quinta-feira, 24 de junho de 2021

Baixista Andrey Gonçalves apresenta ao mundo Nocturnal Geometries

 


Entrevista: Eugênio Martins Júnior
Texto: Fábio Cezanne
Fotos: Jeff Janczewski

Com apresentações pela Europa, América do Sul e Estados Unidos, o contrabaixista e compositor capixaba Andrey Gonçalves vem alçando invejáveis vôos no cenário do jazz internacional, temperando ainda mais o jazz contemporâneo com ingredientes brasileiros e iguarias capixabas. Radicado nos Estados Unidos há oito anos, onde cursa Doutorado em Jazz e Educação Musical pela Universidade de Illinois - instituição onde também ensinou práticas de contrabaixo e big band por três anos – Andrey mostra ao mundo o seu primeiro disco solo, Nocturnal Geometries, já disponível nas plataformas digitais.
Nestes oito anos lá na gringa, Andrey acumulou experiências tocando com Frank Gambale, Chuchito Valdés, Alain Broadbent, Willy Thomas e Denis DiBlasio, entre outros. Em orquestras, atuou com a Orquestra Cívica de Champaign-Urbana, Orquestra Sinfônica de Champaign Urbana, a Orquestra de Sopros Sacred Winds e a Milikin-Decatur Symphony Orchestra.
Nocturnal Geometries é composto por músicas que o baixista criou ao longo de um ano sob a orientação de seu professor de composição Jim Pugh, ex trombonista de Chick Corea e que atualmente toca com Steely Dan.
Utilizando técnicas modernas sugeridas por Pugh, a forma de composição conferiu aos temas uma roupagem mais contemporânea. “Nos anos de 2016, eu iniciei meu doutorado em Jazz e Educação Musical na Universidade de Illinois. Eu decidi fazer aulas de composições com extraordinário trombonista e professor Jim Pugh. Foi um processo de aprendizado muito bonito e pude desenvolver novas formas de comunicar minhas ideias e expandir os caminhos harmônicos e melódicos de minhas músicas”, revela Andrey. 
“Durante um ano, eu compus todas as semanas, geralmente a noite, no silêncio do meu quarto. Era eu, o piano, o lápis e a partitura. Reparei que as técnicas que estava estudando tinham nomes ou conceitos geométricos: quadrad, pentatonic, ocatonic. Além disso, o silêncio noturno foi um elemento essencial para instigar a minha criatividade enquanto eu lidava com o caos e o estresse do primeiro ano de doutorado”, explicando o conceito e o título do álbum.
Dois anos depois, seus parceiros musicais abraçaram o projeto e a pordução teve inicio. Segundo Andrey, as sessões no estúdio foram rápidas, realizadas ao vivo, com a leitura à primeira vista. “Para gravar tudo ao vivo, foi um desafio colocar seis músicos na sala de gravação. Estávamos tão próximos que podíamos escutar as batidas do coração e a respiração de cada um”, comenta Andrey para, em seguida, ressaltar a experiência fantástica e um grande momento de comunhão musical, cada vez mais raros em estúdio. 
Os arranjos, elaborados em parceria com o trombonista Ethan Evans, deixam o sexteto livre para promover uma fusão de música brasileira, jazz e ritmos caribenhos. Gravado em janeiro de 2019 com músicos ativos nas cenas jazz de Chicago, Utah, Detroit, West Virginia e Denver, o CD teve seu lançamento suspenso no ano passado por conta da eclosão da pandemia do coronavirus.
Atualmente, Andrey é professor de contrabaixo acústico e elétrico na Olivet Nazarene University ao sul de Chicago, na cidade de Bourbonnais, Illinois.



Eugênio Martins Júnior – Como se deu sua ida definitiva para os Estados Unidos? Foi para ganhar a vida tocando ou especificamente para estudar as formas de jazz?
Andrey Gonçalves - Me mudei para os Estados Unidos com a ideia de aprender a tocar o contrabaixo, porque eu só tocava baixo elétrico. Estudar jazz e “ganhar a vida” foram consequências de eu estar aqui. Eu vim aos Estados Unidos em fevereiro de 2012 para tocar com meu professor Fábio Calazans (guitarrista) no Festival de Jazz da Universidade de Louisville, no Kentucky. Durante o período que estive tocando por aqui, expressei meu interesse em fazer mestrado e aprender a tocar o contrabaixo. Depois da apresentação no festival recebi um convite para fazer mestrado em contrabaixo na Campbellsville University, também no Kentucky, com bolsa de 100%. Voltei ao Brasil, vendi minhas coisas, arrumei a papelada e voltei aos Estados Unidos para estudar. 
Chegando aqui em agosto de 2012, notei que o mestrado era muito mais voltado para a música clássica. Aceitei o desafio e me joguei de cabeça. Foi muito bom porque aprendi a técnica do instrumento. Ao fim do mestrado, meu professor sugeriu que eu fizesse audição pro mestrado em jazz na Universidade de Louisville. Fiz a audição, passei e ganhei bolsa de 100% também. Foi lá onde dei meus primeiros passos bem firmes no aprendizado do jazz. E foi lá também onde conheci minha esposa, que é americana. Aí... a vida aconteceu e eu fiquei... rs

EM – Costumo dizer que a música instrumental é o patinho feio da música brasileira. E por que  digo isso. Alguns grandes nomes do jazz brasileiro imigraram para os Estados Unidos para desenvolver sua arte. Airto Moreira e Flora Purim, Dom Um Romao, Romero Lubambo, Claudio Celso, Eliane Elias, Dom Salvador são alguns desses artistas. Você concorda ou discorda?
AG - Concordo. Existem artistas que precisam mudar de cena para conseguir ter foco naquilo que almejam para suas carreiras. Quando mudei pros Estados Unidos, eu tocava basicamente música pop: samba rock e pop rock. Quando reparei que não estava indo para onde eu queria na minha carreira resolvi apostar numa quebra com a minha realidade e começar minha trajetória profissional na música do zero novamente.
 
EM – A música é uma linguagem universal, nesse sentido, como se dá a integração entre as duas escolas de jazz, a brasileira e a norte-americana? Quero dizer, você chegou aí pra aprender, mas também tem muito a ensinar. 
AG - A integração se dá pela disposição de fazer o som acontecer, de se comunicar e de ter paciência com quem está aprendendo algo novo. Se você tiver paciência de explicar o que você quer e onde pretende chegar com a música, acho que dá muito certo! Me comunico muito cantando as minhas ideias ou explicando através de referências fonográficas.
Sobre aprender e ensinar, eu sempre conversei sobre música brasileira com músicos daqui porque existe muito interesse pela nossa cultura. Um dia você está numa mesa de bar e, do nada, seu colega te pergunta sobre o Guinga, sobre o Toninho Horta, ou sobre o Egberto Gismonti. Aí a troca de informação é muito bonita e gera assuntos bem legais.
Em outras ocasiões, maestros de big band paravam ensaios e pediam pra eu explicar para meus colegas de banda como tocar bossa ou samba. É muito legal as pessoas reconhecerem em mim a autoridade de poder explicar a minha cultura. Ainda bem que nunca me pediram para eu dançar samba porque eu ia pagar mico! rs


EM – É que ouvindo Anna and the Moon e Tree of All Inventions, que são temas mais lentos e viajantes em contraste com Mancada (que já é uma gíria brasileira), um jazz batucada, fica a impressão dessa troca de ideias bacana entre os músicos.
AG - Anna e Tree são duas músicas que partem de ideias rítmicas brasileiras, mas não são música brasileira. Quando gravamos Anna, eu pedi ao baterista pra imaginar que tinha um bumbo de bossa ao fundo, mas deixei claro que não era pra tocar bossa. “Andy, imagina um bumbo de bossa ao fundo e improvisa uma balada jazz em cima.”
A ideia rítmica de Tree gera ao redor de uma ciranda e depois um frevo. Mas, isso não fica claro na música. Eu expliquei ao baterista o que queria e pedi pra ele tocar da forma dele.
Mancada é um samba duro mesmo, sem nenhum segredo (apesar de ter modulação métrica e 2 ½ compassos de solo de bateria na intro).

EM – Como você explicou para os gringos o que significa “dar uma mancada”?   
AG - “Sabe o que fizemos nos primeiros takes daquele samba estranho? Pois é, aquilo foi uma mancada e significa que mandamos mal!” rs

EM – Chicago tem uma prolífica cena jazzística e é também a terra do blues elétrico. Gostaria que falasse sobre esse ambiente musical.
AG - Na verdade, eu moro a 2h30 min ao sul de Chicago. Quando vou lá, é para tocar, porque evito dirigir naquele trânsito doido. Então, chego em Chicago, toco e vou embora. Em raras ocasiões, vou lá para exposições em museus ou shows. Mas concentro mais minhas atividades em Champaign-Urbana, onde moro.
A cena de Chicago é bem diversificada, mas também muito tradicional. Tem gente de todo o mundo e isso traz diversidade para as manifestações culturais na cidade, mas nem sempre a cena está aberta às novas tendências musicais, isso acontece mais em Nova Iorque.
Os clubes de jazz focam, em sua grande maioria no jazz neoclássico e o estilo mais comum de se ouvir na noite é o Hard Bop. Alguns clubes mais alternativos estão abrindo mais espaço para as bandas de hip hop e os grupos de neosoul. Portanto, acho Chicago uma cidade muito importante na manutenção das raízes do jazz, mas que participa pouquíssimo na função de fomentar novas manifestações de jazz, encorajando pouco as novas gerações a inovar no estilo.

