sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Lurrie Bell e Big Chico - 07/08/2012 - Studio Rock Café

Segundo show com artista estrangeiro no Clube do Blues de Santos, também no Studio Rock Café. Dessa vez com Lurrie Bell, o lendário bluesman de Chicago. Na ocasião, euq eu não sou bobo, também fiz uma entrevista com ele para um dos meus livros. Quem formou a gig foi o brother Big Chico, com quem já fiz muito show e muita treta, uma parceria de 15 anos. As fotos são do Leandro Amaral. A produção é do Mannish Blog.







Lynwood Slim e Igor Prado Band - 29/07/2010 - Studio Rock Café

Esse foi o primeio show com artista estrangeiro do Clube do Blues de Santos, no Studio Rock Café, um bar de rock aqui de Santos que já foi mais legal. Hoje é só banda cover. Mas consegui fazer umas paradas legais lá. Em breve posto mais. O show Lynwood Slim e Igor Prado Band trouxe Rodigo Mantovani (baixo), Denilson Martins (sax) e Yuri Prado (bateria). Ainda consegui uma entrevista massa que foi pro meu primeiro livro sobre o blues no Brasil. As fotos são do Marcos Rodrigues, o Marcão. A produção foi do Mannish Blog.







quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

The Exploited - 03/12/2022 - Hangar 110

 Foi uma noite memorável. Com punks pogueando por todo o recinto, o Hangar 110, em São Paulo, a cidade mais punk do Brasil. Uma noite para lavar a alma com música e o fígado com cerveja. Uma noite para assistir o show entre o bar e o banheiro. Fiz as fotos do gargarejo o tempo que consegui aguentar as cotoveladas e chutes. PUNKS NOT DEAD. Fotos: Eugênio Martins Jr














Claire Michel Group - 17/01/2023 - Teatro do Sesc Santos

 O Claire Michael Group aportou em Santos em plena terça-feira, dia 17 de janeiro de 2023 e nos salvou de uma noite de tédio. Claire é multiinstrumentista, toca saxofone, flauta e faz vocalizações jazzísticas que chamaram a atenção de Raul de Souza quanto o trombonista brasileiro passou sua temporada na França. Raul convidou o grupo pra gravar em seu álbum Elixir. Com a participação, Claire ficou devota de Raul. Quem não é. Esse show não foi uma produção do Mannish Blog. Só fiz as fotos.









segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Morrem Wolfman, James e Beck e o mundo da música perde três super guitarristas

Jeff Beck - Foto: Mandy Hall

Em menos de 20 dias o mundo da música perdeu três grandes guitarristas de blues: Walter “Wolfman” Washington, morto em 22 de dezembro de 2022, aos 79 anos; Steve James, 06 de janeiro de 2023, aos 73 anos e Jefff Beck, 10 de janeiro de 2023, aos 79 anos.
Tudo bem, podem dizer que estou forçando uma barra em colocar o Jeff Beck dentro da categoria “blues”, mas é que não consigo - e nem quero - dissocia-lo de sua origem e de seus primeiros álbuns, Truth (1968) e Beck-Ola (1969).
Discaços que reuniram jovens músicos da nova cena blues/rock do Reino Unido, o Jeff Beck Group. Em Truth, além de Beck na guitarra, o cantor de voz rouca, Rod Stewart; o baixista Ron Wood; o baterista Mick Waller; aproveitando que John Paul Jones estava no órgão Hammond, Beck assume o baixo em Ol’ Man River e Nick Hopkins no piano. Em Beck-Ola o time se repete com uma pequena diferença, Tony Newman assumiu a bateria no lugar de Waller. 
Beck é considerado um dos guitarristas inovadores da década de 60 ao lado de Jimi Hendrix, Eric Clapton e Jimmy Page, sem nunca ter tido o sucesso comercial deles. Curiosamente, Beck, Page e Clapton fizeram parte de um dos grupos mais lendários do rock, os Yardbirds Beck sucedeu Clapton e precedeu Page.
Nos anos 60, após as fases Yardbirds e Jeff Beck Group, Beck abriu suas asas para voar alto no fusion com dois grandes trabalhos, Blow By Blow ((1975) e Wired (1976), o primeiro produzido por George Martin, o quinto Beatle.
Em ambos os trabalhos Jeff Beck assombrou o mundo dos guitarristas e amantes da música com sua técnica que consistia e usar e abusar do tremolo e do botão de volume da sua Stratocaster, revolucionando e imprimindo voz própria ao instrumento. A informação que consta na conta de Jeff Beck no Twitter é que ele morreu de meningite bacteriana, rodeado por sua família, em sua casa no Reino Unido.

