terça-feira, 2 de junho de 2026

O mundo oculto de Ada Rovatti

Em entrevista exclusiva, a saxofonista italiana radicada em Nova York fala sobre seu álbum mais pessoal, a parceria de 25 anos com Randy Brecker e a relação com a música brasileira


Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Nascida na Itália e radicada em Nova York, a saxofonista e compositora Ada Rovatti consolidou-se como uma das vozes mais autênticas e versáteis do jazz contemporâneo. 
Dona de uma sonoridade robusta no sax tenor e de um ágil fraseado no soprano, Rovatti equilibra o respeito à tradição do bop com fusões estéticas que passam pelo R&B e música instrumental de matriz latina. 
Além do virtuosismo técnico, sua trajetória também é marcada pela inventividade nos arranjos e na liderança de seus próprios conjuntos, características que a colocaram na vanguarda da cena instrumental global.
Sua discografia confirma minha tese. Em Ada Rovatti & Elephunk (2003) escancara sua forte inclinação pelo groove e pela fusão do jazz com elementos do funk e do soul. 
Nos anos seguintes, trabalhos como Under the Hat e Airbop evidenciaram sua sólida ancoragem no hard bop. 
Em Green Factor a saxofonista expande ainda mais sua paleta sonora ao incorporar nuances da música celta e folclórica, mostrando sua busca incessante por texturas raras.
Em lançamentos mais recentes, como Breaker (2019), Rovatti entrega uma obra densa, investindo na força das interpretações. E em The Hidden Side (2024), mergulha em uma faceta intimista e sofisticada, reafirmando seu papel como uma compositora de mão cheia e improvisadora nata.
A busca por novas fronteiras culminou em The Hidden World of Piloo, um trabalho profundamente pessoal, gestado em um período de intensas transformações.
Longe do formato de um registro de jazz convencional, focado estritamente na improvisação, o álbum funciona como o espelho de uma fase de isolamento e autodescoberta durante a pandemia de covid 19. 
Nele, a saxofonista revela um lado vulnerável e sensível, o que de forma alguma significou a perda do controle absoluto sobre o processo de criação, misturando pop e jazz. Eu não paro de ouvir.


Eugênio Martins Jr – Como foi sua infância musical?
Ada Rovatti - Comecei a tocar piano muito cedo, por volta dos quatro anos de idade. Minha avó tocava piano e tanto eu quanto meu irmão tínhamos aulas com ela, então minha primeira linguagem de verdade foi a música. Eu sabia ler partituras antes mesmo de ler palavras.

EM – Sua transição da música clássica para o jazz aconteceu quando você trocou o piano pelo saxofone? Gostaria que você falasse sobre isso.
AR - Toquei piano clássico por uns doze anos, e só no final da adolescência comecei a tocar saxofone. Na Itália, não tínhamos muita música nas escolas. Naquela época, tínhamos coral ou flauta doce no ensino fundamental, história da música no ensino médio e nenhuma educação musical no ensino superior, a menos que você estivesse matriculado em um conservatório. Então, a chance de experimentar um instrumento e ter contato com qualquer tipo de música era muito limitada. E ainda é mais ou menos assim hoje em dia.
Então, sempre me senti privilegiada por ter música na minha família. A mudança foi bastante ditada pela minha curiosidade; meu irmão ouvia R&B e blues e meio que despertou meu interesse por esses gêneros. Na minha adolescência, também ouvia muito rock e rock/pop inglês e ficava intrigada com a ideia de improvisar, a liberdade que isso me proporcionava, e comecei a compor ainda jovem, antes mesmo de tocar saxofone.

EM – Algum artista em particular motivou essa mudança?
AR - Lembro-me de ouvir os Blues Brothers e o álbum Room Full Of Blues e adorava a seção de metais.

EM – Houve uma época em que você dividia sua vida entre estudar nos Estados Unidos e na Itália, seu país. Mas você acabou se mudando para Nova York, a cidade do jazz. Foi uma necessidade profissional? Você sentia que a cena jazzística de Nova York era necessária?
AR - Entre a mudança para Boston e depois para Nova York, morei um ano em Paris. Acho que cada mudança foi ditada pela necessidade de encontrar minha voz e algum espaço e apoio para aprender e praticar essa forma de arte. Na Itália, me sentia muito limitada, havia preconceito de gênero e não havia situações suficientes onde eu pudesse aprender e ser ouvida. A França e, definitivamente, os EUA eram mais abertos e mais receptivos.

Ada Rovatti e Randy Brecker - Bourbon Street Music Club

EM – Foi com Under The Hat que sua parceria com Randy Brecker começou? Vocês já trabalharam juntos em muitos projetos, e muitos deles ganharam prêmios. É uma parceria musical muito prolífica. Gostaria que você falasse sobre isso.
AR - Under The Hat foi a primeira vez que gravei com Randy, mas não foi a primeira vez que toquei com ele. Aliás, talvez você saiba, talvez não, mas sou casada com o Randy há 25 anos!
Não foi minha primeira gravação tocando minhas próprias músicas. Eu tinha feito algumas demos antes, mas não queria a pressão de tocar com ele, então não pedi para participar da minha gravação anterior. Mas quando a oportunidade surgiu, quis ter certeza de que ele estaria no meu primeiro projeto de verdade. Adoro a maneira como ele ouve as coisas - quem não gosta? - e sempre traz algo novo. Ele tem me apoiado muito ao longo do ano e é sempre uma inspiração, tanto musical quanto profissionalmente. Temos um gosto musical muito parecido e, quando tocamos juntos e compartilhamos nossas músicas, definitivamente existe uma busca musical em comum. Depois de tantos anos tocando juntos, desenvolvemos uma ótima sintonia e uma maneira semelhante de pensar sobre fraseado e fusão do nosso som.

EM – Ada, adoro seus álbuns. Mas não entendi algumas coisas. Uma italiana morando em Nova York gravando temas do folk irlandês. Gostaria que você me explicasse o conceito do Green Factor.
AR - Ah! Meu amor pela música celta e irlandesa começou na infância, quando meus pais fizeram uma viagem de um mês para a Irlanda.
Por uma série de circunstâncias que não vou detalhar, acabei na Sardenha, que é uma das grandes ilhas da Itália, em um mosteiro de freiras durante o verão. Com sete anos de idade, você pode pensar que foi uma experiência brutal ou difícil, mas, ao contrário disso, tive uma das experiências mais espirituais e divertidas da minha vida. Quando meus pais voltaram, compraram um LP de um famoso cantor irlandês cantando músicas tradicionais irlandesas, e acho que combinei a experiência e a carga emocional, e isso me acompanhou por todos esses anos. Duas músicas dessa gravação acabaram entrando no meu projeto: Danny Boy e Wild Colonial Boy. A segunda também tem um lugar especial para mim, pois estava em um filme que meus pais adoravam, Depois do Vendaval, dirigido por Ford e estrelado por Maureen O'Hara e John Wayne.
Mal sabia eu que, anos depois, fiz um teste de DNA e descobri que sou 24% irlandesa e escocesa... então, talvez a gaita de foles esteja no meu DNA, afinal! (risos)

EM – Quando nos conhecemos, você tinha acabado de lançar The Hidden World of Piloo. Um álbum de jazz moderno com muitos ritmos e com cantoras muito especiais: Fay Claassen, Alma Naidu e Niki Haris. Gostaria que você falasse sobre essa obra maravilhosa.
AR - Eu queria me apresentar ao público em um formato diferente das minhas gravações anteriores. Piloo é o apelido que meu pai me deu. Era o nome de um gatinho travesso em um livro que eu adorava ler quando criança, e esse apelido ficou comigo todos esses anos... e até deu nome à minha gravadora, a Piloo Records. Meu pai faleceu em setembro de 2021 e dediquei essa gravação a ele.
Comecei a compor algumas das músicas durante a pandemia. Como muitos artistas, a pandemia desencadeou uma gama incrível de emoções, e a criatividade certamente se alimentou delas. 
Então, considero meu projeto um "filho da pandemia". Isso expôs uma parte mais oculta e vulnerável de mim, e decidi expandir meus limites e explorar qualquer talento ou arte que estivesse fora da minha zona de conforto para ver onde isso me levaria. 
Não se trata de uma gravação de jazz clássico onde a improvisação é o ponto central, mas a ideia principal destaca outras facetas da minha personalidade. Desde tocar outros saxofones e flauta, até fazer arranjos para cordas, escrever letras e até mesmo controlar todas as etapas da produção, edição, design do LP/CD, sessão de fotos, maquiagem, e até mesmo as roupas que estou usando na capa são de minha autoria e costura.