EM – Existe um bairro, ou um “quadrado” onde a cena jazzística da cidade se desenvolve atuamlmente? Por exemplo, há os clubes de blues de Chicago, o Kingston Mines, o Buddy Guy Legends, o Bluesd on Halsted. E o South Side Chicago ainda abriga uma cena forte de blues underground. Onde eu escuto o bom e velho jazz na cidade ventosa?
AG - A maioria das casas de jazz de Chicago ficam próximas à costa da cidade - Rio Michigan -, mas não no mesmo bairro.
Dentre essas casas, as mais tradicionais são a Green Mill, a Jazz Showcase e Andy’s. Todos esses bares ficam próximos. Se você estiver de carro ou metrô, é tudo bem próximo, 20 ou 30 minuto.


EM – Após oito anos vivendo no país que originou o jazz você lança seu primeiro trabalho. O que tem de brasileiro nele e o que você incorporou de todos esses anos aprendendo e ensinando música nos EUA?
AG - As melodias são o que há de mais brasileiro no álbum. Mesmo que eu tente fazer algo bem jazz, angular, bem curtido na tradição do bebop, minhas melodias acabam partindo de ideias que eu assobio enquanto caminho na rua.
A porção jazz mais óbvia incorporada na música diz respeito à harmonia, o arranjo e a instrumentação. Como esse disco é uma compilação de músicas que compus quando fiz a matéria Jazz Composition no meu doutorado, o disco tem muita influência também das técnicas que aprendi durante esse período, que fogem muito do jazz tradicional.

EM – Houve um atraso nesse lançamento devido à pandemia do corona virus. Aqui no Brasil estamos na eminência de uma terceira onda devido a falta de vacinas. Mas parece que a cena artística já está voltando por aí. Pelo menos são as notícias que a gente tem recebido.
AG - Aqui está tudo voltando ao normal. Toco em locais cheios de pessoas e todo mundo sem máscara. O meu município já atingiu a cota de 60% de pessoas vacinadas.
Este fim de semana passado, de 20 de junho, foi dias dos pais aqui. Eu, minha esposa e nossa filha de 4 meses fomos comemorar e almoçar num restaurante. Estava lotado, mas a sensação era de paz e segurança.

EM – Gostaria que falasse sobre o time que te acompanha nesse trabalho. É teu conjunto fixo?
AG - É o meu dream team! Rs. Todos os músicos que gravaram esse disco eram estudantes do programa de doutorado em Jazz Performance na Universidade de Illinois, com exceção do Ethan Evans, que estava fazendo seu mestrado. É um grupo de músicos que eu admiro muito e sempre tive vontade de fazer algum trabalho com eles. Quando pintou a oportunidade de gravar o disco, já sabia que eu os queria na banda. E a afinidade não era só musical. É um grupo de pessoas super agradáveis, que fazem o trabalho fluir com leveza. É uma galera que joga pra ganhar!
Atualmente, apenas o pianista continua morando aqui em Champaign-Urbana. O resto dos integrantes foram para outros estados para investir em suas carreiras acadêmicas.
Portanto, hoje o meu sexteto funciona da seguinte maneira: se for show local, eu toco com músicos locais. Mas se for festival de jazz que banca passagem de todo mundo, aí eu levo os músicos que gravaram o meu disco.

EM – Pra ouvir um álbum com os termos quadrad, pentatonic e octatonic precisamos ter antes aulas de geometria? Brincadeiras à parte, como se dá a fusão dos teus sentimentos com o mundo racional da matemática dos acordes e das escalas musicais?
AG - Eu gosto muito de padrões sonoros, viajo muito nos conceitos das escalas e na racionalidade da organização dos intervalos. Antes de começar a trabalhar em algumas das composições do Nocturnal Geometries, eu passei dias tocando a escala no piano e extrapolando os padrões de suas sonoridades.

EM – Você acompanha a política brasileira nos últimos anos? Como é visto o Brasil aí de fora?      AG - Acompanho até onde consigo manter um nível de sanidade mental. Tá difícil!
Durante os meus 8 anos aqui, eu nunca vi o Brasil ganhar tanto espaço na mídia como atualmente. Sempre tem alguém que me pergunta sobre as insanidades que ocorrem todos os dias no meu país. Sempre tem alguém que compartilha um novo fato sobre o Brasil que até então eu desconhecia. Sempre tem gente falando sobre as loucuras dos bastidores da política brasileira. Portanto, o Brasil está sendo visto conforme a mídia o retrata: basicamente um país em constante convulsão.


Aqui o próprio Andrey explica faixa por faixa Nocturnal Geometries:

 1 – Quadrad: “o nome vem de uma técnica que eu utilizei pra compor, você coloca 4 dedos posicionados aleatoriamente no piano e a partir dessas notas constrói-se uma escala sintética com modos e acordes. Quadrad começou como uma salsa, mas migrou para o que foi gravado”.
 
2 – This is Not a Blues: “meu professor me pediu pra compor uma música usando a pentatônica blues, mas a música não poderia ser um blues. Num fim de semana, fui visitar a tia da minha esposa em Crestwood, Kentucky. O local é paradisíaco, todo rodeado por mato e vida selvagem. Sentei-me na varanda da casa e comecei a esboçar umas ideias. Com 20 min a música estava pronta. Em 2018, quando estava fazendo uma temporada com um pianista em Ouro Preto, mostrei a composição e o cara leu e comentou “Nossa, isso soa muito como Art Blakey.” Acabei arranjando na estética do Art Blakey. Essa é a música mais “jazz tradicional” do disco”.
 
3 – Anna and the Moon: “Essa faixa a única que tem uma história longa a respeito dela. Também utilizou a técnica “quadrad”, mas simplifiquei bastante na concepção de melodia e harmonia porque queria uma balada mais melancólica. Usei essa faixa para homenagear uma enfermeira chamada Luanna. Em dezembro de 2018, fui visitar minha família no Brasil com minha esposa. Estava atravessando uma rua de Vitória com minha esposa e uma moto me atropelou. Fui parar na UTI com traumatismo craniano... foi foda. A minha sorte é que uma enfermeira estava passando na hora do acidente e me socorreu, chamou a ambulância. O nome dela é Luanna, nunca a vi, não sei como é o rosto dela... só sei que ela existe porque minha esposa me conta dela. Estou vivo por causa dela. O nome da música é uma “brincadeira” com o nome dela: Lua e Anna. Aí fiz de uma forma que fizesse sentido em inglês. O título também é um palíndromo, com palavras com 4 e 3 letras - Anna (4), and (3), the (3), Moon (4). Anna e Moon também repetem a letra do meio (nn - oo). Anna também é um palíndromo”.
 
4 – Waterfall for a Cubist Passion: “fiz essa música inspirada por uma pintura do Picasso que vi no Guggenheim de Nova Iorque em 2012. A pintura não representava uma fase clássica do Picasso, mas me marcou muito. Compus tudo como se fosse uma história de uma paixão, usando a técnica de through-composed (onde as seções da música raramente se repetem e seguem para uma nova parte). Essa música já estava arranjada para octeto há anos, mas adaptei para o disco. É a faixa que obtém mais comentários positivos do público”.
 
5 – The Tree of All Inventions: “Fiz essa música baseada numa ilustração que explica a riqueza da cultura brasileira. A ilustração é um totem com elementos que são muito peculiares à nossa cultura. A música em não tem nada de brasileira porque eu não queria soar tão óbvio. Preferi a inspiração para compor e, na hora da gravação, sugeri ao baterista que incluísse elementos da ciranda brasileira”.
 
6 – Ocatonic Lullaby: “eu tive que compor uma música usando a escala octatônica, uma escala simétrica de oito notas, às vezes organizada em meio tom e tom... ou tom e meio tom, o que confere um bem angular, duro. Peguei uma das formas de organização e fui analisando até quebrar o padrão e compor uma canção de ninar. Acho que compus essa música em 1 hora. Quando acabei de compor, tive uma sensação muito forte, liguei pra minha esposa e comentei “acabei de compor a canção de ninar pro nosso primeiro filho.” Sophia só nasceu em 2021, mas ela acompanhou o processo de mix e máster do disco dentro da barriga da barriga da mãe”.
 