Walter "Wolfman" Washington - Foto: Greg Miles

Walter “Wolfman” Washington era uma voz forte em New Orleans, literalmente. Guitarrista cheio de soul e cantor que aprendeu ofício no coro da igreja de sua mãe.
Logo se apaixonou pelo blues, que o levou aprender as lidas guitarristicas e que o levou a trabalhar na banda de Lee Dorsey e com Irma Thomas. 
Nos anos 70 fundou a All Fools Band para tocar nas biroscas da velha big easy até sentir-se com musculatura para formar o Roundmasters, grupo que lhe traria a notoriedade como um dos baluartes musicais daquela cidade. 
Seu primeiro álbum, Rainin’ in My Heart, foi lançado tardiamente em 1981 por um selo obscuro chamado Help Me!
Alguns anos depois gravou o que seria sua série de discos pelo selo, também independente, Rounder: Wolf Tracks (1986), Out of The Dark (1988) e o excelente Wolf At The Door (1991).
Após essa fase, Wolfman gravou pelo selo grande Pointblank, entrando para a história de New Orleans, onde reinou por seis décadas, entalhando seu nome no blues. Tristemente morreu de câncer na garganta aos 79 anos.

Steve James - Art and Grit

Nascido em New York em 1950, Steve James não tinha nada a ver com os blues que apresentaria mais tarde. Seu primeiro contato com a música de Leadbelly e Josh White foi por conta da coleção discos de 78 rotações da coleção de seu pai. 
Apesar de ter aprendido sozinho os rudimentos da guitarra, foi quando mudou para o Tennessee e teve contato com os lendários Furry Lewis, Sam McGhee e Lum Guffin, além de aprender luthieria, foi que James subiu de nível, aprimorando a sua técnica de slide, composição, canto e presença de palco. 
Mas foi em Austin, no Texas, após assinar com o selo local Antone’s, que sua carreira começou a ganhar corpo, lançando Two Tracks Mind (1994), American Primitive (1995) e a obra prima Art and Grit (1996). 
E foi nessa época, na turnê do Art and Grit, que Steve James esteve no Brasil para uma série de shows, chegando até Santos, via Sesc, no projeto Sol Maior. 
Desses três grandes nomes, foi o único que tive a oportunidade de ver e ouvir ao vivo. Em 1997 ainda não mantinha o Mannish Blog e nem sonhava com Mannish Boy Produções. Mas o blues já corria azul nas veias. Fosse hoje não me contentaria em pegar apenas o autógrafo. Chegaria no malandro e falaria: “Eae Steve, vamos fazer uma entrevista?”. Se visse que a proposta fosse bem recebida já mandaria: “Ahhh, vamos fazer logo outro show”. Pena que não rolou, James morreu de câncer no cérebro.



sábado, 31 de dezembro de 2022

Maior patrimônio do Brasil, a cultura volta a ser protagonista a partir de 2023

 

