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quarta-feira, 18 de março de 2020

Pandemia de Covid-19 adia 6ª edição do Clube do Blues de Santos

Diante das notícias estarrecedoras sobre o alastramento do vírus Covid-19, a 6ª edição do Clube do Blues de Santos, que sempre acontece no mês de abril e esse ano seria entre os dias  03/04 e 03/05, está adiada para uma data ainda não definida.
É claro que a medida afeta, e muito, as finanças da empresa, e dos nossos músicos parceiros. Como todos os setores econômicos, temos compromissos a honrar, empréstimos, impostos, etc., mas quem trabalha com cultura enfrenta muitas turbulências e essa será mais uma que vamos superar. 
Diante dos fatos, a Mannish Boy Produções e seus parceiros, Sesc, Secult, Museu do Café, Cervejaria Everbrew, Quintal da Véia e Mucha Breja, em comum acordo, decidiram suspender todos os shows para resguardar a saúde do nosso público, evitando assim o agravamento da epidemia.  
Com responsabilidade, acreditamos que cada um deve fazer a sua parte nesse momento de crise aguda.
Desde já agradecemos a compreensão do nosso público e o profisssionalismo dos nossos parceiros já citados, aos vereadores que apresentaram emendas fortalecendo o Clube do Blues 2020, Lincoln Reis, Thelma de Souza, Fabrício Cardoso e Fabiano da Farmácia, e um abraço especial aos músicos envolvidos no projeto. 
VIVA A MÚSICA!

O dia que tomei uma intima da Dançar Marketing pra mudar o nome do festival – Ao último dia da edição da Mostra Blues de Santos 2019, show do Jefferson Gonçalves, tive uma supresa. Recebi um e-mail de um escritório de advocacia comunicando que o nome Mostra Blues não poderia mais ser usado. A alegação era que ele já havia sido registrado por uma empresa, a Dançar Marketing.
Para quem não sabe, a Dançar Marketing é a responsável pelo festival Samsung Best of Blues, realizado em São Paulo, e que há tempos deixou de ser um festival de blues, tendo convidado Zack Wilde, Joe Satriani, Tom Morello, Richie Sambora, Johnny 5, etc. Ou seja, usa o nome blues para promover shows que não tem nada a ver com o estilo.
E a Mostra Blues da Dançar Marketing se limita a eventos paralelos ao Samsung Best of Blues, ou seja, apresentação de filmes, exposições de fotos, etc. Nunca de shows.
A “minha” Mostra Blues acontece desde 2009, nasceu dentro do Sesc Santos e nunca teve a pretenção de subir a serra. E, desde a primeira edição vem recebendo artistas nacionais dedicados ao blues, entre eles, Big Chico, Igor Prado, Big Gilson, Big Joe Manfra, Jefferson Gonçalves, Caviars Blues Band, Mauro Hector, Márcio Abdo, Ivan Márcio, Giba Byblos, Duca Belintani, Los Breacos, Ari Borger, Artur Menezes, Filippe Dias e Robson Fernandes. 
Todos eles têm história na música brasileira, discos gravados e muitas horas de estrada. Possuem carreiras admiráveis e são respeitados aqui e lá fora, no real cenário do blues, em Chicago, New Orleans ou da costa oeste.
Ao telefone, argumentei tudo isso com a advogada da Dançar e ainda apelei para que ela falasse ao presidente da empresa, o Sr. Pedro Bianco, que ele me conhecia, eu havia feito uma entrevista com ele e, de forma muito respeitosa e reverente, contado sua história em meu segundo livro, Blues – The Backseat Music – As Origens no Brasil. 
Ela me pediu pra registrar tudo isso em um e-mail que iria enviar para ele que, talvez, liberasse o uso do nome. 
Enviei e não houve resposta. Fui ignorado. Diante disso resolvi usar o nome de um projeto antigo que já faço em Santos, o Clube do Blues. 
Brigar pelo nome Mostra Blues contra a Dançar e talvez contra a Samsung não era uma opção, não tenho tempo e nem grana. Além disso, tenho uma história no blues, não vou me rebaixar. 
A Mannish Boy Produções nasceu exclusivamente como uma empresa de produção musical, não usa o nome do blues pra fazer “marketing” ou explorar o blues por dinheiro. 
Ja passei por muitas dificuldades, em 2017 pensei em fechar a empresa, mas resisti e estamos aí na atividade. Todos os anos inventando projetos, respeitando os músicos, mostrando a cara. Com muito acertos e alguns erros.









segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Após 11 anos, o fim da Mannish Boy Produções. O Mannish Blog continua.