7 – Mancada: “sambinha duro pra fechar o disco porque eu sou brasileiro e queria pelo menos ter uma faixa que fosse mais um “lugar comum” pra mim. Mancada foi composta usando fragmentos de frases e com a ideia de deixar bastante espaço pra bateria solar. Além da intro, que é bem chata de tocar, o “refrão” de Mancada tem uma modulação métrica entre 2/4 e 6/8 que entorta a cabeça de quem tenta tocar. Essa foi a única música que tivemos que repassar na gravação porque geral mandou mal na primeira passada... portanto, rolou a maior mancada no estúdio... rs”
 
A produção e todas as composições são de Andrey Gonçalves  (Kopishawa Music). 
Os arranjos são de Ethan Evans.
O álbum foi gravado em 18 e 19 de janeiro de 2019, no Unit One Studios em Urbana, IL. 
Engenheiro de áudio: Derick Cordoba.
Mixado por Joe Corley, Pint Size Studios (Crystal Lake, IL).
Masterizado por John Tubbs, Jetman Music Services (Champaign, IL).
Fotografias por Jeff Janczewski.
Arte por Leonardo Zamprogno.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Marcelo Naves, o tigrão da gaita - Vale do Paraíba parte 3

 

Marcelo Naves em ação

Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: acervo Marcelo Naves

Vale do Paraíba – parte 3

O gaitista Aki Kumar ia se apresentar no festival e também estava por ali de graça quando ofereci um livro com a entrevista que havia feito com ele um ano antes em outro festival. Ele pirou quando viu o seu nome no livro e ficou meu melhor amigo desde criancinha¹. Um ano depois, em São Paulo, o Phil Wiggins teve reação parecida quando mostrei a entrevista dele feita há alguns anos antes. Por coincidência (ou não) o Phil também apareceu no Brasil pelas mãos dos irmão Simi.  
Minha admiração pela banda Blues Etílicos sempre foi grande. Trata-se de uma das bandas mais importantes do Brasil de todos os tempos. Os caras que profissionalizaram o blues no país. A primeira banda a ter um gaitista na linha de frente, a investir em letras bem elaboradas em inglês e português e miscigenar o blues com o samba e a música caipira. É um verdadeiro privilégio conhecer músicos com essa visão. 
Nesse festival o Flávio Guimarães e o Cláudio Bedran me convidaram para fazer a cerveja da banda, o que topei na hora. Fiquei um pouco bolado, talvez, naquele momento ali no camarim, o álcool estivesse falando mais alto. Mas a parada não saiu da cabeça.
Para quem não sabe, além da produção cultural, faço cerveja no formato cigano, levando as minhas receitas pra fazer na fábrica dos outros. Achei que fazer cultura era pouca confusão na vida, então decidi também fazer cerveja profissionalmente e fundei a Cais – Cerveja Artesanal. Caso de internação mesmo.
Alguns meses depois desse encontro, a Blues Etílicos veio a São Paulo para um show no Sesc Bom Retiro, dia 01 de maio de 2019. Eu havia feito um contato com o pessoal perguntando se a ideia da breja ainda estava de pé e, para minha felicidade, eles disseram que sim. Depois desse show saímos para celebrar o acordo em um boteco no centro de sampa com o líquido sagrado. Em agosto de 2019 nasceu a Session IPA Blues Etílicos. 
O lançamento no Rio de Janeiro foi no Beer Joe, antigo bar do guitarrista Big Joe Manfra, com as participações do Flávio Guimarães e do Kleber Dias. 
Aqui em Santos, fiz uma série de lançamentos nos bares da cidade com muito blues, entre os artistas, Pedro Bara, Fábio Brum e Baby Labarba, Filippe Dias, Giba Byblos Trio e a Carla Mariani, cantora aqui de Santos. 
Em sampa tentei fazer em um bar lá chamado Blues and Beer, mas os caras nem deram bola. Ae troca o nome dessa porra de bar, mermãao. 
Fugi um pouco do assunto só pra dizer que a cerveja Blues Etílicos nasceu no festival de Jacareí em 2018. Portanto, Marcelo Naves que me convidou para participar desse evento é o padrinho da criança. 
Minhas passagens com o Flávio Naves² são várias, a mais legal foi a mini-turnê com Larry McCray (guitarra), Stephen McCray (bateria) e Bruno Falcão (baixista), em três cidades, São Paulo, Ilhabela e Brasília, Bourbon Street, Ilhabela Folk e Blues Festival e Festival BB Seguridade, respectivamente.


Eugênio Martins Júnior – Você o Fávio Naves e o Lancaster são primos, três blueseiros na mesma família. Como foi a tua infância musical?
Marcelo Naves – Meu pai foi responsável pelo meu primeiro contato com o blues. Ele ouvia na sala de casa, Oscar Peterson, Louis Armstrong, Muddy Waters, John Lee Hooker, BB King, tudo em vinil. Ele adorava dançar, lembro dele colocando a versão do Oscar Peterson de Take Five e dançando com a minha mãe. Na adolescência tive uma banda com os meus primos, o Flavio Naves, que na verdade se chama José Flávio Silva de Carvalho (risos). Na família a mãe dele foi a única que não colocou o nome Naves. Mas ele é da família Naves. O nome da banda era Estação Blues, com Gustavo Carvalho no contrabaixo, Alexandre Carvalho na bateria, Frederico Lucascheck na guitarra e o irmão do Lancaster, o Marcos Lancaster cantando e eu na gaita. Na verdade os Lancaster eram primos dos meus primos. Somos primos por consideração. Nunca fiz nenhum trabalho com o Lancaster, fiz canjas, mas ele me apresentou pra muita gente. Sou muito grato, me apresentou para o Flávio Guimarães, fui gaitista do Nuno Mindelis, com quem fui pra África. Ele ainda me diz que a banda dele é de guitarra, mas que eu ainda sou o gaitista dele (risos). Também foi o Lancaster que me deu o primeiro amplificador valvulado, um Gianini Reverb.   

EM – E quando a harmônica entrou na tua vida?
MN – Aos 15 anos comecei a me interessar muito pelo blues. Comecei a tocar guitarra, mas encontrei uma harmônica na gaveta do meu pai e comecei a curtir demais o instrumento. Os mesmos músicos da Estação Blues tinham uma banda que tocava rock nacional e algum blues. Tocamos alguns anos assim. Um tempo depois o Flávio foi para os Estados Unidos e voltou com um órgão Hammond. No começo ele arranhava e passou a tocar com a gente e com o tempo foi ter aulas e a banda acabou gravando um disco. Então comecei a estudar e levar a harmônica a sério. Abandonei a escola e mudei pra São Paulo pra estudar gaita. Estudava seis horas por dia. Só queria saber isso da vida.   

EM – Vejo uma cena blues crescendo no Vale do Paraíba. Penso que vocês três têm boa participação nessa história. Gostaria que falasse sobre isso.
MN – Modéstia à parte tenho a maior participação nessa história. O Flávio Naves tem bem pouco. O Lancaster foi quem começou a tocar blues aqui no Vale. Ele fazia shows no Revolution Café, fez uma coisa ou outra no Sesc. Mas ele sempre foi muito instável na carreira. Montou a Serial Funkers e saiu. Montou a Blues Beatles e saiu. Então ele não continuou aquele trabalho de blues firme dele. Anos depois retomou e agora está trabalhando firme nisso. Mas eu e o Flávio tentamos trabalhar juntos, toquei na Blues Beatles com ele e tive uma banda chamada The Real Deal. Mas a produção e o crescimento da cena do blues aqui no Vale do Paraíbe é 99% trabalho meu e do Danilo Simi, que é meu sócio desde quando começamos um projeto chamado Clube do Blues. A gente tocava muito fora, mas não tocávamos na nossa cidade. Família e amigos nunca viam a gente tocar. E na época a internet não era como hoje. Então montamos esse trabalho com a prefeitura chamado Clube do Blues. Oficialmente há oito anos. Começou como Blues na Praça, depois Sexta Blues. Fomos para o Museu de Antropologia de Jacareí e o projeto ganhou o nome de Clube do Blues. Esse projeto está vivo até hoje, inclusive na pandemia estamos fazendo online. Com o sucesso a prefeitura nos procurou para ampliarmos o projeto. Levamos a proposta do festival de Blues de Jacareí e estamos há seis anos com o evento. Há cinco anos as apresentações do Clube do Blues reúnem pelo menos 600 pessoas por noite. Com exceção daquela semana da greve dos caminhoneiros. Mesmo sem carro e sem aplicativo de transporte por causa da falta de combustível as pessoas foram de bicicleta, mais de 60 amarradas na porta do teatro. Registramos 340 pessoas. Vendo esse sucesso, as prefeituras de São José dos Campos, São Francisco Xavier, Monteiro Lobato, Guararema, nos procurou para fazer uma reprodução do evento nessas cidades. Então fizemos o Blues no Municipal, que já acontece há quatro anos em São José; um projeto chamado Música na Praça, em São Francisco Xavier; e outros que estão em negociação.  A pandemia paralisou algumas coisas, mas esperamos retomar. Fizemos também um projeto chamado Gasoline Brothers Blues Sessions, em parceria com o bar homônimo, com minha banda, a Tigerman, todos com atrações internacionais. Durou dois anos. Então, todo esse emprenho para realizar os eventos partiram de mim e do Danilo Simi. Há muitos anos o Lancaster realizou o Clube do Blues em um bar lá em São José dos Campos, nome que me inspirou a fazer o nosso evento. 

Marcelo Naves e Michael Dotson

EM – E como você vê a cena nacional? Quer dizer, tem blues em vários lugares, mas não há uma unidade. 
MN – É normal. Nos Estados Unidos também não é assim. O que falta é a presença do poder público. Às vezes dá uma força pra um em detrimento de outro. Às vezes o cara nem toca blues direito, é meio rock, nem é da cena, e tem um puta espaço. Mas também sou contra esse lance do músico frustrado, que vice dizendo que ninguém o apoia. Sempre corri atrás do meu sucesso. Não tinha cena? Estamos gerando uma cena aqui no Vale do Paraíba. Tirando essa época de pandemia, eu já começava o mês com uma série de shows gerados por mim. Eu crio meus eventos, onde toco com meus amigos, com os gringos. Mas acho que tem um espaço legal na cena nacional. No Brasil eu já tenho algum espaço, algum respeito, alguma consideração. Da mídia, dos conhecedores de blues, dos fãs e acho isso importante. Eu descrevo a cena de blues ok, mas com espaço para crescimento. Falta uma série de coisas, ainda vejo no blues brasileiro uma galera que não toca blues de verdade. Tocam rock com blues, mas blues mesmo, tradicional, ou de Chicago, ou da Califórnia, o west coast blues, respeitando o estilo? Poucas bandas.