EM – A cena do jazz sempre foi dominada por instrumentistas homens, mas há um grande movimento de mulheres assumindo a liderança em bandas com destaque no cenário mundial. Posso citar algumas: Ada Rovatti, Badi Assad, Esperanza Spalding, Nubya Garcia, Yissi Garcia. Gostaria que você falasse sobre isso.
AR - Acho que as mulheres sempre estiveram presentes, mas nunca foram reconhecidas o suficiente, corretamente ou simplesmente receberam o mesmo destaque que os homens. Devido a restrições culturais, fomos minoria por muito tempo, mas nas últimas décadas o número tem crescido exponencialmente e devo dizer que algumas das minhas artistas favoritas e mais inovadoras atualmente são mulheres.

EM – Recentemente, entrevistei a saxofonista israelense Hillai Govreen, que também mora em Nova York e que convidou o Café da Silva para tocar em seu álbum. Qual foi a participação dele no seu álbum? E você também costuma tocar com Marco Bosco, outro percussionista brasileiro. Qual é a sua relação com a música brasileira?
AR - Convidei o Café da Silva para tocar nos meus dois últimos álbuns. Ele é um mestre da percussão, tem uma musicalidade incrível e sabe exatamente como complementar cada música. Marco Bosco teve a oportunidade de tocar ao vivo com ele em São Paulo no ano passado e fiquei totalmente hipnotizada pela sua arte. Entrei em contato com ele para tentar gravar algo e espero que tenhamos a chance de fazer isso em breve. Ouço muita música de diferentes partes do mundo e a música brasileira definitivamente tem um grande impacto na minha maneira de ouvir música, tanto rítmica quanto harmonicamente.

EM – Leo Susi me disse que você fará uma turnê pela China. Ela contará com um trompetista americano, um saxofonista italiano, um baterista e um percussionista brasileiros – uma verdadeira "Nações Unidas da Música". O conceito de World Music faz algum sentido para você?
AR - Claro, a música NÃO tem fronteiras. A música não se importa com cores, religião ou gênero e fala ao coração de todos, com uma linguagem que todos entendem. Nestes tempos conturbados, a música e a arte são como um refúgio seguro.

Backstage Bourbon Street

Com Leo Susi - Camarim do Bourbon Street




quarta-feira, 27 de maio de 2026

Morre Sonny Rollins, o colosso do saxofone, aos 95 anos

 

Sonny Rollins em Viena/2006 - Foto: Jeff Pachoud/AFP via Getty Images

Morreu no dia 25 de maio, véspera de aniversário dos 100 anos de Miles Davis, Sonny Rollins, aos 95.
Nascido em Nova York, Rollins cruzou caminhos com Miles ainda jovem, quando o trompetista de St. Louis já atuava como um arregimentador de prodígios. 
Juntos, compartilharam inúmeras gigs, gravações históricas e a rotina da patota da heroína no Harlem dos anos 1950, um círculo que incluía Dexter Gordon, Tadd Dameron, Art Blakey, JJ Johnson e Jackie McLean. 
Na chamada época de ouro do jazz improvisado e cabeçudo, Sonny Rollins integrou o lendário conjunto de Miles ao lado de McLean, Cannonball Adderley e John Coltrane, fechando o círculo dos derradeiros representantes do jazz pós II Guerra Mundial.
Com Coltrane, manteve uma relação afetuosa, definindo os rumos do instrumento. Lembrando dele, décadas mais tarde, Sonny declarou: "Um ser humano belo, belo".
Rollins ganhou a alcunha de colosso graças ao seu influente álbum Saxophone Colossus, com o qual rompeu as limitações estruturais do jazz, consolidando o hard bop. 
Lançado no concorrido ano de 1956, Saxophone Colossus concorreu com gravações lendárias: Ella and Louis, com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong; Ellington at Newport, de Duke Ellington;  Pithecanthropus Erectus de Charles Mingus; Fontessa do Modern Jazz Quartet e a série Cookin', Relaxin', Workin' e Steamin, do  Miles Davis Quintet, que incluía John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones. 
Ao contrário de muitos de seus contemporâneos que morreram cedo, Sonny alcançou a longevidade, aperfeiçoando sua obra após completar 80 anos. Superou problemas respiratórios com o auxílio da ioga, que o ajudou a manter-se longe dos excessos. Nos últimos anos exibia a modéstia dos sábios: “Continuo vivo porque continuo aprendendo”, confessou em 2016.
Para além da música, Rollins utilizou o saxofone como ferramenta de forte comentário social, político e espiritual. 
Em 1958, lançou a emblemática Freedom Suite, peça instrumental de 20 minutos que ecoava abertamente as dores e as esperanças dos afro-americanos na luta pelos direitos civis. 
Na contracapa do disco, registrou um manifesto sobre a ironia de a cultura negra representar o soft power norte-americano, enquanto seu povo era recompensado com a perseguição e a desumanidade.
Seu sopro também se conectou com o misticismo que descobriu em longos retiros na Índia e no Japão. Quatro dias após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, Rollins também subiu ao palco em Boston para um show gravado ao vivo em homenagem às vítimas. 
Com sua morte, silencia-se o sopro que desenhou a liberdade no século XX, deixando um legado indestrutível na história da música.
Sonny Rollins morreu na segunda-feira, 25 de maio, em sua residência em Woodstock, New York. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

A 100 Miles

 


“Em retrospecto não lembro muita coisa de meus primeiros anos – e jamais gostei de olhar muito pra trás mesmo. Mas uma coisa eu sei: no primeiro ano depois que nasci, um furacão varreu St. Louis e destroçou a cidade. Tenho a impressão de que lembro um pouco disso – uma coisa no fundo da memória. Talvez por isso eu tenha um gênio tão ruim às vezes; aquele furacão deixou em mim alguma coisa de sua violenta criatividade. Talvez tenha deixado um pouco de seus ventos fortes. Sabe, a gente precisa de um sopro forte para tocar trompete. Eu acredito no mistério e no sobrenatural, e um furacão é misterioso e sobrenatural”

