segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Clube do Blues de Santos volta em 2014 de casa nova e com show internacional

O Mannish Blog inaugura a terceira temporada do Clube do Blues com o grupo de São Paulo Orleans Street Band, no Café Central, e o guitarrista de Chicago Jon McDonald na Tenda 5


Orleans Street Band – A interação com o público é a grande tônica dessa contagiante street band – o que em New Orleans quer dizer uma formação acústica itinerante - de jazz tradicional/dixieland, que representa o mais autêntico som da cidade berço do jazz. 
O repertório inclui standards norte americanos, como All of Me; clássicos do jazz, Blue Monk, When The Saints Go Marching In; Rythm and Blues, Corrine Corrina; pop, I Can`t See Clearly Now, além de versões instrumentais de temas brasileiros, entre eles, Manuel, Do leme ao Pontal e Aquarela do Brasil.
Em palcos ou em eventos de rua, Orleans Street Band é pura descontração e diversão, formada por banjo, trompete, trombone, washboard e tuba.


Jon McDonald – É um bluesman norte-americano que atua na cena musical desde a metade dos anos 1970.
Originário de Chicago, cresceu no meio da efervescência cultural da cidade, vivenciando não somente o blues mas o jazz, R&B e folk. “Sempre tive atração por estar rodeado de músicos e, por ser de Chicago, convivi desde cedo com Curtis Mayfield, Homesick James e Paul Butterfield entre outros”.
Nos anos 1980 e 1990, McDonald acompanhou e gravou com grandes nomes como Koko Taylor, Big Time Sarah, Mississippi Heat, Kinsey Report e o Delta Blues Cartel, formado por Homesick James, Henry Townsend, Honey Boy Edwards e Robert Lockwood.
Em 2001, passou a integrar os The Teardrops, banda de apoio do gigante do Chicago Blues, Magic Slim. Foi o guitarrista que mais tempo atuou ao lado dele, foram quase 12 anos de uma relação, nas palavras de Jon, “de pai para filho”.
Juntos realizaram inúmeras turnês mundiais, inclusive passando duas vezes pelo Brasil (2005 e 2011). Participou da gravação quatro CDs e um DVD. A parceria foi bruscamente interrompida em 21/02/2013, com a morte de Slim.
Nas palavras do amigo e bluesman John Primer, Jon por ser último Teadrop, é o herdeiro musical de Magic Slim e responsável por manter vivo o seu legado.
Desde então Mr. McDonald vem cumprindo a sua missão, organizando tributos que vem contando com a presença de Buddy Guy, Sugar Blue, Jimmy Johnson e Billy Boy Arnold dentre outros.
Delta Blues - Banda santista de blues composta por Eduardo Elói (guitarra e voz), Digo Maransaldi (bateria e voz) e Rogério Duarte (baixo), que atua desde 2003. Com muito feeling e técnica, transformam o show numa reunião de amigos com muito som e energia positiva.
A banda se apresentou nas melhores casas de shows e bares do Guarujá, Santos e todo litoral de São Paulo; em diversas cidades do interior do estado; e em projetos importantes como o Clube do Blues e do Santos Jazz Festival.
Ganhou uma legião de fãs e seguidores graças ao seu show recheado de clássicos do blues-rock de mestres como Stevie Ray Vaughan, Jimi Hendrix, Muddy Waters, Carlos Santana, Johnny Winter, Albert King, B. B. King, Buddy Guy, James Brown, Wilson Pickett e muitos outros.
O guitarrista e cantor Eduardo Elói sempre foi admirado por sua semelhança em tocar como os selvagens Stevie Ray Vaughan e Jimi Hendrix. O show faz um passeio pelos grandes clássicos dos dois músicos e algumas surpresas. Trata-se de um show autêntico e cheio de groove e energia positiva.





quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Jazz brasileiro leva um Grammy com Trio Corrente e Paquito D'Rivera

