Texto: Eugênio Martins Jr
Fotos: Divulgação Mike Del Ferro
Mike Del Ferro carrega um DNA artístico singular: É filho de cantor de ópera que dividiu estúdios com Maria Callas. E cresceu sob a égide do rigor clássico de Chopin e Beethoven, mas encontrou sua voz no improviso ao descobrir o jazz de Oscar Peterson.
Pode-se dizer que essa dualidade permeia toda a sua obra, equilibrando a música erudita europeia à música do mundo, África, Ásia e Oriente Médio, incluindo o balanço das músicas latina e brasileira.
Sua relação com o Brasil foge do encantamento superficial do turista. Na nossa conversa, Del Ferro mostrou-se um observador atento, reconhecendo os desafios da sobrevivência do artista no país, mas que, ao mesmo tempo, deixando-se seduzir pela profundidade melódica dos nossos compositores, enaltece os nomes de Milton Nascimento e Tom Jobim.
Essa conexão se materializou em parcerias com Oscar Castro Neves, Badi Assad e Fernanda Porto, além de uma fraternidade musical duradoura com o baterista Márcio Bahia.
A ponte aérea Amsterdam/São Paulo lhe serve duas vezes por ano, ocasiões as quais aproveita para tocar e trocar com os músicos brasileiros de todos os estilos.
Dentro da diversidade do seu catálogo encontra-se Sintonia, no qual a sua ligação com o Brasil se torna mais profunda.
Além da compreensão real das harmonias brasileiras, Mike entende o nosso balanço, transformando o piano em uma extensão dessa linguagem.
A cantora holandesa Femke Smit faz o contraponto vocal a esse refinamento. Sua interpretação é marcada por uma dicção cuidadosa e uma sensibilidade que respeita a tradição da bossa nova e da MPB. Fruto de suas inúmeras viagens de “estudos culturais” ao Rio de Janeiro.
Ao dividir o protagonismo com o piano, Smit adiciona uma camada de suavidade e elegância às melodias, consolidando o disco como um verdadeiro encontro cultural entre o jeitão europeu e o jeitinho brasileiro.
Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical?
Mike Del Ferro – Foi cheia de música. Nasci em Amsterdam e meu pai foi um cantor de ópera que atuou com Maria Callas em algumas gravações. Então, cresci ouvindo ópera e música clássica. Mas sempre fui muito interessado em piano e meu pai me acompanhava nos estudos. Comecei a tocar, improvisando um pouco e depois estudei seriamente a música clássica. Mas sempre sentia falta de alguma coisa. Veja, adoro a música clássica e tenho muitos projetos, mas sempre senti a falta da liberdade. E quando descobri o jazz e a música latina, com o ritmo, harmonia, improvisação vi que era aquilo que eu queria fazer. Me tornei um aficionado pelo jazz e pela música latina. Não só a música brasileira, mas a música cubana também. E claro, o jazz.
EM – Quantos anos você tinha quando percebeu isso? Já era profissional?
MDF – Tinha uns quinze anos e já tocava Chopin, Beethoven e Mozart, mas meu pai era um cara de mente aberta e quando Oscar Peterson fez um concerto em Amsterdam ele me levou eu pensei: “Ohhhhh”. Foi como um vírus, entende?
EM – Como é a cena de jazz de Amsterdam atualmente?
MDF – Tem músicos muito bons. E possui um fantástico conservatório internacional que recebe músicos do mundo inteiro, entre Brasil e Coréia. O nível é realmente muito alto, mas o problema é que não há muitos lugares para tocar, porque apesar de Amsterdam ser uma cidade cosmopolitana, oficialmente com um milhão de pessoas, não é tão grande como São Paulo ou Rio. Eu toco oitenta por cento fora da Holanda. Na Europa, América do Sul, muito no Brasil, China, Itália, muitos lugares.
EM - Você tocou e gravou com Oscar Castro Neves, Badi Assad e Fernanda Porto, como foi isso? Gostaria que falasse sobre a sua relação com a música brasileira.
MDF – Minha íntima relação com a música brasileira se deu através do meu amigo Márcio Bahia. Somos como irmãos. Estive no Brasil tantas vezes e conheci pessoas fantásticas. Também conheci o Gabriel Grossi, que para mim é tão criativo quanto Toots Thielemans, com quem toquei por muitos anos. No Rio Grande do Sul conheci um baterista fantástico chamado Ricardo Arnold. Amanhã me encontrarei com o André Mehmari e quem sabe aconteça um piano duo. Amo esse país, mas acho um país desafiador. Sei que muitos músicos superam dificuldades para sobreviver. Não sou daqueles que ficam romantizando. Amo vir para cá, mas como estrangeiro tenho uma visão realista sobre as dificuldades. Para os músicos e pessoas ligadas às artes é um grande país, mas com muitos desafios.
EM - Você disse que iria encontrar com o André Mehmari. Ele também é um músico que transita entre o jazz e a música erudita. Gostaria que explicasse isso, como é andar nessa linha divisória?