Larry McCray e Vasco Faé (Ilhabela 2017)
Foto: Eugênio Martins Jr

Foram 11 anos de muitos shows legais. Criando projetos, formando parcerias, respirando cultura 24 horas por dia.
Não existe outra forma de produzir que não seja com tesão. As dificuldades são muitas, inimagináveis, e sem tesão você não levanta nem do sofá.
A Mannish Boy sempre optou pela qualidade. Esse é nosso jeito de fazer. E nem sabemos fazer de outro. A independência nos deu essa liberdade e a lista de shows da Mannish Boy mostrada abaixo fala por si. Nosso produto sempre foi bom.
Mas não dá mais. Por uma série de fatores, nos últimos dois anos a Mannish Boy não tem conseguido colocar os shows nos locais que antes conseguia e dívidas com contador, bancos, impostos municipais e federais foram acumulando até que inviabilizaram a empresa.
Os fatores: incompetência em fazer política e investir mais no marketing, confiar em produtores e tomar calotes homéricos e, no fim, incapacidade em separar as contas pessoais das empresariais.
A alta do dólar, todos sabem que a Mannish Boy também trabalha com artistas internacionais; a falta de ética de alguns donos de casa de shows que sempre estão "atravessando" os nossos contatos; “alguns” músicos mercenários que fazem perder tempo com eles e na hora de fechar um show te dão um pé na bunda; pessoas que falam imbecilidades sobre cultura em geral, Lei Rouanet, apropriação, meia entrada, ECAD, OMB, mas não têm a capacidade de ler um livro; amigos que pagam 500 reais em show gringo, mas não pagam 50 nas tuas produções (às vezes nem isso) e vivem pedindo ingressos.
Outra coisa que incomodou muito foi lidar com pessoas alheias à cultura em cargos chave em empresas e prefeituras. Na política, cabides de emprego. Nas empresas, gerentes de marketing e pseudo produtores. Tudo isso foi minando a vontade e a economias da empresa.
E, acima de tudo, o desmonte que vem ocorrendo na cultura nesse desgoverno usurpador que assolou o país nos últimos meses, transformando o cenário político em balcão de negócios. E o pior, com a população calada e a classe média sob o cabresto ideológico da FIESP, MBL e fundamentalistas religiosos. O Brasil chegou ao fundo do poço cultural.
Porém, a Mannish Boy nunca ficou devendo a nenhum contratado. Os músicos com quem trabalhamos podem atestar isso. E agradecemos a todos por terem acreditado no trabalho durante todo o tempo que a Mannish Boy ficou ativa.
Não tenho mais como manter uma estrutura, ainda que pequena, com o volume de shows e renda que a empresa vem amealhando nos últimos meses.
Infelizmente anuncio aqui o fim da Mannish Boy Produções Artísticas. O fim do sonho que tive em fazer boa música.
Hoje, aos 51 anos, estou desempregado. Engordando as estatísticas.
Espero continuar fazendo eventos com a cerveja artesanal CAIS. E também algumas produções de shows esporádicas. Sempre com a mesma qualidade. Conhecimento não me falta.
Continuo com o Mannish Blog, que esse mês, completa oito anos no ar. Jornalismo que me dá prazer, mas também não dá dinheiro.
Agradeço a todos que cruzaram o caminho da Mannish Boy Produções Artísticas e que foram leais à empresa e à boa música em todos esses anos.

