sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Hillai Govreen é a nova estrela na constelação de jazzistas de Israel

 

Hillai Govreen e Arthur Scarpini no Jazzb

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Se você trabalha a semana inteira e descansa no domingo agradeça a tradição judaica do Shabat, o sétimo dia da semana, o dia da consagração, o descanso de Deus após a criação. 
Sim, o costume de parar as atividades para focar na família, na espiritualidade e no lazer, ouvir música por exemplo, foi adaptado pelo cristianismo para o domingo e posteriormente estruturado no conceito moderno do "fim de semana" de dois dias. Aqui no Brasil, folga de dois dias é só para quem pode, né? 
Sobre Israel estamos muito acostumados a falar sobre a política, sobre religião, sobre os problemas regionais e territoriais, mas pouco sobre a cultura do país. 
Brincadeiras sérias à parte, há tempos tenho acompanhado os sons que vêm do oriente e percebido uma cena musical vibrante em Israel, país com quase dez milhões de habitantes. 
Cercado pela milenar e maravilhosa música Árabe e às vezes recebendo sua influência, Israel tem oferecido ao mundo grandes músicos, entre eles, Omer Avital (contrabaixo), Itamar Borochov (trompetista, filho de Yisrael Borochov), Hadar Niberg (flautista), Ester Rada (cantora), Avishai Cohen (contrabaixo) e os conjuntos Shai Maestro Trio, LayerZ. Todos já visitaram o Brasil em diferentes edições do extinto festival Jazz na Fábrica, promovido pelo Sesc Pompéia.
A clarinetista e saxofonista Hillai Govreen é a nova estrela dessa diversa constelação musical. 
Radicada nos Estados Unidos, onde dá os primeiros passos no mundo do jazz, acaba de lançar Every Other Now, álbum com nove faixas e muitas participações, entre elas a do percussionista Café da Silva, nas faixas 3, 4 e 8.
É um álbum classudo, de jazz tradicional e, como já disse, muitas participações: o excepcional Steve Cardenas (guitarra), Noah Stoneman (piano e rhodes), Ben Meigners (contrabaixo), Eden Ladin (piano e sinth), Eric McPherson e Willian West (bateria) e café da Silva.   
Em uma quinta-feira, subi a serra para bater um papo com Hillai antes de seu show no Jazzb que contou com Arthur Scarpini (guitarra), Jonatas Sansão (bateria), Daniel Grajew (teclados) e Ben Meigners.
Espero que curtam a conversa. E enquanto a folga de dois dias não chega, vamos tocando a vida e ouvindo boa música aqui no brasa. Shalon! 


Eugênio Martins Júnior - Como foi sua infância musical?
Hillai Govreen – Comecei tocando piano aos seis anos em Israel. Também tocava ukelelê em uma orquestra para crianças. Mais tarde passei para o clarinete, mas sempre no campo da música clássica. Meu pai tocava muita música. Ele ama a música brasileira que é muito popular em Israel. Muitos artistas são influenciados, como Matt Caspi, por exemplo, que fez versões para músicas de Chico Buaqrque.

EM – Há outros músicos na tua família?
HG – Sim, meu irmão toca guitarra, meu primo contrabaixo e meu pai e autodidata. Ele toca flauta e guitarra, mas não é profissional. 

EM - E como foi a transição do piano para os sopros? E do clássico para o jazz?
HG – Você sabe, meu professor de piano dizia que o piano era como se fosse o Deus dos instrumentos e que os sopros eram mais fáceis de tocar. Mas não é verdade. São dificuldades diferentes. Os sopros são parecidos com cantores. Você tem muitas opções, tenor, alto, soprano, etc.

EM – A cena jazzística é muito forte em Israel. Possui grandes nomes, como Omer Avital, Avishai e Anat Cohen, Ester Rada e muitos outros. Que inclusive já tocaram aqui em São Paulo. Gostaria que falasse sobre essa cena.
HG – Apesar de um país pequeno há muitos músicos e todos se conhecem e exercem influência mútua. As pessoas cresceram juntas e têm motivação em tocar. Há um músico que exerceu uma grande influência que foi Amit Golan. Ele veio para New York e tocou com muitos músicos e voltou a Israel para abrir uma escola e ensinar. Foi um movimento muito importante. E não era apenas um professor, ele convidava os alunos para ouvir música. E isso faz uma grande diferença.


