Morreu ontem, segunda-feira, dia 17 de fevereiro, o grande pianista de blues, Henry Gray, aos 95 anos.
Nascido em Baton Rouge, cidade próxima a New Orleans, onde tocou em festivais e clubes, ganhando a admiração dos moradores locais.
Na época que passou em Chicago 1946-1968, Gray trabalhou com os maiores artistas de blues de todos os tempos, Jimmy Reed, Howlin’ Wolf, Muddy Waters, Junior Wells, Jimmy Rogers, Buddy Guy, Little Walter, Morris Pejoe.
Além de tocar em festivais importantes nos Estados Unidos, como o New Orleans Jazz and Heritage, onde atuou 39 vezes, King Biscuit Blues Festival, Chicago Blues e outros, Gray viajou por Japão e Europa, onde tocou no Montreux Jazz Festival.
Adepto do blues e do boogie woogie, sua “pegada” era autêntica, sua mão esquerda martelava as teclas com paixão e precisão.
Uma curiosidade, foi convidado por Mick Jagger para tocar no seu 55º aniversário comemorado em Paris.
Em 2013 Gray tocou no Brasil, em um festival em Poços de Caldas, quando pedi uma entrevista, mas a má vontade e amadorismo da organização do evento fez de tudo pra eu não falar com Gray e Tail Dragger. Uma pena, hoje teríamos esse registro.
Nos dias 11 e 18 de janeiro o Barracão
Antiguidades e Arte, em Casa Branca, Brumadinho-MG, região famosa pelas
belezas naturais, recebe a sétima edição do Projeto Blues Verão
Auder Jr
Abrindo a programação, dia 11 de janeiro, “Auder Jr. & Blues Friends” prometem uma noite regada a clássicos do blues e músicas autorais. Auder Jr., blueseiro de Minas Gerais e integrante da Audergang, banda de destaque no cenário musical, se apresenta com Brazza (contrabaixo) e Túlio Bastos (bateria). No repertório, Freddie King, Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan, BB King, Muddy Waters e muito mais.
No dia 18 a banda mineira Soul Much Blues apresenta clássicos dos dois gêneros da música norte-americana que dão nome à banda. No repertório, Etta James, Koko Taylor, B.B. King, Eric Clapton, Joss Stone, James Brown, Jimi Hendrix, entre outros. O grupo é formado por Laura Lima (voz), Artur Santos (guitarra), Leo Lima (teclado), Rod Vaz (baixo) e Benny Cohen (bateria).
“Nosso objetivo é fortalecer a cena do blues em Minas Gerais. A proposta é ousada, pois os shows acontecem no Barracão de Antiguidades, ambiente único, que remete a atmosfera dos famosos juke joints americanos, além da gastronomia e bar temático”, diz Marcos Kaoy, idealizador do projeto feito em parceria com a Marques Produções, comandada pelo guitarrista e produtor cultural Bruno Marques.
Gastronomia - A gastronomia também será um dos destaques do festival. Inspirada na culinária norte-americana, os visitantes poderão apreciar o Mississipi Burning (costelinha Creole, Frango Cajun e Batatas Doces fritas) e o Gumbo (guisado vegetariano sweet spice com legumes e verduras). O cardápio será elaborado pelo chef Luigi Russo, um dos fundadores do Restaurante Coletivo em Casa Branca.
Arte - Vai rolar ainda a mostra Mississippi e Seus Mojos, com foco no blues, de autoria de Marcos Kaoy. As telas, criadas com matérias-primas consideradas “lixo” para muitos, mas que se transformam em preciosidades nas mãos do artista plástico, foram destaques em grandes festivais de blues em 2019, como o “Ibitipoca Blues – 20 anos” (MG), 8º “Festival Internacional Dipanas Blues & Jazz” (MG) e “Rota do Blues (MG).“Tive contato com o blues desde cedo, tanto que virei gaitista e passei a admirar esse universo que tanto me inspira a criar quadros e peças relacionados ao gênero musical”, explica o artista.
Sobre o Barracão - Criado em 2012 pelo artista plástico e gaitista, Marcos Kaoy, o Barracão de Antiguidades e Arte está na rota das atrações culturais e turísticas mais badaladas de Minas Gerais.
Com estilo de juke joint, funciona como loja também e reúne mais de mil peças, como radiolas, discos de vinis, máquinas de datilografia, placas demonstrativas de épocas, luminárias, entre outras. “Temos objetos de 50 a 80 anos. Outros foram criados por mim e são focados no blues, como instrumentos musicais, quadros e peças decorativas. Todos estão à venda”, diz Kaoy.
