segunda-feira, 30 de março de 2026

O jazz no meio do caminho de Jo Mayasi

 

Jo Mayasi no Jazzb 19/03/2026 - Foto Eugênio Martins Jr

Texto e fotos: Eugênio Martins Jr

A trajetória do baterista suíço Jo Mayasi é um estudo de caso sobre como as fronteiras musicais do século XXI se tornaram porosas, capaz de fundir memórias religiosas do Congo à estética do R&B televisivo.
Nascido em Berna e radicado na Basileia, lugar que abriga um dos mais importantes polos de ensino de jazz na Europa, o Jazz Campus, Mayasi carrega múltiplas camadas identitárias. Ao mesmo tempo sua formação intercala o autodidatismo da infância com a busca constante do aprimoramento profissional na fase adulta.
O que torna seu percurso particularmente relevante para a tese da globalização do jazz que eu tanto bato na tecla do computador aqui de casa é a sua disposição em aprender os ritmos alheios. 
Imerso nos estudos rítmicos apresentados pelo percussionista Paulo Almeida, o baterista suíço buscou no Brasa – toma essa Nike - não só o conhecimento, mas a vivência: recentemente circulou pelo Samba do Trabalhador, no Rio de Janeiro, e estudou a técnica do “monstro” Celso de Almeida, em São Paulo.
Essa disposição para o mistura aparece em sua curta discografia. No EP Until We Met (2021), funde o R&B e o soul na faixa título e em West Coast, onde a bateria marca o tempo e esbanja elegância. 
A pluralidade expande-se em seus singles mais recentes, em Flight Mode (2024), gravado com Anatole Muster e James Iwa, sentimos a precisão do relógio suíço em harmonia com um groove relaxado, quase hipnótico. São faixas que podem ser ouvidas olhando para uma parede de elevador em um hotel design na Europa ou contempladas degustando uma boa erva. Você escolhe. 
Perto De Mim, colaboração com David Mrakpor, denuncia a influência brasileira muito antes de ele desembarcar por aqui. 
Entre o deboche sofisticado de Kebab Sauce e a vibração urbana de London Callin’, Jo Mayasi prova que a globalização do jazz não é sobre perder a identidade, mas sobre ter a audácia de transformar cada batida em um tijolo na ponte entre o frio dos alpes e o fervo carioca.


Thiago Alves

Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical?
Jo Mayasi – Fui criado desde muito novo com música religiosa congolesa. Acostumado a ir à igreja. Mas também assistia muita televisão e rolava muito R&B.

EM – Começou tocando instrumento na igreja?
JM – Não toquei na igreja. Comecei sozinho em casa, tinha uns cinco anos. Uma bateria para criança. Mas aí fui para a parte francesa, porque nasci em Berna, na parte alemã. Parei por um período e só voltei a tocar de verdade aos 22 anos. 

EM – Você parou esse tempão e voltou do nada? 
JM – Sim. Fui para Dublin aprender mais sobre a língua inglesa e decidi que iria estudar bateria, voz e violão. Tinha uns 18 anos na época.  O professor me incentivou dizendo que eu tocava bem. Quando voltei para Suíça comecei profissionalmente aos 22 anos. 

EM – Há pouco tempo falei com o Marc Perrenoud sobre a cena local, mas ele está em Genebra. Gostaria que falasse sobre a cena de onde você mora, a Basiléia.
JM – Tem uma cena mais voltada às pessoas da escola, o Jazz Campus. Tem um bom nível. Todos tocam bem. Os professores são muito bons, o Jeff Ballard (baterista) e o Mark Turner (saxofonista). É uma escola famosa na Europa que recebe estudantes do mundo inteiro, Japão, Coréia, Estados Unidos.  