Margareth Menezes (Ministra da Cultura) e Lula

Texto: Eugênio Martins Jr
Foto: Ricardo Stuckert

Quando Aldir Blanc Mendes nasceu, em 02 de setembro de 1946, no Rio de Janeiro, o mundo já estava se livrando do cheiro de pólvora da II Guerra Mundial e o Brasil do Estado Novo de Getúlio Vargas. A Terra era redonda.
Apenas 16 dias após o nascimento de Aldir a constituição de 1946 que assegurava o direito de voto para presidente, deputados e senadores foi promulgada. Desse lado do mundo, o Brasil começava a respirar ares democráticos. 
Mas a mesma Constituição, alardeada como liberal, trazia alguns problemas, restrição dos analfabetos ao voto, exclusão dos trabalhadores rurais aos direitos trabalhistas e reforma agraria incompleta, o que anos mais tarde traria sérios problemas ao presidente empossado legitimamente, João Goulart, deposto em 1964 por um Golpe de Estado apoiado pelas elites, meios de comunicação e Estados Unidos. Mas a Terra continuava redonda.
Na metade da vida, quando completou 37 anos, em 02 de setembro de 1983, Aldir Blanc já era compositor consagrado ao lado de seu principal parceiro, João, um dos maiores violonistas e cantores do Brasil, o Bosco. 
Ao longo da década de 70, João e Aldir não só compuseram canções, eles construíram a crônica diária dos brasileiros, com a sensibilidade de quem repara nas coisas da vida do cidadão comum. E mais, ressaltaram os personagens africanos e aspectos do folclore nacional: Incompatibilidade de Gênios, De Frente Pro Crime, Tiro de Misericórdia, Escadas da Penha, Mestre Salas dos Mares, Corsário, Linha de Passe, Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, Falso Brilhante, O Bêbado e a Equilibrista, hino que precipitou a anistia de centenas de brasileiros desterrados com o Golpe de Estado que depôs João, o Goulart, em 1964. Mesmo com os militares, a terra ainda era redonda.
Curiosamente, também em 1983, Mary Sá Freire passou a tomar conta do Vida Noturna, bar em Niterói homônimo à composição de Aldir e Bosco, cujos itens do cardápio eram batizados com os versos de O Bêbado e a Equilibrista¹. 
Casaram em 1988 e viveram até receberem juntos a notícia que estavam com covid-19, em 2020. Mary sobreviveu, mas Aldir Blanc não resistiu, morreu em 04 de maio.
Só que nessa época, a Terra, que sempre foi redonda, passou a ser plana e um dos maiores compositores brasileiros passou a ser um zé ninguém. Aldir Blanc não recebeu nenhuma homenagem do governo brasileiro constituído desde 2018. O governo de Jair Messias Bolsonaro.
Coube à classe artística apontar a falta que faria Aldir e celebrar a sua vida e obra. O mesmo desdém para com outros artistas foi observado ao longo do mandato de Jair terra plana: Beth Carvalho, morta aos 72 anos, em 30 de abril de 2019; João Gilberto, aos 88 anos, em 06 de julho de 2019; Morais Moreira, aos 72 anos, em 13 de abril de 2020; Elza Soares, aos 91 anos, em 20 de janeiro de 2022; Marilene Galvão (Irmães Galvão), aos 80 anos, morta em 24 de agosto de 2022; Rolandro Boldrin, 86 anos e Gal Costa, 77 anos, mortos no mesmo dia, 09 de novembro de 2022; Erasmo Carlos, aos 81 anos, em 22 de novembro de 2022. Nem uma menção, um tuit, uma lembrança, nada.

Presto aqui uma singela homenagem a todos esses grandes artistas.