Texto: Eugênio Martins Júnior
Foto: Lucy Nicholson/Reuters

O grupo instrumental de São Paulo, Trio Corrente, composto por Fábio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixos) e Edu Ribeiro (bateria), foi o vencedor da categoria melhor álbum de jazz latino na 56° edição do prêmio Grammy realizada no domingo nos Estados Unidos.
O Trio Corrente levou o gramofone dourado por Song For Maura, álbum gravado em parceria com o saxofonista cubano Paquito D'Rivera, vencendo La Noche Más Larga de Buika, Yo de Roberto Fonseca, Egg?n de Omar Sosa e Latin Jazz-Jazz Latin, de Wayne Wallace Latin Jazz Quintet.
Segundo Torres, a parceria nasceu em 2010 e a ideia de gravar um disco partiu do próprio Paquito. “Nosso produtor insistiu para juntar o grupo com o Paquito. A afinidade musical foi imediata e no jantar, após o primeiro show, o Paquito veio com a ideia de gravar um CD. Ele sempre adorou a música brasileira e disse pra nós que sempre quis gravar um disco com músicas brasileiras com um grupo daqui. Entre idas e vindas, conseguimos gravar o CD em outubro de 2012”.
Curiosamente, a grande imprensa nacional deu ênfase nas premiações dos músicos internacionais Daft Punk, Vampire Weekends e Lorde e falou muito pouco sobre o grupo. O que mostra que a música instrumental brasileira é mais respeitada fora do que dentro de casa.
Fabio Torres, que comparou a diversidade da música brasileira com a diversidade de espécies da Mata Atlântica, espera que o prêmio ajude a reverter esse quadro. “A diversidade da música brasileira acaba achatando a música instrumental, comercialmente falando. Espero que depois desse prêmio o mercado melhore. É um grão de areia, mas sabemos que faz a diferença”.  
Desde 1999, Torres e Paulelli integram o grupo de apoio da cantora e violonista baiana Rosa Passos, outra importante representante do jazz brasileiro.
Ao saber da premiação de seus protegidos, Passos, que costuma chamar Paulelli de “filhote” por causa das afinidades musicais entre ambos, postou uma mensagem em sua página em uma rede social: “Estou muito feliz e orgulhosa dos meus músicos Fábio Torres e Paulo Paulelli (meu filhote musical), que juntos com Edu Ribeiro, grande baterista e que eu já tive o privilégio de ser acompanhada, meu querido amigo e grande músico Paquito D’Rivera, ganharam ontem o maior prêmio da música no mundo, o Grammy Americano”.
Ela própria já havia sido indicada para o Grammy com seu álbum Romance. Para a cantora, teria sido motivo de orgulho se a categoria que o disco tivesse concorrido na mesma que Song For Maura, ou seja, “Melhor álbum de jazz latino” e não “Melhor álbum de pop contemporâneo brasileiro”, como quis a organização do evento.


domingo, 12 de janeiro de 2014

A linhagem de Michael Dotson é a dos guitarristas puro sangue de Chicago


Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Michael Dotson é um homem maduro e músico calejado. Por isso não pega bem dizer que ele faz parte da nova geração do blues.
No entanto, poucas pessoas ouviram falar de seu nome por aqui. Só mesmo os iniciados conheciam o guitarrista, cantor e compositor de Chicago de pegada forte, mas elegante, quando esteve na oitava edição do festival Ilha Blues, em Ilha Comprida, litoral sul de São Paulo.
Dotson começou cedo. Seu primeiro contato com o blues foi no final dos anos 60, após assistir o velho Muddy Waters em um restaurante. O objetivo do show? Arrecadar fundos para a campanha de um político local.
Seus primeiros instrumentos foram a clarineta e o saxofone, mas aos 16 anos já podia ser encontrado tocando guitarra nas espeluncas de Chicago, onde foi profundamente influenciado por Otis Rush, Buddy Guy, Magic Slim, Junior Wells e Lefty Dizz.
No grupo de Magic Slim tocou por seis anos. A lista de participações em bandas de outros artistas do blues inclui ainda Aron Burton, George Baze, Liz Mandevile, Big Time Sarah, Little Mac Simmons, Jimmy Burns, Willie Kent, Big Jack Johnson, Billy Boy Arnold e Homesick James.
Estiveram ainda em Ilha Comprida, a lenda da harmônica James Cotton, o guitarristas Lurrie Bell e Eddie Taylor Jr, os tecladitas brasileiros Ari Borger e Adriano Grineberg, os gaitistas Big Chico e Jefferson Gonçalves, e os guitarristas Nuno Mindelis e Artur Menezes. Um verdadeira pajelança.
Essa entrevista só foi possível após a intervenção do produtor Adrian Flores, que agradeço aqui. Também ao produtor do festival, Oda Gomes, que me permitiu livre acesso aos artistas.



