terça-feira, 3 de março de 2026

Do Chile ao Brasil, Samuka Cartes faz jazz ao sul do mundo

 

Samuka Cartes (Jazzb - 02/2026)

Texto e fotos : Eugênio Martins Júnior

Samuel Cartes chegou ao Brasil com o objetivo de estudar música. Após passar um período na Bahia em contato com todos aqueles ritmos, o que lhe deu régua e compasso, foi para Tatuí estudar no famoso conservatório. 
Já em São Paulo, adotou o apelido dado pelos músicos brasileiros como nome artístico e hoje mora e apresenta a sua arte na cidade mais vibrante para a música da América Latina.
Há um ano lançou Ao Sul do Mundo, seu primeiro disco solo, reunindo um time com músicos de Cuba, Venezuela, Peru e Brasil.
Além de composições originais, o álbum apresenta algumas releituras, incluindo a catártica La Muerte Del Angel, de Astor Piazzolla; El Cigarrito, de Víctor Jara; O Futebol, de Chico Buarque; e Anu Preto do lendário baixista brasileiro Sizão Machado, que participa em diversas faixas do disco.
Das onze faixas, oito são instrumentais e três cantadas. Uma parceria póstuma com o poeta Paulo Leminski, a canção Um Passarinho Volta Pra Árvore, que contém um trecho do poema Dança da Chuva, do livro Toda Poesia. A canção é interpretada por Talitha Lessa, que também assina a composição ao lado de Paulo Leminski e Samuka. 
Ainda com Thalita, Samuka mantém um trabalho há alguns anos, o Duo Camaleão, que apresenta músicas brasileiras e latino-americanas.  
Na noite a qual a entrevista foi realizada, Samuka se apresentou no Jazzb com o Surtango agrupamento com músicos argentinos, Marcelo Ahumada (bandoneón) e Luiz Maria Lanzani (violão); brasileiros, Carolina Ribeiro (violino) e Carlos Ribeiro (contrabaixo).
“O grupo nasceu em 2022. Tem a formação do quinteto do Piazzolla. Sentimos a necessidade de uma formação aqui em São Paulo dedicada ao tango. O Luiz que é de Buenos Aires e o Marcelo que é de Córdoba”, explica Samuka. 


Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical?
Samuka Cartes – Foi em Santiago, no Chile. Estudava em uma escola pública onde havia um projeto social que ensinava música às crianças aos sábados. Foi quando comecei a levar a sério a minha formação musical. Tinha alguns parentes que já tocavam músicas chilenas em festas populares e outros na igreja, mas ninguém era profissional. 
Fui o primeiro da minha família a levar a música como profissão. E foi uma história engraçada. Fiquei sabendo sobre esse projeto social em cima da hora de fazer a inscrição. Queria aprender violão porque eu já tocava. Mas só tinha vaga para o curso de teclado e o diretor me disse que era pegar ou largar. Então eu entrei com o objetivo de passar mais tarde para o violão, mas acabei me apaixonando pelas teclas e virei pianista.         

EM – Bacana. Um projeto que ensina música na escola pública? 
SC – Sim. E esse projeto já existia na Venezuela e o Chile imitou. Era um projeto de formação musical para crianças e jovens. No Chile se chamava Formação de Orquestras Infanto Juvenis. 

EM – De que ano a gente está falando?
SC – Estamos falando em 2003. Estava saindo do ensino fundamental e indo para o ensino médio. 

EM – E quando começou a vida profissional?
SC – O professor percebeu que eu tinha aptidão para o piano. Quem nos dava aula eram estagiários que estudavam na Universidade do Chile e que por sua vez também recebiam aulas de professores, esses sim, mestres. 
Ele me disse para preparar um bom repertório que ia me apresentar para a sua professora. Por sua vez, essa professora me aconselhou a fazer piano clássico com a sua mestra. Assim a história começou. 
No Chile você não estra direto na faculdade. Primeiro você faz quatro anos e conservatório e depois passa oito anos estudando na universidade. Mas quando entrei no conservatório já foi num nível avançado e me formei em piano clássico. Depois disso passei um tempinho na Alemanha. 

