sábado, 23 de fevereiro de 2019

Março e abril de 2019 com Blues no Bourbon Street

Em março e abril de 2019, em comemoração aos seus 25 anos, o Bourbon Street sedia o The Blues Festival, com nomes importantes do Blues das cenas nacional e internacional

Flávio Guimarães

Entre os brasileiros, sem dúvida a presença de Flávio Guimarães, que se vivesse na gringa seria considerado um dos maiores gaitistas do mundo, será a mais importante.
Flávio se apresenta ao lado do guitarrista Little Joe McLerran (EUA) e dos Simi Brothers, lá de São José dos Campos.
Da cena internacional, a apresentação da cantora Terrie Odabi, apontada como uma das grandes revelações do blues, será a mais festejada. Ladeada por Flávio Naves (teclados), Fred Sunwalk (guitarra), Denilson Martins (sax), Bruno Falcão (baixo) e Fred Barley (bateria), não por acaso, a base da banda Blues Beatles, a cantora de San Francisco apresenta temas de seu ótimo álbum My Blue Soul.
The Cinelli Brothers são dois italianos radicados em Londres que têm inspiração nos blues de Chicago e Texas, dos anos 1960 e 1970. Seu primeiro disco, Babe Please Set Your Alarm, contém músicas autorais e interpretações de clássicos, como Back Door Man, de Willian Dixon, e temas pop como Kiss, do cantor Prince. 
The Blues Festival, que acontece desde 2005, já trouxe para São Paulo Tommy Castro Band, Rod Piazza & The Might Flyers, Chicago Blues Ladies & Blue Jeans, Magic Slim, Coco Montoya, Eddie C. Campbell.

Terrie Odabi
  
13/03 – Terrie Odabi & Alabama Johnny
20/03 – The Cinelli Brothers
03/04 – Flávio Guimarães com Little Joe McLerran & The Simi Brothers
Gui Cicarelli – Hostess e participação especial

Serviço:

Show: Terrie Odabi e Alabama Johnny
Data: Quarta-feira, dia 13/03
Horário: 22h

Show: The Cinelli Brothers
Data: Quarta-feira, dia 20/03
Horário: 22h

Show: Flávio Guimarães com Little Joe McLerran & The Simi Brothers
Data: Quarte-feira, dia 03/04
Horário: 22h

Local: Bourbon Street
Endereço: Rua Dos Chanés, 127 – Moema – SP
Bilheteria Bourbon Street: Rua dos Chanés 194 – de 2ª a 6ª feira, das 10 às 20h, sábado e feriado das 14 às 20h.
Fone para reserva: (11) 5095-6100 (Seg. a sexta) das 10 às 18h

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Dave Hole, a slide guitar blues que veio da Austrália


Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Site Many Fantastic Colors

Uma forma rústica de tocar guitarra chamada slide é conhecida desde os primórdios do blues, mas ela não foi inventada pelos músicos do sul dos Estados Unidos.
Os primeiros registros históricos dão conta de que a slide – que literalmente significa deslizar - veio do Havaí, popularizada por Joseph Kekuku, nos idos 1890.
Já no seu livro Deep Blues, o historiador Robert Palmer relatou que a técnica pode ter vindo da África, herdada de um instrumento de uma só corda, o diddley bow, frequentemente manipulado por crianças com o auxílio de pedras e pedaços de metal. Semelhança com o nosso berimbau não é mera coincidência. 
Certo. Charlie Patton, Bukka White, Son House, Tampa Red, Blind Boy Fuller, Leadbelly, Robert Johnson, Mississippi Fred McDowell, Curley Weaver não foram os inventores da slide guitar, mas ficaram conhecidos como mestres nessa técnica.
Às vezes usavam uma faca, às vezes o gargalo de uma garrafa, deslizando-o pelo braço da guitarra até os dedos sangrarem. A vida naquela época não era fácil cumpadi e o blues de raiz era selvagem.
Ao longo dos anos a técnica mágica foi apurada pelos mestres das gerações seguintes: Elmore James, JB Hutto, Muddy Waters, Duane Allman, Hound Dog Taylor e nossos contemporâneos, Roy Rogers e Dave Hole.
Robert David Hole nasceu na Inglaterra, mas jovenzinho foi com a família para Perth, cidade interiorana da Austrália.
E não foram os bumerangues que aplacaram a solidão do garoto e sim a guitarra elétrica. Após ouvir os discos dos Rolling Stones, e depois do pai deles, Muddy Waters, David aprendeu sozinho a tocar o instrumento.
Durante anos fez parte da cena australiana de blues e rock and roll, formando diversas bandas com algum sucesso local, até sofrer um acidente que mudaria sua vida. Impossibilitado de tocar da maneira tradicional, Hole inventou uma forma estranha de fazer a slide na sua guitarra que permanece até hoje.
Após ser contratado pela maior gravadora independente de blues de Chicago e a manufatura de Short Fuse Blues, seu disco de estréia, aos 42 anos, Hole começou a construir sua fama na cena mundial. Nos anos que se seguiram a prolífica parceria Hole/Alligator Records rendeu Working Overtime (1993), Steel on Steel (1995), Ticket to Chicago (1997), Under the Spell (1999), Outside Looking In (2001) e The Live One (2003), todos acima da média. Seu mais recente trabalho foi o auto-produzido Goin’ Back Down (2018).



