quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Frank Zappa has just left the building (uma carta ao velho guitarrista)

 
Salve Zappa. Não parece, mas hoje faz vinte anos que você deixou o prédio. E, cara, está fazendo falta.
É sério. As coisas andam ruins por aqui meu velho. Às vezes penso que a tua passagem pra outra dimensão ou sei lá se foi pra algum lugar além de debaixo de sete palmos de terra, tenha sido o sinal derradeiro que as coisas iriam desafinar e, por fim, destoar.
Sei que corro o risco de você não gostar dessa carta, afinal, “Um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler”. Tudo bem, posso viver com o teu sarcasmo, porque no final, você tem razão.
O fato é que, em 2013, o ambiente musical está ruim, o político está péssimo e o intelectual está pior. Como dizia outra saudosa artista brasileira, está cada vez mais down no high society. E acrescento, no low também.
Após a queda das majors da indústria da música que, justiça seja feita, você sempre combateu, o cenário mudou muito nos Estados Unidos e no Brasil. Com a vantagem de aí ser o lugar onde todas as mudanças tecnológicas acontecem. Se vocês perdem um pouco todos os anos a hegemonia do conteúdo, pelo menos a mantém sobre os formatos.
No meu país, onde a maioria dos teus conterrâneos acredita que a capital é Buenos Aires, o mercado musical passou a ser controlado 100% pela televisão. Aqui, onde a diversidade cultural é tão grande ou maior que nos Estados Unidos - dentro do conceito que tudo é cultura - cinco emissoras dominam a TV aberta: redes Globo, Record, SBT,  Bandeirantes e VTV. Juntas, elas ditam o que deve ser “consumido”. Palavra maldita quando empregada em um contexto cultural.
E, acredite, elas sempre optam pelo pior. A MTV - I'm about get sick, watching MTV – nos últimos anos se esmerou em construir uma grade com programas de auditório, promover teen bands e fazer propaganda nos moldes da matriz norte-americana e das redes ditas normais. Subjugou a inteligência do público jovem tratando-o como mero consumidor e se deu mal. Fechou as portas e já foi tarde.
Assim como nos Estados Unidos, por aqui o rock também morreu. O curioso é que no brasa, o grosso de bons músicos que cresceu ouvindo Beatles, Rolling Stones, Allman Brothers, Muddy Waters, Howlin Wolf e... Frank Zappa, migraram para o blues e têm feito a cena crescer de forma independente. Como você ensinou, man. E isso é muito bom. Foda-se a indústria and all those record company pricks.
Cresci ouvindo a música pop americana e brasileira que sempre tiveram qualidade. Mas hoje não dá mais meu velho. É um tal de bonde disso, sertanejo aquilo, tecno não sei o que. Que merda é essa?! Esses malditos produtores que controlam as TVs não têm nenhum compromisso com a arte. Não se trata de ser preconceituoso, não são todos os dias que estamos para Arvo Pärt ou Keith Jarret, mas espera aí, não vamos nivelar por baixo. Vamos dar espaço a todos, por favor!!