Shows:
2006 - Mauro Hector, Leo Gandelman, Big Time Orchestra, Big Joe Manfra, Ana Caram, Eric Gales, John Pizzarelli e Stanley Jordan.
2007 - Traditional Jazz Band, Blue Jeans e Magic Slim, Big Time Orchestra, Rosa Passos, Gilson Peranzzetta, Kenny Brown, Freddy Cole e Peter Madcat.
2008 - John Pizzarelli (Virada Cultural), Kenny Brown, Os Cariocas, Lô Borges, Rosa Passos, Francis Hime, Bad Plus, Big Time Orchestra, Marina De La Riva e Stanley Jordan
2009 - Mart’nalia, Traditional Jazz Band, Badi Assad, Izzy Gordon, Vânia Bastos, Daisy Cordeiro, Igor Prado Blues Band, Robson Fernandes Blues Band, Caviars Blues Band, Big Chico Blues Band, Luccas Trevisani, John Pizzarelli, Pedro La Colina e Sexteto Cañaveral, Havana Brasil, Dixie Square Band, Projeto Café com Música, Sepultura, Leo Gandelman, Big Joe Manfra, Big Gilson e Arnaldo Antunes.
2010 - James Wheeler e Igor Prado Band, Ary Holland e Maria Diniz, Bruna Caram, Adriana Peixoto, Giana Viscardi, Lynwood Slim e Igor Prado Band e Tom Zé, Choro de Bolso, Os Fulanos (teatro), Hermanoteu na Terra de Godah.
2011 - Maurício Sahady e Ivan Márcio Blues Band, John Pizzarelli e Banda, Big Time Orchestra, Shirley King South American Tour 2011 (com Gerald Noel e Ivan Márcio Blues Band) e Roda de Samba do Ouro Verde e Wandi Doratiotto (Tarrafa Literária), Meu Caro Amigo (teatro), Hamilton de Holanda (aniversário de Santos) e Maria Rita.
2012 – Giba Byblos, Bluesonicos, Lurrie Bell e Big Chico, Soundtrackers, Vanessa Jackson, Cláudio Celso Quartet, Igor Prado Blues Band, Shirley King South American Tour 2012 (com Gerald Noel e Giba Byblos Blues Band), Big Jam – Tributo a Celso Blues Boy, Lobão.
2013 – Harry (Virada Cultural São Paulo, Shirley King (Virada Cultural Jundiaí e São João da Boa Vista), Caviars Blues Band, Clube do Blues em Mongaguá, Cláudio Celso (Jazztimes e Jazz.br), Hamilton de Holanda Trio (Tarrafa Literária).
2014 – Big Chico, Orleans Street Band, Jon McDonald, Camisa Listrada, Giba Byblos Blues Band, Jam For a Dime, Shirley King (Santos Jazz), Igor Prado (Santos Jazz), Cláudio Celso, Zuzo Moussauer (Rio das Ostras Jazz e Blues), Larry McCray e Banda, Lurrie Bell, Lazy Lester, Peter Madcat, Los Breacos.
2015 – Claudio Celso e Orquestra Sinfônica de Santos, Gravação de DVD de Zuzo Moussawer, Harry, Igor Prado Blues Band convida Tia Carroll, Filippe Dias Project, Rearranjos – Elis e Tom; Mauro Hector Trio - gravação do CD Ao Vivo; Rearranjos – O Grande Encontro; Giba Byblos – Clube do Blues Acústico, Oficina – Uma História do Blues; Rearranjos – Ventura; In The Level, Orleans Street Jazz Band, Oficina – Jazz a Música Transcendental, Delta Blues.
2016 – Koko Jean Davis e Igor Prado Band, Raphael Wressnig e Igor Prado Band, Osmar Barutti Trio, Divazz, Izzy Gordon, Jefferson Gonçalves, Artur Menezes, Filippe Dias, Vasco Faé acústico, Ivan Márcio e Roger Gutierrez, Sax Gordon e Igor Prado Band, Big Time Orchestra, Big Chico Tributo a BB King, Orleans Street Jazz Band, Mauro Hector e Zuzo Moussawer, Dog Joe, Gustavo Figueiredo.
2017 – Larry McCray, Blues Beatles, Divazz, Aki Kumar, Dog Joe, Love in a Void.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Show de Eric Gales que colocou Santos na rota do jazz e do blues completa dez anos


Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: Leandro Amaral

Há dez anos, 28 de julho de 2006, produzi meu primeiro show internacional e o primeiro do reformado Teatro Coliseu aqui de Santos.
Em janeiro daquele ano, folheando a revista de sexta-feira do jornal Folha de S. Paulo, li que dois de meus ídolos viriam ao Brasil para tocar no Bourbon Street Music Club, o gaitista Charlie Musselwhite e, nada menos do que um dos maiores guitarristas de blues de todos os tempos, Otis Rush.
Aquilo não saiu da minha cabeça. Na época, trabalhava em um jornal e fiquei pensando em como poderia trazer os caras a Santos.
Num estalo peguei o telefone e liguei para o Bourbon e me passaram o diretor artístico da casa. O Herbert atendeu e disse que estava com viagem marcada para os Estados Unidos e que poderíamos fazer uma reunião quando voltasse.
A parada era a seguinte, o cara nem me conhecia e disse que dava pra fazer e já havia até agendado uma reunião. Não sou de ficar dando risada a toa, mas naquela semana fiquei sonhando com o negão e ouvindo Lost in the Blues, Right Place, Wrong Time e Screamin’ the Blues do Otis Rush sem parar.
Um mês depois, na data marcada, almoçamos num restaurante no centro de Santos, na histórica Rua XV. Sim, os caras ainda desceram pra falar comigo. O Herbert, a Thais e o Beto, seus dois sócios em uma produtora especialista em blues e jazz.
Na época eu ainda não sabia, mas no mundo da produção cultural existem dois tipos de gente, as que fazem e as que falam. Eu e o Herbert saímos daquela reunião com um nome na cabeça, Jazz, Bossa & Blues.
Por uma série de motivos, os shows de Charlie Musselwhite e Otis Rush não aconteceram no Brasil naquele ano. O Charlie encontrei na estrada um par de vezes, mas o Otis Rush nunca. Uma pena, uma mancha na minha biografia.
Mas o projeto andou e entre algumas opções de artistas, apareceu o nome de Eric Gales. Irmão do não menos famoso, Little Jimmy King, Eric Gales nasceu em 1974 em Memphis,  berço do Rhythm and Blues. A partir dos quatro anos aprendeu a tocar guitarra com o seu outro irmão, adivinhem o nome?! Eugene.
Sabe o que isso significa? Nada. Nem sabia disso naquela época, mas gostava muito do Eric Gales e assim ficamos. Começamos um projeto de música como deveríamos, com a mão esquerda.
Como disse antes, trabalhava em um jornal e fui falar com o diretor se ele encampava a ideia de buscar patrocinadores ou mesmo bancar o projeto e o show acabou vinculado à empresa. Não vou entrar em datalhes porque eles são desagradáveis, não vou arrastar corrente, mas financeiramente não foi bom pra mim.
O show rolou. Fizemos barulho. O teatro Coliseu havia acabado de ser reinaugurado após anos de uma reforma mal feita e incompleta. Cortesia do senhor Beto Mansur, prefeito de Santos na época e agora deputado federal.
A prefeitura estava tomando porrada na imprensa e nada como um showzinho legal pra trazer prestígio à casa. É, às vezes a gente serve o diabo sem saber.


No dia 28 de julho de 2016, um timaço subiu ao palco do teatro em Santos, Eric Gales (guitarra e voz), Ugo Perrota (baixo) Papel (bateria) e Fred Sun Walk (guitarra). 
Para abertura não poderíamos ter colocado outro músico senão Mauro Hector. Outro canhoto e discípulo de Jimi Hendrix.
Gales havia acabado de lançar o álbum Crystal Vision e estava em uma fase atribulada, fazendo o uso de drogas que estavam afetando sua vida e sua música. Não que o show tenha sido ruim, não é isso, foi ótimo, mas os rolos incluiram prostitutas na porta do Coliseu e várias rodas de substâncias ilícitas... e eu tendo de lidar com tudo isso porque as outras pessoas envolvidas estavam preocupadas em tirar fotos e aparecer na imprensa. Fuck’em all.
Antes do show do Mauro conversavamos todos no backstage quando surgiu a ideia de ele entrar no final do show de Gales para uma jam e surgiu a dúvida do que ambos deveriam tocar. 
Eu que estava na roda mandei logo essa: “Os dois são díscipulos de Jimi Hendrix porque não tocam Red House?”. E assim foi. Na hora do “mais um” Gales chamou o Mauro e os dois tocaram juntos. 
O negócio começou suave como Red House costuma ser, um tremendo slow blues, mas logo descambou pra violência. Todo mundo sabe que o Mauro não sabe brincar. Logo ele chutou a canela de Gales que retribuiu e os dois acabaram duelando e fritando. Essas histórias de bastidores é que dão prazer nessa profissão. 