O espaço também passou por reformas e ganhou estrutura para proteger o público em caso de chuvas.
Serviço:
Evento: 7ª edição do “Projeto Blues Verão” em Casa Branca.
Shows: 11/01 (sábado) – às 20h – Auder Jr. & Blues Friends; 18/01 (sábado) – às 20h – Soul Much Blues
Ingressos –Os ingressos para o “Projeto Blues Verão” custam R$ 20 e podem ser adquiridos no site do Sympla (https://bit.ly/36m0SWD) ou nos dias dos eventos no Barracão de Antiguidades (rua Canela de Ema, 20, Casa Branca, Brumadinho/MG). Informações pelos telefones: (31) 99952-2045 e 98851-8153.
Local: Barracão de Antiguidades (rua Canela de Ema, 20, Casa Branca, Brumadinho/MG). Acesso pelo Parque da Serra do Rola Moça no Jardim Canadá.
*O melhor acesso ao local é feito pelo Parque da Serra do Rola Moça (Jardim Canadá).
Quando Sweet Tea foi lançado Buddy Guy era o "príncipe" do blues. O rei, claro, o velho BB. Sempre mais popular e mais rico. Isso ninguém duvida.
A diferença é que a partir dos anos 90 Guy passou a lançar um disco atrás do outro, uns geniais, outros menos, mas todos bons discos. Ao passo que King já havia atingido o auge na carreira e passado a lançar albuns repetitivos e não tão legais. Mas BB sempre será eterno.
Então, Sweet Tea, lançado pela gravadora Silvertone, veio no rastro desses trabalhos, mas é completamente diferente. E o que ficou constatado ao ouvi-lo, é que Buddy Guy não passa de um enganador. Explico.
Em Done Got Old, a primeira faixa do álbum, Guy canta que está ficando velho e que não faz mais as coisas que costumava fazer, isso leva o ouvinte a pensar que a coisa vai continuar calma porque o tema é mesmo um blues de raiz e, levando em consideração a quantidade de discos gravados antes de Sweet Tea, talvez ele quisesse um pouco de sossego.
Mas é aí que está a enganação. A segunda música, Baby Please Don’t Leave Me, é um petardo de 7m30 com Guy cantando e mandando ver na guitarra, ancorado pela ótima banda de apoio, todos músicos feras de estúdio – Spam (Tommy Lee Miles, na bateria), Davey Faragher (baixista, colaborador frequente de John Hiatt), Jimbo Mathus (guitarra base) e os convidados Bobby Whitlock (piano, co-fundador dos Derek & The Dominos), Sam Carr (baterista lendário que tocou com Paul Butterfield), Pete Thomas (bateria), Craig Kampf (percussão).
Seguindo em frente, perdemos toda a confiança no ídolo, fomos mesmo enganados. É claro que ele está envelhecendo e ná época Guy havia completado 65 anos, mas continuava fazendo as coisas que costumava fazer, só que melhor. Pelo menos cantar e tocar guitarra em Look What All You Got parece não ter sido tão difícil.
A partir dali, não existe mais calmaria, só tempestade em solos de guitarra sobre uma base crua, repetitiva, mas segura que remete aos inferninhos dos cafundós do Mississippi. Remete também a Muddy Waters e, principalmente, RL Burnside. Tanto no instrumental como nas letras que falam de amor, aliás no disco inteiro só se falha em mulher.
Stay All Night combina perfeitamente aquele riffão pesadão, uma batida seca e voz de Guy com efeito seguida por Tramp, uma boa regravação de Lowell Fulson, outro medalhão do blues. She’s Got Devil in Her vem com o timbre conhecido de Guy com ele solando logo de saída e I Got You Try You Girl tem incríveis 12m09 sustentando uma batida hipnótica em uma viagem ácida ao fundo do blues. Podemos chamar Who’s Been Foolin’ You de um boogie que alegra a alma antes da reflexiva que é It’s a Jungle Out There, do próprio Guy.
No final da audição, enganados mas felizes, constatamos que o velhinho cometeu uma obra prima daquelas.
Conhecida por sediar um dos festivais mais importantes do mundo, o Montreux Jazz Festival, a Suíça possui uma nova e prolífica cena jazzística, da qual faz parte o pianista Marc Perrenoud.
