segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Yellow Moon, uma aula de música, de história e de New Orleans.


Na era pré-histórica os LPs chegavam aqui, fossem eles de artistas famosos ou não. O trabalho de garimpo valia muito nas prateleiras das lojas. 
Assim conheci Yellow Moon (1989), de uma banda esquisita lá de New Orleans, os Neville Brothers. Naquela época eu só queria saber de AC/DC, Iron Maiden, Ramones e os irmãos Neville não estavam no radar.
Já tinha escutado o Gumbo, do Dr John, que até achei legal, mas confesso que na época não entendi a profundidade da música e da cultura de New Orleans.  
Antes de sentir o som do Neville Brothers o que me chamou a atenção foi a capa, com umas pinturas vodús, humanos com cabeça de animais e um índio – como disse, ainda não conhecia a tradição dos índios de New Orleans – e na contra capa os quatro irmãos com aquele visual só deles.
Então, a gente entrava na loja e pedia pra escutar os discos e nesse quesito eu era o cara mais pentelho do bairro. Ouvia até coisas desconhecidas, como Neville Brothers. 
E foi nessa que senti as primeiras batidas daquela percussão hipnótica em My Blood, não menos do que a voz do Cyril Neville lamentando as merdas que aconteciam na África e na América negra. E ainda acontecem. O sangue deles fervendo e, naquela hora, o meu também.
Em seguida, o saxofone de Charles Neville anunciou Yellow Moon, a música de um quase corno que dá nome ao disco cantada pelo irmão Aaron e que faz dançar a lot. Seja qual for o assunto, eles vão te fazer dançar. É New Orleans. 
Fire and Brimstone bota fogo na sala com sua potente parede de metais, cortesia de um dos grupos mais legais daquela cidade, os Dirty Dozen Brass Bands.  
A mudança de direção acontece com A Chage is Gonna Come. O tema clássico de Sam Cooke quebra o clima predominantemente dançante e mostra o lado religioso de New Orleans. Mais adiante, a parede de teclados de Will the Circle Be Unbroken vai nos levar pelo mesmo caminho da espiritualidade.   
Rosa Parks ficou famosa ao se recusar sentar em um banco destinado aos negros no fundo de um ônibus em Montgomery, no estado segregacionaista do Alabama. Foi presa e tornou-se símbolo da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Em Yellow Moon ela ganha o funk/rap Sister Rosa, reverenciando toda essa história de resistência.      
With God on Our Side e The Ballad of Hollis Brown foram modificadas daquele jeito que só quem tem coragem e sabe realmente o que está fazendo pra mexer com o velho Bob Dylan. 
Com um baixo marcante, Wake Up assume toda a dramaticidade de um tema anti bélico, assim com em With God on Our Side. Após trinta anos, nada mudou na cena política. 
Hipnótica, Healing Chant não podia ser mais vodu. Se você assistiu o filme Coração Satânico, lançado na mesma época de Yellow Moon, vai saber do que estou falando. As imagens vão vazar do teu cortex na hora. Coisa que Voodoo não é. Fala sobre o assunto, mas é um mezzo funk bem menos impressionante que a outra.  
O disco fecha com Wild Injuns apontando, já naquela época, para o que acontece hoje nos palcos e ruas da cidade mais diversa e musical dos EUA. Funk até umazora.  
Enfim, Yellow Moon é pop e genial ao mesmo tempo. Poucos artistas sabem fazer a mistura como os irmãos Neville. Uma aula de música, de história, de New Orleans.    
O time inclui Aaron Neville (voz, teclados, pecussão), Art Neville (voz e teclados), Charles Neville (sax, percussão, backing vocais), Cyril Neville (voz, bateria, percussão), Brian Stoltz (guitarra), Tony Hall (presença continua nos festivais do Bourbon Street em São Paulo, no baixo, percussão, backing vocais), Willie Green (bateria), Brian Eno (teclados, efeitos sonoros, e voz em A Change is Gonna Come), Daniel lanois (guitarra, teclados e backing vocais), Malcolm Burn (teclados, guitarra), The Dirty Dozen Brass Band (sopros), Eric Kolb (programação de teclados), Kenyatta Simon a Kufaru Mouton (percussão em My Blood), Aashid Himmons and Terry Manual (teclados em Sista Rosa).  