EM – Sei que você gosta de uns equipamentos diferentes e tem um super amplificador de gaita. Gostaria que falasse sobre isso e qual é o teu set de gaita hoje?
MN – Gosto de equipamento porque o gaitista de blues é um estudante. Ele pesquisa quem são os caras, o estilo musical e suas vertentes. Paralelamente também estuda o instrumento, as técnicas, como fazer o tongue blocking, o tongue flutter, tongue switching, tudo o que os grandes mestres como Little Walter, Slim Harpo, Big Walter Horton faziam. E tem um terceiro estudo que um gaitista de blues faz que é o dos equipamentos. Se você for comparar com a gaita chorinho, hoje a gente tem um grande mestre Vitor Lopes, ele estuda as técnicas do choro e a gaita dentro dele. No blues a mesma coisa, mas também os amplificadores, os equipamentos. Que microfone o Little Walter usava? Que amplificador o Big Walter usava? Como eles tiram aquele som? E qual amplificador posso usar hoje em dia pra chegar nesse som maravilhoso ou o mais próximo possível? Essa pesquisa me fez gostar cada vez mais buscar o equipamento perfeito. Dentro disso temos duas linhas. O equipamento que vai dar o timbre mais perfeito possível. E tem o necessário que você precisa pra poder subir num palco. Se vai tocar em um festival que tem 15 mil pessoas na plateia não pode levar um amplificador de 7 watts. Precisa levar um ampli grande, que te sustente, que “empurre” aquele som. Trabalho com dois tipos de equipamento. Um vintage, que trás aquele timbre especial, pra eu fazer gravação. E um ampli grande que me dá a potência necessária pra shows grandes. Utilizo um Premier Model 50, de 1947, original. Além de microfones de 1940/50 pra tirar um timbre mais sujo. E tenho um grande amplificador que é um Harp King, um dos únicos amplificadores feito pra gaita. Ele tem um sistema de anti-feedback, que é um dos grandes problemas dos gaitistas. Se você liga a gaita em uma ampli de guitarra dá microfonia, dá barulho. Ele tem 109 watts de potência com seis falantes de 10’. É o único Harp King da América Latina. É um ampli feito por um cara chamado John Kinder, da Kinder Instruments. Um amplificador incrível. 

EM - Você está com uma banda chamada Tigermen. Fale-me sobre ela e sobre esse nome. 
MN – Essa banda é composta por Leo Duarte (guitarra e filho do gaitista Sérgio Duarte), Jaderson Cardoso (bateria), Raoni Brascher (baixo) e Tiago Guy (guitarra) e eu na gaita e voz. Sendo que os dois guitarristas e o baixista fazem backing vocals. O nome veio do filme chamado The Lady’s Men (O Tigrão), mas como buscamos o mercado internacional ficou The Tigermen. 

EM – Aproveitando essa parada nos palcos, estão trabalhando em algum projeto novo?
MN - Estamos gravando o próximo disco, o Fourty Cups of Coffe, tudo a ver com a minha realidade, pois tomo café o dia inteiro. Eu moo meu próprio grão, crio abelhas jataí no apartamento, tenho mais de três mil abelhas em duas caixas. Tiro meu próprio mel para adoçar café. Faço blend com os grãos fortes, com os mais ácidos, com os mais suaves. Sou amante do café.


EM – E já aproveitando a questão anterior, gostaria que você falasse como está tocando a tua atividade de músico e também a de produtor em tempos de pandemia, já que os festivais estão parados. 
MN – Não gosto desse negócio que o músico tem de se reinventar. Tem de se reinventar porra nenhuma. Tem é que fazer o seu trabalho. Antes tinha show no palco e agora é só online? Então vamos fazer online. Não estou reinventando nada. Como estou fazendo? Lutando pra manter o máximo de shows de forma online. O festival de blues de Jacareí aconteceu assim. O Clube do Blues e o Blues no Municipal também. Sou contra fazer o show e fazer vaquinha. Quando você atinge mais de seis mil inscritos em seu canal no Youtube ganha a possibilidade de fazer o Super Chat, onde as pessoas podem doar dinheiro. O cara faz se ele quiser. Olha só, sem desrespeitar alguém que está usando desse recurso pra sobreviver. Pra mim soa mal. Assim como tocar na rua com o chapéu no chão. Isso é super legal em alguns locais do mundo. Mas aqui no Brasil não é. Então estou correndo atrás dos projetos. Desenvolvi um curso de gaita online, no qual entrego muito conteúdo. Fiz um curso só que tem tudo, se chama Uma Gaita Blues com Marcelo Naves. E foi um sucesso, em uma semana vendi super bem. E estou fazendo lives pagas, com contratante. Comecei a fazer uma coisa que nunca achei que ia conseguir na minha vida, acordar às seis da manhã para trabalhar. É melhor do que ficar chorando.     

EM – Cara vou cutucar uma ferida. Alguns artistas de blues nacional reclamam que os músicos que acumulam a função de produtor preferem trazer nomes obscuros do blues dos Estados Unidos do que dar moral para os artistas daqui. O que tem a dizer sobre isso?
MN – Acho isso ridículo. Pra mim é papo de perdedor. O cara não consegue levantar a carreira a ponto de ser relevante ou fazer um festival sozinho e fica reclamando dos outros. Você conheceu o Aki Kumar, um artista fenomenal. Fiquei sabendo de várias declamações de músicos brasileiros. Dizendo que eu havia trazido um indiano que toca blues, mas ninguém conhece. Que gaitista do Brasil você conhece que toca melhor do que o Aki Kumar? Que tem mais relevância? Eu não conheço. Com todo respeito. O Aki Kumar é respitadíssimo na Califórnia, está em festivais junto com Kim Wilson, Rod Piazza, é o único gaitista do mundo a assinar com a Sony Music, faz um trabalho autoral incrível. Também reclamaram do Alabama Mike, dizendo que ninguém conhecia. Ele também está em grandes festivais, na Califórnia, Texas, Louisiana. O próprio Kim Wilson gravou no último disco do Alabama. Será que ele tem tão pouca relevância assim? Ou será que os artistas brasileiros não conhecem e ficam enciumados? Ou porque estão fechados na própria bollha? A maioria dos gaitistas do Brasil mal sabem tocar tongue blocking. Mal estudam e pesquisam o blues tradicional. É incrível trazer os caras de lá, eu aprendo muito com eles. Taryn Donath, uma pianista que ninguém conhece, nunca vi um pianista tocar melhor que ela. Também com todo o respeito aos nosso pianistas aqui do Brasil. Mas ela é um fenômeno, você a vê tocando boogie woogie e não acredita. E não trago só porque é conhecido, trago porque é bom. Trouxe a Dawn Tyler Watson e também recebi a mesma crítica: “Ah Nunca ouvi falar!”. Só em 2018 ela ganhou três prêmios Blues Music Award, melhor disco, melhor cantora e melhor artista revelação. Então, isso é fala de brasileiro perdedor. Acho que o cara não faz a carreira dele ter relevância e transfere a culpa para o outro.

Marcelo Naves e Tigermen

EM – Como é estar do outro lado do balcão? Quer dizer, produzir um festival, lidando com poder público, negociando com fornecedores e até com músicos. Não rola um desgaste?
MN – Rola muito desgaste. Tem de aprender a falar com o poder público. Aprender a lidar com gente tentando puxar seu tapete. Já tive gente da minha família tentando puxar o meu tapete. De perto, próximo. Mas a gente tem de fazer. Tem de trabalhar. Não ligo de vivenciar isso. Eu e o Danilo aprimoramos muito as nossas técnicas. Fizemos de tudo para fazer nosso festival, montamos até uma empresa para poder entregar as coisas que o poder público exije. Então, nesse outro lado do balcão eu faço acontecer. 
 
EM – Você tem acompanhado muitos artistas e já tem um longo trecho percorrido no blues. Poderia citar dois momentos importantes da tua trajetória?
MN – É difícil citar dois. Acho que a Diunna Greenleaf, um grande nome do blues, cantora da velha guarda do Texas. Ela é realmente incrível, fiz duas turnês no Brasil. E o Aki Kumar. Um grande amigo e parceiro. Estamos conversando pra eu ir fazer alguns shows na Califórnia. Ele realiza esse mesmo trabalho que eu faço aqui, produzindo shows e eventos. 

Nota 1: A amizade acabou no mesmo dia, após o Aki ter pego uma carona comigo na volta pro hotel.   