Eugênio Martins Júnior – Você nasceu na Inglaterra, mas cresceu em uma pequena cidade na Austrália. Qual foi seu primeiro contato com o blues?
Dave Hole – Conheci o blues ouvindo os primeiros discos dos Rolling Stones. Eles faziam covers de Jimmy Reed e Howlin’ Wolf e fiquei curioso para descobrir mais sobre essa coisa que eles chamavam de blues. A primeira coisa realmente profunda que ouvi foi o álbum Folk Singer, de Muddy Waters. Fiquei imediatamente impressionado com o poder absoluto e o desempenho de Muddy. Mesmo que não conseguisse entender as letras, era óbvio para mim que ele estava cantando com um sentimento real. Havia uma intensidade emocional que eu nunca ouvira antes. Estava totalmente cativado e iniciei uma busca para descobrir discos de tantos bluesmen quanto pudesse.

EM - Você é considerado o maior representante do blues da Austrália. Existe uma cena aí? Você tem conhecimento de novos artistas de blues?
DH - Há definitivamente uma cena de blues aqui na Austrália e nós temos excelentes artistas. Existem vários festivais de blues por todo o país e, embora a maioria deses seja de música pop, há alguns blues and roots também. Ouço um monte de bons artistas jovens de blues e é muito compensador vê-los mantendo o blues vivo.

EM – Uma acidente mudou a sua forma do tocar a guitarra. Gostaria que falasse sobre isso.
DH - Logo depois de ter introduzido alguns números de slide no meu repertório, quebrei o dedo mindinho da mão esquerda, justamento o que estava usando para fazer slide. Tive de imobiliza-lo por dois meses e durante esse tempo foi difícil tocar qualquer tipo de guitarra. Conseguia tocar um pouco de slide com o primeiro dedo da mão esquerda, com o bottleneck pendurado. Quando o dedo saiu do gesso tentei voltar ao modo usual de tocar slide, mas não me senti tão confortável quanto o estilo over the top que havia descoberto. Então fiquei com esse estilo e tenho usado desde então.



EM – Nos primórdios do country blues a slide era usada por Tampa Red, Charlie Patton, Blind Boy Fuller, Leadbelly, Bukka White e o próprio Robert Johnson. Você ouvia esses artistas? Ou você já passou para o próximo nível da slide, Elmore James e Earl Hooker?
DH - Ouvi e fui influenciado por quase todos os grandes músicos de blues do passado. Elmore James foi realmente o primeiro deles que ouvi, seguido de perto por Robert Johnson. Então ouvi Charlie Patton, Son House, Earl Hooker, Mississippi Fred McDowell, Blind Lemon Jefferson, Blind Willie Johnson, etc.

EM – No álbum Ticket to Chicago você reuniu um time de feras da cidade. Poderia contar como foram aquelas sessões?
DH - Ticket to Chicago foi gravado na Windy City com a ajuda de alguns músicos realmente maravilhosos. Eu tinha Johnny B. Gayden no baixo, Ray "Killer" Allison na bateria, Tony Zee nos teclados e uma grande seção de metais, organizada pelo  lendário Gene Barge. Billy Branch também participou de algumas faixas adicionando ótimos licks de harmônica. As sessões foram co-produzidas por Bruce Iglauer, da Alligator Records, e foi um momento memorável para mim. Um privilégio e uma emoção tocar com um grupo tão talentoso. A experiência foi ainda melhor pelo fato de que eles eram todos muito agradáveis. Foi um prazer trabalhar com eles.

EM – Você já era um veterano quando finalmente gravou Short Fuse Blues e obteve o reconhecimento fora de seu país. Poderia falar sobre isso?
DH - Na época em que gravei meu primeiro álbum tinha 42 anos e tocava profissionalmente há mais de vinte. Minha carreira até então tinha se passado quase inteiramente em Perth, tocando em pubs e clubes e em algumas das cidades mineradoras na remota Austrália Ocidental. Short Fuse Blues foi gravado e mixado em 3 dias em um estúdio local em Perth. O objetivo era apenas satisfazer as demandas de alguns fãs que perguntavam em meus shows sobre algo gravado. Por um capricho mandei uma cópia para a revista Guitar Player e, para minha surpresa, recebi um telefonema às três horas da manhã de Jas Obrecht, o editor, falando sobre o meu álbum e dizendo: "Vou dar a melhor crítica que já dei em anos”. Fiel à sua palavra, ele deu uma resenha brilhante e, em seguida, seguiu com uma reportagem sobre mim no mês seguinte. Ele também me colocou em contato com Bruce Iglauer que assinou um contrato comigo para seu selo Alligator Records, de Chicago. Ele lançou o álbum para a audiência mundial. Essa é a história da pura sorte que permitiu tornar-me conhecido internacionalmente.


EM – Como foi sua chegada em Chicago, a Mecca do blues mundial?
DH - Meus primeiros dias na América foram como um sonho que se tornou realidade. Cheguei com minha banda em Chicago, a cidade que deu origem a tantos dos blues que eu amo, e na noite seguinte tocamos nosso primeiro encontro no Buddy Guy's Legends. Foi uma multidão com muitos membros da imprensa presentes. Apesar de estar muito nervoso, tudo correu bem e uma crítica elogiosa apareceu no “The Chicago Tribune” no dia seguinte. O que se seguiu foi uma turnê de nove semanas com shows todas as noites ao redor do país, um verdadeiro batismo do fogo para as turnês internacionais!