EM – A troca de experiência?
HG – Sim. Porque acho que isso é que é importante. Você pode sentar e ensinar alguém e essa pessoa irá aprender. Mas quando você coloca um disco e há a troca de ideias sobre o que estão ouvindo é diferente. É um momento especial quando você é jovem.   

EM - Mesmo essa cena sendo forte, você sentiu a necessidade de ir para Nova York a grande cidade do jazz nos Estados Unidos. Como aconteceu isso?
HG – Lá há músicos de todo o mundo, América do Sul, Europa, África, Nova Zelândia. E quando se juntam o resultado é sempre interessante, porque apesar de culturas diferentes produzem uma música universal. Há muitos músicos brasileiros em New York. 

EM - Costumo dizer que mesmo a música instrumental não possuindo letras, ela também conta uma história. Qual é a história contada por Every Other Now?
HG - Acho que esse trabalho contém muita memória. Comecei a escrever as músicas quando a guerra começou, em 7 de outubro de 2023. Eu já estava em New York e foi muito duro saber que dois amigos do ensino médio morreram naqueles ataques. O tema The Day After é dedicado a um deles. E esse álbum também é uma cooperação com os integrantes da banda, porque tocamos muito juntos. Tocávamos todas as noites no meu estúdio sem parar, coletando material para o disco e chamando mais pessoas para se juntar a nós.

EM - É um disco onde os outros instrumentos também brilham, principalmente o piano e a guitarra. Gostaria que você falasse sobre isso.
HG – O guitarrista Steve Cardenas foi meu professor na escola de música. É um músico brilhante, tocava com Charlie Haden. Usamos uma de suas composições, Lost and Found. Seu jeito de tocar é minimalista, só usa as notas necessárias. Noah, o pianista, veio da Inglaterra. Toca muito, mas sem interferir. Tentamos muitas combinações e chegamos a essa conclusão a qual um complementa o outro. Às vezes com o Noah saindo da harmonia e depois voltando. E Steve tem um som lindo, muito melódico. 

Ben Meigners e Jonatas Sansão

EM – Sei que é sua primeira vez no Brasil. Mas você disse que ouvia música brasileira desde criança, pode falar sobre isso? 
HG – Sou apaixonada pela música brasileira. Tenho conhecido pessoas que têm me apresentado muitos discos. Gosto do conjunto, melodia, harmonia, ritmo. Os músicos estão abertos à improvisação e à conversação. O Café da Silva, um grande músico que tocou com Djavan e Stevie Wonder, tocou percussão no meu álbum. Quando estou em New York costumo tocar com ele no Central Park. Lá os músicos brasileiros sempre são muito bem-vindos. Conhecem tudo de música.

EM – Sim, temos uma tradição percussiva muito forte. Exportamos percussionistas para o mundo. Em todos os nossos gêneros musicais damos importância ao ritmo. Falando nisso, achei que The Day After, que tem a participação do Café, termina como um samba. Mas depois que você me falou sobre a inspiração que a levou a compor essa música mudei de ideia. 
HG – (Hillai ri, solfeja a música junto comigo e... discorda). É um 5X4. Conheci o baterista que toca nessa música em New Orleans. E o Café foi impressionante. Ele apareceu no estúdio, ouviu uma vez e tocou. Ele é muito rápido, muito profissional. Ele me ensina bastante falando sobre os ritmos. 

EM - Você é uma imigrante nos Estados Unidos, como se sente com relação à política de imigração de Donald Trump?
HG – É um grande problema. Horrível o que está acontecendo. Para mim, Bibi (Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel), Trump, Putin são pessoas do mal. Temos amigos venezuelanos que não podem mais ficar nos Estados Unidos. O processo de concessão de vistos foi dificultado para que as pessoas sejam deportadas. É horrível e não sabemos o que fazer a respeito.    

