quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Crescemos assistindo Alan Parker

Parker e Rourke no set de Angel Heart (1987)

Na manhã da sexta-feira, 31 de julho de 2020, as redes sociais bombaram a notícia sobre a morte do diretor Alan Parker. A comoção toda mostra o quanto o diretor britânico era popular. Na faixa etária dos 50, todos crescemos assistindo Alan Parker. 
E a minha primeira experiência nos cinemas de Santos com o diretor foi o proibido Midnight Express (1978). Drama pesado sobre drogas e cadeia com Brad Davis, Bo Hoskins, John Hurt e roteiro de Oliver Stone. Exibido no Brasil cheio de ressalvas por causa da ditaduta. Devo ter feito alguma falcatrua pra conseguir entrar no filme essa época. Fiz váaaaarias.
Meu segundo Alan Parker foi Fame (1980), filme muito mais leve, mostrava as desventuras de jovens pretendentes à carreira artística com uma trilha sonora bem legal. A cena do intervalo na cantina, com aquela malandro com as baquetas, fica na nossa memória pra sempre.
O estrondoso The Wall (1982), todo mundo lembra, foi baseado no disco conceitual da banda Pink Floyd, uma das mais populares do mundo. É um musical que mostra a tragédia da guerra e a opressão do sistema de ensino britânico. Bob Geldof é o protagonista.
Birdy (1984), com Matthew Modine e Nicolas Cage (com atuação impecável de Cage, antes de se transformar num daqueles justiceiros das telas que os americanos adoram), conta a história de dois amigos suburbanos – quase white trash – enviados ao Vietnan para lutar por valores que eles não usufruem. Filme com atmosfera triste e perturbadora acentuada pela música de Peter Gabriel.
Meu preferido, Angel Heart (1987), mostra a procura do cantor Johnny Favorite pelo detetive Harry Angel. Contratado por Louis Cyphre (Lúcifer?), Angel mergulha no perigoso mundo das artes ocultas e da sua prórpia degradação. O pano de fundo é uma New Orleans que pouco conhecíamos até então, uma cidade com subúrbios sombrios e pobres, onde a prática do vodú suplanta seu lado musical e festivo. Super elenco com Mickey Rourke, Robert De Niro, Charlotte Rampling e a jovem Lisa Bonet. O filme traz ainda nomes do blues como Brownie McGhee, Sugar Blues, Pinetop Perkins e Lillian Boutté. A trilha sonora é de Trevor Jones, que também responde por Mississippi Burning.
Em Mississippi Burning (1988), Parker volta ao sul dos Estados Unidos pra mostrar o lado racista daquela sociedade doente. Gene Hackman e Willen Dafoe seguem o rastro de quatro ativistas de direitos civis “desaparecidos” no cafundós de um dos estados mais racistas da América.
“Os Irlandeses são os negros da Europa e os dublinenses são os negros da Irlanda”. Com essa premissa, Parker conta a história de um grupo de jovens que se reúnem para levar avante sua paixão, a música, montando uma banda de soul music em plena Irlanda. The Commitments (1991) é sobre uma viagem ao universo de Wilson Pickett, Otis Redding, Sam Cooke e outros baluartes da soul music reinam na trilha. 
Parker fez outros filmes, mas nem vi. Evita, dizem, é ruim. Prefiro ficar com os legais.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Eric Assmar e o legado do blues da Bahia

Eric Assmar (Sesc Santos - 19/01/13)

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Em uma das vezes que estive com o blueseiro baiano Álvaro Assmar ele me perguntou: 
- “Você já ouviu meu filho tocar?. Rapaz, o garoto está num nível muito alto. Não é por que é o meu filho não, tá?”. 
-Sei, “respondi”.
Dois anos depois tive a oportunidade de ouvir e ver Eric Assmar tocando de verdade, em uma gig com o próprio Álvaro, aqui no Sesc Santos. 
Logo depois conheci seu primeiro álbum, o Eric Assmar Trio com temas cantados em inglês e português com a guitarra como protagonista, num conjunto em formato de power trio.
Gravado em 2011, em Salvador, no estúdio Em Transe, o CD conta com 11 temas compostos pelo prórpio Eric e apresentados por Rafael Zamaeta (baixo) e Thiago Gomes (bateria). Álvaro Assmar aparece na produção e no violão em Hanna.
Mesmo tocando blues, os ares musicais da “Roma Negra” fazem bem a qualquer artista. A matriz musical é a mesma, a África. Gosto de citar isso em várias entrevistas que faço com os gringos, orgulhoso das dezenas de ritmos espalhadas pelo continente Brasil.
Orgulhoso também em saber que meus dois livros Blues – The Backseat Music serviram como material de pesquisa  para uma tese de doutorado sobre música construída por Eric Assmar. 
Eis aqui mais uma entrevista. Com um dos talentos que já está na cena há um tempo, mas só agora começa a colher os frutos do trabalho, toda uma geração de blueseiros nativos que inclui, Tiago Guy, Fillipe Dias, Pedro Bara, Leo Duarte, Simi Brothers, Bia Marquese, Bidu Sous e tantos outros.


Eugênio Martins Júnior - Como foi a tua infância musical na Bahia? Com o axé e os batuques de Salvador da porta pra fora e o blues da porta da rua pra dentro.
Eric Assmar – Sendo filho de um músico de blues e um fã de rock clássico, absorvi muito dessa influência ainda na infância. Meus pais se separaram quando eu ainda era muito guri, não vivi na mesma casa que o meu pai durante a infância, mas sempre estivemos juntos e tomei muito gosto pelo rock and roll, começando por Beatles, Black Sabbath, Deep Purple, Zeppelin, Hendrix, esses clássicos. A guitarra me fascinava. Via na figura do guitarrista algo como um super-herói, alguém com superpoderes. Gostava muito de músicas que traziam a guitarra como instrumento de destaque. Curtir esse tipo de rock antigo era algo um pouco "fora da curva" pra um guri soteropolitano nascido em 1988, mas acredito que o ambiente com o qual você convive regularmente tende a influenciar bastante essa coisa do gosto musical na infância (no meu caso, a família). A cultura baiana, de um modo geral, é riquíssima, com tradições ligadas a religiões de matriz africana que também são oriundas da diáspora negra africana, tal como aconteceu com o blues nos Estados Unidos. Tenho orgulho de ter nascido e crescido em Salvador, sou um apaixonado por essa cidade, que percebo como um lugar de muita diversidade. Existem "tribos" musicais muito variadas, inclusive uma história de muitos artistas de rock incríveis, que vieram de Salvador e se tornaram referências em âmbito nacional.

EM – A gente percebe que o teu pai era um blueseiro clássico e você já vai um passo além. Mais puxado pro blues rock. Gostaria que falasse sobre isso. 
EA - Acho que vem por conta de um caminho que talvez seja comum a muitos músicos de blues brasileiros: tive o primeiro contato com o blues diluído em canções de rock ou em versões de clássicos blueseiros gravadas por nomes do rock. É um pouco aquela coisa de primeiro descobrir Clapton, Stones e Led Zeppelin, para depois perceber que muitas daquelas canções, na realidade, são de autoria de Robert Johnson, Muddy Waters, Willie Dixon, etc. Me tornei um grande fã do formato power trio. Me fascina a ideia de ouvir uma massa sonora gorda vindo apenas de três caras tocando. Grupos como o Cream, Jimi Hendrix Experience, Band Of Gypsys, Grand Funk Railroad, SRV & Double Trouble são referências que curto bastante e me inspiraram a formar o Eric Assmar Trio, em 2009. O grupo acabou tomando mais esse caráter "bluesrocker" por conta dessas inspirações e acredito que pela minha maneira de compor. Procuro ser o mais espontâneo possível, tocar a música que tá no coração e na mente.

EM – Você gravou dois CDs nesse formato. Gostaria que contasse a história desses álbuns e falasse um pouco sobre o trio 
EA - O trio surgiu quando recebi um convite do amigo João Carlos Guia, produtor de eventos, perguntando se eu toparia montar um trabalho solo para tocar blues com a minha cara, do jeito mais espontâneo pra mim. João já tinha um contato cotidiano comigo em minha atuação como músico em bandas ou sideman, antes disso, e foi um grande incentivador desse projeto solo. Convidei meus amigos Rafael Zumaeta (baixo) e Ricardo Ubdula (bateria), começamos tocando alguns covers de blues/rock e, aos poucos, fui compondo mais e, em 2012, lançamos o "Eric Assmar Trio", já com o amigo Thiago Gomes na bateria. O Ubdula mudou-se para o Canadá nessa época. Circulamos bastante promovendo esse primeiro trabalho, que foi gravado inteiramente ao vivo em estúdio, com produção minha e do meu pai (Álvaro Assmar). Minha ideia era um disco o mais cru possível, que desse ao ouvinte a sensação de estar ouvindo uma apresentação ao vivo, sem muitos overdubs. Em 2016, já com Thiago Brandão na bateria e vocais, lançamos o Morning, que é o segundo trabalho. Nesse disco, já fui mais para a coisa das canções, deixando fluir a inspiração do momento com composições que envolvem mais elementos. Também foi uma produção minha e do meu pai e, desde que foi lançado, circulei bastante com o Trio e sou muito grato por esses dois trabalhos. No momento, sigo produzindo o terceiro.

