quinta-feira, 10 de março de 2022

Agora no calendário oficial da cidade, o CLUBE DO BLUES DE SANTOS 2022 volta em abril

 Grandes nomes da música brasileira vêm a Santos para shows em vários pontos da cidade, principalmente no morro e na Zona Noroeste. O festival é produzido pela Mannish Boy Produções, Prefeitura e Sesc Santos

Nuno Mindelis

Line up – Em 2022 o Clube do Blues conquistou um lugar especial no coração dos santistas. Oficialmente incorporado ao calendário de eventos oficiais da cidade de Santos, o festival que já acontece há 14 anos, tradicionalmente em abril, vai trazer muita música para três regiões da cidade. 
Os shows serão com Nuno Mindelis, Sax Gordon e Igor Prado and Just Groove, Big Chico Blues Band (Tributo a Rod Piazza), The Headcutters, Marcelo Naves e Tigerman, Dog Joe e Vasco Faé. 

O evento - Os shows acontecerão no Sesc, Zona Noroeste e Morros de Santos, cobrindo áreas periféricas da cidade que são locais pouco contemplados por outras produções. 
Serão shows grátis e ao ar livre, celebrando a boa música a amizade e a vida.

Realização - A realização do Clube do Blues de Santos só é possível com parcerias fundamentais, o Sesc Santos, onde acontecerá o show do Nuno Mindelis, dia 01 de abril. E prefeitura de Santos, por meio de sua Secretaria de Cultura.
E ainda os vereadores Cacá Teixeira, Débora Camilo, Fabrício Cardoso, João Neri, Lincoln Reis, Telma de Souza e Zequinha, que destinaram emendas parlamentares para o fomento da cultura.    

Histórico - O mês de abril foi o escolhido em comemoração ao nascimento de Muddy Waters, artista revolucionário do blues mundial e o nome que sintetizou o blues rural do Mississippi na música urbana de Chicago, influenciando milhares de músicos ao redor do mundo, inclusive no Brasil, onde os músicos misturaram o blues com os nossos ritmos. 
O Clube do Blues de Santos já trouxe inúmeros artistas do estilo musical a cidade. Entre os brasileiros, Ari Borger, Márcio Abdo, Jefferson Gonçalves, Big Joe Manfra, Big Gilson, Robson Fernandes, Fábio Brum, Mauro Hector, Caviars Blues Band, Ivan Márcio, Giba Byblos, Igor Prado Band, e muitos outros. Entre os estrangeiros, Larry McCRay, Eric Gales, Shirley King, Tia Carrol, Peter Madcat, Jon McDonald, Sax Gordon, Raphael Wressnig, Kenny Brown, Aki Kumar, James Wheeler, Lynwood Slim.    


Nuno Mindelis - volta a Santos na sexta-feira, dia 01 de abril, com o show Blues Blues Blues, no qual retoma o gênero na sua forma mais tradicional. Acompanhado de sua banda de músicos exímios, Marcos Klis (baixo), Dhieego Andrade (bateria) e Henrique Mota (teclados), e tendo como convidado Marcelo Naves na gaita, a apresentação refletirá uma entrega irrestrita e muito relaxada ao gênero responsável pelo seu DNA musical. 
Temas de seus álbuns mais tradicionais, gravados com a lendária Double Trouble e de Angels & Clowns com Duke Robillard e banda, alternarão com clássicos do Blues, de Eric Clapton a BB King, Albert Collins e tantos outros. 
No dia 01 de abril o palco do Sesc Santos vai parecer um barzinho pequeno em Chicago ou New Orleans. O público conviverá por uma hora e meia com notas mágicas e inebriantes que transformarão a sua noite num antes e depois.


Vasco Faé - O trabalho solo de Vasco Faé é hoje uma referência nacional dentro do cenário Blues, ao completar 22 anos de carreira profissional, com três CDs solo lançados (Saudações, Manoblues e Voz-Gaita-Guitarra-Caixa-Bumbo), sendo um ao vivo, que é o atual lançamento de sua carreira. O Manoblues foi  pioneiro no Brasil a se arriscar na arte da coordenação motora ao tocar a gaita no suporte com outros instrumentos de maneira musical e não apenas figurativa, tendo influenciado toda uma geração de gaitistas desde o início dos anos 90. Gravou participações em incontáveis discos de artistas de gêneros variados, sempre com sua personalidade marcante e estilo inconfundível e é o autor das mais antológicas versões bluesy de músicas brasileiras, como o Trem das 11, Medo da Chuva, entre outras. Dentre todos os trabalhos em que participa estima-se que já realizou mais de 1900 apresentações pelo país. Nessas andanças criou seu "Caixa Automático" com o sistema "self-service" para venda de CDs que acabou se tornando parte do show. Dividiu palco com inúmeros artistas tais como Herbert Viana, Nando Reis, Dinho Nascimento, Pitty, Caetano Veloso, Simone, Samuel Rosa, Lobão, entre outros.


Big Chico e Banda - O cantor, gaitista e guitarrista Big Chico apresenta seu novo trabalho, uma grande homenagem a um dos músicos que pode ser considerado uma de suas maiores influências na harmônica, Ro d Piazza.
Nos Estados Unidos e no Brasil, Big Chico conviveu, tocou e arrancou vários elogios deste que pode ser considerado um ícone em seu instrumento: “ Chico has really got feeling and soul of the blues! His attack and tone are real! He’s kepping it alive.” Disse Rod Piazza após ouvir Chico tocar sua gaita.  Com o repertório que passa pelo blues tradicional de Chicago e o suingue, mais conhecido como Jump Blues – uma mistura de blues com elementos das big bands de jazz – Big Chico faz releituras de temas do grande Rod Piazza, conduzindo sua super banda aos instrumentais e clássicos do blues, levando o público ao delírio em um show extremamente dançante, cheio de energia e animação.