É certo que nenhum deles era simpático ao governo que promoveu a maior, mais sistemática e virulenta guerra cultural contra seus artistas, cientistas e professores em toda a história do país. Mais do que isso, contra seu próprio povo.
Mas o silêncio da maior autoridade do país, aquela que tem por obrigação resguardar seus símbolos nacionais, e o maior deles é a cultura, já que dela deriva a identidade de um povo, foi estrondoso. O homem que vendeu a imagem falsa de patriota provou que odeia a cultura de seu país. 
A essa altura vocês se perguntam: “mais política, Eugênio?”. Sim amigo, a música brasileira é resistência. Ou você acha que foi fácil para o Cartola? Para Dona Ivone Lara? Para Clementina de Jesus e Elza Soares? E além do mais, é preciso estar atento e forte, não é verdade Gal? 
E, além de uma celebração a uma das músicas mais belas do mundo, feita pelo povo e para o povo, uma forma de arte comparada à literatura russa, às mais belas sinfonias europeias, ao jazz norte americano, esse texto também é um protesto.
Contra a política genocida do governo Bolsonaro e os políticos brasileiros em todas as esferas. Contra a elite econômica e oligárquica, mantenedora do status quo vigente no Brasil. Contra os cinco canais abertos da TV brasileira que sempre optam pelo lucro fácil e por manterem seus privilégios econômicos por meio do monopólio, apoiando governos e atos totalitários quando lhes convém. 
A maior emissora do país que detona governos em detrimento de seus interesses, incorpora sua programação ao grande balcão de negócios que virou a “indústria do entretenimento”.
Esses conglomerados de mídia ditam as regras de quem aparece ou não na programação voltada às massas, ignorando a pluralidade de cultura brasileira, uma das mais ricas do planeta. Com seus programas de auditório medíocres, direcionados apenas aos artistas sob os grandes contratos das gravadoras coligadas, girando a roda da fortuna do sertanejo agro. Mais do que pop, agro is money. 
Trata-se de uma homenagem aos artistas que construíram a nossa identidade cultural ao longo do século passado e ainda a constroem, diariamente. 
É uma exaltação ao choro, ao samba, à bossa-nova, ao samba-jazz, ao baião, ao maracatu, à MPB desse país continental. 
Muitas formas de arte musical, ritmos, batuques, moda de viola do interior paulista, guitarrada do Pará, funk carioca, xote do Nordeste, axé da Bahia, reggae e o blues - os dois últimos não são nossos, mas fazemos bem também.
Artistas que levam o nome do Brasil a todas as partes do planeta. A despeito de política, são os nossos maiores embaixadores. Mostram a outros povos a genialidade do brasileiro. Fazendo a música que cantamos e assobiamos todos os dias sem nos darmos conta, andando na rua, no ônibus, em casa. 
Aquela música que nos toca aos ouvidos e, principalmente, ao coração. Melodia, ritmo e poesia preenchendo nosso duro dia a dia.
 
Ao morrer em plena pandemia de covid-19, que interrompeu a história de milhões de pessoas ao redor do mundo, Aldir Blanc deu o nome a uma lei que beneficiou milhares de artistas brasileiros de todas as vertentes. 
Não sem muita luta. A Lei Aldir Blanc de apoio à cultura, apelido da lei nº 14.017, iniciativa da deputada Benedita da Silva, atendendo ao pedido da classe profissional que foi a primeira a ficar sem o sustento, quando as cidades e os estados pararam devido ao lockdown, proporcionou a muitos fazedores da cultura uma chance de subsistência, ainda que temporária, inclusive livrando alguns da fome. Literalmente. 
Foi apenas um começo de reação contra o governo que desprezou a saúde da própria população e usou um vírus para fazer sua política nefasta. 
O fechamento de casas de shows, teatros e bares deixou milhares de artistas relegados à própria sorte no biênio 2020/21.
Quando ensaiava uma recuperação em 2022, o setor recebeu outro golpe do governo que em quatro anos trocou cinco de vezes seu ministro da educação, quatro vezes o secretário de cultura e colocou um policial militar para cuidar das políticas culturais do país. 
As leis Aldir Blanc 2 e Paulo Gustavo foram vetadas pelo presidente Bolsonaro sob a alegação de que impactariam negativamente nas contas públicas, enquanto a Câmara dos Deputados comandada por Arthur Lira e o Senado por Rodrigo Pacheco se lambuzam na orgia do orçamento secreto. 
Diante dos bilhões distribuídos sem critério algum e que com certeza irão impactar a vida do país nos próximos anos, até partidos do campo progressista participaram da farra das emendas de relator. 