Marcelo Ahumada e Carlos Ribeiro (Jazb - 02/2026)

EM – E como foi a transição entre a música clássica e o Jazz?
SC – Eu tinha um gosto muito forte pela improvisação. Pelo jazz, mas principalmente pela música sul-americana. Conheci rudimentos da música cubana, a improvisação e a mistura com o jazz por meio de alguns maestros cubanos que moravam no Chile Me apaixonei por esse mundo. E fui um pouco malvisto pelo meio da música erudita, um sentimento de traição. E percebi que na Alemanha o foco não era esse. Frequentava os clubes de jazz, em Berlim tem o B-Flat, festivais, etc. E decidi que queria fazer jazz. Mas achava o jazz europeu um pouco frio, né? Sem aquele motor rítmico que a gente tem aqui na América Latina. Um colega chileno me perguntou se eu gostaria de vir ao Brasil, para o Conservatório de Tatuí. Eu já gostava muito da música do Hermeto Pascoal, do André Marques, seu pianista. Estudar a música brasileira e a improvisação me abriu um horizonte.

EM – Realmente a música brasileira é muito rica em todos os aspectos.
EM – O que hoje me pega muito é a canção brasileira. Com relação às letras, não há nada igual. Você pode ter lindas canções em espanhol ou em inglês, mas as brasileiras são foda. Você escuta o Milton Nascimento e percebe como é impressionante. 

EM – Com quantos anos você chegou no Brasil? 
SC – Cheguei com 21 anos e fui direto pra Salvador. Fiquei impressionado com a música baiana, afro-brasileira. E tive a sorte de, sem saber quem era, conhecer o maestro Letieres Leite. Me disseram que ia ter um ensaio e me perguntaram se eu gostaria de ir. Quando vi era o Letieres Leite.  Mas na época eu não sabia de sua importância.

Luiz Maria Lanzani (Jazzb - 02/2026)

EM – Como vê a cena musical de São Paulo?
SC – Como você falou, é a Meca do jazz no Brasil e na América do Sul. Não há outro lugar igual a São Paulo. Mesmo um lugar que é forte culturalmente como Buenos Aires não se compara a São Paulo. Aqui você tem tudo. 
Vejo a cena instrumental muito forte e a cada dia abre-se mais espaço para a música latino-americana. Me disseram que há anos também aconteceu isso. Mas hoje está chegando um pessoal novo. Está acontecendo uma troca muito linda e interessante entre os músicos brasileiros e latino-americanos.  

EM – E em Santiago, há uma cena de jazz?
SC – Tem uma cena interessante. Muitos musicistas, mas não existe a visão que se teve no passado no Brasil de misturar o jazz com a música nacional. Lá toca-se muito jazz norte-americano, estuda-se muito a escola do bebop, anos 40, mas misturar isso com os ritmos regionais é uma visão muito recente.

EM – O músico brasileiro tem essa facilidade em fundir os estilos. Fazemos isso há muito tempo, até antes da bossa nova. É uma liberdade artística, né? 
SC – Antes da ditadura o Chile estava fazendo muitas parcerias artísticas com o mundo todo. Victor Jara fez parcerias com músicos cubanos, fez parcerias na Rússia. Violeta Parra foi mostrar sua arte na França. (O Chile) Era aberto para o mundo. E quando chega a ditadura do Pinochet, em 1973, tudo isso acaba. Muitos desses artistas foram mortos. Na Universidade do Chile havia um enorme acervo de composições de ritmos latino-americanos. Ao mesmo tempo que o país sofre uma influência norte-americana muito grande.  
O que é legal aqui nas escolas de música é que você pode aprender sobre o bebop, mas também vai aprender sobre os ritmos brasileiros. E ainda temos a sorte te poder ver esses grandes maestros da música brasileira que estão vivos. E tenho visto ultimamente os brasileiros aprendendo linguagens sul-americanas. Tem músicos da latino-americanos dando aula por aqui. 

EM - Mais de 15 músicos de nacionalidades diversas participam desse disco: Cuba, Venezuela, Peru e diversos lugares do Brasil. A diversidade também vigora na escolha dos músicos. Gostaria que falasse sobre isso.
SC – Gosto muito de respeitar as linguagens dos gêneros musicais. Tive a sorte de gravar com o mestre Sizão Machado. O Eduardo Cubano é um músico importante. Eu precisava ter um pouquinho da América Latina, dessa identidade. O artista que entende a música do país dele toca com um tempero diferente. Gosto de manter isso. Por isso optei por essa diversidade. Geralmente os discos de jazz são de trio e de quarteto do começo ao fim, mas eu optei pela mistura, por aquela coisa colorida. Seja na canção ou no ritmo. Tenho uma parceria com o Marcelo Ahumada, que é argentino, em uma música do Astor Piazzolla. Ele me ensinou muito sobre a música da Argentina. Quando tocamos com o músico do país nós aprendemos o sotaque daquela música, aprendemos as gírias de cada lugar. 