EM - Como se deu essa parceria com os músicos brasileiros para que essa turnê acontecesse?
HG – Conheci o Thiago Alves na Suíça há cinco anos e mantivemos contato esse tempo. Conversa vai, conversa vem acertamos alguns shows. Fui recebida aqui pela cantora Stephanie Borgani. São grandes músicos e têm me dado o suporte e me mostrado muitas coisas. Após um show fomos ao Bar do Julinho onde ouvi uma roda de choro. Uma música fascinante. Depois de São Paulo vou para o Rio de Janeiro.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

The Adicts volta ao Brasil em turnê definitiva

 

Foto: Flávio Santiago

A banda punk The Adicts, fundada nos anos 70 e cuja estética é inspirada no filme Laranja Mecânica, traz a São Paulo, no dia 18 de março, a Adios Amigos Tour. O show acontece no Carioca Club, coroando quase cinco décadas de carreira.  
The Adicts é mundialmente conhecida pelo visual droog, em alusão à forma como se vestiam os colegas do carismático sociopata Alex (Malcolm McDowell) no filme Laranja Mecânica.
Assim como a estética, a sonoridade do grupo inglês causou impacto na indústria fonográfica ao longo de décadas, seja pelo vigor do punk rock cultuado desde os primórdios, seja pelos experimentalismos nos anos 80. Sem nunca abandonar o som visceral. 
As últimas passagens do The Adicts pelo país aconteceram em 2016 e 2019, em ambas as ocasiões com shows lotados em apresentações vibrantes com o público cantando, suando, gritando e pogueando em cada música.
O The Adicts tem à frente o carismático vocalista Keith Monkey Warren, um showman que atravessou décadas prestando serviço ao punk rock. Suas performances são entretenimento garantido, com muito confete, glitter e serpentina.
De volta à capital paulistana em 2026, The Adicts promete uma festa, com hits de todas as décadas, como Viva la Revolution, Bad Boy, Falling in Love Again, Chinese Takeaway, Johnny Was A Soldier, Easy Way Out, Numbers, Songs Of Praise, Steamroller e muitas outras.

Serviço:
Show: The Adicts
Data: 18 de março de 2026 (quarta-feira)
Horário: 19h (abertura da casa)
Local: Carioca Club
Endereço: Rua Cardeal Arcoverde, 2899, Pinheiros - São Paulo/SP

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Ainda por complicações causadas pela Covid 19, morreu Dave Riley, cantor e guitarrista de de blues

 


Parceria certeira: Dave Riley e Bob Corritone

Recebi ontem um e-mail do amigo Bob Corritone, gaitista de Chicago, sobre a morte de seu grande parceiro, o guitarrista e cantor Dave Riley.
O som de Riley remete às mais profundas raízes do blues de seu estado, o Mississippi.  
Bob ressalta isso em sua mensagem e lembra a parceria prolífica que rendeu muitas gravações em inúmeros discos. 
Dave Riley nasceu em 19 de março de 1949 e morreu em 04 de janeiro de 2026 por complicações causadas pela Covid 19. Segue a mensagem:

“É com tristeza que informo o falecimento do meu amigo e parceiro de longa data no blues, Dave Riley. Nascido e criado em Hattiesburg, Mississippi.
O blues autêntico de Dave Riley refletia suas raízes nos bares de blues do Delta. Ele ficou conhecido no mundo do blues por seu trabalho com Frank Frost, Sam Carr, John Weston e Fred James. 
Dave tinha uma personalidade marcante e sempre incentivava seu público a se divertir muito. Nos conhecemos no King Biscuit Blues Festival de 2004, por intermédio de Tom Coulson. 
Dave morava na região de Chicago e tinha família em Phoenix, que visitava com frequência. Começamos a trabalhar juntos em 2005 e imediatamente percebemos a grande afinidade estilística entre nós. Isso nos levou a gravar o primeiro de nossos três álbuns, o que nos rendeu shows, apresentações em festivais e turnês internacionais. Tantos shows incríveis e aventuras fantásticas!
Mas quando a pandemia chegou, em 2020, Dave contraiu Covid e sofreu um AVC grave que o deixou impossibilitado de tocar ou cantar. A saúde dele foi se deteriorando gradualmente e, nos últimos meses, Dave estava entrando e saindo do hospital. Recebi a notícia do falecimento de Dave por meio de seu filho, Yahni, ontem à tarde. Dave fará muita falta. Tantas lembranças lindas. Tantas apresentações incríveis de blues. Descanse em paz, querido Dave”.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