Ele começou na música clássica, mas logo bandeou-se ao jazz por causa do improviso e desde que começou a gravar foi considerado uma revelação no mundo do jazz.
Seu trio trabalha com a precisão de um relógio, composto por Marco Müeller (baixo) e Cyril Regamey (bateria), está junto há 12 anos, contabilizando mais de 300 shows e sendo considerado um dos grandes trios de jazz acústicos da cena atual.
Gravaram grandes discos, Logo (2008), Two Lost Churches (2012), o excepcional Vesty Lamento (2013) e Nature Boy (2016). Marc Perrenoud Trio tem um repertório com mais recurso do que um canivete: suas influências vão desde o trompetista norte-americano Chet Baker e o pianista canadense Oscar Peterson, passam pelo pianista e compositor russo Igor Stravinsky e o francês Maurice Ravel, e chegam até a banda inglesa de trip hop Massive Attack.
Ainda em carreira solo, Perrenoud avança no repertório erudito (Hamra de 2016 é bem isso), e nas parcerias, seu mais recente trabalho, Aksham (2019) traz a bela voz de Elina Duni.
Atualmente o grupo prepara o lançamento de seu quinto álbum, cujos temas foram apresentados em primeira mão na segunda edição do Sesc Jazz, que incluiu Santos no calendário, e onde essa entrevista foi realizada.
Não dá pra não mencionar, Marc Perrenoud rasgou elogios às equipes que o atenderam em suas passagens pelo brasa. Para quem está acostumado a tocar no mundo todo não é pouca coisa.
Outra coisa que não dá pra não mencionar, a Suíça também é conhecida pelo chocolate, mas isso eu não consegui enfiar na matéria.
Eugênio Martins Júnior – Seus pais eram dedicados à música clássica. Quando e como o jazz entrou na tua vida? Li que isso foi uma pequena revolução pra você. Poderia explicar isso?
Marc Perrenoud – Sim, meus pais eram músicos profissionais. Cresci em Berlim, na Alemanha, e meus pais tocavam em orquestras lá. Então estava cercado por música clássica e músicos o tempo todo. E comecei a aprender piano, mas gostei da improvisação desde o começo e é por isso que eu digo que foi a minha pequena revolução.
EM – E o clássico não permite improvisação.
MP – Não. Adoro música clássica, que tem uma abordagem diferente, mas adoro improvisar.
EM – Você lembra quais foram os primeiros artistas de jazz que ouviu?
MP – Comecei no jazz aos 14 ou 15 anos ouvindo Fats Waller e Oscar Peterson, mas ao mesmo tempo descobri o rock e outros estilos musicais. Até então só ouvia música clássica... e Beatles. (risos)
EM – Em 2016 você gravou seu primeiro disco solo após ter gravado alguns com o trio. Gostaria que contasse a história desse trabalho. Poderíamos dizer que misturou Bach com Monk?
MP – É uma mistura de muitas coisas. Além da música clássica, coloquei coisas pelas quais estava sob muita influência. Influências árabes, estava morando no Líbano naquela época. Fazendo muitos concertos solo. Iria gravar um disco com o trio que foi cancelado e acabei gravando o solo. Foi um projeto legal porque foi sem pressão, ninguém esperava um CD solo. Em 2016 gravei o CD solo e um com o trio. Todos diferentes entre si.
EM – Estamos em 2019. Como lidar com todas as influências que o jazz produziu nesses cem anos de história e ainda olhar para o futuro?
MP – Pra mim a música não é a vida. É parte dela. Não sou particularmente influenciado pela música. Claro que ela tem sua parte, mas minha maior inspiração é o que vejo à minha volta. Os diferentes lugares, as pessoas que conheço, descobrindo coisas novas, ouvindo e falando sobre política, a partir disso criar as músicas. Há algumas influências de outros compositores, clássicos, do jazz, não posso dizer o quê, ou de onde vem. Talvez Ravel, Oscar Peterson, a viagem ao Brasil ou a África. Não sei. Pra mim é importante estar aberto para a vida. Um bom exemplo é a viagem entre São Paulo e Santos que é muito bonita, através da floresta. Isso me inspirou.
EM – Li que você começa a compor de manhã e durante esse processo revisita teus sentimentos e até o teu ego. Parece que o teu processo de trabalho vem mais do bom e velho trabalho duro do que da inspiração divina. Gostaria que falasse sobre esse processo.