Músicas:
My Blood
Yellow Moon
Fire and Brimstone
A Change is Gonna Come
Sister Rosa
With God on Our Side
Wake Up
Voodoo
The Ballad of Hollis Brown
Will the Circle Be Unbroken
Healing Chant
Wild Injuns



sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Luta de Classes

(Pra lembrar que o samba é e sempre será resistência)

Cresceu
O sentimento de ódio no peito do homem
Esquerda, direita e o povo morrendoo de fome
Dois lados da mesma moeda jogando com a sorte

A luta de classes já é uma realidade
A autoridade tem a obrigação de intervir
Mas também participa da promiscuidade
Corrompendo, pagando, roubando e morrendo de rir

O europeu que chegou nessa terra trazendo a tristeza
Roubou, estuprou e matou de maneira tão vil
Enganou o povo nativo de rara beleza
Disse que a terra era dele e chamou de Brasil

500 anos passaram e os loucos voltaram
Continua o extermínio do pobre e a escravidão
E a classe média que é gado e capacho do rico
Carrega uma arma no coldre e a bíblia na mão

E o samba que nasceu no morro e na opressão
Vai chorar e vai sofrer, mermão
Mas não vai se calar nesse momento, não

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A avalanche que veio do Canadá, Shawn Kellerman


Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: Cezar Fernandes

O apresentador anuncia Lucky Peterson Band, mas quem sobe ao palco é Shawn Kellerman (guitarra), Bruno Falcão (baixo), Flávio Naves (órgão) e Fred Barley (bateria). Os três últimos são figurinhas carimbadas no álbum do blues nacional, integrantes da requisitada banda Blues Beatles, já acompanharam vários figurões do blues por aqui.
Os caras sobem ao palco com um lutador sobe no ringue e atacam Love of Mine, energia pura em forma de shuffle, e Kellerman mostra que não viajou ao Brasil só para visitar as belas praias fluminenses. Faz jus à sua fama de performer  enérgico. A cena aconteceu no Rio das Ostras Jazz e Blues Festival (RJ), em junho desse ano, na primeira apresentação da banda, no palco Costazul.
O canadense Shawn Kellerman ainda é um desconhecido no Brasil, mas é o principal integrante da banda de Peterson desde 2012, depois de ter um trecho percorrido com a banda de Bobby Rush, participou do excelente Raw, disco acústico do cantor.
Guitarrista da geração pós Stevie Ray Vaughan, Kellerman entrou cedo em contato com o blues. Seu pai, um entusiasta  e integrante de uma banda amadora, foi o principal incentivador. Aliado ao fato de também ter tido contato com Mel Brown o guitarrista da banda de Bobby “Blue” Bland, que por sua vez foi um dos grandes cantores de blues de todos os tempos.
Kellerman lançou três discos em carreira solo: Land of 1000 Dreams (2007), Blues Without  a Home (2009) e Down in Mississippi (2015). Recentemente participou como músico e produtor do novo álbum de Lucky Peterson, o petardo 50 Just Warming Up!, celebração aos cinquenta anos de carreira de Peterson, de um dos grandes do blues atual.
Antes de sua entrada em cena no palco Costazul no Festival de Rio das Ostras, um dos maiores do Brasil, conversei com Shawn e com Peterson (entrevista já publicada aqui).
As foto publicadas no blog são do fotógrafo oficial do festival e meu grande amigo Cezinha Fernandes. A produção foi de Stênio Mattos.



Eugênio Martins Júnior - Li que teu pai foi o grande incentivador para você entrar na música.
Shawn Kellerman – Definitivamente ele começou isso. Comecei tocando em sua banda de blues de finais de semana. E  levava vantagem porque ele também era um promotor de blues. Então tive a oportunidade de ter contato com alguns blueseiros americanos quando iam ao Canadá, nos arredores de Toronto, onde eu vivia. E ele também me levava em viagens aos Estados Unidos onde pude ver BB King, James Cotton e Buddy Guy. Tinha apenas cinco anos de idade. Veja, ele teve uma banda e depois um clube e esses eram os motivos de viajar para os Estados Unidos frequentemente.

EM – Você falou sobre a coleção de discos dele, você lembra de alguns desses álbuns?
SK – Luther Allison, Albert Collins, Johnny Winter, Otis Clay. No Jazz, Oscar Peterson, Errol Garner. Muitos discos de rock. Mas ele amava Chicago blues, soul music, tinha muita coisa boa.

EM – Qual instrumento que ele tocava?
SK – Piano, mas não era profissional, era mesmo uma banda de final de semana. Mas foi o suficiente para me mostrar o caminho e me apoiar.