Eric e Álvaro Assmar (Sesc Santos)

EM – Há nove anos eu perguntei pro teu pai e agora vou perguntar pra você: como vê a cena blueseira nacional aí de cima, da Bahia? O que mudou em todo esses tempo?
EA - Vejo uma cena muito fértil, são muitos artistas fazendo blues em várias partes do país, inclusive aqui na Bahia. Os festivais também são muitos e são oportunidades bem legais de congregar artistas diferentes e, também, vejo neles um ótimo potencial de formar público. O blues não é um gênero tipicamente brasileiro, mas vejo que existe um nicho grande de pessoas que gostam dessa música, e até leigos que se surpreendem positivamente ao ouvir pela primeira vez e se apaixonam. Pessoalmente, gosto da ideia de poder contar a minha história fazendo blues do meu jeito, através das canções autorais e de releituras que façam sentido pra mim em determinado momento, mas acho que a criação e o fazer musical são livres, cada músico deve fazer aquilo que o faz sentir-se bem. Nesse sentido, considero a cena do blues no Brasil bastante diversa, você tem artistas de vertentes blueseiras muito diferentes produzindo novos materiais e alguns mais focados em covers. Imagino que a demanda de mercado, mais ligada ao entretenimento, possa ter alguma influência sobre esse aspecto, mas acho que as coisas podem coexistir, perfeitamente. Acho inclusive saudável que haja essa diversidade de propostas.

EM – Você é um dos poucos músicos que compõe letras em inglês e português. O teu primeiro CD foi dividido, mas no mais recente você preferiu as letras em inglês. 
EA - Isso. Tento deixar a ideia musical o mais livre possível. Quando componho, tem vezes em que as ideias vêm em inglês, enquanto em outras vezes elas vêm em português. Acredito que compor blues em português seja um pouco mais difícil, por conta da própria sonoridade do gênero não ter originalmente sido concebida na língua portuguesa, mas nós temos ótimos exemplos de grandes letras de blues ou de canções bluesy escritas em português, o que pode ser observado, por exemplo, em alguns trabalhos do André Christovam, do próprio Álvaro Assmar, além de grandes poetas do rock brasileiro como Raul Seixas, Renato Russo, Cazuza, etc. Eu gosto de exercitar as duas coisas, mas me agrada a ideia de deixar a criação o mais livre possível. Desde que me sinta representado por aquela canção e seja algo vindo do coração, o fato de ser em português ou inglês acaba sendo uma consequência com a qual não me importo muito.

EM - Você usou um dos meus livros para formular tua tese de música na faculdade. Gostaria que falasse como foi isso.
EA - Isso! Foi, na verdade, a minha tese do Doutorado em Música pela Universidade Federal da Bahia (PPGMUS/UFBA), que concluí em 2019. O trabalho é na área da Educação Musical e trata sobre o ensino da guitarra blues no Brasil, identificando perspectivas metodológicas de materiais de estudo publicados aqui no país, entre livros, videoaulas e cursos online, e propondo algumas possibilidades nesse sentido. Os depoimentos de artistas de blues brasileiros que constam em seus livros são referenciais preciosos, pois os próprios participantes dessa cena do blues nacional contam suas histórias e as maneiras como percebem esse cenário, além, claro, dos estrangeiros que estiveram por aqui. São materiais fundamentais para entender nuances do blues nacional a partir das diferentes perspectivas das próprias pessoas "de dentro" desse universo. No meu mestrado, que defendi em 2014, escrevi uma dissertação sobre a prática do blues em Salvador, identificando falas e sonoridades dessa cena a partir de entrevistas com treze participantes. Fui costurando diálogos com essas pessoas, falando do meu lugar de pesquisador, mas sendo também um músico atuante nessa mesma cena. Aprendo bastante com a escrita desses trabalhos e percebo que isso, também, me faz perceber minha própria atuação como músico de outra maneira. Sou muito grato por ter tido a oportunidade de cursar mestrado e doutorado, podendo imergir em temáticas ligadas ao blues, que é o que mais amo.


EM – Você herdou o programa do teu pai, o Educadora BLues. Como foi essa retomada? 
EA - Pois é, na verdade foi uma consequência inesperada. Em dezembro de 2017, meu pai sofreu um infarto fulminante e faleceu de repente, aos 59 anos. Ninguém esperava aquilo, foi uma circunstância absolutamente traumática e dolorosa. Eu tinha tocado com ele em uma sexta em Salvador, viajei para fazer dois shows fora no fim de semana (Ilhéus-BA no sábado e São Paulo no domingo), conversei com ele por whatsapp no domingo à noite e, na segunda de manhã já havia perdido meu maior ídolo, melhor amigo e confidente. Para além da tristeza enorme, me senti estimulado a fazer o que eu pudesse para honrar a memória do artista Álvaro Assmar. Tocar adiante os projetos que ele tinha e, através da minha música, dar continuidade a tudo o que ele me ensinou, com toda gratidão pelos anos de convivência com esse grande homem. Dentre os projetos dele que estavam em andamento, finalizei a produção do álbum "Family & Friends", que lançamos no segundo semestre de 2019 (sétimo CD da discografia dele) com uma temporada de shows bem legais, que contaram com a presença do meu padrinho André Christovam, grande amigo de Álvaro. Esses shows geraram um material audiovisual que produzi em parceria com a Cortejo Filmes, que foi exibido pela TVE Bahia e consta disponível no YouTube. Também está em andamento a escrita da biografia dele, pelo jornalista João Paulo Barreto, que deve ser lançada em breve. E além desses projetos, o programa Educadora Blues também havia ficado órfão, uma vez que desde 2003 o próprio Álvaro o produzia e apresentava, trazendo sempre lançamentos de blues no Brasil e no mundo. Na época de seu falecimento, essa foi uma grande preocupação, pois esse programa era motivo de um orgulho imenso para Álvaro. Um programa semanal dedicado ao blues na rádio pública da Bahia, no ar ininterruptamente por tanto tempo! Eu nunca tinha tido uma atuação profissional no rádio, só apresentei programas pontuais como convidado, falando do lugar de artista mesmo, mas sempre pesquisei álbuns e artistas de blues, paixão que herdei do meu pai e dividia muito com ele, também. Decidi topar o desafio e propus à coordenação da rádio e à direção do IRDEB (órgão estatal que administra a Rádio Educadora FM) que eu continuasse o programa. Eles adoraram a ideia e eu, então, fiz uma imersão em estudos nesse campo do rádio. Estudei bastante a maneira como Álvaro fazia os programas, desde padrões de locução, até níveis de mixagem/masterização, montagem geral do programa, etc. Contei com a preciosa ajuda de Washington Barbosa, profissional da Educadora com mais de 40 anos de carreira, com quem muito aprendi e ainda aprendo. Logo no mês de janeiro, fiz um passeio por toda a discografia de Álvaro, prestando um tributo ao pai do programa durante todo o mês. Em fevereiro, retomei a proposta de tocar os lançamentos no Brasil e no mundo. Tive e tenho tido uma aceitação maravilhosa dos ouvintes do programa, o que me deixa muito feliz. Já são dois anos e meio conduzindo essa missão, que representa algo especialíssimo pra mim e me dá uma sensação maravilhosa, de poder contribuir também por essa via para difundir o blues contemporâneo no estado da Bahia e, claro, quebrando essa fronteira com a transmissão online.

EM – Como tem se virado nesses tempos de confinamento?
EA - Eu vinha fazendo uma tour em cidades de Minas Gerais com os meus amigos Andrade Brothers, Gustavo e Luiz Andrade, duas feras do blues mineiro, quando os rumores do agravamento da situação do Coronavírus no Brasil estavam chegando com força. Tocamos de quarta a sábado, shows muito bons e com ótima adesão de público, mas no domingo já retornaria a Salvador para tocar em praça pública, porém o evento foi cancelado e, por tabela, toda a minha agenda de shows foi, pouco a pouco, sendo cancelada. Situação comum a todos os artistas, não teve jeito e não houve tempo hábil pra ninguém se preparar. Foi de 100 a 0 da noite para o dia. Decidi intensificar minha atuação como professor de guitarra blues via Skype, continuei produzindo os programas Educadora Blues em home studio, tenho escrito e registrado muitas canções novas, passei a ser mais requisitado para gravações como guitarrista e cantor e, também, comecei a fazer lives e shows online monetizados. Tempos muito difíceis para quem trabalha com arte e eventos, de modo geral, mas pessoalmente tenho a sorte de poder trabalhar com diversas atividades dentro da música, que não somente os shows presenciais. A Internet é um meio absolutamente essencial, nesse sentido.

Eric e Álvaro Assmar (guitarra), Jê Lima (baixo) e Caio Dohogne (bateria) 
(Sesc Santos 19/01/13)

EM – Gostaria que falasse sobre o momento da cultura no Brasil. Quer dizer, perdemos o Ministério da Cultura que viabilizava muitos projetos espalhados pelo país, inclusive festivais de blues e jazz. Temos uma taxa de desemprego alta e ao mesmo tempo o Governo Federal enquadra a indústria do cinema nacional que gera milhões e emprega milhares de pessoas. Em apenas uma ano e meio trocamos cinco vezes o secretário de cultura. 
EA - Momento crítico e triste, sem sombra de dúvidas. Acho absolutamente lamentável que tenha ganhado tanta força um discurso reacionário, que posiciona os artistas como inimigos do povo e do poder público, quando na verdade a cultura é parte fundamental da engrenagem de qualquer sociedade e esses artistas representam esse povo, estão ali para dialogar com as pessoas. A perda do Ministério é algo deplorável e as consequências disso, infelizmente, já estão sendo sentidas por todo o setor da cultura no país, que movimenta profissionais de várias áreas e tem um peso enorme para a economia nacional, para além da questão da importância da cultura em si. Vejo essa situação com muita tristeza e torço para que os danos sejam os mínimos possíveis. Que em breve possamos ter dias melhores para a representação da cultura em âmbito estatal.

EM - A última é uma pergunta inevitável. Qual foi a principal lição que o velho blueseiro Álvaro te deixou?
EA - As lições foram várias, na verdade, mas me inspira muito a seriedade e comprometimento dele para com o blues e seus ideais. Era um cara incorruptível, de uma nobreza de caráter rara e de uma solidariedade fora do comum. Sempre estendeu a mão às pessoas e "abraçou" com toda generosidade vários artistas que estavam começando. Além de tudo isso, ele sempre falava sobre a importância de o artista "ser o seu maior fã". Essa autoestima é um componente fundamental para você guiar uma carreira musical e poder ser livre e sincero com sua expressão artística. Tenho isso como um mantra e procuro sempre pensar nesse sentido.