EM – Bola Pa’ Frente é uma expressão brasileira muito usada em várias situações, por exemplo, para encerrar uma discussão sobre algum desentendimento: “Vamos nessa. Bola pra frente”. Gostaria que falasse sobre essa tua adaptação aqui no Brasil, com toda a complexidade do português e nossas expressões.
E pensei também que essa canção leva em conta o passado dos nossos países que sofreram com governos ditatoriais. Os países latino-americanos que sofreram com a repressão acertaram as contas com o passado melhor do que o Brasil lidou com isso. Paraguai, Uruguai, Argentina e Chile viraram essa página, menos o Brasil. Ou é uma viagem minha?  
SC – Essa canção nasceu no momento da pandemia, mas tem a ver sim. Inclusive temos trechos parecidos com os do Chico Buarque onde o Daniel canta: “Amanhã vai ser um novo dia”. 
Mas essa música nasce no contexto da pandemia. Havia acabado de perder amigos e aquele momento de incertezas, o tempo inteiro com notícias ruins. Me fechei no piano e pensei em colocar no papel as minhas ideias musicais e me dedicar aos estudos. Nasceu Bola Pa’ Frente. 
E vejo como uma mistura da rumba cubana, essa coisa alegre: “Vamos em frente que a vida segue”. O arranjo foi uma influência do Chick Corea, que escreve para os sopros. Havia acabado de escutar um dos últimos discos que ele gravou, o Antídoto (Antidote). Gostei muito dos arranjos para o sopro. A letra é uma parceria com o Daniel Barauna, cantor brasileiro que canta num grupo de música latina, o Quimbara.

Carolina Ribeiro (Jazzb 02/2026)

EM – O que significa morar ao sul do mundo em termos culturais e políticos? Qual é a história que você quer contar com esse disco?
SC – Ao Sul do Mundo tem o mesmo significado da imagem do mapa criada por aquele artista uruguaio. (Ele se refere ao manifesto político criticando o eurocentrismo do artista Joaquín Torres-Garcia, de 1943, que inverte o mapa colocando a América Latina no norte do planeta). É a ideia de que nós, como sul-americanos, conseguimos nos influenciar uns aos outros, construindo uma identidade própria. Mas o sul do mundo não é só a questão latino-americana. Também há a influência africana. Nós, como latino-americanos, recebemos as informações e conseguimos interpretar isso, e eu que sou do Chile, lá no final do planeta.  

EM - Você também gravou O Futebol, do Chico Buarque, que é uma levada samba jazz, só que a tua versão é instrumental, mas mantém o ritmo.  
SC – Aconteceu uma coisa engraçada. Essa música foi gravada por músicos que gostam muito de música brasileira, se dedicam a estudar a linguagem do samba jazz, mas que não são brasileiros. Temos o Jehison (Cruz Chávez) que é peruano, na bateria e o Alejandro Osorio, que é venezuelano, meu grande parceiro, tocou baixo. A letra fala sobre uma partida de futebol e eu sou apaixonado por futebol. No arranjo eu quis trazer isso, esse diálogo, essa interação que acontece no samba jazz. Se você escuta o Zimbo Trio, Sambrasa Trio, Trio Corrente eles interagem muito. Parece que estão brincando. É um diálogo nas células rítmicas do samba. E a letra fala sobre isso, “passa a bola”, vamos fazer o gol”, essa foi a ideia.   

EM – A seleção do Chile não se classificou para a copa do mundo de 2026. Agora ficou mais fácil torcer para o Brasil, né?
SC – (risos) Mas o Brasil também não está tão bom. O futebol mudou muito. Hoje é um futebol diferente do jogado nos anos 80 e 90. 