EM – Quando vocês saiam de férias iam para as cidades lendárias como New Orleans, Memphis, Austin. Como era isso? Vocês iam nos lugares famosos?
SK – Sim, tinha uns doze anos quando fui ao Chicago Blues Festival e Stevie Ray Vaughan era um dos headliners. E também fui aos clubes clássicos, Kingston Mines, me colocaram a pulseira preta porque não podia beber, mas me deixaram entrar e pude assistir Otis Clay.


EM – Chegou a tocar guitarra?
SK – Não, só tinha 12 anos. Mais tarde, aos 16 anos fui para Austin, Memphis, New Orleans em férias de verão.

EM – Quando então você começou na guitarra? Foi direto ao blues?
SK – Sim, tinha 15 anos e fui direto ao blues. Alguns anos depois o lendário guitarrista que tocou com Bobby Bland, gravou mais de 200 discos e todos os clássicos da ABC, Mel Brown, mudou para a minha cidade e passei a tomar aulas com ele. Impressionante isso ter acontecido. Ele passou a ser meu protetor, mas quando cheguei aos 22 anos ele disse que era hora de eu partir. Que deveria viajar pelo mundo e ganhar experiência. Ele e Otis Clay foram as pessoas que me disseram que eu estava em outro nível. 

EM – E o que você fez?
SK – Comecei dando telefonemas. E foi engraçado, liguei para três pessoas que eu conhecia e em dois dias já tinha trabalho e em duas semanas já estava na estrada profissionalmente. Podemos dizer que minha carreira profissional começou quando tinha 22 anos. Desde então viajei por mais de 40 países atuando em diferentes bandas. 

EM – Recentemente entrevistei a Dawn Tyler Watson uma cantora canadense. Há uma cena forte, com grandes destaques vindo do Canadá. Gostaria que falasse sobre isso.
SK – Conheço a Dawn. Há alguns festivais espalhados pelo Canadá. Mudei pra lá recentemente e tenho tocado com alguns artistas, mas meu amor é o blues americano e procuro tocar com os artistas de lá.

EM - Onde você vive atualmente?
SK – Vivo em Ontário. Já morei em Washington DC, e quando toquei com Bobby Rush morei no Mississippi. Tenho tocado nos Estados Unidos, Europa e Canadá.


EM - Shawn, assisti teu show ontem e percebi que você entra no palco como um lutador entre no ring. É essa energia que você quer entregar ao público nas tuas apresentações?
SK – Quando era jovem vi Freddie King e mais tarde Luther Allison e via que essa atitude com a audiência era importante Tinha a ver com entregar um show. Você sabe, a música é paixão. Assisti os blueseiros antigos e vi a energia que eles empregavam. 

EM – Se trata de entregar ao público uma boa experiência?
SK – Exato. Tem a ver com dar bons momentos às pessoas.

EM - Quando e como começou a parceria com o Lucky Peterson?
SK – Conheci Lucky em 2005. Mas me tornei membro da banda em 2012. Tem sido ótimo, acabamos de produzir o disco 50 – Just Warming Up! Comemorando seus 50 anos no negócio. Bem, ele é como um mentor pra mim. Foi um prazer colocar minhas habilidades de guitarrista e de produtor nesse momento de sua carreira. Ele é um dos grandes músicos de blues vivo e é mais novo entre muitos. Buddy Guy, por exemplo, é quase trinta anos mais velho do que o Lucky. E Lucky continua produzindo blues tradicional.

EM - Como é tocar com Lucky Peterson? Como é essa troca? Ele com uma linguagem mais tradicional e você fazendo um som mais pesado.
SK – Bem, não sei... às vezes você não pode trazer essa energia ao tradicional. Mas quanto maior o contato com o lugar de onde vem as raízes, você passa a senti-las Carrego o blues, o jazz e também um pouco dessa agressividade e um pouco de rock and roll. Temos isso em mente. O núcleo sempre será Muddy Waters, Freddie King, Mississippi Fredie McDowell. Temos de ter sempre o mesmo pensamento que é o de fazer diferente em 2019, e ir progredindo. E tudo bem, tudo progride. Mas sem esquecer de onde as coisas vieram.    

EM - Ontem foi o quinto show de uma turnê que inclui sete. Como tem sido essas apresentações no Brasil?
SK – Tem sido maravilhoso. Estou impressionado com as distâncias entre os shows. A hospitalidade das pessoas tem sido ótima. Você sabe, aqui se respeita a tradição musical dos Estados Unidos, que é o blues. As pessoas entendem a linguagem.

EM – Temos uma cena blueseira que sobrevive há anos. Já ouviu falar?
SK – Não sabia. É minha segunda vez no Brasil. Estive nesse mesmo festival há alguns anos. Não posso dizer que sou um conhecedor.