PIL, a banda do encrenqueiro Johnny Rotten, toca em São Paulo em abril

 


Foi uma espera de 34 anos, mas Public Image Limited (PIL), banda do John Lydon (Johnny Rotten) pós Sesx Pistols, pisa no brasa em abril de 2026 para show único. A apresentação acontece no dia 08 de abril de 2026, no Terra.
O PIL é aclamado como uma das bandas mais criativas e viscerais do pós punk, por colocar rock, dub, dance, folk e pop, tudo no mesmo balaio.
A música e visão da banda renderam cinco singles no Top 20 do Reino Unido e 5 álbuns no Top 20. O álbum Metal Box, de 1979, por exemplo, é considerado um marco do pós-punk, que esticou os limites do rock, levando-o a territórios mais ambiciosos.
O show no Brasil em 2026 faz parte da This Is Not The Last Tour (“Esta Não é a Última Turnê”), que começou em maio de 2025 em Bristol, Reino Unido, e já passou por importantes festivais como o Forever Now Festival, Rebellion Festival e o Putting the Fast in Belfast.
A extensa turnê acontece após Lydon acreditar que a banda não voltaria mais a excursionar. Seu amigo de longa data e empresário, John Rambo Stevens, faleceu repentinamente após a última turnê do PiL, em dezembro de 2023, pouco depois da morte da esposa de Lydon, Nora, em abril de 2023. Naquele momento, Lydon achou que seus dias de turnê haviam terminado.
No entanto, ele ficou impressionado com o apoio dos fãs durante sua turnê de Spoken Word pelo Reino Unido, realizada na primavera deste ano. À época, Lydon disse: "O que aconteceu é que as pessoas foram incrivelmente positivas, e me pediram para excursionar com o PiL novamente. Com tanta gente pedindo, e sabendo o quanto a banda significa para eles, eu não podia simplesmente ficar no meu sofá sem sair em turnê — por mais tentador que isso fosse.”
Após liderar os Sex Pistols, John Lydon formou os pioneiros do pós-punk Public Image Ltd (PiL). Com uma formação em constante mudança e um som único, Lydon guiou a banda desde o álbum de estreia “First Issue” (1978) até “That What Is Not” (1992), antes de um hiato de 17 anos e no retorno em 2009.
A reunião de 2009 mostrou que o PiL não era apenas um projeto de juventude, mas uma banda com vida longa, capaz de reinventar-se e manter relevância. Para muitos críticos, essa volta deu a Lydon a chance de reafirmar sua faceta mais criativa, muito além do legado dos Sex Pistols.
O álbum mais recente do Public Image Ltd (PiL) é End of World, lançado em agosto de 2023. A Pitchfork destacou que a voz de Lydon continua “cativante e, ocasionalmente, surpreendentemente comovente”.
Além de John Lydon nos vocais, o PiL de hoje é Lu Edmonds (conhecido como guitarrista do The Damned no fim dos anos 1970 - guitarra, teclados, backing vocals e outros instrumentos como sax, banjo), Scott Firth (baixo, teclados, backing vocals) e Mark Roberts (bateria desde 2025).
Vale mencionar que o próprio Lydon desenhou a nova versão do logo do PiL para o merchandising da atual turnê. Ele falou que simboliza um novo começo para a banda. Mas a antiga é mais legal.

Serviço:
Show: Public Image LTD em São Paulo
Data: 8 de abril de 2026
Local: Terra SP (Av. Salim Antônio Curiati 160, São Paulo, SP)
Ingresso: https://fastix.com.br/events/public-image-ltd-em-sao-paulo

domingo, 5 de outubro de 2025

Fantazmaz chega ao Brasil em outubro em cinco shows

 O punk ácido, feroz e rápido da Fantazmaz, banda com raízes brasileiras baseada em Londres, chega ao Brasil em outubro em cinco shows.