MP – Sim. Não entendo muito bem como isso acontece. Mas é como se fosse um garimpo atrás de ouro. Tento achar elementos que se encaixam. É sempre assim. Nunca tive inspiração divina. (risos)
EM – Ao longo dos últimos anos muitos grupos de jazz vem usando uma parafernália eletrônica nas apresentações, mas mais recentemente apareceu um movimento em direção ao jazz acústico com trios aparecendo cada vez mais. Inclusive esse festival que está recebendo Avishai Cohen, Amaro Freitas e vocês. O que tem a falar sobre isso?
MP – É verdade. Para nós no trio que estamos juntos a 12 anos nunca usamos eletrônicos. Mesmo fazendo muitas coisas tentamos manter assim. Trata-se da forma mais simples e natural de fazer música. Esse é o nosso conceito.
EM - Você já tocou no Rio, São Paulo e agora volta para esse festival. Como tem sido sua experiência por aqui?
MP – Maravilhosa. Dessa vez tocaremos em dois Sescs, ontem tocamos em São Paulo e hoje estamos em Santos. Os instrumentos são perfeitos, o time muito profissional. Como eu te disse antes, gostaria que tivéssemos isso na Europa e na Suíça às vezes. São muito precisos com a luz o som. E adoro viajar, ir de uma cidade para outra é maravilhoso, podemos conhecer o país. Espero poder fazer mais vezes no Brasil.
EM – Você teve contato com a música popular brasileira ou o nosso jazz, o samba jazz?
MP – Sim, claro. O jazz é um estilo universal. Quando você tem uma música popular que pode improvisar, isso é jazz. Vocês chamam de jazz brasileiro. Mas nos outros lugares podemos chamar de jazz asíatico ou jazz do Oriente Médio.
EM – Sim. O que eu quis dizer, mas não expliquei, é que o Brasil é um páis com dimensões continentais e com muitos ritmos musicais e o brasileiro mistura todos eles, inclusive improvisando em cima. Samba jazz é um nome que usamos pro samba instrumental.
MP – É muito bom ver isso. Na Suiça existem muitas universidades e escolas onde muitos artistas são formados.
EM – Você pode recomendar alguns?
MP – Sim, claro. Schnellertolermeyer, que é uma espécie de banda de jazz progressivo. As cantoras Elina Duni e Susanne Abbuehl. O pianista Nick Bertschy. Há muitos outros.
EM – Já que você fala sobre política. Você acompanha a escalada da extrema direita na política brasileira?
MP – Sempre tenho o cuidado de falar sobre o que não conheço. Sou casado com uma siria, nos conhecemos na guerra, por isso conheço a situação do país. Sobre o Brasil, conheço pela mídia. Claro que sei sobre Bolsonaro, as coisas ruins que falam dele. Provavelmente, as verdadeiras e as falsas. Preciso conversar com mais brasileiros para entender qual é a situação. O que sei é que a música e as artes em geral estão em evidência, mas na maioria dos casos é por causa das políticas populistas. Na Suiça também temos partidos populistas que querem cortar o dinheiro para a cultura. Mas digo mais uma vez, é difícil dar uma opinião sem conversar mais com as pessoas no Brasil. Mas é estranho. Onde eu vivo há uma comunidade brasileira e conheço muitos jovens que votaram em Bolsonaro. Pessoas muito jovens. E fico pensando, o que levou esses jovens a votar nele.
É difícil escrever o currículo do Edu Ribeiro. Corro o risco de esquecer alguma participação importante. São Tantas, mas vamos lá: Com o Trio Corrente e Paquito D’Rivera, em Songs for Maura, venceu dois prêmios Grammy; o disco Randy In Brasil (2009), com Randy Brecker, também ganhou o Grammy na categoria melhor performance de jazz.
Além do discos premiados do Trio Corrente, Edu vem deixando um verdadeiro acervo de música intrumental, gravando sistematicamente com outros artistas de jazz brasileiro.
Seu disco solo Já Tô Te Esperando com composições próprias e participações de Chico Pinheiro, Daniel D’Alcântara, Fábio Torres, Paulo Paulelli, Thiago do Espírito Santo e Toninho Ferragutti saiu em 2006.
Na Calada do Dia, disco de 2007, traz Guilherme Ribeiro (acordeom), Rubinho Antunes (trompete), Gian Correa (violão 7 cordas) e Bruno Migotto (contrabaixo) e composições de Chico Pinheiro e Léa Freire. E foi esse show que veio a Santos, dentro do festival Sesc Jazz.