The Headcutters - Considerada uma das mais renomadas bandas de Blues do Brasil, com timbres e sonoridade dos anos 50 e 60, seguem a linha das lendárias gravadoras de Blues de Chicago. O nome vem como homenagem aos grandes ídolos do Blues: Muddy Waters, Little Walter e Jimmy Rogers que no começo dos anos 50 eram chamados The Headhunters, o nome The Headcutters vem como alusão a esses mestres que são a grande fonte de inspiração da banda. Com shows contagiantes, muito carisma e performances empolgantes, a banda vem conquistando o público por onde tem passado. Fundada em setembro de 1999, tem como formação quatro amigos de infância: Joe Marhofer (harmônica e vocal), Ricardo Maca (guitarra e vocal), Johnny Garcia (contra-baixo acústico) e Leandro Cavera (bateria). Fizeram quatro turnês internacionais, três na Argentina (2015, 2017 e 2018) e outra nos EUA (2014) 28 dias com 14 shows, percorrendo 5 estados e 18 cidades. Em outubro de 2021 farão nova turnê pela Europa. O ponto alto da turnê nos EUA fica por conta dos shows nos lendários Festivais: “King Biscuit Blues Festival” em Helena, Arkansas (Festival com mais de 40 anos de existência) e também no “Pinetop Perkins Blues Festival” em Clarksdale, Mississippi. The Headcutters foi a primeira banda brasileira a tocar em ambos os festivais, feito jamais realizado até então por brasileiros nos EUA. A banda participou de grandes festivais de Blues & Jazz, gravou e tocou com grandes nomes do blues nacional e internacional como: Bob Stroger, James Wheeler, Rip Lee Pryor (filho de Snooky Pryor), J.J. Jackson, Junior Watson, Jai Malano, Lorenzo Thompson, Phil Guy (irmão de Buddy Guy), Mud Morganfield (filho de Muddy Waters), Eddie C. Campbell, Kim Wilson, Billy Flinn, Gary Smith, Billy Branch, Carlos Johnson, Wallace Coleman, Joe Filisko & Eric Noden, Ian Siegal, Lynwood Slim, Mitch Kashmar, Igor Prado, Blues Etílicos, Greg Wilson, Nico Smoljan e The Silver Kings.



Marcelo Naves e The Tigermen - Marcelo Naves e Tigerman - Gaitista há mais de 22 anos, Marcelo Naves é hoje considerado um dos grandes gaitistas de Blues do Brasil. Com seu estilo comparado aos grandes gaitistas de Chicago, Naves vem conquistando cada vez mais o público de Blues e Gaita do Brasil e exterior. É mais um dos integrantes do CD "Blueseiros do Brasil - edição gaitistas", que foi a 1°Jam Session de grandes gaitistas, gravada e lançada no país. Já se apresentou ao lado de grandes nomes do Blues, como Deacon Jones, Mud Morganfield, Diunna Greenleaf, Tia Carrol, Jimmy Burns, R.J.Mischo, Willie “Big Eyes” Smith, Sugar Ray RayFord, Michael Dotson, James Weller, Eddie C. Campbell, Walace Colleman, Junior Watson, Mitch Kashmar, Aki Kumar, James "Super Chikan" Johnson, Nuno Mindelis, entre outros.


Dog Joe - A experiente banda de blues-rock e soul music da Baixada Santista Dog Joe já tocou com os bluesmen Lazy Lester, Lurrie Bell e dividiu o palco com Jon McDonald.
O show no Clube do Blues 2022 será um passeio por todas as épocas do blues e soul  music.
Com arranjos cheios de identidade, nos quais o quarteto Dog Joe mostra toda sua versatilidade em solos e grooves desconcertantes, o encontro promete ser uma das viagens no tempo mais emocionantes proporcionadas pela música.


Igor Prado e Just Groove - Há 17 anos na estrada, o guitarrista e produtor musical paulistano Igor Prado (único sul-americano indicado ao Blues Music Awards o Oscar do Blues americano) ao lado da banda Just Groove, mescla blues, soul, funk e música brasileira. 
No repertório, versões de peso pesados da black music de Isley Brothers, The Meters e até mesmo Tim Maia, mesclado com material autoral que fará parte do próximo álbum do guitarrista que será lançado no Brasil e nos EUA. O show conta com a participação do renomado pianista de Porto Alegre Luciano Leães que é referência na américa do sul no estilo Blues e New Orleans. Igor Prado (guitarra e voz), Junior Isidoro (bateria), Douglas Couto (baixo elétrico) e Herbert Medeiros (teclado).


Sax Gordon - “Sax” Gordon Beadle nasceu em Detroit em 1965 e sua primeira experiência musical foi na Carolina do Norte muito jovem tocando em Big Bands e acompanhando o lendário cantor de jazz Johnny Heartsman. Rapidamente conseguiu reputação entre os músicos locais com suas performances vibrantes. 
Alguns anos depois mudou-se  para Boston e já era um dos mais requisitados saxofonistas  trabalhando com artistas de peso do Blues & Rhythm Blues como: Duke Robillard, Jimmy Witherspoon, Rosco Gordon, Jay Mc Shann, Kim Wilson, entre outros. 
Participou de álbuns importantes de lendas como Jimmy Mc Griff, Pinetop Perkins, Billy Boy Arnold, Charles Brown, Clarence Gatemouth, Junior Wells, James Cotton, Johnny Johnson, Solomon Burke, Little Milton, Grant Green.
Em 1998 iniciou sua carreira solo lançando dois álbuns, “Have Horns Will Travel” e “You Knock Me Out” sendo indicado e ganhando vários prêmios na Europa e Estados Unidos.
Seu último cd “Extreme Sax” (2021) gravado ao vivo consolida sua fama e reputação ao redor do mundo como um dos maiores saxofonistas de Blues e Rhythm Blues em atividade!