EM – A Suíça é um país que fica bem no meio do caminho, circundada por países germânicos e latinos. Isso já é uma vantagem, várias línguas oficiais, várias influências. Ao mesmo tempo, muitos dos ritmos atuais vêm da África. Como você situa a tua música nessa geografia?
JM – Sim, quatro línguas oficiais, alemão, francês, italiano e o romanche. Não tenho influência nem da música clássica. Talvez alguma harmonia, porque tudo vem daí. E nem da música africana. Não sinto isso.  Mas sou muito black music norte-americana e música brasileira.

Jo Mayasi e Diego Garbin

EM – E quando se interessou especificamente, pelo jazz, pela improvisação?
JM – É uma coisa bem recente. Comecei aos 24 anos. Porque já gostava de hip hop e neosoul, mas já entendendo que esses ritmos têm uma conexão com o jazz, que é a matriz. Estou estudando para entender os outros tipos de música que gosto de fazer. 

EM – Você é um ritmista de uma escola musical diferente da brasileira. Como vê a nossa profusão de ritmos e o desenvolvimento da percussão no Brasil?
JM – Estudo bastante os ritmos brasileiros com o professor Paulo Almeida que ensina lá na Suíça. Ele é daqui de São Paulo. Faço aulas há três anos e ele me ensinou quase tudo sobre ritmos brasileiros. E meu amigo Wagner Vasconcelos que esteve na minha cidade e me mostrou alguns ritmos no pandeiro, como o pagode. Deu para acostumar os ouvidos, mas não tocar. Quem me mostrou mesmo foi o Paulo. Os diferentes tipos de samba: samba enredo, samba de raiz, samba jazz. E outros ritmos como ijexá, maracatu, tambor de crioulo, maxixe, boi e outros.

EM – E você usa esses elementos na tua música?
JM – Não uso muito. Lá não há uma cena de música brasileira. Já aconteceu de tocar com alguns amigos brasileiros. Há três meses comecei a tocar bateria num coletivo de samba, o Samba do Tio Pé. O Paulo me disse que ia me botar no fogo (risos).

Caio Reigadas

EM – E como aconteceu essa turnê no Brasil e a reunião desse time? 
JM – O plano era tocar com a minha banda da Suíça, dois brasileiros e um porto riquenho, mas não conseguimos juntar o dinheiro para pagar a viagem. Decidi vir para encontrar alguns músicos no Rio e em São Paulo. Lá no Rio o meu amigo guitarrista, Pablo Barroso, me ajudou a reunir a banda. E aqui em São Paulo foi o Thiago Alves, contrabaixista. Nos encontramos na Basiléia e ele me ajudou a fechar alguns concertos. O Caio Reigadas (guitarra) foi indicação do Thiago. E o Diego Garbin (trompete) é grande amigo do Paulo e do Thiago.

EM – É a sua primeira vez no Brasil? Como está sendo?
JM – Sim, primeira vez. No Rio fui ao Samba do Trabalhador, Pagode da Garagem e Grupo Balacobaco. Aqui em São Paulo ouvi mais jazz brasileiro. Vi a Banda Mantiqueira e tive uma aula com o celso de Almeida.

terça-feira, 3 de março de 2026

Do Chile ao Brasil, Samuka Cartes faz jazz ao sul do mundo

 

Samuka Cartes (Jazzb - 02/2026)