Após esse show inicial tenho feito de tudo, ao meu alcance, para colocar Santos na rota de shows de jazz e blues, nacionais e internacionais. 
Ás vezes me surpreendo como consegui fazer tanta coisa sem dinheiro. Não tenho paciência para vender “meu produto”, convencer as pessoas de que ele é bom... sabendo que é bom e deveria se vender sozinho. Produtor independente sofre nesse país, produtor independente de jazz e blues nem se fala. Não só de blues, de música boa mesmo, o que é um conceito elástico. Melhorando a afirmação: “de música que eu considero boa”. 
Produzi de tudo, a lista inclui Leo Gandelman, Big Time Orchestra, Big Joe Manfra, Ana Caram, John Pizzarelli, Traditional Jazz Band, Blue Jeans e Magic Slim, Rosa Passos, Gilson Peranzzetta, Kenny Brown, Freddy Cole, Peter Madcat, Os Cariocas, Lô Borges, Francis Hime, Bad Plus, Mart’nalia, Badi Assad, Izzy Gordon, Vânia Bastos, Daisy Cordeiro, Igor Prado Blues Band, Robson Fernandes Blues Band, Caviars Blues Band, Big Chico Blues Band, Sepultura, Big Joe Manfra, Big Gilson e Arnaldo Antunes, James Wheeler e Igor Prado Band, Ary Holland e Maria Diniz, Bruna Caram, Adriana Peixoto, Giana Viscardi, Lynwood Slim e Igor Prado Band, Tom Zé, Maurício Sahady e Ivan Márcio Blues Band, Maurício Sahady e Ivan Márcio Blues Band, Lurrie Bell e Big Chico, Hamilton de Holanda, Big Jam – Tributo a Celso Blues Boy, Harry, Orleans Street Band, Giba Byblos Blues Band e Jon McDonald, Camisa Listrada, Zuzo Moussauer Trio, Larry McCray e Banda, Lurrie Bell, Lazy Lester, Peter Madcat, Los Breacos, Claudio Celso e Orquestra Sinfônica de Santos, Igor Prado Blues Band convida Tia Carroll, Koko Jean Davis e Igor Prado Band, Raphael Wressnig e Igor Prado Band, Osmar Barutti Trio, Divazz, Jefferson Gonçalves, Artur Menezes, Filippe Dias, Vasco Faé, acústico, Ivan Márcio e Roger Gutierrez, Sax Gordon e Igor Prado Band, Big Time Orchestra, Big Chico Tributo a BB King. Dentro do festival Tarrafa Literária produzi Arnaldo Antunes, Tom Zé, Wando Doratiotto, Lobão e Hamilton de Holanda. E ainda criei um monte de projetos. Com muitos desses artistas trabalhei mais de uma vez.   
Hoje Santos tem seu próprio festival de jazz que está no quinto ano. Muitas pessoas de fora pensam que sou eu quem agita a produção, o festival pertence unicamente ao Jamir Lopes e Denise Covas. Apesar disso, gosto de pensar que sou um pouco responsável por isso, por ter formado esse público.
Por coincidência, dia 28 de julho, dia do meu primeiro show de blues na cidade, Eric Gales no Coliseu, o Santos Jazz Festival estréia a sua quinta edição em 2016. Um absurdo de longevidade num páis onde a única coisa que atinge mais de cinco anos é mandato de político malandro. 
É isso, dez anos de blues e jazz em Santos. Salve a música brasileira, salve o blues, salve o jazz, salve a Lei Rouanet, Salve o Ministério da Culutra. E FORA TEMER.





quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sobre a falta de água e a política cultural da Sabesp, um verdadeiro volume morto