Programação:
O1/04, sexta-feira, Sesc Santos
Nuno MIndelis, às 20h

17/04, domingo – Jardim Botânico 
The Headcutters, às 13h
Big Chico Blues Band, às 15h
Marcelo Naves e The Tigermen, às 17h (lançamento do CD) 

01/05, domingo – Lagoa da Saudade
Vasco Faé, às 13h
Dog Joe, às 15h 
Sax Gordon e Igor Prado and Just Groove - às 17h (show internacional)

Realização: Prefeitura de Santos, Sesc Santos
Produção: Mannish Boy Produções Artísticas
Apoios: Cervejaria CAIS, Cantina Di Lucca, Digo Design, Quintal da Véia, Tasca do Porto

quarta-feira, 9 de março de 2022

O blues californiano de Chris Cain rodou São Paulo em fevereiro

 

Chris Cain

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Dia 02 de fevereiro de 2022. Há uma semana chove muito no estado de São Paulo. Cidades inteiras alagadas, encostas escorregando em cima de casas. Uma tragédia. 
O guitarrista Chris Cain passou rápido para tocar com a banda do Big Chico em quatro gigs. A primeira, na capital, perdi. 
A segunda, no Mercado das Artes em Vinhedo, a 172 quilômetros da minha casa em Santos, fui. 
Não tenho carro, então peguei duas horas de chuva de moto pra trocar uma ideia com o coroa e ouvi-lo tocar. Uns vão dizer: “Louco”. Outros, “Yeah!”
O Mercado das Artes é um lugar rústico e bacana. Alto astral. Com uma galera que gosta de blues de verdade. 
Chris estava à vontade e em grande forma. Tocou e cantou muito. Queimou uma palha, bebeu cerveja e interagiu legal com a galera. 
Com 15 álbuns gravados, o mais recente, Raisin’ Cain, pelo selo Alligator, Chris é um guitarrista com um fraseado cortante, como uma faca afiada nas mãos de um açougueiro. Porém, elegante. Uma outra linguagem dentro do blues. 
Natural de San Jose, iniciou sua carreira tocando nos clubes da Califórnia nos anos 80. Logo gravou seu álbum de estreia, Late Night City Blues, que o levou aos palcos da Europa. 
Passou um tempo na gravadora Blind Big, onde gravou bons álbuns ao longo das décadas seguintes até assinar com a Alligator e lançar seu mais recente trabalho, o já citado Raisin’ Cain.
Por duas vezes, durante essa entrevista, ele se emocionou, a primeira quando falei que seu primeiro trabalho havia completado 35 anos. Ele não havia se dado conta disso. Parou, pensou e as lágrimas escorreram e ele falou: “Já faz tanto tempo que estou na estrada?”. 
Depois quando perguntei sobre sua relação com Jimmy Johnson, morto uma semana antes. Parece que sua relação com o veterano do blues era das mais íntimas e ele demostrou estar realmente abalado. Histórias do blues. De glórias e perdas.


Eugênio Martins Júnior – Born To Play, de seu álbum mais recente, Raisin’ Cain, é uma música autobiográfica. Você conta como seus pais te influenciaram. Como foi sua infância musical? 
Chris Cain – Minha infância musical foi linda. Meu pai me levava para assistir shows do BB King, Ray Charles, não perdia um. Ele era um grande colecionador de discos e me expôs à melhor música possível. 

EM – Vocês são de Memphis?
CC – Não, meu pai era da Luisiana e na adolescência mudou para Memphis onde cresceu, na Beale Street. Mais tarde se alistou na Marinha, servindo na Califórnia, onde conheceu minha mãe. Eu sou uma mistura. (risos)   

EM – Ele chegou a falar com você sobre a Beale Street? Como era aquele ambiente? 
CC – Ele me falava sobre os teatros. A primeira vez que estive lá tive recordações das coisas que ele me falava. Era como se eu já conhecesse o lugar. O que existia em determinados locais em sua época. O Handy Park, que é um parque em homenagem a um músico, W.C. Handy, hoje é uma espécie de Hard Rock Café, ou sei lá o quê. 


EM – Aqui no Brasil nós que somos os entusiastas do blues vivemos lendo livros e vendo documentários sobre os artistas, os locais e todas essas histórias e lendas do blues. Por isso sempre faço esse tipo de pergunta.
CC – Cara, quando era criança conheci Albert King, Freddie King, Ray Charles. Meu pai me levava para conhecê-los. Eu tinha muito respeito por aqueles senhores. Tive muita sorte em estar nessa situação em que muitos gostariam. 

EM - Onde você está vivendo atualmente?
CC – Moro em Copperopolis, na Califórnia.

EM – Como é a cena de blues lá?
CC – Não é muito agitada. É uma cidade pequena, um pouco fria. Quando estou em casa prefiro as coisas mais tranquilas. 

EM - Gostaria que falasse sobre Late Night City Blues que está completando 35 anos.
CC – Já faz trinta e cinco anos desde que gravei esse disco? Eu emprestei dinheiro para fazê-lo. (Nessa hora o cara começou a chorar). Fiz o disco porque precisava apresentar nos clubes para arranjar algum trabalho. E ele foi indicado para alguns prêmios. Só queria gravar um disco para arrumar algumas datas e ele acabou me levando a um festival na Europa. Sempre digo que tive sorte. Só queria gravar um disco.  

EM – São mais de quarenta anos viajando e tocando.  Você ainda se diverte tocando guitarra após todos esses anos?
CC – Me divirto mais do que nunca. Sinto menos pressão. Me preocupava com a banda, com o que as pessoas iam pensar sobre mim. E isso é uma loucura. Hoje faço o que tenho de fazer. Tenho a oportunidade de tocar com muita gente e conhecer muitos músicos.