Nota 2: Nunca convidem Flávio Naves e Bruno Falcão para uma churrascaria se for você que for pagar.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Simi Brothers, produzindo, tocando e seguindo a canção - Vale do paraíba parte 2

 

Simi Brother e Phil Wiggins 

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Vale do Paraíba – parte 2

Foi num desses festivais, o de Jacareí, assinado pelo Marcelo Naves e pelos irmãos Simi que lancei meu segundo livro, o Blues The Backseat Music – As Origens no Brasil.  
Peguei estrada no domingo, dia 09 de dezembro de 2018. Os deuzes do blues acordaram de bom humor naquele dia e o sol queimava forte. 
Um dia antes, no sábado, no lançamento oficial em Santos, rolou um bate papo sobre blues e o show do Vasco Faé com o profissionalismo habitual do Sesc Santos. 
No domingo peguei o Douglas na casa dele em São Vicente às 10h30 já pronto e com a mochila nas costas... mas tive de dizer pra ele que íamos sair às 9h30. Quem conhece o malandro sabe que ele não respeita muito o horário. rsss
Delícia de viagem, as estradas vazias desde o começo. Chegamos cedo em Jacareí, por volta de meio dia e meia. 
O acertado com o Marcelo era um bate papo ali mesmo onde os shows iriam acontecer, aproveitando o público que já estaria lá. As IPAs que tomei até às 15h foram suficientes pra destravar a língua e entre uma piada sem graça e outra o bate papo rolou legal. 
A participação do público é fundamental nessas horas. Sempre tem aquele cara que esquece que está ali pra ouvir e quando pega o microfone não solta mais ou aquele que quando você ofende o presidente neo-fascista te olha com cara feia, mas no geral sempre é legal. E se o cara falar muito tu já manda na lata que ele está sendo chato.
O combinado era falar uma hora, mas com o atraso nos shows a conversa durou mais de duas. Bom é que tinha cerveja e que vendi uma pá de livros, os dois volumes.
No primeiro show o Márcio Abdo subiu ao palco pra mostrar o trabalho batizado por ele de MPB, música pra pular brasileira, com vários blues dançantes cantados em português. 
Depois da gig  eu e o Márcio ficamos por ali tomando umas brejas e conversando sobre sua participação na Mostra Blues que produzi naquele mesmo ano aqui em Santos. No meio da conversa, já com o Filippe Dias Trio fazendo um som,  encontramos o Otavio Rocha, guitarrista do Blues Etílicos.
Rocha é um dos grandes guitarristas de blues do país, um gênio da slide e um cara super gente fina. Eu e o Abdo ficamos conversando com ele, pagamos bebida e eu só não dei um livro porque estava sem. Depois de meia hora um sózia do Otavio apareceu e nos cumprimentou de passagem.
Eu e o Abdo nos olhamos e só aí percebemos por que o “nosso” Otavio não falava muito. A banda Blues Etílicos havia acabado de chegar de van e, claro,  o Otavio verdadeiro também. O Otavio impostor que bebeu várias brejas às nossas custas, não estava entendendo porra nenhuma do que a gente falava sem parar. Pô, a gente já estava trocando as pessoas e ainda estava no segundo show do dia.

Eugênio Martins Júnior – Imagino que irmãos que vão juntos para a música tiveram uma infância musical prolífica. Poderiam contar como foi? 
Nicolas Simi – Nosso pai, Gilberto, é um cara muito musical, escuta de tudo um pouco, sempre com bom gosto. Um dos seus artistas preferidos era o Tim Maia. Nossa casa sempre teve muita música, tenho ótimas lembranças do meu pai tocando violão no sofá domingo pela manhã e depois colocando no aparelho de som Djavan, Nana Caymmi, Billie Holiday, Al Green. Essa influência foi fator determinante para nossa formação musical. 
O Danilo naturalmente se interessou primeiro por instrumentos musicais, até por conta da idade, uma  diferença de doze anos. Enquanto ele estava na adolescência e já começando a tocar eu ainda estava na escolinha (risos). Nesse tempo curtíamos Led, Sabbath, Deep Purple, eram as paradas que o Danilo estava ouvindo até então, ele tinha desessete anos. Tenho uma foto clássica, de chupeta e segurando a capa do Led Zeppelin IV.
Em 2000 o Danilo e alguns amigos formaram a “Blues a Velha”, primeira banda de blues que vi ao vivo. Meu pai acompanhava tudo e apoiava do jeito que dava. Grana não tinha, mas sobrava disposição, levava a banda no seu Volkswagen TL quatro portas 1974, vendia ingressos, aumentava o volume da guitarra no meio do show (risos). Chegaram a abrir um show do Nuno Mindelis aqui em São José dos Campos. Tudo isso foi atraindo a minha atenção e a do Lucas, nosso outro irmão. Começamos a aprender guitarra com o Danilo, aprendemos as introduções de Born Under A Bad Sign versão do Albert King e I Wonder Why do Otis Rush. Me desenvolvi mais rápido que o Lucas, que na época já tinha interesse por eletrônica. Logo ele largou a guitarra e eu nunca mais parei de tocar. Hoje o Bizu - apelido do Lucas - toca gaita e é o responsável pela manutenção dos nossos amplificadores e pedais. (risos)

EM – E quando começaram a tocar juntos?
NS – Com frequência, assumindo um papel protagonista no palco, a partir de 2017. Sempre tocamos juntos em casa. Logo que surgiu o meu interesse pelo instrumento começamos a fazer um som com duas guitarras, um fazendo base enquanto o outro improvisava e vice-versa. Eventualmente eu era chamado para dar uma “canja” em algum show do Danilo com o Marcelo Naves. Isso passou a acontecer com mais frequência por volta de 2007, quando o Danilo já trabalhava com o gaitista Robson Fernandes. Em 2011 começamos a fazer alguns shows em trio com o Robson. Durante uns três anos fizemos muitos shows nesse formato, um baita aprendizado. Credito a minha inserção no cenário do blues a essas três pessoas, Danilo, Marcelo e Robson. A partir de 2015 o Danilo passou a integrar outros projetos musicais e o lance da produtora dele com o Naves já estava andando. Eu trabalhava em uma escola estadual e paralelamente seguia na carreira musical, vinha há uns dois anos substituindo o Danilo nos shows da banda do Robson até que, naturalmente, assumi o posto de guitarrista. Nessa época comecei a trabalhar com os gringos por intermédio do Igor Prado. Fizemos várias turnês e quando o Igor viajava eu chamava o Danilo para fazer os shows comigo, o que levou ao projeto The Simi Brothers. 

EM – E como o blues apareceu? A cena blueseira aí do Vale é bem ativa. Até que ponto isso influenciou a caminhada de vocês?
Danilo Simi – O blues surgiu na minha vida no século passado (risos). Mais precisamente no ano de 1998, quando era um iniciante no estudo das cordas. Fui apresentado a Robert Johnson, Lignhtin’ Hopkins, Blind Boy Fuller e outros grandes nomes do blues por um primo muito próximo que sempre foi um amante da música e detentor de uma coleção invejável de discos, vídeos e livros. Até esse momento, não conhecia nenhum outro músico na minha região que tocasse blues ou sequer sabia da existência de uma possível cena no Vale do Paraíba. Somente no começo dos anos 2000 é que passei a conhecer músicos como o Lancaster, de São José dos Campos, e os primos Flávio e Marcelo Naves. Esse último passou a ser meu parceiro e sócio. Até 2010 a cena blues no Vale tinha apenas esses músicos que já faziam parte do cenário do blues nacional, tocando em festivais e eventos especializados. Tanto em carreira solo ou acompanhando outros artistas nacionais e internacionais. 
Porém, isso era muito pouco para caracterizar um cenário forte do blues no Vale do Paraíba, já que esses músicos pouco atuavam aqui na região, dado a escassez de eventos, bares e festivais que contemplassem o gênero. Me arrisco a dizer, sem medo de errar, que isso começou a mudar em 2011, ao retornarmos de uma turnê de quase um mês pelo México. Eu e meu sócio Marcelo Naves começamos  a nos aventurar na produção de eventos e criamos a Naves & Simi Produções. Foi a partir daí que demos início a uma série de parcerias, principalmente com o poder público, por meio dos órgãos de cultura de vários municípios da região, o que levou ao surgimento de projetos como o Clube do Blues de Jacareí, que já vai completar 10 anos de existência. Junto com esses projetos, se iniciou a construção de uma cena blues de verdade, com um público cada vez maior, interessado e mais instruído, o surgimento de novos músicos e novas bandas, um espaço maior na mídia local, etc. Acho que o Nicolas é um bom fruto dessa nova geração de músicos. Outro exemplo é o Lucas Espildora (T-Boninho), ótimo guitarrista que surgiu no Clube quando ainda tinha apenas onze anos de idade. Hoje a Naves & Simi Produções atua em toda região, com destaque para Jacareí, já trouxemos mais de 30 artistas internacionais ao longo desses anos.


EM – Quando sentiram a necessidade de trazer artistas internacionais para Jacareí ?
Danilo – O Festival de Blues de Jacareí surgiu em 2015 e esse ano faremos a 6ª edição que, provavelmente, será no formato online devido à pandemia. Na verdade, o Festival surgiu com o sucesso do Clube do Blues de Jacareí, que foi a porta de entrada para tudo o que veio depois. Comecei a ter contato com os gringos em 2011, quando fui convidado para acompanhar o Eddie C. Campbell. Em 2012 recebi o convite de outro produtor, o Thiago Cerveira, para acompanhar o monstro da gaita, Steve Guyger, em uma de suas vindas ao Brasil. Em 2013 trabalhei com cantor Sugaray Rayford em uma turnê produzida pelo Igor Prado. A essa altura a Naves & Simi já estava na ativa, daí foi inevitável começar a trazer os gringos por nossa conta. 

EM - Isso não atrapalha um pouco o lado artístico?
NS – Tentamos não deixar isso influenciar no lado artístico e nem no convívio com os outros músicos e artistas, mas às vezes é inevitável. Por outro lado, a parte de produção nos ajuda a tocar com mais frequência o que é muito importante, já que treino é treino e jogo é jogo. Acho que beneficia mais do que prejudica. O lance das turnês com gringos traz o convívio com artistas muito mais experientes e que são referencias no tipo de som que fazemos. Além disso, nos obriga a sair da zona de conforto, conhecer novos sons, adaptá-los ao formato da nossa banda. 