Eugênio Martins Júnior – Quando foi a primeira vez que você ouviu o blues?
Michael Dotson –
Provavelmente foi em uma arrecadação de fundos para campanha eleitoral no final dos anos 60, era o Muddy Waters que estava tocando. Eu tinha 10 ou 11 anos e não sabia o que era o blues, mas o engraçado é que eu já conhecia Buddy Guy, ele estava sempre pela vizinhança.

EM – O show foi no mesmo palanque em que o político faria o discurso?
MD –
Não era num palco, era um restaurante em Chicago. Eles alugaram o espaço e serviram um jantar às pessoas que pagaram um bom dinheiro e o político estava lá tentando se eleger.

EM – Você faz um som vigoroso, bem ligado a nossa época. Como você faz a conexão entre a tradição do blues e a modernidade?
MD –
Bem, não faço parte de uma nova cena. Pra mim é a mesma coisa. Voltando aos anos 60, especialmente aos pequenos clubes, os músicos se apresentavam de maneira selvagem. Tocavam alto e de forma selvagem. As pessoas bebiam muito, dançavam e enlouqueciam. Parecia rock and roll, mas não era. Era uma coisa que veio antes. Caras como Buddy Guy, Otis Rush e outros faziam isso. Podemos dizer que era um blues rock, mas pra mim é tudo a mesma coisa. Também gosto de country blues. Costumo dizer que o que eu faço é “houserocking music”. Musica para dançar, beber e se divertir.


EM – Uma pergunta que sempre faço quando me deparo com um artista que vem da grande cidade de Chicago é: Em seu ponto de vista, qual é a importância do blues para a cultura americana?
MD –
Bem, musicalmente e de outras formas, é a raiz de tudo. É uma música folclórica, mas expressa não apenas a tristeza ou insatisfação, mas também a felicidade e o desafio, você me entende? “As coisas estão indo uma merda pra mim agora, mas daqui pra frente tudo vai ficar legal e nada vai me parar”. Tenho uma teoria, o rock and roll, que nasceu do blues, está morto. Pra mim ele está morto realmente. E quanto mais ele se distancia do blues, mais ele desaparece. E o blues é eterno.

EM – O blues continua.
MD
– Sim, é a raiz.

EM – Uma vez Rod Piazza me disse que o blues era a música do banco de trás (backseat music) e que ela nunca seria a música da corrente principal (mainstrean), mas está sempre presente.
MD –
Não chamaria de música do banco de trás, mas de música folclórica. Quanto mais a vida muda, talvez para pior, a tensão pode te deixar louco e aí você vai precisar de uma coisa sólida e contínua e o blues é assim. Porque é uma expressão humana. Ele trata de todas as emoções que você passa na vida.

EM – Você conhece a música brasileira como o samba, o nosso blues?
MD –
Acredito que tenha ouvido algum samba, mas não sei identificar.


EM – Antes de tocar aqui você sabia que no Brasil existe uma cena de blues? E que muitos músicos vão regularmente tocar em Chicago e passar algum tempo aprendendo com os músicos de lá?
MD –
Sim, já ouvi falar nisso. Mas não posso dizer que conheço profundamente.

EM – O que você acha deles. Soam estranho para você que é de lá?
MD –
Não soam estranho. O blues é igual em todos os lugares, aqui ou no Japão.  