E a maravilha Folia De Treis (2018), que veio com uma formação nada comum, o bandolin de Fábio Peron, o acordeon de Toninho Ferragutti e a bateria de Edu. São dez temas tocados em 45 minutos que também concorrem ao Grammy.
Com o Trio Corrente, lançou Corrente, Volume 2. Volume 3 e Song for Maura (com Paquito D’Rivera). Com Daniel D’Alcântara, Vitor Alcântara, Sizão Machado e Tiago Costa lançou Horizonte em 2003. Com Chico Saraiva e Zé Nigro lançou Água em 1999) e foi responsável pela trilha do documentário “Carroceiros”, do diretor Alexandre Rathsam 2005.
Edu participa ainda do quinteto Vento em Madeira, com dois álbuns gravados, Vento em Madeira (2010) e Brasiliana (2013). Liderado pela flautista e compositora Léa Freire, o grupo tem Teco Cardoso (sax e flautas), Tiago Costa (piano), Fernando de Marco (contrabaixo) e ainda a participação especial da cantora Mônica Salmaso nos dois álbuns.
Na estrada, tocou com Johny Alf, Paulo Moura, Dominguinhos, Rosa Passos, Ivan Lins, Dori Caymmi, Arismar do Espírito Santos, JoYamandú Costa, Chico Pinheiro, Léa Freire, Joyce, Bocato, Hamilton de Hollanda só para citar alguns.
Eugênio Martins Júnior - Você começou a tocar com seis anos. Quando se bandeou para o jazz? Edu Ribeiro – Adorei a pergunta. Comecei tocando com meus irmãos. Era o filho mais novo de três. Depois que minha mãe faleceu meu pai teve mais dois. Cinco irmãos. Os dois mais velhos tocavam Beatles, Rolling Stones, guitarra e baixo. E meu pai tinha uma banda de baile e deixava tudo montado na edícula de casa. Primeiro a gente brincava de esconder atrás dos instrumentos, depois passamos a tocar. Quando chovia a gente ficava na edícula. Então um começou a tocar guitarra, o outro baixo e a bateria sobrou pra mim. Só que o meu pai tinha ciúme da bateria e não me deixava tocar, era uma Ludwig de acrílico linda, onde eu improvisava. Meu avô me deu um surdo de escola de samba e eu também tocava. Depois que minha mãe morreu mudamos e íamos à edícula com menos frequência. Comecei a ouvir muita música, os discos de vinil que meu pai tinha em casa. Fazia a seleção em um dia e ouvia no outro. Tinha de tudo, Johnny Alf, Djavan e muita coisa de jazz. Lembro de um disco em especial, o do Chet Baker, que hoje se chama Chet Baker Sings. Na época tinha outro nome, não lembro, ele canta My Funny Valentine e But Not For Me. No dia que ouvi achei um pouco melancólico, mas fiquei fascinado com aquilo. Meu pai me deu a dica: “escute como ele canta e como ele toca, improvisando em cima do tema”. Meu pai e a minha família inteira são músicos de baile. Não é nenhum demérito.
EM - Muito ao contrário. Você cria uma casca grossa e toca de tudo. ER – Exato. Mas no baile não tem improvisação. Eles não são improvisadores. Porém, qualquer música que você toque eles também tocam até o final. Não se apertam. Então aquele disco era lindo. A sonoridade.
EM – Você lembra a idade que isso aconteceu? ER – Acho que 11 anos. Tocava rock. No baile só entrava pra tocar a parte do rock nacional, mas queria tocar as outras coisas também. Então tinha baile de debutantes onde tocávamos standards de jazz antes de anunciar o nome da aniversariante, mas ninguém improvisava. Então eles falavam o nome e a gente lá tocando, piborundêeeee, e eu ficava encantado com a vassoura, que nesse disco do Chet também tinha. Ali tive contato com essa concepção jazzística. Tocar e improvisar em cima de um tema. O que o improvisador quer te dizer, com aquela ferramenta de linguagem que ele tem são notas musicais em cima de um acorde. Depois fui atrás de outras coisas que meu pai não tinha. Comprei um do Stanley Jordan com o baterista Jeff “Tain” Watts. Discos do Charlie Parker, que era o que chegava. E um disco do Jack DeJonette, que era totalmente vanguardista, free jazz, da ECM. Achei muito diferente de tudo o que tinha ouvido, mas legal também. Com Lester Bowie (trompete), Eddy Gomez (baixo) e John Abercrombie (guitarra). Fiquei fascinado com aquilo e vi que precisaria estudar mais o instrumento. Pra ter uma conversa com aquelas pessoas. Decidi que queria ser músico. Não me afastei do baile, mas queria alguma coisa diferente disso. Aos 17 anos já tinha meus grupos de música instrumental lá em Florianópolis. Aí decidi vir estudar na Unicamp. Estou vendo você com esse disco Songs For Maura (Trio Corrente), meu primeiro grupo foi com o Felipe Moritz, um saxofonista que morava em Frorianópolis e apaixonado pelo Paquito D’Rivera. Então tocávamos covers dele. E depois de 20 anos conheci o paquito e toquei várias músicas dessa época, foi muito emocionante. Ouvir aquele som de saxofone na tua frente. Você tem um ídolo e encontra com ele e, isso é uma das coisas mais emocionantes na profissão de músico, não é o som que você conhece dele, a voz do instrumento.
