quinta-feira, 11 de junho de 2026

Morre aos 86 anos o indomável James “Blood” Ulmer

 

Ulmer em Londres, 16 de junho de 2009
. (Foto: Helen Boast PhotographyRedferns)

Esse obituário vem com atraso, mas com a reverência devida. Problemas da vida e a correria do trabalho me afastou do noticiário musical por um tempo e não li sobre a morte do grande James “Blood” Ulmer, aos 86 anos, no dia 03 de junho. Vamos a ele. 
Em um comunicado nas redes sociais, sua família informou sobre a morte do guitarrista e acrescentou: "Sua música era destemida, assim como seu espírito". A mais pura verdade.
Nascido Willie James Ulmer na Carolina do Sul em 1940, a carreira musical de Ulmer começou em bandas de funk, viajando de Pittsburgh a Columbus e Detroit – acompanhando músicos como Jewel Bryner e Hank Marr – antes de se estabelecer em Nova York no início dos anos 1970.
James “Blood” Ulmer não se prendia a um estilo. Além de tocar com Art Blakey, Joe Henderson e Rashied Ali, teve como mentor Ornette Coleman.
Esse espírito livre reinou por toda a carreira de Ulmer, caracterizada por uma execução instintiva e sem limites, mesmo quando começou a se dedicar à composição.
O próprio Coleman coproduziu eu álbum de estreia, Tales of Captain Black. Seu álbum seguinte, Are You Glad to Be in America?, foi lançado pelo selo britânico Rough Trade. 
O comentário social provocativo da faixa-título a tornou uma canção marcante, e ele acabou, vejam vocês, abrindo shows para bandas do pós-punk e rock, entre elas, Public Image Ltd e Captain Beefheart. Sobre o público nesses shows, ele disse mais tarde: "Eu ficava no microfone e mandava eles calarem a boca. Eles tinham cinco minutos para entrar no clima ou vazar!"
Após a passagem pela Columbia, assinou brevemente com a Blue Note para mais um álbum dando uma cutucada na América: America – Do You Remember the Love? (1987).
Continuou lançando álbuns de estúdio durante as décadas de 1990 e 2000, focando menos no jazz e mais no blues: "Blue Blood" (2001) contou com uma banda que incluia Bill Laswell, Amina Claudine Myers e Bernie Worrell, do Funkadelic. Lançado no mesmo ano, Memphis Blood: The Sun Sessions lhe rendeu uma indicação ao Grammy na categoria de melhor álbum de blues tradicional.
Ele também foi requisitado por outros artistas para contribuir com seu inimitável estilo de tocar guitarra: participou de gravações como a trilha sonora de Ry Cooder para o filme The End of Violence, de Wim Wenders (1997), e do álbum Phenology, do grupo de hip-hop The Roots.
Finalmente se aposentou em 2024, fazendo seu último show no festival de jazz de Detroit.
Consegui assistir James Blood Ulmer apenas uma vez. Foi em agosto de 2028 no festival Sesc Jazz (antes chamado de Jazz Na Fábrica). 
James "Blood” Ulmer e Memphis Blood Blues Band convidaram o ET Vernon Reid para apresentar um show de blues visceral e elétrico, misturando composições autorais com releituras clássicas de lendas do gênero, como Willie Dixon e Muddy Waters. Por sorte, o show foi gravado e está disponível no ambiente do Selo Sesc no Spotify.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Time Traders - 2001 - Peter Green/Splinter Group

 