EM – Que equipamento você usa no palco?
MD –
Prefiro as telecasters com captadores single coil e em Chicago costumo usar amplificadores Super River. Que pra mim fazem o melhor som com as teles. Mas na estrada costumo usar os Fenders Twin.

EM – Quais as diferenças entre ser sideman e agora ter a sua própria banda?  
MD –
Ainda trabalho como sideman. Costumo tocar com a banda Mississippi Heat. Bem, acho que a diferença está na forma como você se expressa. Como sideman você é apenas mais um em cima do palco, você só precisa ficar na sua. Às vezes, se você aparece mais do que o artista principal pode rolar ciúme, especialmente sendo guitarrista. Quando está à frente de uma banda, você tem de ser um entertainer, mas não é fácil, você tem de aprender como fazer.

EM – Qual foi a lição mais importante que você aprendeu com o blues?
MD –
Acho que é o contato com as pessoas. Eu era tímido, honestamente ainda sou, mas estar no palco é uma relação diferente. Gosto de festejar com as pessoas. Fazê-las sentir-se bem.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Another blues stringer back home: morre Eric "Guitar" Davis

Eric e seus filhos no palco do Buddy Guy's Legends

Mais um grande músico que não vai ver 2014 chegar. O jovem bluesman Eric “guitar” Davis, foi baleado e morto na manhã dessa sexta-feira 20 de dezembro ao sair do famoso clube do blues de Chicago, Kingston Mines.
Eric era filho do renomado baterista Bobby "Top Hat" Davis. Seguiu os passos do pai e aos cinco anos passou a seguir os passos do pai no instrumento.
Aos dez anos já podia ser visto tocando bateria nos bares mais quentes de Chicago como o Checkerboard Lounge e o Theresa’s, tendo a sorte de acompanhar Junior Wells, Lefty Dizz, Buddy Guy, BB King, BB Odom, Tyrone Davis eram alguns.
Buddy Guy foi o responsável por Eric tornar-se guitarrista: “Se você quiser pegar as garotas tem de tocar isso aqui”, e Guy deu a Eric sua surrada guitarra Fender.
Guitarrista emocional no jeito de cantar e tocar guitarra, o que a malandragem de Chicago chamam de “real deal”.
Estreou em disco em 2007 com Here Comes Troube, disco que já vendeu 15 mil cópias, o que, em tempos em tempos de Justin Bieber e downloads, não é pouca coisa.
Eric já tocou nas principais casas do gênero, como Buddy Guy’s Legends, Blues on Halsted, The Kingston Mines e The House Of Blues; e também com os músicos mais perigosos do blues, além do já citados, Tyrone Davis, Koko Taylor, Billy Branch, Ronnie Baker Brooks, Big James e The Chicago Playboys , Little Ed and the Blues Imperials, Booker T e The MGs, Chico Banks, Lurrie Bell, Nick Moss e mais.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Vai-se Jim Hall aos 83


Morreu ontem em sua casa em Nova York, enquanto dormia, o guitarrista Jim Hall.
Aos 83 anos, Hall tinha em seu currículo ter tocado com Ella Fitzgerald, Sonny Rollins, Gerry Mulligan, Ornette Coleman, Paul Desmond e outros. Era reverenciado como um dos grandes do gênero por feras como Pat Metheny e Bill Frisell. 
Líder de seu próprio trio de jazz desde os anos 60, continuava na ativa até pouco antes da morte.
Em novembro, tocou no Lincoln Center com os guitarristas convidados John Abercrombie, Peter Bernstein e planejava uma turnê pelo Japão com o não menos lendário Ron Carter.
Em 2004, tornou-se o primeiro guitarrista de jazz moderno a ser nomeado para o National Endowment for the Art Jazz Master, o principal prêmio do estilo nos Estados Unidos.
"Jim foi um dos mais importantes guitarristas de improvisação na história do jazz. Sua generosidade musical foi uma reflexão de seu profundo humanismo", disse o guitarrista Pat Metheny.
Biografia - Hall nasceu em dezembro de 1930, em Buffalo, no estado de Nova York. Criado em Cleveland, aprendeu a tocar guitarra aos 10 anos e se interessou pelo jazz aos 13. Depois de se formar no Cleveland Institute of Music, mudou-se para Los Angeles e foi um dos fundadores do quinteto Hamilton. Seu primeio álbum foi Jazz Guitar, lançado em 1957. Mais tarde, mudou-se para Nova York, onde tocou com Ella Fitzgerald, Bem Webster, Lee Konitz e Art Farmer.
Durante a carreira, integrou diversos duos, trios e quartetos e lançou trabalhos de selos como Milestone, Concord, Music Masters e Telarc . Neste ano, lançou discos ao vivo de sessões apresentadas no clube de jazz de Nova York Birdland.
Para sua filha e empresária, Devra Hall Levy, as proezas do pai como guitarrista ofuscaram suas habilidades como arranjador e compositor, que se refletem em álbuns lançados nos anos 90, como "Textures" e "By Arrangement".
"Esses álbuns abriram meus olhos para uma outra dimensão de seus dons musicais. Ele estava sempre procurando expandir as fronteiras musicais e nunca repetir algo que ele tinha feito antes", disse a filha.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Igor Prado Band kick out the America