EM - E esse projeto que vai apresentar hoje?
SC – Muitos arranjos são meio “sagrados” ficam nas famílias do compositor, ou num círculo fechado, e não gostam que sejam difundidos. E muitas vezes tivemos que transcrever as gravações antigas. E são essas as versões que nós tocamos. Fazemos versões de tangos antigos, Osvaldo Pugliese, Astor Piazzolla, mas sempre respeitando a linguagem como eu te falei. Porque tem gente que traz muito do jazz, mas existe um sotaque que não deve se perder.


segunda-feira, 2 de março de 2026

John Paul Hammond, um dos grandes músicos brancos de blues, remanescente dos anos 60, morreu no último dia de fevereiro de 2026

 

Foto: Cezar Fernandes - Rio das Ostras 2009

Hammond sempre estará entre os nomes mais importantes da cena de jovens músicos brancos fãs de blues que apareceram nos anos 60.
O impressionante revival que trouxe à tona nomes como Mississippi John Hurt, Skip James, Son House, Rev. Gary Davis e outros, teve em Hammond uma de suas principais vozes. Ele interpretou temas dos anos 30, 40 e 50 como poucos. Tocava guitarra (acústica e elétrica) e gaita presa no pescoço e cantava como um verdadeiro bluesman.
Já nos anos 60 gravou seus principais discos: Big City Blues(1964), é considerado um dos primeiros discos de blues/rock; Country Blues (1964), que traz temas de seus ídolos, Robert Johnson, Blind Willie McTell, Sleepy John Estes, John Lee Hooker,  Willie Dixon e Jimmy Reed, um de suas maiores influências, que Hammond teve a sorte de ver o show no Apollo Theatre, em New York, sua cidade natal; So Many Roads (1965), um marco registrado pelo selo especializado Vanguard, que contou com as presenças de Robbie Robertson, Garth Hudson e Levon Helm, que mais tarde formariam The Band. Também participam Charlie Musselwhite e Paul Butterfield. E ainda I Can Tell (1967), pela Atlantic. Ao longo de sua carreira gravou mais de 20 discos importantes em qualquer discografia.
Filho de John Hammond Sr, um dos produtores mais importantes para o blues e jazz dos Estados Unidos, com seu nome ligado a Billie Holiday, Bob Dylan, Stevie Ray Vaughn, Hammond Jr não ligava para a fama. Fez sua trajetória longe da influência do pai. 
Em 1966, após sair da faculdade e voltar para a sua cidade, já estabelecido no Village, Hammond conheceu um jovem que procurava emprego como guitarrista e colocou-o na sua banda. Esse jovem era Jimi Hendrix. Eles se apresentavam no Cafe Au Go Go, quando Chas Chandler - baixista da banda The Animals – viu Hendrix pela primeira vez e o levou para a Inglaterra. O resto é história.
Nas redes sociais a comoção foi grande. Charlie Musselwhite, Shemekia Copeland, Duke Robillard, Bob Corritone, Bruce Katz (seu tecladista), Kim Wilson, Ronnie, além de muitos perfis dedicados ao blues lamentaram a passagem de John Paul Hammond.   
Até o momento a família se limitou a informar a morte de Hammond, mas não o que a causou. 
Tive a oportunidade de assistir a três shows desse grande artista. O primeiro em 1991, no Sesc Santos, e os outros dois no Rio das Ostras Jazz e Blues Festival, onde pude conversar com o cara. E entrevista está nesse blog.
Também foi em Rio das Ostras, no hotel onde ficávamos hospedados, antes da entrevista, registrei o encontro de Hammond com o Jefferson Gonçalves e o Kleber Dias após o café da manhã. Jefferson mostrou as gaitas com sua assinatura e o Klebão os instrumentos que fabrica. Lembro que tiraram o som de How Long ali, à queima roupa. 

Segue a entrevista:   
https://mannishblog.blogspot.com/2009/09/john-blues-explosion-hammond.html

Foto: Dayse Marchiori

Foto: Eugênio Martins Jr

Foto: Eugênio Martins Jr

Foto: Eugênio Martins Jr

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Hillai Govreen é a nova estrela na constelação de jazzistas de Israel

 