Estamos vivendo talvez a situação mais grave de desabastecimento de água da história do estado de São Paulo. Uma calamidade.
O governo do estado evita ao máximo usar a palavra racionamento, mesmo que muitos moradores já passem por isso.
Mas o que é que esse assunto, amplificado pela proximidade da eleição, tem a ver com cultura? Explico.
Entre o final de 2011 e início de 2012 aprovei um projeto de um grande festival de música no Ministério da Cultura (MinC) pela Lei Rouanet.
Para quem não sabe, essa lei prevê a transferência de dinheiro de impostos das empresas aos projetos culturais e sociais aprovados, desde que atenda rigidos critérios.
De certa forma, é emprego de dinheiro público. Para ser aprovado, o projeto passa pelo crivo de “pareceristas” escolhidos a dedo pelo MinC que, além de julgarem a capacidade do produtor em viabilizar o evento, julgam também a relevância social e cultural do projeto.
Pois bem, o festival seria realizado em Santos, no local conhecido como Emissário Submarino, uma área que ficou abandonada por décadas, mas agora se encontra revitalizada. Na verdade, essa área abriga um equipamento da Sabesp, construído ali nos anos 70.
Seria realizado em três dias, cada dia com três shows. Entre as atrações, estavam previstas o que há de melhor na música instrumental brasileira, todos listados no projeto.
A novidade estava na proposta além da música. Decidi que não iríamos apenas pegar o dinheiro dos patrocinadores e empregar no festival. Além da boa música, daríamos um retorno maior à sociedade. Esse festival teria um viés de sustentabilidade.
Todos os itens da produção e a estratégia de divulgação seriam limpos. Ou seja, não seriam distribuídos panfletos para não sujar as vias públicas; não haveria a utilização de lambe-lambe; os impressos seriam em papel reciclado; na divulgação usaríamos bicicletas, balões e intervenções musicais em pontos de grande circulação; os geradores funcionariam com biodiesel e dispositivo anti-ruído; haveria pontos de coleta com lixeiras especiais para material reciclável; haveria banheiros químicos e acesso para portadores de necessidades especiais; recolheríamos, créditos de carbono relativos ao consumo energético do evento; doaríamos mudas de espécies de plantas locais para reflorestamento; firmaríamos parcerias com empresas especializadas em serviços de reciclagem que fariam o peneiramento do entorno da área do festival, visando a retirada de detritos. O objetivo seria entregar o local mais limpo do que encontramos. Ou seja, além do legado cultural, deixaríamos um legado ambiental. Uma total mudança de conceito. 
Nesse bojo, um item muito importante seria o espaço para educação chamado Tenda Sustentabilidade. Um espaço com cadeiras, equipamento de som e vídeo destinado a palestras educativas relativas ao uso consciente da água. Palestrantes iriam orientar a população a economizar água em seu dia a dia. Haveria debates sobre o porto de Santos, a qualidade da água das praias e as empresas patrocinadoras poderiam mostrar o que estariam fazendo para economizar água e a favor do meio ambiente.
No processo de captação, no início de 2012, usei todos os artifícios, argumentos e amizades possíveis. Inclusive conexões políticas, pessoas influentes aqui em Santos que simplesmente acreditaram na ideia e deram a maior força. Atualmente duas dessas pessoas ocupam importantes cargos públicos, mas na época não. A elas sou grato.  
Após alguns contatos, as portas da Sabesp foram abertas para apresentação do meu projeto. A reunião foi marcada para 16 horas, do dia 05 de dezembro de 2012, na sede da empresa, rua Nicolau Gagliardi, 313, em Pinheiros, São Paulo.
Eu e o coordenador do meu projeto subimos a serra do mar rumo a São Paulo e enfrentamos o trânsito problemático de cidade para chegar no horário marcado.
Fomos recebidos pelo responsável pela superintendência de comunicação da Sabesp que já entrou na sala de reuniões dizendo que seria muito difícil a empresa patrocinar o projeto, sem antes mesmo de ter ouvido e visto o material que eu havia levado. Se não uma falta de educação, uma total falta de profissionalismo. 
Após esse banho de água fria tentei manter a calma e argumentar que estava ali vindo de Santos e que ele poderia pelo menos tomar conhecimento do projeto. Esperava sensibilizá-lo durante minha explanação. Após alguns momentos em pé ele concordou em ouvir.
Detalhadamente expliquei todos os itens descritos acima, enfatizando o trabalho de conscientização sobre o consumo de responsável água. Após tudo isso, veja o diálogo que se seguiu:

Sabesp: Não vamos patrocinar porque esse tipo de evento não nos dá retorno.
Eugênio: Depende do tipo de retorno que você quer ter. Se for a conscientização da população, acho que dá sim.
Sabesp: A última vez que apoiamos um festival desse tipo a Sabesp foi vaiada.
Eugênio: Não seria talvez porque vocês fazem buraco e não tampam. Por coincidência, minha mãe de 79 anos está com o olho roxo por causa de um tombo em um buraco da Sabesp que estava aberto. Acho que a empresa deveria fazer uma autocrítica.
Sabesp: Além disso, gastamos muito dinheiro com uma campanha pra televisão com os cantores Fernando e Sorocaba que estréia nesse verão.
Eugênio: Olha, se vocês apoiarem o festival não acontecerá só esse ano. A campanha será sistemática e atingirá milhares de pessoas.
Sabesp: Infelizmente a Baixada Santista não é nosso foco no momento.

A reunião acabou fria. Deixei o meu material e fui embora, o trânsito do horário do rush de São Paulo me esperava. 
No dia seguinte enviei educadamente um email agradecendo pela reunião. Veio uma resposta cortês dizendo que se houvesse interesse, a empresa entraria em contato. Nunca aconteceu.

Algumas considerações:

1 – A Sabesp tem o direito a apoiar ou patrocinar quem bem entende, só não somos obrigados a concordar com os motivos e a forma de como isso é feito.
2 – Apesar do apoio de órgãos municipais, o festival nunca aconteceu por falta de captação. Então porque eu estou reclamando da Sabesp? O uso responsável de água seria a razão de ser do evento e a Sabesp foi convidada para patrocinador máster. Algumas das empresas que visitei disseram que entrariam na parceria caso a Sabesp patrocinasse. 

3 – O fato de a Sabesp ter sido vaiada em um festival aberto, não quer dizer que a culpa seja do festival. Uma das funções do profissional da comunicação seria detectar o motivo que levou a empresa ganhar essa imagem negativa. 

4 – Não sei quanto custou a campanha com o Fernando e Sorocaba para a TV, mas sei que com esse dinheiro a Sabesp poderia patrocinar muitos eventos ligados à sustentabilidade e que teriam muito mais efeito.

5 - É bom lembrar que no site da empresa, no campo Uso Racional da Água, consta o item “Conscientizar a população da questão ambiental visando mudanças de hábitos” em seu programa relativo ao meio ambiente. Não se trata aqui de desqualificar o trabalho feito pela Sabesp até então. Não sou técnico e nem tenho competência pra isso. O que está sendo questionado é o apoio da empresa em eventos culturais que não tocam sequer no assunto meio ambiente, quanto mais o consumo responsável de água.

6 – E o mais importante de tudo. Qual seria o “retorno” pretendido pelo burocrata da Sabesp senão a conscientização da população sobre a economia de água? Com palestras, ações promocionais, eventos educativos, tudo isso realizado em cima de um equipamento da Sabesp e em uma cidade que tem 100% de esgoto tratado. Há propaganda positiva melhor do que essa?
Para quem teve paciência de ler esse texto até o final, quero dizer que visitei muitas empresas e me correspondi com outras tantas na fase de captação. Gastei dinheiro do próprio bolso nessa peregrinação, e não foi pouco.
A maioria das empresas não se sensibilizou com o apelo da economia de água, nosso bem mais importante, e toda a estrutura sustentável do festival.
Hoje vivemos na iminência de um racionamento. Pelo menos no estado de São Paulo. Acredito que alguma coisa esteja errada nos setores de marketing e meio ambiente das empresas e duvido da sinceridade delas quando dizem que estão preocupadas com o meio ambiente.

Assumo aqui a minha incompetência por não ter conseguido sensibilizar os diretores de marketing dessas empresas.
Porém, por ser tratar de jovens que usam sapatênis da moda e supostamente deveriam ter a mente aberta, não esperava tanta frieza, desinteresse e desconhecimento sobre o tema sustentabilidade.  

PS: Sabesp, por favor, tape seus buracos. Reais e conceituais.