Trecho extraído da biografia de Miles Davis

O som
Tutu, de Miles Davis, foi meu primeiro disco de jazz e, além da música que saia dos sulcos do vinil, a capa com sua foto em preto e branco faz parte da minha vida desde então. Esteticamente, tanto quanto as fotos de jazz de William Claxton.  
Lançado em 1986, o álbum marcou a estreia triunfal de Miles Davis na gravadora Warner Bros., após três décadas de uma histórica e desgastada relação com a Columbia Records. 
O projeto, concebido originalmente para ser uma colaboração com o astro pop Prince — que acabou se afastando por incompatibilidade de agendas —, tornou-se o testamento definitivo do jazz dos anos 1980. E mais uma vez Miles mudaria os rumos da música. 
Como disse, o impacto começava na capa: um retrato em close-up de Miles em preto e branco, fotografado por Irving Penn com direção de arte de Eiko Ishioka. A imagem faturou o prêmio Grammy de melhor capa de álbum. 
Musicalmente, a obra dividiu a crítica tradicional, mas capturou uma audiência jovem e global ao abraçar de forma radical a tecnologia da época. Sob a produção cuidadosa e composições do multi-instrumentista Marcus Miller, o disco substituiu a dinâmica de uma banda tradicional em estúdio por sobreposições de texturas sintetizadas. 
O arquiteto por trás dessa paisagem sonora futurista foi o programador de sintetizadores Jason Miles, que ao lado de Adam Holzman, utilizou um arsenal que incluía o PPG Wave 2.3, o E-mu Emulator II e o Yamaha DX7 para esculpir samples e timbres que fugiam do genérico.
Em 2009 conversei com Jason Miles em Rio das Ostras e ele foi enfático em dizer que Davis era um futurista. “Estava sempre à frente. Não se prendia ao que havia feito no passado, ele sempre falava isso quando estávamos juntos. Passamos cinco anos trabalhando e aprendi muito com ele, sobre como encarar a vida, música, comida, ele sacava tudo profundamente”.
Sobre a cama eletrônica de funk, R&B e pop-jazz, a trompete de Miles Davis flutuava com sua icônica surdina, provando que sua expressividade continuava intacta em meio às máquinas. 
O álbum foi batizado em homenagem ao arcebispo sul-africano Desmond Tutu, tornando-se também um manifesto político de resistência contra o regime do Apartheid. Comercial e artisticamente bem sucedido, Tutu rendeu a Miles o Grammy de Melhor Performance de Jazz Instrumental Solo em 1986. 
Os números exatos globais de toda a sua história no catálogo da Warner variam na casa de centenas de milhares de cópias físicas e Tutu consolidou-se em paradas internacionais, alcançando o Top 20 do Reino Unido e é considerado o maior clássico da fase tardia do trompetista.
Conceitualmente, fica evidente que Tutu não foi apenas mais um capítulo na discografia de Miles Davis, mas um acontecimento preciso no tempo, quando os olhos do mundo estavam voltados à urgência humanitária da África do Sul e as engrenagens do racismo global e que o trompetista sempre combateu por toda a vida em seu próprio país.
Artisticamente, ao cruzar a sofisticação tecnológica, o álbum Tutu consolidou a transição iniciada na virada dos anos 1980 com a série The Man With the Horn (1981), We Want Miles (1982), Star People (1983), Decoy (1984) e You’re Under Arrest (1985), eternizando-se como um manifesto político e estético. 

A fúria
Mesmo com a consciência sobre a situação racial na África do Sul e por trás da genialidade revolucionária que redefiniu a arte moderna, no coração de Miles Davis habitava uma personalidade complexa e frequentemente destrutiva. 
Sua vida pessoal foi marcada por uma dualidade brutal, onde a beleza de sua música contrastava com seu comportamento errático. 
O envolvimento profundo com a heroína na juventude, e mais tarde com a cocaína e o álcool, potencializou um temperamento que oscilava entre o isolamento paranóico e a agressividade explícita. Nos últimos meses de sua vida Miles Davis levava uma arma onde quer que fosse.
Mesmo diante do abismo das drogas que tragou alguns dos gênios do jazz; Charlie Parker, John Coltrane, Chet Baker e tantos outros, Miles Davis revelou um instinto de sobrevivência e uma visão de negócios únicos. 
Enquanto a dependência química desmantelou a capacidade funcional de Charlie Parker, que vivia em um caos administrativo crônico que o levou a penhorar o próprio instrumento, Miles conseguia controlar sua fúria em detrimento da disciplina exigida nos palcos. Antes de sua guinada espiritual, o vício também paralisou John Coltrane até sua demissão do lendário grupo de Miles nos anos 50.
Por fim, Chet Baker, que se tornou um nômade, uma sombra de si mesmo, até morrer quase esquecido de forma trágica ao cair de uma janela, tendo o crânio esfacelado pela queda. 
Miles, contudo, teve a autoconsciência de parar com a heroína em 1953, trancando-se no quarto da fazenda de seu pai, limpando o sangue do opióide por pura força de vontade. Mesmo quando enfrentou recaídas com outras substâncias ao longo das décadas seguintes, ele jamais abriu mão de sua postura de CEO do jazz.
Suas relações afetivas carregavam o peso da misoginia, documentada pelo próprio músico em sua autobiografia; casamentos e namoros foram sufocados pelo ciúme patológico e por episódios de violência doméstica. 
No entanto, essa mesma fúria interna alimentava uma postura combativa intransigente contra a opressão social. Em uma América segregada, Miles recusava-se a adotar a postura subserviente que a indústria fonográfica, geralmente dominada por brancos, esperava dos artistas negros. Sempre exigiu ser tratado como um gênio da música contemporânea, renegando o rótulo de entertainer. 
Sua postura altiva nas entrevistas e aparições ao vivo, o figurino impecável de alta costura e a recusa em sorrir para plateias condescendentes eram atos políticos de afirmação. 
Nem mesmo a violência policial, como a infame agressão que sofreu em frente ao Birdland em 1959 amansou sua índole. 
Miles Davis personificou o paradoxo do artista extraordinário cuja raiva, embora destrutiva na esfera íntima, foi o combustível necessário para confrontar o racismo estrutural de sua época e cravar seu nome na eternidade como um dos maiores artistas do século XX.

O legado
Ao celebrar o centenário de nascimento de Miles Davis, fica evidente que sua antecipação à fusão do trompete com as inovações tecnológicas deixou um mapa genético que se tornou a fundação da música urbana no século 21. 
Esse marco de 100 anos não serve apenas para exaltar o passado, mas celebrar a passagem por esse mundo do grande visionário que foi o músico Miles Davis e seu flerte com as máquinas, abrindo caminhos para que o hip-hop e a música eletrônica redescobrissem o jazz como matéria-prima. 
Sua visão futurista ecoou no acid jazz do Us3 e no projeto Jazzmatazz do rapper Guru nos anos 1990, estendendo-se até a revolução contemporânea de DJs e artistas como Robert Glasper, que confundem as fronteiras entre o acústico, o digital e o neo-soul. 
O verdadeiro legado do gênio do trompete, reforçado neste centenário está na coragem de usar a tecnologia para desafiar os puristas de sua época. 
Ao provar que a expressividade humana se mantém intacta mesmo em meio aos sintetizadores e samplers, Miles Davis chega aos 100 anos ainda apontando para o futuro, como o arquiteto definitivo do som do nosso tempo.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

C6 Fest 2026 consolida curadoria elegante com Robert Plant, The xx e ícones do Jazz

 

Branford Marsalis - Foto: Mark Sheldon (Extraida do site da Downbeat)

Entre os dias 21 e 24 de maio de 2026, São Paulo se transforma mais uma vez no epicentro da vanguarda musical global com a realização da quarta edição do C6 Fest. Ocupando os gramados e as estruturas do Parque Ibirapuera — incluindo a Tenda MetLife, a Arena Heineken, o Pacubra e o prestigiado Auditório Ibirapuera —, o evento traz ao Brasil um elenco de 28 atrações vindas de quatro continentes. 
O festival reafirma seu compromisso de costurar, em uma mesma lona, o peso histórico de lendas vivas, o frescor do pop alternativo e a sofisticação da improvisação instrumental contemporânea.
Fruto da parceria entre o C6 Bank e a Dueto Produções — produtora de herança inestimável, responsável por desenhar o Free Jazz Festival nas décadas de 1980 e 1990 —, o C6 Fest nasceu em 2023 com a missão de resgatar o espírito dos antigos festivais de nicho, focados na experiência e no ecletismo refinado. 
Em suas edições anteriores, o palco paulistano testemunhou momentos históricos, que variaram do experimentalismo eletrônico do Kraftwerk e do pop orquestral de Jon Batiste em 2023, passando pelo neo-soul catártico do Black Pumas e o lirismo de Cat Power em 2024, até chegar à celebração dançante de Nile Rodgers & Chic e o pós-punk do The Pretenders em 2025. 
Em 2026, o festival dá um passo além em sua maturidade conceitual, inaugurando o palco C6 Lab, espaço inteiramente dedicado a novas sonoridades e apostas experimentais da cena mundial.

Brandee Younger - Foto: Erin O'Brien

Quinta-feira, 21 de maio – Jazz no Auditório Ibirapuera
O festival abre suas portas no Auditório Ibirapuera a partir das 19h, dedicando sua primeira noite à profundidade do jazz instrumental contemporâneo e transfronteiriço.