EM – Poderiam falar sobre alguns artistas nacionais e internacionais que já trabalharam e qual foi a maior realização?
NS – Trabalhamos com uma boa galera do cenário nacional, Robson Fernandes, Flávio Guimarães, Greg Wilson, Adriano Grineberg, Blues Beatles, Igor Prado, Netto Rockfeller, Lancaster, para citar alguns. É sempre muito divertido encontrar essa galera. Por intermédio de outros produtores trabalhamos com artistas internacionais incríveis, Eddie C. Campbell, Steve Guyger, Sugaray Rayford, Tail Dragger, Willie Walker, Wallace Coleman, a lista é longa. Em parceria com o Naves, o Danilo produziu uma turnê com o Mud Morganfield, um dos filhos do Muddy Waters. Acho que essa foi uma tour importante para ele, por ser a primeira que estava produzindo, além de tocar. E por se tratar de um artista que nos leva para mais próximo daqueles grandes precursores que tanto admiramos. Nesse sentido quase todos os nomes com quem trabalhamos possuem um background de respeito dentro da história do gênero. Tail Dragger era muito próximo de Howling Wolf. Willie Walker gravou na Goldwax, que contava com nomes como James Carr, George Jackson e O.V. Wright. Wallace Coleman trabalhou por muito tempo com o lendário Robert Jr. Lockwood. Com o The Simi Brothers tivemos a sorte de nos associar com grandes nomes também, nossa turnê de estreia em 2018 foi com o cantor e gaitista Darrell Nulisch. Ele teve uma carreira bem ativa entre as décadas de 70 e 90. Nascido no Texas em 1952, conviveu com uma galera da pesada, Jimmy e Stevie Vaughan, Derek O’Brien, Lou Ann, Kim Wilson. Esse cara viu muita coisa, era amigo de Otis Rush e em minha opinião, o melhor entre brancos e negros, interpretando as canções do Otis. No final de 70 formou ao lado do guitarrista Anson Funderburgh a banda The Rockets, depois gravou ótimos álbuns com o guitarrista de Boston, Ronnie Earl, e por último trabalhou por quinze anos como vocalista da banda do lendário James Cotton depois que o mesmo perdeu a voz. Poder tocar ao lado de um cara desses e ouvir aquela voz que tantas vezes ouvi nos discos é impagável.


EM – Recentemente vocês conseguiram um grande feito, trouxeram ao Brasil uma das lendas do blues atual, o cantor e gaitista Phil Wiggins. Como isso se deu?
NS – Esse é mais um caso de um artista que admiramos muito e que estava em nossos planos há algum tempo. Em algumas ocasiões acompanhamos um gaitista da nova geração, o Aki Kumar. Além de um exímio gaitista, é uma pessoa ímpar, gosto muito de trabalhar e conviver com ele. Durante uma turnê em 2018 expressei minha vontade de trabalhar com o Phil Wiggins e ele prontamente se dispôs a me ajudar. Logo que voltou aos Estados Unidos ele fez o meio de campo com o Phil, me passando o email e telefone. Entrei em contato e armei uma turnê para outubro de 2019, que infelizmente acabou tendo poucos shows. Claro que isso não diminuiu nossa empolgação em trabalhar com um artista desse quilate. Fizemos ótimas apresentações e nos identificamos muito com o set list, afinal, fomos criados à base de country blues. O ponto alto dessa tour foi a gravação de um single que se chama See Me Rag, uma composição original do Danilo, na qual arranjei um segundo violão e com o Phil na gaita. Entramos de vez no mercado da música e serviços de streaming com esse som. Para quem quiser conferir está disponível em todas as plataformas digitais. Em 2020 planejávamos fazer muitas coisas com essa parceria, mas acabamos bloqueados pela Covid. Paciência.

EM – Acham que esse é o caminho, o próprio artista construir um conceito, produzir o show, vender, etc.?
NS – Total. Sinceramente, nem conheço outra forma de trabalhar. O Darrell por exemplo, é um total desiludido com o cenário atual, chega a ser engraçado (risos). O tanto de trabalho que gera uma turnê dessas é uma loucura. Tem o contato com o artista, a elaboração do material de venda, a disseminação desse material, o contato com produtores, a elaboração do repertório e produção musical, aéreas, vans, hotéis, logística no geral, é muito trampo! Tocar mesmo é a cereja do bolo. Mesmo em um projeto que não envolva artista internacional dá trabalho. Ser músico é um trabalho constante de criar ideias, estudar seu instrumento, colocar em pratica suas ideias, organizar suas finanças, reinvestir parte do que ganha com os shows e vendas de merchandise. Enfim, você tem que se entender como uma empresa. No nosso caso, como a grana é sempre apertada e vivemos única e exclusivamente disso, precisamos estar em cima e cuidando de cada detalhe, já que não existe margem para erro. Outra coisa importante quando se trabalha dessa maneira é ter parceiros. Nós cooperamos com outros produtores e artistas e isso amplia muito nossa atuação. Nosso pai sempre foi autônomo e odiava trabalhar para os outros, vendeu de alho a sacolinha plástica passando por Avon e pizza semi-pronta (risos). De fato, “se virar” é algo que puxamos dele.

EM - São dois guitarristas, como trabalham as composições e arranjos?
NS – Viemos de uma escola de blues tradicional, aquela onda de acompanhar gaitistas. Isso foi nossa porta de entrada para muitos projetos como sideman, formou nosso estilo no instrumento e permeia tudo que fazemos. Mesmo em projetos nada tradicionais como o que desenvolvemos ao lado do trombonista de Chicago, Big James. Temos sempre a preocupação de tocar em regiões distintas do braço da guitarra para soar diferente e complementarmos um ao outro, nada mais chato do que duas guitarras tocando a mesma coisa. Na pré-produção das turnês ou mesmo de shows esporádicos com convidados nacionais, costumamos fazer de dois a três ensaios somente nós dois, antes dos ensaios com a banda toda. Isso é muito importante, pois além de arranjarmos as guitarras, já chegamos ao ensaio geral tendo uma boa noção do que queremos dos outros instrumentos para cada som. Isso agiliza muito o processo e faz as coisas “groovarem” mais. Outro ponto é que, sempre um de nós fica com o que chamamos de “hard work”, uma harmonia mais constante para sustentar a música, enquanto o outro vai para um lado mais melódico, se valendo de frases e timbres diferentes para criar outras texturas no som. Isso tem funcionado bem e vem criando uma cara para o nosso som. Na parte de composição o Danilo está anos-luz a frente, o single com o Phil é composição dele e os temas instrumentais que tocamos nos shows também. 


EM – Tenho notado que o Danilo tem se posicionado politicamente contra o governo federal. Gostaria que falasse sobre os motivos dessa discordância?
DS – Nunca fui de expressar minha opinião política para fora do meu convívio familiar e também não gosto muito dessa coisa de misturar música com política no sentido partidário, apesar de respeitar quem assim o faz. Entendo que a música ao longo de sua história, sempre exerceu um papel importante na sociedade, influenciando e participando ativamente de momentos políticos importantes, mas confesso que quando estou compondo, ensaiando ou fazendo shows, essa preocupação não passa pela minha cabeça. Porém, o atual momento político do Brasil é de uma mediocridade tamanha que beira a insanidade. Diante disso, como cidadão, me sinto na obrigação de assumir publicamente o meu descontentamento com toda essa aberração que estamos vivendo e faço isso não por que esse governo é assumidamente contra a arte como profissão e como forma de expressão, isso sem dúvida afeta diretamente o meu trabalho, mas acho que seria muito mesquinho da minha parte me levantar contra esse governo somente por esse motivo. O que me incomoda mesmo é a vergonha mundial que o Brasil se tornou, a vergonha que sinto de falar que sou brasileiro e o futuro de toda uma nação ameaçado. Acho que tudo isso é motivo suficiente para encorajar qualquer cidadão que, assim como eu, desolado com o atual momento do Brasil, a se posicionar.

EM – Como têm se virado nessa pandemia? E O que esperam do futuro? 
NS – Tá complicado. Basicamente estamos vivendo das nossas economias dos últimos dois anos, algo que aprendemos a duras perdas ao longo desse caminho. Todo mundo deveria receber um pouco de educação financeira na escola, se a pessoa é autônoma e músico ainda por cima, é obrigação. Com ou sem pandemia, todo começo de ano é complicado, poucos shows, pouca coisa acontecendo, tudo muito devagar e a galera no ritmo de férias e festas, ninguém quer ouvir blues (risos). A coisa só começa a andar em abril, isso já é praxe. No início, quando chegava essa época, o Danilo ficava liso. Eu, como até há dois anos atrás ainda tinha um emprego “normal”, segurava as pontas. Conseguimos aprovação em alguns editais para shows no formato de “Live” e produção de conteúdo audiovisual. Confesso que fiquei injuriado com tudo isso, já que estávamos trabalhando num ritmo muito bom e os planos para 2020 pareciam ótimos. Agora é segurar a onda, seguir buscando novas formas de trabalhar dentro dessa nova realidade e esperar que os eventos presenciais voltem a acontecer num futuro não tão distante, para a nossa sorte e a do público também.