Texto e fotos : Eugênio Martins Júnior

Samuel Cartes chegou ao Brasil com o objetivo de estudar música. Após passar um período na Bahia em contato com todos aqueles ritmos, o que lhe deu régua e compasso, foi para Tatuí estudar no famoso conservatório. 
Já em São Paulo, adotou o apelido dado pelos músicos brasileiros como nome artístico e hoje mora e apresenta a sua arte na cidade mais vibrante para a música da América Latina.
Há um ano lançou Ao Sul do Mundo, seu primeiro disco solo, reunindo um time com músicos de Cuba, Venezuela, Peru e Brasil.
Além de composições originais, o álbum apresenta algumas releituras, incluindo a catártica La Muerte Del Angel, de Astor Piazzolla; El Cigarrito, de Víctor Jara; O Futebol, de Chico Buarque; e Anu Preto do lendário baixista brasileiro Sizão Machado, que participa em diversas faixas do disco.
Das onze faixas, oito são instrumentais e três cantadas. Uma parceria póstuma com o poeta Paulo Leminski, a canção Um Passarinho Volta Pra Árvore, que contém um trecho do poema Dança da Chuva, do livro Toda Poesia. A canção é interpretada por Talitha Lessa, que também assina a composição ao lado de Paulo Leminski e Samuka. 
Ainda com Thalita, Samuka mantém um trabalho há alguns anos, o Duo Camaleão, que apresenta músicas brasileiras e latino-americanas.  
Na noite a qual a entrevista foi realizada, Samuka se apresentou no Jazzb com o Surtango agrupamento com músicos argentinos, Marcelo Ahumada (bandoneón) e Luiz Maria Lanzani (violão); brasileiros, Carolina Ribeiro (violino) e Carlos Ribeiro (contrabaixo).
“O grupo nasceu em 2022. Tem a formação do quinteto do Piazzolla. Sentimos a necessidade de uma formação aqui em São Paulo dedicada ao tango. O Luiz que é de Buenos Aires e o Marcelo que é de Córdoba”, explica Samuka. 


Eugênio Martins Júnior – Como foi a tua infância musical?
Samuka Cartes – Foi em Santiago, no Chile. Estudava em uma escola pública onde havia um projeto social que ensinava música às crianças aos sábados. Foi quando comecei a levar a sério a minha formação musical. Tinha alguns parentes que já tocavam músicas chilenas em festas populares e outros na igreja, mas ninguém era profissional. 
Fui o primeiro da minha família a levar a música como profissão. E foi uma história engraçada. Fiquei sabendo sobre esse projeto social em cima da hora de fazer a inscrição. Queria aprender violão porque eu já tocava. Mas só tinha vaga para o curso de teclado e o diretor me disse que era pegar ou largar. Então eu entrei com o objetivo de passar mais tarde para o violão, mas acabei me apaixonando pelas teclas e virei pianista.         

EM – Bacana. Um projeto que ensina música na escola pública? 
SC – Sim. E esse projeto já existia na Venezuela e o Chile imitou. Era um projeto de formação musical para crianças e jovens. No Chile se chamava Formação de Orquestras Infanto Juvenis. 

EM – De que ano a gente está falando?
SC – Estamos falando em 2003. Estava saindo do ensino fundamental e indo para o ensino médio. 

EM – E quando começou a vida profissional?
SC – O professor percebeu que eu tinha aptidão para o piano. Quem nos dava aula eram estagiários que estudavam na Universidade do Chile e que por sua vez também recebiam aulas de professores, esses sim, mestres. 
Ele me disse para preparar um bom repertório que ia me apresentar para a sua professora. Por sua vez, essa professora me aconselhou a fazer piano clássico com a sua mestra. Assim a história começou. 
No Chile você não estra direto na faculdade. Primeiro você faz quatro anos e conservatório e depois passa oito anos estudando na universidade. Mas quando entrei no conservatório já foi num nível avançado e me formei em piano clássico. Depois disso passei um tempinho na Alemanha. 

Marcelo Ahumada e Carlos Ribeiro (Jazb - 02/2026)

EM – E como foi a transição entre a música clássica e o Jazz?
SC – Eu tinha um gosto muito forte pela improvisação. Pelo jazz, mas principalmente pela música sul-americana. Conheci rudimentos da música cubana, a improvisação e a mistura com o jazz por meio de alguns maestros cubanos que moravam no Chile Me apaixonei por esse mundo. E fui um pouco malvisto pelo meio da música erudita, um sentimento de traição. E percebi que na Alemanha o foco não era esse. Frequentava os clubes de jazz, em Berlim tem o B-Flat, festivais, etc. E decidi que queria fazer jazz. Mas achava o jazz europeu um pouco frio, né? Sem aquele motor rítmico que a gente tem aqui na América Latina. Um colega chileno me perguntou se eu gostaria de vir ao Brasil, para o Conservatório de Tatuí. Eu já gostava muito da música do Hermeto Pascoal, do André Marques, seu pianista. Estudar a música brasileira e a improvisação me abriu um horizonte.