20h00 – 21h05 | Anouar Brahem Quartet: O mestre tunisiano do oud (o alaúde árabe) apresenta o aclamado concerto After The Last Sky. Conhecido por fundir a tradição musical árabe ao jazz ocidental, Brahem sobe ao palco amparado por um quarteto de gigantes: o contrabaixista britânico Dave Holland, o pianista Django Bates e a violoncelista alemã Anja Lechner.
21h35 – 22h25 | Julius Rodriguez: Jovem prodígio do piano e multi-instrumentista do Brooklyn, Rodriguez personifica a nova era do jazz. Apelidado de "Orange Julius", o músico costura com fluidez as fronteiras do hard bop com o R&B, o hip-hop e o gospel, trazendo uma energia vibrante e urbana ao festival.
22h45 – 00h00 | Branford Marsalis Quartet: Um dos saxofonistas mais reverenciados da história do jazz moderno, o norte-americano Branford Marsalis lidera seu refinado e longevo quarteto. Dono de uma técnica irretocável que transita entre o clássico e o avant-garde, o músico traz a São Paulo a sofisticação do jazz acústico em sua máxima expressão de improvisação e diálogo coletivo.

Sexta-feira, 22 de maio – Jazz e Fronteiras Musicais no Auditório Ibirapuera
Na segunda noite, os portões abrem às 19h para celebrar a expansão do jazz em direção à world music, à vanguarda brasileira e ao pop eletrônico.
20h00 – 21h00 | Brandee Younger: Harpista norte-americana indicada ao Grammy, Younger tem sido a principal responsável por revolucionar o papel de seu instrumento na música contemporânea. Mesclando o jazz espiritual de Alice Coltrane com pulsações modernas de hip-hop e soul, ela entrega uma sonoridade hipnótica e profundamente melódica.
22h30 | Hermeto Pascoal Big Band: O "Bruxo" da música universal, patrimônio vivo da cultura brasileira, comanda sua enérgica Big Band. Hermeto Pascoal desafia os limites da composição rearranjando sua vasta e imprevisível obra com metais robustos, ritmos nordestinos e aquela liberdade harmônica genial que o tornou cultuado no mundo inteiro.
22h50 – 23h50 | Knower: Duo norte-americano de pop-jazz eletrônico formado pelo baterista Louis Cole e pela vocalista Genevieve Artadi. Conhecidos por apresentações hiperenergéticas e vídeos virais, eles misturam linhas de baixo colossais, harmonias de jazz complexas e texturas eletrônicas pesadas com muito humor e virtuosismo.

Sábado, 23 de maio
Alternativo, Rock e Eletrônica no Ibirapuera
O sábado marca a expansão do festival para as grandes arenas montadas no parque. Os portões se abrem às 13h para uma maratona de música alternativa que se estende até a madrugada.

Arena Heineken
15h40 – 16h40 | Amaarae: Cantora e compositora americano-ghanesa, Amaarae é um dos nomes mais incensados do afropop e do R&B alternativo atual. Com sua voz sussurrada marcante e produções que misturam dancehall, trap e música tradicional da África Ocidental, ela traz um ambiente pop global e sensual para o palco principal.
17h20 – 18h20 | Mano Brown part. Rincon Sapiência: Substituindo o cantor americano Dijon (que cancelou por motivos pessoais), a lenda do rap nacional Mano Brown apresenta um show focado nas texturas dançantes e românticas de seu celebrado álbum solo Boogie Naipe. O show passeia pelo funk, soul e disco, contando ainda com a rima certeira e elegante de Rincon Sapiência e clássicos históricos de sua trajetória.
18h50 – 20h00 | BaianaSystem part. Makaveli e Kadilida: O combo baiano traz seu tradicional paredão sonoro de sound system e guitarra baiana ao Ibirapuera. Para esta catarse rítmica, o grupo convida o rapper cearense Makaveli e a cantora Kadilida, aprofundando o diálogo entre as batidas periféricas e a urgência das ruas.
20h45 – 21h55 | The xx: O trio britânico indie pop faz seu aguardado retorno ao Brasil. Conhecidos pela estética minimalista, guitarras ecoantes e vocais sussurrados divididos entre Romy Madley Croft e Oliver Sim, amparados pelas batidas eletrônicas precisas de Jamie xx, eles encerram a arena com sua atmosfera melancólica e cinematográfica.

Tenda MetLife
14h40 – 15h40 | Horsegirl: Trio de jovens de Chicago que vem revitalizando o rock alternativo e o noise pop de garagem. Com influências diretas do lo-fi dos anos 1990 e de bandas como Sonic Youth, o grupo entrega guitarras barulhentas e melodias indie cativantes.
16h40 – 17h40 | Baxter Dury: O cantor e compositor britânico, filho da lenda punk Ian Dury, traz seu carisma singular de "crooner sarcástico". Com seu spoken-word peculiar sobre bases de indie pop e funk minimalista, Dury canta crônicas afiadas sobre a vida noturna e as excentricidades de Londres.
18h10 – 19h10 | Wolf Alice: Liderada pela magnética Ellie Rowsell, a banda britânica de rock alternativo transita sem esforço entre o shoegaze, o grunge pesado e o pop etéreo. Vencedores do cobiçado Mercury Prize, trazem ao festival um show vigoroso e cheio de texturas.
19h40 – 20h45 | Matt Berninger: O icônico e barítono vocalista da banda The National apresenta-se em seu projeto solo. Com interpretações densas e teatrais, Berninger traz baladas confessionais embaladas por arranjos folk e indie rock, destilando melancolia e composições líricas profundas.

Pacubra & C6 Lab
20h45 – 23h00 | Aline Rocha: DJ e produtora brasileira em franca ascensão internacional, conhecida por sets elegantes que passeiam pelo deep house, soulful e clássicos da house music.
23h00 – 03h00 | Marten Lou: O DJ e produtor parisiense traz sua assinatura de melodic house para a madrugada paulistana, arrastando pistas com seus remixes sofisticados de texturas profundas.
23h00 – 00h00 (C6 Lab) | Mabe Fratti: A violoncelista e compositora experimental guatemalteca (radicada no México) apresenta sua fusão de arranjos barrocos de violoncelo com sintetizadores e vocais etéreos, criando uma atmosfera vanguardista hipnotizante.

Domingo, 24 de maio – Pop alternativo, indie e clássicos do rock
O encerramento do festival mantém os portões abertos a partir das 13h, equilibrando o pop alternativo mais refinado com a presença histórica da realeza do rock mundial.

Robert Plant
Arena Heineken
15h30 – 16h30 | Magdalena Bay: Duo de synthpop de Los Angeles formado por Mica Tenenbaum e Matthew Lewin. Unindo uma estética visual inspirada no início da internet a um pop eletrônico cirúrgico, recheado de camadas de sintetizadores e ganchos viciantes, eles abrem a arena principal em tom futurista.
17h00 – 18h00 | Os Paralamas do Sucesso part. Nação Zumbi: Um encontro histórico do rock nacional. O power trio canônico do pop-rock e do ska brasileiro convida os herdeiros do manguebeat da Nação Zumbi. Juntos, prometem uma parede percussiva e de guitarras celebrando clássicos que moldaram a música brasileira moderna.
18h30 – 19h45 | Beirut: O projeto do multi-instrumentista Zach Condon retorna ao Brasil com seu aclamado e nostálgico "indie folk do mundo". Misturando elementos da música folclórica do Leste Europeu, acordeões, ukuleles e metais com o pop alternativo, a banda cria paisagens sonoras poéticas e bucólicas.
20h30 – 22h00 | Robert Plant's Saving Grace feat. Suzi Dian: A lendária voz do Led Zeppelin encerra o palco principal com seu mais recente e íntimo projeto. Ao lado da vocalista Suzi Dian e da banda Saving Grace, Robert Plant mergulha em suas profundas paixões pelas raízes do folk britânico, pelo blues de garagem americano e pela música mística oriental, entregando uma apresentação mística, acústica e de extrema sensibilidade.

