Celso de Almeida e Paulo Paulelli
Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior
Fotos com Rosa Passos: Leandro Amaral
Ao frequentar o JazzB regularmente, tenho feito bons contatos e boas entrevistas para o Mannish Blog. Além de sempre dar uma escapada para devorar o sanduíche de costela da Casa do Porco, que fica ali ao lado.
Esta entrevista com Celso de Almeida foi uma dessas. Na ocasião, o baterista se apresentou ao lado dos amigos de longa data Fábio Torres (piano) e Paulo Paulelli (baixo), dois terços do Trio Corrente, em uma noite de maio cujas fotos acompanham esta matéria.
Acompanho a trajetória artística de Celso há algum tempo. Mais precisamente desde 2007/08, quando produzi dois shows da cantora e violonista Rosa Passos, no Teatro Coliseu e no Teatro do Sesc Santos, respectivamente. Também naquela ocasião, Torres e Paulelli estiveram presentes.
Chegaram a gravar um álbum que pode ser encontrado nas plataformas digitais com bons sambas-jazz: Casa de Marimbondo, Cadê a Razão, Samba de Almeida, entre outros temas mais líricos.
Anos mais tarde, montou com os jovens Felipe Silveira (piano) e Sidiel Vieira (baixo) o Celso de Almeida Trio, lançando um álbum com oito temas, entre eles alguns denominados Sambalanço 1, 2, 3, 4 e 5.
O trio carrega a mais pura tradição dos grupos de samba-jazz dos anos 60, como Tamba Trio, JT Meirelles, Sambalanço Trio, Trio 3D, Zimbo Trio, Sambrasa Trio, Os Bossa Três e tantos outros combos lendários que moldaram a música instrumental no país.
Ao longo deste bate-papo, com muito bom humor, Celso passa em revista a própria trajetória: lembra as viagens de trem e os bailes de salão no interior paulista, a transição para a noite da capital paulista e a construção de um estilo marcado pelo domínio do ritmo.
Fala também das turnês internacionais, do respeito cobrado e conquistado diante de mestres da cena global e dos trabalhos mais recentes.
Celso, Paulelli e Torres
Eugênio Martins Júnior – Como foi a sua infância musical? O teu pai, Ary de Almeida, era baterista. Conta pra nós.
Celso de Almeida – Minha infância musical foi divertida. Sempre gostei de música, meu despertar foi em casa. Tenho vagas lembranças. Meu pai me levava aos ensaios da orquestra de baile em que ele tocava e que se chamava Nelson e Sua Orquestra Tupã. Orquestra de bailes muito famosa nas décadas de 60/70. Infelizmente essa orquestra não durou duas décadas, porque o maestro faleceu nos anos 70. Eles têm dois álbuns gravados. Naquela época não se gravava com facilidade, tinha que ter uma gravadora. Eles tinham uma bateria branca e eu ficava perto. Foi um despertar. Sou de 1960 e tive esse despertar natural. Digo, aquele instinto, né? De conseguir fazer aquele ritmo... tchum tcha tchum tchum. Para uma criança... (risos). E nessa orquestra eu tinha um tio cantor, o Hamilton Rangel. E tinha meu outro tio, o Toniquinho (Antônio de Almeida), baterista que foi fundador da Orquestra Jazz Sinfônica, onde ficou 25 anos. Mas o Hamilton viu que eu tinha jeito e me levou para acompanhá-lo em serestas, bailes, não sei o quê. Eu pegava uma caixinha do meu pai — que tenho até hoje, uma caixa da Gaeta —, uma vassoura, uma baqueta e ia atrás do meu tio. Tinha um baterista que tocava com ele, mas ele me chamava pra canja.
EM – Ainda não era um esquema profissional?
CA – Meu tio era profissional, mas ele estava me introduzindo nesse caminho. E como funcionava? Ele virava pro violonista e falava o tom. Aí virava pra mim e dizia: "É um bolero", "É um fox", "É um samba-canção" (Celso cai na gargalhada e solfeja todos esses ritmos). Com meus 13 anos eu fazia isso. A gente viajava de trem. Eu morava em Tupã, uma cidade que fica a 540 quilômetros aqui de São Paulo. Íamos de trem, tocávamos na seresta, dormíamos no hotel e no outro dia de manhã voltávamos pra casa. E às vezes a gente viajava num Gordini que ele tinha. Eu estava na pré-adolescência e tenho boas lembranças dessa época (risos).
EM – E quando começou a fase profissional?
