Olha o Manduca aí. Acredita que esse moleque nasceu num dia 22 de 2023, mesmo dia que o meu pai nasceu, só que em meses diferentes. Mas meu pai também nasceu num dia 22 em 1923. Ele parece muito com meu pai. É muito observador. E em dois momentos ele fez coisas que meu pai fazia. Um é colocar a guitarra nas costas. Pegou o cavaquinho dele e colocou nas costas. E quando ele finge que está tocando minha irmã diz que parece que está vendo meu pai. Como ela é espírita e mãe de santo, disse que está no tempo exato de reencarnação, realmente. Faz 27 anos que meu pai morreu. E segundo ela acontece essa coisa com os espíritos, do avô, filho, neto ficam rodando na mesma família. E meu pai tinha uma ligação muito grande comigo.
Meu pai foi um grande músico e compositor. Compôs vários frevos de trio elétrico. Ele gostava de frevo porque é uma música que exige muita habilidade instrumental. O pai dele, meu avô, era pernambucano, então ele tinha uma ligação com a música pernambucana muito forte.
Aos 19/20 anos de idade ele se ligou ao Dodô, que era um eletrotécnico e tocava violão com o Dorival Caymmi. Mas no final dos anos 30 o Dorival foi fazer sua carreira no sul. A partir dos anos 40 meu pai começou a tocar com o Dodô nesse mesmo conjunto, o Três e Meio. Um conjunto de seresta que tocava as músicas do Dorival. Mas meu pai a colocou os frevos e as marchinhas e coisa começou a mudar. Entraram os chorinhos que ele também gostava muito. Ouvia muito Lupércio Miranda e Jacob do Bandolim. Essa era a escola musical dele. E eu cresci ouvindo isso.
Até o tempo que eu convivi com a minha mãe só pegava em um instrumento escondido. Meu pai deixava lá por acaso e eu ia e dava uma palhetada e minha mãe chegava logo para tirar da minha mão.
EM – Armandinho, há muitos músicos no mundo. Ótimos e geniais. Mas poucos são os inovadores. O teu pai foi um desses, um inventor. Gostaria que falasse sobre isso.
AM – Ele inventou o trio com o Dodô. Inventaram a modalidade da guitarra maciça, que chamavam de cavaquinho elétrico. Violão elétrico. Eles estavam eletrificando tudo.
A partir de 1942, Dodô, um técnico em eletrônica, fez um captador. Coisa que não tinha e não vendia. Ele trabalhava com bobina, fazia transformador. Ele aprendeu depois de ver Benedito Chaves e seu violão elétrico, um violonista que tinha na Bahia. A invenção de Dodô era bem rudimentar. Um captador que ainda fazia ruído, microfonia. Ele botava no cavaquinho de meu pai, aquele com afinação de bandolim, e no violão dele e jogava nos amplificadores. Naquela época aquilo já era uma coisa impressionante.
Meu pai encheu o cavaquinho dele de estopa e teve um ganho de uns 50% a mais. Nessa o Dodô pensou: “Pô, se o cavaquinho soa melhor abafado é porque não precisa da caixa. Vamos fazer um corpo sólido”. Mas o Dodô Tinha 16 filhos e trabalhava para uma rádio e tinha que entregar os equipamentos. E meu pai ficava em cima dele para modificar o instrumento. O Dodô prendeu uma corda em uma bancada nos dois lados, mudou a posição do captador e ganhou grave, agudo, deu um sonzão redondão. Meu pai disse que quase estourou o falante. BAAAAAAMMM! O vizinho achou que era o sino da igreja.
Mas o Dodô não sabia fazer um instrumento, nunca havia feito uma escala. Meu pai não teve dúvida, foi na loja, comprou um cavaquinho e um violão. Ainda brincou com o vendedor: É bom mesmo esse instrumento?”, e quebrou os dois na frente do vendedor. Ele foi chamar o dono da loja dizendo que tinha um maluco quebrando tudo. O homem já estava chamando a polícia quando meu pai saiu atrás dele dizendo que ia pagar e que só queria o braço dos instrumentos. Aí foi a vez do dono perguntar se ele não queria quebrar mais coisas.