Tenda MetLife
15h00 – 15h50 | Samuel de Saboia: O artista visual e pesquisador brasileiro apresenta um set performático, conectando pesquisas sonoras que dialogam com ancestralidade, batidas afro e texturas urbanas contemporâneas.
16h30 – 17h30 | Benjamin Clementine: Cantor, pianista e poeta britânico, vencedor do Mercury Prize. Dono de uma voz operística dramática e arrebatadora, as apresentações de Clementine ao piano são experiências quase teatrais, marcadas por um expressionismo cru que flerta com a chanson francesa e o avant-garde.
18h00 – 19h00 | Oklou: Produtora e cantora francesa que se tornou referência no movimento do hyperpop e do R&B ambiente. Suas produções trazem vocais carregados de auto-tune sob bases minimalistas e melancólicas de sintetizadores, desenhando paisagens digitais introspectivas.
19h20 – 20h30 | Lykke Li: A cantora e compositora sueca encerra a Tenda MetLife trazendo seu pop alternativo melancólico e sensual. Com sucessos mundiais na bagagem, ela apresenta canções que equilibram batidas eletrônicas soturnas com vulnerabilidade acústica e vocais marcantes.

Pacubra & C6 Lab
20h00 – 21h30 | Jude Paulla: A DJ brasileira traz sua pesquisa focada em ritmos tropicais, música brasileira de pista e black music, injetando descontração e ginga na reta final do evento.
21h30 – 23h30 | DJ Nyack B2B Pathy Dejesus B2B Eduardo Brechó: Um encontro de peso da discotecagem nacional. Unindo o consagrado DJ Nyack (conhecido por seu trabalho com Emicida), a versatilidade de Pathy Dejesus e a bagagem de Eduardo Brechó (líder do Aláfia), o trio comanda uma sessão de encerramento focada no hip-hop, r&b, soul e grooves brasileiros.
23h00 – 00h00 (C6 Lab) | Cameron Winter: O vocalista e principal compositor da cultuada banda de indie rock novaiorquina Geese encerra os trabalhos do palco experimental. Em sua apresentação solo, Winter expõe suas composições em formato cru, passeando pelo art-punk e pelo folk torto com sua habitual entrega vocal excêntrica.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Mike Del Ferro, entre o rigor de Chopin ao balanço de Jobim

 


Texto: Eugênio Martins Jr
Fotos: Divulgação Mike Del Ferro

Mike Del Ferro carrega um DNA artístico singular: É filho de cantor de ópera que dividiu estúdios com Maria Callas. E   cresceu sob a égide do rigor clássico de Chopin e Beethoven, mas encontrou sua voz no improviso ao descobrir o jazz de Oscar Peterson. 
Pode-se dizer que essa dualidade permeia toda a sua obra, equilibrando a música erudita europeia à música do mundo, África, Ásia e Oriente Médio, incluindo o balanço das músicas latina e brasileira.   
Sua relação com o Brasil foge do encantamento superficial do turista. Na nossa conversa, Del Ferro mostrou-se um observador atento, reconhecendo os desafios da sobrevivência do artista no país, mas que, ao mesmo tempo, deixando-se seduzir pela profundidade melódica dos nossos compositores, enaltece os nomes de Milton Nascimento e Tom Jobim. 
Essa conexão se materializou em parcerias com Oscar Castro Neves, Badi Assad e Fernanda Porto, além de uma fraternidade musical duradoura com o baterista Márcio Bahia. 
A ponte aérea Amsterdam/São Paulo lhe serve duas vezes por ano, ocasiões as quais aproveita para tocar e trocar com os músicos brasileiros de todos os estilos.
Dentro da diversidade do seu catálogo encontra-se Sintonia, no qual a sua ligação com o Brasil se torna mais profunda. 
Além da compreensão real das harmonias brasileiras, Mike entende o nosso balanço, transformando o piano em uma extensão dessa linguagem.  
A cantora holandesa Femke Smit faz o contraponto vocal a esse refinamento. Sua interpretação é marcada por uma dicção cuidadosa e uma sensibilidade que respeita a tradição da bossa nova e da MPB. Fruto de suas inúmeras viagens de “estudos culturais” ao Rio de Janeiro. 
Ao dividir o protagonismo com o piano, Smit adiciona uma camada de suavidade e elegância às melodias, consolidando o disco como um verdadeiro encontro cultural entre o jeitão europeu e o jeitinho brasileiro.


Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical?
Mike Del Ferro – Foi cheia de música. Nasci em Amsterdam e meu pai foi um cantor de ópera que atuou com Maria Callas em algumas gravações. Então, cresci ouvindo ópera e música clássica. Mas sempre fui muito interessado em piano e meu pai me acompanhava nos estudos. Comecei a tocar, improvisando um pouco e depois estudei seriamente a música clássica. Mas sempre sentia falta de alguma coisa. Veja, adoro a música clássica e tenho muitos projetos, mas sempre senti a falta da liberdade. E quando descobri o jazz e a música latina, com o ritmo, harmonia, improvisação vi que era aquilo que eu queria fazer. Me tornei um aficionado pelo jazz e pela música latina. Não só a música brasileira, mas a música cubana também. E claro, o jazz.

EM – Quantos anos você tinha quando percebeu isso? Já era profissional?
MDF – Tinha uns quinze anos e já tocava Chopin, Beethoven e Mozart, mas meu pai era um cara de mente aberta e quando Oscar Peterson fez um concerto em Amsterdam ele me levou eu pensei: “Ohhhhh”. Foi como um vírus, entende?   

EM – Como é a cena de jazz de Amsterdam atualmente?
MDF – Tem músicos muito bons. E possui um fantástico conservatório internacional que recebe músicos do mundo inteiro, entre Brasil e Coréia. O nível é realmente muito alto, mas o problema é que não há muitos lugares para tocar, porque apesar de Amsterdam ser uma cidade cosmopolitana, oficialmente com um milhão de pessoas, não é tão grande como São Paulo ou Rio. Eu toco oitenta por cento fora da Holanda. Na Europa, América do Sul, muito no Brasil, China, Itália, muitos lugares. 

EM - Você tocou e gravou com Oscar Castro Neves, Badi Assad e Fernanda Porto, como foi isso? Gostaria que falasse sobre a sua relação com a música brasileira.
MDF – Minha íntima relação com a música brasileira se deu através do meu amigo Márcio Bahia. Somos como irmãos. Estive no Brasil tantas vezes e conheci pessoas fantásticas. Também conheci o Gabriel Grossi, que para mim é tão criativo quanto Toots Thielemans, com quem toquei por muitos anos. No Rio Grande do Sul conheci um baterista fantástico chamado Ricardo Arnold. Amanhã me encontrarei com o André Mehmari e quem sabe aconteça um piano duo. Amo esse país, mas acho um país desafiador. Sei que muitos músicos superam dificuldades para sobreviver. Não sou daqueles que ficam romantizando. Amo vir para cá, mas como estrangeiro tenho uma visão realista sobre as dificuldades. Para os músicos e pessoas ligadas às artes é um grande país, mas com muitos desafios.

EM - Você disse que iria encontrar com o André Mehmari. Ele também é um músico que transita entre o jazz e a música erudita. Gostaria que explicasse isso, como é andar nessa linha divisória?
MDF – É a combinação entre curiosidade e respeito pela música clássica que está aí por muitos séculos. Vamos voltar à ópera. Temos grandes óperas de Puccini, mas acho que elas podem ser apresentadas de outras formas. Especialmente suas árias, um material incrível que permite fazermos outras harmonizações. Essa é a minha curiosidade por todos os tipos de música. Pegar os ingredientes e colocá-los juntos para criar uma coisa nova, mas sempre respeitando o original. 

EM – É possível fundir o balanço do samba jazz com a rigidez da música clássica europeia?
MDF – Acho que essa é uma das principais razões para eu ter me conectado tão bem com o Brasil. Adoro tocar música secular (acho que ele está falando do choro), samba e outros ritmos, mas ao mesmo tempo trago a beleza do meu país, minha herança cultural para junto apresentá-la. Toco a música lenta como a de Tom Jobim e as pessoas gostam porque não toco muitas notas e insiro outros elementos.