Hillai Govreen e Arthur Scarpini no Jazzb

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Se você trabalha a semana inteira e descansa no domingo agradeça a tradição judaica do Shabat, o sétimo dia da semana, o dia da consagração, o descanso de Deus após a criação. 
Sim, o costume de parar as atividades para focar na família, na espiritualidade e no lazer, ouvir música por exemplo, foi adaptado pelo cristianismo para o domingo e posteriormente estruturado no conceito moderno do "fim de semana" de dois dias. Aqui no Brasil, folga de dois dias é só para quem pode, né? 
Sobre Israel estamos muito acostumados a falar sobre a política, sobre religião, sobre os problemas regionais e territoriais, mas pouco sobre a cultura do país. 
Brincadeiras sérias à parte, há tempos tenho acompanhado os sons que vêm do oriente e percebido uma cena musical vibrante em Israel, país com quase dez milhões de habitantes. 
Cercado pela milenar e maravilhosa música Árabe e às vezes recebendo sua influência, Israel tem oferecido ao mundo grandes músicos, entre eles, Omer Avital (contrabaixo), Itamar Borochov (trompetista, filho de Yisrael Borochov), Hadar Niberg (flautista), Ester Rada (cantora), Avishai Cohen (contrabaixo) e os conjuntos Shai Maestro Trio, LayerZ. Todos já visitaram o Brasil em diferentes edições do extinto festival Jazz na Fábrica, promovido pelo Sesc Pompéia.
A clarinetista e saxofonista Hillai Govreen é a nova estrela dessa diversa constelação musical. 
Radicada nos Estados Unidos, onde dá os primeiros passos no mundo do jazz, acaba de lançar Every Other Now, álbum com nove faixas e muitas participações, entre elas a do percussionista Café da Silva, nas faixas 3, 4 e 8.
É um álbum classudo, de jazz tradicional e, como já disse, muitas participações: o excepcional Steve Cardenas (guitarra), Noah Stoneman (piano e rhodes), Ben Meigners (contrabaixo), Eden Ladin (piano e sinth), Eric McPherson e Willian West (bateria) e café da Silva.   
Em uma quinta-feira, subi a serra para bater um papo com Hillai antes de seu show no Jazzb que contou com Arthur Scarpini (guitarra), Jonatas Sansão (bateria), Daniel Grajew (teclados) e Ben Meigners.
Espero que curtam a conversa. E enquanto a folga de dois dias não chega, vamos tocando a vida e ouvindo boa música aqui no brasa. Shalon! 


Eugênio Martins Júnior - Como foi sua infância musical?
Hillai Govreen – Comecei tocando piano aos seis anos em Israel. Também tocava ukelelê em uma orquestra para crianças. Mais tarde passei para o clarinete, mas sempre no campo da música clássica. Meu pai tocava muita música. Ele ama a música brasileira que é muito popular em Israel. Muitos artistas são influenciados, como Matt Caspi, por exemplo, que fez versões para músicas de Chico Buaqrque.

EM – Há outros músicos na tua família?
HG – Sim, meu irmão toca guitarra, meu primo contrabaixo e meu pai e autodidata. Ele toca flauta e guitarra, mas não é profissional. 

EM - E como foi a transição do piano para os sopros? E do clássico para o jazz?
HG – Você sabe, meu professor de piano dizia que o piano era como se fosse o Deus dos instrumentos e que os sopros eram mais fáceis de tocar. Mas não é verdade. São dificuldades diferentes. Os sopros são parecidos com cantores. Você tem muitas opções, tenor, alto, soprano, etc.

EM – A cena jazzística é muito forte em Israel. Possui grandes nomes, como Omer Avital, Avishai e Anat Cohen, Ester Rada e muitos outros. Que inclusive já tocaram aqui em São Paulo. Gostaria que falasse sobre essa cena.
HG – Apesar de um país pequeno há muitos músicos e todos se conhecem e exercem influência mútua. As pessoas cresceram juntas e têm motivação em tocar. Há um músico que exerceu uma grande influência que foi Amit Golan. Ele veio para New York e tocou com muitos músicos e voltou a Israel para abrir uma escola e ensinar. Foi um movimento muito importante. E não era apenas um professor, ele convidava os alunos para ouvir música. E isso faz uma grande diferença.


EM – A troca de experiência?
HG – Sim. Porque acho que isso é que é importante. Você pode sentar e ensinar alguém e essa pessoa irá aprender. Mas quando você coloca um disco e há a troca de ideias sobre o que estão ouvindo é diferente. É um momento especial quando você é jovem.   

EM - Mesmo essa cena sendo forte, você sentiu a necessidade de ir para Nova York a grande cidade do jazz nos Estados Unidos. Como aconteceu isso?
HG – Lá há músicos de todo o mundo, América do Sul, Europa, África, Nova Zelândia. E quando se juntam o resultado é sempre interessante, porque apesar de culturas diferentes produzem uma música universal. Há muitos músicos brasileiros em New York. 