O guitarrista inglês que despontou nos anos 60 com Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page, mas que nunca teve um décimo da fama destes, mesmo após substituir o próprio Clapton nos Bluesbreakers de John Mayall e fundar o grupo de blues/rock Fleetwood Mac, gravou seu melhor disco em anos. Green andava afastado da cena por causa do seu envolvimento com drogas pesadas, coisas da vida rock and roll.
Time Traders é, em todos os sentidos, um biscoito fino: produção, composições, arranjos e execuções. Tudo ancorado pelo ótimo Splinter Group. 
É a volta definitiva dele ao bom e velho blues, mas sem o fantasma da urgência ou de algum  virtuosismo vazio. O que se ouve aqui é a pura essência do gênero, filtrada pela sabedoria de quem já viveu o suficiente para cantar a dor com autoridade.
Acompanhado por Nigel Watson na segunda guitarra, Pete Stroud no baixo, Roger Cotton nos teclados e Larry Tolfree na bateria, Green encontra o colchão perfeito para desfilar seu fraseado econômico e expressivo.
A pedrada começa com Until The Well Runs Dry, uma dor de corno daquelas que só os blueseiros e os sertanejos brasileiros sabem cantar. 
Real World tem um Hammond B3 de fundo sob uma batida classuda daquelas que o batera toca olhando para os lados com cara de paisagem, mas que marca o tempo perfeito para a cantoria sobre os dias idos e perdidos e que não voltam mais. Green e Watson solam bonito. 
 O Splinter Group não funciona apenas como grupo de apoio, mas como uma engrenagem coesa que entende o tempo e o espaço que o mestre precisa para brilhar e deixar brilhar. Prova disso é a mudança de dinâmica de tirar o folego em Running After You.  
Enquanto temas mais diretos mostram que sua pegada rítmica continua impecável, tipo Shadow On My Door, um bluesão da porra. O som é limpo, quente e sem os excessos que muitos discos de blues na virada do milênio apresentaram.
Se voz de Green já carrega as marcas do tempo e dos excessos passados, ela ganha em expressividade e crudeza quando ele canta... you tell me lies, lies, em Lies. Com direito a backing vocals e metais.  
O repertório do álbum equilibra com maestria canções originais e releituras, como Underway, com uma atmosfera hipnótica e melancólica que tornou Green e sua icônica Les Paul lendas da música. Qualquer semelhança com Albatross pode não ser mera coincidência.
Longe dos holofotes, Time Traders se consolidou não apenas como um grande registro de estúdio da época, mas como o testamento de um sobrevivente que escolheu a música como sua redenção final. Com alma de blueseiro. 

Músicas:

1 - Until The Well Runs Dry
2 - Real World
3 - Running After You
4 - Shadow On My Door
5 - Lies
6 - (Down The Road Of) Temptation
7 - Downsize Blues (Repossess My Body)
8 - Feeling Good
9 - Time Keeps Slipping Away
10 - Wild Dogs
11 - Home
12 - Underway
13 - Uganda Woman


sexta-feira, 5 de junho de 2026

São Paulo ganha a primeira edição do Underground Jazz Fest em junho

 Improviso e ousadia. Músicos da cena de São Paulo, a cidade mais jazz do Brasil, se reúnem num evento em homenagem à liberdade artística


A proposta do Underground Jazz Fest é tocar música livremente para os amantes do improviso. E, de preferência, música autoral. 
Sim, respeitando e dando espaço aos músicos que tocam na noite paulistana e que têm o compromisso apenas com a música. São eles: Renato Alves Quarteto, Igor Bollos Trio, Stefano Moliner Quinteto e Sintia Piccin Quarteto. 
Segundo Stefano Moliner, organizador do Underground Jazz Fest, os festivais usam a nomenclatura “jazz”, mas não tocam jazz: “Tem pop, rock, reggae, soul tudo muito maquiado, muito blasé. Mas aquela urgência, aquele improviso, o som indigesto que pega fogo, a criatividade ativa em tempo presente ali na tua cara, não vejo nesses festivais”, polemiza o músico e produtor.
Portanto, o Underground Jazz Fest, desde sua primeira edição, será uma experiência indispensável para quem busca o jazz feito com alma, criatividade viva e total liberdade.

Renato Alves

Renato Alves – É guitarrista e compositor de Marília (SP). O músico apresenta os temas de seu mais recente álbum, Casa Viva. 
O show conta com composições autorais que transitam entre o jazz-fusion, grooves contemporâneos e a riqueza rítmica da música brasileira, criando uma sonoridade moderna e cheia de nuances. 
A guitarra conduz a narrativa musical, sempre abrindo espaço para a improvisação, a interação e o diálogo entre os músicos no palco. 
Além de Renato, a banda é composta por Adauto dias (baixo), Fernando Amaro (bateria) e Gabriel Gaiardo (piano e teclado).

Igor Bollos

Igor Bollos - Para o UJF, enfant terrible da guitarra apresenta pela primeira vez composições autorais que serão executadas com o novo trio formado por Igor Willcox (bateria), Jackson Silva (baixo). 
O show também marca a estreia ao vivo do single Cloud Nine, que está previsto para ser lançado ainda esse mês. Seu trio inclui Igor Willcox (bateria) e Jackson Silva (baixo).