EM – Tenho entrevistado artistas dedicados ao blues de todos os lugares do mundo, Guy King (Israel), Aki Kumar (Índia), Artur Meneses e Celso Salim (Brasil) E todos estão morando nos Estados Unidos, vivendo da música que escolherem. Gostaria que falasse sobre a força dessa música centenária que nasceu com a opressão e que cativa tantos corações.
DH - Embora eu tenha viajado pelos Estados Unidos muitas vezes, nunca fiquei lá permanentemente, a Austrália sempre foi meu lar e eu adoro morar aqui. Quando se trata de música, no entanto, meu coração está na América. Como o blues pode ter um efeito tão poderoso em alguém como eu do outro lado do globo é um testemunho de seu poder. Para mim é uma expressão crua das mais intensas emoções humanas. E acho que é por isso que tem um apelo universal. A opressão e as injustiças que prevaleciam nos campos de algodão, que deram origem ao blues, não estão mais lá. Pelo menos não da mesma maneira. Mas todos nós ainda temos vidas cheias de altos e baixos e parece que tocar blues e cantar sobre nossos problemas nos fazem sentir muito melhor. 

EM - Você assina a produção de Goin Back Down, no qual controlou todas as etapas da produção. Gostaria que falasse sobre isso. 
DH - Com “Goin’ Back Down ”, queria me dar ao luxo de escrever e desenvolver as músicas em um ritmo calmo, sem a pressão habitual de uma data de lançamento fixa. Também queria tocar a maioria dos instrumentos e criar as gravações eu mesmo. Claro que tudo isso leva tempo e acabou sendo um projeto de três anos. Muito desse tempo foi gasto aprendendo as habilidades necessárias, mas achei o processo todo muito agradável. Foi muito libertador poder gravar apenas quando me apeteceu e estou muito satisfeito com o resultado.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Charlie Musselwhite, uma vida dedicada ao blues


Texto: Eugênio Martins Jr
Foto: Portal da Educativa

Musselwhite é um dos principais nomes da gaita mundial hoje. Mas sua caminhada começou com o lançamento do álbum Stand Back! Here Comes Charley Musselwhite and the Southside Band, em 1967, aos 22 anos. O "Charley" da capa foi grafado errado pela gravadora Vanguard.
Little Walter, Big Walter Horton, Junior Wells, James Cotton, Sonny Terry ainda estavam no mercado quando Musselwhite e Paul Butterfield apareceram em Chicago nos anos 60. 
Os dois álbuns, Stand Back! e Paul Butterfield’s Blues Band (1965) são festejados até hoje. A banda de Musselwhite tinha a lenda de Chicago Fred Below (bateria) e ainda Harvey Mandel (guitarra), Bob Anderson (baixo) e Barry Goldberg (teclados). Butterfield vinha com Mike Bloomfield e Elvin Bishop (guitarras), Sam Lay (baterista de Howlin’ Wolf) e Jerome Arnold (baixo). 
Big Joe Willians declarou que Musselwhite era um dos grandes gaititas de blues já naquela época. Tanto isso é verdade que Big Joe convidou o jovem Charlie para substituir na sua banda nada menos do que Sonny Boy Willianson II, após a morte deste em 1965. Para quem não sabe, Big Joe Willians foi o compositor de Shake Rattle Roll, Chains of Love, Sweet Sixteen, Honey Hush, TV Mama e Corrine Corrina. Sem ele, baby, não existiria o rock and roll. Mas essa é outra história.
Musselwhite tem grandes discos gravados ao longo desses cinquenta anos de estrada. 
Gosto muito de Tennessee Woman (1969), parceria com o pianista de jazz Skip Rose, Takin’ My Time (1974), também com Rose e os jovens Pat e Robben Ford, bateria e guitarra, respectivamente. In My Time (1993), traz duas músicas gospel ao lado dos Blind Boys of Alabama e alguns temas de jazz. Nos anos 2000 Musselwhite mandou One Night in America (2002), Sanctuary (2004) e Delta Hardware (2006) e dois excelentes álbuns com Ben Harper Get Up! (2013) e No Mercy in This Land (2018). 
Já ia esquecendo, é de Musselwhite a gaita em Mule Variations, de Tom Waits; Suicide Blonde, INXS; e do álbum Memphis Blues, de Cindy Lauper, em 2011. 
Minha história com o Charlie Musselwhite - Em janeiro de 2006, folheando a revista de sexta-feira do jornal Folha de S. Paulo, li que dois de meus ídolos viriam ao Brasil para tocar no Bourbon Street Music Club, o gaitista Charlie Musselwhite e o guitarrista Otis Rush, verdadeiros ícones do blues. Aquilo não saiu da minha cabeça e fiquei pensando em como poderia trazer os caras a Santos.
Num estalo peguei o telefone e liguei para o Bourbon e me passaram o diretor artístico da casa. O Herbert atendeu e disse que estava com viagem marcada para os Estados Unidos e que poderíamos fazer uma reunião quando voltasse.
A parada era a seguinte, o cara nem me conhecia e disse que dava pra fazer os shows aqui e já havia até agendado uma reunião. Não sou de ficar dando risada de bobeira, mas naquela semana fiquei sonhando com Rush e Musselwhite e ouvindo seus discos sem parar. 
Um mês depois, na data marcada, almoçamos num restaurante no Centro de Santos, na histórica Rua XV. Sim, os caras ainda desceram pra falar comigo. O Herbert, a Thais e o Beto, seus dois sócios em uma produtora especialista em blues e jazz. Saímos daquela reunião com um nome na cabeça, Jazz, Bossa & Blues, um projeto que rendeu muitos frutos posteriores.
Otis Rush ficou doente e não veio ao Brasil. E não lembro por qual  motivo não consegui fazer o Charlie Musselwhite aqui em Santos. Mas assisti ao show do Bourbon, com Otávio Rocha (guitarra), Ugo Perrota (baixo) e André Tandeta (bateria). Ele havia acabado de lançar o álbum Delta Hardware, um discaço. Ou seja, minha vida na produção quase começou com um show de Charlie Musselwhite.