EM - Costumo dizer que mesmo a música instrumental não possuindo letras, ela também conta uma história. Qual é a história contada por Every Other Now?
HG - Acho que esse trabalho contém muita memória. Comecei a escrever as músicas quando a guerra começou, em 7 de outubro de 2023. Eu já estava em New York e foi muito duro saber que dois amigos do ensino médio morreram naqueles ataques. O tema The Day After é dedicado a um deles. E esse álbum também é uma cooperação com os integrantes da banda, porque tocamos muito juntos. Tocávamos todas as noites no meu estúdio sem parar, coletando material para o disco e chamando mais pessoas para se juntar a nós.

EM - É um disco onde os outros instrumentos também brilham, principalmente o piano e a guitarra. Gostaria que você falasse sobre isso.
HG – O guitarrista Steve Cardenas foi meu professor na escola de música. É um músico brilhante, tocava com Charlie Haden. Usamos uma de suas composições, Lost and Found. Seu jeito de tocar é minimalista, só usa as notas necessárias. Noah, o pianista, veio da Inglaterra. Toca muito, mas sem interferir. Tentamos muitas combinações e chegamos a essa conclusão a qual um complementa o outro. Às vezes com o Noah saindo da harmonia e depois voltando. E Steve tem um som lindo, muito melódico. 

Ben Meigners e Jonatas Sansão

EM – Sei que é sua primeira vez no Brasil. Mas você disse que ouvia música brasileira desde criança, pode falar sobre isso? 
HG – Sou apaixonada pela música brasileira. Tenho conhecido pessoas que têm me apresentado muitos discos. Gosto do conjunto, melodia, harmonia, ritmo. Os músicos estão abertos à improvisação e à conversação. O Café da Silva, um grande músico que tocou com Djavan e Stevie Wonder, tocou percussão no meu álbum. Quando estou em New York costumo tocar com ele no Central Park. Lá os músicos brasileiros sempre são muito bem-vindos. Conhecem tudo de música.

EM – Sim, temos uma tradição percussiva muito forte. Exportamos percussionistas para o mundo. Em todos os nossos gêneros musicais damos importância ao ritmo. Falando nisso, achei que The Day After, que tem a participação do Café, termina como um samba. Mas depois que você me falou sobre a inspiração que a levou a compor essa música mudei de ideia. 
HG – (Hillai ri, solfeja a música junto comigo e... discorda). É um 5X4. Conheci o baterista que toca nessa música em New Orleans. E o Café foi impressionante. Ele apareceu no estúdio, ouviu uma vez e tocou. Ele é muito rápido, muito profissional. Ele me ensina bastante falando sobre os ritmos. 

EM - Você é uma imigrante nos Estados Unidos, como se sente com relação à política de imigração de Donald Trump?
HG – É um grande problema. Horrível o que está acontecendo. Para mim, Bibi (Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel), Trump, Putin são pessoas do mal. Temos amigos venezuelanos que não podem mais ficar nos Estados Unidos. O processo de concessão de vistos foi dificultado para que as pessoas sejam deportadas. É horrível e não sabemos o que fazer a respeito.    

EM - Como se deu essa parceria com os músicos brasileiros para que essa turnê acontecesse?
HG – Conheci o Thiago Alves na Suíça há cinco anos e mantivemos contato esse tempo. Conversa vai, conversa vem acertamos alguns shows. Fui recebida aqui pela cantora Stephanie Borgani. São grandes músicos e têm me dado o suporte e me mostrado muitas coisas. Após um show fomos ao Bar do Julinho onde ouvi uma roda de choro. Uma música fascinante. Depois de São Paulo vou para o Rio de Janeiro.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

The Adicts volta ao Brasil em turnê definitiva

 

Foto: Flávio Santiago

A banda punk The Adicts, fundada nos anos 70 e cuja estética é inspirada no filme Laranja Mecânica, traz a São Paulo, no dia 18 de março, a Adios Amigos Tour. O show acontece no Carioca Club, coroando quase cinco décadas de carreira.  
The Adicts é mundialmente conhecida pelo visual droog, em alusão à forma como se vestiam os colegas do carismático sociopata Alex (Malcolm McDowell) no filme Laranja Mecânica.
Assim como a estética, a sonoridade do grupo inglês causou impacto na indústria fonográfica ao longo de décadas, seja pelo vigor do punk rock cultuado desde os primórdios, seja pelos experimentalismos nos anos 80. Sem nunca abandonar o som visceral. 
As últimas passagens do The Adicts pelo país aconteceram em 2016 e 2019, em ambas as ocasiões com shows lotados em apresentações vibrantes com o público cantando, suando, gritando e pogueando em cada música.
O The Adicts tem à frente o carismático vocalista Keith Monkey Warren, um showman que atravessou décadas prestando serviço ao punk rock. Suas performances são entretenimento garantido, com muito confete, glitter e serpentina.
De volta à capital paulistana em 2026, The Adicts promete uma festa, com hits de todas as décadas, como Viva la Revolution, Bad Boy, Falling in Love Again, Chinese Takeaway, Johnny Was A Soldier, Easy Way Out, Numbers, Songs Of Praise, Steamroller e muitas outras.