Stefano Moliner

Stefano Moliner – Lança no festival seu terceiro álbum, Codex Ultra Deum, seguindo a trilha evolutiva traçada desde o primeiro trabalho, Miração de 2018, seguido por Apotheosis de 2022.
O trabalho segue a linha de jazz rock ou fusion, como preferir, ainda com referências bastante declaradas ao campeão Hermeto Pascoal, porém, agora assume um caráter ainda mais denso e pesado, flertando até com o heavy metal e texturas e harmonias soturnas de Wayne Shorter e Miles Davis.
Tal gama de influências traz ao Codex Ultra Deum uma digital bastante particular que busca romper bolhas sem tornar-se uma caricatura ou colcha de retalhos. O time de Stefano Moliner é Igor Bollos (guitarra), Rafael Abissamra (bateria) e Cassio Ferreira (saxofone).


Sintia Piccin – Apresenta Freedom of Mind, espetáculo que abraça a liberdade musical e a exploração criativa, estendendo-se ao território do jazz fusion. 
O grupo guia o público numa jornada sonora sinuosa, onde a improvisação e a composição se entrelaçam em um tapete sonoro imprevisível e cativante.
O groove é parte essencial dessa experiência musical, fornecendo uma base sólida para as explorações musicais do saxofone e da flauta de Sintia, combinando os talentos individuais dos sidemen, sempre sob a visão moderna da frontwoman.
No palco, Sintia Piccin (saxofone), Richard Fermino (trompete), Jackson Silva (baixo) e Fernando Amaro (bateria).

Serviço:
Evento: 1º Underground Jazz Fest
Local: Jai Club
Horário: das 15 às 22h
Endereço: Rua Vergueiro, 2676 – Vila Mariana
Ingresso: 1º lote = R$ 30,00; 2º lote = R$ 40,00; 3º lote R$ 50,00.
Vendas:  https://shotgun.live/pt-br/events/undergroundjazz

terça-feira, 2 de junho de 2026

O mundo oculto de Ada Rovatti

Em entrevista exclusiva, a saxofonista italiana radicada em Nova York fala sobre seu álbum mais pessoal, a parceria de 25 anos com Randy Brecker e a relação com a música brasileira


Texto e fotos: Eugênio Martins Júnior

Nascida na Itália e radicada em Nova York, a saxofonista e compositora Ada Rovatti consolidou-se como uma das vozes mais autênticas e versáteis do jazz contemporâneo. 
Dona de uma sonoridade robusta no sax tenor e de um ágil fraseado no soprano, Rovatti equilibra o respeito à tradição do bop com fusões estéticas que passam pelo R&B e música instrumental de matriz latina. 
Além do virtuosismo técnico, sua trajetória também é marcada pela inventividade nos arranjos e na liderança de seus próprios conjuntos, características que a colocaram na vanguarda da cena instrumental global.
Sua discografia confirma minha tese. Em Ada Rovatti & Elephunk (2003) escancara sua forte inclinação pelo groove e pela fusão do jazz com elementos do funk e do soul. 
Nos anos seguintes, trabalhos como Under the Hat e Airbop evidenciaram sua sólida ancoragem no hard bop. 
Em Green Factor a saxofonista expande ainda mais sua paleta sonora ao incorporar nuances da música celta e folclórica, mostrando sua busca incessante por texturas raras.
Em lançamentos mais recentes, como Breaker (2019), Rovatti entrega uma obra densa, investindo na força das interpretações. E em The Hidden Side (2024), mergulha em uma faceta intimista e sofisticada, reafirmando seu papel como uma compositora de mão cheia e improvisadora nata.
A busca por novas fronteiras culminou em The Hidden World of Piloo, um trabalho profundamente pessoal, gestado em um período de intensas transformações.
Longe do formato de um registro de jazz convencional, focado estritamente na improvisação, o álbum funciona como o espelho de uma fase de isolamento e autodescoberta durante a pandemia de covid 19. 
Nele, a saxofonista revela um lado vulnerável e sensível, o que de forma alguma significou a perda do controle absoluto sobre o processo de criação, misturando pop e jazz. Eu não paro de ouvir.


