segunda-feira, 6 de julho de 2026

A música de Amaro Freitas é a crônica do Brasil redescoberto

 

Amaro Freitas na passagem de som no Sesc Santos - 25/04/2026

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

A primeira vez que conversei com o Amaro Freitas foi em setembro de 2019. Naquela época o recifense consolidava sua assinatura musical com os álbuns Sangue Negro e Rasif.  
Muitas águas turvas passaram pelos canais de Recife desde então. As pandemias de covid 19 e de ignorância devastaram muitas famílias e a vida cultural no Brasil.
Com resistência, músicos e produtores tocaram a vida, projetando novas rotas para a arte. Amaro Freitas transformou a reclusão em um mergulho ainda mais profundo em suas raízes. Seu piano percussivo tornou-se um canal de cura e conexão espiritual. 
Em Sankofa e Y'Y o ruído das cidades deu lugar ao “mantra da natureza” e à “ancestralidade amazônica”, expandindo as fronteiras de sua criação. 
Ao deixar de ser uma promessa musical, Amaro consolidou-se como um dos principais nomes da música instrumental do planeta. E essa consagração nos palcos internacionais mostra que mesmo quando as águas dos canais sobem, nossas raízes são profundas demais para serem arrancadas. E pensar o Brasil a partir de sua ancestralidade exige afastar o ufanismo e encarar nossas fraturas históricas. 
Em O Povo Brasileiro - A Formação e o Sentido do Brasil, o antropólogo Darcy Ribeiro defende que o povo brasileiro nasceu de uma “matriz integradora” violenta, uma fusão dolorosa, mas profundamente inventiva, com raízes indígenas, africanas e europeias. 
Essa “Nova Roma”, descrita por ele, não se consolidou pela pureza, mas pela síntese e pela resistência cultural daqueles que foram submetidos ao processo de descaracterização. E mais, de desumanização. 
Penso que é precisamente no território da reinvenção que a música de Amaro Freitas se conecta à tese darcyana. 
O pianista pernambucano subverte a tradição do jazz europeu e norte-americano ao injetar no piano de cauda o conteúdo e a forma das culturas afro-brasileiras e indígenas. Uma engenharia genética que misturou o DNA do instrumento ocidental com o dos tambores da floresta e da África. 
Evocando os mistérios dos povos originários e as polirritmias do frevo, do maracatu e do coco, Amaro constrói a crônica da Nova República de Darcy, onde a ancestralidade é vanguarda. 
A riqueza da nossa música, portanto, não reside em uma harmonia pacífica e idílica, mas na capacidade contínua de deglutir a violência histórica e transformá-la em potência criativa. 
Ribeiro teorizou a fundação desse povo, Amaro Freitas compõe a sua trilha sonora contemporânea, provando que o Brasil profundo continua vivo, complexo e em constante estado de criação.


Eugênio Martins Júnior – Muita coisa mudou desde o nosso último encontro em 2019. Você já havia gravado Sangue Negro e Rasif. Agora, em 2026, após os lançamentos de Sankofa e YY, você ganhou o mundo. O que muda ao apresentar a música brasileira para o mundo?
Amaro Freitas – Quanto mais eu conheço o mundo mais conheço o Brasil. Acessando espaços como Estados Unidos, Japão, Europa entendi também essa música brasileira que é consumida fora do Brasil, mas que o país não conhece. Entendi que os heróis brasileiros são outros. Você chega em um teatro em Oslo e vê uma foto do Hermeto Pascoal. O produtor que me chamou para aquele festival dizer que o Naná Vasconcelos esteve ali há vinte anos. Veja, Naná, Hermeto, Egberto foram responsáveis por colocar essa música criativa no mundo. Deram uma cara a esse tipo de música. E quando estou fora no Brasil para apresentar o meu trabalho já existe um caminho de compreensão. Já existe um lugar para mim no mundo. Através de uma estrada que foi pavimentada antes. Esses caras entraram no mato e abriram o caminho para eu passar. E para vários músicos que representam essa música brasileira. 
Também foi interessante perceber o quão próximo é um instrumentista e um cantor. A valorização e o posicionamento da música instrumental fora do Brasil são mais fortes do que o canto. É óbvio que as pessoas vão adorar Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan, Maria Bethânia, Liniker, mas o lugar de prestígio, de escuta da música instrumental brasileira nesse circuito é muito grande. Principalmente quando a gente vê como o Hermeto é venerado. Lembro do festival Jazz in Marciac em que um dia estavam o Hamilton e o Egberto e no outro eu e o Hermeto e havia seis mil pessoas para ouvir. Houve outro no Japão que era no Blue Note, onde tinha quinze mil pessoas. Toquei antes da Norah Jones, mas eu era o representante da música brasileira.
Foi importante compreender que a música que eu faço não é a mais famosa do mundo e nem no meus país, mas é a melhor música que o mundo consome.

EM – Quando conversamos em 2019 não tínhamos noção do que nos esperava, uma pandemia de Covid 19. Como foi atravessar esse período?
AF – Foi um período muito difícil, mas curiosamente tive muito trabalho. Fiz várias gravações online. O Sesc deu um suporte muito forte para vários artistas. Ia ao estúdio fazer lives e depois viajava para tocar em teatros vazio. Esse período foi complicado, desenvolvi uma crise de ansiedade e cheguei a chorar em um voo. Levei um tempo para conseguir me recuperar. Entrava no avião e ficava tenso com aquela situação, todo mundo de máscara. Foi em um voo para o Rio de Janeiro, quando fui gravar para um edital da Lei Aldir Blanc. Perdi a minha avó para a Covid 19. Vi vários amigos músicos saindo da música, indo trabalhar em outra coisa para se sustentar. Muito difícil para todos e para mim não foi diferente.