EM – Mas ele ia reconstruir os instrumentos?
AM – O Dodô era um cara inteligente e fez o complemento com jacarandá. Pronto. Quando ligava naquelas cornetas metálicas o cavaquinho gritava. Não deu outra. O Dodô, com a capacidade inventiva dele, de eletrônica e conhecimento, se ligou que em vários lugares que eles tocavam não tinha luz. Então ele ligava os instrumentos em bateria de carro. Aí no carnaval eles ligavam na bateria do carro e saiam tocando. Os percussionistas andavam atrás, igual bloco de rua. Quem estava na rua enlouquecia.
EM – Nasceu o trio elétrico.
AM – Pois é. Mas era dupla elétrica. Mas tinha um terceiro, que Dodô fez um violão para ele também. Aí colocaram o nome do conjunto de Trio Elétrico. Saiam no carro que meu pai usava na metalúrgica dele, a “fobica”. Era um ferro velho que meu pai pintou. Depois disso os percussionistas também queriam sair motorizados. Meu pai fez uma caçamba e os percussionistas iam junto. Dodô ampliou o som. Botou mais cornetas. Duas para trás, duas para frente e escreveram o nome do conjunto na lateral: TRIO ELÉTRICO. No ano seguinte entrou um patrocinador e botaram um caminhão e toma alto falante. Daqueles redondos. O cavaquinho era o sucesso do negócio.
EM – Aos poucos foram incorporando as tecnologias do momento?
AM – Sim. No ano seguinte entrou um patrocinador que colocou um caminhão. Tudo movido a gerador. Junto com o patrocinador também chegou as lâmpadas fluorescentes rodeando todo o trio elétrico. Era um negócio impressionante. Meu pai tinha conhecimento de como lidar com gerador, motor diesel, metalúrgica, trabalhou muitos anos com isso. Era para ter se formado em engenharia, mas parou para trabalhar. E Dodô era o mestre da eletrônica. Mas a paixão de ambos era a música.
EM – Ele levava duas vidas.
AM – Para desgosto da minha mãe a coisa foi crescendo. Outros músicos começaram a se interessar e eles passaram a vender os equipamentos para outros trios. Mais ou menos cinco anos depois da estreia do Trio Elétrico do meu pai - porque o nome do conjunto era Trio Elétrico – apareceu o Conjunto Atlas, Conjunto Cinco Irmãos. Quando os carros chegavam aí sim parecia que começava o carnaval. E as pessoas falavam: “Olha, lá vem o outro trio elétrico”. Aí a coisa pegou. Elétrico era o moderno da época, foi quando surgiu torradeira elétrica, geladeira elétrica, ferro elétrico.
EM – Tá legal. Então nessa época você já tocava frevo elétrico com o teu pai. Logo apareceu o Jimi Hendrix, Alvin Lee, Santana. Como isso te influenciou?
AM – Aí eu fiz o que Gil e Caetano chamaram de tropicalismo. A forma de fazer a música brasileira com uma linguagem, como uma música do mundo.
Olha, com dez anos meu pai já havia feito para mim um minitrio elétrico, no qual eu já entrava solando. Em 1965 os Beatles entram na minha vida. Nunca tinha ouvido nada de fora. Só escutava as músicas que meu pai tocava, chorinho, frevo, música brasileira. Então começo também a tocar a guitarra e aprender tocar aquelas músicas, com 12 anos de idade. Dois anos depois fundei um grupo de iê iê iê para tocar Renato e Seus Blues Caps, Roberto Carlos. Só que nesse conjunto, todas as vezes que as festas iam chegando ao fim eu pegava o cavaquinho e tudo virava trio elétrico. Sempre acabava em carnaval.
EM – Era o lugar que você se sentia mais forte, né? Quero dizer, o teu conhecimento musical partia daí.