Com Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do Brasil anunciando a reconstrução do Ministério da Cultura (MinC) o povo da cultura respira aliviado.
Nos anos em que governou o Brasil, entre 2003 e 2010, Lula foi responsável pelo fortalecimento do MinC, colocando o cantor, compositor e músico Gilberto Gil no comando da pasta.
Em 2002 os recursos para a cultura somavam R$ 770 milhões, após o primeiro mandato de Lula o orçamento chegou a ser multiplicado por cinco, atingindo uma faixa próxima dos R$ 4 bilhões em 2015, já sob o governo Dilma.
Gil e sua equipe implementaram o CPF cultural: Conselhos de Cultura em cada cidade e estado da federação, compostos por agentes culturais da sociedade civil e dos poderes locais, discutindo a melhor forma do uso de recursos; os Pontos de Cultura, visando o mapeamento dos locais e iniciativas culturais que poderiam e deveriam receber recursos públicos; e finalmente os Fundos de Cultura, de onde deveriam sair os recursos propriamente ditos para a implementação das políticas nas três estâncias, municipal, estadual e federal.
Um plano inédito foi criado para divulgar e orientar como todas essas pontes seriam construídas entre a sociedade e as respectivas Secretárias de Cultura. Em alguns municípios as atividades já estavam bem adiantadas quando Jair Messias chegou com seu rolo compressor.
Aqui em Santos, minha cidade, todas as etapas para a implementação do CPF foram vencidas e continuaram funcionando independentes da diretriz de Bolsonaro. Graças à forte cena cultural e o entendimento do poder público local de que toda linguagem artística é patrimônio dos cidadãos santistas, hoje podemos contar com políticas sólidas que já contabilizam muitos resultados positivos. Mas isso não aconteceu nas outras oito cidades que integram a Baixada Santista. Muito ao contrário, as outras prefeituras, que já não faziam muita marola pela cultura, botaram de vez o remo dentro da canoa. Aqui na Baixada só o que tem valor é cantor neosertanejo.  
Agora reeleito, em seu primeiro discurso logo após o resultado das urnas confirmarem sua vitória, Luiz Inácio Lula da Silva acenou para a cultura como nenhum outro dirigente já o fez.
No seu primeiro discurso e no subsequente, em um trio elétrico na Avenida Paulista, Lula incluiu a cultura em suas falas oito vezes. 
E como sabemos, cultura também é educação. Lula falou em “cultuarmos livros em vez de armas”, “que o povo brasileiro quer acesso ao teatro, cinema e aos bens culturais”, porque, segundo ele, “a cultura alimenta a nossa alma”. 
Falou sobre o enfrentamento do racismo e preconceito. Sobre um Brasil onde brancos negros e índios tenham as mesmas oportunidades. 
E falou enfaticamente em recuperar o Ministério da Cultura e os conselhos estaduais de cultura. E mais, que a cultura seja uma indústria geradora de emprego e renda.
A futura ministra da Cultura, a cantora baiana Margareth Menezes, de 60 anos, que assumirá o MinC em 1º de janeiro irá administrar o maior valor já destinado para o setor, mais de R$ 10 bilhões.
Para o ano de 2023, R$ 5,7 bilhões já estão incluidos no orçamento. Mais os R$ 3,8 bilhões da Lei Paulo Gustavo e R$ 1,2 bilhão para a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), financiadora de ações na indústria do audiovisual.
Para se ter uma ideia do desmonte, em 2022 último ano sob o governo Bolsonaro, o setor recebeu R$ 1,67 bilhão. Um forte contraste entre visões antagônicas sobre a cultura.
O dinheiro reservado para o orçamento em 2023 não deve ser destinado apenas aos que possuem influência e estrutura para participar de editais, mas sim, deve ser disponibilizado na criação de pontes para que os pequenos produtores atravessem o fosso da desigualdade. Cabe aos agentes do setor cultural ficarem atentos e cobrando. Porque, afinal, a arte é rebelde, é desbocada, é transgressora, é abusada, é de protesto, é crítica, é reflexiva. É tudo isso ao mesmo tempo. E por isso é odiada e perseguida pelos que a desprezam.   
Ela pode ser linda, mas também pode ser feia. Pode vir do luxo ou do lixo (Joãozinho Trinta). A arte pode ser tudo. Só não pode ser covarde.