Big Chico

EM - Por exemplo, vir ao Brasil e saber que aqui tem uma cena de blues ajuda a continuar fazendo o que faz?
CC – É inacreditável. Acabei de passar seis dias na Argentina e vi os garotos tocando blues. E eles vinham me ver. Isso vem acontecendo ao longo dos anos. Amo a vida de músico por causa disso.   

EM - Em Down on the Ground você fala sobre os problemas do mundo atual, as pessoas não se entendem mais. Uma música de protesto. Nos Estados Unidos e no Brasil governos neofascistas foram eleitos legitimamente. Como vê esse retrocesso. 
CC – Quando escrevi essa música parecia que ela havia sido escrita para as pessoas que moram na rua. Mas não era isso que eu estava pensando. Era sobre como o tratamento entre as pessoas não me parece certo. Mas você trouxe outro ponto de vista e eu adoro ouvir isso. Pode ser um monte de coisas. Estou feliz por você ter me perguntado sobre essa canção. Ela fala sobre o relacionamento humano.

EM – Sim e sobre como estamos nos tratando mal.
CC – Concordo, obrigado. 

EM - Como está a volta de shows com a pandemia ainda em curso?
CC – Comecei a tocar novamente e ver as pessoas e estou me sentindo bem por isso. Foi a mesma emoção que senti ao tocar pela primeira vez. Sentia falta do contato humano. Foi diferente. Estou agradecido porquê que isso está passando.  


EM – Você soube da morte de Jimmy Johnson? Gostaria que falasse sobre ele e sobre a importância para o blues. (mais uma vez nesse momento Chris Cain não se contém e chora copiosamente e eu tenho de parar a entrevista).
CC – Eu não o conhecia, mas já sabia de sua importância. Então eu estava em um Blues Cruiser* e fiquei sabendo que Jimmy Johnson estava naquele navio. E ele já não viajava muito naquela época. Eu acordei um dia e o encontrei e ele estava tomando um sorvete. Ele me chamou pelo nome e eu fiquei em choque ao saber que ele me conhecia. E
Era uma pessoa maravilhosa. Ele brincou comigo dizendo que ele tocava guitarra em três posições e eu tocava em seis. Ficamos juntos quando o navio ancorou em Porto Rico e ele me contou aquele monte de histórias. Em outra noite quando nos encontramos e estávamos pronto para uma jam ele percebeu que eu havia bebido demais e me chamou a atenção. Era como um pai chamando a atenção de um filho. Nos últimos tempos ele tocava nas tardes de sábado em sua casa com a esposa e quando eu aparecia em alguma mensagem ele dizia: “Hey brother Chris!”. Sempre me tratou com muita gentileza, era como um segundo pai pra mim.    

EM – Quem hoje te chama a atenção na cena do blues?
CC – Dos caras que já vi tocar Nick Moss é um deles. E Christone Kingfish, que é muito jovem, mas está levando a coisa adiante. 

EM – O baixista do Nick Moss, o Rodrigo Mantovani é brasileiro aqui de São Paulo. 
CC – Sim. O conheci no Brasil. Um ótimo baixista e uma grande pessoa.  

*Blues Cruiser é um cruzeiro tradicional só com artistas de blues que acontece há mais de trinta anos nos Estados Unidos e Caribe.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Jimmy Johnson e Sam Lay, o mundo do blues perde duas lendas. Giba Byblos conta como conheceu Jimmy Johnson.

 

Jimmy Johnson

As tardes de sábado nunca mais serão as mesmas. Morreu ontem em sua casa aos 93 anos, Jimmy Johnson, o veterano guitarrista de blues que nos anos da pandemia, 2020/21, se notabilizou pelas lives transmitidas todos os sábados diretamente de sua casa em Illinois. 
Durante essas apresentações, Jimmy cantava clássicos do blues e conversava com fãs no mundo inteiro.  
Também recentemente, aos 92 anos, lançou Every Day of Your Life, álbum lançado pelo Delmark, um dos selos mais importantes para o blues nos Estados Unidos.
Nesse trabalho, o jovem de 92 anos experimentou mais do que o habitual, flertou com fraseados de jazz, reggae e outros ritmos fora do blues. Ele mesmo conta que não queria soar como de costume: “I don’t want to sound like I did on any other record”, disse Jimmy ao repórter Alan Paul, do Wall Street Journal. 
Nascido no Mississippi em uma família de músicos - seu irmão Syl Johnson era músico notório da soul music e Mack Thompson baixista de Magic Sam – começou profissionalmente tocando piano na banda Slim Willis.
Influenciado por Buddy Guy e Otis Rush, Jimmy migrou pra guitarra, tendo tocado com os grandes do instrumento, entre eles, o próprio Otis Rush, Albert King, Jimmy Dawkins, Magic Sam e tantos outros.
Sam Lay – Dois dias antes, dia 29 de janeiro, outro veterano no blues fez a sua passagem, aos 86 anos, o baterista Sam Lay. No início trabalhou com as lendas Little Walter e Howlin’ Wolf, mas deixou sua marca como um inovador na banda de Paul Butterfield. Na sua passagem para a eletrificação, Bob Dylan usou Sam lay como baterista na famosa apresentação no Newport Folk Festival, em 1965. E também na gravação de um de seus álbuns mais notórios, Highway 61 Revisited. 
Sam Lay era figurinha carimbada nas gravações da lendária gravadora Chess de Chicago.

Sam Lay

O guitarrista brasileiro Giba Byblos conta como conheceu Jimmy Johnson em Chicago. Parceria que valeu alguns shows no Brasil. 