Serviço:
Show: The Adicts
Data: 18 de março de 2026 (quarta-feira)
Horário: 19h (abertura da casa)
Local: Carioca Club
Endereço: Rua Cardeal Arcoverde, 2899, Pinheiros - São Paulo/SP

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Ainda por complicações causadas pela Covid 19, morreu Dave Riley, cantor e guitarrista de de blues

 


Parceria certeira: Dave Riley e Bob Corritone

Recebi ontem um e-mail do amigo Bob Corritone, gaitista de Chicago, sobre a morte de seu grande parceiro, o guitarrista e cantor Dave Riley.
O som de Riley remete às mais profundas raízes do blues de seu estado, o Mississippi.  
Bob ressalta isso em sua mensagem e lembra a parceria prolífica que rendeu muitas gravações em inúmeros discos. 
Dave Riley nasceu em 19 de março de 1949 e morreu em 04 de janeiro de 2026 por complicações causadas pela Covid 19. Segue a mensagem:

“É com tristeza que informo o falecimento do meu amigo e parceiro de longa data no blues, Dave Riley. Nascido e criado em Hattiesburg, Mississippi.
O blues autêntico de Dave Riley refletia suas raízes nos bares de blues do Delta. Ele ficou conhecido no mundo do blues por seu trabalho com Frank Frost, Sam Carr, John Weston e Fred James. 
Dave tinha uma personalidade marcante e sempre incentivava seu público a se divertir muito. Nos conhecemos no King Biscuit Blues Festival de 2004, por intermédio de Tom Coulson. 
Dave morava na região de Chicago e tinha família em Phoenix, que visitava com frequência. Começamos a trabalhar juntos em 2005 e imediatamente percebemos a grande afinidade estilística entre nós. Isso nos levou a gravar o primeiro de nossos três álbuns, o que nos rendeu shows, apresentações em festivais e turnês internacionais. Tantos shows incríveis e aventuras fantásticas!
Mas quando a pandemia chegou, em 2020, Dave contraiu Covid e sofreu um AVC grave que o deixou impossibilitado de tocar ou cantar. A saúde dele foi se deteriorando gradualmente e, nos últimos meses, Dave estava entrando e saindo do hospital. Recebi a notícia do falecimento de Dave por meio de seu filho, Yahni, ontem à tarde. Dave fará muita falta. Tantas lembranças lindas. Tantas apresentações incríveis de blues. Descanse em paz, querido Dave”.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

PIL, a banda do encrenqueiro Johnny Rotten, toca em São Paulo em abril

 