sábado, 8 de outubro de 2022

Chega ao Brasil a vida de Robert Johnson na versão de Bruce Conforth e Gayle Dean Wardlow

 

Bruce Conforth (Foto: arquivo pessoal)

Em uma noite sem luar um homem caminha silencioso por uma estrada escura de terra que divide duas grandes fazendas de algodão no Mississippi, sul dos Estados Unidos. O ar está tão seco e abafado e sua testa está tão suada que até o chapéu incomoda. 
O barulho do trem corta o silêncio da noite a quilômetros dali. O homem chega ao entroncamento entre os caminhos, senta em uma pedra e espera. 
Poucos se atreveriam estar ali uma hora daquelas. Ainda mais sendo um negro. Caso fosse descoberto, certamente seria linchado pelo simples fato de estar sozinho naqueles cafundós.
Entre um gole e outro de moonshine ele adormece. Acorda. Espera. De repente sente um frio na espinha, seu corpo todo desperta e ele vê um vulto se aproximando. Se assusta e se culpa por não ter notado a presença antes, pois tinha a visão plena dos caminhos que se cruzavam ali onde ele estava. Pensa em pegar a faca que usa para deslizar nas cordas do instrumento, mas desiste, o vulto está muito perto.
O jovem músico sabe quem é aquela entidade, ele está ali para esse encontro. O homem é Robert Johnson e a presença sinistra é o próprio diabo.
Robert entrega seu violão e a entidade afina o instrumento como ele nunca tinha ouvido antes. Inesperadamente uma lua vermelha aparece por traz das nuvens e o diabo fala com Robert sem abrir a boca: “Se você pegar de volta esse instrumento você terá total domínio sobre ele, mas a sua alma será minha”. Robert hesita, mas toma o instrumento das mãos do tinhoso e parte madrugada a dentro. 
Meses depois reaparece nas juke joints do Mississippi com músicas como Hellhound on My Trail, Me And The Devil Blues, If I Had Possession Over Judgment Day e Cross Road Blues, deixando todos assombrados com sua técnica e seu comportamento.   
Essa estória é muito boa pra ser desperdiçada e, se dura até hoje, ainda deve funcionar para vender discos. Muitos discos. 
Mas acreditar nela é a mesma coisa do que acreditar que no inferno inventado pelos pastores das igrejas pentecostais brasileiras a dívida pelo livramento pode ser saudada no PIX ou no cartão. A diferença? O diabo entrega o que promete. 
Falando sério. Acaba de sair no Brasil pela editora Belas Artes o livro sobre a vida do lendário Robert Johnson, A Música do Diabo. 
Apesar do nome, os autores Bruce Conforth e Gayle Dean Wardlow se esforçam para liquidar de vez com o mito da encruzilhada. 
O esforço é tanto que os autores contrapõem-se até a Sam Charters e Peter Guralnick, dois conhecidos pesquisadores do blues dos Estados Unidos. 
Para Bruce Conforth, PhD, autor premiado por African American Folksong and American Cultural Politics; historiador residente na The Robert Johnson Blues Foundation; curador fundador do Rock and Roll Hall of Fame and Museum e músico estudante de guitarra do Rev. Gary Davis, tornar a dura vida de Robert Johnson em folclore chega a ser uma afronta às histórias de muitos músicos afro-americanos que vagaram pelo sul do país, criando o blues no começo do século passado.
Bruce e Gayle esmiuçaram documentos antigos durante décadas até chegar às conclusões apresentadas na obra que agora chega ao Brasil. Conforth também foi uma das principais fontes consultadas no documentário exibido pela Netflix sobre a vida de Robert Johnson. 
Bruce e Gayle conversaram com contemporâneos de Robert Johnson até descobrir como ele desenvolveu a técnica musical que revolucionou a música do Século 20. 
A importância desse relato transcende as fronteiras de tempo e espaço. Em 2022 ainda estamos lendo sobre Robert Johnson e falando sobre ele. E mais, ouvindo sua música. 
Lançar luz sobre a sua história foi o que fez Bruce Conforth.  Pela primeira vez ele fala ao Brasil sobre o seu livro. Curte aí.