Até o rap, última trincheira criativa nos EUA, está sendo diluído e destruído por cantoras como Britney Spears, Miley Cyrus, Cristina Aguilera, Rihana e outras peladas. Os caras que deram o gás necessário nos anos 90 sumiram do mapa. Ou melhor, estão pilotando as mesas de som nos estúdios seguindo a seguinte lógica: "Porque não partir pra produção dos farsantes já que, inevitavelmente, outros o farão. Pelo menos a grana fica com a gente". É a roda do mercado moendo e moendo os talentos.
Os programas de caça talentos daí e daqui são horríveis. Buscam sempre a mesma cara, a mesma voz, o mesmo falsete, o mesmo neguinho maneiro, o mesmo arranjo brega, o mesmo balanço. É muito desperdício. Os aspirantes a artistas querem fama rápida e nem imaginam construir uma carreira como a tua, com mais de 70 discos lançados. Merecem toda a decepção a que são submetidos.
Na tua época não existiam os reality shows que infestam a televisão de hoje, são centenas espalhados pelo mundo com as pessoas mais fúteis e burras possíveis. Você comporia umas boas músicas sobre esse tema, sugiro o título: “Reality Show Bitch”.
Aqui a poderosa Rede Globo vem causando estragos há décadas. Ao longo das duas últimas, criou verdadeiras legiões de videotas com suas novelas e programas de alto nível técnico e baixo nível cultural. Sem falar em sua influência negativa na política e no monopólio do mercado da informação. Não interessa a ela nem aos políticos a diversidade de informação, por isso a democratização dos meios de comunicação no Brasil é zero. 
Milhões de fãs da apresentadora Xuxa – sim apresentadora virou profissão e acredite, há milhares de candidatas – hoje são mães de crianças imbecilizadas por osmose. Essa mulher que desgraçadamente se auto-intitula “a rainha dos baixinhos”, e que hoje ainda quer parecer adolescente aos 50 anos, foi uma das principais responsáveis por difundir o consumismo infantil. Não bastasse isso, esse programa também foi responsável pela sexualização precoce de muitas meninas promovendo concursos de, entre outras coisas, “Dança na Boquinha da Garrafa”. Ainda bem que você não viu isso, man. Uma das coisas mais grotescas que a televisão brasileira já produziu.
As novelas de hoje são de uma putaria só, não existe uma família que não tenha uma puta atrás de um casamento rico, um alcoólatra, um viciado, um mau caráter, estelionatário, uma alpinista social disposta a tudo por dinheiro. Tratam os homossexuais de forma pejorativa e caricata. Maestro, não sou nenhum puritano ou exemplo de moral, na verdade, adoro uma sacanagem, como todas as pessoas, mas tudo tem seu tempo e sua esfera. Não vamos avacalhar, né?
Há 46 anos você lançou Freak Out, um marco na discografia mundial. Onde mostrou pela primeira vez seus personagens malucos ao mundo.
Confesso que a primeira vez que ouvi Freak Out na casa de um amigo estranhei aquele som louco. Nosso chip é formatado desde a infância para a consonância. Foi com o Jazz From Hell de 1986 que você me fisgou com a música revolucionária gravadas nos sulcos daquele vinil. Voltei ao Freak Out e ao Uncle Meat e entendi o recado velho guru. O teu mundo era o das pessoas de plástico, das safadas garotas judias, dos políticos proxenetas endinheirados, dos evangelistas falsos da televisão. Da fauna maldita que infesta a sociedade com a sua arrogância e apreço ao poder e ao culto as aparências. Seja qual for o custo.

       
Francis Fukuyama errou feio. Você ainda estava vivo quando ele veio com a lorota de “Fim da História”.
É inevitável. Todas as vezes que um intelectual, pensador, teórico, político ou o que seja, na esfera norte americana escreve ou planeja algo levando em conta apenas a perspectiva de seu país, a coisa vai dar errado. O que não surpreende nem um pouco, pois eles simplesmente não conhecem, ou não querem conhecer outras perspectivas que não sejam as suas. As variáveis dos outros nunca importam.
Um dia você apenas cogitou em concorrer à presidência do teu país, mas se por um acaso você concorresse e ganhasse, seria a maior deblace causada na política mundial de todos os tempos. Um gênio da música desbocado e consciente assumindo a Casa Branca, confrontando os Bobby Browns da política norte americana. Ia ser lindo, meu velho guitarrista.
Infelizmente não aconteceu. O que aconteceu foi que o porco do Bill Clinton se elegeu afundando de vez a diplomacia e qualquer possibilidade de pacto mundial, se é que isso um dia foi possível além da utopia. E como as coisas sempre podem piorar, George W. Bush Jr assumiu o controle dos Estados Unidos jogando o país e o mundo em um período de trevas que está longe de acabar. Se é que isso vai acontecer. São Muitos “ses” para responder.
Às vezes sinto vergonha ou um pouco de receio de tocar em alguns assuntos. Política e religião são dois deles. Não vivo em um país com mentes abertas à discussão. Aliás, você também não, pelo menos nos dias de hoje. Além do que, as pessoas tendem a levar esse tipo de assunto para o lado pessoal. Por outro lado, se eles não têm vergonha de fazer o que fazem em nome do povo ou de deus, por que haveria eu de impor a autocensura?
Os evangelistas brasileiros seguem o exemplo dos norte americanos, Jerry Falwell, Jim Bakker, Robert Schüller, Paul Crouch, Robert Tilton, Bill Bright, Rex Humbard e Jimmy Sweaggart e seus programas de TV. Criticados por você nos anos 70 e 80, aqui no Brasil têm muita influência, inclusive na política.  
A cabeça do povo pobre, arada com esperança e cultivada com a falta de educação por séculos é terreno fértil para os falsos pregadores e mercantilistas da fé. Eles sim são os verdadeiros malditos.
Perdi a minha fé faz tempo. Duvido que venha outro Frank Zappa. O terreno não é fértil.
Vou ficar aqui curtindo os meus discos velhos e lembrando como era bom chegar na loja e ver os teus discos nas prateleiras. Mas o pior de tudo é saber que tem gente que nem imagina que você existiu. 



Um comentário:

  1. Um breve resumo, porém eficiente, da cena cultural do mundo atual. Zappa deve estar agradecendo por ter morrido antes.

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