Eugênio Martins Júnior - Gostaria que falasse sobre a primeira vez que teve contato com o blues e como decidiu ir para esse estilo musical.
Charlie Musselwhite – Não me lembro a primeira vez que ouvi o blues. Algumas de minha primeiras memórias são dos cantores de rua no centro de Memphis nos anos 50.  

EM - Você estava em Memphis no olho do furacão dos anos 50, ouvindo todos os caras importantes do rock and roll e do blues. Gostaria que falasse sobre essas lembranças.
CM – Do outro lado da rua viviam Johnny e Dorsey Burnette e em alguns blocos adiante, Slim Rhodes. Ia a escola com Tommy Cash que jogava no time de basquete e estava sempre com Dewey Philips. Ia para a escola com Travis Wammack. Eu tinha o telefone de Elvis e poderia ligar a qualquer hora pra saber se ele estaria em alguma festa. Ele fazia coisa do tipo, alugar as barracas e trailers de comida e todos os hot dogs e cookies eram de graça. Ou alugar um teatro para exibir os últimos filmes do Road Runner. Isso ia da meia noite até a madrugada.    

EM - Como foi sua chegada em Chicago? Foram tempos duros aqueles, mas proporcionou o contato com os grandes artistas do blues daquela cidade e você acabou gravando Stand Back!, um álbum que é lembrado até hoje. Poderia falar sobre essa época? 
CM – Só fui para Chicago atrás de um bom emprego na fábrica. Foi quando descobri a cena de Chicago e todos os meus heróis do blues. Todos estavam lá tocando eu me tornei assíduo em todos aqueles clubes de blues. Minha frequência nesses clubes era incomum porque o blues era uma música estritamente adulta e você raramente via alguém da minha idade, seja branco ou negro. Não me incomodava em ficar em pé ou sentado. Estava feliz apenas de estar ali, ouvindo e socializando. Uma noite um garçom que eu conhecia falou para Muddy que ele tinha de me ouvir tocar. Então Muddy me chamou ao palco e isso mudou a minha vida. De repente comecei a ser convidado para várias gigs. As coisas aconteceram a partir daí. 


EM - Bom, não há fã de blues que não ame Stand Back! E eu gostaria que você falasse sobre aquelas sessões com Fred Below, Barry Goldberg e Harvey Mandel.
CM – Houve apenas uma sessão. Gravamos tudo em três horas. Foi tudo muito casual. 

EM - Como eu disse antes, você esteve na época de ouro do blues, anos 50 e 60, e está aqui agora, nos anos 2000. Gostaria que falasse sobre a importância do blues para a cultura americana, já que você é considerado um dos grandes mestres ainda na ativa.
CM – Não sei o que poderia acrescentar ao que os fãs de blues já não saibam. A não ser que poucos artistas de blues recebem um tratamento tão legal quanto os artistas de rock ou country. E algumas coisas que chamam de blues hoje jamais seriam na época em que comecei. 

EM - Você já tocou com grandes artistas, ganhou o Blues Music Awards e foi indicado ao Blues Hall of Fame, toca harmônica ininterruptamente há cinquenta anos. Existe alguma coisa em termos musicais que Charlie Musselwhite ainda não fez e gostaria de fazer?
CM – Amo experimentar e ver como posso adicionar o blues em outros estilos, como tenho feito com a música cubana e brasileira. Tenho ideias que gostaria de explorar um dia. Muitas ideias.


EM - Gostaria que falasse sobre a parceria com Ben Harper que renderam dois álbuns maravilhosos, Get Up!, e No Mercy in This Land. Quer dizer, é o encontro de duas gerações, duas visões musicais diferentes, mas que conversam entre si.
CM – Diferentes de alguma maneira, mas Ben tem uma alma nostálgica e nossas ideias musicais se complementam. Soam como uma boa mistura. Trabalharmos juntos é uma aventura musical maravilhosa.

EM - Quando jogamos gelo em um copo cheio de água, há uma troca de temperatura entre eles. Podemos dizer o mesmo sobre o encontro entre Charlie Musselwhite e Ben Harper sobre a troca de experiências? 
CM – Com certeza. Nossa experiência é semelhante com relação aos mestres do blues. E nos inspiramos multuamente.

EM - Você já veio ao Brasil algumas vezes e conhece alguns gaitistas brasileiros. Imaginava que aqui tinha uma cena de blues?
CM – Tinha conhecimento que havia interesse pelo blues no Brasil, mas fiquei agradavelmente surpreso pelo alto nível dos músicos. O Brasil é um país muito musical. Com uma cena excitante e músicos brilhantes que me nocautearam.    

EM - Qual o conselho de Charlie Musselwhite para obter um bom timbre?
CM – O timbre está lá. Todas as notas que você tocar não vão superar um bom timbre. Alguns gaitistas confiam em um microfone ou amplificador específicos para formar seu timbre, mas acredito que você tem de criá-lo antes disso. Tocando com seu coração em vez de sua cabeça.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Raphael Wressnig, o blues que veio da Áustria


Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Site Jazz Cellar 11

A Áustria deu ao mundo Haydn, Mozart, Schubert, Strauss (Johan I, Johan II e o Joseph), Suppé, Webern e tantos outros grande compositores eruditos. De lá também saiu o maestro Joe Zawinul, gênio fundador da banda Weather Report. E ainda o blueseiro da pesada que vem ganhando o mundo, o especialista em Hammond B-3, Raphael Wressnig.
Ele até tentou enveredar para a música de concerto, mas seu coração pulsava mesmo é com os grooves de New Orleans. Está fazendo fama com eles.
A Big Easy passou a ser sua segunda casa e as second lines (espécie de blocos carnavalescos de lá), brass bands e o funk style da cidade lhe são mais chegados do que as polkas e valsas da sua terra natal.
Isso me faz lembrar de Não Deixa o Mar o Mar te Engolir, música de Charlie Brown Jr cujo refrão ensina: “Tem de saber chegar, tem de esperar sua vez”.
E Raphael soube chegar na terra do Jim Crow e, mesmo forasteiro, vêm fazendo o nome, aparecendo aqui e e ali nas paradas e premiações nos Estados Unidos.
Gravou lá o ótimo Soul Gumbo, história à parte em sua discografia. O CD/LP contou com convidados de peso, locais, mas universais: Walter Wolfman Washington (guitarra), George Porter (baixo), Craig Handy (saxofone), Larry Garner (voz), Jon Cleary (teclados), Stanton Moore (bateria), Tad Robinson (voz), seu fiel escudeiro Alex Schutz (guitarra) e, não poderia faltar, a seção de metais com Antonio Campbel e Eric Bloom (trompete), Sax Gordon, Jimmy Carpenter e Harry Sokal (sax tenor), Max the Sax (sax alto),  Werner Wurm (trombone).
No brasa gravou em 2017 com o guitarrista Igor Prado, outro que é bem chegado do lado de lá, o CD Soul Connection. Por sua vez, a parceria incluiu as participações dos cantores Leon Beal e Wee Willie Walker, e a Prado Blues Band de sempre, Yuri Prado (bateria) e Rodrigo Mantovani.
Raphael é um verdadeiro viajante em busca de parcerias duradouras, musicais e de vida. Escolhendo a dedo os músicos que lhe interessam. Já a estrada, essa se incumbiu de colocar a encruzilhadas certas no caminho de todos esses caras.



Eugênio Martins Júnior - A Áustria é a terra das valsas e das grandes sinfonias, acredito que você tenha passado por esse aprendizado, não? Você começou a aprender música no piano?
Raphael Wressnig – (Risos) Sim, é um país musical. Mozart, Haydn, as valsas de Strauss, mas também música folclórica e polkas. Minha mãe tocava polkas no acordeon. Acho que isso é algo que temos em comum com o Brasil, existe uma grande herança musical. Comecei no piano, tocando música clássica por um tempo. Em algum momento parei. Era muito chato para mim, estava sentindo falta do groove, precisava de um “meter o pé”. Isso é algo que está em mim. Quero um groove um pouco mais pesado. Essa é a enorme diferença entre blues, soul, funk ou roots music. Mozart e Haydn também tocavam, mas é diferente. Alguns anos depois comecei sozinho no piano, autodidata, e logo tive minha primeira banda. Naquela época eu já tocava a música que ainda estou tocando: blues, soul, rhythm & blues, talvez não tão funk ainda, mas já havia descoberto o amor por esses estilos musicais.

EM - Quando conheceu o Blues e quando e como foi essa transição para o Hammond B3? Se é que houve.
RW - Acho que foi uma gravação ao vivo do Buddy Guy pela qual eu me apaixonei. Buddy Guy sempre teve duas coisas que eu amo: groove e fogo em seu fraseado e forma de tocar. Para mim isso é muito importante, é o que me chama a atenção, o que me faz dançar, pular. Groove! Dentro da minha primeira banda eu tocava piano piano de verdade e teclado em alguns shows, é claro. No teclado eu escolhia sons de piano, mas também sons do Wurlitzer ou Fender Rhodes e sons do órgão Hammond. Logo descobri que os sons de órgão são os sons que poderia me expressar melhor. O órgão tinha mais fogo ou, pelo menos, eu era capaz de colocar mais fogo na música. Acho que queria competir com as guitarras elétricas. Isso pode ser difícil no piano. Sempre amei o poder do órgão. Ele pode sussurrar e ser bem suave, mas pode rosnar e gritar também. Para mim, o órgão Hammond B-3 se tornou o veículo perfeito para minha música.


EM - Percebi que nos teus discos há sempre convidados que são mais do que participantes, eles têm espaço de verdade. É um método de trabalho? Poderia falar sobre isso? 
RW - Muito obrigado. Tomo isso como um elogio. Tenho que dizer que sou muito exigente. Sou uma pessoa que é muito direta. E não quero tocar com músicos e pessoas que não gosto ou valorizo. Se gosto deles, quero que tragam o seu melhor, quero mostrar seu talento e sua alma, a melhor forma de tocar. De certa forma, foi assim que aprendi. Comecei bem tarde, aos 16 anos, mas fui em frente. Acho que já estava em turnê pela Europa aos 18 ou 19. O bluesman Larry Garner tornou-se meu primeiro mentor e comecei a viajar pelo mundo com ele quando tinha 21 ou 22 anos. Larry me ensinou muita merda, desculpe minha linguagem, mas é exatamente assim que eu tenho que dizer, e aprendi tudo. Tenho toneladas de histórias para contar. Acho que essa é a maneira de aprender a tocar blues. Toquei com ótimos músicos ao longo dos anos. Phil Guy, John Mooney, James Armstrong e eu fazíamos parte da banda Women of Chicago Blues que apresentava Deitra Farr, Zora Young e Grana Louise, tocando com Kenny Smith, Felton Crews e Billy Flynn. Essa era uma banda muito pesada e foi ótimo que eles me escolheram para os teclados. Por exemplo, Billy Flynn é um mestre na guitarra e eu saquei tudo. Tocando os shuffles com Kenny Smith pude capturar aquele sentimento. Acho que todo músico sempre pode aprender alguma coisa e tive o prazer de tocar com os grandes. Então, continuo aprendendo. Pensei que trazer grandes artistas convidados para os meus álbuns é uma chance para acrescentar esse conceito à minha música e meu som. Claro que tenho um som e estilo distintos e quero apresentar isso também, mas quero acrescentar o presente, o talento dos artistas que são convidados, trazer o melhor de todos. Isto é de alguma forma um conceito meu. Minha banda é chamada de The Soul Gift Band, eu quero trazer o talento, mostrando os músicos da banda.