      

EM – Penso que a gravação do álbum Sankofa marca uma guinada no rumo, remetendo à ancestralidade africana na cultura brasileira. Talvez até representando um grito de resistência com o que estava acontecendo no país naquele momento. Estávamos vivendo sob um governo que era contra a cultura, a ciência e a educação. Procede?
AF – Acho que várias pessoas ficam com medo de gravar quando veem um governo como esse. Que não é a favor da cultura, a favor da arte, que quer tolher... a gente sabe que cortando acesso a isso fica mais fácil de manter o povo na ignorância e na insensibilidade. E sempre pensei o contrário. Acho que esse momento é que temos de enfrentar, com a ideia que seja intelectual, que seja artística, profunda. Que, de alguma forma, isso transforme e fortaleça o coração das pessoas que lutam por essa causa.
Quando faço o disco Sankofa estou falando sobre o conhecimento de uma história que não tive acesso quando era 
criança. Não estudei a história real das pessoas que vieram de África. O olhar bonito sobre Tereza de Benguela, Aqualtune ou Baquaqua. Gostaria de ter estudado sobre esses personagens que foram reis e rainhas que lideraram quilombos. Queria ter estudado sobre o candomblé, as matrizes africanas. Queria ter estudado sobre o povo Xambá, sobre a igreja Rosário dos Pretos no Pelourinho. Não tive acesso a isso. Então, quando começo a entender que existe um motivo pelo qual eu posso me orgulhar, de ter nascido nesse solo, vindo da periferia e ter colocado um som de piano original, pensei que precisava fazer
um álbum celebrando essa história. É em um momento da vida no qual estou saindo muito do Brasil, presente na Europa, Estados Unidos, passando por vários festivais e percebendo a diáspora africana. Lembro de ter visto Jeff Parker no Cork Jazz; a Brandee Younger; o Hamid Drake, no festival de jazz da Macedônia; Christian Scott, no Liubliana Jazz Festival. Músicos que vêm da Inglaterra, França, Estados Unidos. De Cuba vi Roberto Fonseca, Chucho Valdez e Gonzalo Rubalcaba. Todos esses artistas expressando a musicalidade da África em todos esses lugares onde ela foi plantada. Mas entendendo que em todos eles, o tambor é o centro. A rítmica é muito presente. Nesse momento estou estudando muito polirritmia, isorritmia, ritmo negativo. No qual começo a trabalhar a célula do tamborim, do partido alto. Começo a pensar em Baquaqua e em polirritmia. Na situação de vida desse personagem, que foi tão difícil no Recife, no Rio de Janeiro. E ele consegue se libertar quando chega aos Estados Unidos. De uma forma polirrítmica, harmônica, pensando nesse acorde frio, que traz uma sensação de garganta entalada, de alguém que quer botar pra fora, que quer explodir. E de uma forma subjetiva, expressar todos esses processos que Baquaqua viveu.
Sankofa é um disco que fala sobre o reconhecimento do meu povo. E quando cheguei em New York para tocar pela primeira 
vez na Lincoln Center, queria conhecer a Times Square, mas acabei no Brooklyn. Aí eu digo: “Que porra de Times Square. Quero ficar no Brooklyn, no Harlem. Aí vou a uma feira afro e conheço o Ali, um cara de Senegal que estava vendendo uma bata. E eu compro e uso no show da Lincoln Center. Nessa bata havia o símbolo da sankofa. Um amigo meu comentou que aquilo era lindo e descobri que a sankofa era o último sinal para eu gravar esse disco. Um símbolo que significa continuar indo pra frente, mas sem esquecer suas raízes. Não deixar o elo se quebrar.

Rodrigo "Digão" Braz

EM – E ao mesmo tempo que reflete sobre o passado, você está pensando no futuro. O olhar para traz e o olhar para frente. O que eu quero dizer é que há atualmente uma luta sendo travada por espaço, por liberdade, por humanidade. Quero dizer, lutas do povo negro, indígena, LGBT, feminismo.
AF – É a luta pelas mulheres trans, feminista, das mulheres brancas, mulheres pretas, dos nordestinos, dos nortistas. O movimento indígena ocupa um espaço na política e tem nas redes sociais uma forma de protesto muito intensa. Veja, o Brasil evoluiu muito nesses temas, mas ainda é o país que mais mata mulheres, que mais mata mulheres trans, um país extremamente desigual...

EM – Riquíssimo e desigual.
AF – Sim. Imagina que um por cento da população brasileira recebe mais do que o resto. Existem escalas, mas é basicamente isso. Ainda falta muita coisa para mudar nesse país. 



EM - Em YY você foi além do ruído urbano, buscado os sons da floresta, dos rios e da ancestralidade amazônica. Você se distanciou do “mantra urbano” dos viadutos, buzinas e sirenes para o “mantra da natureza”? Fale um pouco sobre isso.
AF – Foi uma grande oportunidade. Inesperada. O Brasil é um país muito diverso. E essa diversidade se encontra em várias coisas. Um povo que tem vários rostos. Vários dialetos. Tem DNAs diferentes. Tem temperaturas diferentes. Tem uma cultura musical muito ampla. O samba e suas variações, maracatu, frevo, baião, coco, cavalo marinho, ciranda, caboclinho. Aí vamos ao Maranhão com tambor de crioula, semente, bumba meu boi. As lendas do norte, cazumbá, capinguari, uiara, o boto e todos os encantamentos. E aí vamos à culinária e à floresta. Então, é muito interessante, porque quando eu vejo o show de um inglês, de um israelense, percebo uma unidade. A primeira música não é diferente da segunda e que não é diferente da terceira. E na música brasileira eu começo tocando um improviso livre e depois toco um frevo e depois um maracatu e quem está fora do Brasil abre a boca de espanto. Estamos acostumados com essa diversidade, mas o mundo não. Talvez essa diversidade deveria ser mais o nosso orgulho. Olhando para o Brasil real e não o oficial, que é caricato, cafona, brega, ele separa as classes. O Brasil real é alegre, vai à luta, é o Brasil criativo. Aquele que resolve as coisas que parecem não ter mais jeito.
Respondendo a sua pergunta, quando chego na Amazônia, eu descubro um outro Brasil. Era pra eu ter ficado dois dias, mas 
troquei a minha passagem. Tema aquela coisa coletiva de você comer em círculo, olhando um para o outro, de igual para o igual. Ver como os indígenas tratam as árvores e os animais como se fossem parentes. E que eles dão nomes às árvores. Eles conversam e entendem os rios. Um deles me chamou e disse: “Amaro, você está vendo essa área? Aqui é a área do rio. De oito em oito anos o rio que você está vendo ali chega até aqui e a gente não invade”. Você entende?
Então eu estou aqui morando em São Paulo e quero desmatar a Amazônia, quero que o agronegócio funcione de maneira desenfreada. E aí os indígenas ensinam que é de lá que saem os rios flutuantes e que as próprias árvores são responsáveis por isso. E que o volume de água desses rios é maior do que o que o rio Amazonas despeja no oceano. E que essa água é responsável por chuvas equilibradas em São Paulo.