Mike Del Ferro e Femke Smit

EM - Você gravou um disco de músicas brasileiras com a cantora Femke Smit que se chama Sintonia, que é um termo muito bacana. O que representa nesse contexto? A sintonia entre ambos ou com a música brasileira?
MDF – Temos em comum que nossos pais foram ambos cantores de ópera. Então Femke já carrega essa influência. E ela é uma apaixonada pela música brasileira. Viveu aqui por algum tempo. Seu português é fantástico. Ela conhece muitas cantoras brasileiras de MPB. Quando estive com Femke no Rio de Janeiro ela me levou aos lugares do samba, como aquele famoso, o Samba do Trabalhador. E interessante que os sambistas a conheciam e a chamavam para cantar. Ela conhece muitos sambas tradicionais, conhece o Paulinho da Viola e todas as suas músicas. É uma grande coisa para quem cresceu em Amsterdam e essa é a sintonia, o amor pela música brasileira. Nós amamos canções que não são tão famosas fora do Brasil, sei que isso também é relativo, estou falando de Encontros e Despedidas ou Beatriz, por exemplo, que são incrivelmente bonitas.      

EM – Nós brasileiros ouvimos música do mundo inteiro, especialmente o jazz norte-americano. Mas atualmente esse movimento se inverteu e a música brasileira, inclusive a música instrumental, o nosso jazz, está sendo muito exportada. Você consegue ver esse movimento?
MDF – Acho fantástico. Porque esse país é um planeta musical. Se você pegar Tom Jobim que escreveu inúmeras canções incríveis como Garota de Ipanema, One Note Samba, How Insensitive, que muitos fora do Brasil conhecem e usar o exemplo do Filó Machado, um artista incrível, que viveu em Paris um curto período, mas que as pessoas na Europa não conhecem. Veja, ainda há muito o que ser descoberto. O advento da internet proporcionou acesso às pessoas a música de todo o mundo. 

EM - O que é o programa American Voices?
MDF – É uma organização cultural. Trabalhei com eles por 15 anos como embaixador. Rodei o mundo apresentando jazz tradicional. A filosofia era criar pontes musicais entre os países. Visitei o Afeganistão, Cazaquistão, Mauritânia, onde há uma música inacreditável. Tocava com músicos tradicionais. Minha curiosidade não se limitou ao jazz e se expandiu para a world music da África e Ásia. Estive na Sibéria, Mongólia e parte da Rússia. A filosofia de American Voices é conectar os músicos. Uma potente forma de comunicação.

EM – E ao mesmo tempo conectando as pessoas de diversas culturas.
MDF – Sim. Estive no Afeganistão duas vezes em 2005. Ensaiei com alguns músicos, mas também conheci o fantástico público local. Os músicos me convidavam para conhecer suas casas e cozinhavam para nós. Essa parte do mundo recebe tanta propaganda negativa, mas a música nos unia. Não ligávamos para a política, religião ou cor da pele.

EM – Sim. Geralmente as pessoas são boas, mas os governantes é que fodem tudo. Eles dividem os povos para continuar governando.
MDF – Sim, é verdade, eles fodem com tudo. Conheço grandes músicos palestinos e judeus que colaboram entre si. 

EM – Acho que a música acaba tornando o mundo um lugar pequeno, onde todas as conexões são possíveis e aceitáveis.
MDF – Concordo cem por cento com você. As pessoas rotulam de fusion ou crossover e eu acho uma besteira. São apenas terminologias erradas. 

EM – Após essa recente turnê, quais são os próximos planos para o Brasil?
MDF – Venho duas vezes por ano ao Brasil. Mais ou menos a cada seis meses. Desta vez toquei em Porto Alegre, São Pedro, amanhã em São Paulo com Victor Cabral e Thiago Alves, músicos fantásticos. Provavelmente volto em outubro e novembro para fazer Sescs. Em janeiro de 2027 volto ao sul do Brasil, em Pelotas e depois cruzo a fronteira para o Uruguai. Sempre que tiver chance virei ao Brasil. O aeroporto de Amsterdam tem dois voos diários de apenas onze horas para o Brasil, um para o Rio e outro para São Paulo.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Marco Bosco, 70 anos: Uma odisseia percussiva de Torrinha para o mundo

 

Marco Bosco e sua parafernália

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Marco Bosco rodou o mundo com a música. A música do Marco Bosco rodou o mundo. E cada pedaço do mundo mora na música de Marco Bosco. Ouvi-la, é presenciar um fenômeno, no qual as fronteiras geográficas simplesmente não fazem sentido. 
Com seu cúmplice, o tecladista Paulo Calasans, Bosco opera uma central que une sintetizadores a equipamentos rústicos de percussão, criando artérias sonoras que ligam o pulsar do Japão ao coração da África, passando pela ancestralidade da China e os sons vivos da floresta amazônica.
Essa fusão, no entanto, não é fruto do acaso, mas da natureza intrínseca da percussão brasileira, uma linguagem com portas sempre abertas.
No tabuleiro da música do mundo - world music - o Brasil não apenas participa, ele fornece a gramática rítmica que permite a conversação entre diferentes continentes. 
Quando Marco Bosco utiliza o couro de um tambor ou o metal de um chocalho, ele convoca uma herança que já nasceu mestiça, capaz de absorver a complexidade dos ritmos orientais sem perder a identidade. 
E desculpe a redundância, nesse cenário a percussão deixa de ser apenas marcação de tempo para se tornar a própria arquitetura sonora. É o elemento que humaniza o sintetizador e dá textura ao caldo sonoro global. 
Ao priorizar a batida da terra, Bosco reafirma que a música do mundo não se faz apenas com tecnologia, mas com a sensibilidade de entender que o balanço do maracatu ou o choro de a cuíca possuem frequências que transformam a diversidade geográfica em um elemento compartilhado.
Sua discografia é tão grande quanto diversa. Ouvir Metalmadeira (2014) e Metalmadeira II (2025) é essencial. Online (2016) com Paulo Calasans foi um disco gravado...online. Mais uma possibilidade da tecnologia à serviço da música.    
No Spotify ainda é possível achar pérolas avulsas colocadas lá para o nosso deleite e o do mundo: Flora Brasileira (com Flora Purim), Inventando Moda, Electricwood I e Electricwood III.
Uma passada nessa discografia também nos encontramos com Airto Moreira, Egberto Gismonti, Oscar Castro Neves, Ruriá Duprat, César Camargo Mariano, Dominguinhos, Marlui Miranda e muitos outros. 
Marco Antônio Bosco nasceu hoje, 28 de abril, há 70 anos atrás. Essa matéria é uma homenagem a esse grande músico que leva o nome do Brasil para onde vai. 
Abraço, Bosco. Feliz aniversário. 


Eugênio Martins Júnior - Como foi a tua infância musical?
Marco Bosco – Olha. Desde meu avô paterno, que era violeiro, todo mundo canta. Tinha minha tia Selma rodou o mundo como bailarina espanhola. Os caras iam ensaiar em casa e lembro de ouvi-los tocando. O tio Nenê era o Frank Sinatra brasileiro. Minha mãe fala que quando cheguei em Aparecida do Norte para ser batizado escolhi uma violinha como presente. Já no ginásio havia uma fanfarra. Aí pensei: “É essa parada aí que eu quero”. Virei corneteiro, trompetista. 
Em São Paulo fui morar na Peixoto Gomide, esquina com a Itararé, onde ensaiava a (escola de samba) Vai Vai. Aquele baita barulhão. Aí fui lá, né? Com 16 anos fui tocar na avenida Ibirapuera. O shopping não existia, só casas de samba. 

EM – Deixa eu me situar. Você já tinha ido morar em São Paulo com a tua família?
MB – Meu pai morreu quando eu tinha três anos. Saímos de Torrinha e fomos para São Paulo. Onde cresci, casei e servi o exército. Mais tarde, já na música, fui estudar em Campinas. Estava tocando em uma casa noturna e tinha um show do Zé Rodrix na cidade. Ele me pediu os timbales emprestados e eu disse: “Emprestar eu não empresto. Eu toco”. Quando acabou o show ele disse que estava montando uma banda em São Paulo e me chamou. Eu disse: Só se for agora”. Fui para São Paulo. Mas aí conheci o seu Liu, da dupla Liu e Léu. Ele todo chique e tal. Ele gostou de mim e me colocou para gravar com todos os sertanejos. Gravava três discos por dia com o Julião Batera, que me ensinou pra caramba. Toquei com o Zé Rodrix, Luiz Ayrão, um monte. Daí estou um dia na RCA Victor quando chega uma delegação do Japão. O Reinaldo Barriga não sabia falar inglês e eu fui como intérprete. Conversa vai, conversa vem eu disse que era primo da Sônia Rosa, uma cantora que ganhou tudo o quanto era festival da época. Ela era conhecida por ter participado da feira de Osaka em 1970. Ela e o João Bosco. O Sadao Watanabe a adotou e ela nunca mais voltou. 