EM – O acrodeon confere um clima às vezes melancólico, porém classudo. O disco Folia de Treis (2018) conta com Toninho Ferraguti e é uma formação inusitada pra trio a gente não vê muito por aí. Gostaria que falasse sobre esse trabalho. ER – Gosto muito de um álbum chamado Quinteto do Radamés, que tinha o Chiquinho do Acordeon, o Rafael Rabelo. Me remetia ao tempo do baile, quando tocávamos cinco horas sem parar. Acabava seis horas da manhã e o tio Nelson, que a gente chamava ele de tio, pegava o Acordeon, o seu Evarildo pegava o trompete e meu pai pegava o violão e tocavam. E muito engraçado, porque a primeira vez que pude fazer um trabalho autoral, meu primeiro disco em 2006, o Já Estou te Esperando, fiz com essa formação, só coloquei baixo e bateria. E chamei o Toninho (Ferragutti). Foi pela Maritaca, início do Trio Corrente. E o Trio Corrente deu super certo e logo veio o Vento em Madeira e fui deixando de lado a minha carreira de compositor. Só retomei agora com o na Calada do Dia, que toquei aqui hoje. Em 2018 recebi o convite do selo Black Streaming para gravar um disco. E eu tinha acabado de gravar um disco com as minhas músicas e não componho tanto assim. Pensei em fazer um projeto com alguém para dividir um pouco as coisas. Então convidei o Toninho Ferragutti e o Fábio Peron. É uma formação completamente inusitada, que tinha tudo pra não dar certo. Convidamos um baixista que não pode fazer. Então decidimos ensaiar assim mesmo. Até o primeiro ensaio estávamos apreensivos, mas quando acabou vimos que ia dar certo. O Peron tocou um bandolão, que é um bandolim com uma oitava a baixo, aquele que está na capa. Gravou duas faixas com o bandolim e oito com o bandolão. Gravamos com o Tiago Monteiro, que é um técnico de som maravilhoso e o som do disco é lindo.
EM – Esse disco foi gravado em Ribeirão Preto? ER – Sim. Sempre gravei meus discos pela Maritaca, selo da queridíssima Léa Freyre. E olha que sorte, esse disco está concorrendo ao Grammy Latino. Quando recebi o convite foi pra gravar logo, recebi o convite em março e a gravação era em junho.
EM - Falando em trio, teve uma época que os grupos de jazz reuniam uma parafernália eletrônica, principalmente nos anos 70 e 80. Agora o que existe é um monte de trios com baixo, bateria e piano. Voltando ao mais puro jazz acústico. Nesse festival inclusive, com Avishai Cohen, Amaro Freitas, o Marc Perrenoud e até o Trio Corrente. Gostaria que falasse sobre isso. ER – Tem o resgate do som acústico. Pega os anos 50, quando os caras começaram a gravar o som acústico, bateria, baixo e piano juntos, os discos do Coltrane, Bill Evans, aquilo é gravado com um microfone que pega uma tomada de som. E tem uma coisa ali muito importante que é a mixagem que tem de ser feita pelos músicos. Por exemplo, se o cara da técnica falar que a bateria da alta, não tem onde abaixar o som, só na mão do músico. O piano tá alto, só na mão do músico. Os músicos tinham o som na mão. A partir dos anos 70, quando começa a estrar a tecnologia, a música pop, muda o som da bateria, entra contrabaixo elétrico, entra o rock, começam a experimentar mais coisas, o som sintetizado, Miles Davis fez isso. Esses grupos que você citou, Mahavshnu, Weather Report tocavam alto. Adoro o Peter Erskine, o baterista do Wheater, e ele me falou que na época que tocou com o grupo ficou com problema de audição.