Sidiel Vieira 

EM – Gostaria que você falasse sobre o time que te acompanha hoje, o Digão na bateria e o Sidiel no baixo.
AM – A gente vem aprendendo muito juntos. Sou extremamente atento à vivência. Admiro muito o Digão e o Sidiel. Estou falando de dois artistas que têm seus discos 
lançados em diferentes formatos. São professores muito requisitados e têm um extremo profissionalismo em tudo o que fazem. Trabalho com o Digão há três anos e o Sidiel há um ano e sempre experimentando. Por exemplo, hoje você está vendo 
dois monitores ali para eu ouvir os loops e a voz, mas não tenho o som do piano nos monitores. Eu quero ouvir o som real e a gente passou alguns shows tentando chegar em uma sonoridade crua...

EM – Mas o baixo e a bateria chegam pra você no monitor?
AF – Nada. Vamos nos ouvir com o que temos ali. O baixo tem o “cheirinho”do som dele no monitor. Digão não tem nada no monitor dele e eu não coloco nada no meu.

EM – Por isso que vocês tocam juntinhos.
AM – Sim. É uma dinâmica. Antes da mixagem de Vinicius – técnico de som de Amaro – primeiro no palco, com a gente tocando. Eugênio, levou um tempo pra gente conseguir. Hoje me considero jogando na Champions League. Porque eu toco e logo depois vem o Chris Potter, toca o Gonzalo (Rubalcaba), na outra semana toca o Stefano Bollani. Aí eu vejo como as pessoas trabalham os sons. O mundo é um pouco menos ruidoso do que o Brasil. Somos muito quentes. Logo, tudo deles é um pouco mais baixo, mais tranquilo. Primeiro a gente estranha porque confunde intensidade com volume. E na prática você percebe que pode ser intenso sem machucar os ouvidos. Ser intenso e ser presente. Sem perder o controle do teu corpo. E é isso que tentamos fazer, ser tudo isso, e de uma forma muito elegante, manter o domínio dessa sonoridade.

EM – A última vez que a gente se encontrou eu te fiz a seguinte pergunta: “Estou reunindo entrevistas para um livro que pretendo lançar um dia, sei lá quando, e que vai se chamar Do Samba ao Jazz*. Se esse livro tiver 300 páginas e levando em conta que o samba está na página 01 e o jazz na página 300, onde fica a música de Amaro Freitas?”. Você respondeu que a música de Amaro Freitas é pós sambajazz, ou seja, depois da página 300. Meu próximo livro se chamará Música do Mundo. E volto a te perguntar: Onde fica a música de Amaro Freitas no mundo? Você reconhece esse rótulo de WORLD MUSIC?
AF – Acho que faço uma música que tem influência do que acontece no mundo. Que está conectada com a cena de jazz atual. Quando você pensa na música de Arooj Aftab, que é uma 
cantora paquistanesa; Tigran (Hamasyan), que é armênio; Shai Maestro, que é israelense; o Shabaka (Hutchings), um europeu/africano que vem da Inglaterra, acho que minha música está conectada com essa cena. Mas uma coisa que eu descobri é que na forma que eu falo, na forma que eu me visto e na forma como eu toco, quero ser mais brasileiro.

EM – O Brasil está na moda, Amaro? Tenho conversado com muitos músicos estrangeiros e todos tem vindo ao Brasil para aprender a nossa música. É um movimento inverso do que aconteceu nas últimas décadas.
AF – O Brasil sempre esteve na moda. Sempre rolou esse interesse. O Brasil sempre teve um problema muito grande. Não é o mundo que não queria aprender música brasileira, mas o Brasil que produzia algo genial e não tinha a capacidade de catalogar, registrar e ensinar isso aos outros. Europa e Estados Unidos fizeram isso de forma muito organizada. Tudo é uma escola. Acho que agora o Brasil tem uma estrutura e tem um repertório pensando os vários movimentos. A música de Moacir Santos, Milton Nascimento, Laércio de Freitas, Baden Powell, que deixou uma marca no violão. Que deixa um jeito de tocar piano, de ser compositor.

*O livro foi lançado em 2024 com o nome de Do Choro ao Jazz.



quinta-feira, 11 de junho de 2026

Morre aos 86 anos o indomável James “Blood” Ulmer

 

Ulmer em Londres, 16 de junho de 2009
. (Foto: Helen Boast PhotographyRedferns)