EM - Conte a história de Soul Gumbo, um grande disco, gravado totalmente em New Orleans, com músicos de lá.
RW -  Sempre amei a música de New Orleans. É uma mistura tão grande de estilos! Lá é sempre groovyfunky. Eu já mencionei Larry Garner de Baton Rouge. Larry nasceu em Nova Orleans e em turnê com ele conheci grandes músicos de New Orleans ao longo dos anos. Estava em turnê na Turquia e na Rússia com Larry e Buckwheat Zydeco - o rei do zydeco, cara, ele era doido, se divertia a noite inteira. Visitei Larry em Baton Rouge e toquei com ele em uma igreja, experiência maravilhosa. Um ano depois, viajei para Memphis para participar de prêmios ligados ao blues e encontrei novamente o baterista Stanton Moore. Stanton é bastante ocupado e é bem sucedido com sua banda Galactic. Então nós acertamos a data. Liguei para todos os músicos e organizei a sessão de gravação.


EM - Como você reuniu aquele time, Tad Robinson, Walter “Wolfman” Washington, que contribuiu com I Want to Know e Larry Garner com Nobody Special? Como foram as sessões?
RW - Eu tinha algumas ideias em mente. Primeiro de tudo queria trazer minhas músicas e apimentá-las com os sabores que eles têm em New Orleans. Sabia que eles poderiam adicionar alguns grooves, algum funk. Também queria capturar a vibe e mostrar alguns dos meus músicos favoritos de lá. Queria ter Walter Wolfman, ele é apenas "o" mestre do rhyhtm n’ blues da cena de lá, você vai amar suas grandes canções e seu balanço (funkiness). Conhecia Jon Cleary há pouco tempo, tinhamos o mesmo agente na Europa. Foi meio espontâneo trazer George Porter Jr. Eu não pretendia ter um baixista e até aquela data não tinha gravado com um baixista. Como organista, você pode fazer isso no instrumento. No estúdio, pensamos que poderíamos adicionar baixo em uma ou duas músicas, então ligamos para George. Amo todos os álbuns do Meters e George é um cara tão legal. Todo aquele talento em Nova Orleans, mas eu sabia imediatamente que teria de trazer Alex Schultz comigo. Alex nasceu em Nova York e mais tarde se mudou para Los Angeles e se tornou uma das principais figuras do movimento do West Coast Blues, sendo um veterano das bandas de William Clark e Rod Piazza. Poucas pessoas sabem que a mãe de Alex era originária de New Orleans. Ele gravou em New Orleans algumas vezes com Earl King e para o selo Black Top. Eu sabia que Alex amava a música de New Orleans e ele é um dos guitarristas mais versáteis do mundo, o meu favorito para o que tinha em mente. Estava sentindo falta de outro grande músico, Craig Handy. Craig é um cara de jazz e um dos melhores saxofonistas do mundo. Você pode conhecer Craig do filme de Robert Altman, Kansas City. Ele estava retratando Coleman Hawkins. Há uma batalha tão legal dele com Joshua Redman (que interpreta Lester Young) e James Carter. Conheci Craig através do filho de Joe Zawinul, Eric. Joe Zawinul, outro grande músico da Áustria, por sinal. Eric Zawinul me colocou junto com Craig e o monstro cubano Horacio Hernandez para um show da Red Bull. Continuei colaborando com Craig. Na época em que eu estava prestes a gravar Soul Gumbo ele estava em turnê com Wynton Marsalis. A família Marsalis é uma das principais forças musicais de Nova Orleans. Craig foi inspirado pelos ótimos grooves na second line de grupo de Herlin Riley. Eu e Craig tocamos no second line versões de jazz de Nova Orleans e composições minhas que combinavam jazz e funk de New Orleans.
Quero contar duas histórias engraçadas sobre as sessões de Soul Gumbo: Antes da sessão, meu amigo e saxofonista Sax Gordon me ligou e disse que seu amigo, o trompetista Eric Bloom havia acabado de se mudar para New Orleans e que eu deveria chamá-lo para a sessão. Eric tocou em dois dos meus álbuns anteriores e ele é um matador, atualmente faz parte das bandas de funk Lettuce e Soulive. Eric estava realmente empolgado e me disse: "Ei, Raph, posso trazer todos os grandes saxofonistas e todos os grandes músicos de brass bands de New Orleans". Eu disse: "Cara, pode ser, mas receio que já tenho o nome. Eric respondeu: "Mas quem você contratou? Tenho certeza que posso te trazer caras melhores”. Eu disse, oh bem ... você pode tentar! Eu tenho Craig Handy no sax. Eric teve que admitir que não conseguiria encontrar um melhor saxofonista em Nova Orleans, exceto talvez Branford Marsalis, mas ele não está mais em Nova Orleans. Nós dois começamos a rir muito.
Outra grande história foi que Jimmy Carpenter - grande saxofonista de blues - estava esperando na sala de controle enquanto eu ainda estava gravando as faixas com Craig, Alex, Stanton e Eric Bloom. Estive no estúdio por dois dias e gravei 14 faixas com pessoas diferentes para que elas entrassem e saíssem o tempo todo. Então disse adeus a Craig que havia terminado as faixas que eu queria que ele estivesse. Jimmy me perguntou: "Ei Raph, esse é ''o'' Craig Handy? Eu disse: “Bem, é o único Craig Handy que eu conheço. O único Craig Handy que sopra o sax. Acho que Jimmy estava com muito medo de tocar depois de Craig.
Não vou citar todos os nomes com quem já toquei, pois pode parecer que estou querendo me gabar sobre minha música. Observo uma coisa, todos os músicos querem se sentir convidados especiais. Mencionei isso antes: demorei 15 anos para finalmente estar pronto para gravar esse álbum em particular. Queria esperar até ter músicas legais, até que meu jeito de tocar estivesse pronto. Não queria ligar para nenhum dos músicos mencionados, porque eles são famosos ou legais. Todos os convidados que destaquei são músicos que eu posso chamar de amigos ou que tenho fortes relações musicais. Conheci Kirk Fletcher no Soul Gift, já que ele era muito amigo de Alex Schultz há muito tempo e eles adoravam tocar um com o outro e encontrei Kirk na estrada muitas vezes. Então já era hora gravar juntos. Acho que muitos músicos hoje em dia esquecem disso. Eles querem divulgar sua música e querem um pedaço da torta. Tudo bem, mas você não deve esquecer a profundidade da música. Blues e soul são estilos de música que são profundos e leva uma vida inteira para aprendê-los. Isso é o que eu ainda estou fazendo.