Eric Assmar (Sesc Santos - 19/01/13)

domingo, 26 de julho de 2020

O agitado Peter Green morre dormindo


Autor de temas clássicos como Black Magic Woman (sim, aquela música que não é do Santana), Green Manalishi (aquela que não é do Judas Priest), Oh Well e Albatross; um dos fundadores da banda inglesa Fleetwood Mac e um dos guitarristas mais importantes do blues/rock, Peter Green, morreu ontem, dia 25 de julho.
Com um timbre suave e compositor de mão cheia, o blueseiro Peter Green foi o arquiteto do som inicial da Fleetwood Mac nos anos 60 e início dos 70.
Conheceu o baterista Mick Fleetwood em 1965, mas em 1966, como muitos guitarristas ingleses, pelo menos os importantes, ingressou na Bluesbreakers de John Mayall.
De cara colocou duas composições no seu álbum de estreia, o A Hard Road, foram The Same Way e The Supernatural.
Só em 1967 Green se juntaria a Mick e Jeremy Spencer pra fundar a lendária Fleetwood Mac, entrando para a história da música mundial.
Após anos iniciais gloriosos com a banda, Peter voltou a se apresentar com John Mayall e a viver uma vida turbulenta. Diagnosticado com esquizofrenia, entrou e saiu de clínicas onde sofreu tratamentos com eletrochoque que o deixaram e estado semi letárgico. Também apresentou um histórico de posse de armas e ameaças a profissionais que trabalhavam próximos a ele.
Retomou sua carreira formando o Splinter Group gravando bons albuns. 
Após toda essa turbulência, Green morreu dormindo, em casa, aos 73 anos.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Bidu Sous, a voz feminina do Vale do Paraíba


Texto: Eugênio Martins Jr
Fotos: Divulgação

Nos últimos anos tenho reparado que alguns dos jovens artistas que apareceram no mundo do jazz e do blues são oriundos de suas igrejas. Católicas e evangélicas. É a música achando seus caminhos.
Posso citar alguns aqui, o pianista de jazz  Amaro Freitas, lá da capitania de Pernambuco; os rapazes das Just Groove, que acompanham por todos os cantos o guitarrista Igor Prado; os jazzistas aqui da minha terra, André William (piano) e o Elizeu Custódio (baixo). 
Do vale do rio Paraíba, região prolífica para o blues nacional, veio a Bidu Sous que, desde menina se apresenta no coral de sua igreja, em Jambeiro, a meia hora de São José dos Campos.
Do vale do Paraíba, vem toda uma geração de blueseiros, Lancaster, Flávio Naves, Marcelo Naves, Fred Barley, Danilo e Nicolas Simi (os Simi Brothers)  e tantos outros. 
Nesse momento Bidu está trabalhando em seu CD solo, produzido por Lancaster, um dos guitarristas mais importantes da cena, criador de bandas que estão por aí fazendo barulho até hoje, Serial Funkers e Blues Beatles. Você já deve ter ouvido falar. 
E pelo que eu ouvi do disco Don't Wake Me Up Early até agora, a moça está no caminho do blues. Usa a voz a serviço da emoção e a determinação para fazer o que gosta.  A banda conta com caras da pesada, Adriano Grineberg (piano), Thiago Cerveira (gaita), Maurício Gaspar (bateria) e Raoni Brascher e Lucas Espildora. os dois últimos parte de sua banda. 
É assim mesmo. Quando você cisma com esse negócio de blues não há outra saída. Como dizia os irmãos Allman: “Ain’t but one way out baby, lord I just can’t out the door”. 
Bidu Sous representa uma cena musical que vem se renovando sempre. E, mais do que acumulando influências, misturando, renovando e criando afluentes onde os ritmos se encontram, no Mississippi e no Paraíba.


Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical?
Bidu Sous - Meu pai é violeiro, então eu cresci ouvindo música raíz, moda de viola. Ele sempre fazia umas rodas em casa com os amigos e sempre estava por perto. Sempre gostei de cantar. Lembro que na minha infância, uns 5 anos, nas nossas viagens de ônibus, eu ia cantando na viagem inteirinha, imaginava que a janela era um palco e ficava acenando pras pessoas na rua (risos)! 
Minha mãe ficava pedindo desculpas para os outros passageiros porque eu não parava nunca. Eles diziam: “deixa, ela tá cantando bonitinho". (risos) 
Quando comecei a catequese aos oito anos de idade já entrei pro coral da igreja. Só parei de cantar na igreja com 19 anos. Saí do coral e fui cantar na noite. (rs). Mas a música sertaneja e o coral da igreja foram minha grande escola.

EM – Na adolescência você cantava temas de sertanejo raiz na igreja? Conta essa história.  
BS – Eu e minhas irmãs montamos um coral gospel! Dividíamos as vozes, ficava muito bonito. E começamos a fazer paródia com os cânticos. Pegavamos uma música sertaneja famosa e colocávamos a letra das músicas da igreja. Começamos a chamar a atenção de muita gente, principalmente dos jovens e a missa começou a encher, eles gostavam de ouvir a gente. Mas aí uma das ajudantes do padre fez uma reclamação, disse que não era certo fazer aquilo com as músicas. Acabamos com o coral. Mas nossa técnica estava dando certo, levar os jovens pra igreja. (rs)

EM – E quando o blues entrou na tua vida e quando você decidiu se profissionalizar?
BS – O blues entrou na minha vida quando eu tinha uns 17 anos. Sempre gostei de conversar com pessoas mais velhas, nunca gostei do som que as pessoas da minha idade estavam ouvindo. Me lembro de ficar na marcenaria do meu avô com meus tios, ouvindo música e trocando idéia enquanto eles trabalhavam. E eles ouviam várias coisas, entre Janis Joplin, Roling Stones, Eric Clapton... e eu comecei gostar. Mas eu queria saber o que eles ouviram pra chegar naquele som, queria saber o que a Janis ouvia, o que os Stones ouviam. Foi assim que cheguei ao blues. Descobri Muddy Waters, Big Mama, entre outras coisas... e me apaixonei. Mas não sabia o que era “blues", não diferenciava o estilo musical. Pra mim era  um som, uma cadência que mexia mais comigo. 


EM – O Vale do Paraíba tem uma cena blues bem forte. Como isso te influenciou? Ou isso não aconteceu?
BS – É verdade. Essa cena e os músicos da região, renomados no Brasil inteiro, me influenciam, com certeza. Mas isso não aconteceu no início. Me lembro de ter visto um show da Irmandade do Blues (uma banda de SP) em São Francisco Xavier e fiquei maravilhada. Fui conversar com o guitarrista, que era o Edu Gomes, acho que ele nem lembra disso, mas fui pedir um conselho. Falei que queria cantar blues e queria saber o que eu poderia colocar no repertório. Ele me falou de Etta James, Koko Taylor, Nina Simone, Billie Holiday. Nunca cantei Nina Simone e Billie Holiday, mas ouvi bastante (rs). E mais tarde conheci o Lancaster Ferreira, um grande guitarrista de blues e produtor, que se tornou um grande amigo. Mas o gosto pelo blues já estava aqui. 

EM – Você está preparando o primeiro disco. O que podemos esperar dele? Teve algum fio condutor? Pelo menos nas três músicas que ouvi percebi que está bem puxado para o blues.
BS – Podem esperar um disco de blues (rs). Quando conversei com o Lan (Lancaster, produtor do disco) que queria gravar um disco, ele me perguntou:
- Você quer fazer um disco de sucesso ou fazer um disco de blues?
- Quero fazer um disco de blues.
- Ah bom! Se me dissesse que queria fazer um disco de sucesso eu não ia topar essa empreitada, porque o sucesso é imprevisível. Mas quando a gente faz o que a gente gosta, com alma, isso já nos trás o sentimento de realização, porque acreditamos naquilo de verdade. E ainda corremos o risco de fazer sucesso. Será o primeiro disco de blues tradicional lançado por uma mulher no Brasil.

EM – Você foi pega no meio dessa produção pela pandemia de Covid-19. Como afetou esse trabalho?
BS – Isso atrasou bastante o processo, porque estamos tomando todos os cuidados necessários, evitando proximidade etc. Então não podíamos gravar no estúdio, eu não podia ir na casa do Lan nem na casa de ninguém. Pra você ter uma ideia, o Lucas Espildora gravou os arranjos de slide em duas músicas com um celular da casa dele. Não tínhamos como esperar isso passar pra depois gravar. Depois você escuta e me diz o que achou. O menino é talentoso.

Bidu Sous e Lancaster

EM – Gostaria que falasse mais sobre a parceria com o Lancaster e sobre a banda que te acompanha.
BS – Agradeço a Deus por colocar pessoas como o Lan no meu caminho. Além de ser um grande músico, é uma grande pessoa. Um cara generoso e verdadeiro. Quando conheci o trabalho dele já fiquei fã de cara. Acompanhava nas redes sociais, ouvi muito o disco “Say Goodbye to Trouble". No  segundo show que assisti dele, ele já me convidou pra dar uma canja e a partir daí nos tornamos amigos. No disco, todas as músicas são autorais, compostas pelo Lan com co-autoria minha. Ele fez as letras e eu ajudei nas melodias. Mas as letras foram feitas baseadas no que ele conhece de mim. Hungry Woman, por exemplo, eu super me identifico. É que eu me alimento bem (rs). Mas esse processo de composição foi muito rápido. Quando começamos a compôr, em menos de duas semanas tinhamos todas as músicas. Foi uma conexão muito especial. Pra gravação no disco foi o Lan quem escolheu os músicos e eu fiquei muito feliz porque além de meus amigos, são pessoas que admiro muito. E por acaso, o baixista Raoni Brascher e o guitarrista Lucas Espildora, que gravou slide, fazem parte da banda que me acompanha hoje.