Esse obituário vem com atraso, mas com a reverência devida. Problemas da vida e a correria do trabalho me afastou do noticiário musical por um tempo e não li sobre a morte do grande James “Blood” Ulmer, aos 86 anos, no dia 03 de junho. Vamos a ele. 
Em um comunicado nas redes sociais, sua família informou sobre a morte do guitarrista e acrescentou: "Sua música era destemida, assim como seu espírito". A mais pura verdade.
Nascido Willie James Ulmer na Carolina do Sul em 1940, a carreira musical de Ulmer começou em bandas de funk, viajando de Pittsburgh a Columbus e Detroit – acompanhando músicos como Jewel Bryner e Hank Marr – antes de se estabelecer em Nova York no início dos anos 1970.
James “Blood” Ulmer não se prendia a um estilo. Além de tocar com Art Blakey, Joe Henderson e Rashied Ali, teve como mentor Ornette Coleman.
Esse espírito livre reinou por toda a carreira de Ulmer, caracterizada por uma execução instintiva e sem limites, mesmo quando começou a se dedicar à composição.
O próprio Coleman coproduziu eu álbum de estreia, Tales of Captain Black. Seu álbum seguinte, Are You Glad to Be in America?, foi lançado pelo selo britânico Rough Trade. 
O comentário social provocativo da faixa-título a tornou uma canção marcante, e ele acabou, vejam vocês, abrindo shows para bandas do pós-punk e rock, entre elas, Public Image Ltd e Captain Beefheart. Sobre o público nesses shows, ele disse mais tarde: "Eu ficava no microfone e mandava eles calarem a boca. Eles tinham cinco minutos para entrar no clima ou vazar!"
Após a passagem pela Columbia, assinou brevemente com a Blue Note para mais um álbum dando uma cutucada na América: America – Do You Remember the Love? (1987).
Continuou lançando álbuns de estúdio durante as décadas de 1990 e 2000, focando menos no jazz e mais no blues: "Blue Blood" (2001) contou com uma banda que incluia Bill Laswell, Amina Claudine Myers e Bernie Worrell, do Funkadelic. Lançado no mesmo ano, Memphis Blood: The Sun Sessions lhe rendeu uma indicação ao Grammy na categoria de melhor álbum de blues tradicional.
Ele também foi requisitado por outros artistas para contribuir com seu inimitável estilo de tocar guitarra: participou de gravações como a trilha sonora de Ry Cooder para o filme The End of Violence, de Wim Wenders (1997), e do álbum Phenology, do grupo de hip-hop The Roots.
Finalmente se aposentou em 2024, fazendo seu último show no festival de jazz de Detroit.
Consegui assistir James Blood Ulmer apenas uma vez. Foi em agosto de 2028 no festival Sesc Jazz (antes chamado de Jazz Na Fábrica). 
James "Blood” Ulmer e Memphis Blood Blues Band convidaram o ET Vernon Reid para apresentar um show de blues visceral e elétrico, misturando composições autorais com releituras clássicas de lendas do gênero, como Willie Dixon e Muddy Waters. Por sorte, o show foi gravado e está disponível no ambiente do Selo Sesc no Spotify.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Time Traders - 2001 - Peter Green/Splinter Group

 


O guitarrista inglês que despontou nos anos 60 com Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page, mas que nunca teve um décimo da fama destes, mesmo após substituir o próprio Clapton nos Bluesbreakers de John Mayall e fundar o grupo de blues/rock Fleetwood Mac, gravou seu melhor disco em anos. Green andava afastado da cena por causa do seu envolvimento com drogas pesadas, coisas da vida rock and roll.
Time Traders é, em todos os sentidos, um biscoito fino: produção, composições, arranjos e execuções. Tudo ancorado pelo ótimo Splinter Group. 
É a volta definitiva dele ao bom e velho blues, mas sem o fantasma da urgência ou de algum  virtuosismo vazio. O que se ouve aqui é a pura essência do gênero, filtrada pela sabedoria de quem já viveu o suficiente para cantar a dor com autoridade.
Acompanhado por Nigel Watson na segunda guitarra, Pete Stroud no baixo, Roger Cotton nos teclados e Larry Tolfree na bateria, Green encontra o colchão perfeito para desfilar seu fraseado econômico e expressivo.
A pedrada começa com Until The Well Runs Dry, uma dor de corno daquelas que só os blueseiros e os sertanejos brasileiros sabem cantar. 
Real World tem um Hammond B3 de fundo sob uma batida classuda daquelas que o batera toca olhando para os lados com cara de paisagem, mas que marca o tempo perfeito para a cantoria sobre os dias idos e perdidos e que não voltam mais. Green e Watson solam bonito. 
 O Splinter Group não funciona apenas como grupo de apoio, mas como uma engrenagem coesa que entende o tempo e o espaço que o mestre precisa para brilhar e deixar brilhar. Prova disso é a mudança de dinâmica de tirar o folego em Running After You.  
Enquanto temas mais diretos mostram que sua pegada rítmica continua impecável, tipo Shadow On My Door, um bluesão da porra. O som é limpo, quente e sem os excessos que muitos discos de blues na virada do milênio apresentaram.
Se voz de Green já carrega as marcas do tempo e dos excessos passados, ela ganha em expressividade e crudeza quando ele canta... you tell me lies, lies, em Lies. Com direito a backing vocals e metais.  
O repertório do álbum equilibra com maestria canções originais e releituras, como Underway, com uma atmosfera hipnótica e melancólica que tornou Green e sua icônica Les Paul lendas da música. Qualquer semelhança com Albatross pode não ser mera coincidência.
Longe dos holofotes, Time Traders se consolidou não apenas como um grande registro de estúdio da época, mas como o testamento de um sobrevivente que escolheu a música como sua redenção final. Com alma de blueseiro. 

Músicas:

1 - Until The Well Runs Dry
2 - Real World
3 - Running After You
4 - Shadow On My Door
5 - Lies
6 - (Down The Road Of) Temptation
7 - Downsize Blues (Repossess My Body)
8 - Feeling Good
9 - Time Keeps Slipping Away
10 - Wild Dogs
11 - Home
12 - Underway
13 - Uganda Woman


sexta-feira, 5 de junho de 2026

São Paulo ganha a primeira edição do Underground Jazz Fest em junho

 Improviso e ousadia. Músicos da cena de São Paulo, a cidade mais jazz do Brasil, se reúnem num evento em homenagem à liberdade artística


A proposta do Underground Jazz Fest é tocar música livremente para os amantes do improviso. E, de preferência, música autoral. 
Sim, respeitando e dando espaço aos músicos que tocam na noite paulistana e que têm o compromisso apenas com a música. São eles: Renato Alves Quarteto, Igor Bollos Trio, Stefano Moliner Quinteto e Sintia Piccin Quarteto. 
Segundo Stefano Moliner, organizador do Underground Jazz Fest, os festivais usam a nomenclatura “jazz”, mas não tocam jazz: “Tem pop, rock, reggae, soul tudo muito maquiado, muito blasé. Mas aquela urgência, aquele improviso, o som indigesto que pega fogo, a criatividade ativa em tempo presente ali na tua cara, não vejo nesses festivais”, polemiza o músico e produtor.
Portanto, o Underground Jazz Fest, desde sua primeira edição, será uma experiência indispensável para quem busca o jazz feito com alma, criatividade viva e total liberdade.