EM – A Weather era uma usina com o Peter e o Alex Acuña nas baterias e percussões? ER – Isso, e o Jaco tocando daquele jeito e o Zawinul com aquela parafernália eletrônica. Então, tem sim o resgate do som acústico. No início dos anos 90 ouvi um disco, não sei se era da Marisa Monte, com o Carlos Bala e achei o som lindo. Antigamente a bateria tinha o som opaco, os caras botavam fita crepe, abafavam com qualquer coisa. Mas o Bala melhorou o som da bateria no Brasil. Talvez influenciado por Dave Weckl, Steve Gadd, uma geração do jazz/rock, mas já com um som mais aberto. E se você for ver, há discos de MPB dos anos 90 maravilhosos com o piano digital. Não que não tivesse piano nos estúdios, mas porque era moda. O acústico nunca vai ser moda, nunca vai ser datado. É eterno.
EM – Sim, teve a moda do Fender Rhodes, do Oberheim e agora é o Nord. ER – Sei que tem uma galera fazendo música eletrônica muito bem feita, mas eu não acompanho. E tem um resgate do som acústico, agora tratado, com possibilidade de mixagem melhor, com a tecnologia a favor dele.
EM – Esses dias de festival estava escutando em casa o CD 2 do Trio Corrente e o do Marc Perrenoud que tocou aqui há dois dias. Ambos no mesmo formato, ambos trio, mas a diferença é gritante. Esse sotaque do baterista brasileiro é famoso no mundo inteiro e único. Edu, você que viaja pelo mundo poderia falar sobre isso. ER – A música brasileira é muito bem vista. Temos pessoas que são muito importantes nessa divulgação. O Edson Machado foi o cara que começou a dar essa visibilidade numa época que não tinha internet. Hoje o cara grava alguma coisa, posta na internet e amanhã um monte de gente já fica conhecendo. Teve um cara que foi morar lá, o Airto Moreira. O Tom Jobim ia lá gravar e levava o João Palma. Os bateristas começaram a chegar. O Airto é um cara importante porque ele compõe dentro do grupo. Coloca as coisas dele.
EM – A gente pode dizer que o jazz brasileiro também carrega o batuque da escola de samba? ER – O jazz brasileiro é conhecido não só pelo ritmo, mas também pela harmonia e pela melodia que é muito rica. E ainda temos grandes improvisadores e grandes compositores, como Vila Lobos, Pixinghinha, Tom Jobim, Edu Lobo. Então, é pensar em tudo isso com a concepção jazzística. A música que a gente tenta fazer é isso.
EM – Já que estamos falando nisso, como é transportar um clássico da música brasileira que tem letra de Tom Jobim, Djavan, Dorival Caymmi pra o instrumental. Qual cuidado você tem? ER – No começo do jazz eles pegavam os standards, as músicas da Broadway e tocavam da maneira jazzística. O Trio Corrente faz muito isso e o público reconhece. Claro que precisa fazer uma arranjo, você precisa tratar bem aquilo. Não vai conseguir melhorar porque já é lindo, mas não pode distorcer aquilo a um ponto que não exista mais. É diferente do que eu fiz hoje, que é muito difícil, um som com músicas autorais. Tem de pegar um pouco pela performance, de um jeito que não fique chato e repetitivo. Misturar os ritmos, as dinâmicas. Mas quando você toca uma música conhecida é como se encontrasse um camarada em uma festa que você não conhece ninguém.
EM - Como foram as gravações do Song For Maura com o Paquito D’Rivera. Foram ao vivo no estúdio?
ER – O Paquito não queria tocar com o Trio Corrente. Havia tido uma experiência ruim com outros músicos que não era a sua banda. E o Paquito falou para o nosso produtor que se quisessem a presença dele em um festival teria de ser com a sua banda. E não dava porque era um projeto do Trio Corrente. Ele já conhecia o Paulo (Paulelli) e o Fábio (Torres). Ele sugeriu que o trabalho fosse feito com o Celso (de Almeida), baterista da Rosa Passos. O engraçado era que a conversa era ao telefone enquanto a banda dele ensaiava e o pianista Alex Brown, que conhecia o Trio Corrente e estava presente no ensaio, disse que o Paquito poderia vir tranquilo que ele nos conhecia. Daí ele veio tocar com a gente na fé. Ele mandou um repertório dele que a gente já conhecia e pediu um repertório nosso pra se adaptar. Fizemos um ensaio aberto das 11 às 13h e deu tudo certo. Fomos almoçar e ele disse que tínhamos de gravar aquilo. Fizemos alguns shows e ele nos convidou para ir à Europa e nós o convidamos novamente ao Brasil e nunca conseguíamos gravar. Aí um dia ele disse que precisávamos parar e gravar. Gravamos em um dia no estúdio Cachoeira, na rua da minha casa. Ele levou a gravação lançou pelo selo dele e fez um certo sucesso.