The Life and Music of Robert Johnson

Eugênio Martins Jr – Como foi sua infância musical e quando descobriu o blues e Robert Johnson.
Bruce Coforth - Cresci durante o renascimento do folk e blues que estava acontecendo em Greenwich Village, em Nova York, no final dos anos 1950 e início dos anos 1960. Comecei a frequentar no início da adolescência o famoso Izzy Young's Folklore Center na MacDougall Street, em Greenwich Village. Foi lá, e no Gaslight Cafe que ficava bem ao lado, que conheci pessoas como Son House, Mississippi John Hurt e outros. Tive a sorte de ter aulas de guitarra com Reverend Gary Davis. Então, desde muito jovem, tive um caso de amor com o blues acústico e tive a sorte de conhecer muitas das pessoas que o criaram.

EM – Qual a importância do blues e do resgate da história de Robert Johnson para a cultura americana em 2022?
BC - O blues acústico original é mais importante do que nunca porque há tantos músicos brancos que se tornaram estrelas do blues rock e tiraram a música de sua importância original. O Blues original foi a voz da experiência negra na América e, portanto, tem mais a dizer sobre nossa cultura do que a maioria das outras formas musicais contemporâneas.
Acho que foi incrivelmente importante resgatar a história de Robert Johnson, sua história verdadeira, apesar de todos os mitos que foram contados sobre ele. Porque sua verdadeira história fala sobre a cultura afro-americana, a história das relações raciais no século 20 e como um jovem negro na década de 1930 poderia criar seu próprio meio de vida.

EM – Como você vê a preservação da memória do blues nos Estados Unidos?
BC - Como disse antes, acho que a preservação do black blues original, acústico, é mais importante do que nunca porque corre o risco de se perder. Músicos brancos dominaram tanto o blues contemporâneo que provavelmente há muito poucos "fãs de blues" que sabem quem foi Mississippi John Hurt, ou quem foi Skip James, ou Henry Thomas, ou Charley Patton, ou Memphis Minnie, ou Ma Rainey. E se eles sabem sobre Robert Johnson, eles só conhecem o mito bobo sobre ele ter supostamente vendido sua alma para o diabo na encruzilhada. Eles realmente não entendem o que era aquela música ou o que era aquela parte da história americana.

A Verdadeira História da Lenda Robert Johnson
A MÚSICA DO DIABO
Por Bruce Conforth e Gayle Dean Wardlow
Editora Belas Letras

EM - Seu livro acaba de ser lançado no Brasil e já está fazendo barulho aqui entre os fãs de blues. Há uma carência desse tipo de leitura no Brasil. Você sabia que há uma forte cena de blues aqui?
BC - Eu realmente não fazia ideia de que havia uma grande cena de blues no Brasil, mas estou muito feliz em ouvir isso. A grande maioria dos africanos que foram trazidos para a América do Norte como escravos foram primeiro para o Brasil ou para o Caribe, então, em um sentido muito real, o Brasil é uma grande parte da história do blues americano.

EM – Seu livro levou algumas décadas para ser concluído e quebra alguns paradigmas em relação a Robert Johnson. Você desafia alguns pesquisadores no sentido de desmistificar sua história. Eu gostaria que você falasse sobre isso.
BC - Quando o livro estava sendo finalizado, eu costumava dizer que basicamente tudo o que pensávamos saber sobre Robert Johnson estava errado, então sim, concordo que acho que o livro quebrou vários paradigmas e desafiou praticamente todas as pesquisas que haviam sido feitas anteriormente sobre Robert Johnson. Ficarei feliz em falar mais com você sobre isso.