Renato Alves

Renato Alves – É guitarrista e compositor de Marília (SP). O músico apresenta os temas de seu mais recente álbum, Casa Viva. 
O show conta com composições autorais que transitam entre o jazz-fusion, grooves contemporâneos e a riqueza rítmica da música brasileira, criando uma sonoridade moderna e cheia de nuances. 
A guitarra conduz a narrativa musical, sempre abrindo espaço para a improvisação, a interação e o diálogo entre os músicos no palco. 
Além de Renato, a banda é composta por Adauto dias (baixo), Fernando Amaro (bateria) e Gabriel Gaiardo (piano e teclado).

Igor Bollos

Igor Bollos - Para o UJF, enfant terrible da guitarra apresenta pela primeira vez composições autorais que serão executadas com o novo trio formado por Igor Willcox (bateria), Jackson Silva (baixo). 
O show também marca a estreia ao vivo do single Cloud Nine, que está previsto para ser lançado ainda esse mês. Seu trio inclui Igor Willcox (bateria) e Jackson Silva (baixo).

Stefano Moliner

Stefano Moliner – Lança no festival seu terceiro álbum, Codex Ultra Deum, seguindo a trilha evolutiva traçada desde o primeiro trabalho, Miração de 2018, seguido por Apotheosis de 2022.
O trabalho segue a linha de jazz rock ou fusion, como preferir, ainda com referências bastante declaradas ao campeão Hermeto Pascoal, porém, agora assume um caráter ainda mais denso e pesado, flertando até com o heavy metal e texturas e harmonias soturnas de Wayne Shorter e Miles Davis.
Tal gama de influências traz ao Codex Ultra Deum uma digital bastante particular que busca romper bolhas sem tornar-se uma caricatura ou colcha de retalhos. O time de Stefano Moliner é Igor Bollos (guitarra), Rafael Abissamra (bateria) e Cassio Ferreira (saxofone).


Sintia Piccin – Apresenta Freedom of Mind, espetáculo que abraça a liberdade musical e a exploração criativa, estendendo-se ao território do jazz fusion. 
O grupo guia o público numa jornada sonora sinuosa, onde a improvisação e a composição se entrelaçam em um tapete sonoro imprevisível e cativante.
O groove é parte essencial dessa experiência musical, fornecendo uma base sólida para as explorações musicais do saxofone e da flauta de Sintia, combinando os talentos individuais dos sidemen, sempre sob a visão moderna da frontwoman.
No palco, Sintia Piccin (saxofone), Richard Fermino (trompete), Jackson Silva (baixo) e Fernando Amaro (bateria).

Serviço:
Evento: 1º Underground Jazz Fest
Local: Jai Club
Horário: das 15 às 22h
Endereço: Rua Vergueiro, 2676 – Vila Mariana
Ingresso: 1º lote = R$ 30,00; 2º lote = R$ 40,00; 3º lote R$ 50,00.
Vendas:  https://shotgun.live/pt-br/events/undergroundjazz

terça-feira, 2 de junho de 2026

O mundo oculto de Ada Rovatti

Em entrevista exclusiva, a saxofonista italiana radicada em Nova York fala sobre seu álbum mais pessoal, a parceria de 25 anos com Randy Brecker e a relação com a música brasileira


Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Nascida na Itália e radicada em Nova York, a saxofonista e compositora Ada Rovatti consolidou-se como uma das vozes mais autênticas e versáteis do jazz contemporâneo. 
Dona de uma sonoridade robusta no sax tenor e de um ágil fraseado no soprano, Rovatti equilibra o respeito à tradição do bop com fusões estéticas que passam pelo R&B e música instrumental de matriz latina. 
Além do virtuosismo técnico, sua trajetória também é marcada pela inventividade nos arranjos e na liderança de seus próprios conjuntos, características que a colocaram na vanguarda da cena instrumental global.
Sua discografia confirma minha tese. Em Ada Rovatti & Elephunk (2003) escancara sua forte inclinação pelo groove e pela fusão do jazz com elementos do funk e do soul. 
Nos anos seguintes, trabalhos como Under the Hat e Airbop evidenciaram sua sólida ancoragem no hard bop. 
Em Green Factor a saxofonista expande ainda mais sua paleta sonora ao incorporar nuances da música celta e folclórica, mostrando sua busca incessante por texturas raras.
Em lançamentos mais recentes, como Breaker (2019), Rovatti entrega uma obra densa, investindo na força das interpretações. E em The Hidden Side (2024), mergulha em uma faceta intimista e sofisticada, reafirmando seu papel como uma compositora de mão cheia e improvisadora nata.
A busca por novas fronteiras culminou em The Hidden World of Piloo, um trabalho profundamente pessoal, gestado em um período de intensas transformações.
Longe do formato de um registro de jazz convencional, focado estritamente na improvisação, o álbum funciona como o espelho de uma fase de isolamento e autodescoberta durante a pandemia de covid 19. 
Nele, a saxofonista revela um lado vulnerável e sensível, o que de forma alguma significou a perda do controle absoluto sobre o processo de criação, misturando pop e jazz. Eu não paro de ouvir.


Eugênio Martins Jr – Como foi sua infância musical?
Ada Rovatti - Comecei a tocar piano muito cedo, por volta dos quatro anos de idade. Minha avó tocava piano e tanto eu quanto meu irmão tínhamos aulas com ela, então minha primeira linguagem de verdade foi a música. Eu sabia ler partituras antes mesmo de ler palavras.

EM – Sua transição da música clássica para o jazz aconteceu quando você trocou o piano pelo saxofone? Gostaria que você falasse sobre isso.
AR - Toquei piano clássico por uns doze anos, e só no final da adolescência comecei a tocar saxofone. Na Itália, não tínhamos muita música nas escolas. Naquela época, tínhamos coral ou flauta doce no ensino fundamental, história da música no ensino médio e nenhuma educação musical no ensino superior, a menos que você estivesse matriculado em um conservatório. Então, a chance de experimentar um instrumento e ter contato com qualquer tipo de música era muito limitada. E ainda é mais ou menos assim hoje em dia.
Então, sempre me senti privilegiada por ter música na minha família. A mudança foi bastante ditada pela minha curiosidade; meu irmão ouvia R&B e blues e meio que despertou meu interesse por esses gêneros. Na minha adolescência, também ouvia muito rock e rock/pop inglês e ficava intrigada com a ideia de improvisar, a liberdade que isso me proporcionava, e comecei a compor ainda jovem, antes mesmo de tocar saxofone.