O primeiro será no dia 17 de outubro em São Paulo, no Bay Area na capital e 18 no Maali, em Campinas; no dia 19 no festival Lucky Friends Rodeo, em Sorocaba; de volta a São Paulo, dia 23/10 no La Iglesia; encerrando, dia 25 na Cervejaria Tarantino, também em São Paulo.
Mas o primeiro compromisso da Fantazmaz no brasa é dia 15 de outubro na loja London Calling, na Galeria do Rock (São Paulo/SP). Será um encontro com os fãs e a banda venderá merchandising neste dia, como o vinil Fantazmaz, o álbum de estreia.
"Estamos super empolgados pra voltar pra casa com os Fantazmaz, depois de tantos anos fora, e ainda levar nosso batera gringo: o Jamie (ex-UK Subs e SNFU) vai com a gente, o que vai deixar a tour ainda mais especial", conta Thamila.
Ela conta que desde que começaram a anunciar a turnê, já receberam muitas mensagens de antigos e novos fãs. "Também recebemos várias mensagens de fãs da nossa banda antiga, o Vilania, dizendo que vão colar nos shows. A gente tinha uma fanbase bem fiel".
Os shows do Fantazmaz, revela Thamila, são rápidos. "A gente até brinca antes de subir no palco: “bora, show Zeke, né?” Que significa: rapidão, altíssimo e non stop! A gente adora tocar uma música atrás da outra e suar muito".
Fantazmaz, o disco, foi gravado no Monolith Studio, na Zona Norte de Londres, conhecido por gravar bandas de metal e HC. Nas plataformas digitais, o álbum saiu via Repetente Records, selo de dois músicos do CPM 22, Badauí e Phil Fargnoli junto ao diretor artístico Rick Lion.
“A chance de sairmos desse caos global é mínima e, pra ser sincera, a gente nem se importa mais em explicar o porquê. Tá tudo aí, escancarado. Esse é o sentimento. Escuta o álbum", comenta a vocalista Thamila Zenthöfer.

Os ingressos estão à venda pelo link: https://linktr.ee/fantazmaz

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Saiu a programação 2025 do Sesc Jazz com mais de 27 atrações basileiras e estrangeiras

 Os shows acontecem em nove unidades do Sesc no estado de São Paulo: Pompeia, 14 Bis, Franca, São José dos Campos, Rio Preto, Centros de Música do Sesc Consolação, Guarulhos, Vila Mariana e Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, entre 14 de outubro e 02 de novembro

O ícone Dom Salvador faz parceria com Amaro Freitas (foto: Daniel Franco)

O Sesc Jazz é um festival cuja proposta é surpreender pela sua curadoria. Desde que era chamado de Jazz na Fábrica o festival de jazz do Sesc primou pela diversidade musical dando espaço para artistas pouco conhecidos por aqui.
Além de unidades da capital, a edição de 2025, a 6ª desde que se tornou o Sesc Jazz, vai incluir várias unidades do iterior, apresentando artistas do Brasil e do mundo, valorizando encontros, preservando legados, mas também muita inocvação.
Para além dos espetáculos, o Sesc Jazz oferece uma experiência expandida com ações formativas que aproximam artistas brasileiros e internacionais, acadêmicos e jornalistas do meio ao público em geral. Estão previstas oficinas teóricas e práticas de composição, canto e percussão, cursos, masterclasses, aulas-show, conversas, workshops e audições comentadas que pretendem estreitar o intercâmbio de conhecimentos e culturas entre todos os participantes.
O conceito de Sul Global, que permeia a curadoria do festival, valoriza o protagonismo de artistas da América Latina, África e diáspora africana, ratificando o jazz como uma tecnologia de resistência e contracultura frente à herança colonial. Essa perspectiva, firmada nas últimas edições, é o eixo que orienta as discussões e os encontros artísticos do evento, que também aumentou a participação de mulheres, não só intérpretes, mas também musicistas, compositoras, bandleaders, mediadoras e profissionais de backstage no festival.
Para o diretor do Sesc São Paulo, Luiz Deoclecio Massaro Galina, “o Sesc Jazz reafirma seu compromisso com a diversidade, a inovação e a valorização do jazz como linguagem viva, plural e afrodiaspórica".