Foi em junho de 2012, na primeira vez que estive em Chicago, junto com o Fabio Basili, o Maurício Sahady, Chris Crochemore e Ivan Márcio. Estavamos no Kingston Mines, assistindo o Magic Slim. Eu estava com a cabeça do outro lado da rua, no Blues On Halsted, tinha visto o cartaz anunciando o Jimmy Johnson, um cara que sou fã desde moleque. Insisti com o pessoal até atravessarmos a rua. Entramos e nos sentamos. Que um dos amigos que citei me desminta se os cinco marmanjos não estavam de olhos marejados tamanho feeling que o Jimmy passava a cada nota.
O show acabou e eu fui tietar, ele foi gentil mas logo virou a cara, não estava muito a fim de papo. No ano seguinte voltei pra Chicago e o vi de novo no Blues On Halsted e fui tietar de novamente. Ele me olhou com cara de “você de novo”. Eu tinha a intenção de trazê-lo pra cá, assim como fiz com o Merle Perkins em abril do mesmo ano. O Jimmy foi duro na queda, falou que viria desde que eu pagasse 50% adiantado. A negociação evoluiu e eis que fui buscá-lo em Guarulhos. O bluesman mal humorado se revelou uma senhor super amável, de alto astral, tirador de sarro contador de histórias incríveis do mundo do blues e da sua vida pessoal. Se eu contar metade do que ouvi, capaz de virar livro! 
Desde então viramos amigos, voltei a Chicago várias vezes, frequentei a sua casa e conheci a sua família, que me tratou como se eu fosse de casa. Nos falávamos frequentemente e quando eu custava a ligar, ele reclamava, perguntava se não paguei a conta do telefone. A cada conversa, uma lição, uma dica musical, uma nova história. Não é à toa que o apelido dele era Bar Room Preacher! Me sinto privilegiado de ter usufruído dessa convivência e como prometi a ele, a cada show meu, sempre vai rolar um som do one & only Jimmy Johnson.  

Um noite de birita com Giba, Jimmy e um de seus sidemen

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Itahhaém abre a temporada de festivais de blues e jazz em 2022

 

Prefeitura de Itanhaém e Mannish Boy Produções reúnem 12 atrações para o primeiro festival de blues de 2022. O cast conta com os veteranos Sérgio Duarte, Mauro Hector e Big Chico, mas também com novos nomes da cena, Filippe Dias, Pedro Bara e Carla Mariani

Sérgio Duarte

A partir desta sexta-feira, dia 14 de janeiro a cidade de Itanhaém, no litoral sul de São Paulo vai se transformar na capital do blues do Verão Paulista. Uma parceria entre a prefeitura  e a Mannish Boy Produções vai levar a nata do blues nacional ao Estação Blues, festival que receberá 12 shows. 
O projeto será realizado na Rua Cesário Bastos, um dos pontos históricos de Itanhaém,. em frente a antiga estação ferroviária, espaço revitalizado em 2021, tendo como um dos principais objetivos de sua revitalização a criação de um novo espaço de eventos.
"Estação Blues, surge com objetivo de diversificar a programação cultural de verão do município, valorizando os pontos turísticos, e incentivando o turismo de eventos em Itanhaém”, afirma o Diretor de Cultura Tony Sheen.
Os shows do festival de verão acontecem às sextas e sábados, sempre a partir das 20h, entre os dias 14 de janeiro e 5 de fevereiro, com acesso gratuito.

Confira a programação completa:

14/01 – 20h – Big Chico
15/01 – 20h – Carla Mariani
             21h30 – Mauro Hector Trio
21/01 – 20h - Boogie Duo    (Kadu Abecassis e Fabiano Guedes )
22/01 – 20h – Sérgio Duarte
     21h30 – Eletric Miles
28/01 – 20h - Val Tomato
29/01 – 20h – Vasco Faé
     21h30 – Filippe Dias Trio
04/02 – 20h -  Baby Labarda
05/02 – 20h – Pedro Bara
     21h30 – Dog Joe

Baby Labarba

Big Chico

Boogie Duo

Carla Mariani

Dog Joe

Electric Miles

Filippe Dias

Mauro Hector

Pedro Bara

Val Tomato

Vasco Faé


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Talento pra confusão

Não toco
Não canto
As coisas que sinto no meu coração

Nunca decifrei o segredo de um violão
As notas não fazem sentido, essa construção

Não choro
Não rezo
E pra deus eu não peço perdão

Só venha andar ao meu lado
Se tiver o corpo fechado
Senão você pode errar
E acabar no chão

Na roda de samba eu nunca cantei um refão
Na falta de alguém eu vivo com um copo na mão

E nem que o sinal na esquina me cobre a atenção
Na lida da vida eu ando pela contramão

Nunca me expressei em um verso de uma canção
E tudo que eu faço ou falo só traz confusão

Só venha andar ao meu lado
Se tiver o corpo fechado
Senão você pode errar feio
E acabar no chão

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Roosevelt Collier e a slide da cura

  