EM – Algum artista em particular motivou essa mudança?
AR - Lembro-me de ouvir os Blues Brothers e o álbum Room Full Of Blues e adorava a seção de metais.

EM – Houve uma época em que você dividia sua vida entre estudar nos Estados Unidos e na Itália, seu país. Mas você acabou se mudando para Nova York, a cidade do jazz. Foi uma necessidade profissional? Você sentia que a cena jazzística de Nova York era necessária?
AR - Entre a mudança para Boston e depois para Nova York, morei um ano em Paris. Acho que cada mudança foi ditada pela necessidade de encontrar minha voz e algum espaço e apoio para aprender e praticar essa forma de arte. Na Itália, me sentia muito limitada, havia preconceito de gênero e não havia situações suficientes onde eu pudesse aprender e ser ouvida. A França e, definitivamente, os EUA eram mais abertos e mais receptivos.

Ada Rovatti e Randy Brecker - Bourbon Street Music Club

EM – Foi com Under The Hat que sua parceria com Randy Brecker começou? Vocês já trabalharam juntos em muitos projetos, e muitos deles ganharam prêmios. É uma parceria musical muito prolífica. Gostaria que você falasse sobre isso.
AR - Under The Hat foi a primeira vez que gravei com Randy, mas não foi a primeira vez que toquei com ele. Aliás, talvez você saiba, talvez não, mas sou casada com o Randy há 25 anos!
Não foi minha primeira gravação tocando minhas próprias músicas. Eu tinha feito algumas demos antes, mas não queria a pressão de tocar com ele, então não pedi para participar da minha gravação anterior. Mas quando a oportunidade surgiu, quis ter certeza de que ele estaria no meu primeiro projeto de verdade. Adoro a maneira como ele ouve as coisas - quem não gosta? - e sempre traz algo novo. Ele tem me apoiado muito ao longo do ano e é sempre uma inspiração, tanto musical quanto profissionalmente. Temos um gosto musical muito parecido e, quando tocamos juntos e compartilhamos nossas músicas, definitivamente existe uma busca musical em comum. Depois de tantos anos tocando juntos, desenvolvemos uma ótima sintonia e uma maneira semelhante de pensar sobre fraseado e fusão do nosso som.

EM – Ada, adoro seus álbuns. Mas não entendi algumas coisas. Uma italiana morando em Nova York gravando temas do folk irlandês. Gostaria que você me explicasse o conceito do Green Factor.
AR - Ah! Meu amor pela música celta e irlandesa começou na infância, quando meus pais fizeram uma viagem de um mês para a Irlanda.
Por uma série de circunstâncias que não vou detalhar, acabei na Sardenha, que é uma das grandes ilhas da Itália, em um mosteiro de freiras durante o verão. Com sete anos de idade, você pode pensar que foi uma experiência brutal ou difícil, mas, ao contrário disso, tive uma das experiências mais espirituais e divertidas da minha vida. Quando meus pais voltaram, compraram um LP de um famoso cantor irlandês cantando músicas tradicionais irlandesas, e acho que combinei a experiência e a carga emocional, e isso me acompanhou por todos esses anos. Duas músicas dessa gravação acabaram entrando no meu projeto: Danny Boy e Wild Colonial Boy. A segunda também tem um lugar especial para mim, pois estava em um filme que meus pais adoravam, Depois do Vendaval, dirigido por Ford e estrelado por Maureen O'Hara e John Wayne.
Mal sabia eu que, anos depois, fiz um teste de DNA e descobri que sou 24% irlandesa e escocesa... então, talvez a gaita de foles esteja no meu DNA, afinal! (risos)

EM – Quando nos conhecemos, você tinha acabado de lançar The Hidden World of Piloo. Um álbum de jazz moderno com muitos ritmos e com cantoras muito especiais: Fay Claassen, Alma Naidu e Niki Haris. Gostaria que você falasse sobre essa obra maravilhosa.
AR - Eu queria me apresentar ao público em um formato diferente das minhas gravações anteriores. Piloo é o apelido que meu pai me deu. Era o nome de um gatinho travesso em um livro que eu adorava ler quando criança, e esse apelido ficou comigo todos esses anos... e até deu nome à minha gravadora, a Piloo Records. Meu pai faleceu em setembro de 2021 e dediquei essa gravação a ele.
Comecei a compor algumas das músicas durante a pandemia. Como muitos artistas, a pandemia desencadeou uma gama incrível de emoções, e a criatividade certamente se alimentou delas. 
Então, considero meu projeto um "filho da pandemia". Isso expôs uma parte mais oculta e vulnerável de mim, e decidi expandir meus limites e explorar qualquer talento ou arte que estivesse fora da minha zona de conforto para ver onde isso me levaria. 
Não se trata de uma gravação de jazz clássico onde a improvisação é o ponto central, mas a ideia principal destaca outras facetas da minha personalidade. Desde tocar outros saxofones e flauta, até fazer arranjos para cordas, escrever letras e até mesmo controlar todas as etapas da produção, edição, design do LP/CD, sessão de fotos, maquiagem, e até mesmo as roupas que estou usando na capa são de minha autoria e costura.


EM – A cena do jazz sempre foi dominada por instrumentistas homens, mas há um grande movimento de mulheres assumindo a liderança em bandas com destaque no cenário mundial. Posso citar algumas: Ada Rovatti, Badi Assad, Esperanza Spalding, Nubya Garcia, Yissi Garcia. Gostaria que você falasse sobre isso.
AR - Acho que as mulheres sempre estiveram presentes, mas nunca foram reconhecidas o suficiente, corretamente ou simplesmente receberam o mesmo destaque que os homens. Devido a restrições culturais, fomos minoria por muito tempo, mas nas últimas décadas o número tem crescido exponencialmente e devo dizer que algumas das minhas artistas favoritas e mais inovadoras atualmente são mulheres.