EM – Os festivais de blues e jazz no Brasil sobrevivem graças à Lei Rouanet e Sescs. E atualmente a cultura brasileira vem sofrendo um ataque sistemático do atual governo e essas duas frentes estão sendo muito afetadas com cortes e até uma certa marginalização. Qual a sua opinião sobre essa situação?
BS – Acho que isso é falta de informação de quem faz esse tipo de ataque. As pessoas tem preguiça de ler, de buscar a veracidade das coisas e se apegam em notas curtas e resumidas sobre muitos assuntos. O fake news que agrada é melhor que a verdade que derruba os argumentos. Ninguém vive sem arte.

EM – São tão poucas as mulheres blueseiras no Brasil. Você não escolheu um caminho fácil. Como encara isso?
BS – Já ouvi de muitas pessoas que deveria circular pelos vários estilos de música; pra não ficar presa a um rótulo; que o universo do blues é machista; que não ia durar se for só por nessa vertente; entre outras coisas. Mas é que eu só canto o que eu gosto. É assim que eu encaro. Não fico pensando em fazer um som “comercial", pra  abranger um público maior. Preciso gostar, sabe? Pode ser que isso mude um dia... mas me dou esse privilégio, de fazer o que gosto e eu gosto de blues. (rs).

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Morre Ennio Morricone aos 91


Morreu nessa madrugada, aos 91 anos, o compositor das trilhas sonoras de O FascistaPor um Punhado de Dólares; O Bom, o Mau e o Feio; Era Uma Vez no Oeste; Era Uma Vez na América; Os Intocáveis; Cinema Paradiso; Bastardos Inglórios, Os Oito Odiados, A Missão, e tantas outras que estão no imaginário nos amantes da sétima arte.
Se você assistiu alguns desses filmes e teve contato com a genialidade de Ennio Morricone, saiba que você é um previlegiado. Se não assistiu, corra e preste atenção nas belas composições que acompanham as imagens desses clássicos do cinema mundial. Elas vão te transportar para dentro da trama.
Ennio Morricone nasceu em Roma, onde se projetou para o mundo compondo e arranjando trilhas sonoras marcantes para filmes italianos e mais tarde para Hollywood. Fez mais de 500.
Curiosamente, não ganhou um Oscar pelas suas trilhas até 2016, mesmo tendo sido indicado cinco vezes ao prêmio. Somente em 2007 recebeu das mãos de Clint Eastwood, protagonista de alguns filmes cuja trilha era de Morricone, um Oscar pelo conjunto da obra. E em 2016, finalmente, levou o Oscar pelos Oito Odiados.
Morricone morreu em um hospital em Roma após ficar internado por complicações de uma queda em sua casa.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

O uivo do lobo solitário Edvaldo Santana nas noites de isolamento

Edvaldo Santana, o lobo solitário

Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: Divulgação ES

Letras que nos levam aos campos floridos do interior do país (Jataí) ou aos campos de futebol, tema recorrente de suas histórias. Mas também a lugares sombrios, onde habitam os exploradores da fé e do erário público (“O mandatário perguntou quanto é que eu custo...”).
É blues, soul, sampa e protesto. Guitarra de corda de aço e  gaita diatônica lado a lado com a viola caipira, o violão de nylon e a sanfona. A música de Edvaldo Santana é o amálgama de tudo isso.
Não adianta esse cara aí do poder querer nos tutelar. É ouvindo Jacob do Bandolim, Pixinguinha e Edvaldo Santana que reforçamos e reafirmamos quem somos: brasileiros.
E se a gente quer fumar um beck, a gente fuma. Se quiser tomar uma pinga a gente toma: (“Um beck, uma pinga, Jacob e Pixinga”).
Versos abusados de quem é nascido e criado na maior cidade do Brasil, ouviu e viveu suas histórias desde jovem, lá na perifa, em São Miguel. Edvaldo Santana é de São Paulo.
A amizade com Tom Zé o aproximou nos anos 70 ao maior número de malucos beleza por metro quadrado do país. Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Eliete Negreiros, Vânia Bastos, Ná Ozzétti e os grupos Rumo, Premeditando o Breque, Língua de Trapo e Patife Band. Artistas geniais e fora de qualquer enquadro.
Como uma enxurrada de verão descendo a rua Teodoro Sampaio, e quem já foi pego em cheio por uma dessas sabe do que eu estou falando, a “vanguarda paulista” apareceu arrastando tudo o que via pelo caminho até parar no teatro Lira Paulistana, onde fez abrigo. Assim como no Sesc Pompéia, que mais tarde também seria o refúgio das bandas punks de São Paulo.
As grandes TVs não deram muita bola para o “movimento”.  Conheci todos esses caras, inclusive o Edvaldo, por causa da TV Cultura de São Paulo, já nos anos 80.
Após participar de algumas coletâneas independentes, o álbum Lobo Solitário, primeiro solo de Edvaldo Santana, lançado em 1993 pelo selo Camerati, tornou-se um marco na carreira do bardo e da discografia nacional. Bons blues como a faixa título, com uma slide insitente, o blues dançante Consulta (“quem não tem suingue não tem nada”); Muito Prazer, um slow da pesada e outros. Além das parcerias com Tom zè, Paulo Leminski e Arnaldo Antunes.
Ao londo das décadas 1990/2000, Edvaldo vem gravando discos independentes que descrevem dois lados do mesmo Brasil, o de beleza calma e bucólica do interior e o da tumultuada e angustiante vida urbana: Tá Assustado? (1995), Edvaldo Santana (1999), Amor de Priferia (2003), Reserva da Alegria (2006), Jataí (2012) e Só Vou Chegar Mais Tarde (2016).
Essa entrevista, realizada em meio à pandemia de Covid-19, fala sobre tudo isso. Se Jesus não manda recado, Edvaldo manda.  


Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical?
Edvaldo Santana – Nasci e fui criado num bairro chamado São Miguel Paulista, periferia zona leste de São Paulo, filho de pais nordestinos que vieram como a maioria dos migrantes tentar mudar a vida na grande metrópole paulistana. Minha infância foi muito interessante pra formação musical, meu pai cantava e tocava violão com os amigos em casa nas horas de folga e gostava de ouvir Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Pixinguinha,  Waldir Azevedo, também trazia os livretos de literatura de cordel que ele adorava.  A influência da música brasileira foi fundamental, naquele momento, nos anos 60. No radio você ouvia de tudo, Roberto Carlos, Gilberto Gil,  Teixeirinha, Caetano Veloso, Altemar Dutra, Tonico e Tinoco, entre outros. A televisão estava começando e a música popular era seu carro chefe. Programas como O Fino da Bossa, de Elis Regina e Jair Rodrigues; Show em Simonal, Jovem Guarda, Tropicalia, os Festivais de Música, que possibilitavam ao público conhecer a diversidade e a beleza da nossa canção. E ainda tinha o som  que vinha de fora, Woodstock, Beatles, Rolling Stones, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Santana, Ray Charles. Posso dizer que fui privilegiado na formação musical, na infância e na pré-adolescência.

EM – E quando começou a tocar profissionalmente?
ES – Em São Miguel Paulista temos um grande artista que se destacou no cenário nacional, o Antonio Marcos. Todo jovem que gostava de música queria ser como ele, artista famoso que cantava na TV e no rádio, com dinheiro, mulheres, carrões, aquela ilusão da maioria do povo na periferia. Logo cedo fui aprendendo a tocar violão como auto-didata, quebrando as cordas do Gianinni do meu pai. Cantei em circo, salões de igrejas, na escola formei um grupo para participar de festivais estudantis chamado Caaxió, nessa época, com 15 anos, trabalhava numa fábrica de brinquedos chamada Mimo que ficava entre o Brás e a Mooca, acordava três e meia da manhã, pra chegar as seis no serviço. Comecei a perceber que a vida estava muito difícil e que eu podia, juntamente com os amigos, tentar viver da música que criava. Já havia ganho alguns festivais, coincidentemente o mestre Tom Zé estava precisando de uma banda para acompanhá-lo num show na cidade de Assis (SP). Foi aí que começamos a viver profissionalmente, larguei a escola, a fábrica e fomos fazer uma temporada no teatro de Arena que era dirigido por Luiz Carlos Arutin. Em 1975 fomos contratados pela gravadora Chantecler e o nome da banda virou Matéria Prima, gravamos um LP e em seguida um compacto simples. Já pela CBS, nos apresentamos na TV, nos programas Fantástico, Almoço com as Estrelas, Flávio Cavalcante, entre outros. Com vinte anos já conhecía um pouco da vida de ser artista no jet set, descobri que tudo tinha preço que aquela vida de sonho de ser pop star era apenas uma ilusão, agradeço muito os desenganos, pois entendi que precisava aprender a cantar, tocar, escrever, aprimorar os dons que me foram doados. Era necessário lapidar, depurar aquele diamante bruto pra não me tornar  apenas mais um produto descartável na vitrine da indústria cultural. Os sentimentos teriam que prevalecer sobre o mercado. O pato rouco aprendeu que o bagulho é louco, que o jabá existe, e voltou pra São Miguel cantando pro Brasil com humidade e sabedoria. Afinal, a história da nossa música passa por Noel Rosa, Cartola, Raul Seixas, Chico Buarque e voce não pode deixar a peteca cair, tem que manter o alto nível para as gerações que estão chegando entender a importância da música e da arte nas nossas vidas.