EM – Realmente a música brasileira é muito rica em todos os aspectos.
EM – O que hoje me pega muito é a canção brasileira. Com relação às letras, não há nada igual. Você pode ter lindas canções em espanhol ou em inglês, mas as brasileiras são foda. Você escuta o Milton Nascimento e percebe como é impressionante. 

EM – Com quantos anos você chegou no Brasil? 
SC – Cheguei com 21 anos e fui direto pra Salvador. Fiquei impressionado com a música baiana, afro-brasileira. E tive a sorte de, sem saber quem era, conhecer o maestro Letieres Leite. Me disseram que ia ter um ensaio e me perguntaram se eu gostaria de ir. Quando vi era o Letieres Leite.  Mas na época eu não sabia de sua importância.

Luiz Maria Lanzani (Jazzb - 02/2026)

EM – Como vê a cena musical de São Paulo?
SC – Como você falou, é a Meca do jazz no Brasil e na América do Sul. Não há outro lugar igual a São Paulo. Mesmo um lugar que é forte culturalmente como Buenos Aires não se compara a São Paulo. Aqui você tem tudo. 
Vejo a cena instrumental muito forte e a cada dia abre-se mais espaço para a música latino-americana. Me disseram que há anos também aconteceu isso. Mas hoje está chegando um pessoal novo. Está acontecendo uma troca muito linda e interessante entre os músicos brasileiros e latino-americanos.  

EM – E em Santiago, há uma cena de jazz?
SC – Tem uma cena interessante. Muitos musicistas, mas não existe a visão que se teve no passado no Brasil de misturar o jazz com a música nacional. Lá toca-se muito jazz norte-americano, estuda-se muito a escola do bebop, anos 40, mas misturar isso com os ritmos regionais é uma visão muito recente.

EM – O músico brasileiro tem essa facilidade em fundir os estilos. Fazemos isso há muito tempo, até antes da bossa nova. É uma liberdade artística, né? 
SC – Antes da ditadura o Chile estava fazendo muitas parcerias artísticas com o mundo todo. Victor Jara fez parcerias com músicos cubanos, fez parcerias na Rússia. Violeta Parra foi mostrar sua arte na França. (O Chile) Era aberto para o mundo. E quando chega a ditadura do Pinochet, em 1973, tudo isso acaba. Muitos desses artistas foram mortos. Na Universidade do Chile havia um enorme acervo de composições de ritmos latino-americanos. Ao mesmo tempo que o país sofre uma influência norte-americana muito grande.  
O que é legal aqui nas escolas de música é que você pode aprender sobre o bebop, mas também vai aprender sobre os ritmos brasileiros. E ainda temos a sorte te poder ver esses grandes maestros da música brasileira que estão vivos. E tenho visto ultimamente os brasileiros aprendendo linguagens sul-americanas. Tem músicos da latino-americanos dando aula por aqui. 

EM - Mais de 15 músicos de nacionalidades diversas participam desse disco: Cuba, Venezuela, Peru e diversos lugares do Brasil. A diversidade também vigora na escolha dos músicos. Gostaria que falasse sobre isso.
SC – Gosto muito de respeitar as linguagens dos gêneros musicais. Tive a sorte de gravar com o mestre Sizão Machado. O Eduardo Cubano é um músico importante. Eu precisava ter um pouquinho da América Latina, dessa identidade. O artista que entende a música do país dele toca com um tempero diferente. Gosto de manter isso. Por isso optei por essa diversidade. Geralmente os discos de jazz são de trio e de quarteto do começo ao fim, mas eu optei pela mistura, por aquela coisa colorida. Seja na canção ou no ritmo. Tenho uma parceria com o Marcelo Ahumada, que é argentino, em uma música do Astor Piazzolla. Ele me ensinou muito sobre a música da Argentina. Quando tocamos com o músico do país nós aprendemos o sotaque daquela música, aprendemos as gírias de cada lugar. 