EM – Recentemente, entrevistei a saxofonista israelense Hillai Govreen, que também mora em Nova York e que convidou o Café da Silva para tocar em seu álbum. Qual foi a participação dele no seu álbum? E você também costuma tocar com Marco Bosco, outro percussionista brasileiro. Qual é a sua relação com a música brasileira?
AR - Convidei o Café da Silva para tocar nos meus dois últimos álbuns. Ele é um mestre da percussão, tem uma musicalidade incrível e sabe exatamente como complementar cada música. Marco Bosco teve a oportunidade de tocar ao vivo com ele em São Paulo no ano passado e fiquei totalmente hipnotizada pela sua arte. Entrei em contato com ele para tentar gravar algo e espero que tenhamos a chance de fazer isso em breve. Ouço muita música de diferentes partes do mundo e a música brasileira definitivamente tem um grande impacto na minha maneira de ouvir música, tanto rítmica quanto harmonicamente.

EM – Leo Susi me disse que você fará uma turnê pela China. Ela contará com um trompetista americano, um saxofonista italiano, um baterista e um percussionista brasileiros – uma verdadeira "Nações Unidas da Música". O conceito de World Music faz algum sentido para você?
AR - Claro, a música NÃO tem fronteiras. A música não se importa com cores, religião ou gênero e fala ao coração de todos, com uma linguagem que todos entendem. Nestes tempos conturbados, a música e a arte são como um refúgio seguro.

Backstage Bourbon Street

Com Leo Susi - Camarim do Bourbon Street




quarta-feira, 27 de maio de 2026

Morre Sonny Rollins, o colosso do saxofone, aos 95 anos

 

Sonny Rollins em Viena/2006 - Foto: Jeff Pachoud/AFP via Getty Images

Morreu no dia 25 de maio, véspera de aniversário dos 100 anos de Miles Davis, Sonny Rollins, aos 95.
Nascido em Nova York, Rollins cruzou caminhos com Miles ainda jovem, quando o trompetista de St. Louis já atuava como um arregimentador de prodígios. 
Juntos, compartilharam inúmeras gigs, gravações históricas e a rotina da patota da heroína no Harlem dos anos 1950, um círculo que incluía Dexter Gordon, Tadd Dameron, Art Blakey, JJ Johnson e Jackie McLean. 
Na chamada época de ouro do jazz improvisado e cabeçudo, Sonny Rollins integrou o lendário conjunto de Miles ao lado de McLean, Cannonball Adderley e John Coltrane, fechando o círculo dos derradeiros representantes do jazz pós II Guerra Mundial.
Com Coltrane, manteve uma relação afetuosa, definindo os rumos do instrumento. Lembrando dele, décadas mais tarde, Sonny declarou: "Um ser humano belo, belo".
Rollins ganhou a alcunha de colosso graças ao seu influente álbum Saxophone Colossus, com o qual rompeu as limitações estruturais do jazz, consolidando o hard bop. 
Lançado no concorrido ano de 1956, Saxophone Colossus concorreu com gravações lendárias: Ella and Louis, com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong; Ellington at Newport, de Duke Ellington;  Pithecanthropus Erectus de Charles Mingus; Fontessa do Modern Jazz Quartet e a série Cookin', Relaxin', Workin' e Steamin, do  Miles Davis Quintet, que incluía John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones. 
Ao contrário de muitos de seus contemporâneos que morreram cedo, Sonny alcançou a longevidade, aperfeiçoando sua obra após completar 80 anos. Superou problemas respiratórios com o auxílio da ioga, que o ajudou a manter-se longe dos excessos. Nos últimos anos exibia a modéstia dos sábios: “Continuo vivo porque continuo aprendendo”, confessou em 2016.
Para além da música, Rollins utilizou o saxofone como ferramenta de forte comentário social, político e espiritual. 
Em 1958, lançou a emblemática Freedom Suite, peça instrumental de 20 minutos que ecoava abertamente as dores e as esperanças dos afro-americanos na luta pelos direitos civis. 
Na contracapa do disco, registrou um manifesto sobre a ironia de a cultura negra representar o soft power norte-americano, enquanto seu povo era recompensado com a perseguição e a desumanidade.
Seu sopro também se conectou com o misticismo que descobriu em longos retiros na Índia e no Japão. Quatro dias após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, Rollins também subiu ao palco em Boston para um show gravado ao vivo em homenagem às vítimas. 
Com sua morte, silencia-se o sopro que desenhou a liberdade no século XX, deixando um legado indestrutível na história da música.
Sonny Rollins morreu na segunda-feira, 25 de maio, em sua residência em Woodstock, New York. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

A 100 Miles

 


“Em retrospecto não lembro muita coisa de meus primeiros anos – e jamais gostei de olhar muito pra trás mesmo. Mas uma coisa eu sei: no primeiro ano depois que nasci, um furacão varreu St. Louis e destroçou a cidade. Tenho a impressão de que lembro um pouco disso – uma coisa no fundo da memória. Talvez por isso eu tenha um gênio tão ruim às vezes; aquele furacão deixou em mim alguma coisa de sua violenta criatividade. Talvez tenha deixado um pouco de seus ventos fortes. Sabe, a gente precisa de um sopro forte para tocar trompete. Eu acredito no mistério e no sobrenatural, e um furacão é misterioso e sobrenatural”