Amaro Freitas (foto: Micael Hocher)

O festival oferece uma safra de apresentações brasileiras inéditas, entre elas, o encontro histórico de gerações entre os pianistas Amaro Freitas e Dom Salvador, que transformaram o jazz brasileiro em épocas diferentes. Pioneiro do samba-jazz, Dom Salvador se une ao pianista pernambucano reconhecido internacionalmente, com show e bate-papo com o público. 
Evinha, ex-integrante do Trio Esperança, radicada há mais de 40 anos na França e redescoberta por jovens ouvintes via samples de BK e Alok, faz show especial com Marcos Valle, revisitando as canções que ele escreveu para ela no final dos anos 1960 e início dos 1970, consolidando um diálogo artístico e afetivo que atravessa seis décadas. 
Indiana Nomma, Rosa Marya Colin e Eliana Pittman fazem uma homenagem à diva do samba-jazz Leny Andrade (1943–2023), enquanto os mestres do frevo de Olinda Carlos Rodrigues, Lúcio Henrique, Oséas Leão e Maestrina Lourdinha Nobrega se reúnem no show Abafo, Coqueito e Ventania para mostrar a riqueza rítmica do ritmo ao universo da improvisação com arranjos preparados exclusivamente para o Sesc Jazz.
Criado pelo percussionista e ogã Luizinho do Jêje, o grupo baiano Aguidavi do Jêje é outro destaque brasileiro, preservando a tradição oral e percussiva em saudação a ancestrais, pretos-velhos, juremeiros, orixás, voduns e sambadeiras, além de Virgínia Rodrigues revisitando seu disco de estreia, Sol Negro, lançado em 1997 e que a projetou internacionalmente, e Luedji Luna, com participação de Alaíde Costa, na turnê de seu recente projeto duplo Um mar pra cada um, Antes que a terra acabe.
Outro encontro, este de intercâmbio internacional, será apresentado pelo grupo Diáspora Lyannaj, resultado artístico do projeto Résidence Croisée França-Brasil, este ano formado pelos brasileiros Fábio Leandro, pianista, compositor e arranjador e pela contrabaixista Vanessa Ferreira em integração com os franceses Boris Reine-Adélaïde (percussionista, especialista no tambor Bèlè da Martinica), e o saxofonista Samy Thiebault. “Lyannaj”, palavra do criolo antilhano, significa “aliança”, “elo”, “união”.

Acesso gratuito - Parte da programação de shows será em um palco externo e gratuito, na área do deck do Sesc Pompeia. Nele acontecerão, aos domingos, os shows do grupo paulistano Aláfia em uma homenagem ao grupo Parliament, coletivo que marcou a música negra estadunidense nos anos 1970, o projeto Coisas supremas: Conexão entre Coisas e A Love Supreme, com Allan Abbadia, um tributo às obras de Moacir Santos e John Coltrane e  o Trio Mocotó tocando o clássico Força Bruta (Jorge Ben), com a participação especial de Ellen Oléria. O grupo, pioneiro na fusão entre samba e soul, também participa de uma audição comentada com o público para contar sobre os bastidores e o legado do disco, gravado por eles em 1970.

Moonlight Benjamin 

O mundo no Sesc Jazz - A América Central está representada pela haitiana Moonlight Benjamin, cantora e sacerdotisa que mistura os ritmos cerimoniais do vodu haitiano com blues, rock psicodélico e guitarras elétricas, criando um som potente e espiritual, e pela cantora e pianista cubana Aymée Nuviola,  que apresenta um mergulho no filin, no bolero e na tradição noturna de Havana das décadas de 1950 e 1960.
Da América Latina, o festival recebe artistas que traduzem a riqueza e a pluralidade do jazz contemporâneo em diálogo com suas raízes afro-indígenas. A colombiana Lido Pimienta, indicada ao Grammy Latino e ao Grammy Awards, combina synthpop e música eletrônica com influências tradicionais afro-colombianas. Já o lendário Fruko & La Bonita celebra a colaboração entre gerações em um espetáculo que une salsa, psicodelia tropical e cumbia. O coletivo De Mar Y Río traz a força das vozes e percussões ancestrais da costa pacífica colombiana e conduz uma oficina dedicada à música de marimba, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade — título também concedido ao candombe, ritmo afro-uruguaio defendido pelo mestre Hugo Fattoruso, que participa do festival com show e com a atividade formativa Candombe do Sul.