Eugênio Martins Jr – Como foi sua infância musical?
Ada Rovatti - Comecei a tocar piano muito cedo, por volta dos quatro anos de idade. Minha avó tocava piano e tanto eu quanto meu irmão tínhamos aulas com ela, então minha primeira linguagem de verdade foi a música. Eu sabia ler partituras antes mesmo de ler palavras.

EM – Sua transição da música clássica para o jazz aconteceu quando você trocou o piano pelo saxofone? Gostaria que você falasse sobre isso.
AR - Toquei piano clássico por uns doze anos, e só no final da adolescência comecei a tocar saxofone. Na Itália, não tínhamos muita música nas escolas. Naquela época, tínhamos coral ou flauta doce no ensino fundamental, história da música no ensino médio e nenhuma educação musical no ensino superior, a menos que você estivesse matriculado em um conservatório. Então, a chance de experimentar um instrumento e ter contato com qualquer tipo de música era muito limitada. E ainda é mais ou menos assim hoje em dia.
Então, sempre me senti privilegiada por ter música na minha família. A mudança foi bastante ditada pela minha curiosidade; meu irmão ouvia R&B e blues e meio que despertou meu interesse por esses gêneros. Na minha adolescência, também ouvia muito rock e rock/pop inglês e ficava intrigada com a ideia de improvisar, a liberdade que isso me proporcionava, e comecei a compor ainda jovem, antes mesmo de tocar saxofone.

EM – Algum artista em particular motivou essa mudança?
AR - Lembro-me de ouvir os Blues Brothers e o álbum Room Full Of Blues e adorava a seção de metais.

EM – Houve uma época em que você dividia sua vida entre estudar nos Estados Unidos e na Itália, seu país. Mas você acabou se mudando para Nova York, a cidade do jazz. Foi uma necessidade profissional? Você sentia que a cena jazzística de Nova York era necessária?
AR - Entre a mudança para Boston e depois para Nova York, morei um ano em Paris. Acho que cada mudança foi ditada pela necessidade de encontrar minha voz e algum espaço e apoio para aprender e praticar essa forma de arte. Na Itália, me sentia muito limitada, havia preconceito de gênero e não havia situações suficientes onde eu pudesse aprender e ser ouvida. A França e, definitivamente, os EUA eram mais abertos e mais receptivos.

Ada Rovatti e Randy Brecker - Bourbon Street Music Club

EM – Foi com Under The Hat que sua parceria com Randy Brecker começou? Vocês já trabalharam juntos em muitos projetos, e muitos deles ganharam prêmios. É uma parceria musical muito prolífica. Gostaria que você falasse sobre isso.
AR - Under The Hat foi a primeira vez que gravei com Randy, mas não foi a primeira vez que toquei com ele. Aliás, talvez você saiba, talvez não, mas sou casada com o Randy há 25 anos!
Não foi minha primeira gravação tocando minhas próprias músicas. Eu tinha feito algumas demos antes, mas não queria a pressão de tocar com ele, então não pedi para participar da minha gravação anterior. Mas quando a oportunidade surgiu, quis ter certeza de que ele estaria no meu primeiro projeto de verdade. Adoro a maneira como ele ouve as coisas - quem não gosta? - e sempre traz algo novo. Ele tem me apoiado muito ao longo do ano e é sempre uma inspiração, tanto musical quanto profissionalmente. Temos um gosto musical muito parecido e, quando tocamos juntos e compartilhamos nossas músicas, definitivamente existe uma busca musical em comum. Depois de tantos anos tocando juntos, desenvolvemos uma ótima sintonia e uma maneira semelhante de pensar sobre fraseado e fusão do nosso som.

EM – Ada, adoro seus álbuns. Mas não entendi algumas coisas. Uma italiana morando em Nova York gravando temas do folk irlandês. Gostaria que você me explicasse o conceito do Green Factor.
AR - Ah! Meu amor pela música celta e irlandesa começou na infância, quando meus pais fizeram uma viagem de um mês para a Irlanda.
Por uma série de circunstâncias que não vou detalhar, acabei na Sardenha, que é uma das grandes ilhas da Itália, em um mosteiro de freiras durante o verão. Com sete anos de idade, você pode pensar que foi uma experiência brutal ou difícil, mas, ao contrário disso, tive uma das experiências mais espirituais e divertidas da minha vida. Quando meus pais voltaram, compraram um LP de um famoso cantor irlandês cantando músicas tradicionais irlandesas, e acho que combinei a experiência e a carga emocional, e isso me acompanhou por todos esses anos. Duas músicas dessa gravação acabaram entrando no meu projeto: Danny Boy e Wild Colonial Boy. A segunda também tem um lugar especial para mim, pois estava em um filme que meus pais adoravam, Depois do Vendaval, dirigido por Ford e estrelado por Maureen O'Hara e John Wayne.
Mal sabia eu que, anos depois, fiz um teste de DNA e descobri que sou 24% irlandesa e escocesa... então, talvez a gaita de foles esteja no meu DNA, afinal! (risos)