EM – Bola Pa’ Frente é uma expressão brasileira muito usada em várias situações, por exemplo, para encerrar uma discussão sobre algum desentendimento: “Vamos nessa. Bola pra frente”. Gostaria que falasse sobre essa tua adaptação aqui no Brasil, com toda a complexidade do português e nossas expressões.
E pensei também que essa canção leva em conta o passado dos nossos países que sofreram com governos ditatoriais. Os países latino-americanos que sofreram com a repressão acertaram as contas com o passado melhor do que o Brasil lidou com isso. Paraguai, Uruguai, Argentina e Chile viraram essa página, menos o Brasil. Ou é uma viagem minha?  
SC – Essa canção nasceu no momento da pandemia, mas tem a ver sim. Inclusive temos trechos parecidos com os do Chico Buarque onde o Daniel canta: “Amanhã vai ser um novo dia”. 
Mas essa música nasce no contexto da pandemia. Havia acabado de perder amigos e aquele momento de incertezas, o tempo inteiro com notícias ruins. Me fechei no piano e pensei em colocar no papel as minhas ideias musicais e me dedicar aos estudos. Nasceu Bola Pa’ Frente. 
E vejo como uma mistura da rumba cubana, essa coisa alegre: “Vamos em frente que a vida segue”. O arranjo foi uma influência do Chick Corea, que escreve para os sopros. Havia acabado de escutar um dos últimos discos que ele gravou, o Antídoto (Antidote). Gostei muito dos arranjos para o sopro. A letra é uma parceria com o Daniel Barauna, cantor brasileiro que canta num grupo de música latina, o Quimbara.

Carolina Ribeiro (Jazzb 02/2026)

EM – O que significa morar ao sul do mundo em termos culturais e políticos? Qual é a história que você quer contar com esse disco?
SC – Ao Sul do Mundo tem o mesmo significado da imagem do mapa criada por aquele artista uruguaio. (Ele se refere ao manifesto político criticando o eurocentrismo do artista Joaquín Torres-Garcia, de 1943, que inverte o mapa colocando a América Latina no norte do planeta). É a ideia de que nós, como sul-americanos, conseguimos nos influenciar uns aos outros, construindo uma identidade própria. Mas o sul do mundo não é só a questão latino-americana. Também há a influência africana. Nós, como latino-americanos, recebemos as informações e conseguimos interpretar isso, e eu que sou do Chile, lá no final do planeta.  

EM - Você também gravou O Futebol, do Chico Buarque, que é uma levada samba jazz, só que a tua versão é instrumental, mas mantém o ritmo.  
SC – Aconteceu uma coisa engraçada. Essa música foi gravada por músicos que gostam muito de música brasileira, se dedicam a estudar a linguagem do samba jazz, mas que não são brasileiros. Temos o Jehison (Cruz Chávez) que é peruano, na bateria e o Alejandro Osorio, que é venezuelano, meu grande parceiro, tocou baixo. A letra fala sobre uma partida de futebol e eu sou apaixonado por futebol. No arranjo eu quis trazer isso, esse diálogo, essa interação que acontece no samba jazz. Se você escuta o Zimbo Trio, Sambrasa Trio, Trio Corrente eles interagem muito. Parece que estão brincando. É um diálogo nas células rítmicas do samba. E a letra fala sobre isso, “passa a bola”, vamos fazer o gol”, essa foi a ideia.   

EM – A seleção do Chile não se classificou para a copa do mundo de 2026. Agora ficou mais fácil torcer para o Brasil, né?
SC – (risos) Mas o Brasil também não está tão bom. O futebol mudou muito. Hoje é um futebol diferente do jogado nos anos 80 e 90. 