EM – Poderia falar sobre o Movimento Popular de Arte que chegou a lançar um disco em 1985, auge do underground paulistano com compositores geniais.
ES – O MPA - Movimento Popular de Arte foi fundado no final de 1978 e teve atividades intensas até o final de 1985. É o primeiro agrupamento de diversos artistas e interessados na cultura, criado na periferia de São Paulo. Entre seus objetivos estavam a criação de espaços no bairro que fossem utilizados na formação de novos artistas, potencializando suas inclinações, assim como a criação de público, proporcionando à população mais pobre, acesso a oficinas, palestras, debates sobre a arte e a vida diária. Assistir a peças de teatro, shows de música, espetáculo de dança, exibição de filmes, sarau de poesia. Investir em lazer e cultura para a periferia era o seu objetivo principal. Durante  o tempo que durou, o MPA produziu várias atividades, ocupando praças, ruas, teatros, sindicatos, salões paroquiais. Produziu um documentário para a TV Cultura, gravou um disco LP, uma coletânea que incluía os artistas representativos de sua história, como Matéria Prima, Edvaldo Santana, Sacha Arcanjo, Raberuan, Ceciro Cordeiro, Gildo Passos, Osnofa, Eder Lima, Ligia Regina, Zulu de Arrebatá, Luiz Casé, Grupo Goró. Foi gestor e organizador do MPA Circo que proporcionava cursos e apresentações de artistas consagrados como Belchior, Walter Franco, Inezita Barroso, Língua de Trapo, Tarancón, Paulo Moura. E grupos de teatro como União e Olho Vivo, Núcleo, Periferida. De poetas, como Akira Yamasaki, Claudio Gomes, Severino do Ramo. Grupos de música étnica, como o Crisol. De dança, como o Balé Nacional do Brasil. O Movimento celebrou 40 anos de sua fundação, realizando vários eventos comemorativos no bairro, sua atuação é de muita importância para a formação e desenvolvimento de artistas e pessoas que vivem no extremo leste da cidade, influindo na criação de Casas de Cultura, Oficinas Culturais, Bibliotecas, encurtando a distância entre o conhecimento e a sabedoria, entre a arte e a vida.


EM – O Lobo Solitário já começa com uma slide poderosa e cantado em português. Mas os temas não eram aqueles que a galera do blues tradicional estava acostumada a abordar. E, naquela época, foi isso que chamou a minha atenção. Marcou muito. 
ES – Lobo Solitário é o primeiro álbum solo gravado em Santo André, produzido em parceria com o Camerati, uma experiencia extraordinaria. No final dos anos 80, quando morava no Rio de Janeiro, assinei um pré-contrato com a Warner para lançar meu primeiro álbum solo. Mas com a chegada do plano Collor esse projeto foi abortado, algumas canções que havia escrito naquele momento foram utilizadas no set list do Lobo Solitário que gravei entre 1992 e 1993. Sempre tive uma ligação com a música negra, principalmente com o jazz, o blues, a salsa, o reggae, mas adoro a música brasileira. Não teria sentido gravar um disco copiando o formato da música norte-americana, principalmente do blues, a ideia era unir essas estéticas de uma forma que fosse concebida naturalmente e principalmente cantada em português. Nós estamos na terra de grandes letristas e não sei falar inglês até hoje. Nunca fui interessado no catálogo, sou um artista fragmentado, a arte é dinâmica, não gosto de ser enquadrado de nenhuma maneira. Lobo Solitário é uma síntese desse meu jeito de viver e pensar naquele momento, tem grandes parceiros poetas que contribuíram muito: Arnaldo Antunes, Paulo Leminski, Haroldo de Campos, Tom Zé, Glauco Mattoso, Ademir Assunção. Além de músicos maravilhosos que se dispuseram a investir na obra, Luiz Waack, Bosco Fonseca, Daniel Szafran, Marcelo Farias, Bocato, Paulo Lepetit, Celmo Reis, os irmãos Beto e Rubens Nardo. A fotografia é de Milton Michida. É bom salientar que a primeira versão de Metrô Linha 743, além da gravação do grande Raulzito, foi realizada nesse trabalho é a quarta faixa desse álbum e as canções A Rússia Pegou Fogo na Sapucaí e Sabonete foram incluídas na coletânea Vanguarda da Música Brasileira, CD encartado na revista Audio News, distribuído em bancas de jornais

EM – Você tem alguns blues misturados com músicas, diria eu, bucólicas. Ou seja, um um som urbano, mas com um pé no campo. Gostaria que falasse sobre isso.
ES – O desenvolvimento da obra se dá com muita dedicação, com muito esforço. Aprendi a gostar de música sem me importar com o estilo e de onde ela vem. Se bate no coração e fica, tem sentido pra mim. Sou um paulistanóide, mas meus ancestrais são do meio rural, sou urbano/agreste e isso reflete na obra. Gosto do blues como gosto do samba, gosto do xote como gosto do jazz, gosto do rock como gosto do bolero, gosto da viola como gosto do sax, não tenho preconceito. Me dedico em inventar canções com letras, procurando originalidade nas formas e no conteúdo, acredito que quando consigo criar uma canção que satisfaça o meu sentido de observação, aguçando minha sensibilidade. Estou me aproximando da minha função de artista inventor, temos dores e alegrias, procuro expressá-las com a arte que venho desenvolvendo há muitas luas. 

EM – Noto que em algumas das tuas letras você protesta contra os mercadores da fé que exploram o povo. São os casos de O Retorno do Cangaço e Domínio. Jesus não manda recado, mas o Edvaldo manda.
ES – Sim. Os temas de algumas letras passam por esse filtro de linguagem e observação. Questiono esse jeito milenar de enganar as pessoas através da fé, utilizando Jesus Cristo para vender sonhos e futilidades, prometendo a eternidade e a salvação para a humanidade. Hoje têm muito mais igrejas que escolas. Deus não intimida. Deus não deu patente nem para padre nem para pastor. Cada um sabe de si, como dizia minha saudosa mãe Judite: "Cada qual sabe onde seu calo aperta!”. Devemos deixar o ser humano escolher o seu caminho sem interferência religiosa, o estado laico é democrático, deixem a paz, a inteligência, a bondade tomar conta da gente.


EM – Alguns artistas são chamados de malditos, talvez por não frequentar a mídia musical e não badalar alguns sacos. Ouso citar alguns: Tom Zé, Jards Macalé, Itamar Assumpção, Jorge Mautner, Arrigo Barnabé. Pô, esses malandros têm as melhores letras do universo. Edvaldo Santana é maldito?  
ES – Essa imposição do que é bem ou mal é pura balela mercadológica. Para excluir quem gosta de pensar, pois a arte tem o poder de influenciar a humanidade, de mudar comportamentos e atitudes. Temos que aprender a diferenciar; quem faz arte pensando apenas no produto de mercado de quem faz pelo sentimento, pelo prazer. Todos esses grandes artistas citados me fazem bem, portanto, estou fora desse xaveco, de quem é maldito ou bendito. O que importa pra mim é o que me entusiasma, não estou preocupado, com o mainstream. Vivo tocando meu barco do jeito que gosto, fazendo o que me deixa feliz, sem precisar me submeter aos marqueteiros e negociantes de plantão.  

EM – Você é da época das grandes gravadoras. Passou por algumas e hoje é independente. Por um lado pode gravar o que quiser, publicar onde e como quiser. Por outro, não rola adiantamentos, lobby e tal. Como vê a cena hoje?
ES – Você pode escolher o seu caminho e é preciso coragem e desapego para seguir uma trilha independente, as dificuldades existem. Ser um artista sem grana e muitas vezes sem apoio, requer resiliência e competência para arcar com os projetos. Aprendi na estrada que era possível viver e fazer o que mais gosto, sem precisar passar pelo crivo de produtores que vem com a cartilha pronta. Conquistei muitos amigos que me ajudaram nessa trajetória, agradeço demais essas pessoas que acreditam em mim e na obra que desenvolvo. Nunca fui adepto a badalações e logo cedo entendi, que a música era um bem muito precioso e que eu precisava me dedicar incondicionalmente, aprendo com as dificuldades. Fico chateado com as manobras dos oportunistas, mas sempre lembro uma frase do grande Paulo Leminski: "Choramingando as minhas mágoas eu não vou a lugar algum". 

EM – Estamos passando dias sombrios. Na política, há uma retórica anti-corrupção mentirosa, mas que muitos compraram e nos meteram em uma enrascada. E algumas de tuas letras abordam problemas que já vêm de décadas. Quer dizer, os mandatários continuam perguntando quanto a gente custa. Não evoluímos?  
ES - As vezes me pego questionando: “Será que nossas canções não serviram pra nada? Será que é só com a dor que a gente lembra da paz?”. Sou ainda muito esperançoso. Acredito que houve mudanças, mas o processo de transformação é lento. Uma parcela de quem detém o poder não está interessado na melhoria do planeta. Se preocupam apenas com o seu bem estar material, o individualismo. E o consumismo desenfreado não os deixam entender que é bom pra humanidade que todos tenham acesso a liberdade, saúde, arte, alimentação, educação, moradia, qualidade de vida. Tivemos um momento muito bom na gestão do Lula, mas não foi suficiente, pra desbancar os picaretas que mamam nas tetas desse país maravilhoso e rico há muitos anos.   

EM – E na saúde, com a chegada na Covid-19, os músicos estão sem fonte de renda. Como você está se virando e como vê o futuro da cultura no Brasil após a pandemia?
ES – Claro que está muito dificil para todos, temos uma doença que já matou mais de cinquenta mil pessoas, o desemprego, a falta de perspectiva e a incerteza são prementes, nas nossas vidas. Estou muito triste pois tem vários amigos que não encontrarei depois que a tempestade passar. Por outro lado, estou aprendendo a lidar com esse confinamento inédito. Estou escrevendo muito e compondo as canções que farão parte do novo álbum, finalizando um livro sobre São Miguel. As despesas da casa estão por conta da aposentadoria da minha companheira Sueli, que trabalhou 30 anos na área da saúde pública como psicóloga, mas como vivo na corda bamba sempre, não me desespero e agradeço os desenganos. Nestes momentos a gente fica mais forte mais solidário mais humilde e também mais astuto.