AM – Para você ter uma ideia, aos quinze anos de idade entrei em um concurso, A Grande Chance, no programa do Flávio Cavalcanti, ia ter uma eliminatória na Bahia. Meu pai me preparou para tocar o bandolim. Então era a minha base musical. Ele sabia que na final, no Teatro Castro Alves, iam estar o próprio Flávio e o Sérgio Bittencourt, filho do Jacob (do bandolim). Meu pai fez um arranjo para Modinha, do Jacob, que virava marcha e virava frevo. O Sérgio pirou. Eu tinha uma habilidade danada e meu pai sabia disso. Meu aprendizado culminou com o Moto Perpétuo, de Paganini. Mas isso é outra história. A plateia do Castro Alves veio abaixo. E o Flávio disse que eu ia para o Rio de Janeiro participar da grande chance.
Eu fui. Fiz o programa no Teatro Municipal do Rio. De novo meu pai sabia que lá cada jurado gosta de uma coisa e preparou um pot pourri com valsa, música de novela, e a Modinha no final. E ainda me colocou para tocar com o Dino 7 Cordas. Fui ao Municipal do Rio no dia 15 de maio de 1969, a uma semana de fazer 16 anos e a poucos dias do homem descer na lua. O teatro igualmente veio abaixo. Eu chorava. Me tiraram da escola e me levaram para o Rio de Janeiro para me apresentar para o Sargentelli, Nelson Motta, Mariozinho Rocha, o filho do Jacob.
EM – Mas você ganhou?
AM – Não, tirei em segundo lugar.
EM – Você lembra quem foi o primeiro.
AM – Foi a Aurea Martins, cantora de bossa nova. O Nelson Motta me deu nota quatro. E ela teve cinco de todos. Ele era muito fã de bossa nova e queria que ela ganhasse. A Aurea está com oitenta e poucos anos, encontrei-a outro dia no Rio de Janeiro. Eu estava recebendo um prêmio da música no Municipal do Rio e ela também estava. Ficamos lembrando do dia que aquele tinha sido o nosso palco. A apresentação foi gravada ao vivo e meu nome está no álbum como Armando Macedo. Um compacto que vendeu como água, dez mil cópias em uma semana, muita coisa para a época.
EM – Quero voltar à guitarra. Naquele lance que você falou que fazia tropicalismo. Ou o antropofagismo brasileiro. Você, Pepeu Gomes, Robertinho do Recife, o pessoal da guitarrada do Pará, pegaram um instrumento estrangeiro e fizeram um som brasileiro.
AM – Temos essa base brasileira. Lá em Campinas (do Pirajá, bairro de Salvador), onde meu pai tinha a metalúrgica, tinha uma rádio que transmitia os programas por alto falantes por toda a vila. Tocava muito Waldir Azevedo, Delicado. Como eu ouvia isso, rapaz. Brasileirinho também. Essas músicas faziam muito sucesso nas paradas. Rivalizavam com os cantores da época. Viajei muito com o Altamiro Carrilho e ele me contava isso. Delicado era tão famosa que tocava até em caixinha de música no Japão. Como instrumentista, o Waldir tinha uma posição como nenhum outro aqui no Brasil.
A partir dessa base é que a gente foi ouvir Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix, Led Zeppelin. A gente passa a absorver, passa a fazer parte do nosso organismo. Então comecei a mostrar que na minha guitarrinha elétrica, no meu cavaquinho, eu também tocava Beatles, Jimi Hendrix (Armandinho solfeja Machine Gun).
EM – Você é da geração mais antiga e o Eric é um jovem que bebeu na fonte do blues rock, com outra técnica. Como se dá a parceria?
