quarta-feira, 18 de julho de 2018

Abaixo o blues de pet shop, viva o blues vira lata da Dog Joe


Tocar por amor a música sem ficar fazendo pose. Essa é a Dog Joe, banda santista/guarujaense que toca regularmente na noite da Baixada Santista há mais de 20 anos. Atualmente é formada por Digo Maransaldi (bateria), Eduardo Eloi (guitarra) e Rogério Duarte (baixo).
O primeiro EP, Blues Rock Hotel, trás letras malandras e pegada rock and roll como o próprio nome já diz, mostrando o background da Dog Joe é mesmo a rua.
Eduardo Elói integra ainda a banda Blues Power que, como o nome já diz, é o veículo perfeito para ele baixar o braço na sua guitarra.
Digo Maransaldi mantêm o projeto solo New Gafieira, cujo trabalho também está registrado em CD e Rogério Duarte toca com quem chamar, desde o grupo de hard rock Medusa Trio até banda de casamento.
Não é fácil viver de blues na região das casas noturnas que só abrem espaço para o pagodinho e o sertanejo baratos.
Mas não há reclamação. Cavam suas próprias oportunidades e já foram convidados para tocar com Lurrie Bell, Lazy Lester e abriram show para Jon McDonald com a Giba Byblos Band. Tocaram em festivais no Rio, São Paulo, Santos, Guarujá e estão em vias de gravar o próximo CD.
Abaixo o blues de pet shop, viva a Dog Joe.

Texto: Eugênio Martins Jr
Foto: Divulgação

Eugênio Martins Júnior – Quando você começou a tocar guitarra Dudu?
Eduardo Elói – Comecei no violão aos oito anos tocando MPB, Beatles, Os Incríveis. E também dedilhando o cavaquinho, fazendo chorinho que sempre gostei. Não me aprofundava em nada, tocava o que sabia. Quando veio o rock nacional aprendi a tocar guitarra lendo revistinha. O aprofundamento veio com o blues. Aprendi a escala para poder fazer os solos.

EM – Aprendeu fazendo.
EE – Isso. Um amigo me passou a escala blues e achei bacana. Ouvia e comecei a entender os tons, as escalas.

EM – Como o blues apareceu?
EE – Ouvia pouco blues, mas já achava bacana. Peguei uma fita com BB King, Eric Clapton, Buddy Guy, Jimi Hendrix, Johnny Winter e comecei a encaixar a escala blues naquilo ali. Fui entendendo como fazer ouvindo esses caras. Eu tocava lá em casa, no Santa Rosa, no Guarujá. O Sérgio, um amigo que morava na rua de trás tinha um quartinho onde a gente ensaiava.

EM – E você Digo? Você tem dois irmãos mais velhos que são músicos.
Dogo Maransaldi – Meu irmão Lone é nove anos mais velho e já fazia parte da banda Angel e minha mãe ouvia muito Erasmo (Carlos) e Beatles. Depois conheci Led Zeppelin, Deep Purple, Jimi Hendrix. Apareceu um violão em casa, mas meu irmão nunca mexeu nele. Minha ideia era ser guitarrista então comecei a tirar Beatles. Em 1986 tinha 12 anos de idade, meu irmão já fazia shows e foi nos ensaios que aprendi música de verdade. Tinha um guitarrista que era bom e já gostava de blues, o Olímpio. Lá eles tocavam Elvis, Led, Tim Maia. O Olimpio perguntou do que eu gostava e eu disse que queria tocar bateria e guitarra. Ele me mandou sentar na bateria e tocar. Enlouqueci e acabei ficando na bateria. Não tinha dinheiro, mas arrumei um kit velho, de um amigo lá de São Vicente. Tive umas aulas na escola do CLAM com um professor que ensinou meio mundo aqui em Santos, o Pelado (Charlie Brown Jr), o Artur (Vulcano) foram dois deles. Só depois fui estudar em São Paulo com o Duda Neves. Em 1988 montei uma banda com o Sandro, meu irmão do meio. A gente tocava Golpe de Estado, Deep Purple e ela existe até hoje, a Lei Seca. Passei ao violão e foi quando comecei a ouvir blues de verdade. Havia dois programas de blues, um na TV Manchete e outro na Cultura, onde vi o Celso Blues Boy, Blues Etílicos e André Christovam. O Druídas – banda santista de heavy metal, cujo guitarrista Mauro Hector é o principal nome de blues de Santos – estava começando a tocar blues. E comecei a comprar os discos de Muddy Waters, Howlin Wolf, Robert Johnson, na Tremendão Discos, loja que ficava ali na Av. Ana Costa.



EM - Você também tem uma banda de samba rock. Quando e como começou a traçar esses dois caminhos?
DM – Até os 16 anos era muito radical. Não ouvia música brasileira. Mas a faculdade de arquitetura mudou a minha vida. Lá comecei a ouvir Djavan, Tom Jobim, Secos e Molhados, Caetano, Gil, Cartola, Noel Rosa, Pixinguinha. Adoro blues, jazz, mas também adoro bossa nova. Sou dividido. Na bateria gosto de tocar rock, mas no violão gosto de sambalanço e samba jazz.

EM – E como vocês se encontraram?
DM – O Sérgio foi da Yankee, banda de heavy metal que era do meu irmão e acabou ficando mais amigo meu do que dele. Quando a minha banda que tocava na noite mandou o baixista embora chamamos o Sérgio. Na época tocamos no Torto, Bar do 3, Mesa Redonda, ganhamos dinheiro. Uma vez houve um show na faculdade de arquitetura e o Sérgio chegou com um amigo com cara de índio dizendo que era guitarrista e que ia dar uma canja, tocar Jimi Hendrix e Santana. A jam que ia durar duas músicas durou a noite inteira. Isso em 1993.