Foi uma espera de 34 anos, mas Public Image Limited (PIL), banda do John Lydon (Johnny Rotten) pós Sesx Pistols, pisa no brasa em abril de 2026 para show único. A apresentação acontece no dia 08 de abril de 2026, no Terra.
O PIL é aclamado como uma das bandas mais criativas e viscerais do pós punk, por colocar rock, dub, dance, folk e pop, tudo no mesmo balaio.
A música e visão da banda renderam cinco singles no Top 20 do Reino Unido e 5 álbuns no Top 20. O álbum Metal Box, de 1979, por exemplo, é considerado um marco do pós-punk, que esticou os limites do rock, levando-o a territórios mais ambiciosos.
O show no Brasil em 2026 faz parte da This Is Not The Last Tour (“Esta Não é a Última Turnê”), que começou em maio de 2025 em Bristol, Reino Unido, e já passou por importantes festivais como o Forever Now Festival, Rebellion Festival e o Putting the Fast in Belfast.
A extensa turnê acontece após Lydon acreditar que a banda não voltaria mais a excursionar. Seu amigo de longa data e empresário, John Rambo Stevens, faleceu repentinamente após a última turnê do PiL, em dezembro de 2023, pouco depois da morte da esposa de Lydon, Nora, em abril de 2023. Naquele momento, Lydon achou que seus dias de turnê haviam terminado.
No entanto, ele ficou impressionado com o apoio dos fãs durante sua turnê de Spoken Word pelo Reino Unido, realizada na primavera deste ano. À época, Lydon disse: "O que aconteceu é que as pessoas foram incrivelmente positivas, e me pediram para excursionar com o PiL novamente. Com tanta gente pedindo, e sabendo o quanto a banda significa para eles, eu não podia simplesmente ficar no meu sofá sem sair em turnê — por mais tentador que isso fosse.”
Após liderar os Sex Pistols, John Lydon formou os pioneiros do pós-punk Public Image Ltd (PiL). Com uma formação em constante mudança e um som único, Lydon guiou a banda desde o álbum de estreia “First Issue” (1978) até “That What Is Not” (1992), antes de um hiato de 17 anos e no retorno em 2009.
A reunião de 2009 mostrou que o PiL não era apenas um projeto de juventude, mas uma banda com vida longa, capaz de reinventar-se e manter relevância. Para muitos críticos, essa volta deu a Lydon a chance de reafirmar sua faceta mais criativa, muito além do legado dos Sex Pistols.
O álbum mais recente do Public Image Ltd (PiL) é End of World, lançado em agosto de 2023. A Pitchfork destacou que a voz de Lydon continua “cativante e, ocasionalmente, surpreendentemente comovente”.
Além de John Lydon nos vocais, o PiL de hoje é Lu Edmonds (conhecido como guitarrista do The Damned no fim dos anos 1970 - guitarra, teclados, backing vocals e outros instrumentos como sax, banjo), Scott Firth (baixo, teclados, backing vocals) e Mark Roberts (bateria desde 2025).
Vale mencionar que o próprio Lydon desenhou a nova versão do logo do PiL para o merchandising da atual turnê. Ele falou que simboliza um novo começo para a banda. Mas a antiga é mais legal.

Serviço:
Show: Public Image LTD em São Paulo
Data: 8 de abril de 2026
Local: Terra SP (Av. Salim Antônio Curiati 160, São Paulo, SP)
Ingresso: https://fastix.com.br/events/public-image-ltd-em-sao-paulo

domingo, 5 de outubro de 2025

Fantazmaz chega ao Brasil em outubro em cinco shows

 O punk ácido, feroz e rápido da Fantazmaz, banda com raízes brasileiras baseada em Londres, chega ao Brasil em outubro em cinco shows.


O primeiro será no dia 17 de outubro em São Paulo, no Bay Area na capital e 18 no Maali, em Campinas; no dia 19 no festival Lucky Friends Rodeo, em Sorocaba; de volta a São Paulo, dia 23/10 no La Iglesia; encerrando, dia 25 na Cervejaria Tarantino, também em São Paulo.
Mas o primeiro compromisso da Fantazmaz no brasa é dia 15 de outubro na loja London Calling, na Galeria do Rock (São Paulo/SP). Será um encontro com os fãs e a banda venderá merchandising neste dia, como o vinil Fantazmaz, o álbum de estreia.
"Estamos super empolgados pra voltar pra casa com os Fantazmaz, depois de tantos anos fora, e ainda levar nosso batera gringo: o Jamie (ex-UK Subs e SNFU) vai com a gente, o que vai deixar a tour ainda mais especial", conta Thamila.
Ela conta que desde que começaram a anunciar a turnê, já receberam muitas mensagens de antigos e novos fãs. "Também recebemos várias mensagens de fãs da nossa banda antiga, o Vilania, dizendo que vão colar nos shows. A gente tinha uma fanbase bem fiel".
Os shows do Fantazmaz, revela Thamila, são rápidos. "A gente até brinca antes de subir no palco: “bora, show Zeke, né?” Que significa: rapidão, altíssimo e non stop! A gente adora tocar uma música atrás da outra e suar muito".
Fantazmaz, o disco, foi gravado no Monolith Studio, na Zona Norte de Londres, conhecido por gravar bandas de metal e HC. Nas plataformas digitais, o álbum saiu via Repetente Records, selo de dois músicos do CPM 22, Badauí e Phil Fargnoli junto ao diretor artístico Rick Lion.
“A chance de sairmos desse caos global é mínima e, pra ser sincera, a gente nem se importa mais em explicar o porquê. Tá tudo aí, escancarado. Esse é o sentimento. Escuta o álbum", comenta a vocalista Thamila Zenthöfer.

Os ingressos estão à venda pelo link: https://linktr.ee/fantazmaz