EM – Essa tua prima foi com uma banda e o João Bosco? 
MB – Não. Só ela e o João Bosco. Ela cantava bossa nova, era compositora, ganhou festivais, inclusive com a Odete Lara cantando uma música dela. Ela gravou um disco no Japão com o Sadao que vendeu seis milhões de LPs. 

EM – Se deu bem logo de cara. 
MB - Então, mas naquele dia, na RCA Victor o japonês pediu meu contato e depois me chamou. Em 1980 montei uma banda chamada Grupo Acaru, com o Ruriá Duprat e o Leandro Brás. Mas o Leandro saiu. Ficou o Turquinho Alves, Zé Américo Antônio e o Ruriá. E fomos para Tóquio. 

EM – Espera um pouco, já vamos chegar no Japão. Quero voltar um pouco. Nunca tinha ouvido falar de Torrinha até te conhecer. Parece que a cidade não mudou em décadas. Ainda possui somente nove mil habitantes. A cidade ainda te inspira de alguma forma?
MB – Nove mil no município. Na cidade tem sete mil. É do ladinho de Brotas. Velho, eu sou da viola. Cresci aqui. Onde ninguém fala você. Todo mundo fala “Cê”. Vou fazer 70 anos e meu projeto novo vai se chamar “Cê Tenta em Casa”. Com os violeiros a Orquestra de Campinas e convidados.

EM - Nos anos 2000 você realizou um projeto musical com jovens da cidade. Fale sobre isso.
MB – É o seguinte (risos). Minha mãe estava muito doente em São Paulo e eu pensei: “Vou levá-la pra roça para ela morrer em paz no cantinho dela”. O médico falou que ela tinha seis meses e aqui ela durou mais dois anos. Aqui tem muito eucalipto e eu conheci o maior produtor local de óleo de eucalipto. E descobri que ele tinha um depósito de latas de óleo daquelas de 20 litros. Mas tinha umas quinhentas.  Arrumei um caminhão e peguei todas. Aí fiz esse projeto com a molecada, desde pintar a lata até tocar. Não tinha outro instrumento, só lata. 

EM – Para quem quisesse participar?
MB – Sim. E a estação do trem estava desativada e a gente ensaiava lá.

EM - Pesquisando para fazer essa entrevista li que você produziu trilhas para dança, teatro e cinema. Eu ia te falar mesmo que acho a tua música bem visual. Posso estar falando groselha e se estiver me corrija, mas gostaria que falasse sobre isso.
MB – Acertou na mosca. Sou percussionista, mas gosto do Pink Floyd. Porque as imagens sonoras são as que ficam. Saio aqui na porta e tem seriema, tucano e eu gravo tudo. Minha vida inteira foi reproduzir os sons da natureza. Voltando ao Zé Rodrix, fui com ele tocar em Vitória. Quando acabou o show conheci o Maurílio Coelho. Manja esse cara? 

EM – Não.
MB – Ele me deu uma caixa de madeira, grande, linda, com quarenta e oito cantos de passarinhos. É o que uso até hoje. Quando você coloca um reverb ou um delay parece que você está no mato. Cresci no mato, mas gosto de Pink Floyd, Santana. Como é que eu vou tocar conga como o Giovanni Hidalgo? Impossível. Mas se tocar do meu jeito ele também não vai tocar o que eu toco. Fui construindo assim. Você chega no lugar e não é o que você quer tocar, é o que o cara quer. Você está lá para isso. Já gravei com Deus e o mundo. Aprendi muito com vários artistas. Pô, gravei o original de Fuscão Preto. Trabalhei com Liu e Léo, Zico e Zeca, Pena Branca e Xavantinho, Chitãozinho e Xororó. Chegava no estúdio: “Hoje é esse, vamo simbora”.

Marco Bosco e Leo Susi no Bourbon Street

EM - Vejo em muitas das tuas composições uma fusão de elementos eletrônicos e instrumentos acústicos. Posso citar alguns exemplos aqui: 33 e o EP mais recente, o Metalmadeira II e a música Sol da Manhã que parece que tem um berimbau com wha wha. Isso foi um planejamento no sentido de “eu quero falar com o mundo”, “eu quero fazer isso mesmo” ou foi acontecendo naturalmente?
MB – É um berimbau com arco de violino. Em 1980 eu fui para o Japão para ficar quatro meses, que era o máximo que podia. Levei instrumentos brasileiros velhos, sabe como é. Quando cheguei lá comprei uma bateria eletrônica da Yamaha. Uma de cartucho. Na época não existia midi. Me aprofundei na bateria eletrônica, nas levadas que eu queria, como queria. Por exemplo, esse disco que saiu agora, o Metalmadeira II, é de 1983. 

MB – Como chama aquele cara que foi produtor do U2?
EM – Daniel Lanois? 

MB – Não.
EM - Steve Lillywhite?

MB – Não, aquele outro famosão. Na bienal de São Paulo de 1984 eu dei um disco para ele, assinado e tal. Passaram-se trinta e poucos anos o John Gomes, DJ fodão lá da Inglaterra, encontrou esse disco assinado num sebo e comprou.

MB – Lembrei, Brian Eno. Você falou todos menos ele. (risos)
O Brian Eno tinha aquele disco Music For Airports que eu pirava. 
Mas então o DJ achou o disco e entrou em contato comigo. Ele produziu um álbum duplo no qual tenho três músicas. Cara, esse álbum vendeu quarenta mil cópias. Uma DJ brasileira que nasceu em Curitiba e mora em Milão comprou o Metalmadeira e via gravadora Soundway Records juntou vários DJs para gravar alguns remixes. Diziam que eu fui o primeiro cara da música a fazer o que eu faço hoje. Porque lá nos anos 70, eu e o Paulo Calasans, ainda moleque, fazíamos um som acompanhando um ao outro com bateria eletrônica, sequencer, era uma onda. Você trocava o programa com a fita cassete. A cada duas músicas alguém tinha que falar alguma coisa para dar tempo de trocar. Fomos caminhando assim desde o começo.

EM - Fale sobre essa parceria com o Paulo Calasans. Ele completa o lado eletrônico do teu som. Programações, sinths, teclas.
MB – Tenho 16 álbuns e ele tocou em 14. No álbum Online de 2015 fizemos tudo online. Até ensaiar. Só nos encontramos no dia do show. O lance com o Calasans foi o seguinte. Íamos tocar em Jundiaí e o pianista deu o cano. Mas o equipamento dele estava com a gente. E quando acabou o show em questão fomos comer e beber em um lugar onde o Paulinho estava tocando. Nós perguntamos se ele queria seguir turnê com a gente e ele aprenderia as músicas no ônibus e ele foi. 

EM – Tá de sacanagem?
MB – É. Aí o Sá e Guarabyra também o chamou. Depois o Lô Borges. 

EM – Você fez com ele a mesma coisa que o Zé Rodrix fez contigo. Chamou o músico e deu uma chance.
MB – Exatamente. E ele tocava pra caramba. O pai dele tocava violoncelo e os irmãos violino, baixo e viola. Tinham um quarteto clássico. 

EM – Que história legal. Mudando de assunto, muita gente chama isso que você faz de world music. Você reconhece esse rótulo?
MB – Faz sentido. Não faço música para nenhum lugar específico. Quando estou gravando não penso em nada. Eu recebo algumas gravações, edito e gravo do meu jeito. Ninguém se encontra mais pra tocar. 

EM – Por um lado isso legal. A tecnologia encurtou as distâncias, mas o calor do estúdio, da troca de ideia ao vivo se perdeu. 
MB – É, você pode testar, mudar, editar. Bicho, tocar em disco é uma coisa e ao vivo é outra. O tratamento é diferente em cada música. 