EM - E como vê o atual governo? Com essa política estimulando a violência, o desmonte na educação, cultura e ciência?
ES – Vou completar 65 anos e já vi esse filme em outras situações. Passei pela ditadura ainda adolescente, sofri muito com a perseguição política que meu pai, Felix, sofria. Sem emprego, sem perspectiva, passei pela era Collor que foi também bastante destrutível para a cultura, para os trabalhadores para o Brasil. O governo que aí está cumpre o seu papel a serviço do capital especulativo, propagando o ódio, a miséria, a morte, o desprezo, a falta de consideração e de humanidade. Não me surpreende. Cabe a nós continuar espalhando o amor, a paz, a luz, a liberdade, a solidariedade, pois maluco beleza não se dá por vencido. A metamorfose ambulante está entre eu e você. 

Entrevista publicada em 23/06/2020. O Brasil enfrenta a pandemia de Covid-19 há três meses. Há um mês sem ministro da saúde. Com 50 mil mortos e mais de um milhão de infectados. Sem ministro da educação. E o governo Bolsonaro enfrentando diversas denúncias de corrupção, improbidade administrativa, fake news, etc. 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Entrevista exclusiva com Nick Moss, premiado no Blues Music Awards na votação de 2020



Texto: Eugênio Martins Jr
Fotos: Chris Monaghan

A Nick Moss Band é uma das bandas de blues mais legal dos Estados Unidos nos dias atuais. E não sou só eu que acho isso. A Blues Foudation, entidade que promove o Blues Music Awards, um dos mais importantes concursos daquele país, concedeu três premiações à banda baseada na votação dos fãs e críticos de blues: melhor álbum tradicional em 2019; melhor banda e melhor música tradicional, Lucky Guy. 
Já com o baixista brasileiro Rodrigo Mantovani e o gaitista/cantor da Califórnia, Dennis Gruenling, o álbum Lucky Guy! tem Taylor Streiff nos teclados e Patrick Seals na bateria e 14 temas cheios de energia e feeling. 
Segundo álbum da parceria com o super gaitista, que começou em High Cost To Low Living, Lucky Guy! foi lançado pela famosa gravadora Alligator Records, de Bruce Iglauer. Segundo o próprio Moss, a associação com o selo de Chicago colocou sua banda sob os holofotes, coroando o trabalho com as premiações da Blues Foundation, consequentemente aumentando o alcance da sua música.  
Porém, não dá para apontar um disco melhor do que o outro. Ao longo dos anos, mesmo antes da atual formação da Nick Moss Band, o guitarrista vem pesquisando e gravando ritmos, da costa oeste norte americana até o bom e velho blues de Chicago.
From The Roots To The Fruits, album duplo gravado de forma independente em 2016, com seu antigo parceiro Michael Leadbetter, atesta isso. Trata-se de um álbum conceitual, com nada menos que 27 músicas divididas em dois CDs. 
O CD 1 – Roots - recheado com os blues de todas as formas elétricas, com Jason Ricci aparecendo em The Woman I Love, Gordon Beadle fazendo todos os saxofones e o poderoso slow Lost and Found. O CD 2 – Fruits com temas viajantes, o suficiente para “quase” serem chamados de progressivos, o casos de Serves Me Right, Free Will (com participação de David Hidalgo) e Speak Up.    
Pego em cheio pela pandemia de Covid-19, com a agenda cheia de shows marcados e no começo da temporada de festivais nos Estados Unidos, Nick Moss concedeu a primeira entrevista a um veículo brasileiro.
Não bastasse a catástrofe sanitária, os Estados Unidos vivem atualmente* grandes manifestações contra o racismo e a violência policial impulsionadas pela morte de George Floyd. 
Nesse momento, várias cidades americanas estão tomadas pela guarda nacional e toques de recolher impostos pelo governo estão sendo quebrados pelo povo que ocupa as ruas em protesto. 
Houve tentativas de saque e incêndio nos templos do blues de Chicago, o Buddy Guy Legends e o BLUES on Halsted e muitas pessoas estão evitando sair de suas casas pelos dois motivos, pandemia e protestos. Não por coincidência, temas que o blues já vem cantando e denunciando há mais de um século.
Essa entrevista não seria possível sem a inestimável participação do Rodrigo Mantovani, parceiro de longa data e tantas gigs. Valeu mermão!


Eugênio Martins Júnior - Se lembra quando foi a primeira vez que realmente  ouviu o blues?
Nick Moss - Nasci escutando todo tipo de música. Meus pais escutavam desde a primeira fase do rock and roll, big bands, doo wop, blues e soul. Um tio nos apresentou às bandas inglesas que estavam invadindo o cenário, Led Zeppelin, Rolling Stones, Free, Blind Faith, Traffic. Crescemos escutando esse tipo de música e conhecemos o blues através deles e foi quando o meu irmão mais velho, Joe Moss, decidiu levar a sério a guitarra e descobriu que todos esses guitarristas de rock  tinham como base o blues e faziam música baseados nos blueseiros antigos. Então ele descobriu os discos de blues da nossa mãe  que estavam no nosso porão e a partir daí descobrimos juntos o que era blues de verdade. Tinha discos do Muddy Waters, BB King, etc. 
Ao mesmo tempo, nos anos 80, outras bandas e artistas começaram a aparecer tocando música baseada no antigo blues, ZZ Top e até mesmo Stevie Ray Vaughan, e isso nos deixou muito emplogados, pois, de alguma forma, conseguimos relacionar com os blues dos anos 40 e 50 e, de certa maneira, quanto mais escutavamos SRV e Led Zeppelin conseguíamos ver o quanto eles foram influenciados e estavam atentos aos artistas afro-americanos de blues. Com isso fomos levando o blues mais a sério e mergulhamos fundo nele. Me lembro de ter ganho de Natal  um disco da gravadora Alligator, era o álbum Bar Room Preacher, de  Jimmy Johnson, e na sequência os discos de Albert Collins e Lonnie Mack. Mas mesmo assim nós continuamos indo mais fundo e  escutando os discos antigos de blues da nossa mãe.  

EM – Quando foi que você decidiu que seria músico prosissional?
NM - A razão pela qual acabei me tornando músico foi o simples fato de que eu não pude fazer o que que queria, ser esportista pela faculdade. Era um jogador talentoso de futebol americano desde a escola e achei que também teria um desempenho alto na faculdade, mas acabei ficando doente aos 18 anos e me disseram que nunca mais voltaria a praticar esportes. Quando estava no hospital me recuperando de cirurgias meu irmão ia me visitar com sua guitarra. Naquele momento eu já tocava, somente de brincadeira, e ele trouxe meu baixo para o hospital só para me dar algo para fazer porque eu estava entediado e paralisado no hospital após fazer duas cirurgias importantes nos rins. Me apaixonei pela música novamente e quando estava me recuperando, ainda no hospital, ele me levou para  ver uma banda tocar e acontece que aquela banda da gravadora Alligator, a Little Charlie & the Nightcats.
Eu simplesmente me apaixonei naquela noite por tudo o que faziam, o visual, o som e a dedicação deles. Tudo me atraíu e isso me deu uma nova esperança, já que eu não poderia mais voltar a praticar esporte na escola, pela possibilidade e medo de ter complicações por esse problema médico. Tive outra coisa pela qual me interessar e olhar adiante.

EM – Já que você o citou, qual foi a influência do seu irmão, Joe Moss, na sua música?
NM - A influência do meu irmão não pode ser medida, pois desde criança eu seguia seus passos. Ele sempre liderou o caminho desde que me lembro e tudo o que ele fez eu queria fazer. Absolutamente tudo e na música foi a mesma coisa. Acontece que ele era naturalmente talentoso, e eu não. Até mesmo nos dias de hoje ainda tenho que trabalhar duro para aprender coisas novas. Não sou formalmente educado em música, tudo o que sei aprendi de ouvido ou assistindo alguém tocar, no entanto, meu irmão era como um prodígio quando ele era criança, e aprendia mais até mesmo que os seus professores até seu último professor de guitarra dizer aos meus pais que não podia mais ensiná-lo, pois Joe sabia mais do que ele. Assisti meu irmão se tornar um guitarrista muito competente desde novo e eu queria fazer o mesmo, mas não conseguia, e isso me frustrava, pois era uma das poucas coisas que eu não conseguia fazer tão bem quanto ele. Todas as outras coisas que ele fazia, como jogar futebol, beisebol eu também fazia muito bem, mas por algum motivo a música não era assim para mim, até um dia meu irmão me comprou um baixo e disse: "tente isso”. Ele comprou aquele baixo em uma venda de garagem, eu tinha 11 anos. Na verdade acho que o real motivo dele comprar um baixo para mim foi para eu parar de pegar sua guitarra emprestada. Ele foi muito esperto! Seja lá qual tenha sido o motivo, me pareceu muito natural tocar baixo e comecei realmente a tocar como baixista e com isso fui capaz de tocar com meu irmão e seus amigos. Isso me deu confiança para aprender como tocar por conta própria. O primeiro show que fiz com o Jimmy Dawkins foi porque meu irmão chamou o baixista oficial de Dawkins e disse: "Ei, você sabe que meu irmão está sem fazer nada, talvez você possa deixá-lo tocar nesse show". Com isso consegui essa gig, por causa do meu irmão. Por esses motivos não consigo mensurar e dimensionar o quão importante meu irmão foi na minha trajetória e carreira.