EM - No seu ponto de vista, ainda há muitas histórias para serem contadas?
BC - Tenho certeza de que há muitas histórias semelhantes que precisam ser contadas, mas o tempo está ficando curto - praticamente não restou ninguém vivo que estava presente quando tudo isso estava acontecendo, por isso é imperativo que documentemos o que pudermos antes que acabe. Também é importante ouvirmos os jovens artistas de blues negros para ouvir sua história e como eles se veem em relação à história do blues. Por exemplo: quão importante é para eles permanecerem fiéis à tradição?

EM - Viajando pelo interior do Mississippi, por todas aquelas cidades descritas por você, hoje ainda podemos encontrar o blues tradicional como nos primórdios? Depois de 100 anos de história?
BC - Infelizmente há muito poucos lugares onde o blues original ainda continua. Belzonia, Mississippi ainda é uma das poucas exceções onde o blues tradicional ainda vive. É onde Jimmy "Duck" Holmes ainda tem sua juke joint Blue Front Cafe e ainda toca na tradição do blues como Skip James. Existem alguns jovens músicos negros como Christone "Kingfish" Ingram, Blind Boy Paxton, Marquise Knox e Jontavious Willis que mantém esse sentimento vivo, mas infelizmente eles são a exceção.

Capa do boxset lançado pela Columbia no ínicio dos anos 90
dentro da série Roots Blues 

EM – Nos anos 60 houve um revival, que muitos gostam de chamar de “redescobrimento” do blues, e muitos artistas como Skip James, Son House, Johnny Shines e outros. Robert Johnson foi um desses? Eu gostaria que você falasse sobre isso.
BC - Robert Johnson foi um dos primeiros músicos de blues acústico que ouvimos por causa do álbum "Robert Johnson King of the Delta Blues Singers" que saiu em 1961, alguns anos antes de qualquer um deles.

EM – Robert Johnson é creditado com uma aura de mistério, mas na verdade muitos artistas se envolveram em histórias sinistras: Leadbelly foi preso por assassinato, Skip James era um contrabandista, Son House também se envolveu em crimes. O fato é que a vida desses homens não foi fácil. O ambiente era hostil aos bluesmen.
BC - Você está certo, mas o ambiente era hostil aos homens negros em geral. Para um homem negro do sul dos Estados Unidos, o ambiente era realmente muito ameaçador e desumanizante. É por isso que tantas dessas pessoas se tornaram músicos de Blues, porque eles queriam tentar escapar da vida difícil de ser um meeiro ou apenas outra forma de propriedade.

EM – O veterano Tail Dragger disse que os jovens negros nos Estados Unidos não estão mais interessados no blues. Eles só querem fazer rap hoje em dia. Você concorda?
BC - Eu nem me atreveria a falar pelos jovens negros. Como eu disse, o blues está em um estado lastimável e foi cooptado principalmente por músicos brancos, então se os jovens negros se afastassem dele porque não queriam ouvir músicos brancos tocando suas músicas, eu não os culparia. Mas realmente não posso responder a essa pergunta.

Rory Block umas das grandes estudiosas da obra de Robert Johnson

EM – Agora uma provocação. Podemos dizer que Robert Johnson, Muddy Waters e Jimi Hendrix foram os três inovadores do blues. Os três divisores. Com base nessas informações, podemos dizer que o próximo inovador está prestes a aparecer?
BC - Essa é uma pergunta interessante, mas acho que a resposta é não. É um grande equívoco pensar que a cultura é sequencial ou sempre se baseia em si mesma. Na verdade, a cultura pode se mover para o lado, para trás ou para algum lugar que nunca esperávamos, então realmente não temos ideia de qual será a próxima "inovação". A única coisa que podemos ter certeza é que haverá um.

EM - Há alguma coisa que você gostaria de falar e eu não perguntei?
BC - Como eu disse, fiquei feliz em responder essas perguntas e se você quiser mais esclarecimentos ou mesmo se tiver mais dúvidas. Agradeço seu tempo e esforço em acompanhar tudo isso.