Sélène Saint-Aimé

A Europa aporta no Sesc Jazz com nomes que exploram diferentes caminhos do jazz contemporâneo. A contrabaixista e cantora franco-caribenha Sélène Saint-Aimé apresenta um som que une tradição e modernidade; do Reino Unido, Bryony Jarman-Pinto destaca-se pela fusão de jazz, soul e folk com letras de tom social. O pianista Tigran Hamasyan, da Armênia, completa o bloco europeu, unindo improvisação, rock progressivo e melodias do folclore de seu país.
Da música afro-norte-americana, três referências de Chicago (EUA) reforçam a tradição e a inovação do gênero: o percussionista Kahil El’Zabar, comemorando os 50 anos de formação de seu grupo; a pianista e educadora Amina Claudine Myers, figura marcante do jazz e do gospel. De Montreal (Canadá), Dominique Fils-Aimé,  expoente do jazz vocal com letras que refletem sobre as realidades sociais que moldaram o blues, o jazz e o soul.

Gabi Motuba


Com repertório voltado a temas de política global, estudos negros e espiritualidade, a sul-africana Gabi Motuba traz um trabalho que reflete sobre identidade e resistência. Também do continente africano, o ganês Alogte Oho mostra a força do Frafra Gospel, o grupo Etran de L’Aïr apresenta o rock do Saara e o cantor, guitarrista, ativista e embaixador cultural senegalês Baaba Maal mescla tradições da África Ocidental com sonoridades eletrônicas em composições que refletem sobre os desafios tecnológicos, políticos e ambientais do continente africano. O artista, cuja voz já ecoou em produções icônicas como A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, e na trilha dos filmes Pantera Negra, ambientados na fictícia Wakanda, abre o festival com show na unidade Pompeia.

Experiências ampliadas - Além dos espetáculos e das atividades formativas, o Sesc Jazz contará com um menu gastronômico exclusivo criado por algumas unidades para o festival. Programe-se para experimentar um cardápio de aperitivos, pratos e drinks inspirado na atmosfera do festival.

Artes visuais - A  artista visual multidisciplinar Negana é a ilustradora convidada desta edição. Sua pesquisa é centrada na figura da mulher negra como corpoterritório — portador de memória, espiritualidade e potência. Nascida em João Pessoa e filha de costureira, a artista aprendeu desde cedo a confiar no gesto e na criação manual. Da costura à arte, transformou o fazer em escuta e em trama de afetos, produzindo em bordado, pintura e ilustração narrativas que entrelaçam ancestralidade, memória e transformação.

Serviço Sesc Jazz 2025
São Paulo, Franca, São José dos Campos e São José do Rio Preto
14 de outubro a 02 de novembro de 2025
Programação completa em: https://www.sescsp.org.br/sesc-jazz 
Orientações de venda de ingressos

Este ano, a venda de ingressos para o Sesc Jazz terá um período de exclusividade para quem tem a Credencial Plena do Sesc válida. Atenção para as datas:

2/10, a partir das 17h - Venda on-line exclusiva para Credencial Plena, com limite de dois ingressos por pessoa para cada apresentação. O acompanhante não precisa ter Credencial.
3/10, a partir das 17h - Venda presencial e on-line dos ingressos para todos os públicos. Com limite de 2 ingressos para cada sessão por CPF.

Valores: R$60 / R$ 30 / R$ 18 

14 Bis: quinta a sábado às 20h, domingo às 18h - Teatro
Pompeia: quinta a sábado às 20h, domingo às 18h - Teatro; quinta a sábado às 21h, domingo às 18h30 - Comedoria; domingo às 16h - Deck

São José dos Campos: quinta a sábado às 20h, domingo às 18h - Ginásio
Rio Preto: quinta a sábado às 20h, domingo às 18h  - Ginásio
Franca: quinta a sábado às 19h30, domingo às 18h - Teatro

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

A dobradinha Ratos de Porão e D.R.I. vai se repetir em breve em São Paulo

 As produtoras Maraty e Powerline anunciaram que o Cine Joia (SP) vai receber as duas bandas icônicas em 22 de março de 2026. O cartaz matador no fima da matéria, criado especialmente para essa tour, é do artista Cristiano Suarez.