EM - E esse projeto que vai apresentar hoje?
SC – Muitos arranjos são meio “sagrados” ficam nas famílias do compositor, ou num círculo fechado, e não gostam que sejam difundidos. E muitas vezes tivemos que transcrever as gravações antigas. E são essas as versões que nós tocamos. Fazemos versões de tangos antigos, Osvaldo Pugliese, Astor Piazzolla, mas sempre respeitando a linguagem como eu te falei. Porque tem gente que traz muito do jazz, mas existe um sotaque que não deve se perder.


segunda-feira, 2 de março de 2026

John Paul Hammond, um dos grandes músicos brancos de blues, remanescente dos anos 60, morreu no último dia de fevereiro de 2026

 

Foto: Cezar Fernandes - Rio das Ostras 2009

Hammond sempre estará entre os nomes mais importantes da cena de jovens músicos brancos fãs de blues que apareceram nos anos 60.
O impressionante revival que trouxe à tona nomes como Mississippi John Hurt, Skip James, Son House, Rev. Gary Davis e outros, teve em Hammond uma de suas principais vozes. Ele interpretou temas dos anos 30, 40 e 50 como poucos. Tocava guitarra (acústica e elétrica) e gaita presa no pescoço e cantava como um verdadeiro bluesman.
Já nos anos 60 gravou seus principais discos: Big City Blues(1964), é considerado um dos primeiros discos de blues/rock; Country Blues (1964), que traz temas de seus ídolos, Robert Johnson, Blind Willie McTell, Sleepy John Estes, John Lee Hooker,  Willie Dixon e Jimmy Reed, um de suas maiores influências, que Hammond teve a sorte de ver o show no Apollo Theatre, em New York, sua cidade natal; So Many Roads (1965), um marco registrado pelo selo especializado Vanguard, que contou com as presenças de Robbie Robertson, Garth Hudson e Levon Helm, que mais tarde formariam The Band. Também participam Charlie Musselwhite e Paul Butterfield. E ainda I Can Tell (1967), pela Atlantic. Ao longo de sua carreira gravou mais de 20 discos importantes em qualquer discografia.
Filho de John Hammond Sr, um dos produtores mais importantes para o blues e jazz dos Estados Unidos, com seu nome ligado a Billie Holiday, Bob Dylan, Stevie Ray Vaughn, Hammond Jr não ligava para a fama. Fez sua trajetória longe da influência do pai. 
Em 1966, após sair da faculdade e voltar para a sua cidade, já estabelecido no Village, Hammond conheceu um jovem que procurava emprego como guitarrista e colocou-o na sua banda. Esse jovem era Jimi Hendrix. Eles se apresentavam no Cafe Au Go Go, quando Chas Chandler - baixista da banda The Animals – viu Hendrix pela primeira vez e o levou para a Inglaterra. O resto é história.
Nas redes sociais a comoção foi grande. Charlie Musselwhite, Shemekia Copeland, Duke Robillard, Bob Corritone, Bruce Katz (seu tecladista), Kim Wilson, Ronnie, além de muitos perfis dedicados ao blues lamentaram a passagem de John Paul Hammond.   
Até o momento a família se limitou a informar a morte de Hammond, mas não o que a causou. 
Tive a oportunidade de assistir a três shows desse grande artista. O primeiro em 1991, no Sesc Santos, e os outros dois no Rio das Ostras Jazz e Blues Festival, onde pude conversar com o cara. E entrevista está nesse blog.
Também foi em Rio das Ostras, no hotel onde ficávamos hospedados, antes da entrevista, registrei o encontro de Hammond com o Jefferson Gonçalves e o Kleber Dias após o café da manhã. Jefferson mostrou as gaitas com sua assinatura e o Klebão os instrumentos que fabrica. Lembro que tiraram o som de How Long ali, à queima roupa. 

Segue a entrevista:   
https://mannishblog.blogspot.com/2009/09/john-blues-explosion-hammond.html

Foto: Dayse Marchiori

Foto: Eugênio Martins Jr

Foto: Eugênio Martins Jr

Foto: Eugênio Martins Jr