EM – Formaram uma banda?
DM – Os integrantes da banda que eu tocava disseram que não queriam mais tocar...

EM – Por quê? Ficaram no veneno por causa do Dudu?
DM – Sim, não queriam mais. O Sérgio e o Eduardo tinha uma data agendada em um bar lá do Guarujá. Me meti no meio e disse pra não colocar batera que eu ia. Não tinha muitas gigs de blues na Baixada naquela época e o bar lotou. Fizemos sem nenhum ensaio e a banda não tinha nem nome.



EM – E como faziam para agendar shows se não havia cena?
EE – Eu trabalhava em várias coisas durante o dia para me manter. No Guarujá havia uns agitos que juntavam a galera do rock, blues, progressivo, no Pit Chicken and Beer. Até o Charlie Brown tocou com a gente lá nessa época. Conseguimos juntar bastante gente seguindo, a banda Delta Blues Nasceu no Guarujá. Fazíamos luau, festa de tatuagem e bares. Uma vez fizemos o carnaval num quiosque na praia e no último dia os caras do samba vieram fazer um som com a gente. (risos)

EM – Essa primeira fase durou quanto tempo?
DM – Entre 1993 a 2001 nunca paramos de tocar. Mas a moda virou pro Rappa, Charlie Brown, reggae. E eu era músico de tocar na noite e as coisas foram apertando. 

EM – E você Dudu?
EE – Eu intercalava com a Profano, uma banda de som progressivo autoral de Vicente de Carvalho. Uma mistura de Minas Gerais com Emerson Lake & Palmer. (risos)
DM – Eu me cansei de ficar na bateria. Resolvi ir para o samba rock. Dar um tempo. Na verdade, o Dudu é o único que ficou no blues esse tempo todo. 

EM – Ele é o único blueseiro autêntico? (risos) 
E o Sérgio?
DM – O Dudu é guitarrista, né? O Sérgio hoje está em Natal e dá aulas de inglês. 

EM – E quando foi a retomada?
DM – Você foi um dos responsáveis por isso.

EM – Eu?!
DM – Por causa do Clube do Blues.  Me falaram que estava rolando umas gigs em Santos e você que organizava. 

EM – Nessa época você não estava com o projeto Digo e a New Gafieira?
DM – Brequei por causa da Dog Joe. Voltei agora aos poucos. E o Dudu tem a Blues Power.

EM – Espera que está confuso. Vamos voltar um pouco.
EE – No breque da Delta Blues em 2001 eu fundei a Caverna Blueseira com dois amigos que já seguiam os nossos shows. Depois fundei a Blues Power com caras de Guarujá. O Digo foi para o trabalho solo, a New Gafieira. Depois voltamos para Delta Blues Revival que virou Dog Joe.


EM – Certo. Vamos voltar ao Clube do Blues de Santos.
DM – O Sérgio voltou ao Guarujá e armou um show que chamamos de Delta Blues Revival. O pessoal voltou a prestigiar e lotamos o bar de novo. Mas foi apenas uma gig. Daí um amigo me falou que você estava fazendo o Clube do Blues e vi que estava agendada uma noite com o Blues Power. (risos) 

EM – Sim. O Dudu apareceu uma noite e deu canja e eu tive de chamar, né?
DM – Então, eu chamei o Rogério Duarte e nós voltamos como Delta Blues Revival pra tocar no Clube do Blues.

EM – Quando a gente começa a fazer alguma coisa, não imagina o que vem pela frente. Vocês subiram no palco com uma lenda que é o Lurrie Bell. Qual foi a impressão que ficou?
EE – Foi importante. A gente tocando com ele no Bourbon Street e depois no Anhangabaú, no dia da Consciência Negra. Pensei em fazer apenas a base até você dizer pra entrar com tudo quando ele der a deixa. Mas segui a pegada dele.
DM – O segundo show foi mais pesado. Tinha mais gente e palcão. No primeiro a gente não teve ensaio. Só o vimos na hora de subir ao palco no Bourbon. E ele não fala muito, né? (risos) O show do Bourbon foi mais tenso, mas o outro foi mais solto. Ele mesmo estava mais solto. E tivemos a participação do Big Chico.

EM – Conta a história do disco Blues Rock Hotel.
DM – Havíamos gravado demos na época da Delta Blues, mas achava que devíamos gravar em CD. Tínhamos a Lady, Vida Mansa e a própria Delta Blues. Somos um bando de duros e resolvemos gravar um EP. Eu fiz a capa e o Rogério agitou com um amigo que grava. No fim, gravamos seis músicas. Mudamos o nome da banda para não gerar confusão. Delta Blues remete ao blues rural e na época que fundamos a banda não pensamos nisso. A gente até toca um pouco, mas não é normal. Dog Joe é vira lata. E a gente é isso. A gente vive de tênis velho e calça velha, tocando de bar em bar. O Ayrton Boka mixou por um valor bom. Tivemos ajuda financeira do Xandão, gaitista amador aqui de Santos e de um amigo do Dudu lá de Uberlândia que colocou uma grana. A produção foi nossa e gravamos ao vivo no estúdio. Teve overdub só em voz e guitarra, mas pouca coisa.




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