EM – Vocês ainda não gravaram um disco. Quando sai?
NS – Lançamos alguns singles recentemente e temos mais dois planejados para sair nos próximos meses. Estamos tocando vários projetos ao mesmo tempo com o Phil, o Big e o Darrell. Temos planos de gravar com todos. Além das composições originais, que podem se encaixar nesses projetos, ou mesmo um projeto só dedicado a elas. Como tudo que produzimos é financiado com parte do que levantamos com os trampos, as coisas caminham um pouco lentas. O lado bom é que a experiência e amadurecimento que estamos adquirindo na produção desses singles e demais conteúdos, vão contar muito na hora da produção do álbum, que sinto estar cada vez mais próximo.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Flávio Naves, o especialista em Hammond B3 - Vale do Paraíba parte 1

 

Blues Beatles no Santos Jazz Festival 2018 - produção Mannish Blog

Texto e foto: Eugênio Martins Júnior

Vale do Paraíba – parte 1

Mais do que a paisagem, os grandes rios fazem parte da vida econômica e cultural das cidades do interior de São Paulo. O de Piracicaba inspirou o Tião Carreiro e Pardinho a compor o tema clássico da “real” música sertaneja brasileira. 
Os rios Mississippi e Yazoo, nos Estados Unidos, inspiraram muitas canções dos blueseiros de lá. As raízes do blues foram irrigadas por essas duas entidades da natureza. 
Aqui em São Paulo, o entorno do rio Paraíba do Sul, que compreende as cidades de São José do Campos, Taubaté, Jacareí, Pindamonhangaba, Cunha, Jambeiro também gerou uma cena blueseira. Menos pelo clima bucólico, mais pelo aglomerado econômico gerado por esses municípios, o que possibilitou a criação de festivais e eventos relativos ao blues.
É de lá que vem o tecladista e guitarrista Flávio Naves (Blues Beatles), Marcelo Naves (Tigerman) e os Simi Brothers, Danilo e Nicolas, focos das entrevistas a seguir. Além do guitarrista Lancaster e da cantora Bidu Sous, já entrevistados por esse blog.
Essas três entrevistas foram realizadas no segundo semestre do ano passado, quando o corona virus já havia mostrado ao mundo sua capacidade de contaminação e sua implacável mortalidade.
Demorei para publicá-las porque, após passar longos meses de um estado quase catatônico com toda essa situação, comecei a trabalhar em alguns editais que resultaram em um festival sobre economia criativa, o CRIASOM, duas vídeo-aulas sobre produção executiva e o início de um documentário sobre o blues no Brasil. E esse ar deu uma revigorada.
Quero voltar a me dedicar a esse blog e às entrevistas com os blueseiros do Brasil e da gringa. E também contar as histórias que passo na estrada. Espero que essa seja uma retomada real. 
Voltando ao Vale do Paraíba, entendo que o aparecimento de uma cena cultural se dá por uma coleção de fatores. Por isso achei pertinente perguntar sobre uma suposta cena musical que vem crescendo nos últimos anos na região. 
E também por isso juntei Flávio Naves, tecladista com trabalho solo e à frente da banda Blues Beatles; Marcelo Naves com sua carreira solo de gaitista e produtor de festivais; e os Simi Brothers, como guitarristas e produtores de festivais sob esse mesmo tema. Também recomendo a leitura das entrevistas com o guitarrista Lancaster e com a cantora Bidu Sous.

Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical?
Flávio Naves – Meus irmãos mais velhos já eram músicos, um toca bateria e guitarra e outro toca baixo. Então já tinha essa presença de músico em casa, já tinha contato com os ensaios e tudo mais.  

EM – E o blues, quando apareceu na tua vida?
FN – Foi pelos meus irmãos, mas principalmente pelo Lancaster, que é meu primo. Ele começou a escutar e tocar blues e apresentou para os meus irmãos.  

EM – Você toca um instrumento fascinante que é o Hammond B3. Gostaria que falasse quando e como escolheu esse caminho?
FN – Escolhi o Hammond quando vi o Deacon Jones pela primeira vez. Ele estava tocando com o Lancaster no Revolution Café, em Jacareí. Eu devia ter uns onze anos de idade e naquele dia ele debulhou o instrumento. Foi um dos melhores shows que eu já vi. Ele tocou com o banco, com o chapéu e aquilo ali me impactou de uma maneira que decidi que queria fazer aquilo. Não comecei no órgão e nem no piano, comecei a tocar Hammond de cara. Tinha uma guitarra, mas o lance profissional começou com o Hammond. 

EM – Você gravou um CD com o Deacon Jones quando ele veio ao Brasil. Como surgiu essa ideia e como foram essas gravações? Foram ao vivo?
FN – A ideia surgiu ligada a resposta anterior. O Deacon Jones foi minha inspiração inicial. Sempre o tive como ídolo e mentor. Então propuz a gravação e ele aceitou. Não são muitos os jovens que escolhem o Hammond e ele também gostava de mim. Sabia que eu havia começado no Hammond por causa dele. Acho que ele me tinha como um pupilo e queria dar essa sequência. Tanto que o nome do CD é Legacy of the Hammond B3.  

EM – Você é um dos caras mais antigos da cena do Vale do Paraíba. Gostaria que falasse sobre isso. Tem aparecido bastante músicos deicados ao blues por lá.
FN - O pioneiro aqui na região é o Lancaster e na sequência vieram eu e o Marcelo Naves que é gaitista. Daí em diante apareceram novos talentos. Esse aumento do blues no vale deve ser por causa desse movimento que fazemos em trazer o blues pra cá. Eu só vi o Deacon Jones porque o Lancaster o trouxe ao Revolution. Mas a gente tem o costume, tanto eu quanto o Marcelo, de trazer os artistas de fora. Isso faz crescer a cultura do blues na região fazendo com que as pessoas tenham o mesmo despertar que tive com o Deacon. Muitos dos novos artistas que estão aparecendo viram a gente ou algum gringo e se inspirou com isso. Vejo o vale como um celeiro de blues. O pessoal é bem deidcado e isso só tende a crescer.



EM – Você acostuma acompanhar blueseiros gringos aqui no Brasil. Gostaria que contasse como é o processo de receber as músicas e produção.
FN – É legal esse intercâmbio, porque é um aprendizado. Com relação a repertório e vivência de blues. Muitos deles, sendo de Chicago ou outras partes dos EUA, vivem o blues intensamente. Nasceram e vivem até hoje dentro do blues. Isso a gente consegue perceber no palco. O aprendizado é grande a cada turnê. Tive a honra de gravar e tocar em turnê com o Lucky Peterson no ano passado. Pra mim, um dos maiores artistas de blues por tocar Hammond e guitarra. Sempre gostei de tocar guitarra também. E outros, o filho do Muddy Waters, o Mud Morganfield. Tive alguns momentos no palco que parecia ter sido transportado para uma outra era. Ele traz aquela herança do pai dele. A Tia Carrol, a Demetria Taylor, Terrie Odabi, Guy King são pessoas maravilhosas. Além da experiência de palco, criei uma relação de amizade que faz diferença na minha vida.     

EM – E desses, quais foram os momentos mais legais desse trampo. Quer dizer, tocar com os caras do blues internacional, viajar pelo Brasil.
FN – Um dos momentos mais legais foi com o Lucky no Festival de Rio das Ostras no palco Iriry. A atmosfera me lembrou um dos shows dele que sempre assisto em vídeo. Parecia que eu ficaria na história daquelas pessoas que estavam assistindo. Outro momento legal foi com a Terrie Odabi no programa Altas Horas, quando ela fez aquela galera que nunca tinha ouvido o blues levantar, cantar e bater palmas, e o Serginho extasiado. Simplesmente com a pegada blueseira dela. Então, quando a gente leva o verdadeiro blues pra galera que não conhece. É muito gratificante. 

EM – Blues Beatles, como o nome diz, é uma banda que faz arranjos blueseiros para as músicas dos Beatles e também para clássicos do blues. Como funciona isso dentro da banda. Só tem fera lá.
FN – A Blues Beatles foi criada nos ensaios de uma banda que nós tínhamos, a Today. Fazíamos jam sessions nos intervalos, tocavamos blues, rock e a formação do Viana é Beatles, Oasis. Eu e o restante da banda viemos do blues. Um dia estávamos fazendo um blues e ele cantou Ticket To Ride e nasceu a Blues Beatles. Fazemos assim até hoje nas nossas criações. No álbum mais recente o Let It Blues, lançado em fevereiro, chamamos o Fred Sunwalk lá de Ribeirão Preto e o Denilson Martins. O resto da banda   mora aqui em São José dos Campos. Nós entramos em estúdio e tocamos descontraidamente e daí nascem as versões. Tocamos uma levada de blues e o Viana lembra de um tema que se encaixa ali. Elas amadurecem quando tocamos nos shows e depois entram no disco. 

EM – Vocês estavam com muitas datas fechadas nos EUA e Europa, mas foram pegos em cheio pela pandemia de Covid-19. Como têm se virado e como vê o futuro da música?
FN – Tínhamos três turnês Marcadas nos Estados Unidos, estávamos lá inclusive, e mais duas na Europa para agosto e novembro. Foi muito complicado, quando a pandemia chegou nos Estados Unidos nós estávamos no estado de New York onde começamos ver as notícias na televisão e os países vizinhos ao Beasil fechando as fronteiras. Ficamos com medo de não poder voltar pra casa e não teríamos nem o que fazer lá. Os shows sendo cancelados até que nós decidimos voltar ao Brasil antes que a situação piorasse. Novas datas foram agendadas para os shows. No Brasil, como você sabe, todos os shows também foram cancelados. Desde então o que temos fazendo são as lives, temos um público que tem sido solidário com a banda. E também lives para festivais e marcas. Também fomos convidados para tocar em drive in, mas ainda não aconteceu. Sabemos que será uma volta lenta. O nosso setor, o mais afetado, será o último a voltar. Esperamos por uma vacina, não há o que fazer. Só nos resta usar esse tempo pra criar e se preparar para o ano que vem. 