Trecho extraído da biografia de Miles Davis

O som
Tutu, de Miles Davis, foi meu primeiro disco de jazz e, além da música que saia dos sulcos do vinil, a capa com sua foto em preto e branco faz parte da minha vida desde então. Esteticamente, tanto quanto as fotos de jazz de William Claxton.  
Lançado em 1986, o álbum marcou a estreia triunfal de Miles Davis na gravadora Warner Bros., após três décadas de uma histórica e desgastada relação com a Columbia Records. 
O projeto, concebido originalmente para ser uma colaboração com o astro pop Prince — que acabou se afastando por incompatibilidade de agendas —, tornou-se o testamento definitivo do jazz dos anos 1980. E mais uma vez Miles mudaria os rumos da música. 
Como disse, o impacto começava na capa: um retrato em close-up de Miles em preto e branco, fotografado por Irving Penn com direção de arte de Eiko Ishioka. A imagem faturou o prêmio Grammy de melhor capa de álbum. 
Musicalmente, a obra dividiu a crítica tradicional, mas capturou uma audiência jovem e global ao abraçar de forma radical a tecnologia da época. Sob a produção cuidadosa e composições do multi-instrumentista Marcus Miller, o disco substituiu a dinâmica de uma banda tradicional em estúdio por sobreposições de texturas sintetizadas. 
O arquiteto por trás dessa paisagem sonora futurista foi o programador de sintetizadores Jason Miles, que ao lado de Adam Holzman, utilizou um arsenal que incluía o PPG Wave 2.3, o E-mu Emulator II e o Yamaha DX7 para esculpir samples e timbres que fugiam do genérico.
Em 2009 conversei com Jason Miles em Rio das Ostras e ele foi enfático em dizer que Davis era um futurista. “Estava sempre à frente. Não se prendia ao que havia feito no passado, ele sempre falava isso quando estávamos juntos. Passamos cinco anos trabalhando e aprendi muito com ele, sobre como encarar a vida, música, comida, ele sacava tudo profundamente”.
Sobre a cama eletrônica de funk, R&B e pop-jazz, a trompete de Miles Davis flutuava com sua icônica surdina, provando que sua expressividade continuava intacta em meio às máquinas. 
O álbum foi batizado em homenagem ao arcebispo sul-africano Desmond Tutu, tornando-se também um manifesto político de resistência contra o regime do Apartheid. Comercial e artisticamente bem sucedido, Tutu rendeu a Miles o Grammy de Melhor Performance de Jazz Instrumental Solo em 1986. 
Os números exatos globais de toda a sua história no catálogo da Warner variam na casa de centenas de milhares de cópias físicas e Tutu consolidou-se em paradas internacionais, alcançando o Top 20 do Reino Unido e é considerado o maior clássico da fase tardia do trompetista.
Conceitualmente, fica evidente que Tutu não foi apenas mais um capítulo na discografia de Miles Davis, mas um acontecimento preciso no tempo, quando os olhos do mundo estavam voltados à urgência humanitária da África do Sul e as engrenagens do racismo global e que o trompetista sempre combateu por toda a vida em seu próprio país.
Artisticamente, ao cruzar a sofisticação tecnológica, o álbum Tutu consolidou a transição iniciada na virada dos anos 1980 com a série The Man With the Horn (1981), We Want Miles (1982), Star People (1983), Decoy (1984) e You’re Under Arrest (1985), eternizando-se como um manifesto político e estético. 

A fúria
Mesmo com a consciência sobre a situação racial na África do Sul e por trás da genialidade revolucionária que redefiniu a arte moderna, no coração de Miles Davis habitava uma personalidade complexa e frequentemente destrutiva. 
Sua vida pessoal foi marcada por uma dualidade brutal, onde a beleza de sua música contrastava com seu comportamento errático. 
O envolvimento profundo com a heroína na juventude, e mais tarde com a cocaína e o álcool, potencializou um temperamento que oscilava entre o isolamento paranóico e a agressividade explícita. Nos últimos meses de sua vida Miles Davis levava uma arma onde quer que fosse.
Mesmo diante do abismo das drogas que tragou alguns dos gênios do jazz; Charlie Parker, John Coltrane, Chet Baker e tantos outros, Miles Davis revelou um instinto de sobrevivência e uma visão de negócios únicos. 
Enquanto a dependência química desmantelou a capacidade funcional de Charlie Parker, que vivia em um caos administrativo crônico que o levou a penhorar o próprio instrumento, Miles conseguia controlar sua fúria em detrimento da disciplina exigida nos palcos. Antes de sua guinada espiritual, o vício também paralisou John Coltrane até sua demissão do lendário grupo de Miles nos anos 50.
Por fim, Chet Baker, que se tornou um nômade, uma sombra de si mesmo, até morrer quase esquecido de forma trágica ao cair de uma janela, tendo o crânio esfacelado pela queda. 
Miles, contudo, teve a autoconsciência de parar com a heroína em 1953, trancando-se no quarto da fazenda de seu pai, limpando o sangue do opióide por pura força de vontade. Mesmo quando enfrentou recaídas com outras substâncias ao longo das décadas seguintes, ele jamais abriu mão de sua postura de CEO do jazz.
Suas relações afetivas carregavam o peso da misoginia, documentada pelo próprio músico em sua autobiografia; casamentos e namoros foram sufocados pelo ciúme patológico e por episódios de violência doméstica. 
No entanto, essa mesma fúria interna alimentava uma postura combativa intransigente contra a opressão social. Em uma América segregada, Miles recusava-se a adotar a postura subserviente que a indústria fonográfica, geralmente dominada por brancos, esperava dos artistas negros. Sempre exigiu ser tratado como um gênio da música contemporânea, renegando o rótulo de entertainer. 
Sua postura altiva nas entrevistas e aparições ao vivo, o figurino impecável de alta costura e a recusa em sorrir para plateias condescendentes eram atos políticos de afirmação. 
Nem mesmo a violência policial, como a infame agressão que sofreu em frente ao Birdland em 1959 amansou sua índole. 
Miles Davis personificou o paradoxo do artista extraordinário cuja raiva, embora destrutiva na esfera íntima, foi o combustível necessário para confrontar o racismo estrutural de sua época e cravar seu nome na eternidade como um dos maiores artistas do século XX.

O legado
Ao celebrar o centenário de nascimento de Miles Davis, fica evidente que sua antecipação à fusão do trompete com as inovações tecnológicas deixou um mapa genético que se tornou a fundação da música urbana no século 21. 
Esse marco de 100 anos não serve apenas para exaltar o passado, mas celebrar a passagem por esse mundo do grande visionário que foi o músico Miles Davis e seu flerte com as máquinas, abrindo caminhos para que o hip-hop e a música eletrônica redescobrissem o jazz como matéria-prima. 
Sua visão futurista ecoou no acid jazz do Us3 e no projeto Jazzmatazz do rapper Guru nos anos 1990, estendendo-se até a revolução contemporânea de DJs e artistas como Robert Glasper, que confundem as fronteiras entre o acústico, o digital e o neo-soul. 
O verdadeiro legado do gênio do trompete, reforçado neste centenário está na coragem de usar a tecnologia para desafiar os puristas de sua época. 
Ao provar que a expressividade humana se mantém intacta mesmo em meio aos sintetizadores e samplers, Miles Davis chega aos 100 anos ainda apontando para o futuro, como o arquiteto definitivo do som do nosso tempo.