Roosevelt Collier  - Rio das Ostras Jazz e Blues 2021 - Palco Costazul

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

A forma como Roosevelt Collier fala contrasta com a forma como ele toca sua lap steel. No trato, Collier, o grandalhão de calça jeans, camisa de flanela e boné, é maneiro, fala baixo, é bem humorado e educadíssimo. Quase um hippie. 
No palco, o cara se transforma. Ele e banda tocam alto. Bem alto. Muito alto mesmo.
A própria estrutura do seu instrumento, feito de corpo e cordas de aço, ajuda. Somado a isso, decibéis e mais decibéis em amplificação e o estrago está feito.
Essa foi mais uma entrevista coletada na edição de 2021 no festival de Rio das Ostras. Perdi o primeiro show de Collier no palco da Lagoa de Iriry, mas assisti o segundo, no  Costazul. O show teve ainda a participação do Eric Gales pra acabar de deixar todo mundo surdo de vez. 
Nascido e criado dentro de um igreja batista e sulista como integrante da banda Lee Boys, Roosevelt Collier se tornou um dos grandes sliders do sul dos Estados Unidos. 
Para quem não sabe, slider é aquele músico que toca um  instrumento de corda qualquer, deslizando um aparado de aço ou vidro pelas cordas. E isso é bem legal. Os malacos do velho blues do Mississippi que começaram com essa história,  Blind Willie Johnson, Casey Bill Weldon, Tampa Red, Blind Willie McTell, Charlie Patton, Blind Boy Fuller e o grande Leadbelly. 
Parece que estamos contando uma história antiga, mas não é isso. Nesse estilo musical, as habilidades atravessam as gerações o que permite sua “lapidação” e, como consequência, sua evolução.
Somente em 2028 Collier lançou seu primeiro e excelente álbum, Exit 16, um petardo com 10 musicas autorais produzido por Michael League, fundador da banda Snarky Puppy, com quem Collier já havia trabalhado no projeto Bokanté – A World Music Star Band.


Eugênio Martins Júnior - Você declarou que acredita que a música tem o poder de tocar e curar as pessoas. John Lee Hooker gravou um álbum chamado The Healer com esse mesmo sentido. Gostaria que falasse sobre esse poder do blues.
Roosevelt Collier – Antes de qualquer coisa. Obrigado. Minha música vem de uma origem espiritual. Eu sou da igreja. Para mim a música sempre será feita para tocar o coração de alguém. Ajudar a alimentar as mentes. Ajudar a fazer bem. Ajudar o poder de cura que cada um tem. A música pode ser muito poderosa se você souber canalizar essa energia. Transmitir esse poder para o seu público. Seu instrumento sua voz. Veja, se alguém do público estiver em um dia ruim, talvez dentro daquela hora que esteja escutando minha música eu posso fazê-lo esquecer os problemas. Essa pessoa vai desfrutar somente da música. Essa é minha missão.  

EM - É por isso que o teu apelido é The Dr?
RC – (Risos) Sim! Cara! Bem, como muitos de meus fãs me chamam de The Doctor desde o começo, desde o tempo que eu tocava na banda da família The Lee Boys. Remonta de um festival na Flórida, em 2005. Alguns da plateia gritavam: “Playing for me Doctor. Heal me Doctor”. E eu não fazia ideia do que era aquilo. Com quem eles estavam falando? Mas em todo festival aquilo continuou. E o pessoal da banda disse que eles estavam falando comigo. Foi assim que o apelido apareceu.    

EM - Como foi a sua infância musical passada na igreja?
RC – Passei toda a minha vida dentro da igreja. Nasci e cresci em uma grande família e todos tocam ou cantam. Meu avô era um pastor, um líder em uma igreja. E todos os seus filhos eram da música. Minha mãe cantava. E meus tios me ensinaram música e a todos os meus primos. Então, passei toda a minha infância na igreja aprendendo como tocar a lap steel. 

EM - Foi lá que você teve contato com a lap steel. Fale sobre esse instrumento, pouco conhecido aqui no Brasil.
RC – Bom, espero poder voltar e introduzir esse instrumento no Brasil. Trazê-lo às escolas para as crianças. Ensinar a tocar, a ouvir. É isso que eu faço. Adoro tocar e levar a música nas escolas locais. Esse instrumento é originário do Havaí. 

EM - Li que SRV foi a sua primeira influência da guitarra. Mas existem grandes sliders como Earl Hooker, Elmore James, Dickey Betts e Duane Allman. Gostaria que falasse sobre essa grande escola. Você se sente parte dela?
RC – Cara, você fez uma boa pesquisa. Quando estava no ensino médio meu amigo Andy Cole, que era um jovem blueseiro, fã de BB King. Ele me deu uma fita onde estava escrito SRV e falou para eu ouvi-la. E o cara da fita arrasava. Eu perguntei o que SRV significava. Meu deus! Ele me introduziu ao blues. Mas isso foi natural porque o gospel e o blues são bem parecidos. Tocávamos a mesma coisa na igreja. Então, esses caras já tocavam slide em suas próprias igrejas. Veja, a nossa igreja teve origem em 1903. E a steel foi introduzida em 1930.

The Dr e Eric Gales

EM – Os Allman Brothers, Dickey Betts, Derek Trucks, todos vieram do sul.
RC – Sim, eles são da Georgia. Nossa igreja é baseada no sul. É muito profundo. Eu já toquei com o Greg e o Allman Brothers. Não conheci Betts e nem Duanne, mas sou fã de ambos. Derk Trucks é o cara. Para aa nossa geração ele é o rei da slide. 
      
EM - Florida não é exatamente um estado com tradição no blues como o Mississippi ou Tennesse. Mas há um forte segregacionismo que faz com que o blues e gospel ganhe contornos de música de resistência. Poderia falar sobre isso?
RC – Há uma coisa que preciso te dizer. As pessoas não conhecem a Flórida. Existe muito blues na Flórida. Ela faz parte do sul profundo. Não é tão conhecido quanto o Mississippi. É claro que o blues desses lugares que você citou é mais conhecido. Mas um dos juke joints mais antigos está na Flórida, em Tallahassee, o Bradfordville. É claro, as pessoas de fora não o conhecem. Mas ele sempre esteve lá. Estou feliz em te dizer essas coisas. 

EM – Eu também, aprendo muito com essas entrevistas. 
RC – Tenho de lhe dizer uma coisa. Eu agradeço por poder essas perguntas e poder divulgar a nossa música. Para mim, vir ao Brasil e tocar é uma grande coisa. 