A banda do guitarrista & produtor paulistano Igor Prado encerra o ano com uma turnê de cinco shows pelos estados Unidos. Para muitos a Igor Prado Band a maior do gênero na América Latina.
Somente em 2013 foram mais de 150 shows alguns deles ao lado de grandes artistas como Rod & Honey Piazza, Sugaray Rayford, Wallace Coleman entre outros.
Foram mais de 50 shows internacionais somente em 2013 em países como Noruega, Itália, Espanha, Alemanha Dinamarca e Chile.
Para os shows em território americano terão o apoio de um dos maiores pianistas de blues da atualidade, Fred Kaplan, lendário pianista da Hollywood Fats Band com mais de 40 anos de carreira. Já acompanhou monstros como T-Bone Walker, Big Joe Turner, Lowell Fulsom, John Lee Hooker entre outros. Também haverá participações especias de Lynwood Slim, Rod & Honey Piazza & Debbie Davis (guitarrista de Albert Collins).
O produtor brasileiro Chico Blues acompanhará a turnê e promete fechar uma interessante parceria com um dos maiores selos da atualidade nos EUA ainda para 2014.

Confira no site de Fred Kaplan: http://www.fredkaplanmusic.com/

Agenda Igor Prado Band - USA - 2013

12/12 - Lucy's 51 - North Hollywood - CA
Part. Especial de Fred Kaplan & Lynwood Slim

13/12 - Chaparral Live Room - San Dimas - CA
Part. Especial de Lynwood Slim

14/12 - The Tiki Bar - Long Beach - CA
Part. Especial de Fred Kaplan, Lynwood Slim & Horn Section (Ron Dziubla & Troy Jennings)

15/12 - Piazza's Blues Festival - Riverside - CA
Part. Especial de Lynwood Slim, Honey & Rod Piazza!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Frank Zappa has just left the building (uma carta ao velho guitarrista)