AM – Ele é filho do Álvaro Assmar um blueseiro que gostava do que eu fazia com o trio elétrico. Ele compôs uma música que a gente toca nesse show que eu dizia que parecia muito com A Cor do Som, aqueles baiões que a gente fazia. Não chegamos a tocar juntos, mas ele me ligava e a gente conversava e conversava. A minha escola elétrica vem muito mais do frevo. Quando começo a tocar meu cavaquinho elétrico no trio, os meninos dos Novos Baianos, Dadi, Moraes, Pepeu subiram logo no trio comigo. Olhavam o cavaquinho e perguntavam que afinação era aquela. O Dadi falava que eu parecia o Jimi Hendrix tocando cavaquinho e eu ainda nem tinha distorção no instrumento. A distorção que tinha vinha das válvulas e das cornetas (alto falantes).
Em 1974 o Moraes me chamou para tocar com ele. Fui para o Rio de Janeiro e eu adorava os Novos Baianos, o Pepeu com aquela guitarra misturando com o samba. Quer dizer, o bandolim e o chorinho me levavam para o mundo de meu pai. E eles me mostraram que não, que essa música poderia estar no mundo jovem também. Essa é a importância dos Novos Baianos.
EM – Entrou a eletrificação na tua vida?
AM – Gravei o primeiro disco do trio homenageando meu pai e o Dodô, que já não tocava mais. Coloquei-os como os donos do disco. Meu pai reclamou que o disco tinha que ser meu, ele já botava meu nome no trio elétrico. Ele que mudou para Armandinho, dizendo que era mais musical. (risos). Ele sempre com essas ideias.
E no segundo disco do trio eu já injeto mais chorus, distorção e começo a botar o meu tropicalismo em ação. Daí meu cavaquinho começa a chamar os cabeludos.

EM – E quando surgiu o A Cor do Som?
AM – Quando comecei a tocar com o Moraes Moreira a gente formou outra banda. O Dadi era baixista dos Novos Baianos e saiu junto com o Moraes. O núcleo do A Cor do Som eram eu e Dadi. Ele conhecia um baterista que tocava com o Raul Seixas, o Gustavo. Nos ensaios para o primeiro disco o Mu entrou nos teclados para fazer uma música e ficou. O Ari Dias estava no Rio com a banda dele e eu chamei para gravar Trio Elétrico e acabou ficando.
No terceiro disco, em 1978, com essa ideia de cavaquinho/guitarra é que coloquei o nome de guitarra baiana. Na boca do povo era guitarra baiana pra lá e pra cá. Era a voz do trio elétrico.
Uma vez levei o Moraes para assistir o trio elétrico e tinha um microfone só para o meu pai dar o boa noite. E toda noite meu pai pegava o microfone e: “Boa noooooite, meus amigos”. Aí apelidaram o microfone de “meus amigos”. O Moraes falou “Armando pega lá o meus amigos. Vamos cantar o Jubileu de Prata aqui. Eu digo: “Mas o microfone é para as cornetas”. O Moraes: “Não tem problema, o povo ajuda”. Não deu outra, estourou e foi a música do carnaval daquele ano.
EM – E foi nessa época que o A Cor do Som gravou em Montreux.
AM – Sim. Gravamos um disco lá. Aqui disseram que fomos vaiados. Que houve uma crítica, um protesto dos caras do jazz porque não queriam que tivesse bandas de rock. Éramos tidos como uma banda de rock. Era uma vaia lá no fundo, mas era organizada. Eu disse: Dadi, você está ouvindo uma vaia?”. Ele respondeu que sim. Ficamos incomodados, mas tinha um pessoal dançando ali na frente. Mas cortou a nossa onda. O Gil entrou no palco e falou: “Olha, o A Cor do Som faz a música de hoje. Essa música é brasileira e tem essa roupagem”. A vaia se manifestou quando tocamos Eleanor Rigby em versão de frevo. Mas foi um disco maravilhoso. Tanto que fizemos essa regravação em 2021 e ganhamos o prêmio Grammy.
EM – De maneira geral os brasileiros sempre foram bem recebidos lá. O próprio Pepeu Gomes gravou um disco na mesma pegada.
AM – O Pepeu foi depois. Esse clima foi melhorando. E melhorou tanto que chegaram ao ponto de levar o É o Tchan!, que foi o maior público do festival. E em 1996 teve a noite baiana, a gente foi também.
