Hillai Govreen e Arthur Scarpini no Jazzb
Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior
Se você trabalha a semana inteira e descansa no domingo agradeça a tradição judaica do Shabat, o sétimo dia da semana, o dia da consagração, o descanso de Deus após a criação.
Sim, o costume de parar as atividades para focar na família, na espiritualidade e no lazer, ouvir música por exemplo, foi adaptado pelo cristianismo para o domingo e posteriormente estruturado no conceito moderno do "fim de semana" de dois dias. Aqui no Brasil, folga de dois dias é só para quem pode, né?
Sobre Israel estamos muito acostumados a falar sobre a política, sobre religião, sobre os problemas regionais e territoriais, mas pouco sobre a cultura do país.
Brincadeiras sérias à parte, há tempos tenho acompanhado os sons que vêm do oriente e percebido uma cena musical vibrante em Israel, país com quase dez milhões de habitantes.
Cercado pela milenar e maravilhosa música Árabe e às vezes recebendo sua influência, Israel tem oferecido ao mundo grandes músicos, entre eles, Omer Avital (contrabaixo), Itamar Borochov (trompetista, filho de Yisrael Borochov), Hadar Niberg (flautista), Ester Rada (cantora), Avishai Cohen (contrabaixo) e os conjuntos Shai Maestro Trio, LayerZ. Todos já visitaram o Brasil em diferentes edições do extinto festival Jazz na Fábrica, promovido pelo Sesc Pompéia.
A clarinetista e saxofonista Hillai Govreen é a nova estrela dessa diversa constelação musical.
Radicada nos Estados Unidos, onde dá os primeiros passos no mundo do jazz, acaba de lançar Every Other Now, álbum com nove faixas e muitas participações, entre elas a do percussionista Café da Silva, nas faixas 3, 4 e 8.
É um álbum classudo, de jazz tradicional e, como já disse, muitas participações: o excepcional Steve Cardenas (guitarra), Noah Stoneman (piano e rhodes), Ben Meigners (contrabaixo), Eden Ladin (piano e sinth), Eric McPherson e Willian West (bateria) e café da Silva.
Em uma quinta-feira, subi a serra para bater um papo com Hillai antes de seu show no Jazzb que contou com Arthur Scarpini (guitarra), Jonatas Sansão (bateria), Daniel Grajew (teclados) e Ben Meigners.
Espero que curtam a conversa. E enquanto a folga de dois dias não chega, vamos tocando a vida e ouvindo boa música aqui no brasa. Shalon!
Eugênio Martins Júnior - Como foi sua infância musical?
Hillai Govreen – Comecei tocando piano aos seis anos em Israel. Também tocava ukelelê em uma orquestra para crianças. Mais tarde passei para o clarinete, mas sempre no campo da música clássica. Meu pai tocava muita música. Ele ama a música brasileira que é muito popular em Israel. Muitos artistas são influenciados, como Matt Caspi, por exemplo, que fez versões para músicas de Chico Buaqrque.
EM – Há outros músicos na tua família?
HG – Sim, meu irmão toca guitarra, meu primo contrabaixo e meu pai e autodidata. Ele toca flauta e guitarra, mas não é profissional.
EM - E como foi a transição do piano para os sopros? E do clássico para o jazz?
HG – Você sabe, meu professor de piano dizia que o piano era como se fosse o Deus dos instrumentos e que os sopros eram mais fáceis de tocar. Mas não é verdade. São dificuldades diferentes. Os sopros são parecidos com cantores. Você tem muitas opções, tenor, alto, soprano, etc.
EM – A cena jazzística é muito forte em Israel. Possui grandes nomes, como Omer Avital, Avishai e Anat Cohen, Ester Rada e muitos outros. Que inclusive já tocaram aqui em São Paulo. Gostaria que falasse sobre essa cena.
HG – Apesar de um país pequeno há muitos músicos e todos se conhecem e exercem influência mútua. As pessoas cresceram juntas e têm motivação em tocar. Há um músico que exerceu uma grande influência que foi Amit Golan. Ele veio para New York e tocou com muitos músicos e voltou a Israel para abrir uma escola e ensinar. Foi um movimento muito importante. E não era apenas um professor, ele convidava os alunos para ouvir música. E isso faz uma grande diferença.
EM – A troca de experiência?