EM - Gostaria que você falasse um pouco sobre esse tempo com o lendário Jimmy Dawkins. Sabemos o que ele representa para a música, como ele era como pessoa?
NM – Foi minha primeira gig importante. Era muito jovem, tinha 18, 19 anos. Tinha acabado de fazer algumas cirurgias e estava me recuperando delas, tentando pensar no rumo da minha vida. Depois de ver Little Charlie & The Nightcats esatava pensando em seguir carreira como músico profissional em tempo integral. Então recebi a proposta para tocar com Jimmy Dawkins porque o baixista dele não podia na ocasião. Estava saindo com meu irmão e indo para um monte de bares e jams de blues quando fui convidado, e então eu pensei que não seria um problema tocar blues de 12 compassos. Assim, quando a oferta desse show apareceu, nem hesitei. E eu nem sequer compreendia naquele momento o quão valioso, importante e significativo era isso porque eu realmente não sabia muito sobre o Jimmy. Sabia que era um bluesman em Chicago, mas não sabia de toda a sua história. Pensei que era apenas uma boa oportunidade de fazer alguns shows. E  então cheguei nessa banda que tocava de uma maneira extremamente solta e fluída. Tinha um baterista que tocava com propriedade, totalmente solto, dominando a linguagem de tocar nos 12 compassos, que nem sempre era o caso.
Jimmy sentia a música de uma forma única e tinha uma maneira específica de expressar e sentir cada som. Eu era apenas um garoto de 18 anos e não sabia nada daquilo. Diria que ele foi muito paciente comigo por quase um ano. Tenho certeza que em outras situações outro líder de banda já teria dito: “sai fora, você já era!" Mas finalmente quase depois de um ano ele me chamou de lado e disse: "Você sabe que eu gosto de você, você é um jovem simpático e eu pude ver que você realmente quer fazer isso e está empenhado, mas você não sabe o suficiente ainda e eu não tenho tempo para ensiná-lo agora, mas se você melhorar e entender essas coisas melhores me ligue novamente, mas eu tenho que arranjar outra pessoa". Lembro que mesmo ele fazendo e falando isso para mim da melhor maneira possível, ser demitido e deixar a banda ao ser informado que eu não era bom o suficiente foi um dos sentimentos mais horríveis que já tive na minha vida. Naquele minuto disse a mim mesmo que nunca deixaria isso acontecer comigo de novo. Que nunca deixaria alguém me dizer que eu não era bom o suficiente. Que não sei o suficiente. E fiz disso minha missão a partir desse momento, tentando aprender o máximo que pude e, quando tive a próxima oportunidade, não a perdi. 

EM - Você conviveu com Mike Ledbetter enquanto ele esteve em sua banda. Todos sabemos que ele é herdeiro do talento de um dos grandes nomes do blues, Huddie Leadbelly. Claro que ele não conviveu com Leadbelly, mas ele costumava falar sobre isso? Outra coisa, sua partida foi muito prematura. Gostaria que falasse sobre esses dois assuntos.
NM – Não, Mike não falava muito de sua conexão com Leadbelly. Principalmente porque ele não queria que parecesse que estava usando isso como uma maneira de se promover e impulsionar sua carreira por conta do nome. Acredito que seu pai tenha lhe dito que Leadbelly era um parente muito distante e que realmente não valia a pena mencionar. No entanto, quanto mais Mike estava se envolvendo com o blues obviamente foi ficando curioso sobre sua conexão com Leadbelly  e começou a pesquisar, perguntando para seu pai e avós  um pouco mais sobre isso. Ele descibriu que Leadbelly era um primo de terceiro grau distante de um dos seus bisavós. Não me lembro exatamente se era bem isso, mas a ligação de sangue era algo assim. Novamente repito, ele não tocava no assunto em entrevistas, ao menos que alguém dissesse "Ei, seu sobrenome é o mesmo que o Leadbelly você sabe disso? E então ele diria: "Bem, sim, tenho um conexão sanguínea distante, mas nada além disso”.
Inclusive, depois de muito tempo que estávamos tocando juntos, recebemos uma notificação de uma empresa de produção da Inglaterra que estava organizando um evento de tributo ao Leadbelly e perguntaram se o Mike gostaria de fazer parte disso, pois eles ouviram que Mike tinha laços sanguíneo com Leadbelly, mas Mike não queria participar porque ele não queria explorar o nome para impulsionar sua carreira e eu disse: "Você está louco! Esse evento além de tudo será no Carnegie Hall, quando você acha que será convidado novamente para tocar no Carnegie Hall!?" E então Mike sendo Mike disse que faria, mas que queria levar o chefe dele. Para nós dois fazermos isso juntos e isso é uma das coisas que vou me lembrar para sempre. Ter tocado no Carnegie Hall porque Mike Ledbetter me convidou para fazer o evento com ele. E eu disse a ele: “É melhor mesmo você se certificar que eu vou fazer isso com você seu FDP”. (risos)
Até hoje lembro que ele recusou originalmente e eu falei "você é louco?" (risos). 
Na verdade ele tentou levar a banda toda para participar, mas eles não queriam pagar. Eles me conheciam, então aceitaram que fosse só eu e o Mike para fazer a participação em dupla. Foi uma noite incrível. Nós abrimos e fizemos a primeira apresentação do evento todo. Mike destruíu. Cantou muito. Foi lindo. Eu gostaria que houvesse alguns vídeos daquela noite, tem apenas um pequeno videoclipe que sua irmã gravou, porque eles não deixaram que câmeras gravassem da platéia, mas ouvi que supostamente há um vídeo por aí, mas eu nunca vi. Foi um evento maravilhoso, com Buddy Guy, Kenny Wayne Shepperd, Edgard Winter, não me lembro de todos os envolvidos que estavam lá. Acho que John Hammond estava lá também, foi uma grande programação. 
Sobre o fato dele ter morrido, não sei o que dizer sobre isso, além de que ele significou muito para mim. Era mais da família do que um membro da banda para mim e você pode imaginar como é perder  um membro da família. Melhor passarmos para outra pergunta.


EM - High Cost To Low Living e Lucky Guy são dois trabalhos poderosos em parceria com Dennis Gruenling. Gostaria que falasse sobre esses dois trabalhos.
NM – Sim, um grande ponto de virada na minha carreira. Minha escalada à popularidade é diretamente atribuída a esses dois trabalhos. Principalmente porque tive uma exposição e distribuição muito boa, por passar a integrar a Alligator Records, uma das mais antigas gravadoras, estritamente de blues e com uma das maiores reputações do mercado no mundo inteiro. O fato de ter o nome Alligator Records associado a você passa muita credibilidade. De fato, foi um marco ter assinado com eles depois de muitos anos lançando meus discos pela minha própria gravadora. Nossa banda foi relativamente bem sucedida com a nossa própria gravadora, mas nada comparado com as conquistas que tive fazendo parte da Alligator Records nesses últimos três anos. High Cost of Low Living teve um processo de criação muito legal e nosso recente CD, o Lucky Guy!, obviamente superou todas as expectativas. Acabamos de ganhar o Blues Music Awards em três categorias, melhor álbum tradicional do ano; melhor  banda do ano; melhor música tradicional do ano, Lucky Guy. Atribuo todo esse sucesso não apenas por estar na Alligator Records, mas também ao momento em que Dennis Gruenling se juntou à banda. Foi um grande negócio. Michael (Leadbetter) fez parte da minha banda por quase sete anos e foi incrível, fizemos várias coisas incríveis, vários estilos diferentes de música e quando ele se foi eu não tinha muita certeza do que iria fazer. Se iria voltar ao Blues tradicional, que tinha feito antes de Michael ou se iria continuar num estilo mais moderno. Estava preocupado em ter que resolver essa questão e  aconteceu por acaso. Naquele momento Dennis  me ligou e disse: "Ei cara, recebi uma oferta de um show no Centro-Oeste, perto de você, e preciso de uma banda, você gostaria de ser minha banda de apoio?". Era um concerto beneficente e ele ia fazer uma homenagem a William Clark. Fazia algum tempo desde a ultima vez que havia apoiado um gaitista durante todo um show, mas eu amo esse estilo, o swing, o blues tradicional de Chicago. É onde meu coração sempre esteve. Então, imediatamente disse que sim. E quando finalmente começamos a fazer o show percebi o quanto sentia falta de tocar esse estilo de música e me lembro que durante o intervalo disse para Dennis que ele não estava mais tocando com o Doug Deming e se estaria  interessado em fazer algo comigo. E ele respondeu que amava o som da minha banda e que poderia fazer parte dela. Eu disse ok, vamos ver se funciona. Fizemos a próxima turnê juntos. Mike ainda estava na banda, mas o Dennis se juntou a nós. Foi muito legal e divertido, a turnê com Dennis. Mike deixou a banda no mês seguinte, em janeiro e a transição foi fácil. Estávamos na verdade no Blues Cruise quando Mike fez seu último show conosco e o Dennis também estava no cruzeiro. Foi uma amostra de como a banda soaria sem Mike. Aliás, muitas pessoas vieram me dizer que sentiam falta de me ver tocando blues tradicional. Então foi bom voltar a isso e foi bom ver os fãs se lembrarem da minha trajetória tocando blues tradicional antes do Mike estar na banda. Dennis fazendo parte da banda, você sabe, seu entusiasmo, seu conhecimento na música, ele é um dos melhores do mundo e isso é incontestável. Ele têm uma presença de palco incontestável. É uma dessas pessoas que fazem o público querer olhar para o palco. Eu nunca fui uma dessas pessoas, nunca fui um tipo excêntrico e às vezes você precisa desse tipo de pessoa para fazer um contraste no palco. Acho que o Dennis contrasta comigo no palco, pois sou mais reservado. Escuto muitas pessoas falarem que gostam desse contraponto, essa harmonização e equilíbrio no palco. Não somente na parte musical, mas na parte cômica e esse complemento das personalidades juntas, isso é ótimo.