EM – Quando nos conhecemos, você tinha acabado de lançar The Hidden World of Piloo. Um álbum de jazz moderno com muitos ritmos e com cantoras muito especiais: Fay Claassen, Alma Naidu e Niki Haris. Gostaria que você falasse sobre essa obra maravilhosa.
AR - Eu queria me apresentar ao público em um formato diferente das minhas gravações anteriores. Piloo é o apelido que meu pai me deu. Era o nome de um gatinho travesso em um livro que eu adorava ler quando criança, e esse apelido ficou comigo todos esses anos... e até deu nome à minha gravadora, a Piloo Records. Meu pai faleceu em setembro de 2021 e dediquei essa gravação a ele.
Comecei a compor algumas das músicas durante a pandemia. Como muitos artistas, a pandemia desencadeou uma gama incrível de emoções, e a criatividade certamente se alimentou delas. 
Então, considero meu projeto um "filho da pandemia". Isso expôs uma parte mais oculta e vulnerável de mim, e decidi expandir meus limites e explorar qualquer talento ou arte que estivesse fora da minha zona de conforto para ver onde isso me levaria. 
Não se trata de uma gravação de jazz clássico onde a improvisação é o ponto central, mas a ideia principal destaca outras facetas da minha personalidade. Desde tocar outros saxofones e flauta, até fazer arranjos para cordas, escrever letras e até mesmo controlar todas as etapas da produção, edição, design do LP/CD, sessão de fotos, maquiagem, e até mesmo as roupas que estou usando na capa são de minha autoria e costura.


EM – A cena do jazz sempre foi dominada por instrumentistas homens, mas há um grande movimento de mulheres assumindo a liderança em bandas com destaque no cenário mundial. Posso citar algumas: Ada Rovatti, Badi Assad, Esperanza Spalding, Nubya Garcia, Yissi Garcia. Gostaria que você falasse sobre isso.
AR - Acho que as mulheres sempre estiveram presentes, mas nunca foram reconhecidas o suficiente, corretamente ou simplesmente receberam o mesmo destaque que os homens. Devido a restrições culturais, fomos minoria por muito tempo, mas nas últimas décadas o número tem crescido exponencialmente e devo dizer que algumas das minhas artistas favoritas e mais inovadoras atualmente são mulheres.

EM – Recentemente, entrevistei a saxofonista israelense Hillai Govreen, que também mora em Nova York e que convidou o Café da Silva para tocar em seu álbum. Qual foi a participação dele no seu álbum? E você também costuma tocar com Marco Bosco, outro percussionista brasileiro. Qual é a sua relação com a música brasileira?
AR - Convidei o Café da Silva para tocar nos meus dois últimos álbuns. Ele é um mestre da percussão, tem uma musicalidade incrível e sabe exatamente como complementar cada música. Marco Bosco teve a oportunidade de tocar ao vivo com ele em São Paulo no ano passado e fiquei totalmente hipnotizada pela sua arte. Entrei em contato com ele para tentar gravar algo e espero que tenhamos a chance de fazer isso em breve. Ouço muita música de diferentes partes do mundo e a música brasileira definitivamente tem um grande impacto na minha maneira de ouvir música, tanto rítmica quanto harmonicamente.

EM – Leo Susi me disse que você fará uma turnê pela China. Ela contará com um trompetista americano, um saxofonista italiano, um baterista e um percussionista brasileiros – uma verdadeira "Nações Unidas da Música". O conceito de World Music faz algum sentido para você?
AR - Claro, a música NÃO tem fronteiras. A música não se importa com cores, religião ou gênero e fala ao coração de todos, com uma linguagem que todos entendem. Nestes tempos conturbados, a música e a arte são como um refúgio seguro.

Backstage Bourbon Street

Com Leo Susi - Camarim do Bourbon Street