EM – Exit 16 traz uma grande mistura de ritmos. Muitos muito grooves, mas o Hammond traz a atmosfera da igreja. Gostaria que falasse sobre isso.
RC – Exit 16 é meu primeiro disco. É quem eu sou. De onde venho. E para onde vou. Minha raiz é a música gospel. O Hammond é muito presente nesse álbum, ele ressalta a minha voz. Ele dá o som orgânico que eu preciso. Muito groove, com um som gospel, mas não o gospel tradicional. Tudo nesse disco foi feito da forma mais crua e pura que conseguimos.    

EM - Você fazia ideia que existia uma cena de blues brasileira?
RC – Bem, sabia que na América do Sul havia pessoas que tocavam blues, especialmente no Brasil. Já havia ouvido falar e até conheci alguns músicos. Não lembro os nomes. Mas eles tocavam blues muito bem. Não conhecia da cena no país. Estou totalmente surpreso com esse país. Preciso voltar mais vezes e explorar melhor o Brasil. A cena musical local. Tocar com as pessoas daqui. Vocês têm um povo maravilhoso aqui que eu quero conhecer mais.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Azymuth é ouvido ao redor do planeta por 50 anos

 

Alex Malheiros e DJ Nuts - Palco Costazul

Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Os navegadores do passado se orientavam pelo azimute em suas grandes jornadas pelos mares do planeta, sempre baseados no horizonte à frente.
Isso nem sempre garantia uma viagem tranquila, pois, como diria o poeta, “o mar da história é agitado”.
O caminho traçado pelo Azymuth, grupo brasileiro de jazz criado no começo dos anos 70 por Roberto Bertrami (teclado), Alex Malheiros (baixo) e Ivan Conti (bateria), compreende um mar de histórias, entre perdas e glórias.
Desde o começo glorioso e a parceria com Marcos Valle que valeu o nome ao grupo, às excursões e gravações com a nata da música brasileira ao longo das décadas seguintes, Clara Nunes, Hyldon, Tim Maia, Airto Moreira e Flora Purim. 
Com a primeira perda de um integrante, Bertrami, no final dos anos 80. E a segunda, Malheiros uma década depois. 
À glória dos anos 90 com o reconhecimento pelas bandas gringas da  nova onda de acid jazz – Jamiroquai, Incognito e Brand New Heavies – pelo trabalho pioneiro do Azymuth, este sim, especialista em fundir o nosso jazz com o deles. É fusion que diz? 
Também nessa época, muitos DJs internacionais seguiram as manhas do Azymuth em suas próprias jornadas, criando sons e amealhando plateias ao redor do planeta. 
À volta por cima com a banda completa novamente gravando a fazendo shows até a perda definitiva de Bertrami em 2012.
À entrada de Kiko Continentino (teclado) trouxe a brisa marítima de volta ao som do grupo. 
E foi em frente ao mar, na praia de Costazul, que assisti à incrível apresentação do Azymuth com o DJ Nuts no festival de Rio das Ostras, em novembro de 2021. Segundo Malheiros, eles não haviam nem ensaiado para esse show.
Com meio século de história, o Azymuth tem essa capacidade, a de reunir uma plateia de jovens. 
Percebi que após o show, toda uma galera que estava na frente do palco saiu dali para falar com o Mamão, o Alex e o Continentino. Inclusive, músicos de outras bandas que estavam ali, hipnotizados, assistindo o show no cockpit, integrantes da banda do Jon Cleary e Delvon Lamarr
Essa entrevista ocorreu no dia seguinte ao show. No café da manhã da pousada onde eu e o Alex estávamos hospedados.


Eugênio Martins Júnior – O que achou do show de ontem?
Alex Malheiros – Foi uma volta retumbante. Gostei muito. Foi a primeira vez que a gente tocou após todo esse tempo de pandemia. A gente fazia as coisas em casa, mas não é a mesmo coisa. Com público é outra coisa. Quanto mais com um público bacana. Só tenho a agradecer.

EM – Quantos ensaios precisaram pra voltar à velha forma?
AM – Esse era o nosso problema. Não tivemos ensaio. Passamos só uma música, eu na minha casa, o Kiko Continentino e o Mamão, à distância. A trilha não fica certinha, mas deu pra fazer. E acabou que não a tocamos. Fomos lembrando as músicas e tocando. Iníciamos numa boa e no meio do show já estava ótimo. 

EM – Hoje estão todos no Rio?
AM – Não exatamente. Eu moro em Niterói, na região oceânica, que é em frente a Cobacabana. O Mamão mora num lugar mais perto de Rio das Ostras que é um lugar chamado Saquarema. Lá é o lugar do surf e do volei. 

EM – O Azymuth é uma banda que surgiu no final dos anos 60 e começo dos 70 no Rio de Janeiro, quando ainda era chamada de cidade maravilhosa. Esse Rio de Janeiro ainda inspira vocês a fazer essa música ou está muito barra pesada.
AM – Tá barra pesada. O Rio de Janeiro é outra coisa. Mesmo morando em Niterói eu saí garoto para tocar nas boates do Rio, no Beco das Garrafas. E veio a turma de Minas, o Milton Nascimento, o Wagner Tiso, Pascoal Meireles. Éramos todos da mesma idade. Era outra coisa, a gente trabalhava até as quatro da manhã em uma boate, em outra, uma escola. Dava pra andar, por lá. O estado do Rio de Janeiro caiu muito. Com o aumento da densidade demográfica é normal que isso aconteça, é no mundo todo. Não há muito saída.