MDF – É a combinação entre curiosidade e respeito pela música clássica que está aí por muitos séculos. Vamos voltar à ópera. Temos grandes óperas de Puccini, mas acho que elas podem ser apresentadas de outras formas. Especialmente suas árias, um material incrível que permite fazermos outras harmonizações. Essa é a minha curiosidade por todos os tipos de música. Pegar os ingredientes e colocá-los juntos para criar uma coisa nova, mas sempre respeitando o original.
EM – É possível fundir o balanço do samba jazz com a rigidez da música clássica europeia?
MDF – Acho que essa é uma das principais razões para eu ter me conectado tão bem com o Brasil. Adoro tocar música secular (acho que ele está falando do choro), samba e outros ritmos, mas ao mesmo tempo trago a beleza do meu país, minha herança cultural para junto apresentá-la. Toco a música lenta como a de Tom Jobim e as pessoas gostam porque não toco muitas notas e insiro outros elementos.
Mike Del Ferro e Femke Smit
EM - Você gravou um disco de músicas brasileiras com a cantora Femke Smit que se chama Sintonia, que é um termo muito bacana. O que representa nesse contexto? A sintonia entre ambos ou com a música brasileira?MDF – Temos em comum que nossos pais foram ambos cantores de ópera. Então Femke já carrega essa influência. E ela é uma apaixonada pela música brasileira. Viveu aqui por algum tempo. Seu português é fantástico. Ela conhece muitas cantoras brasileiras de MPB. Quando estive com Femke no Rio de Janeiro ela me levou aos lugares do samba, como aquele famoso, o Samba do Trabalhador. E interessante que os sambistas a conheciam e a chamavam para cantar. Ela conhece muitos sambas tradicionais, conhece o Paulinho da Viola e todas as suas músicas. É uma grande coisa para quem cresceu em Amsterdam e essa é a sintonia, o amor pela música brasileira. Nós amamos canções que não são tão famosas fora do Brasil, sei que isso também é relativo, estou falando de Encontros e Despedidas ou Beatriz, por exemplo, que são incrivelmente bonitas.EM – Nós brasileiros ouvimos música do mundo inteiro, especialmente o jazz norte-americano. Mas atualmente esse movimento se inverteu e a música brasileira, inclusive a música instrumental, o nosso jazz, está sendo muito exportada. Você consegue ver esse movimento?MDF – Acho fantástico. Porque esse país é um planeta musical. Se você pegar Tom Jobim que escreveu inúmeras canções incríveis como Garota de Ipanema, One Note Samba, How Insensitive, que muitos fora do Brasil conhecem e usar o exemplo do Filó Machado, um artista incrível, que viveu em Paris um curto período, mas que as pessoas na Europa não conhecem. Veja, ainda há muito o que ser descoberto. O advento da internet proporcionou acesso às pessoas a música de todo o mundo.EM - O que é o programa American Voices?MDF – É uma organização cultural. Trabalhei com eles por 15 anos como embaixador. Rodei o mundo apresentando jazz tradicional. A filosofia era criar pontes musicais entre os países. Visitei o Afeganistão, Cazaquistão, Mauritânia, onde há uma música inacreditável. Tocava com músicos tradicionais. Minha curiosidade não se limitou ao jazz e se expandiu para a world music da África e Ásia. Estive na Sibéria, Mongólia e parte da Rússia. A filosofia de American Voices é conectar os músicos. Uma potente forma de comunicação.EM – E ao mesmo tempo conectando as pessoas de diversas culturas.MDF – Sim. Estive no Afeganistão duas vezes em 2005. Ensaiei com alguns músicos, mas também conheci o fantástico público local. Os músicos me convidavam para conhecer suas casas e cozinhavam para nós. Essa parte do mundo recebe tanta propaganda negativa, mas a música nos unia. Não ligávamos para a política, religião ou cor da pele.EM – Sim. Geralmente as pessoas são boas, mas os governantes é que fodem tudo. Eles dividem os povos para continuar governando.MDF – Sim, é verdade, eles fodem com tudo. Conheço grandes músicos palestinos e judeus que colaboram entre si.EM – Acho que a música acaba tornando o mundo um lugar pequeno, onde todas as conexões são possíveis e aceitáveis.MDF – Concordo cem por cento com você. As pessoas rotulam de fusion ou crossover e eu acho uma besteira. São apenas terminologias erradas.EM – Após essa recente turnê, quais são os próximos planos para o Brasil?MDF – Venho duas vezes por ano ao Brasil. Mais ou menos a cada seis meses. Desta vez toquei em Porto Alegre, São Pedro, amanhã em São Paulo com Victor Cabral e Thiago Alves, músicos fantásticos. Provavelmente volto em outubro e novembro para fazer Sescs. Em janeiro de 2027 volto ao sul do Brasil, em Pelotas e depois cruzo a fronteira para o Uruguai. Sempre que tiver chance virei ao Brasil. O aeroporto de Amsterdam tem dois voos diários de apenas onze horas para o Brasil, um para o Rio e outro para São Paulo.

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