EM - Otis Rush, James Cotton, Magic Slim, Lonnie Brooks já se foram. Buddy Guy está com 85 anos. Como vê a cena de Chicago hoje?
NM - É verdade, todos os dias  perdemos nosso passado. Mas o futuro é inevitável e sempre vai se desenvolver.  Há muitos músicos na cena do Blues de Chicago que continuarão a levá-lo à próxima fase. Vai existir novamente a mesma qualidade dessa "realeza" dos bluseiros que temos aqui em Chicago, como Buddy Guy? Não sei. Acho que no país há outras pessoas que podem usar esse manto, assumir esse papel. Mas enquanto o Blues de Chicago estiver por aí eu certamente farei minha parte. Há caras da cidade que estão fazendo o que podem, Mike Wheeler é um dos caras que gosto, um pouco mais moderno, mas acho que ele é um cara que pode ganhar mais impulso e notoriedade com os fãs pois ele  não agrada somente o público que gosta de blues tradicional. Há muitos caras por aí, gosto do Omar Coleman e ele ainda é jovem suficiente para ser influente fazendo música pelos próximos 15 ou 20 anos. É um grande gaitista e cantor. Temos o  Corey Dennison, Gerry Hundt, esses caras estão fazendo o som deles. Existe uma banda jovem nos arredores de Chicago chamada The Kilborn Alley Blues Band, com quem eu tenho uma associação há algum tempo, que é jovem o suficiente para fazer bastante coisa. Andy Duncanson é o vocalista dessa banda. Acho que existem muitos músicos fora de Chicago também. E na verdade eu tenho ajudado lentamente a mostrar alguns jovens talentos do blues em todo o país e sinto que o futuro do blues está em boas mãos se esses esses caras continuarem. Mas nunca mais vai haver outro Buddy Guy,  BB King ou outro Son House. Sempre haverá alguém que terá identidade própria e levará as coisas para a próxima grande etapa. E essa é a única coisa que podemos fazer. Olhar para frente e  que as pessoas consigam ser elas mesmas e levar o blues para outro patamar, trazendo mais visibilidade e notoriedade para esse estilo musical.



EM - Como você conheceu o Rodrigo Mantovani e como surgiu o convite pra tocar na tua banda?
NM – Conheci o Rodrigo em uma banheira Turca e ele estava tentando tirar minha toalha. Então falei calma lá grande rapaz, deixe eu me apresentar primeiro! (risos)
Não, sério agora, conheci o jovem Rodrigo em um festival na Espanha, onde tocamos e estava muito, mas muito calor. Me lembro de estar lá com minha banda e nossos amigos, RJ Mischo e Kirk Fletcher e, tanto eu quanto eles, já tínhamos ouvido falar e conhecíamos a música da Igor Prado Band. Nós tínhamos um amigo em comum chamado Lynwood Slim, que havia falado desses caras. Então estávamos tocando naquele festival. Fiquei muito impressionado com a interpretação deles do blues tradicional, do blues de Chicago, do jump blues. Ver esses caras do Brasil tocando essas coisas e de maneira tão autêntica. Me lembro de ter ficado impressionado com Igor e sua habilidade na guitarra e vocais, mas fiquei igualmente impressionado, se não mais impressionado ainda, com a seção rítmica, porque como disse anteriormente, comecei como baixista e sempre noto a seção rítmica das bandas, e ter um guitarrista muito bom não importa se a seção rítmica da banda não for boa. Na verdade acaba não significando nada ser um guitarrista bom sem uma seção rítmica boa. Me lembro do baterista Yuri e desse baixista de cabelo cumprido chamado Rodrigo sendo apresentados a mim. Esses caras chegaram lá e arrebentaram! 
Foi muito legal e me lembro que no final do festival fizemos uma espécie de bis  no nosso show e chamamos esses caras no palco para tocar com a gente e colocamos nossos instrumentos neles e eles tocaram e me lembro de ficar de pé ao lado do palco olhando-os tocar e em um momento eu falei para o meu baixista na época, o Gerry Hundt: "É melhor esses caram ficarem de vez com os nossos instrumentos porquê eles tocam melhor que a gente”. (risos)
Foi uma noite muito legal e divertida e havia muito respeito e admiração mútua entre nós. Em seguida tentamos manter o contato. Não era fácil naquela época porque as mídias sociais não eram tão fortes e, ocasionalmente,  ouvíamos falar um do outro  ou víamos que eles  tinham tocado em um festival que íramos tocar. Me lembro de estar na casa do Lynwood Slim algumas vezes e ele estar falando com o Rodrigo no Skype e eu dar um alô e falar: "Ei como você está Rodrigo?”, coisas do tipo. Em seguida fiquei sabendo que o Rodrigo trouxe o Lynwood Slim para visitar Chicago por conta do Chicago Blues Festival. O Slim havia saído do hospital, e o Rodrigo decidiu vir com ele para assistir o Chicago Blues Festival e assim fazer alguns shows uma vez que o Slim estava bem de saúde novamente. Eles ficaram na minha casa e fizemos alguns shows juntos e mais uma vez fiquei chocado com o Rodrigo tocando baixo. Na época eu tinha um baixista jovem e o fiz sentar e assistir o Rodrigo e falei para ele: "Você está vendo esse jovem do Brasil?  É assim que se deve tocar e essa é a maneira de soar. Você têm que aprender com ele". Os encontros foram acontecendo, começamos a acompanhar um ao outro nas mídias sociais, enviando curtas mensagens. Seguiamos algumas postagens mútuas. Foi quando ouvi dizer que Rodrigo, Igor e Yuri tinham terminado a banda e isso aconteceu na mesma época em que eu estava procurando por outro baixista.
Nós tínhamos acabado de chegar de uma turnê na Europa e meu baixista me disse que não queria mais investir tempo na banda porque estava com muitos problemas pessoais. Vi o Rodrigo postando algo no Facebook e mandei uma mensagem para ele por estar frustrado e de certa maneira desesperado pensando em quem chamar para tocar baixo. E aconteceu como uma brincadeira que mandei a mensagem: “E aí cara, você quer se mudar para Chicago, para tocar baixo na minha banda?". Para minha surpresa, ele espondeu imediatamente: “Sim, quando?". Perguntei se ele estava falando sério, e ele me de perguntou se eu estava falando sério. O resto é história. Desde então começamos a pensar como faríamos para isso acontecer e não me arrependo de nada**

EM - From the Roots To The Fruit, como o nome diz, é um disco com muitos estilos. Mas todos eles permeados pelo blues. Gostaria que comentasse o conceito desse trabalho, um grande álbum.
NM - Estou muito lisonjeado e honrado por você ter gostado muito deste disco. Foi muito legal tê-lo gravado. O conceito é exatamente esse que você imagina: o blues é a raiz e todo o resto são seus frutos. Isso significa que a maioria das músicas modernas vieram diretamente do blues e queríamos mostrar isso. E também mostrar o fato de que no último ano que o Mike ficaria na banda – aliás meu baterista estava comigo há quase nove anos naquela época – aquela formação estava aprendendo a tocar o blues de uma maneira melhor. Tocávamos muito blues tradicional misturado com coisas contemporâneas e queríamos mostrar às pessoas que uma banda não precisa ter apenas um estilo. Se a banda for bem educada, preparada e bem-intencionada. Tentamos mostrar a correlação entre o blues da velha guarda e a música moderna das bandas de blues-rock e soul jam, e acho que fomos bem-sucedidos nisso. Dessa forma, a maioria das músicas eram originais e foi muito divertido fazer esse disco. Foi um empreendimento ambicioso, mas conseguimos realizar. Tem 27 músicas nesse disco. 


EM – Outra coisa que gostaria que você falasse é que, apesar de ser um músico de Chicago, você tem uma forte influência do west coast, não é verdade?
NM - Sim, tenho muito respeito pelo blues da costa oeste, pelos músicos modernos de blues. E a razão disso é que quando estava no começo dos meus 20 anos não haviam muitas bandas de jovens brancos tocando o blues tradicional de Chicago. Nessa época eu comecei a ouvir Fabulous Thunderbirds, Little Charlie & The Nightcats, William Clarke, Rod Piazza e, não foi o fato deles tocarem swing que me chamou a atenção, mas sim as versões dos clássicos do blues de Chicago. Eu me questionava por que não haviam mais bandas tocando aquele velho estilo de Chicago, especialmente caras da minha idade. Realmente parecia que naquela época eram mais músicos da Costa Oeste fazendo essa música, e essa foi uma das razões pelas quais comecei a trazer de volta esse blues aqui para Chicago. Queria ser o cara em Chicago que pudesse trazer de volta o “tradicional Chicago Blues”. Adoro o swing, o velho som do BB King, o Little Walter na sua fase mais jump blues, amo o T- Bone Walker e o Pee Wee Crayton. E haviam tantas músicas lançadas como R&B e jump feitas em Chicago por artistas como Willie Mabon e até mesmo Muddy Waters, coisas do Howling Wolf sendo lançados nesse estilo também pela Sun Records, enfim... amo todos esses estilos. O que realmente me chamou atenção foi o fato de ter muitos músicos da minha idade na Costa Oeste fazendo esse tipo de música. Eu podia ver ao vivo esse Blues tradicional de Chicago sendo tocado mais por lá do que até mesmo por aqui em Chicago. Músicas do Muddy Waters e Little Walter. Nós simplesmente não tínhamos mais essa cena por aqui. Era mais acessível ver o Rod Piazza e William Clarke quando eles vinham para tocar aqui e eles tinham muito respeito por essa música de Chicago. 

EM - Você sabe que o Brasil tem uma cena de blues com muitas bandas? Faz planos para vir pra cá. Rodrigo poderia facilitar isso. 
NM - Não tenho planos atualmente de visitar o Brasil e atualmente nem de sair da minha própria casa devido a essa pandemia. Adoraria visitar o Brasil um dia. É um país muito bonito que eu sempre quis visitar, até mesmo antes de ser músico. Um país lindo com pessoas lindas, com uma comida incrível e uma cultura incrível. Agora que tenho meu amigo Rodrigo, talvez algum dia isso possa ajudar a abrir algumas portas. Talvez esta entrevista possa ajudar a abrir algumas portas aí no Brasil, e talvez um dia, quando todos estivermos protegidos contra vírus que nos mantêm trancados em nossas casas acabar, eu possa vir a visitar esse lindo país e tocar para essas pessoas lindas.

*Essa matéria foi escrita em 01 de junho de 2020
** Em nota,  Rodrigo Mantovani diz que também não, e isso virou piada entre ambos.