EM – É o Tchan! foi sacanagem.
AM – Mas essa história da guitarra baiana é mais interessante para mim. Em 1983 eu vim com a história da quinta corda. Achando também que ninguém iria se interessar por isso, mas no ano seguinte o Luiz Caldas fez uma para ele.
Em 1989 eu tocava bandolim com o Raphael Rabello e ele me levou na Do Souto, onde era fabricado o instrumento do Jacob do Bandolim, no Rio de Janeiro. Ele me disse que o Silvestre, luthier que fazia os bandolins do Jacob, estava encerrando a carreira e tinha três bandolins para vender. Eu cheguei lá e propus ao Silvestre fazer um bandolim de dez cordas. Fiz a minha guitarra baiana e todo mundo passou a usar. Ele disse que eu tinha que falar com o dono da Do Souto. Falei com os dois donos e eles alegaram que não ia vender, que teria que criar toda uma estrutura e que não era rentável. E eu fiquei com essa ideia.
Em 1994 apareceu o batera Jorge Brasil e disse que havia um luthier lá no Carmo que faria o bandolim de dez cordas. Fui a ele, Jorge Itacaranha, que me disse que faria o bandolim. Eu fiz um desenho que é exatamente o bandolim que eu tenho hoje, o cebola. Ele disse que tinha uns formatos dele e eu disse tudo bem, faça como preferir. Só respeite o círculo do bandolim. Quando estava fazendo, ele me diz: “Olha, eu não trabalho com totalmente acústico. Vou pegar uma madeira, cavar e será um semiacústico”. Rapaz, ele levou um ano e tanto para me entregar, em 1996. Tudo bem, tinha dez cordas, mas só funcionava elétrico. Testei e não era muito elétrico e nem acústico. Não. A minha ideia era fazer um acústico.
Ele ficou parado até 1999. Demorei porque na época comecei a tocar um (bandolim) Ovation, cuja sonoridade no palco me agradava muito. Foi quando o Hamilton (de Holanda) foi passar uma semana lá em casa, dormindo no meu estúdio. E meu bandolim de dez ficava lá. A namorada dele me disse que ele ficava praticando todas as noites. E eu falei para ele a minha ideia de fazer um bandolim acústico de dez cordas. Estou há dez anos tentando fazer esse instrumento e ainda vou encontrar um luthier. Só que o Hamilton foi mais rápido. Ele saiu dali com o objetivo de fazer.

EM – Eu ia mesmo te perguntar sobre essa paternidade do bandolim de dez cordas. O Hamilton me disse que um luthier de Sabará fez a pedido dele.
AM – Ele é meu amigo. Fico até numa situação... Eu já perguntei: “O primeiro de dez que você viu foi o meu, né?” E ele disse que foi. Eu disse: “Então porque você não fala?”. Até num show do Sesc que a gente fez em São Paulo, perguntei isso no palco. Estava contando a história: “Aí fiz a guitarra baiana de cinco cordas, porque eu fui o mentor dessa quinta corda, e a guitarra baiana é afinação de bandolim. E aí fiz o cavaquinho de cinco cordas e o bandolim de dez cordas, o que ele conheceu lá em casa, não é Hamilton?”. Mandei essa no palco. E ele: “É, mas o teu bandolim era elétrico”.
Não, era um bandolim de dez cordas, que eu tinha a ideia de fazer um acústico. Só que não me apressei. Ele fez em segredo. Levou uns dois anos. Fez um e não deu certo e depois fez outro. E não me dizia nada. Fiquei nessa cobrança com ele porque o vi com o bandolim e já lançando disco. Confesso que tomei um susto. Espera aí. Eu estava conversando com o cara outro dia e ele não me falou nada. A história é essa. Acho que foi em 1999. Foi um carnaval que ele passou uma semana lá em casa. Não tive a menor preocupação. Não era um segredo meu. Devia ter lançado o semiacústico. Gravei um disco em 1998 que ele aparecia na capa. Comigo cabeludo, com uma faixa no cabelo estilo Van Halen, porque sempre tive esse lado guitarrista, né?