D.R.I., Carioca Club (SP), 2023 (foto: Eugênio Martins Jr/Mannish Blog)

Com mais de 40 anos de estrada, D.R.I. pode ser considerada uma das bandas mais icônicas do crossover, vertente musical que misturou o punk com o metal. 
No show de 2023 no Carioca Club os "sujos, podres e imbecis" do Texas tocaram, em uma hora e meia de show, porradas clássicas da sua discografia, entre elas, Manifest Destiny, Beneath The Wheel, Gun Control, Snap, All For Nothing, Modern World e tantas outras. 
E lá estavam os velhos do Ratos na abertura. Não é sempre que podemos assistir duas bandas com 40 anos de estrada e que sempre permaneceram na ativa. Vai ser o inferno na terra. Ou o céu, dependendo do ponto de vista. 
A turnê inclui o Ocidente, de Porto Alegre, em 17 de março, com abertura do Troll. POA será o único lugar que não haverá o show do Ratos. Em Curitiba os shows acontecem no Tork'n Roll, no dia 19, com abertura da Tifo. O show do Rio de Janeiro será no não menos icônico Circo Voador, no dia 20, com as aberturas de Pavio e Minissaia. No Mister Rock, em Belo Horizonte, os shows acontecem no dia 21 sem abertura. As bandas Imflawed (groove/thrash metal) e Questions (hardcore) farão a abertura do evento no Cine Joia.

D.R.I., Carioca Club (SP), 2023 (foto: Eugênio Martins Jr/Mannish Blog)

As duas bandas contam com mais de 40 anos de estrada. O primeiro trabalho D.R.I. data de 1983, a demo “Dirty Rotten EP”, com 22 músicas em apenas 18 minutos. O material depois foi relançado como “Dirty Rotten LP”, um dos discos mais rápidos e intensos da época, no qual já aparecem riffs mais pesados, aproximando o hardcore do thrash metal.
A marca registrada do D.R.I, a amálgama do hardcore com o metal, foi cravada de vez em 1985, quando a banda se muda para São Francisco, na Bay Area, o berço do thrash metal. O álbum Dealing With It! marcou a guinada: ainda punk, mas com guitarras mais pesadas e estruturas complexas.
A formação recente inclui o membro fundador Kurt Brecht (vocais), Spike Cassidy, o único guitarrista da banda em toda a discografia, Greg Orr (baixo, conhecido por ter tocado na lendária banda de crossover/thrash californiana Attitude Adjustment, ativa desde os anos 80 e igualmente pioneira no estilo) e Danny Walker (bateria, com passagens pelo Exhumed, Intronaut e Jesu).

Ratos de Porão, Carioca Club (SP), 2023 (foto: Eugênio Martins Jr/Mannish Blog)

O Ratos de Porão é incansável, segue em turnê pelo Brasil e América Latina e sua relação com o crossover é histórica, considerado o maior representante latino-americano do estilo.
A banda foi formada um ano antes do D.R.I., em novembro de 1981, durante a explosão do movimento punk paulista. Seu primeiro disco, Crucificados pelo Sistema, saiu em 1984 e tinha músicas que se tornaram hits instantâneos como a própria Crucificados, Agressão Repressão e Morrer.
A partir da segunda metade dos anos 1980, influenciados por bandas como D.R.I., Suicidal Tendencies e Corrosion of Conformity, o Ratos começou a incorporar riffs pesados, solos e a pegada do thrash metal.
Isso ficou cristalizado em álbuns como Descanse em Paz (1986), Brasil (1989), já completamente crossover, com produção internacional e letras de impacto social, e Anarkophobia (1991), gravado em Berlim, é um dos discos de crossover mais respeitados no mundo.

Ratos de Porão, Carioca Club (SP), 2023 (foto: Eugênio Martins Jr/Mannish Blog)

Serviço:
D.R.I. e Ratos de Porão em São Paulo
Data: 22 março de 2026 (domingo)
Horário: 17h (abertura da casa)
Local: Cine Joia (Praça Carlos Gomes, 82 - Liberdade, São Paulo - SP)
Ingressos: fastix.com.br/events/d-r-i-e-ratos-de-porao-em-sao-paulo