CA – Estava com 14 anos quando fui tocar numa banda de baile de amigos da mesma idade. Sempre tinha um baile pra tocar. Fui por esse caminho, com ensaios e repertório da época, né? Em 1974, era sucesso de novela, sucesso de banda de rock, músicas que tocavam na rádio. Fui aprendendo na prática. Mas não envolvia leitura musical. Colocávamos um disco na vitrola e ficávamos em volta escutando: guitarra, piano, baixo, harmonia. Na época, a melhor banda de baile era aquela que conseguia copiar melhor (risos). Mas tinha toda aquela deficiência de equipamento, né? Só que foi uma época muito bacana para o meu aprendizado pelo fato de poder ouvir. Mesmo que as peles da bateria já ficassem marcadas no primeiro show, pratos que não eram de marca e que tinham de ser desamassados para poder tocar de novo.
EM – Tinha que levar na funilaria.
CA – (risos) Era o que tinha. E nessa de querer tocar igual àquele som do disco, a gente ajustava aquele chimbal ruim até fazer ele soar parecido com aquilo. Parece loucura, mas era assim que funcionava. E o mesmo com a caixa e o bumbo, o som de aro, etc.
EM – Aprendeu fazendo.
CA – Sim. E hoje em dia tem muito a parte visual. Mas de repente você está vendo, mas não está ouvindo. Vê as marcas que os outros usam e acha que o som vai sair igual. É uma coisa gozada, a bateria tem essa característica: cada colega que sentar e tocar vai tirar um som diferente.
EM – Tocar em banda de baile te ensina a tocar todos os gêneros musicais, né? Quem passa por esse aprendizado não passa aperto.
CA – Sim. Minha escola, como a de muitos colegas da minha geração, foi em uma banda de baile. Era muito comum. Fiquei uns 20 anos fazendo baile (risos). E quando parei de fazer baile e mudei pra São Paulo, fui tocar na noite e fiquei mais 20 anos. Mas em Tupã toquei em uma banda chamada Eclipse. Depois, em 1974, toquei na Brazilian. Toquei em Marília, Lins, Taquaritinga e, em 1990, mudei pra São Paulo.
Com Rosa Passos em 2008
EM – Já tinha 30 anos.
CA – No começo tive a ajuda do meu irmão. E meu tio me arrumou um trabalho no programa Záccaro, o Italianíssimo. Fiquei três anos, até 1993. Tocava em festas italianas, tarantela (solfeja a tarantela). “Ahhh, isso é tarantela? Tá bom”. E ia fazendo. O baile deixa você esperto. Você tendo um bom estudo das divisões musicais e aprendendo os ritmos, toca a maioria das coisas. Quando cheguei aqui, já tinha uma boa noção de leitura.
EM – Então não foi direto para o jazz?
CA – Não. Fiquei uns quatro meses sem fazer nada, até pensando se tinha feito besteira em mudar. Paralelamente ao Záccaro, comecei a fazer umas orquestras de gafieira. Toquei com um maestro que havia sido muito famoso nas décadas de 70 e 80, que era o Elcio Alvarez. Fiquei uns dois anos, o que melhorou minha leitura. O maestro Azevedo tinha uma big band no mesmo local e eu fazia sub de uma baterista chamada Junia, uma grande baterista.
EM – Foi nessa gafieira que você se especializou em samba-jazz?
CA – Entrei porque tinha aquela linguagem diversificada do instrumento devido ao boca a boca. É claro, meu pai tinha em casa os álbuns do Zimbo Trio, Milton Banana, Edison Machado... eu sabia do que se tratava, mas não trabalhava com isso. Samba-jazz por quê? Porque você toca livre, o samba à sua maneira, e tem o improviso. Como já tinha leitura, fui convidado pelo maestro Branco (José Roberto Branco), que era da Banda Savana. Essa banda tem dois álbuns, que foram gravados pelo baterista Magno Bissoli — um baterista, compositor e arranjador. Toquei dois anos nessa banda e fui ficando conhecido.
EM – Só pra voltar um pouco sobre esse assunto do samba-jazz, improviso, etc. Esses discos do teu pai que você ouvia chegaram a te influenciar?
CA – Minha formação foi totalmente prática. E costumamos dizer que esse aprendizado foi autodidata, mas não dá pra ser 100% se você ouve os outros (risos). Ou seja, não fui eu quem inventou, né? Mas por ter esse lado de prestar atenção no pessoal tocando, o que me ajudou muito a caminhar, tem esse aprendizado com meu pai, que foi um grande baterista de baile, o Ary de Almeida. Mas ele nunca foi um músico que dizia: “Olha esse aqui. Olha a pegada desse”. Ele sempre me estimulou a ouvir todo mundo, sempre pelo meu ponto de vista. Naquele disco Balançando, com Milton Banana, entendi uma forma mais contida de tocar, mais controlada. Com o Edison Machado era mais aberto, livre, mais presente. E com o Rubinho Barsotti, no Zimbo Trio, eram aqueles arranjos sempre muito elaborados, cheios de obrigações. Das três formas eles estão tocando pra danar.
EM – Fez uma síntese de todas essas coisas.