Mas tudo bem. O Hamilton é um fenômeno. E deslanchou com o bandolim de dez cordas. Porque até então era um seguidor de como eu atuava. Conheci o Hamilton com sete anos de idade e ficou entusiasmado porque eu tocava igual a um guitarrista, com correia. Ele era da escola do pai dele, de choro tradicional. Em mim ele viu outra postura no bandolim. Ele me disse que quando me ouviu tocar o Assanhado com A Cor do Som havia mudado seu panorama. “Pô, ali tive outra abertura”, disse. Então eu o via como um seguidor. E com a maior técnica, porque o som é limpíssimo. E começou a estudar e abrir o leque musical para o jazz.
EM – Aproveitando a deixa, você acompanha a música instrumental brasileira? Está chegando um pessoal novo.
AM – Não sou ouvidor de música, rapaz. Gosto de ouvir ao vivo, de ver tocar. A Tereza Rolemberg lá de Brasília fez um projeto Guitarra Brasil que juntou dez guitarristas e vi Frank Solari e Kiko Loureiro. Eu e Pepeu também nos apresentamos. Como tem gente boa na guitarra. O interessante do Frank Solari é que ele toca chorinho. Eu fui estudioso só até os quinze anos, depois deslanchei tocando. É assim que eu vivo.
EM – Mas a tua agenda está cheia. Tem espaço para a música instrumental.
AM – Graças a Deus. Acabei de voltar do Japão. Toquei no festival Brasil Latino. A primeira vez que fui ao Japão, fiz três apresentações. Tenho tocado muito. Semana passada fiz o Blue Note Rio e esse show com o Eric em Brasília.
EM – Com 72 anos ainda há alguma coisa que você queira fazer no campo da música?
AM – Acho que desde meu trabalho instrumental com o Raphael Rabello eu venho buscando. O último foi com o Yamandú e ganhamos o prêmio da música. E ainda ganhei como instrumentista competindo com o Yamandú, o Hamilton de Holanda e o Romero Lubambo. Me deram um prêmio, cara. Mas o que eu busco é mais projeção da música instrumental. Não na grande mídia, mas em alguma mídia. É tudo muito manipulado. Parece que só há um caminho, a música de sucesso. Tem um público que busca, mas ainda é muito restrito. O que sinto e o que eu busco é uma projeção maior para o músico brasileiro. É o que eu almejo aos meus 72 anos, um público mais aberto à música instrumental.
Meu trabalho mais novo é essa parceria com o Eric, que junta as coisas novas que ele faz com as minhas. O Eric é um grande guitarrista, um músico maravilhoso, criativo, com uma sonoridade muito bonita e que faz essa ligação com a música do mundo.
EM – Engraçado, você usou o termo “música do mundo” duas vezes nessa entrevista. E a minha ideia desde o começo é usá-lo no meu próximo livro de entrevistas. E vou te falar que eu acordei hoje de manhã e não sabia que iria entrevistar o Armandinho Macedo. As coisas acontecem assim.
AM – Viu Eugênio, essa parte que eu falo sobre o Hamilton de Holanda é poque realmente quero que isso se esclareça. É como se fossem filhos meus, a guitarra baiana. O Dodô e o Osmar pariram e eu criei a criança. Fui eu quem projetou, quem gravou, fui o profissional da música que meu pai não foi, mas ele me preparou para isso. Então tenho isso como um filho, botar uma quinta corda, nasceu da minha busca. Tenho interesse que se fale. Que se lembre. Até na Bahia tem gente que não considera que Dodô e Osmar não inventaram a guitarra maciça, tem gente no mundo que diz que Santos Dumont não inventou o avião. Já temos esse histórico do não reconhecimento. Esse reconhecimento é legal. As coisas que você desenvolveu, as coisas que você faz.