EM – Então a coisa engrenou mesmo lá na gringa?
FN - O nosso vídeo de A Hard Days Night viralizou e fez com que a banda ficasse conhecida nos Estados Unidos e Europa. Mas a gente tem fãs no Japão, Austrália e em todos os lugares do mundo. O mercado de blues nos EUA e Europa é muito forte e a gente conseguiu entrar. A demanda de shows é muito grande. Não fomos morar lá, mas jé faz parte do plano da banda. Nos Estados Unidos temos 20 shows por mês. E shows grandes.Estamos recusando shows pra ficar com a família no Brasil. É bem legal como a maneira como os americanos enxergam o que estamos fazendo, uma coisa original, fazer versões dos Beatles tocando blues. Por isso são fãs do que a gente está fazendo. O brasileiro encara mais como cover. Eles têm o blues na alma e por isso eles entendem exatamente o que estamos fazendo. Isso faz muita diferença.

EM -  E como vê o descaso desse governo com a cultura do país?
FN – Não vejo descaso desse governo com a cultura. Vejo o descaso enorme de outros governos com a cultura e com a educação. O que acho mais grave. Mas não adianta nos colocarmos no lugar de vítima e ficar reclamando. Óbvio que temos de falar sobre o assunto para que os problemas sejam sanados, com mais incentivos para a educação e cultura do país, mas temos de fazer a nossa parte. Fazendo isso as coisas acontecem. Aqui ou em outro país. Não sou de ficar reclamando, porque se a gente começar a falar, o que é que não pode melhorar? É difícil.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Just Like You - 1996 - Keb Mo'


Trata-se de um dos grandes discos do blues moderno, no qual Keb Mo’ esbanja todos os ritmos que conseguiu juntar ao longo da estrada, de sua participação em uma banda de calipso no começo da carreira, ao blues tradicional do sul e elétrico do norte.
That’s Not Love começa calma, como uma manhã ensolarada de  domingo, harmônica e baixo marcantes, mas fala de desamor. Ou, pelo menos, de um relacionamento que não está mais legal para ambas as partes e ensina que quando isso acontece está na hora de partir.
Perpetual Blues Machine é um blues tradicional com voz, violão e harmônica, contrastando com o tema seguinte, More Than One Way Home, um verdadeiro épico.
Kevin Moore nasceu e cresceu em Los Angeles, em Compton o território das gangues. Seus pais eram migrantes do sul e por isso Mo’ teve muito contato com a música gospel que ouviam.
Aos 21 anos ganhou a estrada com a banda de Papa John Creach com quem gravou três álbuns, mas as cenas de infância nunca saíram de sua mente. Ao seu tempo, Keb Mo’ tornou-se um dos grandes compositores, cantores e instrumentistas do blues e toda essa descrição está em More Than One Way Home.
I’m On Your Side traz a batida seca da bateria de Laval Belle ponteada pelo teclado de Tommy Eyre que também acompanha o solo de Mo’, quando este sola contido, mas eficiente. Um bluesão gooxtoso de se ouvir.
Vem finalmente Just Like You, uma das canções mais lindas compostas por Keb Mo’ e que justifica a escolha do nome do álbum e o prêmio Grammy que ganhou como melhor disco de blues contemporâneo. É de arrepiar as participações de Bonnie Raitt e Jackson Browne nos vocais. Impressiona como esses artistas nos fazem crer que se trata de um encontro verdadeiro de dois amigos que viviam separados pelo tempo. 
You Can Love Yourself começa com o dedilhado em um volão de cordas de aço e é mais um blues tradicional auto-ajuda. Lembre-se, quando estiver para baixo, se ame. Bonitinho.
O slowzão Dangerous Mood vem completo com órgão, piano, solo de guitarra, e Mo’ mostrando que sabe falar sério com uma mulher. 
The Action é mais tema de domingo ensolarado, música de amor gostosa, leve como os backing vocals de Jackie Farris e Jean McClain.  
Mais violão e palmas em Hand It Over, um gospel que também manda um recado: tá fodido? Ajoelha e reza. Também com os vocais cheios de alma de Farris e McClain.
Soul rock em Standin’ At The Station, com a harmônica amplificada de Larry David e o aço do bottleneck sobre o aço das cordas do violão de Mo’ rasgando o couro. Pra ouvir alto.
Mais slide em Momma, Where’s My Daddy, também um blues tradicional, onde a ausência paterna é apresentada pela segunda vez nesse trabalho. A primeira foi em More Than One Way Home.
O caboclo Robert Johnson baixa em Keb Mo’ em Last Fair Deal Gone Down, mas de roupa moderna. O “cavalo” apresenta sua versão para esse tema clássico de um dos grandes ícone do blues. Volta e meia o caboclo Johnson reaparece indicando os caminhos da encruzilhada para que seus pupilos nuca se percam. Com John Porter (também produtos do disco) no dobro, Darrel Leonard no trompete, Jim Price no trombone e Jim Gordon na clarineta e Tommy Eyre assumindo a guitarra de onze cordas.
Lullaby Baby Blues é o que o nome diz, uma canção de ninar acústica com a voz de veludo de Mo’ nos embalando após ter ouvido um disco que passou a ser o marco divisório em sua carreira. Se hoje Kevin Moore é um monstro do blues, é graças a esse trabalho.  




Músicas

1 - That’s Not Love
2 -  Perpetual Blues Machine
3 -  More Than One Way Home
4 - I’m On Your Side
5 - Just Like You
6 - You Can Love Yourself
7 - Dangerous Mood
8 - The Action
9 - Hand It Over
10 - Standin’ At The Station
11 - Momma, Where’s My Daddy
12 - Last Fair Deal Gone Down
13 - Lullaby Baby Blues

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Morre aos 88 anos Bob Koester, criador da Delmak Records

 

Bob Koester - foto Tony Armour

Morreu hoje aos 88 anos Bob Koester, um dos grandes entusiastas pelo blues e o jazz de Chicago. Koester foi o fundador da loja de discos Jazz Record Mart e de um dos selos mais importantes do blues, Delmark Records.
Além de uma das lojas mais abastecidas da cidade, a Jazz Record Mart foi por décadas ponto de encontro de vários artistas e muitas carreiras iniciaram ali, pois havia um mural onde contratantes e artistas colavam seus recados e acertavam gravações e shows.
Em entrevista ao Chicago Sun Times o fundador da Alligator Records, Bluce Iglauer, declarou que Koester foi "o padrinho espiritual” de toda uma geração de empreendedores e que  colocou a música à frente do dinheiro.
“Bob merece o crédito pela popularidade do blues na América hoje, muito mais crédito do que ele jamais recebeu”, disse Iglauer. Completando que, sem ele, a Alligator não teria existido e tmbém a Living Blues Magazine porque foi o grupo que frequentava a Record Mart que começou a publicação. E provavelmente a Flying Fish - outra gravadora de Chicago - não teria acontecido porque seu fundador, Bruce Kaplan também fazia parte desse pessoal. 
Koester dirigiu a Jazz Record Mart por décadas em vários locais do centro de Chicago, chamando-a de "A Maior Loja Especializada de Jazz e Blues do Mundo". Ele disse que o aluguel alto contribuiu para sua decisão de fechar o estabelecimento em 2016, quando a loja ficava em 29 W. Illinois St.
No mesmo ano, ele abriu Bob’s Blues & Jazz Mart que hospedou concertos ao vivo e uma celebração de seu 87º aniversário no ano passado.
Após sofrer um derrame em 2018 e após 65 anos à frente do Delmark Records, Koester vendeu o selo para o casal Julia Miller e Elbio Barilari que prometem dar continuidade ao trabalho do fundador.
Exclusivo para o Mannish Blog Julia escreveu: “Bob Koester  era um defensor dedicado do blues e jazz. Ele ajudou a manter os gêneros vivos e a tornar as gravações acessíveis. Os artistas de blues de Delmark há muito são a base da cena de blues de Chicago e continuarão levar o blues de Chicago para o mundo! A Delmark disponibilizou quase todo o seu catálogo digitalmente - quase 12.000 canções - e continuará a gravar e lançar blues, jazz e música criativa improvisada nos próximos anos”.

Bob Koester ladeado por Julia Miller e Elbio Barilari 

 Delmark Records – é um dos selos de blues e jazz mais antigos dos Estados Unidos, inicialmente por Bob Koester em 1953 em St Louis sob o nome Delmar. Só recebeu o nome Delmark quando Bob levou seu selo definitivamente pra Chicago.Ao longo de sua história, Delmark Records gravou artistas importantes do jazz, Sun Ra, Sonny Stitt, Wynton Kelly, Curtis Fuller, Roscoe Mitchell e muitos outros. Grandes nomes do blues também passaram pela Delmark, entre eles, Junior Wells, Little Walter, T-bone Walker, Big Joe Williams, JB Hutto, Robert  Nighthawk, Luther Allison, Magic Sam, Jimmy Dawkins,  Sleepy John Estes, Arthur Crudup, Otis Rush, Roosevelt  Sykes, Carey & Lurrie Bell, Eddie C. Campbell, Big Time Sarah, Eddie Clearwater. Atualmente abriga Dave Specter, Steve Freund, Linsey Alexander, Tail Dragger, Studebaker John, Billy Flynn and Jimmy Burns. E todos os sábados o guitarrista Jimmy Johnson se apresenta online para deleite dos internaltas. Johnson é uma das lendas vivas do blues ainda na ativa aos 92 anos.