HG – Sim. Porque acho que isso é que é importante. Você pode sentar e ensinar alguém e essa pessoa irá aprender. Mas quando você coloca um disco e há a troca de ideias sobre o que estão ouvindo é diferente. É um momento especial quando você é jovem.
EM - Mesmo essa cena sendo forte, você sentiu a necessidade de ir para Nova York a grande cidade do jazz nos Estados Unidos. Como aconteceu isso?
HG – Lá há músicos de todo o mundo, América do Sul, Europa, África, Nova Zelândia. E quando se juntam o resultado é sempre interessante, porque apesar de culturas diferentes produzem uma música universal. Há muitos músicos brasileiros em New York.
EM - Costumo dizer que mesmo a música instrumental não possuindo letras, ela também conta uma história. Qual é a história contada por Every Other Now?
HG - Acho que esse trabalho contém muita memória. Comecei a escrever as músicas quando a guerra começou, em 7 de outubro de 2023. Eu já estava em New York e foi muito duro saber que dois amigos do ensino médio morreram naqueles ataques. O tema The Day After é dedicado a um deles. E esse álbum também é uma cooperação com os integrantes da banda, porque tocamos muito juntos. Tocávamos todas as noites no meu estúdio sem parar, coletando material para o disco e chamando mais pessoas para se juntar a nós.
EM - É um disco onde os outros instrumentos também brilham, principalmente o piano e a guitarra. Gostaria que você falasse sobre isso.
HG – O guitarrista Steve Cardenas foi meu professor na escola de música. É um músico brilhante, tocava com Charlie Haden. Usamos uma de suas composições, Lost and Found. Seu jeito de tocar é minimalista, só usa as notas necessárias. Noah, o pianista, veio da Inglaterra. Toca muito, mas sem interferir. Tentamos muitas combinações e chegamos a essa conclusão a qual um complementa o outro. Às vezes com o Noah saindo da harmonia e depois voltando. E Steve tem um som lindo, muito melódico.
Ben Meigners e Jonatas Sansão
EM – Sei que é sua primeira vez no Brasil. Mas você disse que ouvia música brasileira desde criança, pode falar sobre isso?
HG – Sou apaixonada pela música brasileira. Tenho conhecido pessoas que têm me apresentado muitos discos. Gosto do conjunto, melodia, harmonia, ritmo. Os músicos estão abertos à improvisação e à conversação. O Café da Silva, um grande músico que tocou com Djavan e Stevie Wonder, tocou percussão no meu álbum. Quando estou em New York costumo tocar com ele no Central Park. Lá os músicos brasileiros sempre são muito bem-vindos. Conhecem tudo de música.
EM – Sim, temos uma tradição percussiva muito forte. Exportamos percussionistas para o mundo. Em todos os nossos gêneros musicais damos importância ao ritmo. Falando nisso, achei que The Day After, que tem a participação do Café, termina como um samba. Mas depois que você me falou sobre a inspiração que a levou a compor essa música mudei de ideia.
HG – (Hillai ri, solfeja a música junto comigo e... discorda). É um 5X4. Conheci o baterista que toca nessa música em New Orleans. E o Café foi impressionante. Ele apareceu no estúdio, ouviu uma vez e tocou. Ele é muito rápido, muito profissional. Ele me ensina bastante falando sobre os ritmos.
EM - Você é uma imigrante nos Estados Unidos, como se sente com relação à política de imigração de Donald Trump?
HG – É um grande problema. Horrível o que está acontecendo. Para mim, Bibi (Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel), Trump, Putin são pessoas do mal. Temos amigos venezuelanos que não podem mais ficar nos Estados Unidos. O processo de concessão de vistos foi dificultado para que as pessoas sejam deportadas. É horrível e não sabemos o que fazer a respeito.
EM - Como se deu essa parceria com os músicos brasileiros para que essa turnê acontecesse?
HG – Conheci o Thiago Alves na Suíça há cinco anos e mantivemos contato esse tempo. Conversa vai, conversa vem acertamos alguns shows. Fui recebida aqui pela cantora Stephanie Borgani. São grandes músicos e têm me dado o suporte e me mostrado muitas coisas. Após um show fomos ao Bar do Julinho onde ouvi uma roda de choro. Uma música fascinante. Depois de São Paulo vou para o Rio de Janeiro.

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