EM - O teu kit de percussão é o maior que eu já vi até hoje. Você tem noção de quantos instrumentos tem?
MB – Ah não sei. Tem o básico, né? Timbales, conga, djembe, bongô e o resto. Sei lá. Fui para Portugal e um cara fez um monte de sino de barro. Outro dia estava andando aqui no pasto e trombei com um cavalo morto e roubei o queixo dele. Está aqui. Vou te mostrar. (ele pega o negócio coloca em frente à tela do computador, é um trambolho que nem dá pra ver direito). É um dos instrumentos mais antigos do mundo. A primeira vez que ouvi foi na música Disparada. É o pai do vibraslap. 
E agora ganhei um berimbau feito em São Paulo que é o melhor do planeta, feito pela Berimbau Brasil. É um absurdo. Com tarraxa de contrabaixo, corda de pianos que afina. Você vai juntando instrumentos, cabaças da África, sementes.

EM – Bosco, você teve uma vida musical prolífica no Japão. Não sei nem por onde começar, você fez muita coisa lá naquele país. Gostaria que contasse um pouco dessa história.
MB – A primeira vez fiquei quatro meses. Só que esse disco que gravamos lá, Live at Hot-Crocket, o lugar onde a gente trabalhava, vendeu sessenta mil cópias. Pô, comprei um apartamento. Tirava até foto do dinheiro e tal. Depois, em 1989/90 mandei uma trilha que fiz para um balé em São Paulo sobre danças indígenas. A Odeon do Japão, que tinha um selo com um nome brasileiro, me chamou. Fui e gravei mais algumas faixas, num disco que se chama Hánêréa (The Power of Nature), usando algumas coisas que gravei em Manaus. E foi pintando trampo e eu fui ficando. Mas tinha que arrumar alguma coisa para fazer lá. Naquele momento entre o Brasil e o Japão havia começado a modalidade de “visto cultural” e eu me matriculei numa escola chamada Edo Sukerocu Daiko. Fui aprender a tocar instrumentos japoneses, o taiko. Fiquei cinco anos com eles. No disco chamado Tokyo Diary coloco junto com a galera do samba. 
Depois conheci um cara chamado Nick Wood, que era sócio do Simon Le Bom do Duran Duran. Eles têm uma produtora chama SYN Productions e eu comecei a gravar com eles e fui ficando. Fiquei mais de 20 anos.

EM – A família foi junto?
MB – Não. Fiquei viúvo aos 37 anos. Minha filha ficou morando com as tias e só foi quando ficou adolescente. Minha mãe estava muito doente e eu voltei em 2000, mas ela acabou falecendo. Em 2004 voltei para o Japão e depois voltei ao Brasil em 2012. Depois fui para a Europa, Portugal, Macedônia, um lugar maravilhoso. No final de 2019 voltei para trocar o meu visto e estourou a pandemia e eu vim para Torrinha. E estou aqui desde então.

EM - Tokyo Diary é um álbum com uma constelação de bambas. Já que você tocou no assunto, gostaria que falasse sobre esse álbum.
MB – A parada é a seguinte. Minha prima Sônia que morava lá e está viva até hoje, era muito amiga do Sérgio Mendes e do Oscar Castro Neves. O Sérgio me chamou para trabalhar com ele. Também fiquei muito amigo do Oscar Castro Neves, ele era o professor, né? Me ensinou tudo. 
Depois conheci um cara chamado Jun Otsu, que era programador de uma grande rádio, porque no Japão há quatro grandes rádios estatais. E naquele tempo o programador saia para comprar discos. Ele comprou o Hánêréa - The Power of Nature e passou a tocar. E nada é por acaso, velho. O Seigen Ono, que era engenheiro de som me apresentou ao Otsu que disse: “Olha, eu recebi uma herança e quero fazer seu disco. Mas quero fazer um “puta” disco”. Eu Disse: “Você paga? Ele concordou. Falei com o Oscar e ele montou uma banda de cair para trás: Airto (Moreira), Flora (Purim), César Camargo Mariano, Ruriá Duprat, Don Grusin, Alex Acuña. Muitas percussões coloquei depois aqui no Brasil. Tinha que apresentar um trabalho pelo tempo que estudei lá. Daí escrevi uma peça com os toques deles e misturei com samba.


EM – Foi malandro. Juntou as duas coisas, a tese com a gravação. 
MB – A primeira vez que eu fui, cabeludo, barbudo, era parado na rua e as pessoas pegavam na minha barba. Quando cheguei no lugar havia trinta e seis brasileiros. Quando saí tinha mais de 300 mil. Logo de cara conheci o Tsuyoshi Yamamoto, inclusive temos um disco gravado. Ele está vivo até hoje e naquela época já era importante. Quando o Acaru gravou no Japão me disseram que precisava ter um convidado e quando o ouvi tocar já disse que seria ele. Somos amigos até hoje. 

EM – Você também morou na China? Sei que cruzou o país com o Leo Susi. Conta essa história. 
MB – Fui doze anos seguidos para a China. Na última vez que eu fui com o Randy Brecker, antes da pandemia, tocamos em 48 cidades, ficamos sessenta dias, quase morremos de tanto tocar. 

EM – Imagino. A China é gigante igual ao Brasil.
MB – Por isso que eu falo, se aquilo é comunismo eu não vejo a hora de chegar aqui. 

EM – A lista de músicos importantes que você tocou é infindável. Mas não dá para não perguntar essa. Você tocou com a Nina Simone. Como foi isso? Só se encontravam na hora de tocar? Como ela era?
MB – Não, viajávamos juntos. Era bem louco. Tinha um moleque que viajava com ela, e que nós apelidamos de Miltinho por parecer com o Milton Nascimento, que andava com um cooler em uma bolsa chique e uma taça de cristal, champanhe e um monte de baseado. 
A gente ensaiava, mas os caras tocavam com ela há vinte, trinta anos. Ela só ia no final do ensaio. Quando chegava na hora do show ela mudava tudo. Foda-se o ensaio. Quando veio tocar no Brasil ela lembrou que eu era daqui. Eu disse que não tocava aqui havia uns oito anos. Na hora do show, naquele lugar enorme, não lembro onde foi, um lugar conhecido. Ela disse: “Olha tem um cara que não toca aqui há muito tempo e vai tocar agora pra vocês”. E ela saiu e me deixou sozinho. E eu mandei pau. Aí ela aparece com um adereço da África e eu tocava e ela ficava dançando e fazendo umas rezas em cima de mim. A casa veio abaixo.

EM – E no trato, no dia a dia? Como era ela?
MB – Convivência normal. Ficava muito na dela. E tinha umas coisas malucas, assim, dela. Antes do show ficava no camarim e a gente no nosso. Mas todos os músicos tinham que ir ao camarim dela e falar: “Nossa, como você está bonita!” Era só isso. Muito louco, bicho!

EM – Bosco, estamos chegando no final da entrevista. Como está a tua vida hoje?
MB – Em 2024 lancei um projeto chamado 40 e Manos, que é um álbum duplo chamado Em Canto, só cantado. E outro chamado Em Toque, que é só tocado. E um detalhe importante: tem um cara brasileiro chamado Carlos Freitas, que é o gênio da masterização no mundo. Ele mora em Miami, mas era do time do lendário estúdio Vice e Versa, em São Paulo. Recentemente fizemos um Single em Atmos chamado Awá, sobre a história de um índio da Amazônia, cuja família foi assassinada. Fizemos eu e o Jether Garotti com a orquestra dele, ficou legal. E agora estou preparando os singles, um chama Abraçando Vida, Natural Mentes e outro, Acordado no Sono. Essa coisa eletrônica que eu sei fazer. Vamos ver. Agora eu faço 70 anos e estou preparando um projeto para sair o ano que vem que se chama Cê Tenta em Casa. Com os violeiros, só que do meu jeito, com eletrônica e a Orquestra de Cordas do Jether Garotti.

EM – Fazendo a fusão que é a tua assinatura?
MB – Exatamente. Tentando manter a música viva.