 
Salve Zappa. Não parece, mas hoje faz vinte anos que você deixou o prédio. E, cara, está fazendo falta.
É sério. As coisas andam ruins por aqui meu velho. Às vezes penso que a tua passagem pra outra dimensão ou sei lá se foi pra algum lugar além de debaixo de sete palmos de terra, tenha sido o sinal derradeiro que as coisas iriam desafinar e, por fim, destoar.
Sei que corro o risco de você não gostar dessa carta, afinal, “Um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler”. Tudo bem, posso viver com o teu sarcasmo, porque no final, você tem razão.
O fato é que, em 2013, o ambiente musical está ruim, o político está péssimo e o intelectual está pior. Como dizia outra saudosa artista brasileira, está cada vez mais down no high society. E acrescento, no low também.
Após a queda das majors da indústria da música que, justiça seja feita, você sempre combateu, o cenário mudou muito nos Estados Unidos e no Brasil. Com a vantagem de aí ser o lugar onde todas as mudanças tecnológicas acontecem. Se vocês perdem um pouco todos os anos a hegemonia do conteúdo, pelo menos a mantém sobre os formatos.
No meu país, onde a maioria dos teus conterrâneos acredita que a capital é Buenos Aires, o mercado musical passou a ser controlado 100% pela televisão. Aqui, onde a diversidade cultural é tão grande ou maior que nos Estados Unidos - dentro do conceito que tudo é cultura - cinco emissoras dominam a TV aberta: redes Globo, Record, SBT,  Bandeirantes e VTV. Juntas, elas ditam o que deve ser “consumido”. Palavra maldita quando empregada em um contexto cultural.
E, acredite, elas sempre optam pelo pior. A MTV - I'm about get sick, watching MTV – nos últimos anos se esmerou em construir uma grade com programas de auditório, promover teen bands e fazer propaganda nos moldes da matriz norte-americana e das redes ditas normais. Subjugou a inteligência do público jovem tratando-o como mero consumidor e se deu mal. Fechou as portas e já foi tarde.
Assim como nos Estados Unidos, por aqui o rock também morreu. O curioso é que no brasa, o grosso de bons músicos que cresceu ouvindo Beatles, Rolling Stones, Allman Brothers, Muddy Waters, Howlin Wolf e... Frank Zappa, migraram para o blues e têm feito a cena crescer de forma independente. Como você ensinou, man. E isso é muito bom. Foda-se a indústria and all those record company pricks.
Cresci ouvindo a música pop americana e brasileira que sempre tiveram qualidade. Mas hoje não dá mais meu velho. É um tal de bonde disso, sertanejo aquilo, tecno não sei o que. Que merda é essa?! Esses malditos produtores que controlam as TVs não têm nenhum compromisso com a arte. Não se trata de ser preconceituoso, não são todos os dias que estamos para Arvo Pärt ou Keith Jarret, mas espera aí, não vamos nivelar por baixo. Vamos dar espaço a todos, por favor!!


Até o rap, última trincheira criativa nos EUA, está sendo diluído e destruído por cantoras como Britney Spears, Miley Cyrus, Cristina Aguilera, Rihana e outras peladas. Os caras que deram o gás necessário nos anos 90 sumiram do mapa. Ou melhor, estão pilotando as mesas de som nos estúdios seguindo a seguinte lógica: "Porque não partir pra produção dos farsantes já que, inevitavelmente, outros o farão. Pelo menos a grana fica com a gente". É a roda do mercado moendo e moendo os talentos.
Os programas de caça talentos daí e daqui são horríveis. Buscam sempre a mesma cara, a mesma voz, o mesmo falsete, o mesmo neguinho maneiro, o mesmo arranjo brega, o mesmo balanço. É muito desperdício. Os aspirantes a artistas querem fama rápida e nem imaginam construir uma carreira como a tua, com mais de 70 discos lançados. Merecem toda a decepção a que são submetidos.
Na tua época não existiam os reality shows que infestam a televisão de hoje, são centenas espalhados pelo mundo com as pessoas mais fúteis e burras possíveis. Você comporia umas boas músicas sobre esse tema, sugiro o título: “Reality Show Bitch”.
Aqui a poderosa Rede Globo vem causando estragos há décadas. Ao longo das duas últimas, criou verdadeiras legiões de videotas com suas novelas e programas de alto nível técnico e baixo nível cultural. Sem falar em sua influência negativa na política e no monopólio do mercado da informação. Não interessa a ela nem aos políticos a diversidade de informação, por isso a democratização dos meios de comunicação no Brasil é zero. 
Milhões de fãs da apresentadora Xuxa – sim apresentadora virou profissão e acredite, há milhares de candidatas – hoje são mães de crianças imbecilizadas por osmose. Essa mulher que desgraçadamente se auto-intitula “a rainha dos baixinhos”, e que hoje ainda quer parecer adolescente aos 50 anos, foi uma das principais responsáveis por difundir o consumismo infantil. Não bastasse isso, esse programa também foi responsável pela sexualização precoce de muitas meninas promovendo concursos de, entre outras coisas, “Dança na Boquinha da Garrafa”. Ainda bem que você não viu isso, man. Uma das coisas mais grotescas que a televisão brasileira já produziu.
As novelas de hoje são de uma putaria só, não existe uma família que não tenha uma puta atrás de um casamento rico, um alcoólatra, um viciado, um mau caráter, estelionatário, uma alpinista social disposta a tudo por dinheiro. Tratam os homossexuais de forma pejorativa e caricata. Maestro, não sou nenhum puritano ou exemplo de moral, na verdade, adoro uma sacanagem, como todas as pessoas, mas tudo tem seu tempo e sua esfera. Não vamos avacalhar, né?
Há 46 anos você lançou Freak Out, um marco na discografia mundial. Onde mostrou pela primeira vez seus personagens malucos ao mundo.
Confesso que a primeira vez que ouvi Freak Out na casa de um amigo estranhei aquele som louco. Nosso chip é formatado desde a infância para a consonância. Foi com o Jazz From Hell de 1986 que você me fisgou com a música revolucionária gravadas nos sulcos daquele vinil. Voltei ao Freak Out e ao Uncle Meat e entendi o recado velho guru. O teu mundo era o das pessoas de plástico, das safadas garotas judias, dos políticos proxenetas endinheirados, dos evangelistas falsos da televisão. Da fauna maldita que infesta a sociedade com a sua arrogância e apreço ao poder e ao culto as aparências. Seja qual for o custo.