CA – Procuro tocar na soma, vendo o que está acontecendo, as informações que os amigos que estão tocando comigo me passam. Há uma coisa interessante: às vezes acontece muita coisa na música que dá a impressão de que a gente ensaiou. Mas não, é só a vontade de tocar junto. A bateria funciona nesse caminho: melodicamente, acompanhando as nuances que os amigos estão tocando. E acaba dando uma certa identidade pra gente. Quando dou aula pra algum colega que já toca ou é iniciante, procuro mostrar esse caminho da soma. Que às vezes não precisa tocar muito. Mas também não quer dizer que aquele ditado de que "o menos é mais" tem que ser levado a ferro e fogo. Às vezes precisa tocar muito também. A boa técnica é admirável.
EM – Você, que viaja o mundo inteiro com vários artistas, o que tem a dizer sobre esse samba-jazz que é tão admirado fora do Brasil?
CA – Tom Jobim e João Gilberto viajaram aos Estados Unidos com vários bateristas: Dom Um Romão, Edison Machado, Milton Banana. Isso na década de 60, quando eu nasci. Essa linguagem foi muito bem difundida. A gente entrou por essa porta que eles abriram. Essa gente abriu caminho e deixou aquela marca: “Ah, é baterista brasileiro”. Somos um país cheio de ritmos, mas a certeza é que os principais são o samba e a bossa nova. Até hoje, quando tenho a sorte de ter trabalhos fora, a garotada que está aprendendo vem me falar de Tom Jobim. Aí quando chega nos anos 70 tem o Paulinho Braga, o Teo Lima — que está com mais de 80 e tocando pra danar. Tinha o Mamão (Ivan Conti), o Robertinho Silva... e vou colocar o meu tio, o Toniquinho. Meu tio e o Mamão nos anos 70 viajavam para Paris e faziam turnês com a orquestra do Paul Mauriat. Iam para a Ásia e ficavam três meses fora.
EM – Produzi dois shows da Rosa Passos aqui em Santos, um no Teatro do Sesc e outro no Teatro Coliseu, e foi quando te conheci. Gostaria que falasse sobre esse período com a Rosa.
CA – Comecei a tocar com ela em 1998. Antes de mim era o grande Erivelton Silva. Tem também o Wilson das Neves, que tocou com grandes artistas. Nos discos da Rosa tem Wilson das Neves, Paulinho Braga, Rafael Barata, vários colegas. E a partir de 1998, quando comecei a trabalhar com a Rosa, fiz a maioria dos shows ao vivo. E foi nessa época, já com 38 anos, que comecei a me sentir brasileiro. E por quê? Imagine você tocar em um lugar e ver que John Patitucci, Ron Carter, Paquito D’Rivera, o saudoso Russell Malone e todo mundo quer conversar com a gente por causa daquele jeitinho de tocar bossa nova e samba que eles gostam, né? E essa é a minha função: tocando bateria lá fora da melhor forma possível, vou ser respeitado como um igual.
Tive uma experiência bacana já faz uns 10 anos. A última vez que toquei no Blue Note com a Rosa, um tal de Jeff começou a me mandar mensagens dizendo que iria a Nova York assistir a gente. E eu: “Ah, legal, vai lá”. Mas não tinha ideia de quem era. Depois caiu a ficha que era o Jeff Hamilton, baterista da Diana Krall. Ele saiu de Los Angeles, fez conexão em Chicago e apareceu no Blue Note em Nova York. Daí chegamos e ele já estava sentadinho lá esperando a gente tocar. Assistiu a quatro shows em dois dias, nos convidou pra almoçar. A paixão dele pela música brasileira vem do começo dos anos 70, porque ele tocou com o violonista brasileiro Laurindo de Almeida. Gravaram disco, está até na capa ao lado do Laurindo. Sempre que tem algum amigo nosso tocando, ele aparece.
EM – Faz tempo que você não grava um álbum. Não está na hora?
CA – Em 2021, o Steen Rasmussen, pianista de Copenhague, me chamou pra gravar um álbum e acabou dando certo. Fui para lá em 2022, fizemos shows em várias cidades e acabamos em um estúdio. Gravamos o Milton På Svenska, que é Milton Nascimento em sueco. É que a Josefine, a cantora, disse que em sueco seria mais audível do que em dinamarquês. Voltei em 2023, tocamos no Copenhagen Jazz Festival e gravamos outro álbum em trio chamado Red Bossa. Em 2025 fiz duas turnês e gravamos outro álbum que sai este ano. E no ano que vem já temos agenda pra tocar o novo trabalho.
EM – Então tem coisa nova que a gente não sabia.
CA – Sim. E participo também da Banda Mantiqueira. Fiquei afastado dois anos, mas o Proveta me convidou e eu estou de volta. Gravamos um álbum na semana passada que será lançado em breve.
Rosa Passos e banda - Além de Almeida, Torre e Paulelli, o saudoso Vinicius Dorin
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