânea, renegando o rótulo de entertainer.
Sua postura altiva nas entrevistas e aparições ao vivo, o figurino impecável de alta costura e a recusa em sorrir para plateias condescendentes eram atos políticos de afirmação.
Nem mesmo a violência policial, como a infame agressão que sofreu em frente ao Birdland em 1959 amansou sua índole.
Miles Davis personificou o paradoxo do artista extraordinário cuja raiva, embora destrutiva na esfera íntima, foi o combustível necessário para confrontar o racismo estrutural de sua época e cravar seu nome na eternidade como um dos maiores artistas do século XX.
O legado
Ao celebrar o centenário de nascimento de Miles Davis, fica evidente que sua antecipação à fusão do trompete com as inovações tecnológicas deixou um mapa genético que se tornou a fundação da música urbana no século 21.
Esse marco de 100 anos não serve apenas para exaltar o passado, mas celebrar a passagem por esse mundo do grande visionário que foi o músico Miles Davis e seu flerte com as máquinas, abrindo caminhos para que o hip-hop e a música eletrônica redescobrissem o jazz como matéria-prima.
Sua visão futurista ecoou no acid jazz do Us3 e no projeto Jazzmatazz do rapper Guru nos anos 1990, estendendo-se até a revolução contemporânea de DJs e artistas como Robert Glasper, que confundem as fronteiras entre o acústico, o digital e o neo-soul.
O verdadeiro legado do gênio do trompete, reforçado neste centenário está na coragem de usar a tecnologia para desafiar os puristas de sua época.
Ao provar que a expressividade humana se mantém intacta mesmo em meio aos sintetizadores e samplers, Miles Davis chega aos 100 anos ainda apontando para o futuro, como o arquiteto definitivo do som do nosso tempo.

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