EM - Em cada trabalho você sempre lança os formatos CD e LP, mas com músicas diferentes. Por quê?
RW – Ótima observação. Tive de fazer isto, por exemplo, na sessão Soul Gumbo. As 14 músicas gravadas tem 76 minutos. Todas as músicas nem caberiam em um CD normal. O formato LP pode até conter menos, então coloquei músicas diferentes em CD e LP e até mesmo algumas coisas estão disponíveis apenas na versão digital. Eu deveria ter liberado alguns dos materiais mais tarde como Soul Gumbo part. II ou algo assim. Muitas músicas, muitos convidados, muita excitação em Nova Orleans, eu acho. É incrível olhar para trás. Estava há apenas dois dias no estúdio e nós mandamos 14 faixas e eu tirei muita música legal disso.

EM - Na minha opinião os discos ao vivo são essenciais e Captured Live, como o nome diz, capta a verdadeira energia dispendida no palco. Gostaria que falasse sobre essa preparação e a experiência de gravar um disco ao vivo.
RW - Gravei o álbum ao vivo com a minha banda da época. De certa forma, é muito ruim porque acho que a banda está melhor agora. Foi no primeiro ano que comecei a turnê com uma seção de metais num formato completo, seis peças. Fazemos isso há três anos e agora os som está muito justo, bacana. Ainda assim é um disco legal, as músicas escolhidas são as mais pedidas nos shows. 

EM - Conte como conheceu o Igor Prado? E como surgiu a ideia se gravar o CD Soul Connection com as participações de Willie Walker e Leon Beal? Esse disco poderia ter se chamado “Soul Feijoada”.
RW – (risos), Sim, estamos pensando em Soul Feijoada. Apenas pensei que poderia ser muito parecido com Soul Gumbo. Conheci Igor Prado através do Sax Gordon. Gordon montou uma banda internacional legal para o famoso Poretta Soul Festival na Itália. Todos nós tínhamos álbuns soul-blues. Igor gravou Blues & Soul Sessions, Gordon o Showtime e meu álbum Soul Gift, havia acabado de ser lançado. Adorei colaborar com o Igor. Temos quase a mesma idade, o mesmo espírito, a mesma sensação. Foi ótimo desde o primeiro momento. Um pouco depois fizemos a primeira turnê no Brasil juntos. Eu realmente gostei de trabalhar com Igor, Yuri e Rodrigo. Recebi Igor aqui na Europa para algumas turnês. A ideia de gravar juntos foi bastante espontânea. Apenas dois dias antes de eu sair para o Brasil, Igor me ligou e me perguntou se ia gravar alguma coisa com ele. Fizemos alguns shows com o Willie Walker, então ele reservou um Hammond B-3 e um estúdio e estávamos prontos. Tivemos apenas um dia no estúdio e, meio ano depois, gravamos mais três faixas na casa de Igor e o álbum estava pronto. Considero The Soul Connection um dos meus melhores discos. Os  caras foram perfeitos, Wee Willie Walker é um dos melhores cantores do mundo e amo o som daquele álbum. Igor se tornou um grande na técnico de gravação, mixagem e masterização. Tudo no álbum foi feito por nós. Você acredita nisso? Coisas caseiras reais. Lembro-me de passar pelos engarrafamentos de São Paulo, mixando o dia inteiro. A tia de Igor cozinhava ótimas comidas caseiras para nós. Aqui está a Feijoada de novo. Daí trabalhávamos um pouco mais. Espero não estar revelando muitos detalhes da família Prado, mas quero dizer o seguinte: amo essa abordagem, você pode sentir o espírito, a vibração. Acho que o álbum soa ótimo, é real e honesto. Veja a gravação do mono-órgão em Faceslap Swing Nr. 5, por exemplo. Foi um erro. Um canal ou microfone não estava funcionando. Nós havíamos conversado antes sobre gravar "mono" de qualquer maneira. Agora, por acidente, acabamos com uma gravação mono melhor ainda, eu diria. Temos mais shows ao vivo chegando em novembro no Brasil e em janeiro de 2020 na Europa. Estou muito ansioso para isso.