EM – A saída é a condição de vida melhorar para todos e não só para alguns.
AM – É o que que gente sempre espera e não acontece. O Brasil tem um potencial maravilhoso e fica na mão das pessoas de qualquer maneira. Tanto de um lado quanto do outro as pessoas aproveitam. Já é uma tradição desde o Império. A dilapidação da nossa riqueza. Respeito Portugal, é lindo, maravilhoso, mas o nosso ouro foi embora. Mas a gente não vive de ouro. A gente vive de esteio, de segurança, compartilhamento, e isso foi acabando. Eu sou um socialista por natureza, de coração. Fui para a França e fala: “Viva l',anarchie!”. Meu sogro me falava pra não falar aquilo. Como não? É como os índios vivem. Em completa união. Tem o chefe, mas ele é o tutor e não o mandatário. Não é o coronel.

Ivan "Mamão" Conti

EM – Nem o capitão.
AL - Nem o capitão. Capitão é pouco. Três estrelinhas. Eles têm essa onda, né? “Ah eu sou mais do que você”. Como é que você é mais do que um cientista que descobre as vacinas? É muito duro, na idade que estou, passar por um mundo desse. Meu pai já falava que não conseguia ver melhora. Eu já passei da idade dele e será que não vou ver? Ontem a Marieta Severo na televisão disse “Será que eu, com a minha idade, ainda vou ver a coisa ficar bacana novamente?”

EM – Podemos voltar na política daqui a pouco. O Azymuth parou um tempo, até pela sua saída. E nos anos 90 um movimento de da bandas européias de acid jazz colocou o nome do Azymuth em evidência novamente. Vocês voltaram e não pararam mais. Gostaria que falasse sobre isso.
AM – Foi muito bom ser reconhecido pelos DJs jovens. O pessoal que conhecia o Azymuth desde garoto. A data de 1975 foi do primeiro disco, mas a gente havia feito muitas outras coisas. O nome vem do disco do Marcos Valle, era dele, mas na verdade era Orquestra Azymuth. Era um conjunto de estúdio. Nós nos apropríamos do nome, numa boa. Pedimos à gravadora, como se o Marcos fosse o nosso padrinho. Quando chegou nos anos 90 essas gravadoras indie e os DJs adotaram o Azymuth novamente. Porque tem uma liguagem fácil. É bom de samplear. Os caras se apaixonaram. Essa tendência fez com que fossemos conhecidos por cada vez mais jovens. Ontem eu fiquei impressionado. Ontem o Stênio, o produtor do festival chamou a nossa atenção para o público de jovens que estava lá na frente. Nós já estamos vendo isso há um tempo. Chegamos na França em 2016 e já havia um pessoal jovem esperando a gente em uma boate famosa, a New Morning. E eles cantavam! 

EM – Você diz que é simples mas quando vocês começam a quebradeira não é bem assim.
AM  - (risos). A irmã do Kiko que mora na Alemanha diz que é uma música xamânica. É verdade, a gente está sempre puxando coisas do astral. O lance espiritual, transcendental. Tem gente que não acredita. Mas isso é muito bom para o Azymuth.

EM - Ontem eu estava na frente do palco fotografando e vi muitos jovens chegando ali, mas logo após o show terminar muitos foram embora. Ou seja, eles estavam ali só por causa do Azymuth. 
AM – Isso é muito legal. Ontem encontramos com o baterista norte-americano, de New Orleans, que já conhecia o Azymuth. E ficou ali reverenciando o Mamão. Isso é importante porque o tempo fez com que a coisa não morresse. 

EM – Como surgiu a ideia de chamar o DJ Nuts?
AM – Já havíamos tocado com ele. Nos encontramos nos Estados Unidos em um festival em Los Angeles. De lá para cá fizemos várias coisas. 

EM – E essa procura pelos DJs e gravadoras abriram as portas para o Azymuth na Europa?
AM – Com certeza. Na verdade nós já tínhamos discos internacionais, lançamos nos Estados Unidos, Japão, pela Fantasy, famosa no cenário jazzístico. As músicas do Azymuth não são complicadas, já li críticas importantes que a nossa música é simples, mas especial. Entendeu? É única, nossa. E gostamos de dar essa oportunidade de todos usufluirem dessa simplicidade.

Kiko Continentino

EM - O quê a entrada do Kiko Continentino acrescentou ao Azymuth?
AM – A linguagem é a mesma, mas trouxe algumas novidades. Eu e Mamão somos de uma época diferente. Começamos nos anos 60 e ele começou a estudar o que a gente fazia, mais as coisas naturais da época dele, nacionais e internacionais. E como todo jovem assimila as coisas com muita facilidade. Quando éramos jovens nós também procuramos nosso espaço, por isso fomos parar na bossa nova. 

EM – Voltando a falar sobre o Brasil, estamos tentando retomar a vida, mesmo com essa tragédia que está acontecendo, cinco milhões de mortos pela Covid-19 ao redor do mundo e mais de 610 mil no Brasil. O brasileiro não contou com nenhum apoio do Governo Federal. Como você analisa essa situação? E também como vê o tratamento do governo com a cultura? 
AM – Os caras não se importam com o outro. A cultura pra eles não existe. Acho que temos de respeitar todas as opiniões. Como disse antes, tem a ver com o anarquismo, de envolver a tudo e a todos, de não ter um chefe. A vida é tão curta. Ontem mesmo perdi um amigo, um jornalista com 55 anos. A gente fica triste de ver tantas perdas. O mundo mudando totalmente. Era para o ser humano ter aprendido tanta coisa, mas ainda não alcançou esse momento sublime, o de entender que tem de haver uma harmonia. O homem não precisa de ninguém mandando nele, dessa hierarquia. Isso é coisa do passado. Com todo o respeito à esquerda, direita, centro, todos almejam o poder. Isso é muito triste no ser humano, ser poderoso. “Eu sou o poder”. 

EM – Como estão as composições novas?
AM – Mexo muito com tecnologia, estúdio, conheço alguma coisa. A minha filha que é cantora me ajuda. Ela já tem um nome lá fora, aqui ninguém conhece, Sabrina Malheiros.