       
Francis Fukuyama errou feio. Você ainda estava vivo quando ele veio com a lorota de “Fim da História”.
É inevitável. Todas as vezes que um intelectual, pensador, teórico, político ou o que seja, na esfera norte americana escreve ou planeja algo levando em conta apenas a perspectiva de seu país, a coisa vai dar errado. O que não surpreende nem um pouco, pois eles simplesmente não conhecem, ou não querem conhecer outras perspectivas que não sejam as suas. As variáveis dos outros nunca importam.
Um dia você apenas cogitou em concorrer à presidência do teu país, mas se por um acaso você concorresse e ganhasse, seria a maior deblace causada na política mundial de todos os tempos. Um gênio da música desbocado e consciente assumindo a Casa Branca, confrontando os Bobby Browns da política norte americana. Ia ser lindo, meu velho guitarrista.
Infelizmente não aconteceu. O que aconteceu foi que o porco do Bill Clinton se elegeu afundando de vez a diplomacia e qualquer possibilidade de pacto mundial, se é que isso um dia foi possível além da utopia. E como as coisas sempre podem piorar, George W. Bush Jr assumiu o controle dos Estados Unidos jogando o país e o mundo em um período de trevas que está longe de acabar. Se é que isso vai acontecer. São Muitos “ses” para responder.
Às vezes sinto vergonha ou um pouco de receio de tocar em alguns assuntos. Política e religião são dois deles. Não vivo em um país com mentes abertas à discussão. Aliás, você também não, pelo menos nos dias de hoje. Além do que, as pessoas tendem a levar esse tipo de assunto para o lado pessoal. Por outro lado, se eles não têm vergonha de fazer o que fazem em nome do povo ou de deus, por que haveria eu de impor a autocensura?
Os evangelistas brasileiros seguem o exemplo dos norte americanos, Jerry Falwell, Jim Bakker, Robert Schüller, Paul Crouch, Robert Tilton, Bill Bright, Rex Humbard e Jimmy Sweaggart e seus programas de TV. Criticados por você nos anos 70 e 80, aqui no Brasil têm muita influência, inclusive na política.  
A cabeça do povo pobre, arada com esperança e cultivada com a falta de educação por séculos é terreno fértil para os falsos pregadores e mercantilistas da fé. Eles sim são os verdadeiros malditos.
Perdi a minha fé faz tempo. Duvido que venha outro Frank Zappa. O terreno não é fértil.
Vou ficar aqui curtindo os meus discos velhos e lembrando como era bom chegar na loja e ver os teus discos nas prateleiras. Mas o pior de tudo é saber que tem gente que nem imagina que você existiu.