EM - Uma parceria frequente é com o guitarrista Alex Schultz, que rendeu Don’t Be Afraid to Groove, Soul Gift e o mais recente álbum, Chicken Burrito.
RW - Antes que eu esqueça, quero mencionar um outro grande guitarrista que toca com a minha banda e com quem fiz muitas turnês ao longo dos anos. Esse cara é um guitarrista cheio de alma, o grande Enrico Crivellaro. Confira seus ótimos álbuns no Electro Fi. Foi Enrico que convidou Alex Schultz para o nosso show em Munique, na Alemanha. Alex sentou-se e simplesmente soou ótimo. Claro, ele sempre faz isso. Eu tinha um festival de verão na Eslovênia agendado e Enrico não poderia tocar. Então liguei para Alex Schultz, que estava começando a passar algum tempo na Alemanha. Fivemos um ótimo show juntos e foi o começo da longa colaboração. Eu já te falei sobre as aventuras em Nova Orleans. Soul Gift também foi um álbum legal que fiz com Alex. Acho que nós amamos a mesma música. Em Soul Gift juntamos as vibrações de Memphis, um pouco de Booker T. & MGs, sweet soul e, claro, cool blues.
No ano passado fizemos, talvez, a coisa mais excitante juntos. Eu sabia que Alex havia usado o lendário baterista James Gadson em vários de seus shows locais em Los Angeles. Toquei em um monte de shows com Alex e alguns bateristas matadores. Stanton Moore em New Orleans, mas também turnês com Johnny Vidacovich e meu projeto Soul Gumbo para shows ao vivo. Cara, Johnny V é uma viagem. Que baterista legal. De qualquer forma, eu queria ir fundo novamente. Para Soul Gumbo, e na música de New Orleans, a sensação direta versus a sensação de swing é muito importante. Todas as bandas de rua tocam assim e os Meters realmente elevaram isso a um outro nível. Um homem que também colocou isso em outro nível no funk foi James Gadson. Suas gravações lendárias com Bill Withers e todas as coisas de soul e funk definiram o caminho. James encontra o ponto ideal. Ele sempre acerta no suingue e na pegada funk. Esse foi um dos aspectos mais interessantes para eu ver, ouvir, sentir e observar. Enviei demos das minhas novas músicas para James e então fomos para o estúdio e em um dia, você logo vê que eu não gosto de ficar embaçando por aí, gravamos oito faixas. Depois de acertarmos cada música, tentamos capturar a sensação em duas ou três tomadas. Nunca havia experimentado isso de tal maneira. Você podia realmente sentir as nuances que ele imprimia. Usei o estúdio de Josh Smith e Alan Hertz baterista de Scott Henderson e Michael Landau. James Gadson nos alegrou muito com toda a bateria que ele tocou. 

EM - Como está a cena blueseira na Europa em comparação com outros locais, já que você passa um tempo lá e também viajando. E como vê a cena brasileira. Imaginava que era tão forte no Brasil?
RW - Acho que jazz e blues têm uma grande tradição na Europa. Alguns dos clubes têm uma longa e grande história. Existem muitas grandes bandas na Europa e bandas americanas vêm pra cá há décadas. Fiquei realmente impressionado com a cena brasileira. Tenho que dizer que fiquei um pouco assustado e pensei que se todas as bandas da América Latina fossem tão boas quanto a banda de Igor Prado, seria assustador, porque isso significaria que a cena é muito melhor do que a cena européia. Posso dizer que eles são uma banda fenomenal, e isso se aplica para os EUA ou Europa e América Latina, e eles se destacam. Para mim, uma grande diferença é que tenho a sensação de que a cena do blues e especialmente o público no Brasil é mais jovem. Gosto muito disso. Parece que ir a um show de blues é mais divertido e as pessoas mais jovens também vão se divertir. Na Europa, é quase como ir a um concerto, o que é legal também e acho que tem a ver com a tradição do jazz. O jazz europeu é muito moderno, mas às vezes isso também é muito chato. Sempre amei os shows no Brasil. Precisamos manter essa forma de música jovem e acontecendo. É sentir-se bem e transportar isso. É um ótimo estilo de arte para expressar os  sentimentos, mas também é uma coisa divertida. 
Acho que poderia ser uma tarefa dos músicos de blues brasileiros criar um som de banda e criar uma situação única no Brasil. É claro que, como músico ou guitarrista, ou gaitista, ou seja o que for, fica fácil gravar um disco legal com alguns caras experientes em outro lugar ou criar uma situação. Acho que o público quer ver isso no palco, no show ao vivo. Estou passando por uma situação semelhante na Europa agora. Muitos cantores e músicos norte-americanos entram em contato comigo e querem usar minha banda ou querem que eu os apoie na Europa. Alguns outros artistas na Europa me querem, além da minha banda para o seu álbum ou para um show. Tento ter cuidado com isso porque demorei um pouco para criar esse som de banda. Leva uma vida inteira para tocar blues, soul ou funk também. Todos nós devemos valorizar isso. Acho que jovens artistas gostam de chamar convidados, fazer um álbum emocionante, com alguns músicos famosos. Mas eu só posso recomendar: seja você mesmo, toque suas músicas, seu estilo e tente fazer com que sua banda continue. Nem todo mundo precisa soar como alguém que ele acha legal. Invente suas próprias coisas. 
É isso. Paz e amor de Rafael. Espero encontrar vocês todos em novembro quando voltar ao Brasil.