EM – Um certo sucesso não, ganhou dois Grammys.
ER – Sim, ganhamos os prêmios. Mas a música ficou boa. O Paquito é um cara muito legal. Ele disse que queria entrar na nossa música. Então a gente vai aprendendo com as pessoas. Essa semana fizemos um show com o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo e eles pegaram nossas músicas pra fazer os arranjos e tocar. E como fui eu quem tratou o show pedi o repertório deles pra gente entrar também naquilo.
EM – Você toca no Trio Corrente, dá aula, tem teus trabalhos solos, acompanha inúmeros artistas, e arranja tempo para novos projetos como esse quinteto. Você é só músico ou trabalha também?
ER – Músico trabalha muito. Eu brigo com isso sempre. Acordo todos os dias às 6h da manhã. Dou aula em duas escolas, Faculdade Santa Marcelina, sou coordenador pedagógico da ENESP e é claro que às vezes me sinto sobrecarregado. Mas gosto disso. E é engraçado. Às vezes eu penso que poderia estudar mais. Mas se tenho mais tempo pra estudar eu estudo menos. A pressão do dia a dia me faz estudar. O que mais me tira do foco são as redes sociais. Preciso tomar muito cuidado.
EM – Um pouco sobre esse momento cultural que a gente está vivendo, gostaria que falasse sobre a importância de um festival grande como esse, com mais de 80 shows, e com tamanha diversidade musical.
ER – O Sesc tem um papel muito importante na cultura nacional. Há muito tempo ouço que o Sesc faz o papel do Ministério da Cultura, que não está funcionando muito bem. Falo da música que é o meu campo. Mas na dança, teatro, esporte, recreação, terceira idade, jovens, é incrível o que acontece. Dança clássica, dança afro brasileira, muitas vezes de graça. Veja, sou de Florianópolis e cheguei em Campinas em 1992 e em 96 ou 97 foi a primeira vez que toquei no Insturmental Sesc Brasil que não tinha esse nome, não era televisionado e era na Avenida Paulista. Toquei com o Edson Gomes e o Trio Água. Depois daquilo eu me senti profissional. É uma papel importante pra nova geração que está começando a tocar. Toda a classe artística deve muito ao Sesc e esse é o maior festival de de jazz do Brasil sem dúvida. Já tivemos festivais grandes, mas esse festival leva três semanas em várias cidades ao mesmo tempo. Toquei em São Paulo, Araraquara, Bauru e Santos. Em Araraquara e Bauru fizeram clubes de jazz dentro do ginásio de esportes. Parecia o Blue Note de Tóquio. Outra coisa importante que o Sesc fez pro jazz há uns dois meses foi trazer a Lincoln Center Orquestra pra ficar duas semanas no Brasil. O Wynton (Marsalis) me falou que eles nunca fazem uma residência tão longa. É uma coisa que chama a atenção do mundo inteiro para o Brasil.
Aqui o assunto é música - todos os gêneros - e alguma literatura. Não vejo sentido em reproduzir o que já foi colocado na rede, por isso, produzo meu material. Produzo shows, entrevisto artistas e escritores e garimpo notícias e quando não tenho o que dizer, não digo nada. As postagens não obedecem uma periodicidade. O Nome Mannish Blog foi tirado da música Mannish Boy, de Muddy Waters, blueseiro do Mississippi considerado o elo entre o blues rural e o blues moderno. Espero que gostem do espaço e colaborem enviando informações.
Todas as despesas desse blog são custeadas pelo meu trabalho. Se você acha que deve pagar por essas informações, deposite qualquer quantia em: Banco Itaú - AG: 0268 CC: 31501-7 CNPJ: 14.240.073/0001-65. Obrigado e abraço.
Produtor cultural, criador dos Projetos Jazz, Bossa & Blues, Clube do Blues de Santos e Jazztimes. Jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Católica de Santos. MTB - 33.533
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